« C L A R I C E »
– Você conhece a história do Musée D’Orsay?
Val perguntou aleatoriamente admirando as paredes e teto do museu. Nós havíamos chegado um pouco cedo para o início da oficina e então decidimos andar por aí. Ontem tivemos tempo de ver todas as obras, mas não foi o suficiente para apreciar o museu em si. E bem, conhecendo a minha namorada, tinha certeza que tinha mais interesse pelo edifício que as obras dentro dele.
– Hmmm… eles renovaram uma estação de trem para virar museu(?).
– Antes disso, aqui foi um palácio. Um palácio abandonado por cerca de trinta anos depois de ser incendiado.
– Incendiado tipo acidente ou tipo francês?
Val me olhou com um sorriso sapeca no rosto. – Tipo francês, – riu e voltou a contemplar o ambiente. – Os soldados da Comuna de Paris atearam fogo aqui e vários outros edifícios públicos na época, – disse depois quebrando o silêncio. – Não necessariamente aqui-aqui, o Palais d’Orsay foi demolido para construir a Gare d’Orsay, que é esse monumento que hoje virou um museu.
Há um tempo atrás eu iria achar que estava apenas me dando mais uma aula sobre a história da arquitetura, uma mania de alguém que parece uma enciclopédia por tanto conhecimento no assunto. No entanto, a conhecendo e observando bem, sei que trazer esses assuntos aleatórios à tona era forma de a Val colocar seus reais pensamentos de lado e se distrair com algo que gosta.
E eu como apaixonada e cadelinha que sou, adoro ouvir todas as suas aulas.
– Eu gosto como que em nenhum momento abriram mão do objetivo inicial, apesar dos desafios que surgiram no caminho. Eles tinham um terreno e um sonho. Nada mais que* isso. E o resultado disso está aqui até hoje mesmo depois de duas guerras. Esse é um dos motivos pelo qual eu não desisto dos meus projetos como são até que me provem ao contrário.
Realmente. De todos os arquitetos que trabalham com a gente, a que mais briga com os engenheiros é a Val. Ela não aceita que mudem seus projetos e também não coloca seu nome em qualquer coisa.
– Tem noção de que, para construir uma estação de trem aqui, eles precisaram abrir um túnel da Paris Gare d’Orléans, a Gare d’Austerlitz, a margem do rio Sena. Correndo risco de dar muito errado e inundar tudo. Tem noção do que é fazer isso naquela época? Ainda hoje é uma baita dor de cabeça abrir túneis por aí e é por isso é tão complicado construir as linhas de metrô em São Paulo. Imagine o que não foi fazer isso em 1898.
– Só de pensar nos cálculos a minha cabeça dá um nó.
– Pois é… a solução para o pouco espaço foram trilhos subterrâneos, mas isso trouxe outro problema: não podiam usar os trens a vapor nesses túneis. O resultado disso foram os primeiros trens elétricos da França e a primeira estação terminal eletrificada do mundo. Tudo isso numa estrutura de doze toneladas de metal escondido por blocos de pedras ornamentadas e um teto com uma vidraçaria bastante complexa para a época só para manter a estética arquitetônica da região, a própria Tour Eiffel tem sete tonelada*as. E eu ainda ouço reclamações por me “importar demais com a estética” quando dou um mínimo de desafio para esse povo, – Val revirou os olhos e cruzou o braço brava. – Um dia eu ainda vou deixar todo mundo louco quando realmente importar com a estética a esse ponto.
– Já ouvi comentários sobre seus esboços para o hotel do sheik lá. Acho que esse dia está bem próximo.
– Não, ainda não. Não estou sendo ousada o suficiente para isso.
– Imagina se estivesse…
– Co*mment ça, Clarice?
– Nada, – sorri amarelo. – Você parece conhecer bem a história desse museu. É o seu favorito?
– Não necessariamente. Tem outros acervos tão interessantes quanto por aí. Mas eu acho que todo mundo da minha família está cansado de ouvir a história da construção da Gare d’Orsay;
– Por que?
– Meu trisavô foi um dos engenheiros que tornou isso aqui possível. Basicamente, essa obra consagrou o nome da família no ramo da construção civil e deu início ao nosso legado.
A revelação me pegou de surpresa. – Esperai, seu trisavô construiu um edifício histórico?
– Não só esse, existem outros também… tem muitos edifícios históricos em Paris, sabe disso, né?
– É, mas ainda assim. É meio louco pensar nas pessoas que estavam envolvidas na construção de um edifício histórico, ainda mais conhecer alguém próximo.
– Você conhece a mim. Quando eu morrer minhas obras também serão históricas. Sem considerar as que já são…
Sabe quando seu sistema entra em pane e você é incapaz de processar algo? Era exatamente assim que estava observando a minha namorada que também é uma arquiteta do baralho. Estou tão acostumada com a sua presença no meu dia-a-dia que às vezes esqueço que ela está nos meus livros da faculdade e que meus colegas ficariam loucos para a conhecer… e ela é a minha namorada.
Meu deus!
– Sua família toda é da mesma área?
– Meu trisavô era engenheiro, meu bisavô também, meu avô foi arquiteto, minha mãe é a única que era arquiteta e depois virou engenheira e eu sou arquiteta.
– E se tiver um filho?
– Se por acaso eu um dia decidir ter um filho, farei de tudo para que queira seguir os passos da outra mãe e não os meus.
– Que passos?
Val me encarou curiosa. – Belas artes.
Mas eu faço arquitetura… será que…
– Eu jamais irei dizer para abandonar sua faculdade no meio do caminho. Ainda mais estudando em lugar disputado como a FAU, mas saiba que logo assim que se formar, estará matriculada na Belas Artes de São Paulo ou qualquer outro lugar. Eu já desisti da ideia de te fazer a minha pupila. O seu lugar está aqui. No museu. Não os erguendo, mas exposta neles.
