Elora Aneva

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57. Obsession passagère

« V A L K Y R I E »

Os latidos do Chloée me despertaram do sono.

Estava em meio ao sonho agradável quando fui tirada dele abruptamente pelo cachorro que não se aquietava e corria dando a volta pela a cama.

– Silence, Chloée! – Murmurei.

Chloée se aquietou e no mesmo instante ouvi um ruído estranho.

O ruído não era um alarme de despertador, nem um barulho vindo da rua. Era ruído úmido, arfante, como se o ar estivesse se tornando líquido dentro de alguém. Estava próximo, bem ao meu lado onde estava…

– Clarice? C’est toi ? (É você?) – Acendi o abajur às pressas e puxei Clarice pelo ombro a fazendo deitar de costas no colchão. – Ma vie?

Ela não respondeu, mas vi em seus olhos o pedido de socorro enquanto tentava puxar o ar em espasmos curtos e desesperados. Era uma crise de asma!

O pânico me pegou de um jeito. Nem sei como fiz para sair de baixo da coberta pesada e saltar da cama tão rápido para correr até o closet na velocidade da luz. Em meio ao desespero só me lembrei da bombinha que estava dentro do casaco que usei mais cedo e foi exatamente ela que busquei.

Voltei correndo para a cama, me ajoelhei ao lado dela e levei a bombinha até a sua boca. – Respire, mon amour. Ici, avec moi. Allez, s’il te plaît. (Respira, meu amor. Aqui, comigo. Vamos lá, por favor.)

Eu contei cada segundo como se fosse uma eternidade enquanto observava Clarice. Aos poucos sua respiração normalizava, embora ainda com certa dificuldade, mas sem se sufocar. Ainda conseguia ver o medo em seus olhos e ela provavelmente era capaz de ver nos meus também.

– Bébé?

Eu a chamei com a intenção de saber se estava comigo ou… eu não sei. Com todo esse susto, eu não sei como Clarice poderia estar se sentindo.

– Maman! – Ela me agarrou pelo pescoço em um abraço e chorou assustada.

A abracei com todo cuidado do mundo com medo de a apertar e lhe tirar o ar mais uma vez. Com uma das mãos acariciei os seus cabelos ao mesmo tempo que esfregava suas costas com a outra com a intenção de acalmá-la.

– Calma, mon amour. Eu estou aqui com você. Já passou… já passou. Não chora, s’il te plaît (por favor).

No fundo, eu também queria chorar. Dentro de mim um mix de emoções borbulhava tornando a minha mente um verdadeiro caos. Eu estava assustada, desesperada, aliviada e preocupada. Tudo ao mesmo tempo.

Pensar que – mais uma vez – poderia ter perdido o amor da minha vida era uma sensação muitíssimo desagradável e tinha impressão de que Clarice adorava me recordar como é sentir isso. Por muito pouco não acordei com uma notícia desagradável. Mon dieu, eu jamais me perdoaria se não tivesse acordado a tempo… eu não quero pensar nisso.

Chloée irá ganhar um bom petisco por ter me alertado!

Agora, abraçada a minha pequena eu só conseguia agradecer em silencio por cada segundo a mais que o mundo ainda nos dava juntas.

– Se sente melhor, bebê?

– Tá dorzinha, – ela colocou a mão sobre o peito e garganta. Sua voz estava um pouco rouca e falha. Porém, seus sintomas não eram o suficiente para definir o quão ruim estava se sentindo.

– Dentro da Escala Visual Analógica, qual o seu nível de dor? – Perguntei.

Clarice me encarou confusa. – Que?

A escala EVA é basicamente o parâmetro internacional para definir níveis de dor. Todo mundo já ouviu falar ou viu em algum momento da vida e tenho certeza que Clarice também sabe… talvez não com essas palavras.

– De zero a dez, qual o nível da sua dor? – Simplifiquei minha pergunta.

– Quatro… quatro e meio.

