« C L A R I C E »
Eu costumo me dar bem com idosos, mas essa velha…
Como era possível uma senhora tão… tão… tão bruxa velha conseguir dar à luz ao ser responsável por gerar a maior obra de arte viva existente nesse planeta Terra?! COMO?!
Hélène tinha a postura de uma Touchon, a elegância de uma Touchon, a auto confiança de uma Touchon, mas tudo isso era acompanhado de uma soberba que até então desconhecia.
Em cinco minutos que habitamos o mesmo espaço, Hélène criticou minha roupa, insultou o meu relacionamento, desrespeitou minha nacionalidade, invalidou meus sentimentos e desprezou a minha mulher.
Eu vou poupar vocês de terem que ler em francês e mostrar mais ou menos como eu acompanhei toda essa cena.
– Você sempre anda com as roupas sujas desse jeito? – E sim, Hélène se referia aos respingos de tinta em minha camisa de lã de gola alta. Não passava de pequenas gotas quase imperceptíveis, mas a cor preta do tecido não ajudava muito a disfarçar.
– Hélène, não seja desagradável – respondeu Margot. Considerando que a minha sogra tem um tom de voz totalmente neutro para tudo, perceber desprezo em seu tom de voz foi algo que me surpreendeu. – Clarice estava pintando no Musée d’Orsay. Ela é uma artista muito talentosa…
– Artista? Oui, oui… entendo agora – Hélène me encarou suspeita. Eu quis me esconder atrás da maman e evitar esse olhar, mas eu que não iria arregar para essa velha. – Você é mais esperta do que parece, mocinha… está com a minha neta agora, mas seu verdadeiro interesse corre um pouco acima na árvore genealógica, não é?
É o que? Eu não entendi… como assim?
– Não, Hélène. Clarice não é como certas pessoas que a senhora adora.
Encarei a Val confusa. Eu tenho impressão que ela está falando do traste do Pedro, mas o que a velha bruaca quis dizer com “seu verdadeiro interesse corre um pouco acima da árvore genealógica”? Pedro queria a Margot, é isso? Mas gente… isso não faz sentindo algum… espera aí, ela acha que eu tenho interesse na Margot?!
Essa velha está doidona! Eu não quero nada com a minha sogra. Ela é muito bonita e conservada, provavelmente deve arrasar corações por aí se estivesse interessada. E sem querer justificar, se realmente Pedro tinha algum crush nela seria até compreensível. Mas sem querer ofender ou diminuir sua beleza e tals, mas… já viu a filha dessa mulher? Eu seria louca, completamente insana e fora dos meus juízos mentais se ousasse querer trocar a minha Val – a Val! – por qualquer outra mulher por aí, até mesmo sua mãe.
Te juro, ainda está para nascer alguém que seja mais linda e perfeita que a Val. E quando nascer será filha dela…
– Clarice e eu nos amamos de verdade. É melhor aceitar a realidade para evitar futuras decepções. – Val respondeu firme, porém com sua típica classe e elegância ou talvez só estivesse falando em francês, sei lá.
– Cresce a sua rebeldia, mas continua ingênua como sempre. Você não é muito diferente da sua mãe, – Hélène lançou um olhar superior que subtraiu uns três centímetros meus. – Esse não é o local apropriado para esse assunto. Temos convidados nos aguardando no salão para falar com você, é melhor voltarmos. Você pode chamar o motorista para levar a sua… “pequena amiga”.
Eu quis usar todo meu cérebro para xingar essa mulher na língua dela, mas fui interrompida pela resposta da Val que veio seca e afiada como faca.
– Eles podem entrar em contato com a minha secretária e tentar uma agenda para uma conversa. Agora eu não estou disponível, – Hélène encarou a Val como se não acreditasse na sua ousadia. – Eu estou indo embora com a minha “pequena amiga”.
Se ela me chamar de “petite amie” outra vez eu vou ficar sinceramente brava. Eu sei que sou desprovida de altura e outras coisas mais, mas “amie”? Eu sou mais que uma amiga, não?
– Eu não vou fazê-la ficar, – Margot respondeu ao olhar de sua mãe. – Valkyrie tem que levar Clara para casa antes que fique resfriada.
– Você não irá deixar de fechar negócios por causa de um possível resfriado…
– Oui. Eu vou. E já estou de saída.
Eu entrei nessa conversa confusa e saí mais ainda. E “pequena amiga”? Que baralho é esse?
O chauffeur da Margot estava a aguardando no hotel, por essa razão não tivemos que esperar ninguém para irmos embora. Aparentemente ninguém por aqui pede uma corrida no aplicativo, apenas motoristas particulares.
– Me desculpa pela Hélène, – Val quebrou o silêncio e suspirou visivelmente cansada. – Descobri que a minha grand-mère ainda tem expectativas que eu me case com o Pedro Henrique e planejava isso.
Só para ter certeza de que estava entendendo certo. – Planejando isso o que?
