« V A L K Y R I E »
Eu deveria imaginar que, para um dia em Paris, tudo estava indo relativamente fácil e bom demais para ser verdade. Minha desconfiança se confirmou logo assim que chegamos em casa. Eu levei Clarice que dormia como uma pedra para o quarto, aproveitei a ocasião para lhe vestir uma fralda-calça e colocar algo em seu pé “machucado”.
Quando finalmente tivemos um momento para tratar dos assuntos pendentes. Pensei que finalmente falaríamos do Pedro Henrique e seus planos sem noção, ou o fato da minha grand-mère querendo planejar a minha festa de casamento de um noivado que nunca irá acontecer. Mas sequer tivemos oportunidade para tal. Era claro que a senhora minha avó não me daria 24h de paz e já teria aprontado outra nesse meio tempo.
– Evento de trabalho?! Mas nem fodendo! Eu não vou.
– Valkyrie…
– Mãe, eu não vim até aqui para ficar atendendo as vontades da Hélène. Se ela quer alguém para a acompanhar, por que não chama a Juliette? Ainda mais para trabalhar… eu estou de recesso!
– Não é a Juliette que os contatos dela querem conhecer. Sua avó está determinada em ampliar os negócios e trazer relevância para a empresa na Europa outra vez.
– Eu não poderia me importar menos. O meu trabalho é nas Américas, salvo pouquíssimas exceções. Por que raios eu preciso estar em um evento aqui? Quem decidiu fazer a ruptura foi ela, não eu.
– Eu entendo que esteja revoltada com a situação, eu também não concordo – minha mãe respondeu. – Porém, dessa vez, eu preciso que colabore comigo. Sua avó acabou de sair do hospital e não pode se estressar.
– E para isso vocês decidiram me estressar?
– Ao menos isso, Valkyrie. E depois do evento de amanhã, não precisa se preocupar. Eu irei acompanhar a sua avó de perto para evitar que isso se repita.
– Eu não estou disponível amanhã. Sinto muito.
– Serão só algumas horas.
– São só algumas horas em um período que eu não estou disponível, – cruzei os braços e desviei o olhar revoltada com a situação.
Minha grand-mère simplesmente decidiu tornar a minha vinda a Paris e período de recesso em viagem de negócios. E sem se dar o trabalho de ao menos me consultar, confirmou a minha presença em um evento como convidada especial. Tem noção do que é pegar seu celular e se deparar com notificações de e-mail e mensagens no Linkedin de pessoas que estão contentes em poder te encontrar num evento que você nem tinha conhecimento? Eu estou muito puta.
Um evento com recepção e jantar! Isso nunca será só algumas horas.
O que mais me revolta, é que tudo isso é para melhorar o desempenho dos trabalhos na Europa. Em resumo, usar a minha reputação e o meu trabalho para dar lucros a um escritório que eu não me importo tanto assim… bom, pelo menos não mais. Não que eu seja uma pessoa rancorosa ou algo assim, é só que, eu basicamente fui “demitida” pela minha própria avó quando fui diretora do escritório em Paris. Depois disso voltei para o Brasil e passei a me blindar das cobranças excessivas de Hélène sendo apenas “mais uma arquiteta”.
Claro que ainda tenho um chefe para me encher o saco e fazer cobranças, mas muito melhor ter o Alfredo querendo resultados que minha grand-mère. E convenhamos, a minha mãe não poderia se importar menos com o desempenho e lucratividade desse escritório. A empresa pertencia ao meu avô junto com seu amigo e sócio e teoricamente deveria ser herança dela, porém Hélène decidiu que não seria mais depois que se casou com meu pai.
Esse é um dos motivos pelo qual eu acredito muito no amor dos meus pais. Margot aceitou abrir mão da sua herança para seguir com o seu casamento, mesmo isso significando uma mudança radical no seu padrão de vida. Ela só não ficou sem teto porque meu avô – com dó – deu o terreno de Épernay para a minha mãe. Terreno esse que era praticamente abandonado desde que meu bisavô faleceu e há anos não colhia uma uva sequer de lá, mas que eventualmente apareciam pessoas interessadas em comprar.