Quatro, quatro e meio na escala EVA significa dor moderada. Angustiante. Interfere significamente nas atividades diárias. A minha pequena está em sofrimento.

– Oh, mon bébé. A maman vai cuidar de você. Vamos reduzir isso, okay?

O antigripal não surtiu o efeito que esperava em Clarice. Talvez tenha de fato ajudado a não resfriar tanto, no entanto, era nítido que acordou pior do que dormiu e isso me preocupa.

Nós temos um dia até a véspera de natal, será possível melhorar em um dia? Eu espero que sim… eu não quero que a minha pequena passe o natal de cama. Não mesmo.

– Você está com febre. Baixa, mas com febre – concluí após aferir sua temperatura como termômetro que busquei. – Não queria ter que apelar assim, mas não temos muito tempo. Vamos ter que partir direto para a receita milagrosa da minha avó. Não vai ser uma experiência muito agradável, mas aquele chá levanta até defunto.

– Parece ruim. Num quero…

Acariciei os cabelos loiros da minha bebê. – Está tão pertinho do Papai Noel vir trazer o seu presente. Vai mesmo se comportar como uma menina má agora e correr o risco de ficar sem?

– O Papai Noel não existe, maman. Eu sei disso.

– Será mesmo? Que eu saiba ele aparece por aqui todos os anos…

Clarice me observou desconfiada. – A maman não mente… tá falando a verdade mesmo? O Papai Noel?

– Oui, o Papai Noel.

Neste caso eu me refiro ao “Papai Noel” da família do meu pai, também conhecido como Valkyrie Chloée. Exatamente isso, eu mesma. E é verdade, as crianças de lá realmente acham que eu sou o Papai Noel ou trabalho para ele ou algo assim. Ou seja, não estou mentindo aqui.

Em resumo, tudo aconteceu assim: por nem sempre conseguir estar com minha família paterna no natal e gostar muito de cada um deles, mando meus presentes por correio todos os anos. Um dia a filha da minha prima viu o meu nome na etiqueta da transportadora e espalhou para todo mundo que descobriu a verdadeira identidade do “Papai Noel” e durante anos acreditou nisso fielmente.

Hoje a Bianca já sabe a verdade, mas os menorzinhos da família até hoje guardam o segredo que o Papai Noel da TV aposentou e a “tante (titia) Val” quem trabalha no lugar dele secretamente. E eles acham que Touchon é um codinome secreto para o sobrenome Noel.

Confesso que eu me divirto e alimento essa crença entre as crianças, o resto da família inteira também. É muito fofo a reação deles quando vem para França ou passam o natal em Épernay no “castelo do Papai Noel”. Ficam mais empolgados que a Clarice quando é hora do tetê.

Aposto que a minha petite iria gostar muito mais do natal no Rio de Janeiro que por aqui. Queria muito que estivéssemos por lá, mas nem sempre as coisas são como planejamos.

– O Papai Noel vem todos os anos e eu ainda deixo um lanchinho para ele comer antes de ir embora.

– E ele come o lanchinho?

Afirmei com a cabeça. – Sim, ele come. Pensei em fazer dos cookies que você tanto gosta esse ano. Acha que o Papai Noel vai gostar?

– Papai Noel num existe, mama… você tá doidona…, mas eu aceito os cookies dele pra mim.

– Olha só que espertinha, querendo os cookies do Papai Noel. Você aceita o chá que eu vou fazer, isso sim mocinha.

– Num quero chá, maman!

– Eu não perguntei se quer, mon bébé – eu me levantei. – Eu não demoro.

Eu não iria discutir sobre isso com uma pequena em plena a madrugada.

Sei muito bem que o chá da minha avó é a coisa mais horrenda desse mundo, mas é milagroso e funciona. Talvez umas três doses será o suficiente para deixar a Clara minimamente saudável outra vez para aproveitar o feriado.