– O casamento.
– Com o Pedro?
– Oui…
– Mas… vocês não estão juntos… há anos.
– Oui, je sais (sim, eu sei).
– E você vai casar com ele?
Val me encarou confusa com o cenho erguido. – Pardon?! Sûrement pas ! (Perdão?! Definitivamente não!). Por que ainda me perguntou isso?!
– Eu não sei, até minutos atrás estava dizendo que sou só sua amiga.
– Minha amiga? – Val perguntou confusa.
– Sim, Valquíria. Sua amiga.
Desviei o olhar para a janela para não ficar olhando a cara de interrogação da Val. Eu estava sim muito brava e já não conseguia conter o que sentia.
– Eu não faço ideia do que está falando, ma vie.
– Não me chame de “ma vie”. Eu estou brava com você.
– Você não pode ficar brava comigo. Em momento algum disse que era só uma amiga.
– Não disse? E pequena amiga é o que, Valquíria?
– Pequena amiga? – Val perguntou confusa e estava começando a me irritar com o fato da minha “pequena amiga” ser sonsa também. – Eu disse que era a minha pequen… oh… está faladno de “petite amie”?
– Oui.
– Significa “namorada”.
Foi a minha vez de a olhar confusa e de cenho erguido. – Como é?
– Petite amie significa namorada em francês.
– E não é copine?
– Também.
– Oooh… eu não sabia. Então nada de “pequena amiga”, você realmente me apresentou como a sua namorada para a bruaca velha da sua avó?
Quando me dei conta já era tarde, eu realmente disse “bruaca velha” em voz alta para a Val ouvir.
– Desculpa, foi sem querer…
Esperei uma bronca seguido de alguma lição sobre modos e recebi uma risada espontânea.
– Bruaca velha? Okay… d’accord… combina bem com ela, mas eu sugiro que não vocalize isso por perto dela. Hélène entende português o suficiente para encher o saco.
Apesar de querer, não está nos meus planos xingar essa velha na cara dela. Mas que seria bom, seria.
O carro parou em frente ao museu D’Orsay para a minha surpresa. O que ainda estávamos fazendo aqui? Por mais que esse lugar seja muito legal, minha cabeça dói e meus pulmões estavam pesados pedindo arrego.
– O que vamos fazer aqui?
– Buscar o seu quadro, ora. Achou mesmo que iria abrir mão dele?
Sorri amarelo. – Então… eu vendi.
– Pardon, comment ça va? (Perdão, como é que é?)
– Eu vendi o quadro… tinha acabado de perceber que roubaram o meu celular e também quero te devolver o dinheiro da oficina. Eu já estou te devendo demais.
– Você… vendeu o quadro?!
– Sim?
– Você não fez isso, Clarice, – Val balançou a cabeça incrédula. – Eu sequer tive chances de ver a sua obra… e você vendeu… pelo menos sabe quem comprou?
– Sim, eu tenho o cartão de contato dele…
– Então liga para ele, – Val me cortou. – Eu quero seu quadro de volta. Eu pago o dobro, o triplo, o que ele quiser. Mas eu quero o seu quadro.
– Você não vai fazer isso, Valquíria. Eu posso pintar outro se quiser, mas você não vai tentar comprar da mão do cara!
– Mas era o seu primeiro quadro em exposição.
– Exposição amadora que durou apenas alguns minutos porque eu vim embora mais cedo. Eu posso até mandar um e-mail para o cara lá deixar você ver o quadro pessoalmente, mas se você tentar comprar eu vou ficar muito brava!
Val revirou os olhos brava e disse ao motorista para nos levar para casa. Não sabia se estava mais irritada com o fato de ter a proibido de recomprar o quadro, ou por ter vendido ele, ou por não ter sido ela a compradora para início de conversa. Só sei que a minha mulher não estava nada feliz.
Sua revolta comigo só não durou mais porque eu espirrei e acabei ativando seu modo “maman preocupada”.
– Seu peito está chiando, – Val comentou preocupada.
A encarei confusa, sem entender nada. Demorou um pouquinho para eu ouvir o sininho em meu peito… a audição dessa mulher é sinistra.
– Chegando em casa você vai tomar uma ducha quente, vestir seu pijama e ir para cama. Você já está ficando resfriada e precisamos fazer algo para não piorar.
Eu jamais vou me opor a um pedido desse. – Uma bebida quente também ajuda, – joguei a indireta.
– Sim, eu vou preparar um chá de limão, gengibre e mel para você.
A pior parte é que não dá para saber se a Val respondeu isso de propósito ou se só foi sonsa e não entendeu qual a bebida que eu realmente quero.
Até quando ela irá me colocar em sofrimento distante dos meus Valquírios? Que mundo triste e cruel!