Acho que todo mundo pensou que minha mãe fosse vender e usar o dinheiro para comprar algo em Paris. Ninguém contava que meu pai era engenheiro agrônomo e fosse transformar aquilo ali no que é hoje. Ou que a minha mãe fosse recuperar tudo que perdeu e compraria parte das ações da construtora outra vez só para impedir que certas pessoas levem a empresa que um dia foi do seu pai à falência.
Quanto a herança… ela seria da tia Emma, mas ela faleceu há pelo menos vinte anos. Como a minha mãe está “fora de jogo”, teoricamente eu seria a única herdeira. Mas Hélène quer deixar para Juliette por ter certeza que quando morrer, a “família” irá a deixar desamparada e blá-blá-blá…
E se você não entendeu ainda. Se Hélène é sócia majoritária da construtora em Paris e irá deixar sua herança para Juliette. Por mais que minha mãe tenha uma parte ínfima das ações, todo esse trabalho será para enriquecer quem? Uma dica: não sou eu.
Mas… eu sei que eu não tenho escolha.
Se eu não for no evento amanhã, Hélène ficará furiosa e irá reclamar disso até a próxima reencarnação. Ou querer se vingar dificultando a vida de todo mundo no escritório no Brasil para me afetar. Se não bastasse isso, tenho medo que acabe de alguma forma usando isso contra a Clara. Minha avó conseguiu afastar todos os meus namorados, exceto pelo Pedro Henrique. Não que essa seja uma preocupação constante na minha cabeça, mas é impossível não pensar que poderá tentar afastar a minha Clarice também.
Não quero parecer arrogante e nem tomar como certo o amor da Clarice por mim. A Hélène, quando quer, consegue transformar a vida de qualquer pessoa em um verdadeiro inferno e tormento. Às vezes, mesmo amando profundamente alguém, é necessário se colocar em primeiro lugar e priorizar a si mesmo. Nem todo mundo está disposto a enfrentar esse tipo de situação para manter um relacionamento e não há nada de errado com isso. Por mais que eu ame a minha avó, reconheço que me mudar para longe e me afastar dela foi o melhor para nós duas. Seria melhor a cortar totalmente da minha vida, isso é um fato. Mas ela ainda é a minha avó e não tenho essa opção… já a Clarice…
Fechei os olhos e balancei a cabeça discretamente para me livrar do pensamento. Quando os abri, me deparei com o par de olhos azuis me encarando confusa parada do corredor. Não julgo a confusão da minha namorada. Ela dormiu todo o trajeto para casa e de repente acordou na cama, provavelmente despertada com a nossa conversa calorosa.
– Vem cá, ma vie – eu a chamei, a convidando para um abraço. Clara veio para os meus braços sem pensar muito e me apertou. – Você está bem? – Perguntei baixinho estudando suas afeições, ainda em dúvida se estava em seu pequeno espaço ou fora dele.
– Tô. O que está acontecendo? Por que está brava?
Nem pequena, nem grande. O meu amor estava ali, bem no meio esperando para ser empurrada por um dos lados.
– Clarice, que bom que acordou. Quer se juntar a nós para um chá? – Minha mãe a convidou.
– Ela não vai gostar muito do chá, – me adiantei. – Vou preparar um chocolate quente para ela na cozinha, – me virei para Clara, segurei seu rosto entre as mãos e dei um beijo na testa. – Fica aí, eu já volto.
Sinceramente não sabia qual seria a reação da Clarice quando soubesse que, mais uma vez, teria que a deixar durante a viagem por causa da minha avó. Principalmente quando essa ausência também significava a possibilidade de cancelar nossos planos de amanhã, o que eu não quero fazer e por essa razão estava furiosa com a minha mãe por abaixar a cabeça e simplesmente concordar com as loucuras da mamie.
E pensando nisso, pensei que um copo de leite a deixaria de bom humor. Espero… o que eu vou ter que fazer para compensar essa garota não está escrito. Estou muito ferrada, isso sim.
Clarice me encarou confusa quando voltei da “cozinha” e entreguei a caneca com o seu “chocolate quente”. Ela provavelmente esperava um liquido marrom e recebeu algo branco. Antes que dissesse algo, a fiz dar o primeiro gole quase levando a caneca a sua boca eu mesma.
Seus olhos brilharam ao se dar conta do que bebia. Ainda está para existir alguém que goste mais de leite – o meu – que a Clarice.