Alho, casca de laranja, cebola, gengibre, limão, mel e pimenta do reino. Teoricamente vai canela em pau, mas não tinha em casa. Será que vai hortelã também? Honestamente, nem eu me recordo quais eram os ingredientes certos, no entanto, com essa mistureba toda, com certeza devo chegar perto. O gosto péssimo ao menos estava bem perto do que eu me recordo.

Em cinco minutos que fiquei na cozinha para preparar seja lá a mistura que estava fazendo, foi o suficiente para Clarice se cansar de me esperar no quarto e vir atrás de mim para me observar.

– Eu num vou tomar isso não, maman – Clara comentou me vendo preparar o chá.

– É menos pior do que parece…

A quem eu queria enganar? Não é menos pior do que parece. É pior ainda…

– Por que eu num posso só tomar o leitinho da maman? Ele já vem quentinho. E é docinho… e saudável. Faz bem pra eu.

De certa forma Clarice tinha razão. É estranho pensar nisso, mas de fato, embora não fosse tão benéfico quanto para um bebezinho, o meu leite também lhe fazia bem e ajudava com a sua imunidade. Porém, o leite sozinho não faz milagre, ainda mais para alguém do tamanho da Clara.

Se bem que… ela nem é tão grande assim. Mas certamente não se compara com um bebê recém-nascido.

– Pronto, – coloquei a caneca de frente onde Clarice estava sentada. – Eu até coloquei mais mel e hortelã fresco para ficar mais gostoso. Agora é só virar tudo.

– Tudo?!

– Tudo… valendo Bluey até você pegar no sono outra vez.

– Mas eu não quero mimir.

– Não quer?

– Eu tô medo… e se… e se acontecer… de novo.

Clarice estava assustada e parecia que iria desabar em lágrimas a qualquer momento.

Dei a volta no balcão e a abracei, dessa vez mais forte sem medo de a sufocar. – Não precisa ter medo, ma vie. Eu estou com você e vou estar do seu lado. Qualquer momento que precisar, é só me chamar. 

– Mas…, mas…

– Ma vie, olha para mim – segurei seu rosto entre as minhas mãos. – Eu estou aqui. Sou eu, sua maman. Você sempre vai estar segura ao meu lado. Eu te protejo e cuido de você.

Clara fez uma carinha de partir o coração e eu abracei outra vez antes que chorasse.

– Calma, mon bébé. Tranquille… tranquille.

Sinceramente não sei onde estava com a cabeça quando achei de bom tom dar tetê a minha pequena no meio da cozinha, em pé ao lado dela sentada. Nem era uma posição tão confortável e Clarice teria que se inclinar e encurvar um pouco para alcançar o peito. Mas eu fiz mesmo assim.

Depois do susto dessa madrugada, a minha bebê merecia peito, colo, mimo, chamego e o que mais quisesse de mim. Eu não consigo imaginar o quão desesperador deve ser acordar sufocando sem ar.

– O chá está esfriando, meu amor – a lembrei após uns minutos. – Quando terminar tudo, prometo que te levo para cama e deixo ficar no tetê e assistir seus desenhos até dormir.

– Mas é ruim…

– Eu sei, bebê. Mas será para o seu bem.

– Eu num quero! – Ela choramingou.

– Clarice… eu não quero ter que brigar com você. Vamos, tome o chá. É para o seu bem. Para ficar melhorzinha.

– É ruim.

– Tem certeza que vai recusar a oferta de Bluey em plena madrugada? E com direito a tetê.

– Mas é que… é ruim demais.

– Se você não tomar, eu vou ficar chateada. Quer deixar a maman chateada?

Ela negou com a cabeça tristonha.

– Então, se você ama a maman, vai querer ficar boazinha logo e tomar o chá.

Eu já vi a Gio usar essa artimanha antes. A Ju não faz por ela própria, porém quando é pela Gio, ela topa qualquer coisa.

E com Clarice não foi diferente. Mesmo a contragosto ela pegou a caneca.

– Só porquê eu amo a maman um montão e num quero ver a maman chateada. Tá bom?