– Você é maluca, – me sentei em um dos bancos.
– Eu sou realista.
Eu não vou discutir com a Valkyrie sobre belas artes ou não. Conheço a minha mulher e nada, nem ninguém irá mudar sua opinião.
O cenário atual é diferente, eu sei que sim. Sem Luís ou uma família enchendo o saco, fazendo cobrança e dizendo que tenho que fazer dinheiro, é muito mais simples agora arriscar e buscar um caminho incerto, porém mais satisfatório. No entanto, mesmo sem essas pessoas na minha cabeça, suas alegações permanecem. Eu ainda tenho minhas responsabilidades, contas e sonhos que não se pagam com sorriso. E não, eu não vou me aproveitar da minha namorada.
Val se sentou ao meu lado e logo reparei nos seus dedinhos frenéticos mexendo em seus anéis.
– Você está ansiosa, – não foi uma pergunta, foi uma constatação.
– Um pouco… eventos com a minha grand-mère me deixa ansiosa, de negócio mais ainda.
– Pelos seus comentários sobre ela, eu não sei se gosto ou desgosto dela.
– A minha avó é… complicada. A morte da minha tia deixou ela meio… uh… como posso dizer…
– Lélé da cuca?
– Lélé da cuca, – Val concordou. – É verdade que nos últimos anos nosso relacionamento tem sido algo que posso considerar tóxico, mas se eu sou o que sou hoje é por causa dela. Quando fui diagnosticada, todo mundo, inclusive meus próprios pais, começaram a me tratar diferente por eu ser “especial”, minha avó foi a única que foi contra isso.
– Seus pais fizeram isso? Pensei que eles te incentivassem a ser independente desde pequena.
– Eles não fizeram por mal. Eles genuinamente acharam que deveriam me poupar de possíveis gatilhos e estresse. Minha avó quem dizia que ninguém e nem nenhuma condição iria impedir uma Touchon de algo. Então tudo que eu queria fazer e meus pais tinham receio em deixar, ela ia lá e me levava escondido. Foi assim que comecei a lutar, por exemplo. Depois eles entenderam que não precisavam me poupar e sim dar suporte, mas isso só aconteceu por causa da minha avó. E eu sou muito grata a ela por isso… não tem nada que me irrita mais que ser tratada como “especial” como se ter autismo fosse sinônimo de ser incapaz. Eu não sou incapaz.
– Você é a mulher mais inteligente e foda que eu conheço. Está muito longe de ser incapaz.
– Merci, mon amour – ela me deu um beijo na testa. – Mas a Valkyrie que conhece hoje não é a mesma de mais de vinte anos atrás. Eu precisava de muito mais suporte quando criança, isso aqui é resultado de todas as terapias possíveis e muito privilégio.
Por mais que a Val não tenha entrado em detalhes, o jeito em que falou deu a impressão de que todo esse processo foi um tanto cansativo. Não vou mentir e dizer que não estava curiosa em saber, mas esse é um tópico delicado. Acho que é mais fácil para a minha namorada falar do tempo em que levou um chifre do traste lá que qualquer coisa relacionada ao autismo.
O celular da Val começou a despertar. Era o alarme que ela configurou para não perdemos a hora. De volta para o salão para onde seria a oficina, eu escolhi um dos canvas que estava disponível.
– Eu não estou te expulsando nem nada, mas você não tinha compromisso em outro lugar?
– Deu para perceber que estou enrolando aqui?
– Um pouco. Sentar aqui comigo não foi nada discreto.
– Droga, pensei que não fosse perceber – ela riu. – Eu não vou direto para o evento. O Dr. Rene abriu uma exceção para mim essa tarde. Irei me consultar antes de ir para o hotel.
– Consultar? Você não comentou que não se sentia bem. O que está acontecendo?
– Tirando o fato de que estou me sentindo uma vaca leiteira com os seios sempre cheios, pesados e sensíveis, está tudo ótimo.
– Se te faz sentir melhor, você é a vaca mais linda desse pasto.
– Ha. Ha. Muito engraçadinho, bezerrinha – Val revirou os olhos. – Enfim, é uma consulta de “rotina”. Embora o leite tenha descido antes do que esperava, acho que essa altura já era para meu corpo ter se ajustado a demanda.
Uma coisa é verdade. A Val escalou de poucas gotinhas para esguichos contínuos rapidamente. Não que eu esteja reclamando disso. Eu adoro o fato de ter meu leite sempre pronto para mim a qualquer momento. Mas deve ser realmente desconfortável ter que tirar leite durante o dia além de me amamentar para não ficar engorgitada.
Se bem que, eu não reclamaria se tivesse que ajudar a Val nesse processo também. Há sempre espaço no meu estomago para mais leite… e por falar nele, que saudades.
Ter tirado de mim os meus tetês foi cruel. Ainda mais cruel que as palmadas fortes. Tem pelo menos sete horas desde a minha última mamada e desde então sobrevivo de migalhas; o leite ordenhado.
– Eu queria ver você pintando, mas parece que o universo não quer deixar.
– Não seja por isso, meu amor, é só você posar para mim e me verá pintando por horas.
– E em contrapartida você ficará horas me vendo nua.
– É meu pagamento, – dei ombros.
Val deu um beijo próximo a minha orelha e sussurrou discretamente. – Posso posar para você, mas eu também vou cobrar meu pagamento e eu não aceito dinheiro.
Engoli a seco sentindo minhas orelhas e bochechas queimarem.
