« C L A R I C E »
Acordei de repente ao engasgar com um líquido estranho no fundo da garganta e comecei a tossir sem parar por reflexo. A sensação era horrível, como quando engasguei com bolinho e a maman me salvou.
– Calma, bebê. Devagar, por favor.
Todos os meus músculos enrijeceram ao ouvir essa voz. Abri meus olhos apavorada e me arrependi no mesmo instante. A luz exageradamente clara despertou a minha dor de cabeça, a fazendo explodir. Dói, dói, dói, dói, a cabeça do neném dói.
– Ainda está dodói sua cabecinha, amor? Você vai ficar melhor depois que mamar. Vamos, princesa. Só um pouquinho para a bebê melhorar.
De repente senti algo ser colocado na minha boca e no desespero empurrei a mulher para longe e me afastei. Mesmo com dor de cabeça, abri os olhos e quando olhei para o meu lado e vi aquela mulher loira com seio escorrendo leite, me dei conta do que aconteceu. Meu coração disparou, senti meu rosto queimar e minhas mãos tremerem.
A maman… eu… eu… eu traí a maman? Eu traí a maman. Eu traí a maman!
– Ei, bebê. Calma… respira devagar – a mulher tentou se aproximar e eu bati em sua mão.
– Não toca eu!
– Clara, bebê, não pode tratar a mamãe assim. Bater é feio e você não é assim. Você é bebê fofo e bonzinho da mamãe.
– Você não é a minha maman. Não é! Não é!
Olhei ao redor e não reconheci o ambiente. O quarto era todo rosa em tons pasteis com desenhos fofinhos, nas prateleiras um monte de bichinhos de pelúcia, bonecas, livros coloridos. Era como aqueles quartos de comercial que toda criança sonharia em ter.
– Você gostou? É tudo seu, bebê.
O quarto era fofinho, mas não era a minha casa. Não tinha o cheirinho da minha maman. Não tinha o Chloée. E nem gostava dessas bonecas. Muito menos rosa! Eu num gosto de rosa!
Eu quero embora. Eu quero ir para casa. Eu quero minha maman!
– Eu quero minha maman!
– Bebê, a mamãe está aqui.
– A minha maman de verdade, não você!
– A partir de hoje, quem será a sua mamãe sou eu, bebê. Eu vou cuidar de você, te encher de amor, carinho e atenção. E você não terá que se preocupar com mais nada. A mamãe vai cuidar de tudo do bebê. Você será a minha princesinha para amar e cuidar.
– Eu num quero ser sua princesa! Eu quero continuar sendo a petite da maman Val!
Claudia tentou tocar meu rosto, mas eu me afastei.
– Bebê, a francesa está muito longe agora e não vai mais voltar. Depois de hoje, ela não vai mais querer saber de você. Ela te abandonou, mas eu jamais vou te abandonar. Eu vou fazer você o neném mais feliz desse mundo.
– É mentira! A maman num abandonou o neném! Ela ama eu.
– Abandonou sim, minha princesa. Você só é muito pequena e inocente para entender isso agora. A francesa não é uma mamãe de verdade. Ela nunca foi. Ela só está se aproveitando da sua pureza e o seu coração doce. Mas para pessoas como ela, que não são uma mommy, littles como você são descartáveis. É só questão de tempo para as suas necessidades de bebê se tornarem um fardo e um incomodo. E aí, eles fazem exatamente o que ela fez… vão para longe. Sem data para voltar, não é verdade? Você sabe quando ela vai voltar?
– Naum.
– É porque ela não vai.
– Vai sim.
– A mamãe Claudia não mente. Logo, logo ela vai sumir aos poucos e de repente não vai mais estar por aqui. É sempre assim, princesa. Ouça a sua mamãe.
– Você. Não. É. Minha. Mamãe.
A Claudia estava vindo para perto de mim quando o interfone tocou. Uma chama se acendeu dentro de mim. Era a minha maman! A minha maman de verdade!
– É a minha maman! É minha maman!
Sem pensar muito, eu dei um salto da cama e fui correr para a porta, mas a Claudia me puxou com tanta força que me fez cair no chão em cima da minha mãozinha e fez dodói. Dodói muito dolorido.
– Olha só o que você fez, Clarice – Claudia disse brava. – Deixa a mamãe ver o pulso do bebê.
– Você não é a maman! – Eu segurei o pulso contra o peito para ela não me tocar. – Eu quero a minha maman! A minha maman!