– Oui, ma vie.

Esperei uma cena dramática, no entanto, após o drama inicial para a primeira golada, Clarice engatou a marcha e virou tudo de uma forma surpreendente.

– Eca! – Ela colocou a caneca no balcão. – Troço ruim, maman. Que horror!

– Você foi muito bem, meu amor. Como conseguiu isso?

– Num tô sentindo gosto direito, – ela sorriu amarelo. – E agora quero Bluey, chocolate quente e tetê.

– Chocolate quente? Quando foi que chocolate quente entrou no acordo?

– Agora que me deu vontade… pufavôzinho, maman. Eu tomei tudinho e tô dodói. Eu mereço chocolate quente e uns biscoitinhos. Talvez uns cookies amanhã também.

Ah, pronto. Criei um monstro.

– Oui, ma vie. Você pode ter seu chocolate quente.

– E os biscoitinhos.

– E os biscoitinhos.

Depois da Clarice ter enfrentado o horrendo chá da minha avó, eu não tinha como recusar o seu pedido. Mesmo embora não fizesse sentido para mim. Se não está sentindo gosto direito, por que ainda quer chocolate quente e biscoitinhos? Enfim, eu não iria discutir isso.

Ainda sigo a política de que, enquanto Clarice estiver comendo e principalmente querendo comer, está tudo certo.

Preparei o chocolate quente e o servi em uma mamadeira. Os biscoitinhos de leite coloquei numa tigela. Mais uma vez fecharia meus olhos para o fato de estar levando comida para cama.

Desenho ligado na TV, mamadeira na mão e biscoitinhos no colo. Clarice tinha tudo que precisava para se distrair e acalmar.

– Fica deitadinha aqui, bebê. A maman já volta.

– Onde você vai?

– Cuidar do Chloée.

– Num demora, tá bom?

– Oui, bébé.

Ainda pretendo cozinhar algo em recompensa para o Chloée, mas enquanto é madrugada e eu não tenho disposição para ir para a cozinha, esse pequeno merece ao menos um sachê fora de hora.

Aproveitei também para pegar as outras bombinhas que estavam guardadas e pretendia usá-las somente na casa dos meus pais que é maior. Com Clarice resfriada, ter bombinhas extras pelo  apartamento será de bom tom.

Além do mais, queria saber o que tinha de medicamento disponível pela casa e o que precisaria providenciar ao amanhecer.

Estava vendo as caixas de remédio da gaveta quando ouvi ruídos que ligaram meus sinais de alerta.

“Maman?” Ouvi Clara choramingar do quarto.

– Mon bébé? – Voltei para o quarto e encontrei Clara chorosa prestes a se levantar da cama. – Ma vie, eu disse para não levantar. Você está dodói. Precisa de repouso.

– Mas é que… é que… é que você num vinha logo e eu… eu fiquei com medo.

– Medo do que, meu amor?

– De ficar sozinha.

– Mas você não está sozinha. Eu estou aqui.

– Mas você num tava aqui. E tava demorando muito. O coração fez dodói e ficou triste.

– Que manha, esse neném – eu me deitei ao lado dela na cama. – Eu estou aqui agora, ó. Não vou mais para lugar algum, tá bom?

Clarice se aninhou perto de mim e então entregou a mamadeira. – Aqui, mama. Segura pra eu.

Respirei fundo para segurar a má resposta que subiu a garganta. Onde já se viu eu ser tratada dessa forma… essa bebê é muito folgada e mimada. O pior de tudo que é parcialmente culpa minha. Isso se não for totalmente culpa minha.

Com os olhos vidrados na televisão, o chocolate quente de Clarice virou chocolate frio pouco depois de acabar a metade. E por estar frio, ela logo perdeu o interesse na mamadeira e pediu peito.