– Enfim, por mais que eu queira passar o resto da tarde aqui, eu não tenho outra opção senão ir agora ou virão aqui atrás de mim… me liga quando acabar? Eu quero estar durante a exposição.
– Você não pode falar o que falou e simplesmente ir embora.
– A não ser que você queira que eu seja modelo de nu artístico durante a classe, não me resta muito mais o que fazer aqui, mon amour. Qualquer que seja os meus planos com você, prefiro que seja no apartamento… ou podemos repetir a dose de ontem. Temos dez minutos até começar. Uma rapidinha não faria mal…
– Valkyrie!
Meu senhor… nunca fui tão grata por falar português. Essa mulher é louca! Louca! Como tem coragem de falar naturalmente em um espaço público? E se tiver outro brasileiro por perto?
Até olhei ao redor discretamente para ver se não tinha algum risinho para a nossa direção. Felizmente não me pareceu ter nenhum outro ser falante de português no perímetro.
– É melhor ir embora antes que eu te expulse daqui. Você está sem limites.
Val riu e me beijou o rosto. – O que posso fazer se você fica tão fofa quando fica tímida?
Revirei os olhos. – Até daqui a pouco, docinho. Eu te ligo mais tarde.
– Acho bom. Estarei esperando. Je t’aime, bébé.
– Eu também te amo.
Trocamos um selinho rápido e a Val se levantou. Ela ainda me deu outro beijo no topo da cabeça de despedida antes de me deixar.
Confesso que meu lado pequeno deu uma fraquejada ao vê-la sair e me deixar para trás, mas no mesmo instante o que parecia ser o nosso mentor começou a falar em francês e em seguida em inglês para os “gringos” como eu.
Honestamente, eu não sabia exatamente o que esperar, mas estava empolgada. O mentor, um senhor – provavelmente francês pelo sotaque carregadíssimo, – de cabelos completamente brancos, a barba curta e bem cuidada no mesmo tom. Os olhos cinza e profundos. Vestido de lã azul petróleo com um lenço de seda amarelo no bolso, camisa de gola alta e uma elegância que parecia ter saído direto do club social da Margot. O “monsieur” Étienne aos seus sessenta-alguns-anos era o estereótipo da gay idosa amante da arte.
– Today, we’ll work not with precision, but with perception (Hoje, nós não vamos trabalhar com precisão, mas com percepção) – Ele discursava com o seu inglês acentuado que lhe dava um ar sofisticado. – I want you to forget what you think you see… and instead, paint what remains after the eye closes. (Quero que você esqueça o que acha que vê… e, em vez disso, pinte o que resta depois que os olhos se fecham.)
Ele caminhou entre cavaletes e a paixão em que discursava prendia atenção de cada um dos seus espectadores. Sem dúvidas, esse senhor é das artes plásticas e do teatro. E se não tiver nada com o teatro, deveria…
– The painters of this house (os pintores dessa casa) – ele fez um gesto amplo, indicando o museu. – They did not paint with their hands. They painted with memory, with scent, with silence… with mistakes. We’re surrounded by the masters of light; Monet, Degas, Cézanne, Van Gogh, but they weren’t painting what was in front of them. They were painting what moved behind the skin of the world. That’s our task too… (Eles não pintavam com as mãos. Pintavam com memória, com perfume, com silêncio… com erros. Estamos cercados pelos mestres da luz; Monet, Degas, Cézanne, Van Gogh, mas eles não pintavam o que estava à sua frente. Pintavam o que se movia por trás da pele do mundo. Essa também é a nossa tarefa…)
Eu desviei o olhar do mentor um único instante e nesse momento seu discurso pareceu ser para mim.
– Precision is for architects. And you… (Precisão é para arquitetos. E você…) – ele apontou para mim, – you’re here to forget precision. You’re here to feel… (Você está aqui para esquecer a precisão. Você está aqui para sentir) – ele continuou olhando para os demais, mas eu me senti pessoalmente atacada. – So on y va, let’s everyone here feel! (Então, vamos, vamos todos aqui sentir)
Ainda bem que a Val não estava aqui para ouvir isso. Sendo sistemática como é, aposto que um dos seus maiores confortos na arquitetura é justamente a precisão. E fruta que partiu… me esquecer disso foi mais difícil do que imaginava.
O tempo voou diante dos meus olhos e ao fim de cinco horas tinha a minha frente o meu primeiro quadro impressionista. Não era exatamente o que estava acostumada a pintar, eu sou mais apta a aquarela e até mesmo o realista; exatamente aquilo que meus olhos veem. A minha mãe quem tinha gosto pela arte impressionista e suas obras mais famosas tinham essas características.
Orgulhosa do resultado, tirei uma foto. Iria enviar para Val e perguntar se ela troca um quadro por um peito, mas não iria estragar a surpresa do meu amorzinho de ver pessoalmente, por isso enviei somente para o Theo. E por falar no meu docinho, estava prestes a ligar para ela quando o monsieur Étienne veio ver o meu trabalho atraindo atenção para mim. Eu rapidamente guardei o celular no bolso para
– Ce n’est pas commun (Isso não é comum…) – ele murmurou, quase para si e então continuou em inglês. – This is… rare. What you’ve done here… it’s not technique. It’s truth (Isso é… raro. O que você fez aqui… não é técnica. É a verdade).
Como qualquer amante da arte, Étienne era um tanto exagerado nas suas palavras. Eu apenas sorri sem graça e murmurei um “merci” solenemente ignorado por ele ao continuar falando… esse homem gosta de falar.
– Most people, even professionals, paint what they want others to see. But you… you let the painting show what you didn’t even know you felt. Do you have experience? Have you studied? (A maioria das pessoas, mesmo os profissionais, pinta o que quer que os outros vejam. Mas você… você deixa a pintura mostrar o que você nem sabia que sentia. Você tem experiência? Você estudou?)