– Esquece essa mulher! Ela não ama você. Ela não quer saber de você. E ela não vai voltar. Ela sabe que você está comigo e te deixou aqui porque não se importa.
– É mentira! Mentira!
– Você quer ver? – Claudia pegou meu celular e me entregou. – É só ver. Ela viu tudo. E não está nem aí. Eu estou fazendo um favor a ela. E você… você tem sorte de ter a mim para te cuidar. Agora fique quieta aí. Eu vou atender o interfone e trazer um gelo para essa sua mão. Se você se comportar, vai poder comer sorvete mais tarde.
Sorvete? Eu quero sorvete… não, Clarice! Não tem sorvete! Você não vai comer sorvete da bruxa má! Ela vai enfeitiçar você. Não pode, não pode!
Ela é mentirosa. Ela só está falando essas coisas para fazer dodói. A maman num vai deixar o neném!
Aproveitei o celular para ligar para maman. Chamou uma, duas, quatros vezes e nada. Ela não atendeu. Mas é tarde, a maman deve estar mimindo. É isso. Mimindo. Se eu ligar de novo ela vai atender. Vai sim.
E eu liguei mais uma e duas vezes. Nada.
Na hora de mandar mensagem, tinhas umas fotos que eu não mandei não. Fotos do neném com a bruxa má. Com o pepeto feioso da bruxa má… e a maman viu. A maman viu tudo.
A maman viu tudo e agora num quer mais saber do neném. Ela num vai mais amar eu. É por isso que a bruxa malvada está dizendo que a maman deixou eu. Mas eu…, mas…, eu num fiz querendo! Não fiz! Eu num queria o tetê feio dela!
Eu não queria! Não queria!
Pensar que a maman agora odeia o neném fez o coraçãozinho bater muito rápido e forte. O ar se tornou denso e espesso, difícil de respirar. E o aperto no peito parecia esmagar meus pulmões, diminuindo ainda mais sua capacidade. Era um aperto que virou uma dor física, ainda pior que o meu pulso latejando. As lágrimas escorriam queimando as bochechas como cachoeira. Cachoeira essa que me fez engasgar.
Dentro de mim os sentimentos passavam tão rápido que não sabia o que sentir. Estava triste, com medo, com saudades. E ao mesmo tempo estava brava, nervosa, preocupada. Como vou falar para a maman que não foi eu? Ela num vai acreditar, num vai!
E agora? Como vou viver sem o amor da minha Val? Ela não pode deixar de amar eu. Não pode não!
É culpa minha. É culpa minha! Se num tivesse desobedecido a maman. Se tivesse ficado em casa. Eu sou uma bobona! Bobona e feiosa! Bobona burra! Eu estraguei tudo. Eu machuquei a maman e agora ela num vai querer o neném e nem o meu amor.
Brava e irritada comigo mesma, eu arranhei as coxas e depois os braços, o pescoço e sem perceber estava arrancando cabelos. Tentando desesperadamente tirar isso de dentro de mim. Eu num quero me sentir assim! Num quero!
« G I O V A N A »
Quando recebi a localização enviada pela Kyrie, eu logo vi o problemão que me aguardava. Conhecia bem o endereço, a Ju costumava frequentar bastante o lugar quando a Claudia era mommy da Madu há uns meses ou anos. E por conhecer a peça, não dava para esperar coisa boa.
Sinceramente, eu não estava nada surpresa de a Claudia ter tentado colocar as garras dela na coitada da Clara. A muito tempo atrás, há vários capítulos, a jararaca loira me perguntou sobre a Clara. Quis saber sua idade, onde morava, se estava no Apex com alguém, sem nem esconder seu interesse na menina. Na época, o Bruno já tinha me contado do possível lance lésbico da nossa francesa, então logo cortei as asinhas da Claudia deixando claro que as duas estavam juntas. E elas não estavam… ainda.
Só que você acha que uma mulher maluca e problemática como ela se importa com o relacionamento alheio? Ainda mais se a pessoa envolvida nele é a Valquíria. Em defesa da minha amiga, ela não tem culpa pela treta entre as duas. A culpa é do marido ou ex-marido da Claudia que confundiu reuniões comerciais com flertes (?). Eu acompanhei todas as reuniões e não sei explicar o que passou na cabeça daquele homem. Mas enfim, esse homem jurou que teria alguma chance com a Valquíria e a Claudia – que “traía” o marido – culpou a Val e não o traste.
Relacionamento héteros… vai entender.