Uma mamada e um pedaço de biscoito. Observando a cena da minha pequena me resumindo a delivery de leite, eu refleti sobre toda a minha vida até chegar nesse exato momento. Estou tão acostumada em ser “A Valkyrie Touchon” que a minha Clarice me tratando apenas como sua maman às vezes me causa estranheza. Ela literalmente está fazendo uma boquinha enquanto bebe meu leite, mas ironicamente essa é uma das trocas mais sinceras da minha vida. Não existe interesses velados e nem segundas intenções entre a minha pequena e eu. Ela faz questão de deixar bem explícito… seu interesse é o meu leite… às vezes em mim também.

– Maman? – Clarice me chamou um tempo depois que parou de comer e estávamos maratonando infinitos episódios de Bluey… essa garota não dorme?

– Hmm?

– O Chlô pode deitar com a gente?

– Nem pensar.

– Purfavorzinho, maman. É que… é que ele… ele ajuda eu quando num consigo respirar e a maman está mimindo. Eu num vou conseguir mimir sem ele perto… vai, maman. Deixa, vai. 

Golpe baixo. Muito baixo.

– Nós podemos trazer a caminha dele para mais perto, – sugeri.

– Não, maman! Tem que ser aqui! Comigo!

Já se passaram quase duas horas desde o momento em que acordamos e apesar do visível sono, Clarice se esforçava bastante para se manter acordada e por consequência eu também estava. Talvez ela estivesse sendo honesta sobre o medo de dormir, mas ceder agora é abrir uma caixa de pandora perigosíssima.

– Só essa noite, d’accord? Eu não quero cachorros dormindo com a gente.

– Tá bom, maman! Eu te amo um montão! Você é a mais melhor de todas!

Pelo jeito que Clarice e o Chloée se ajeitaram tão facilmente, suspeitei que não fosse a primeira vez que dormiam juntos. Mas sinceramente? Eu estava exausta e só queria dormir outra vez.

– Bom sono, ma vie – murmurei ao me ajeitar ao seu lado para dormimos. – Eu estou aqui.

Clarice não respondeu, mas pela forma que se aninhou em meus braços para pegar o peito – mais uma vez – ela rapidinho iria embarcar nessa soneca, exatamente como eu queria.

Mesmo com alguém pendurada em meu peito e um cachorro na minha cama, eu apaguei totalmente cansada.

O zumbido do celular vibrando sobre a mesa de canto me fez despertar do sono. O quarto ainda estava escuro, mas era possível ver a claridade do dia pela as frestas da cortina.

Clarice estava imersa em um sono pesado, nada incomodada pelo celular que não parava de tocar. Ela ressonava contra o meu peito, respirando com a boca aberta enquanto seu nariz parecia estar totalmente entupido outra vez. Seu peito chiava um pouco, porém nada diferente do esperado. 

A contragosto, estiquei o braço para fora da coberta até alcançar o celular sobre a mesa. Nem olhei o visor, apenas atendi a chamada com os olhos meio fechado ainda sonolenta.

– Oui?

– Val… – Acordei no mesmo instante que ouvi essa voz. – Meu amor, sou eu… Pedro.

Respirei fundo por um instante controlando a vontade de vomitar.

Não que fosse necessário dizer quem era. Eu seria capaz de reconhecer essa voz macia e aveludada, tão falsa quanto seda sintética, de muito longe. Mas, afinal, o que esse idiota estava fazendo me ligando?

– Eu não sou o seu amor. Por que está me ligando?  – Murmurei.

Sentei na cama o mais silenciosamente que consegui, escorregando para fora das cobertas com cuidado para não acordar a minha bebê. Peguei meu robe bordô pendurado e fui para a varanda. Para a minha surpresa, o sol estava bem mais alto do que imaginava. Parece que dormimos demais por aqui.

Não seja cruel com o seu primeiro e único amor. Eu estou ligando porque estou com saudades. Eu cheguei em Paris ontem a noite… eu soube que estava por aqui e vim te encontrar.

Revirei os olhos. – Ah, s’il vous plaît, me poupe da sua conversinha, Pedro Henrique. Já não foi o suficiente perder o emprego, o apartamento e o carro? Quer mesmo ir atrás de mais?