-Agora era só me sentar ao seu lado no sofá e fingir naturalidade.
– Eu estava comentando com a Clara sobre o evento de amanhã, – minha mãe me “introduziu” ao assunto da conversa. E não, eu não estava nada contente que já tenha falado a respeito para a minha namorada sem que eu estivesse por perto, ainda mais quando eu mesma não confirmei que ia. – Ela não vai se importar se for.
– Mas eu me importo.
– Pelo o que sua mãe falou, será só algumas horas. Está tudo bem se tiver que ir. Você pagou pela oficina de artes amanhã, eu vou ficar bastante distraída enquanto estiver ocupada.
– Você vai participar da exposição? – Minha mãe perguntou genuinamente interessada.
A construtora de Paris não é o empreendimento mais lucrativo da Margot; suas galerias são. Embora não seja uma artista, sua fama pelo mundo por sua excelente curadoria tornam as suas exposições e leilões em eventos bastante esperado pelos entusiastas da arte. Então sim, minha mãe está deveras interessada no talento da Clarice e sinto que logo mais, terei que disputar para manter a minha namorada trabalhando comigo, pois dona Margot com certeza irá tentar a convencer trabalhar para ela.
– Acho que sim, – Clarice respondeu tímida. – Talvez. Sei lá.
– O hotel do evento fica a duas quadras do museu. Acompanhar a sua exposição não será um problema, – esse foi um dos raros momentos em que minha mãe deu um sorriso que durou tempo o suficiente para ser notado antes de dar um gole no seu chá.
Com Clarice sendo demasiado compreensiva, não me restou outra opção senão aceitar ir ao evento. Também aceitei por querer encerrar o assunto o quanto antes e despachar meus pais de volta para a casa deles. Não que eu não os ame ou não goste da companhia, nada disso. Mas eu estava vendo minha neném querendo vir e se segurando ao máximo para não escorregar na frente dos dois.
Ainda conversamos um pouco sobre os planos de natal antes dos dois decidirem caçar o próprio rumo e finalmente dar o merecido tempo a sós para Clarice e eu. Já estou sentido como será em Épernay com todo mundo junto para a ceia de natal. Ainda bem que minha família tem o costume de passar a véspera junto e o natal em si cada um vai para sua outra família. Ou seja, ficará apenas nós quatro por lá e apesar não ser a mesma coisa de estar a sós com a minha neném, é mais fácil de controlar o caos.
Na pior das hipóteses, eu deixo os dois constrangidos falando que irei ter um momento intimo com a minha namorada e os mantenho longe por tempo suficiente.
– Você sabe que está tudo bem, né? – Clara reafirmou assim que sentamos no sofá outra vez. – Eu não te acompanho porque eu não saberia me portar nesse ambiente e não seria de bom tom ser vista com a sua estagiária em um evento de negócios em outro país.
– Você não veio para cá como a minha estagiária. Você veio como a minha namorada, minha bebê, meu amor.
– É? Eu gosto de ser sua namorada, bebê e amor – ela se jogou para cima de mim no sofá. – Está friozinho, né? Um chocolate quente até que cairia bem.
A encarei surpresa. – Você quer chocolate quente? Eu faço para você.
– Val… estou falando do seu chocolate quente – Clara acariciou meu seio por cima da roupa. – O que está no meu tetê. Não fui literal.
– Quer tomar um banho, trocar de roupa e ficar de preguiça na cama?
– Não precisa nem perguntar.
Clara se levantou e me ofereceu a mão.
Se não fosse pela péssima escolha de vestido, poderíamos ficar pelo sofá mesmo. Mas eu definitivamente precisava me trocar se quisesse amamentar minha bebê por hoje.
Ainda era cedo, mas depois do demorado banho, vestimos pijamas. Posso dizer que fazia anos que não usava outra coisa que não fosse camisola, então vestir uma calça comprida e camisa de botões foi estranho, mas combinar com a minha namorada era fofo.
– O que você quer assistir?
– Bluey! Bluey! Bluey! – Clara respondeu empolgada se enfiando de baixo da coberta da cama. – Coloca aí, maman… por favorzinho.
– Você gosta mesmo desse desenho, não é mesmo?
– Uhum! Eu amo a Bluey e a Bingo!