Em casa, eu fiz exatamente como a Val pediu. Banho quente e pijamas ainda mais quentes, em seguida me enfiei de baixo das cobertas e foi como se estivesse deitada no céu. Até na França a cama da minha mulher é a coisa mais confortável que existe no mundo. Não sei se é pelo colchão ou pelas roupas de cama que usa, só sei que ela me viciou mal, muito mal!
Eu fiquei esse tempo todo sem espirrar, no exato momento que isso acontece a Val entra no quarto e me lança um olhar preocupado.
– Eu estou bem, – disse com a voz já um pouco fanha.
– Estou vendo. Trouxe um antigripal para você tomar. Não quero que passe o seu feriado doente.
Tomei as duas pílulas que ela me trouxe a observando se sentar na lateral da cama. Meu amorzinho estava um tanto estranha e eu conseguia ver em seus movimentos. – Você está bem?
– Non, je n’ai pas (não, não estou) – Val foi sincera. – Eu estou chateada para não dizer outras coisas.
– Por causa do quadro? – Perguntei genuinamente preocupada.
– Non, ma vie. Embora eu preferiria que trouxesse o quadro para casa, também estou orgulhosa que tenha conseguido seu primeiro cliente… isso mostra que é bem capaz de viver da sua arte.
Não acho que será fácil encontrar outras pessoas querendo comprar um quadro meu para fazer disso minha principal renda. Bem… isso claro se eu tirar a Valquíria da lista de cliente. Se depender dela, todos os meus quadros da vida já estarão vendidos, mas eu não quero que a minha namorada compre qualquer coisa que eu pintar. Embora seja fofo, eu me sentiria uma fracassada total.
– O que está te deixando chateada? Você quer falar sobre?
– É a minha mamie. Eu estou ciente de que nada que eu fizer será o suficiente para a agradar. Eu passei quase a minha vida inteira tentando aprovação dela… e perceber que a única vez que consegui foi por um relacionamento extremamente tóxico e abusivo… foi um tapa na cara.
– Ela realmente gosta tanto assim do traste?
– Sim, os dois se dão muito bem… quer dizer, eles passaram a se dar muito bem depois um tempo. No início a minha avó não gostou muito não. Ela queria que eu me casasse com algum francês.
– E qual o problema dela com brasileiros?
– Nenhum, ela só achava que se eu casasse com um francês significava que iria querer morar por cá. Mas quando descobriu que o Pedro tinha intenções de vir para Paris, ela passou o ver com outros olhos.
A observei sem entender. – Por que a sua avó quer que more aqui se ela não aprova nada que faz? Não faz sentido.
– É uma longa história, você não vai querer ouvir.
– Quem disse? Eu adoro te ouvir falar, docinho. Se quiser ler toda a constituição federal de frente e verso eu vou ouvir feliz por ser você lendo.
Val balançou a cabeça tentando conter o sorrisinho apaixonado. – Você é muito boba, sabia? Tudo bem, eu te conto, mas antes preciso resolver nossa janta.
– Vai cozinhar agora? Não podemos sei lá, pedir uma pizza? Tem pizza em Paris?
– Sim, tem pizza em Paris. E não, eu não vou cozinhar. Eu vou pedir para fazerem uma sopinha de batata que irá adorar.
– Hmmm… tem bacon?
– Pode ter, se quiser.
Minha resposta foi um sorriso.
Eu nunca tomei sopa de batata, mas eu aaaaaaamo batata. Meu amorzinho faz um purê de batata tão bom! Com arroz e franguinho empanado então… só de pensar me deixa salivando!
Que saudades de comer a comidinha do meu docinho!
Val trocou algumas mensagens e uns áudios dando instruções de como fazer algum prato lá. Eu inocente achei que fosse abrir algum aplicativo e pedir nossa janta e só me dei conta depois que o seu “resolver nossa janta” significava “falar com meu chef o que eu quero que faça”.
Eu sei que a Léa, a moça que me trouxe a janta da última vez, mora aqui nesse mesmo prédio… será que a Val estava pedindo a ela? Antes de conhecer a Val eu achava que as casas dos ricos ficassem sempre cheias de empregados para todos os cantos, mas assim como no apartamento no Brasil, por aqui o apartamento da Val está sempre vazio e ao mesmo tempo sempre tem gente por perto.
E não, não tem uma área de empregados onde todos se escondem. Eu sei disso porque eu nunca vi e porque a Val como arquiteta se recusa a fazer projetos com “quarto dos empregados”.
– Você pediu a Léa para cozinhar? – Perguntei assim que a Val deixou o celular de lado.
Val me encarou quase fuzilando com o olhar. – Você quer que a Léa faça a sua janta?
Alerta, zona de perigo!
– Não. Não… – Val me interrompeu.
– Então por que está perguntando quem irá cozinhar?
– É que… eu achei… eu achei que fosse pedir… pedir em um restaurante, mas…, mas você estava falando com alguém… parecia falar com algum chef, sei lá.