– No… I mean, I’ve always loved art and my mother was an artist herself, but I’m not like her. (Não… Quer dizer, eu sempre amei arte e minha mãe também era artista, mas eu não sou como ela.)
– Based on what I see here… you’re just as much of an artist as your mother. Excellent travail, continuez comme ça! (Pelo que vejo aqui… você é tão artista quanto sua mãe. Excelente trabalho, continue assim).
Outros vieram me parabenizar. Alguns fizeram parte da oficina, outros apenas expectadores curiosos.
– O monsieur Étienne tinha razão, você fez um excelente trabalho – um homem, cerca de cinquenta anos ou quase isso, comentou ao meu lado. O português com sotaque carregado denunciou ser só mais um gringo, mas definitivamente não era francês.
Diferente do Étienne, o mentor da oficina, ele não me pareceu um gay amante da arte. Ele era definitivamente elegante usando seu terno de linho, camisa de colarinho alto, gravata e um cachecol. O homem tinha os cabelos loiros, a barba com alguns fios brancos e os olhos verdes intenso. Seria facilmente um galã das novelas da Val.
– Se ainda não trabalha com a arte, deveria.
– Eu raramente pinto e quando faço, eu costumo fazer desenhos digitais. É mais prático.
O homem me encarou interessado. – Ah, você também faz desenho digital?
– Por hobby, sim.
– Se você for tão talentosa no digital como é nas telas, aposto que seus desenhos são incríveis. Você tem um portfólio?
– Dos meus desenhos? Não. Eu desenhava para passar o tempo, nada profissional. Eu trabalho com outro tipo de arte, faço arquitetura.
– Eu gostaria de ver os seus desenhos se me permitir. Você pode anotar o meu e-mail?
– Hmm… claro. Deixa eu só pegar o meu…
Paralisei totalmente ao tatear meus bolsos e não sentir o aparelho em mim, tudo que encontrei foi um chaveiro que parece ser da Val. Olhei ao redor e nenhum sinal. Tentei localizar pelo smartwatch e descobri que estava desconectado. É sério isso? Eu nunca fui furtada no Brasil que tem fama nada favorável e aí em Paris, “ui-ui primeiro mundo”, me furtam dentro da porra de um museu?!
Aí meu deus… o que eu faço agora?!
– Está tudo bem?
– Eu acabei de perceber que roubaram o meu celular…
– Tem certeza que roubaram? Você não deixou em algum lugar.
– Ele estava no meu bolso agora pouco e…
– Oh! É… – ele me interrompeu como quem já tivesse desvendado todo mistério, – você provavelmente foi vítima de alguma pickpocket. Em Paris tem muitas. Normalmente andam em bando, sempre muito bem vestidas.
Puta que pariu… é para cair o cu da bunda!
– Você está com alguém? Quer ligar do meu celular? Ou se quiser, posso te levar numa delegacia próxima. Senão estou enganado, tem uma há uns 10min daqui.
Eu? Entrar num carro com um desconhecido para a delegacia? Tá maluco. Prefiro ficar por aqui até a Valquíria dar a minha falta ou tentar chegar até o hotel onde está acontecendo o evento. E sem contar, que mesmo que quem me oferecesse ajuda fosse um policial ou funcionário do próprio museu, a minha mulher iria me matar se eu ousasse ir para longe daqui sem avisar.
– Não precisa, a minha namorada está por perto…, mas eu aceito o celular emprestado só para pesquisar algo.
– Claro, fique à vontade.
O homem me emprestou o celular. Lembro de ter ouvido o nome do hotel pela Margot e apesar de digitar tudo errado, o Google foi inteligência o suficiente para encontrar. Não era longe, 9 minutos andando daqui e basicamente duas retas. É isso que eu vou fazer.
Antes de devolver o celular eu apaguei o histórico da busca. Vai que esse cara é um maníaco psicopata?
– Aqui está, obrigada.
– De nada. Imagino que esteja indo encontrar a sua família, antes de ir – o homem tirou a carteira do bolso do casaco e tirou um cartão de visita, – é o meu contato profissional. Eu ainda quero ver o seu portfólio.
Li rapidamente o que estava escrito. George Van der Voort, diretor de arte… okay.
– Eu sou diretor de arte de um estúdio, – ele comentou ao perceber que lia o cartão. – George.
– Clarice… eu sou aspirante a arquiteta.
– É um prazer conhecer você, Clarice. Estarei esperando pelo o seu portfólio. Quem sabe não fazemos negócios no futuro.
– Ah, pode deixar. Eu vou enviar sim… eu agora vou indo… foi um prazer, George.
Eu estava prestes a sair e o tal George me segurou pelo o braço o mais gentil possível. – Você não está se esquecendo de nada? – O encarei confusa. – O quadro… ele é seu. Não vai deixar para trás, vai?
– É, tem razão…
O que eu vou fazer com isso? Eu não posso simplesmente sair carregando pela rua. Vou ser assaltada duas vezes, o que é pior.
– Se não for levar, você pode vender.
– Você quer comprar?
A sugestão pegou o homem de surpresa. Até mesmo a mim.
Mas eu vou precisar de um celular novo e qualquer coisa básica paga em euro irá me custar uma fortuna. Talvez o quadro me faça sentir menos o impacto.
– Eu compro. Quanto você quer?
– Duzentos(?) – Chutei um valor aleatório. Duzentos euros em reais devem valer alguma coisa.
O George tirou algumas – várias – notas do que parecia ser €20 da sua carteira e me deu. Quem anda com tanto dinheiro em espécie na carteira? Ainda mais com essas tal de pickpocket. Louco!
– O preço justo pelo seu trabalho. Você está aqui, não deveria cobrar nada menos.