Mas enfim, para uma mulher que via suas pequenas como objeto de posse e não tinha envolvimento nenhum, era de se esperar que não fosse flor que se cheire. Ninguém sabe exatamente o que se passou entre a jararaca e a Madu, mas eu sempre achei o relacionamento entre elas estranho. A Claudia era – é, eu não sei – casada e suas pequenas eram como sua “amante”, mas ela mesma não tinha outro relacionamento que não fosse mommy e little. Não era como eu que sou casada com a Juliana e estamos juntas ela estando pequena ou grande.
Eu tenho minhas suspeitas do que acontecia, mas como advogada, prefiro me abster e manter meu silêncio.
E falando em ser advogada, foi necessário usar a lei contra o porteiro para que ele ao menos nos permitisse falar com a Claudia pelo interfone, já que a bonita não nos permitiu subir.
– A Clarice irá passar a noite aqui. Ela está doentinha, precisa de alguém para lhe cuidar. Eu sou médica e posso cuidar dela.
– Clarice não precisa dos seus cuidados. Ela tem seus próprios médicos que cuidam dela a mais tempo. E eu espero que saiba que ao impedir que eu leve a Clarice de volta para casa, você está cometendo o crime de sequestro, previsto no Artigo 146 do Código Penal, que criminaliza privar alguém da sua liberdade de locomoção sem autorização legal. Estou tentando resolver de forma pacífica, mas se insistir serei obrigada a acionar a polícia. E já te aviso de antemão que não será pelo 190.
Se eu tinha contato do chefe de segurança do Estado ou qualquer político com certo poder, não era verdade. Mas com certeza os Touchon tinham. A Claudia não precisava saber que eu teria que ligar para França primeiro. O importante era causar medo e resgatar essa garota antes que alguém brote da França agora mesmo e coma o rabo dela e o meu.
– Você está exagerando. Eu não sequestrei ninguém.
– Não é o que diz a lei. E se não quiser sair daí algemada me deixe subir nesta merda de apartamento logo, eu não tenho todo o tempo do mundo e tenho mais o que fazer hoje do que ficar discutindo com você.
Claudia era maluca e problemática, mas tinha o mínimo de noção e sabia que isso não era um blefe. A Kyrie é legal, gente boa e se mistura bem entre nós pobres camponeses por causa do pai, mas a verdade que ela é uma burguesa safada de família aristocrata. Você precisa saber quais batalhas lutar e com esse tipo de gente, lutar sozinho nunca é uma opção.
Conselho não válido para filhos da puta, babacas, homens héteros, homofóbicos e crentes. Nesses casos a recomendação é: vai em frente. Chamem atenção. Bate de frente. Confie no seu potencial. Vai dar certo!
Chegamos no apartamento. A Ju apertou a campainha e claro que a puta loira não nos atendeu. Impaciente tentei abrir a porta e como esperava, estava aberta. Só conheço uma pessoa no mundo que tranca porta de apartamento e não é Claudia, nem eu.
– Você vai sair entrando assim? Está enlouquecendo? – A Ju me encarou em choque.
– Aí, amor. Você já está casada comigo há tantos anos. Você ainda tem dúvidas do meu grau de sanidade?
O clima de “brincadeira” acabou no momento que ouvimos os gritos da jararaca dizendo “Clarice, para!”. Ju e eu nos entreolhamos e de repente invadir o apartamento não era mais um problema. Seguindo o som de choro e a voz de taquara rachada chegamos até um quarto totalmente bizarro. Eu tenho um quarto de neném na minha casa, mas a vibe era totalmente diferente.
Teria julgado mais se não ficassem em completo choque deparar com Clarice chorando em plenos pulmões e puxando os cabelos com força. As marcas nas pernas, pescoço e braços eram sinais claros de uma crise de pânico.
– O que diabos você fez?! – Foi a única coisa que saiu da minha garganta enquanto processava tudo em desespero.
A Juliana reagiu mais rápido que eu para ir acudir a Clarice, ela está acostumada a pensar e agir rápido em situações assim por causa do trabalho no hospital. Eu ainda sou a pessoa que fica em choque e paraliso.
– Saí de perto dela – A Ju empurrou Claudia e se ajoelhou na frente da Clara. – Ei, Clara. Olha para mim. Olha para mim.
Levei alguns segundos observando minha esposa tentar acalmar a Clara. Não estava sendo uma tarefa muito simples, mas ela sabia lidar com a situação. Percebendo isso, a minha única reação era fazer algo que a Valquíria faria se estivesse aqui: dar um tapa na cara dessa piranha loira.