Senti um enorme alívio no coração ao ver o olhar desconfiado de Val se desfazer como quem aceitasse a minha resposta.
É sério, gente. Acho que a minha namorada teria mais ciúmes de eu elogiar a comida de outra mulher do que um abraço por exemplo. Às vezes tenho impressão que posso criticar algum dos seus projetos, mas se falar do seu tempero irá direto para o coração.
– Eu estava falando com um dos chefs do L’Orée. A Léa poderia até fazer a sopa, mas iria levar mais tempo.
– Esse é o restaurante que nós fomos ontem, né?
– Oui.
– E o chef não fica bravo com você dando ordens nele?
– Non, é o trabalho dele.
Val respondeu como se fosse algo corriqueiro e comum de se fazer, mas eu sinceramente não acho normal você dar pitaco no prato de um chef. Porém não dá para dizer se; 1. Ela está sendo uma Touchon e pode fazer isso. 2. Ela tem intimidade com o chef. 3. Ela genuinamente acredita que está tudo certo e é isso.
Quanto a terceira opção, antes de saber do seu autismo, eu realmente acreditava que seus comentários brutalmente sinceros eram por maldade. Ou que outros comportamentos no escritório também fossem na mesma intenção. Hoje eu sei que a Valquíria apesar de muito inteligente, não tem a mesma sagacidade para entender as coisas no ar ou tom de voz que dá a entender outro sentido na frase e por isso acaba sendo ingênua ou sonsa.
Aí você vê uma mulher maravilhosa como ela se envolvendo – e quase se casando – com alguém como o Pedro e se pergunta “como?!”, é só se lembrar desse pequeno detalhe. Embora eu sempre considere o autismo da Val no meu dia-a-dia, eu raramente lembro que ela tem autismo, porém, eu entendo muito bem como usaram isso para a manipular. E sinceramente? É muito fácil… se eu tivesse algum interesse e intenção, eu poderia facilmente fazer o mesmo que o Pedro fazia e o que Hélène parece fazer até hoje…, mas eu a amo de verdade, a respeito e admiro muito. Então não, eu nunca na minha vida vou me aproveitar do seu autismo para tirar proveito dela.
– O que tanto está pensando? – Val interrompeu meus devaneios.
– Nada… e aí, vai me contar qual é a da sua vó querendo que se mude para cá?
– Você está mesmo curiosa, né?
– Sim. Sim. Deita aqui comigo!
Val se enfiou de baixo da coberta comigo e me abraçou. Fui recebida e acolhida pelos meus Valquírios que estavam visivelmente precisando da minha atenção, mas o castigo cruel e doloroso os tiraram de mim.
– A resposta é mais simples do que parece, – ela começou depois que nos aconchegamos na cama. – Minha avó quer que eu me mude por dinheiro.
– Como assim se mudar por dinheiro? Ela já não é rica?
– Não tanto quanto antes… depois que o meu avô morreu, a construtora dele nunca mais foi a mesma. Está estagnada no tempo e apenas faz o suficiente para se manter aberta, ou às vezes nem isso.
– Em outras palavras, está falindo?
– Ainda não chegou a esse extremo, o escritório europeu pode fechar o balanço negativo em alguns anos, mas o prejuízo é coberto pelas outras filiais e aí fica quase elas por elas. Não estão falindo, mas os Touchon já tiveram dias melhores e basicamente vivem da glória do passado.
Ouvir sobre a real situação dos negócios da família da Val me causou certa estranheza.
É fato que eu não estou nada interessada em estar por dentro dos negócios da família da Val, mas me preocupada saber que estão indo de mal a pior e isso poderá afetar a sua vida. Não me levem a mal, nem nada, mas convenhamos… a Val saberia ser pobre ou ter uma vida mediana? Ela tem a skin de pobre dela usando chinelo havaiana, shorts curtos e cropped… passeando por Ipanema ou o Leblon. Então não conta muito.
Ela sequer conhece as quebradas de São Paulo… raramente vai no centro onde tem uma concentração de pobres e moradores de rua. Sua vida está lá no Brooklin, Faria Lima, Chácara Santo Antônio e insira outros bairros ricos de São Paulo, aqueles que tem ruas largas e árvores por todo lado.
O que eu quero dizer é: se os Touchon falirem, a minha namorada irá sofrer. E sofrer muito…
A Val definitivamente não deveria ter comprado passagem de primeira classe para nós duas. Business nem deve ser tão ruim quanto a classe animal e é consideravelmente mais barato que a primeira.
Meu deus… ela ainda gastou uma fortuna com a oficina!!!
Ainda bem que vendi o quadro e posso devolver esse dinheiro. Pelo menos esse prejuízo dá para a poupar.
– Eu acho que entendi os planos da sua avó. Você morando em Paris pode trabalhar para a sua família e com seu prestígio atrair novos clientes, correto?