– Okay… obrigada.
Eu acho…
Nos despedimos e eu segui meu rumo. Antes parei no banheiro e assim que abri a porta lembrei do que aconteceu por aqui ontem e senti meu rosto corar. Jesus…
Finalmente sozinha, decidi contar as notas que recebi e esconder dentro do sutiã para evitar outro furto. E para minha surpresa, descobri que aquelas notinhas amarelas não eram de €20 e sim €200. Aquele cara me pagou €2000!!!
Dá para pagar a Val pela oficina ainda comprar um celular qualquer… por um momento quis voltar lá para ter certeza que o cara pagou certo. Não me parece justo esse valor no quadro, mas quando voltei no salão não o encontrei. Também não ficaria procurando, é melhor ir para o hotel e encontrar o meu amorzinho. Qualquer coisa comento no e-mail.
Ao colocar o pé para fora do museu quis imediatamente voltar. O frio em Paris é de um nível que beira a maldade. Mesmo com várias camadas de roupa que a Val me forçou a vestir, o vento cortava com se eu estivesse cropped e shorts no auge do verão do Rio de Janeiro. Gelado! Muito gelado!
Não estava chovendo, mas caia uma neve rala anunciando que o pior está vir. Era tão pouca que sequer me empolguei mesmo sendo a primeira vez que via na vida. Até porque, na roupa essa neve mais parecia caspa que qualquer outra coisa e derretia antes mesmo de poder fazer alguma cena. E para variar, deixava a roupa úmida.
Era óbvio que o evento estaria acontecendo em um hotel ultra luxuoso que exala riqueza em cada centímetro e te chama de pobre em várias línguas. Mesmo intimidada, entrei no saguão principal e tive a porta aberta por um funcionário. Um funcionário usando luva branca.
Me aproximei da recepção e diferente das outras pessoas que foram imediatamente cumprimentadas com um sorriso cordial, recebi um olhar confuso, como se os recepcionistas se perguntassem o que eu estava fazendo ali.
– L’entrée des employés est sur le côté, madame. Vous ne pouvez pas rester ici (A entrada dos funcionários é pela lateral, senhorita. Não pode ficar por aqui) – um jovem muito bem vestido me abordou. Seu crachá dizia ser o concierge.
O encarei confusa por um momento processando o que estava falando.
– Sorry… I’m not an… (desculpa, eu não sou uma…)
– Veuillez utiliser l’entrée du personnel. (Por gentileza, use a entrada dos funcionários.)
O concierge disse me conduzindo para sabe-se lá onde. Tentei me explicar em inglês, porém fui solenemente ignorada. Fui obrigada a gastar todo o francês adquirido em quase sete meses para me comunicar.
– Je ne… je ne suis pas… un employé (eu não sou funcionária) – o concierge parou para me ouvir pela primeira vez. – Je suis venu… rencontrer ma… copine(?). (Eu vim… encontrar minha… namorada).
– Votre copine est-elle une employée ? (A sua namorada é uma funcionária?)
O encarei confusa por um momento. De onde ele tirou essa história de funcionária?
– Não… non. Mac opine est invitée (não. Minha namorada é convidada) – o rapaz me olhou esperando que fosse continuar. – Elle est à un… événement ici. Son nom est Valquí… Valkyrie. Valkyrie Touchon. (Ela está em um… evento aqui. Seu nome é Valquí.. Valkyrie. Valkyrie Touchon).
– Touchon?
– Oui, Touchon.
Desconfiado, o concierge me conduziu a recepção. Cochichou algo com a recepcionista que me olhou de cima baixo e deu um sorriso falso. Eu sei que minha roupa está um pouco suja de tinta. É o que acontece quando se passa as últimas cinco horas pintando, mas o que eu poderia fazer? Eu não tenho outra para trocar.
– Bonsoir, mademoiselle. Je peux vous aider? (Boa noite, senhorita. Posso ajuda-la?)
Eu travei por um momento. A resposta não veio automática. Precisei lutar com as palavras em minha mente para formar uma frase e forçar um francês hesitante entrecortado pelo meu nervosismo e timidez.
– Oui… je… je cherche… ma copine(?)… elle est ici, pour… un… événement(?) (Sim… eu… eu procuro… minha namorada… ela está aqui… para… um… evento)
A recepcionista arqueou a sobrancelha com certo julgo velado, mas continuou.
– Le nom et prenom de votre amie, s’il vous plaît? (O sobrenome e nome da sua amiga, por favor?)
– Pardon?
– Le nom. Et prenome. De votre. Amie. S’il vous plaît? – Ela repetiu pausadamente para que eu pudesse entender.
– É Valquí-Valkyrie Touchon.
– Touchon?
– Sim… quer dizer, oui!
– Votre nom est-il sur la liste des invités ? Avez-vous une pièce d’identité ?
É o que?! Eu não entendi um nada que essa mulher falou e pela interrogação em minha testa, acredito que tenha percebido isso.
– Un document, s’il vous plaît. (Um documento, por favor).
– Ah, um documento.
Pelo menos as bobonas abatedoras de carteiras não abateram minha bolsinha e tinha meu passaporte comigo. Passaporte, bala, protetor labial, uns trocados aleatórios e o cartão da Val. Infelizmente o cartão da Val era só um pedaço de plástico preto com chip e zero dados escritos. Sem nome, sem número, sem data, sem nada. Se tivesse ao menos o nome dava para mostrar e falar que é a minha namorada, mas nem isso.
– Votre nom n’est pas sur la liste des invités, mademoiselle. Je ne peux pas te laisser entrer. (O seu nome não está na lista de convidados, senhorita. Eu não posso permitir que entre.) – A recepcionista disse pausadamente para que eu conseguisse entender cada palavra.