Me juntei a ela após ligar a televisão no desenho que pediu. Clarice rapidinho se aninhou em meus braços, pegou a minha mão passou por seu corpo para que eu a envolvesse.
– Fica assim, maman – ela disse em seu tom autoritário de pequena. – Agora me dá beijinhos.
– Ah, é assim que você fala com a sua maman?
– Uhum! A maman agora é minha!
Não deveria deixar esse neném dar ordens assim, mas meu coração derreteu todinho e no momento só quero afundar o rosto na minha bebê.
– Oui, ma vie. A maman é sua. Vamos assistir o seu desenho.
Eu já me considerava velha demais para assistir desenhos, mas gostei de ficar agarradinha com a minha Clarice assistindo as brincadeiras de Bingo e Bluey. Minha parte favorita era quando a minha neném dava gostosas gargalhadas e aquecia meu coração.
O desenho segurou a atenção da minha petite por um tempo considerável e surpreendente. Por um momento pensei que havia se esquecido do que me pediu mais cedo, mas de repente senti suas mãozinhas invadindo meu pijama sem pedir licença e daí para ter um neném pendurado no meu peito foi duas piscadas de olhos.
– Você está com sono, não é meu amor? – Fiz um cafuné nas suas madeixas loiras. – Pode fechar os olhos, ma petite. A maman vai estar aqui quando acordar.
– Te amo, ma.
– Eu sei. Eu te amo também.
Ainda sem sono, eu fiquei observando a minha bebê mamar de olhos fechados, se segurando para não dormir. Clarice disse que eu sou dela, mas esse neném também é todo meu.
E não será Hélène e seu humor que irá mudar isso.
« C L A R I C E »
A umidade entre minhas perninhas me fez acordar. Eu num gosto de friaca e ‘tava tudo geladinho.
Tentei me livrar da fraldinha, mas ‘tava difícil. A perna enorme da maman em cima de mim também não ajudava nadinha. É sério, a maman poderia facilmente ser o Pernalonga do Looney Tunes. A perna longa ela já tem.
– Maman?! – Tentei a acordar e o resultado foi um abraço mais apertado. – Mami. Deixa eu…
Ainda em seu sono, a maman me puxou pela nuca para mais perto do seu peito me forçando a mamar. A maman tinha uma mania de querer me calar com o tetê sempre que lhe convém. Eu não reclamo porque um tetezinho é sempre bom, mas não vou cair nessa não. Eu quero sair!
– Maman…
A maman resmungou algo que eu não entendi nadinha e deu o tetê na boquinha outra vez. Tentei falar de novo e o tetê começou a vazar algumas gotinhas. Não tive outra escolha senão lidar com elas. Só que, ao lidar com as gotinhas espaçadas, agora tinha um montão delas pingando sem parar.
Demorou um pouco para conseguir controlar a situação. De manhã é o horário que o tetê da manhã está mais cheio e precisa mais trabalho do neném para esvaziar. Estava indo para o outro lado quando senti um líquido quente encher ainda mais a minha fraldinha já usada.
– Maman!
Tentei a acordar mais uma vez, mas a maman não quis acordas, mais uma vez fui forçada contra o peito e por mais que o tetê fosse bom, eu não queria agora. Agoniada e desconfortável com a fraldinha, minha única solução para recusar o tetê e acordar a maman foi mordendo ele.
– Putain! Clarice! Qu’est-ce qui t’arrive? (O que deu em você?).
– Você não quis me ouvir…
– E aí você achou de bom tom me morder? Isso dói!
– Desculpa, maman.
– Desculpas não será o suficiente, mocinha. Você está sem tetê por tempo indeterminado! – A maman analisou o próprio peito e balançou a cabeça negativamente. – Que dentinho filho da pu… você tem sorte que não vai começar o dia com o bumbum ardendo.
– Não… palmada não!
– Se fizer birra será exatamente o que irá acontecer. Que horas são? – A maman pegou o celular sobre a mesinha. – Ainda não são nem sete da manhã, Clarice. O que você quer afinal? Era para você estar dormindo!
– Mas é que… é que… é que…
Eu não consegui continuar a frase com medo de irritar ainda mais a minha maman…
Se antes já estava ruim, agora de fraldinha molhada e sem tetê estava pior ainda. Queria arrancar de mim essa sensação desagradável, mas agora a maman estava brava e num iria querer ajudar o neném.