– Exatamente. Apesar do Pritzker ser só mais uma medalha pendurada na minha parede, para muitas pessoas isso tem um peso muito grande e é justamente isso que a Hélène precisa.
– Se eu não tivesse conhecido a sua avó, iria perguntar porque não vem para cá trabalhar para ela. Você não teria que ouvir nenhum Alfredo te enchendo saco ou lidar com o Jorge ou o Martin no escritório. E os negócios da sua família iria voltar a crescer. Mas ela deve ser insuportável de lidar…
– Deve não, ela é. Pior que eu.
– Então deve ser insuportável mesmo… sem ofensas.
Val revirou os olhos. – Eu sei, eu sei… sou chata, exigente, brava e blá-blá-blá…, mas a minha avó é pior. Acredite.
– Não quero nem ver… você não tem medo da sua família falir e você virar uma pobre ferrada como eu?
– A minha família são os meus pais e os dois estão bem, não precisam de mim. Na verdade, há dois anos que as coisas estão indo cada vez melhor para os dois desde que começaram a comercializar as garrafas de champagne deles. Esse é um dos motivos pelo qual a Hélène quer voltar a lucrar, ela não aceita que a Margot agora tem mais dinheiro que ela.
– Ué, mas não é mãe e filha?
– A Hélène deserdou a Margot.
– Oxe, por que?
– Porque a Margot se recusou a desistir da gravidez e do casamento.
– Mas você é filha única…
– Exatamente.
– E você ainda quer aprovação de uma mulher que não queria nem que você nascesse e ainda deserdou a sua mãe por te querer? Olha, vou ser obrigada a te dar umas palmadas! Por que vocês ainda falam com ela?
Val riu e me deu um beijo na testa. – A minha mãe ficou tempo sem se dar bem com a minha avó. E por mais que no primeiro momento a reação da Hélène foi querer acabar com o relacionamento dos dois e comigo, ela foi até o Brasil para ir ao casamento e depois fez questão que meus pais se casassem por aqui também. Eu nasci depois disso.
– Sua vó é bipolar ou algo assim?
– Não temos o diagnóstico.
Mas tem a opinião, pelo visto…
– E ela não voltou atrás na parte de deserdar?
– A Hélène é orgulhosa demais para voltar atrás na sua decisão e a Margot seria orgulhosa demais para aceitar. Então ficou por isso mesmo. Meu avô deu a fazenda de Épernay de presente de casamento para minha mãe como forma de “compensar” por ter perdido toda a herança. Ele nunca concordou com a Hélène, mas mesmo sendo o verdadeiro dono de tudo, foi incapaz de ir contra a esposa. E por vários anos minha mãe sustentou meu pai e eu com o salário de engenheira.
– Isso significa que você não tem direito a nada também. É por isso que você trabalha no Brasil e não aqui?
– Non. Eu já trabalhei no escritório em Paris. Eu ganhei meu Pritzker trabalhando lá. Fui diretora por alguns anos também. Pela primeira vez desde que a minha mãe saiu de lá, a construtora voltou a crescer na minha gestão. Eu dedicava toda a minha vida para aquele inferno.
– E saiu por que?
– Hélène decidiu que iria presentear o escritório de Paris a sua neta favorita e ela passou a assumir a direção. Em outras palavras, me rebaixaram da minha posição para dar espaço para a Juliette assumir e nem fodendo que eu a teria como a minha chefe. Eu me revoltei e fui para o Brasil. Foi a melhor coisa que me aconteceu!
– E como é trabalhar na mesma empresa que a sua mãe? Não é estranho?
– Até você aparecer na minha vida, minha mãe interferiu pouquíssimas vezes no meu trabalho. Mas aí você apareceu, causou uma confusão, fez a minha mãe sair da sua vida perfeita na fazenda para aparecer em São Paulo. Se não bastasse isso, me tirou do meu trabalho ficando internada no hospital e a Margot que deixou a arquitetura antes mesmo de eu nascer, passou a cuidar dos meus projetos temporariamente. Então, respondendo a sua pergunta, está sendo bem estranho lidar com a minha mãe no trabalho mesmo que agora distante.
Sorri amarelo ouvindo o relato. – Foi mal por isso aí…
– Está tudo bem, ma vie. Eu estou feliz que esteja fora do hospital e que meus pais gostem tanto de você.
– Seus pais são muito legais. E eu estou empolgada para conhecer a fazenda deles e ver de pertinho onde cresceu!
– Não é como a fazenda no Rio de Janeiro. Não tem nada de divertido ou bichinhos… tem uns cavalos, mas de resto é só uva… não nessa época do ano. As videiras não tem fruto essa época do ano.
– A gente vai plantar uva?
– Non… nós não vamos plantar uva, ma vie. Podemos plantar outra coisa se quiser, mas eu prefiro que fique bem longe das videiras do meu pai.
– Por que?