Como é que fala que eu fui roubada em francês? Eu não sei!
– Je ne… je ne veux pas entrer! J’ai oublié mon téléphone… Je ne peux pas… la contacter ( Eu não… eu não quero entrar! eu esqueci meu telefone… eu não posso… contatá-la)
A recepcionista respirou fundo, sem dizer nada. Ela virou para o lado, chamou o colega com um gesto sutil. Murmuraram algo entre si que eu não entendi nada, mas o tom era suspeito.
Poucos minutos depois, um homem um pouco mais velho apareceu. No seu crachá dizia ser o gerente do hotel.
– Vous recherchez un invité qui est présent à l’événement, n’est-ce pas ?
Confesso que entendi ainda menos o que ele disse, mas deduzir que estava perguntando se procurava por alguém. Então respondi com o que sabia;
– Oui… je cherche ma copine… elle s’appelle Valkyrie Touchon. (Sim, estou procurando a minha namorada. Ela se chama Valkyrie Touchon).
– Touchon?
– Oui, Touchon. (Sim, Touchon.)
Agora toda vez que eu falar o nome da minha namorada eles vão repetir o sobrenome igual eco, é? Eu hein.
– Je comprends. Mais malheureusement, sans votre nom sur la liste des invités, nous ne pouvons pas autoriser l’entrée.
Querido?! Será que você pode falar comigo como se fosse uma criança de cinco anos. Não entendi um baralho que ele disse.
– Vous pouvez… l’appeler ? S’il vous plaît ? (Você pode… chamar ela? Por favor?)
– C’est une question de confidentialité et de sécurité, mademoiselle (É uma questão de confidencialidade e segurança, senhorita)
– Ok, alors je t’attendrai. (Ok, então eu espero).
– Vous pouvez attendre dehors si vous le souhaitez. Mais ici, sans réservation ni autorisation, il n’est pas possible de séjourner.
Não entendi muito bem palavra por palavra que ele disse, mas sabia que era algo sobre não pode fizer aqui sem reserva ou autorização. Seu gesto quase me escoltando para fora também foi bastante autoexplicativo.
Eu não iria debater. Já gastei todo meu conhecimento em francês adquirido em quase sete meses que convivo com uma francesa. Valquíria não deve demorar a sair, eu vou esperar.
« V A L K Y R I E »
O esforço para não revirar os olhos ao avesso era surreal. Não teve uma única conversa, um único assunto que tivesse despertado meu interesse nessa tarde. Também não era como se estivesse interessados em me ouvir. Hélène fazia questão de falar por mim, pela empresa e tornar a situação muitas vezes constrangedora. No meio disso eu só sorria e acenava, isso quando não estava dando um gole no meu champagne.
– Você não está bebendo demais? – Minha mãe me questionou no canto.
– É o único jeito de sobreviver a esse lugar.
– Pois é melhor parar. Só porque não está dirigindo não quer dizer que pode beber sem limites.
– Irei anotar o seu conselho.
Aproveitei que o garçom passava por nós para virar a minha taça que estava prestes a acabar e trocar por outra cheia. Minha mãe me encarou furiosa ou séria… ou brava… ou feliz, ou sei lá… eu não entendo seus olhares quando estou sóbria. Não será bebendo que eu vou entender.
– Você continua rebelde como sempre, – ela balançou a cabeça e bebeu do próprio champagne.
Minha mãe me chama de rebelde, mas ela mesma é a ovelha negra da família. Meus atos de rebeldia não chegam perto do que foi Margot do velho testamento. Eu sou fruto disso.
– Já não era hora dessa oficina ter acabado? – Perguntei levemente irritada. – Se passaram seis horas e ainda nenhum sinal de Clarice.
– Ela provavelmente está bastante entretida e perdeu a hora.
Não, eu conheço a minha namorada.
Ela pode se distrair, se entreter com algo, ter hiperfoco em alguma coisa, mas seu corpo é fisicamente incapaz de esquecer não a mim, mas os seus tetês. A uma hora dessas esperava ao menos um comentário a respeito disso.
E sinceramente? Quem estava com saudades de ter o meu bebê em meus braços, sentindo o calor da sua boca contra meu peito, inalando o seu cheirinho de baunilha e lírios brancos, sou eu. Falo que Clarice é a viciada em leite, mas eu também sou viciada em a amamentar.
Foi triste jogar fora o que ordenhei essa tarde antes do evento, mas o que poderia fazer? Não tinha freezer por perto para armazenar, menos ainda uma Clarice para mamar. Para variar, descobri durante a minha consulta que estou hiperlactando e não tenho muito o que fazer a respeito senão esperar. Eu culpo a minha bebê. Ela tanto quis que tivesse leite que o resultado foi esse e eu que me lasque.
– Eu vou ligar para ela.
– Para onde vai?
– Um lugar mais calmo para falar.
– Aproveite que sua avó está distraída. Se for embora, me avise.
Por mais que Margot tenha me obrigado a estar aqui, conseguia ver pelo seu comportamento o total desinteresse nesse evento. Ela também está aqui pela pressão familiar. Talvez não fosse pela a internação da Hélène e sua atual situação delicada de saúde, minha mãe teria recusado por nós duas. Sinto que estamos as duas acorrentadas pela mesma situação.
Após a segunda tentativa de chamada cair em caixa-postal, eu não sabia se ficava preocupada ou brava com Clarice. Não me interessa que esteja entretida demais para se esquecer do seu celular. O mínimo que espero é que me responda com uma mensagem dizendo que não pode atender por agora. Dar satisfações não é uma cortesia, é uma obrigação.