A vontade de chorar subiu a garganta e foi mais forte que eu. Não aguentava mais essa agonia e a cada segundo que passava presa na fralda úmida me deixava ainda mais miserável.
– Okay… isso não é um choro de manha, – a maman me envolveu nos braços e me observou preocupada. – O que foi, hein? Por que está chorando?
Eu não sei o que deu em mim que ao invés de falar o que estava acontecendo, eu me entreguei a um choro ainda mais sofrido me agarrando ao pijama da maman. Era como se as palavras ficassem presas na garganta e a única coisa que escapava eram meus soluços e as lágrimas.
– Bébé? Qu’y a-t-il, mon bébé ? Que s’est-il passé ? (Bebê? O que foi, meu bebê? O que aconteceu?). Isso não é só pelo castigo, é? Eu conheço seus choros, isso não é birra. Está me deixando preocupada.
A maman se sentou na cama me mantendo em seus braços. Eu não entendi muito bem o que ela estava fazendo ou o que estava procurando em mim, mas em algum momento sua atenção foi para entre minhas pernas e soube que ela descobriu meu sofrimento ao apertar de leve a minha fralda.
– Oh, meu amor. Então é isso que está te incomodando? Calma, bébé. Não precisa chorar, a maman vai resolver isso! Eu vou trocar essa fraldinha, d’accord? Fica aqui um pouquinho, eu já volto. Está bem?
A maman levantou da cama me deixando sozinha. Não queria que fosse para longe de mim, mas a sua ausência durou pouco. Logo em seguida ela voltou com um monte de coisinhas nas mãos.
– Aqui, meu amor. A sua chupeta, vai te ajudar a se acalmar um pouco. – A maman deu a pepeta na boca sem dar chances para recusar.
Usar pepeta me faz sentir beeem mais envergonhada. É bom, mas… o que a maman vai pensar de mim? Ainda mais de fraldinha… e se ela… e se ela… e se ela num quiser mais a Clarice? E se ela decidir que quer amar alguém que não usa pepeta e fraldinha?
– Parece que esse neném dormiu um sono gostoso essa noite, – ela disse soltando as tiras da fralda. – É a primeira vez que vejo usar tanto assim a sua fraldinha. Agora entendo porque estava tentando me acordar, não deve ser nada confortável ficar com a fraldinha cheia.
Sinto minhas bochechas queimarem de vergonha. A maman precisa falar isso em voz alta? Eu quis sair correndo para me esconder, mas mesmo que eu tentasse, minhas pernas não iriam me obedecer agora.
– Eu sei que está ruim, bébé. A maman já está cuidando disso. Se acalme, por favor. Não precisa chorar.
A maman terminou de me limpar com as toalhinhas e embrulhou na fraldinha suja para descartar. Logo em seguida, ela trocou por uma fraldinha sequinha e limpinha.
Depois de passar a pomadinha e polvilhar o talco, a maman fechou a fraldinha nova. Ainda tive que esperar uns minutos enquanto ela colocava todas as coisinhas de volta no lugar e lavavas as mãos. Mas dessa vez eu não chorei. Esperei sentadinha na caminha e bem quietinha para não a aborrecer mais.
– Bem melhor agora, não é mon amour? Sequinha e limpinha outra vez, – ela me deu um beijinho na bochecha e se sentou na beira da cama. – Você ainda pode dormir mais uma horinha se quiser. O que acha? Voltar a mimir ou vamos começar o dia? – Me joguei para frente deitando no colinho da maman e ela riu fazendo cafune nos meus cabelos. – Vou entender isso como sim para dormir.
– Tetê?
– O seu castigo continua, ma vie. Mordeu o tetê, perdeu direito de acesso a eles. Eu vou te fazer uma mamadeira.
– Mas maman…
– Sem birra, mocinha. Você não irá querer que eu prolongue esse período, quer? – Balancei a cabeça negativamente. – Boa menina. Eu vou a cozinha, enquanto isso assista um episódio de Bluey. Eu não demoro.
Queria reclamar do castigo injusto e cruel da maman, mas confesso que me distraí no momento que começou a abertura do desenho na televisão. E de fato, quase no finalzinho do episódio, a maman voltou para cama com uma mamadeira.