– Porque eu mandei e você vai obedecer. Meu pai restaurou o solo da fazenda para voltar com o plantio e todo o trabalho na vinícola é manual, artesanal, feito com muita delicadeza e cuidado durante todo o processo. Tudo meticulosamente calculado para manter as propriedades da uva. Você não vai se aventurar pelas videiras e correr o risco de provocar qualquer alteração, por menor que seja. Estamos entendidas?
– Sim, maman.
– É sério, petite. Você pode causar uma confusão no meu trabalho e mudar toda a minha rotina, mas não pode fazer isso na vinícola dos meus pais, d’accord? As videiras são sagradas. O solo é sagrado. Nada de levantar de madrugada e sair andando como fez no Rio de Janeiro. Okay?
– Tá bom, maman. Eu não vou mexer nas plantinhas e nem no solo das plantinhas.
– Você não vai querer ver seu Fernando bravo.
Deus me livre ver o meu sogrinho bravo. Daquele tamanhão, deve ser muito, muito assustador…, mais do que a maman!
– Você está mais para lá do que para cá, não é meu bebê? – A maman passou a mão no meu cabelo. – Estou com saudades da minha petite. Onde está o mon bébé manhoso? Os tetês estão ficando doloridos de tão cheios. Está ficando na hora do neném mamar… Mas certo neném está de castigo!
Qual era a intensão da maman falando assim comigo, eu não sei. Mas estava dando certo… muito certo.
– Maman…
– Eu sei o que você quer, mas você está de castigo.
– Mas eu tô dodói… num faz isso com eu.
– Prometa que não irá morder o tetê outra vez.
– Prometo de dedidnho.
– Ótimo. Se morder outra vez irá ficar de castigo de novo mesmo doente, entendido?
– Sim, maman.
A maman me observou por um momento e então me puxou para mais perto em seus braços. – Vem cá, mon bébé. A maman vai cuidar de você, – ela me ofereceu o tetê. – Pode escorregar sem medo, estou aqui para te segurar.
O leitinho da maman saiu logo na primeira sugada e senti todo meu corpo relaxar ao sentir o gosto doce e suave em minha boca. Estava com tantas saudades do meu tetê que parecia esfomeada devorando cada gotinha.
– Vai com calma, bébé. Desse jeito vai engasgar ou acabar se sufocando.
Meu nariz já tinha desistido do trabalho há muito tempo. Respirar pela boca e mamar ao mesmo tempo era uma missão difícil, mas eu estava disposta a ir até o fim. Tudo pelo meu leite e os meus Valquírios.
– Je t’aime, ma petite – a maman sussurrou contra a minha pele.
– Te amo também, maman – respondi sem me soltar do tetê.
Fechei os olhinhos me entregando ao conforto e aconchego que era os braços da maman e seu tetê. Não queria dormir, depois de tanto tempo longe dos meus amores, a última coisa que iria fazer era dormir sem antes tomar até a última gota. Tinha que aproveitar cada segundo e era exatamente o que faria.
« V A L K Y R I E »
Clarice dormiu.
Babando contra o meu seio e com dificuldades para respirar, ela caiu em um sono profundo e pesado. Provavelmente resultado do efeito do remédio que causa certa sonolência ou ao fato de estar lutando contra um resfriado e perdendo aos poucos.
Quando encontrei a minha pequena na friagem, distraída com o ensaio de neve, eu tive certeza que ficaria doente. Sua saúde está muito melhor do que era há poucos meses, mas quem queríamos enganar? Nunca sua imunidade seria capaz de resistir uma temperatura dessas. Seus pulmões menos ainda. O chiado constante estava aí para provar isso.
A minha pequena, por mais dorminhoca que fosse, nunca apagou antes de mamar tudo. Essa é a prova de que ela está dodói.
Demorou um pouco para conseguir sair da cama sem resmungos e choramingos tentando me impedir de me mover. Quando consegui, logo tratei de lhe vestir uma fralda e ir ordenhar o leite para me livrar do desconforto que era estar cheia, quase vazando.
O castigo da pequena foi merecido, mas em contrapartida eu era punida junto. Não dá mais para ficar sem amamentar a pequena sem sofrer com isso. Por dores e por saudades. E ordenhar não causa o mesmo efeito. É uma excelente solução provisória, mas seu efeito é curto. O ideal e mais duradouro sempre será deixar que a bébé resolva isso.
Quando decidi induzir a lactação não esperava que fosse responder aos remédios tão rapidamente. Ou que chegaria ao ponto de hiperlactar e o excesso de leite fosse me causar problemas. Na minha rápida consulta com o Dr. Rene, soube que isso era normal para algumas mulheres, mas infelizmente não tinha muito que ser feito a não ser esperar o processo natural das coisas, ou seja, meu corpo se adaptar a demanda…, mas como eu explico ao médico a demanda da dona Clarice?
Essa informação guardei comigo e agora sigo de fé.