– Qual o seu problema? – Claudia levou a mão no rosto.
– Você tem a audácia de perguntar qual é o meu problema quando você desencadeou uma crise dessas na garota. A casa é sua, mas eu estou te expulsando daqui. Vaza! Desaparece! Não ouse existir no mesmo espaço que a Clarice ou respirar o mesmo ar.
– Você não…
Empurrei Claudia para fora e fechei a porta. Infelizmente não havia tranca, então usei meu próprio corpo para manter fechado enquanto a outra gritava do outro lado.
– Amor, cadê a bombinha que você trouxe? – A Ju pediu preocupada. – Eu acho que ela está tendo uma crise de asma.
Tateei meus bolsos procurando a bombinha desesperada pela possibilidade de ter deixado no carro, mas felizmente estava no bolso do meu blazer. E mais uma vez, graças ao bom deus Juliana estava aqui. Eu não faço ideia de como usar isso e definitivamente não aceitaria ajuda da jararaca.
Depois de alguns minutos, Clarice estava mínimo estável. Ainda chorava e balbuciava coisas sem sentido, mas não estava se arranhando ou se debatendo e até aceitou um abraço da Ju.
– Vamos meter o pé daqui. Eu não quero ficar mais nenhum minuto nesse inferno. Esse lugar é asqueroso e bizarro. Vamos para casa.
– Pega as coisas dela então, eu vou levar ela.
Clarice poderia andar, mas a minha esposa quis a carregar no colo. Eu sou a mommy aqui, mas tenho 1,65m enquanto minha little não tem nada de pequena com seus 1,75m. Sim, ela e a francesa competem para ver quem pinta o teto mais fácil. Preciso dizer que ela também é fã de saltos? Se deixar é um novo todos os meses, gasta mais que sua versão pequena e eu que lute.
Para sairmos do apartamento, eu roubei um brinquedo aleatório do quarto que poderia facilmente ser usado para acerta a cabeça da jararaca caso viesse tentar algo. Apesar da cara feia e claro descontentamento conosco, Claudia ficou na dela nos observando de longe. Ela não era doida de vir para cima.
Antes de fechar a porta do apartamento e tacar o boneco asqueroso no chão, eu mostrei o dedo do meio e um sorriso falso.
– Você pode ao menos uma vez evitar a baixaria? – Ju reclamou, mas estava segurando o sorriso. Ela não gosta quando sou “baixa” e sempre ri na primeira oportunidade ou espera que eu faça o que ela jamais faria.
– Ela mereceu.
No carro, tentei ligar para a Kyrie, mas essa piranha simplesmente não atendia mais. Tudo bem que era meio da madrugada por lá, só que se ela foi dormir enquanto a pequena dela está chorando pedindo por ela, eu mato essa mulher no momento que colocar os pés nesse país.
– E aí, nós vamos para casa ou um hospital?
– Não me parece uma torção séria. Acho que uma bolsa de gelo, uma tala e remédios para dor farão o trabalho.
– Se você diz… – as encarei pelo retrovisor. – O que você acha, Clara? Você quer ir para o hospital ver sua mãozinha?
Ela balançou a cabeça negando. – Maman, eu qué a maman. Eu qué falar com ela!
– A sua mamãe não pode falar agora…
– Mas… a maman sempre fala com eu! Ela num quer mais o neném!
– Não fala assim, neném – a Ju que estava sentada ao seu lado se adiantou para a consolar. – É claro que a sua mama te quer. Ela só não consegue falar com você agora.
– Por que?
– Ela não te contou? Acabou energia em Paris. A cidade da luz ficou no escuro, acredita? Vai ter que esperar voltar – inventei uma desculpa aleatória, me julguem. – Olha só, o carro do churros está parado perto da farmácia. Você gosta de churros, Clarice?
– Gosto.
E claro que gosta. Se tiver açúcar você gosta… como é possível uma formiguinha relacionar com alguém que é aversa a açúcar? Pelo menos são fofas juntas.
A Juliana comprou o que achou necessário na farmácia enquanto eu tentava distrair Clarice com comida, mas a bichinha estava tão cabisbaixa e triste que deu uma unidade de mordida no churros e o abandonou. Levando em consideração o que observei no Apex, isso não era um bom sinal.
– Dá mais uma mordidinha, – insisti um pouco.
– Não fome.
– Mas é de chocolate. Não precisa estar com fome para comer chocolate.