No fundo eu sabia que deixar Clarice sozinha naquele museu não era uma boa ideia. Para a Margot pode ser okay, ela vê a minha namorada apenas como uma mulher adulta e capaz de cuidar dos próprios passos. Se soubesse do seu lado pequeno e como seus julgamento sobre perigo é comprometido por ele, aposto que também não iria concordar com a ideia.
Agora me sinto menos mal por ter colocado a airtag da mala no bolso da Clara sem ela saber. Por mais psicopata e stalker isso soe, meu coração dizia que a rastrear pelo celular ou o relógio poderia não ser o suficiente. E tive certa disso ao verificar no aplicativo a última localização da minha pequena.
À la station de métro ?! (Na estação de metrô?!)
O que essa petite peste foi fazer na estação de metrô há mais de quarenta minutos?! Quando foi que eu permiti sair do museu? Eu vou matar essa garota!
Estava prestes a ligar para o chefe de segurança da família quando lembrei de checar a última atualização da airtag também. Pode ser que esse tenha algo mais recente e mostre onde essa petite peste foi depois que entrou no metrô.
Para a minha surpresa, a airtag se conectou ao meu celular indicando estar menos de cem metros de distância. O que em outras palavras significava que Clarice estava aqui, mas ao olhar ao redor não a vi em lugar algum do saguão.
– Posso ajudá-la em algo, madame? – O concierge me abordou educadamente.
– Uh… acho que sim. Por acaso você viu uma moça mais ou menos dessa altura, cabelos loiros e olhos verdes por aqui? Ela está de roupa preta
O rapaz ficou pensativo por um momento. – Sim, acredito que vi alguém com essas características por aqui. Posso verificar com a recepção para a senhora.
O concierge foi buscar informação. Ouvi entre os cochichos deles o nome da minha namorada e algo como “estava lá fora”. Sem nem mesmo esperar pela volta do concierge, saí do hotel às pressas, furiosa. Sem saber ao certo com quem, mas furiosa.
Assim que saí, fui recebida pelo vento gelado. A temperatura havia caído bastante enquanto estava lá dentro, sem que eu percebesse. Estava prestes a seguir em frente quando um espirrou chamou a minha atenção, e lá estava o que parecia ser a minha namorada, distraída com as plantas que enfeitavam a entrada do hotel.
– Clarice?
« C L A R I C E »
Quando ouvi meu nome senti um mix de alívio e pavor.
Valquíria estava visivelmente aliviada em me encontrar e ao mesmo tempo brava, muito brava.
– Oi, docinho – sorri amarelo.
– O que está fazendo aqui? Por que está fazendo de baixo dessa friagem? Enlouqueceu, foi? Você tem asma, Clarice!
– Eu sei… é que…
Eu meio que não tive outra opção, sabe? Era esperar aqui ou chamarem a polícia para mim.
Val tirou o próprio casaco e me cobriu com ele, mesmo que isso significasse que agora ela estava exposta ao frio. – Seu rosto está rosado. Você pegando um resfriado de ficar aqui. Vamos já para dentro.
– Então, eu acho que não posso entrar.
– Por que não?
– Porque eles disseram(?) – Val me encarou confusa. – Eu não tenho reserva e nem sou convidada. Não tenho autorização para ficar no saguão.
A cara de Val ao ouvir minha justificativa me fez suspeitar que talvez dizer isso não tenha sido uma boa ideia.
– Comment ça, Clarice?! Eles te expulsaram de dentro do hotel?
– Não me expulsaram-expulsaram, eu fui convidada a me retirar. É diferente.
– Oh, oui. Muito diferente – ela revirou os olhos. – Vamos já para dentro!
Acho que a essa altura do campeonato você e eu já sabemos que discutir com a dona Valquíria é total perca de tempo. Eu sei que não posso entrar e ela estava pouco se *fedendo para isso.
Já esperei o momento que algum funcionário do hotel fosse me “convidar a me retirar” no momento que pisei no saguão outra vez, mas dessa vez recebi apenas olhares curiosos e surpresos em minha direção.
– Senta aí. Eu já volto.
– Onde você vai?
– Ora, o que mais eu poderia fazer? Te deixaram do lado de fora. Está nevando. Isso não vai ficar assim.
– Valquíria, pelo amor de deus, não vá arrumar um barraco, por favor.
– Eu não vou arrumar barraco, Clarice. Senta aí e não me estressa, por favor.
Disse ela arrumando barraco.
Valquíria respirou e o concierge estava ao seu lado com um sorriso amarelo e olhares preocupados em minha direção. Em cinco minutos que a vi conversar sabe lá o que, tive a impressão de que a minha namorada fosse a única pessoa no saguão, afinal, em um passe de mágica ela fez com que o gerente e outra pessoa acima dele brotassem rapidamente com seus discursos cheios de “pardon”.
Eu fiquei do sofá observando tudo e admirando a postura da minha mulher. Mesmo brava e reclamando muito, ela estava tão elegante e a ouvir em francês a deixava ainda mais sexy que o usual. Por um momento deu vontade de ser xingada por ela em francês de tão “uau”.
Sem dúvidas, o tratamento pós descobrirem que de fato sou namorada da Val foi totalmente diferente. Não só me ofereceram uma bebida quente, como trouxeram uma manta para me aquecer enquanto aguardava no sofá. Por um momento pensei que fossem me oferecer um pulmão novo também.
Após longos dez ou mais minutos de reclamação e conversa, Val me chamou para me juntar a ela na conversa com o – pasmem – presidente do hotel.
– Mademoiselle, je tiens à vous présenter nos excuses les plus sincères au nom de toute l’équipe (Senhorita, gostaria de lhe oferecer nossas mais sinceras desculpas em nome de toda a equipe.) – o presidente disse e atrás dele estavam os três que me atenderam mais cedo, todos com um olhar de “profundo” arrependimento.