Assim que o jantar chegou exatamente como havia pedido, fui despertar a minha pequena da sua soneca. Ouvir o chiado do seu pulmão estava me deixando preocupadíssima. Eu já tinha reparado que desde que chegamos na França, Clarice passou a respirar diferente. Nada alarmante, apenas uma mudança que talvez nem ela mesma percebesse, mas eu notei. O ritmo mais curto, o esforço maior, às vezes usando a boca ao invés do nariz, até o som. Talvez essa seja apenas eu sendo paranoica… bom, pelo menos estava sendo, agora depois desse banho de friagem, a paranoia virou realidade.
– Bebê, acorda. O papa chegou – acariciei seus cabelos delicadamente e logo de cara notei sua pele mais quente. – Vem comer, ma petite.
Clarice resmungou e choramingou sem querer acordar.
– Meu amor, você tem que comer.
– Só mais cinco minutinhos, maman…
– Só tem tetê quem come o jantar.
Em um passe de mágica, Clarice abriu os olhos sonolenta e imediatamente pegou a minha mão para fazer sombra em seu rosto.
– Cabeça… dodói.
– E eu acho que você está febril – senti sua temperatura com a outra mão apenas para ter certeza. – Será que esse neném vai precisar levar injeção no bumbum para melhorar?
– Num quero picadinha no bumbum.
Clarice fez bico e eu me derreti todinha com a cena. Sem resistir, me aproximei dela para dar um beijo nesse biquinho e em todo o seu rosto.
– Está bem, meu amorzinho. A maman não vai deixar darem picadinha nesse neném. Você é a coisinha mais fofa e linda da minha vida. Eu te amo! – Continuei enchendo seu rosto e pescoço de beijinhos lhe causando algumas gargalhadas.
– Para, mama! Faz cosquinha!
A risada da Clara foi interrompida por uma tosse carregadíssima que me fez paralisar de preocupação. A tosse foi tão intensa que ela levantou o torso para não ficar deitada. Eu ainda dei alguns tapinhas de leve em suas costas para a ajudar.
Essa garota está adoecendo aos poucos… isso que dá ter imunidade baixa. Mas eu vou resolver isso. Logo, logo, essa pequena terá saúde de aço como a maman dela.
– Aí, doeu… tá dodói, maman – disse se referindo ao peito.
– Eu sei, meu amor. Nós vamos tratar, d’accord? Pode ficar na cama, eu vou trazer o seu jantar aqui.
A ideia de comer na cama me causa arrepios na alma tamanha agonia, mas para essa ocasião abriria exceção. Clara precisava de cama e coberta no momento. Nada de friagem, nem mesmo para ir para a sala de jantar.
Voltei para o quarto e a pequena estava sentada na cama. Seu rosto estava rosado, principalmente as bochechas e o nariz. O olhar abatido e cabisbaixo. Seus olhos estavam escuros pela luz baixa do quarto, quase castanhos. A combinação perfeita para provocar dó e piedade da bebê para evitar castigos e palmadas.
E talvez, só talvez, ela conseguiria se safar de qualquer coisa com essa carinha.
– Sopinha de batata com bacon como pediu e torrada de pão de alho – disse ao entrar no quarto com a bandeja e me aproximando dela na cama. – Também tem uma saladinha e a senhorita também irá comer se quiser sobremesa.
– O que tem de sobremesa? Leite?
– Crème brulée.
– Ah… conheço não.
– Você vai gostar.
Clarice olhou para a comida na bandeja sobre seu colo e então olhou para mim. Não sabia quais eram as suas intenções, mas sua expressão era suspeita. Muito suspeita.
– Maman…
– Oui, ma vie.
– Você… você num vai dar o papa na boquinha? – Ela me olhou tal qual o Chloée quando quer sachê. – Eu tô dodói.
Vejam só, o jogo sujo dessa petite peste.
Como vou negar isso ao meu bebê? Só se eu fosse cruel e sem coração, o que não é o caso por aqui. E de certa forma, eu dando comida em sua boca iria evitar sujar a cama e iria manter a minha paz de espirito. Ou seja, até que não era uma ideia ruim.
Ofereci a primeira colher da sopa, mas Clarice não abriu a boca e me encarou em silêncio. – Você não vai comer? Abra a boca, vamos.
– Não, maman…
– Como “não”?
– Você num soprou antes… assim vai fazer… mais-mais dodói n’eu.
A observei estática por um momento.
Era sério isso? É impressão minha ou o passatempo favorito da Clarice é me fazer de trouxa? E sabe o que é pior? Ela sempre consegue…
– Oui, ma vie – revirei os olhos e soprei a colher antes de a oferecer outra vez. – Melhor agora?
– Sim, maman! – Clara abocanhou a sopa com vontade. – Hmmmmm… delicinha! Qué mais!
Sorri satisfeita em saber que tinha gostado.