Clara balançou a cabeça e encarou os próprios dedinhos evitando o olhar. – É verdade mesmo que não tem energia lá na maman… ou ela num quer mais eu?
– Quem te disse isso? Foi a piranha loira? Aquela mulher é louca.
– Mas ela disse que a maman ia parar de falar com o neném e agora… – Clara fez bico e aos poucos seus olhos se encheram de lágrimas.
Essa garota vai desidratar em lágrimas e não tem muito o que fazer. Eu só espero que a Valquíria tenha uma desculpa plausível para seu sumiço. Porque se ela não tiver desmaiado ou sofrido um acidente, eu não aceitarei nenhuma outra justificativa e lhe daria uma boa coça no momento que colocasse os pés nesse país.
Gostaria de acreditar que estava dentro de um avião voltando, mas seria fisicamente impossível deslocar até o aeroporto para pegar o último voo do dia para São Paulo pelo o horário que tudo aconteceu. Pelo menos a física, eu sei que a Kyrie não tem poder de fazer nada a respeito.
Ou tem… o jeito é esperar para ver.
« C L A R I C E »
Eu queria acreditar na tia Gio e na Juju e achar que estava tudo bem, mas era muito difícil. A maman sempre respondia as minhas mensagens e atendia as minhas ligações, mesmo que fosse só para dizer que não poderia falar. Ela sempre estava ali para mim e agora ela sumiu… sumiu de vez.
E se ela sumiu, é porque não me quer mais. É porque viu tudo aquilo que a bruxa má mandou e fez parecer que eu… quis estar ali, e achou que era verdade. Se a tia Gio e a Juju descobrirem o que eu fiz, elas não me deixariam aqui. Pode ser por isso que elas acham que está tudo bem.
Talvez… talvez fosse melhor eu ir para o apartamento com Glória e a Laris. O Chlô deve estar com saudades e, e… ele vai sofrer tanto quando descobrir que virou filho de mães divorciadas. Será que a Val ainda vai querer saber dele ou ela vai me cortar totalmente da sua vida? Eu não quero ser cortada da vida da Val! Ela não pode deixar eu!
Pensar que tudo vai acabar me deixou triste e as lágrimas voltaram. Achava que já não era capaz de chorar e de alguma forma surpreendia a mim mesma.
– Clarinha… – a Jujuba chegou pertinho de mim.
A Ju grandona era tão diferente da Jujuba pequenininha. Eu fiz dodói na Juju e ela ainda era legal comigo. Eu também fiz dodói na maman.
– Ó, pra você – a Jujuba estendeu a mão fechada para mim e quando atraiu a minha atenção, abriu os dedos revelando uma chupeta azul. – É a pepeta favorita da Jujuba quando a mama tá longe. Parece um tetezinho e ajuda a mimir.
– Eu num uso pep…
Ela enfiou a chupeta na minha boca me interrompendo. – Prova, ó!
Iria reclamar se a sensação não fosse realmente muito boa. Não era exatamente o tetê da maman, mas lembrava um pouco.
– É bom, né? Você vai mimir rapidinho.
Não ia não.
A tia Gio tentou me fazer dormir com um montão de coisas; preparou banheira com água quentinha e um tanto de coisinhas para relaxar o corpo e mimir, deu chazinho, colocou cheirinho no quarto, leu livrinho. E por fim eu acabei sentada na cama da Jujuba me perguntando se esse era mesmo o meu lugar.
– Toma aqui ó… é a Bluey da Jujuba. Gosto de mimir abraçada. Você pode usar hoje, tá bom? – ela deu tapinhas leves na minha cabeça. – Agora deita um pouquinho. Você não vai mimir sentada.
Eu deitei na cama e abracei a Bluey da Juju. Era no mínimo confortável, mas não tinha o cheirinho da maman.
– Vou apagar a luzinha, tá bom?
– Não! Num quero ficar no escuro não. Eu… medo.
– Ah… medo do escuro? Não precisa ter medo não! – A Jujuba apagou as luzes. Eu já estava prestes a gritar quando uma luz azul acendeu contornando todo o teto. Escuro o suficiente para dormir, mas claro o suficiente para enxergar tudo ao redor. – A Juju também não gosto do escuro…
– Ah, tá bom. Entendi.
– Tenta mimir, tá bom? Se precisar de alguma coisa, eu já te mostrei o segredo.