– Você não está esperando que eu vá segurar a mamadeira para você, está?
– Por favorzinho, maman? Eu te amo montão!
– Para só um bebê, você sabe mesmo jogar sujo – ela virou os olhos e me deixou deitar contra o seu corpo. – Você é um neném muito mimado, sabia?
Recebi uns beijinhos no pescoço que me fizeram gargalhar de cosquinhas.
– Num faz isso maman… quero vê.
– Não se acostume com isso mocinha. Você não vai ter telas a sete da manhã todos os dias.
A maman me tirou o acesso ao tetê, mas a minha mamadeira tinha o seu leitinho. Não era a mesma coisa, mas era melhor que nada.
Parece que já faz um tempão desde que a maman começou a ter o leitinho, mas a verdade é que ainda são poucos dias e eu não estou acostumada. Tenho medo que, da mesma forma que tudo começou de repente, acabe da mesma forma e eu fique sem. Eu vou ficar tão, tão, tão, tão, tão, tão, tão, triste quando o leitinho acabar. Acho que é por isso que eu quero tudinho para mim. Só para mim. E eu espero recuperar o meu direto de acesso logo.
Não é justo a maman tirar o meu tetê de mim quando finalmente tenho leitinho para aproveitar!
E apesar de não ser direto do tetê, o efeito sonífero do leitinho foi igual. Em algum episódio de Bluey, eu dormi. Acordei com os beijinhos da maman no meu pescoço.
– Mon bébé, acorda. Já está na sua hora de levantar.
– Só mais um pouquinho, mama.
– Prometo que amanhã te deixo dormir até tarde, mas hoje nós temos horário. Eu preparei um prato cheio de frutinhas para você… com bastante banana…
– Nanana?! Eu quero!
Levantei da cama quase que em um salto. Eu amo frutinhas, principalmente banana. Banana é bom demais! Eu amo bananinha!
Sabe o que é melhor que bananinha? Bananinha cortadinha e Bluey!
– Você tem trinta minutos para tomar o seu café da manhã, estamos entendidas? Não vá se distrair e esquecer de comer, okay?
– Você num vai papar com eu?
– Não, ma vie. Eu preciso fazer o meu ioga para me preparar para o dia de hoje. Você não quer a sua maman brava, quer?
Balancei a cabeça para um lado e para o outro. – Não mesmo! A maman é chata demais quando está brava.
– Chata demais, é?
– É, maman. Você tem que fazer o seu ioga para ficar na paz e devolver meu tetê.
– Não será tão fácil assim, petite. A sua mordida ainda está doendo. E enquanto doer, você não terá o seu tetê.
– Você é maldosa.
– Uma maman maldosa não iria deixar você assistir Bluey enquanto come o café da manhã. É melhor aproveitar caladinha antes que eu mude de ideia.
A maman anda muito maldosa e cruel… num tô gostando disso não.
Eu vou bater em todo mundo que tá deixando a minha maman chata… menos em mim!
O bom do sofá é que, diferente da cama, o Chloée pode ficar juntinho comigo sem problemas ou possíveis castigos. Ele gosta montão de assistir Bluey também. Ou seja, era perfeito!
– Quer moranguinho? – Ofereci para o Chlô e ele mordeu um pedaço. – É bom, né? Quer mais?
O Chlô aceitou e comeu outro pedaço. Como era possível algo ser tão fofo apenas mastigando um pedaço de morango? O Chlô era!
Aproveitei para pegar um pedaço de manguinha para mim e outro moranguinho para o Chlô. Me distrai observando o meu filho virando a cabecinha para pegar a frutinha que acabei deixando cair a manga no meu pijama.
– Vixi… sujou.
Antes que fizesse mais sujeira ou fosse parar no sofá, eu peguei o pedaço de manga e comi. O Chlô pareceu interessado na fruta e eu dei um pedacinho para ele também.
Por fim acabamos dividindo quase todas as frutas, menos kiwi. O Chlô não gostou do kiwi.
– Banana é bom, ó. Prova! – Estendi o pedaço de banana para o Chlô morder um pedaço. Ela pareceu gostar.
– Clarice Mansur! – O susto que levei com o grito da maman quase me fez jogar o resto das frutinhas para o alto. – O que você pensa que está fazendo?!