Não fui eu quem cozinhou o prato, no entanto, a receita era minha. Ou seja, a minha bebê mais uma vez tinha gostado da minha comida e isso me deixava feliz. Eu só não fiz eu mesma por ser uma receita que leva tempo, especialmente fazendo sozinha. Ao menos no restaurante eles já teriam o mise en place e mais pessoas para reduzir onde fosse possível.
Apesar do visível desconforto para engolir, Clarice terminava uma colherada já empolgada para a próxima. Se não houvesse sinais nítidos de que estava doentinha, iria desconfiar tamanha animação para comer.
– Tem mais se você quiser, – comentei ao dar a última colherada.
– Tô de buchinho cheio, – ela sorriu amarelo. – Cadê minha sobremesa, maman?
– Você acabou de dizer que está de barriga cheia, ma vie.
– Pra sopinha, maman. Ainda tem espaço para a sobremesa e o leitinho mais tarde.
Ah, claro. Para isso ela tem dois estômagos diferentes.
Apesar de estar muito folgadinha, enquanto Clarice estivesse comendo eu estaria feliz. Problema seria se ela se recusasse a comer.
Depois do jantar, ficamos na cama assistindo Bluey enquanto eu trabalhava em meu laptop. Uma chupeta e desenho é o suficiente para deixar Clarice quieta o suficiente para eu me concentrar em minhas obrigações, basta só me desassociar do som de gritos e risadas das cachorrinhas.
Eu confesso que acabei me deixando levar pelo tanto de trabalho que estava lidando e só me dei conta do horário quando terminei tudo que planejava, o que é um tanto raro.
– Ma vie! Uma hora da madrugada! Já passou do horário de você dormir.
– Shhhh! Baixinho maman. Faz dodói a cabecinha…
– E você está com os olhos grudados na televisão com dor de cabeça, é? – Revirei os olhos. – Aproveita que acabou esse episódio e vamos dormir.
– Nããão, eu quero mais.
– Clarice…
– Deixa eu assistir mais. Eu tô dodói.
A encarei desconfiada. – E o que você estar dodói tem a ver com assistir mais?
– É que eu tô dodói, então você tem que deixar porque eu tô dodói.
– Nana nina não. Vamos dormir, você também está exausta de sono, dona Clarice.
– Mas maman…
– Sem “mas”. Chega de Bluey por hoje.
Em dias normais, Clarice apenas aceita a sua derrota e vai dormir. Mas esse não é um dia normal. É óbvio que uma pequena dodói irá fazer birra e manha por qualquer coisa, como não querer dormir mesmo fechando os olhos de sono e por querer assistir desenho até alta da madrugada.
– Num quero mimir! – Clarice choramingou.
Deixei o laptop de lado e puxei Clarice para perto em meus braços. – Ei, parou de manha. Já passou da sua hora de dormir e você sabe disso. Você precisa descansar se quiser ficar melhorzinha logo. Vai querer passar o natal dodói e sem poder brincar com seus brinquedos novos?
– Que brinquedos novos?
– Brinquedos, amor. Agora fecha os olhinhos, a maman vai te colocar para mimir.
– Tetezinho?
– Oui, ma vie.
O choro manhoso acabou no momento em que Clarice colocou a boca no tetê e se calou. Pode até ser errado pensar assim, mas às vezes eu me sinto tão grata por conseguir esse efeito silenciador com os seios. É um perfeito “amansa pequena” e nunca falha.
Fiquei com dó da petite sofrendo para manter o ritmo da mamada ao mesmo tempo em que tentar respirar pela boca. No fundo eu estava ficando aflita a observando mamar por tanto tempo sem parar para puxar o ar, claramente sofrendo com conflito de prioridades dentro de sua cabecinha.
Preocupada com a possibilidade de que a minha bebê morresse sufocada por sua gula, eu fiquei acordada até notar que estava dormindo de fato. Demorou uns quarenta minutos para isso acontecer e durante esse período me perdi em sua beleza sob a luz baixa.
– Je t’aime, ma vie.
Clarice murmurou algo em seu sono que entendi como um “eu te amo” de volta.
Substitui o meu peito por uma chupeta e finalmente me ajeitei ao lado de Clara para dormirmos abraçadinhas. Minha parte favorita da noite é sempre o momento em que me agarro ao corpo da minha pequena e afundo o nariz contra o seu pescoço. Inalar seu cheirinho me traz a paz de espirito e acalenta meu coração.
Hélène pode achar o que for. Eu não me importo se ela acredita ou não no amor de Clarice por mim. Eu sei o que eu sinto todos dias quando estou com ela e posso garantir que nunca em minha vida me senti tão completa e amada. O meu amor trouxe cor aos meus dias e com ela quero colorir todo o nosso futuro juntas.
É vovó… pelo visto vou te decepcionar mais uma vez… não que eu esteja me importando com isso. Ela que lute e engula as próprias decepções. O meu amor eu não mudo não.
Hgbbbbbbbbbbbbbb67yyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyy54r – Jacquin, Erick
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