Bem do lado da cama tinha uma “babá eletrônica” que dava para chamar do outro lado. Pelo o que a Juju falou, a tia Gio não tem os mesmos superpoderes da maman de sentir que eu acordei e sempre precisava gritar. Agora ela usa essa babá eletrônica e poupa a sua voz.
Talvez seja isso… se eu mimir e acordar, a maman vai aparecer! Ela sempre sabe quando eu acordo!
– Boa noite, Clarinha!
– Noite!
Na esperança de falar com a maman ao acordar, eu aceitei ao menos tentar mimir. Demorou um pouquinho, mas a Jujuba tinha razão. Pepeta era bom e ajudava pegar no sono.
Abri os olhos de repente com o som do alarme que me fez despertar de um pesadelo horrível. Meu coração batia rápido e a respiração estava curta como se tivesse corrido uma maratona. Sem pensar muito, procurei a bombinha que a Giovana tinha deixado na mesinha ao lado da cama e usei o spray duas vezes.
Quando finalmente me acalmei, as lágrimas vieram sem aviso prévio. O pesadelo foi tão vivo, tão real que foi difícil diferenciar o que aconteceu e o que não passou da imaginação. Em minha mente ouvia em loop a minha Val dizer que não me queria mais e me mandar embora.
O celular começou a vibrar atraindo a minha atenção. Rapidamente peguei o aparelho para ver o que era e senti um alívio ao ver quer era a minha Val me ligando… e ao mesmo tempo me bateu o desespero. O que ela vai falar? Como ela está? O que ela está sentindo? E se ela realmente estiver me odiando?
Atendi em silêncio com medo de encontrar uma Val brava e pronta para me expulsar da sua vida por ter a traído. Mas não foi o que aconteceu.
– Petite? Você está aí?
Eu desabei. Sua voz rouca, porém, suave e doce terminou de quebrar o que restava de mim.
Um sentimento de culpa pesou os meus ombros. Eu nunca tive alguém que me amasse dessa forma, que se importasse tanto assim e eu foi idiota e joguei tudo para o ar por ser burra. Eu não quis nada daquilo, eu jamais trocaria a Val por qualquer outra pessoa, mas como vou a convencer disso quando tem fotos e vídeos contra mim?
– Clarice, s’il te plâit… se acalme.
– Me desculpa, – pedi entre soluços. – Eu-eu-eu… te traí – falar isso doeu tanto, mas eu guardar esse segredo seria pior. Mentir para a Val seria uma segunda traição e seria demais para mim. – Eu fui idiota… eu não sei o que estava na minha cabeça. Me desculpa.
– D’accord… – Val ficou em silêncio por um tempo e então ela enviou um pedido para mudar para chamada de vídeo. Eu tinha ciência de que estava um desastre e horrorosa, mas aceitei. Estar feia é o menor dos meus problemas agora. – Clarice, nós vamos conversar sobre isso depois, mas agora eu preciso que você se acalme.
A Val definitivamente não estava bem. Era possível ver em seu rosto o cansaço e olhar de quem andou chorando, mas o ambiente ao seu redor não era o típico apartamento ou as ruas de Paris. As paredes brancas e a luz extremamente fria pareciam muito com um hospital, tal qual o que a avó dela estava internada.
Meu deus, não… isso não… não.
Eu me senti ainda pior com a possibilidade. Além de ser uma babaca e péssima namorada, consegui fazer isso no momento em que a Val mais precisaria de mim… e ela não me contou. Ela não quis me contar. E se ela não me contou… quer dizer que não precisa mais de mim? Ou pelo menos não me quer nesse momento.
Se eu tinha alguma esperança e alguma dúvida, agora as respostas estavam todas aí.
– Você tem a audiência essa tarde, precisa se recompor – ela continuou. – Não vá para faculdade, fica aí com a Giovana. Ela não irá trabalhar hoje. Como está se sentindo? Ainda está com dor de cabeça?
– Um pouco.
– Um pouco a mesma dor de sempre ou…?
– Tá dodói, mas menos dodói aqui – coloquei a mão na cabeça, – e mais dodói aqui – e agora, coloquei a mão no olho, mas a verdade era que eu queria colocar no coraçãozinho… só que era melhor não. A maman tem problemas maiores agora.
– A Gio vai te ajudar com isso, d’accord? Ela também vai te levar para dar uma olhada na sua mãozinha agora de manhã. E você vai se comportar, ir bem bonitinha, sem chorar, sem birras, vai deixar a médica olhar e vai tomar todos e quaisquer remédios. Ok?
– Tá bom.