Você pode tirar tudo de mim, isso não irá mudar em nada o meu amor por você, – quase vomitei ao ouvir essa asneira. – Olha, eu sei andamos nos atacando nos últimos meses. Foi erro meu, eu deveria ser mais paciente e entender o seu momento. Me desculpe, meu amor.

Afastei o celular o encarando confusa. Pedro Henrique dizendo que errou e pedindo desculpas? O que aconteceu por aqui?

Sua grand-mère me ligou. Ela está preocupada com você. Disse que ontem apareceu com uma mulher… uma jovem… e a apresentou como namorada. Isso depois de tantos meses sem dar notícias. A Héléne achou… estranho, preocupante.

Era claro que Pedro Henrique iria enfatizar que Clarice é “uma jovem”. Aposto que a Hélène também fez a mesma coisa. Eu sei que temos uma diferença de idade, mas somos as duas adultas e tudo entre em nós é consensual. Então, qual o problema?

Pedro Henrique aproveitou o meu silêncio e continuo: – Você sempre teve dificuldade com mudanças bruscas, com decisões emocionais, né, meu amor? Eu lembro muito bem como era. A impulsividade… as crises. Aposto que não deve ter sido fácil para você lidar com o nosso término aquela época. Nós tínhamos uma rotina. Uma vida juntos.

– Onde quer chegar com essa conversa?

É só que… Val, você às vezes não percebe quando está se machucando. E agora, com essa garota, a estagiária… eu só fico me perguntando se você realmente pensou nas consequências.

O desdém em que Pedro Henrique usava para falar de Clarice me dava nos nervos. Ela não é só uma garota ou uma estagiária qualquer. Nunca foi.

– Eu pensei, sim. E pensei muito.

Você sempre acha que pensou, meu bem. Mas é diferente. Você tem um histórico. Você sabe que confunde obsessão com amor. É parte do seu perfil neurológico, lembra? A gente conversou muito sobre isso na terapia…

Ela não é uma “obsessão”!

Não é o que nós achamos. E por isso estamos preocupados.

– Nós?!

– Sua grand-mère e eu. Você precisa de estabilidade, Valkyrie. Regras claras. Rotina. Essa coisa de “experimentar” com uma mulher assim repentinamente… soa mais como mais um dos seus episódios.

– Ah, vai se foder. Você e a Hélène! Eu sei exatamente quais são os seus planos. Eu não vou me casar com você. Estou pouco me fodendo sobre a sua opinião, eu sei muito bem o que eu sinto pela Clarice. Eu a amo como nunca amei ninguém, nem  mesmo você. Então pega essa sua preocupação e enfia no seu…

Ela é uma menina, Valquíria! – Pedro Henrique me interrompeu perdendo um pouco a sua postura mansa. – Uma menina jovem e inexperiente e que muito provavelmente só esteja te usando como uma fase. Mais cedo ou mais tarde ela vai se enjoar. Essa sua fantasia vai acabar… e quando acabar, você vai quebrar outra vez.

– Quanto tempo ficou praticando seu discurso no espelho para soar convincente?

Eu sei que é difícil para você enxergar isso agora. Seu hiperfoco e sua obsessão não permite ver além do seu palmo, mas quando tudo acontecer eu estarei aqui. Eu sempre vou estar aqui para você. Eu te amo de verdade. Ela nunca irá te amar como eu te amo.

– Quanto a isso temos que concordar. Clarice nunca irá me amar como você me ama porque diferente de você, os sentimentos dela são sinceros e verdadeiros. Agora se me dá licença, eu tenho muito mais o que fazer que perder o meu tempo com você no telefone.

– Antes de desligar, eu quero que saiba que você está linda hoje. O vermelho realmente combina com você, mas é melhor não tomar muita friagem só com essa roupa, irá adoecer.

– Como você…

O que acha de um jantar? Podemos ir naquele restaurante que comemoramos o nosso aniversário.