Ué, a maman não estava fazendo ioga? N’era para ela sair em paz? Por que ela já está brava quase cuspindo fogo?
– Assistindo desenho(?).
– Comendo com o cachorro? Você enlouqueceu? Nem pense em colocar isso na boca.
– Mas… é a minha bananinha… o último pedacinho.
– Eu não quero saber, você não vai colocar na boca algo que o cachorro também mordeu.
– Mas é banana! Eu quero banana!
– Clarice… – A maman chegou mais perto e estendeu a mão para mim. – Me dá isso.
– Não.
– Agora.
Era o meu último pedacinho de banana e estava docinha. Não era justo a maman querer tomar de mim só porque o Chlô mordeu um pedacinho. A bananinha é minha! Minha!
Eu estiquei a mão para dar o pedaço para a maman e no último instante coloquei na boca.
– Clarice! Cospe isso! – A maman tentou segurar meu rosto forçando abrir a boca, mas eu fui mais rápida e engoli. – Oh, mon dieu! Quel dégoût! (Oh, meu deus. Que nojo!).
Levei um susto quando a maman me pegou de baixo do braço e me arrastou para o banheiro as pressas como se tivesse engolido veneno.
– Enxagua essa boca. Agora! – Ela acrescentou assim que mostrei um resquício de hesitação.
Enxaguei a boca com água e cuspi na pia achando que acabaria aí, mas não. Logo em seguida a maman segurou meu rosto e me surpreendi ao ver uma escova de dente vindo em minha direção.
– Eu não posso te deixar sozinha dez minutos e é isso que me apronta? Compartilhando comida com o cachorro, Clarice? O cachorro!
A maman que não fez cara de nojo nem para trocar a minha fralda, agora estava olhando para mim como se tivesse comido o que o gato enterra na caixinha de areia e escovando meus dentes como tal.
– Por mais que o senhor Chloée escove os dentes, ele ainda usa a língua de papel higiênico. Você não deve comer o que ele coloca na boca! Agora cospe e coloca a língua para fora.
Te juro que se eu fosse no dentista depois da escovada que levei, receberia todos os elogios do mundo. Se não bastasse escovar meus dentes uma vez, a maman me fez usar enxaguante bucal e depois escovou meus dentes de novo usando uma escova nova. A anterior ela fez questão de jogar no lixo.
Exagerada? Isso é pouco perto da dona Valkyrie.
– Se eu ver você compartilhando comida com o Chloée outra vez, um dos dois será obrigada a mudar de país.
– Quem?
A maman revirou os olhos. – Não sei. O que for mais arteiro.
Vixi, eu me ferrei. A maman vai me mandar para longe!
– Você vai dividir comida com alguma animal de novo, dona Clarice?
– Não, nunquinha! Minha comida agora é só minha comidinha!
– Nem vou perguntar se já fez isso antes. Prefiro não pensar que um dia já me beijou depois de comer com o cachorro.
Fiquei pensativa por um momento. Eu já dividi comida com o Chloée antes?
– Ah, meu deus, Clarice! Você está realmente tentando se lembrar?!
– Sim…, mas eu nunca dividi nada com o Chlô. Só com você… espera aí, ainda pode dividir comida com você?
Ela estreitou o olhar. – Eu não sou um animal.
– Você é uma gatinha.
A maman respirou fundo. Acho que contou até três… ou talvez cinco. Ou dez…
– Depois dessa acho melhor ir tomar seu banho.
– Qual é? Você não gostou? Foi boa, vai…
– Banho, Clarice.
Droga… a maman não curtiu minha cantada. O que será que eu faço para conquistar essa mulher e recuperar meus tetês?
Palavras não bastam… será que devo fazer algo mais? Mas o que? Eu tenho poucas horas para pensar e bolar um plano. Preciso aproveitar enquanto ela estiver ocupada demais com os negócios para ficar rastreando meus passos.
Por fim, até que esse evento veio em boa hora…
“gvf]~~~~~~~~~~~m2qw6q fgr jkkkkkkkkkkkkkkkkkoiiiiiiiiiiiiiiii 7” – Jacquin, Erick.
Compilado de escritos de Erick Jacquin em diferentes ocasiões e que a Dora Aventureira mandou deixar.
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Gostou? Não esqueça de comentar! Até a próxima…
Au revoir!