– E eu sei que você está pensando um monte de coisas nessa sua cabecinha e nós vamos conversar a respeito, mas nesse momento, eu preciso que me espere um pouco. Eu estou no hospital com a minha família e não tenho como ter essa conversa agora. Você consegue segurar um pouco?
– Consigo… se você prometer que vai mesmo falar comigo depois.
– Oui, mon bé…
– Você não vai só sumir, né? – Eu sabia que a maman não podia falar agora, mas eu não me aguentei e a interrompi. – E deixar de falar comigo e não querer saber mais do Chlô. Ele não tem culpa de nada e vai sentir a sua falta… eu também, mas eu mereci então… você ainda vai voltar para o Brasil? Eu ainda vou te ver? Você ainda vai querer me ver? Você…
– Clarice! Para. Por favor, respira. Eu não vou sumir, d’accord? Eu não vou sumir. Se acalma, por favor. Eu prometo que vou te ligar após a audiência. E prometo que vou voltar para o Brasil assim que possível, mas por favor, se acalma. Eu não consigo lidar com tudo ao mesmo tempo… me espera um pouco. Eu volto. Só espera um pouco, por favor.
A maman não estava bem. Não estava bem não… se eu esperar e me comportar, a maman talvez volte me amar um pouquinho.
– Tá bom, eu espero. Eu espero e vou me comportar, tá? Prometo.
– De dedinho?
– Uhum! De dedinho.
– D’accord, bébé… eu realmente preciso ir agora. Te ligo mais tarde, ok? N’oubli pas, je t’aimerai pour l’éternité. À bientôt.
Eu não entendi foi nada, mas de alguma forma me deixou um pouquinho mais calma. Não quero pensar muito na nossa conversa. Conversar não quer dizer que vai acabar tudo bem. Pode ser que a nossa conversa seja o fim e pensar nessa possibilidade me causava um certo desespero.
Encerrar a chamada e me deparar com aquelas fotos me causou enjoo. Eu deletei tudo, mas não era como se isso fosse mudar alguma coisa. Toda essa situação no dia da audiência só serviu para acabar com qualquer “segurança” que estava sentindo. Se eu estou nesse estado complicado com a Val por algo que não fiz, o que será de mim por algo que eu realmente fiz?
Eu estou muito fodida.
– O que você normalmente come de café da manhã? – Giovana me perguntou.
– Estou sem fome.
– Está? Mas… tem cereal. De chocolate… quer uma omelete? E se eu fizer uma tapioca de Nutella?
– Não, obrigada. Eu estou bem.
– Sorvete? Você não pode recusar sorvete. Essa é uma chance única de comer sorvete no café da manhã e provavelmente a última.
– Não estou afim… a Val disse que você vai me levar no médico. Que horas vai ser? Eu quero ir para casa antes da audiência. O Chlô deve estar triste e preocupado.
– Podemos ir a qualquer momento. Como está a sua mão?
– Doendo, mas tranquilo. Não precisava ir no médico.
Gio revirou os olhos. – Vai tentar convencer a outra lá disso.
Sorri sem graça.
A Val pelo menos se importa com a minha mão, isso é bom.
E nesse caso, Gio e eu estávamos certas: não havia necessidade de médico algum. Estava vermelho e roxo em algumas partes? Estava, mas sou eu. O Chloée conseguiu marcar a patinha dele na minha pele e ele não tem nem 4kg direito. E inchaço era normal. Mas enfim, eu comprei a tala que a médica recomendou, o creme e os remédios. Não porque eu achei que precisava, mas era o que a Val queria que eu fizesse.
Ainda tinha algumas horas antes da audiência quando cheguei no meu apartamento. A Laris não estava por lá, somente a Glória e seu violino. Apesar de não parecer por causa do seu visual meio gótico vampiresca, a Glória é musicista durante o dia e está se preparando para fazer a audição de uma orquestra sinfônica. Seu sonho é ser concertista.
– O que está fazendo aqui essa hora?
– Transformando oxigênio em gás carbônico. Onde está o Chlô?
– Tirando o cochilo pós passeio dele. O que aconteceu com você? Onde passou a noite? E por que está com essa cara péssima e clima de velório? Quem foi que morreu?
– Espero que ninguém… – eu fui atrás do Chloée e a Glória veio atrás de mim não satisfeita com a minha resposta.
– Não está parecendo. O que foi que aconteceu?
– Ainda não aconteceu, mas vai acontecer a qualquer momento.
Ela me olhou de cima a baixo com julgo. – E o que vai acontecer?