Vai se foder!

Desliguei a chamada e voltei para dentro do apartamento,. Esse filho da puta estava mais perto do que imaginava. Isso não é nada bom. Não é mesmo!

Para a minha surpresa, Clarice estava sentada na cama acariciando o Chloée em seus braços.

– Maman? Você está bem? Com quem estava falando?

Eu paralisei.

Seria muito mais fácil dizer que estava falando com os meus pais ou até mesmo o Bruno, mas eu sou incapaz de mentir, principalmente para o verdadeiro e único amor da minha vida.

– Que bom que acordou, ma vie! Mudanças de planos… vamos para Épernay! – Tentei soar como se essa mudança fosse algo bom.

– Ué, mas nós não íamos amanhã?

– Lá vai ser mais divertido.

– Mas… eu tô dodói… eu num quero diversão, eu quero mimo e colo. Eu quero ficar só com você.

Por um instante eu esqueci que estava irritada e puta para me derreter de amores por essa coisinha linda que é o meu amor. Se dependesse de mim, eu ficaria aqui mesmo e não ia para lugar algum, mas… o Pedro Henrique sabe o meu endereço e provavelmente está hospedado aos redores para saber que estava na varanda e a cor do meu robe.

Eu não quero continuar aqui sabendo que tem um stalker por perto. Também não vou ficar com as cortinas baixas como fosse uma fugitiva. Prefiro ir para a casa dos meus pais onde tenho certeza que ninguém irá nos perturbar e estamos realmente seguras.

– Está dizendo que não quer encontrar os seus sogros?

– Não. Sim… pera… não, eu não disse que não quero encontrar meus sogros. Eu quero… só que depois. Eu quero ficar mais tempo só com você. Eu tô saudades, mama!

– Saudades do que?

– De você!

– De mim? Nós nos vemos todos os dias, meu amor.

– Num é a mesma coisa quando você tem tempo pra mim, – ela fez um bico e me olhou com uma carinha sofrida. – Eu tô carente.

Me aproximei dela e peguei seu rosto entre as minhas mãos para lhe encher de beijos. – Oh, meu deuso, esse neném está sofrendo sem amor. Que absurdo!

– Maman é sério.

– Você está com febre.

– Preciso de amor, carinho e beijinhos para melhorar.

– Você vai ter tudo isso na casa dos meus pais, eu prometo. Nós nos trancamos no quarto e ninguém irá nos incomodar.

Clara tossiu. – Tá bom… a gente vai agora?

– Oui, bébé. Agora mesmo.

– Num vai ter nem um tetê, um papazinho, um nada antes de sair? Você já amou mais eu!

– Pardon, mon amour. Vem cá, eu te dou tetê. Depois vamos tomar o café e nos arrumamos, pode ser assim?

– Agora sim! Além de me negar amor, atenção e carinho o suficiente, estava querendo me matar de fome também. Isso é feio, maman.

– Eu nunca te neguei amor, atenção e carinho!

– Mas também não está dando o suficiente.

– Eu tenho a impressão que mesmo que eu fique 24h te dando amor, atenção e carinho vai continuar reclamando.

– Eu nunca vou ter o suficiente de você, maman – Clara sorriu. – Agora deita aqui comigo, vem!

E o Pedro Henrique quer que eu acredite que alguém como a Clarice está vivendo uma fase e irá se enjoar de mim…

Ela acorda quando não estou por perto. Vem atrás de mim para onde vou como se fosse uma sombra. E se pudesse, ficaria todo o tempo do mundo em meus braços. Ele não tem como saber, mas eu sou a fonte do maior vício da minha pequena e eu posso estar ou não falando do meu leite.

Sinceramente, quero que esse traste e a minha grand-mère se fodam com suas falsas preocupações.

O que eu sinto pela Clarice não é uma obsessão passageira. O meu amor é real e verdadeiro. Nós duas sabemos e vivemos isso todos os dias!

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