– Elle ne parle pas français (ela não fala francês).
– Excuses acceptées. Être dans le froid n’était pas… une expérience agréable, mais le chocolat chaud… était délicieux. (Desculpas aceitas. Ficar no frio não foi uma experiência legal, mas o chocolate quente estava uma delícia.)
O presidente riu e sorriu simpático. – Nous comprenons que votre expérience ait pu être douloureuse et nous nous en excusons profondément. Soyez assuré que des mesures seront prises immédiatement pour que cela ne se reproduise plus.
Sorri com cara de paisagem sem entender muito bem o que foi dito. Vai com calma, pera lá.
Entendi que compreendia como me senti e algo sobre fazer alguma coisa para não se repetir. Ou sei lá… eu não estava preparada para um discurso inteiro e meu cérebro parou no meio do caminho.
– Je suis heureux que vous ayez apprécié notre chocolat chaud. Puis-je en proposer un de plus ? – Ele acrescentou quebrando o pequeno silêncio que se formou.
Olhei para a Val confusa, ela sorriu para mim. – Elle prendra un autre chocolat chaud. (Ela vai aceitar outro chocolate quente) – respondeu por mim e eu entendi muito bem.
Chocolate quente!
Eu não tinha entendi que ele ofereceu chocolate quente, mas pela resposta da Val foi o que pareceu e eu estava muito feliz por isso.
Enquanto aguardávamos a bebida, Val me encarou curiosa e com um sorriso bobo no rosto.
– Desde quando fala francês, ma vie?
– Eu não falo francês, eu arranho um pouco de tanto de ouvir falar, fazer duolingo e estudar alguns conteúdos aleatórios no ônibus.
– Por que não comentou que estava estudando? Eu poderia te ensinar.
Não é por nada não, mas imaginar a minha mulher dando aula… acho que lecionar não é o seu forte. Ela não tolera erros.
– Não era nada demais.
Nossa conversa foi interrompida com a chegada da minha sogra. Ao lado dela estava outra mulher, uma senhora. Uma cópia idêntica da Margot. Será que a família inteira da Val é loira e olho azul exceto por ela e o pai?
– Pourquoi ne m’as-tu pas prévenu avant ? (Por que não me avisou antes?)
– C’est résolu, ne t’inquiète pas. (Está resolvido, não se preocupe).
– Où est Henri ? J’ai entendu dire qu’ils l’avaient laissé dehors. Comment va-t-il ? (Onde está o Henri? Soube que o deixaram do lado de fora. Como ele está?) – A velha perguntou.
– Il n’y a pas d’Henri ici, grand-mère. (Não tem nenhum Henri aqui, vó) – respondeu a Val.
Quem é Henri?
– Ta mère a dit que ton petit ami était dans le coin. (Sua mãe disse que seu *pequeno amigo* estava por aqui).
– J’ai dit petite amie (eu disse *pequena amiga*) – corrigiu Margot.
Eu fiquei mais confusa que cego em tiroteio. Por que estavam falando que pequeno amigo? Estávamos falando de uma little? Eu era a little? Elas sabem disso? Por que elas sabem disso? Valquíria eu te mato se for isso!
– Grand-mère, voici Clarice. Ma petite amie. (Vó, essa é a Clarice. Minha *pequena amiga*).
Olhei para Val, para a provavelmente Hélène e para a Val outra vez. Por que ela me apresentou como sua pequena amiga?
– Petite amie? Une femme? Es-tu en couple avec une femme, Valkyrie? (Pequena amiga? Uma mulher? Você está num relacionamento com uma mulher, Valkyrie?) – Hélène fez uma cara de desgosto e mesmo sem entender ao todo, seu rosto deixava evidente que não estava nada feliz em me conhecer. – C’est tout ce dont j’avais besoin… est-ce réel? Ou est-ce que tu inventes une histoire juste pour me provoquer ?
A segunda parte eu não entendi muito bem. Ela estava questionando se era uma invenção para a provocar? E por que “petite amie”? Eu não sou só uma amiga, sou?
– Clarice et Valkyrie sont ensemble depuis longtemps. Et j’approuve leur relation. Je n’accepterai pas de critiques. (Clarice e Valkyrie estão juntas a bastante tempo. E eu aprovo o relacionamento delas. Não vou aceitar que critique) – Margot respondeu firme.
– Le savais-tu, Margot ? C’est absurde !
“*alguma coisa*, Margot? Isso é um absurdo!” era assim que meu cérebro estava entendo as coisas. O olhar da velha estava me deixando nervosa a esse ponto. Que insuportável. Absurdo vai ser a minha mão na sua cara.
– Je comprends pourquoi ils ne l’ont pas laissée entrer (entendo porque eles não a deixaram entrar)…
É o que velha desgraçada?!
Hélène me encarou com julgo, mas seu olhar era diferente. Era um olhar capaz de te fazer sentir inferior e pedir desculpas por existir. E não, isso não era porque eu não era uma Touchon ou sei lá o que. Esse efeito não era só em mim…
Quando olhei para a Val, vi em seu rosto a mesma expressão do dia que encontramos o Pedro Henrique na obra. Pela segunda vez, sua áurea auto confiante e segura de si se esvaiu restando apenas o medo e insegurança.
Ver minha namorada assim me encheu de raiva e ódio. Eu não conhecia Hélène, mas já a odiava. Pelo visto aguentar essa velha não será uma tarefa fácil, especialmente quando faz tanto mal ao meu docinho.
Haja auto controle e paciência para não dar um tapa na cara dessa bruxa velha!
«-»
Gostou? Não esqueça de comentar! Até a próxima…
Au revoir!