– A Val vai terminar comigo.
– Assim do nada? Não faz sentido. Por que ela faria isso?
– Porque eu acho que a traí.
– Como assim você acha? Desde quando você virou Machado de Assis? Você traiu ou não traiu?
– Trai.
Glória ficou paralisada por um momento e balançou a cabeça incrédula. – Você não fez isso… meu deus, Clarice. Você não… como é que você me ganha na loteria das namoradas e me faz uma cagada dessas? Você só pode ser muito burra. Não é possível! Por que você fez isso? E com quem?!
– Eu não sei… eu estava passando mal e essa mulher veio me ajudar. Eu estava com muita dor de cabeça, vomitando e com febre, eu não estava pensando direito. Ela me levou para casa dela, eu não sei bem o que aconteceu, mas um momento eu estava dormindo e ela enfiou o peito na minha boca, tirou fotos e mandou para Val… do meu celular!
– Ah…, mas isso não é traição. Calma lá. Talvez seja difícil se explicar e convencer a francesa, mas não é o fim do mundo. Nem do seu relacionamento. Ela viu as fotos e falou o que?
– Nada. Ela estava no hospital com a família e disse que conversaria comigo depois.
– Pense pelo lado positivo. Se ela estivesse muito puta com você, já teria te xingado pelo menos. Como isso não aconteceu, ainda há esperança. Se quiser, eu te ajudo. Podemos fazer uma serenata romântica na janela dela tal qual nos filmes.
– A Val mora do décimo oitavo andar.
– É… então é isso, espero ter ajudado.
– Eu estou triste… eu vou dormir com o Chlô. Se precisar de mim, não precise. E se não for a Valquíria, eu estou indisponível.
– Meu violino te incomoda?
– Vai ficar igual os caras no Titanic afundando, mas tudo bem. Não me incomoda não.
Palhaça como é, Glória começou a tocar “Mais Perto Quero Estar” que é justamente a música da cena dos músicos tocando enquanto o navio afunda. Apesar de estar sofrendo, isso me fez rir um pouco.
Abraçada ao meu “Valvesseiro”, eu consegui tirar um cochilo mais fácil. O cheirinho dela estava sumindo aos poucos, mas ainda estava lá acalentando meu pobre coraçãozinho. Foi pouco mais de uma hora que descansei bem mais que essa noite que passou. Poderia ser mais, mas eu não consegui.
Sem muito apetite, eu almocei uma laranja. Meia para ser honesta. Estava triste demais para comer e é estranho falar isso. Eu devo estar muito na merda para perder o apetite, mas é a verdade… a comida da minha – ainda – namorada agora seria tão bom. Eu iria para Paris nadando para comer o papar dela.
A Giovana veio me buscar em casa acompanhada dos outros os advogados. Aos poucos estava começando a suspeitar que no clubinho de amigos da Val, mudar totalmente a personalidade – e até mesmo aparência – ao trabalhar era padrão. Ela de terninho e semblante sério não parecia nadinha com a Gio que passou a noite xingando a Claudia de jararaca loira e piranha mal amada.
Chegando no fórum, encontramos com Bruno. O que foi uma surpresa inusitada. A tia Gio era legal e doidinha, eu gosto dela. Mas o Nuno… ele era praticamente a versão gay da maman e irmãos de alma. Se ele veio até aqui por mim, significa que a maman não me odeia tanto assim ou ele me odiaria também.
Sem pensar muito, eu corri para abraçar o tio Nuno mesmo ele sendo uma muralha dura sem amortecedores como a maman.
– Gente, o que significa isso? É saudade é?
– Você veio!
– E eu iria perder o babado? Você não me conhece, nanica. Eu vim pronto para filmar o caos. E acho bom vocês fazerem cena nível A Usurpadora para fazer valer a pena meu tempo.
– Eu só espero que isso acabe hoje, – Giovana comentou. – Esse caso está esgotando minha saúde vital. Agora vamos entrar… juízes são chatos e se você atrasar vão te dar sermão.
Olhei para a entrada do fórum e travei de medo. Era a minha primeira vez aqui e não imaginava que estar pessoalmente iria causar uma sensação tão estranha, como se tornasse toda situação real.
De repente senti uma mão grandona pegar a minha, era o Bruno. Ele sorriu para mim e eu dei um sorriso tímido de volta.
– Bora lá, nanica?
Respirei fundo. – Bora.
«-»
Gostou? Não esqueça de comentar! Até a próxima…
Au revoir!
