« C L A R I C E »
Um show de absurdos.
Essa era a perfeita definição do que estava assistindo.
Que o Luís era cínico e mentiroso eu já sabia, mas ele conseguiu me surpreender. A começar pelo fato de ter raspado seus cabelos, deixando apenas uma pequena pelugem preta. Sua intenção era nítida e clara: exibir seu curativo exagerado.
Já se passaram semanas. Por que raios ele ainda estava usando essa merda?
– … a réu, movida por ódio e rebeldia, tentou assassinar o próprio pai com um objeto contundente. Um ato premeditado, fruto de uma mente instável como mostram os laudos médicos, – o advogado de Luís distribuiu um papel para o juiz e o júri. – Senhoras e senhores, este documento comprova que a ré, Clarice Mansur, convive com sérias instabilidades mentais. Os transtornos diagnosticados, depressão e ansiedade, não apenas acometem, mas também tornaram predisposta a comportamentos agressivos, como o que vimos neste caso.
Eu que estava tentando me dissociar do que estava acontecendo ao meu redor, fiquei em completo choque. É sério isso? Já não bastava me pintarem como uma filha cruel, fria e calculista que planejou todo o ataque, agora queria puxar a carta de que sou louca e instável?
Não sabia dizer o que era pior: o que falavam de mim ou ter meu histórico médico compartilhado assim.
– Excelência, a defesa protesta veementemente contra o uso deste laudo médico para construir uma narrativa que difama a minha cliente. Ressalto que este documento foi retirado de seu contexto e não leva em conta os inúmeros fatores que moldaram o comportamento da Srta. Clarice, inclusive, as agressões e traumas que ela sofreu. Utilizar um diagnóstico de depressão e ansiedade para imputar a ela uma ‘instabilidade inata’ é, no mínimo, um artifício retórico que desvirtua os reais acontecimentos.
O juiz assentiu, registrando o protesto.
– Protesto da defesa anotado. Entretanto, peço que a acusação mantenha a disciplina em sua exposição e se atenha aos fatos comprovados. Continuemos.
Confesso que estava focada demais em me manter grande e não me deixar abalar com o peso do olhar de Lúcia em minhas costas que acabei me perdendo em meio as falas, não dando a devida atenção nem mesmo aos meus advogados. O que me trouxe de volta a realidade foi o momento em que a Dra. Samantha, minha advogada, chamou uma testemunha. E eu sequer sabia que teria uma.
– Professora Heloísa, por favor, identifique-se para o registro.
Arregalei os olhos surpresa com o que eu via. Heloísa foi minha professora por vários anos na escola. Simplesmente a melhor professora da minha vida e eu a adorava. Minha mãe também. Era a única professora que convidava para as minhas festinhas de aniversário.
– Meu nome é Heloísa Silva. Fui professora da Clarice dos sete aos doze anos, período em que pude acompanhá-la de perto.
– Professora Heloísa, como a senhora descreveria o comportamento da Clarice enquanto estava em sua turma?
– A Clara sempre foi uma aluna muito dedicada e inteligente. Era muito sorridente e feliz. Gostava de brincar com os outros colegas de classe e interagir com as pessoas. Normalmente era uma das crianças mais falantes e energética.
– E ela sempre foi assim?
– Não. Após o trágico acidente em que perdeu a sua mãe, Clarice mudou completamente. Era como se tivesse morrido no mesmo dia. A criança feliz e radiante que convivi por dois anos virou uma criança triste e cabisbaixa, sempre quieta e retraída. Parecia viver com medo, especialmente dos adultos.
– Conte-nos mais sobre esse novo comportamento, especialmente o medo dos adultos.
– Quando a mãe de Clarice faleceu, ela ficou um período sem comparecer a escola, o que é normal. No entanto, quando voltou no ano seguinte, ela tinha o braço enfaixado. De acordo com a família ela havia caído de uma arvore. Porém, além do braço, Clarice costumava chegar à escola com marcas estranhas no corpo, especialmente no braço, que não podiam ser explicadas por acidentes comuns.
– A senhora chegou a questionar a menina sobre a origem dessas marcas? Ela chegou a mencionar algo a respeito do ambiente familiar?
– Sim, em um momento de vulnerabilidade, Clara disse que o seu pai havia batido nela porque pediu pela mãe. Embora ela não detalhasse os acontecimentos, o que me chamava a atenção era o medo evidente que ela sempre demonstrava ao falar do pai e sua tia. A direção chegou acionar o conselho tutelar em algumas ocasiões.
– E a senhora pode nos dizer o que aconteceu quando acionaram o conselho tutelar?
– A família de Clarice alegou que as marcas e o braço quebrado eram em decorrência do acidente de caro que sofrera meses antes. No entanto, eu fui ao velório da Aurora e naquele dia Clarice não estava com o braço quebrado, tampouco tinha tantos hematomas.
– Antes de finalizar; professora Heloísa, por quanto tempo Clarice estudou nessa escola após o falecimento da mãe?
– Alguns meses. Ela foi transferida antes de terminar o ano letivo e depois disso não tive mais notícias sobre ela ou sua família.
– Essa escola é uma escola paga?
– Sim.
Sinceramente pensei que ficaríamos apenas nessa conversa desagradável, mas os meus advogados também tinham seus laudos médicos e fotos para compor a defesa. Fotos de uma época que eu tinha enterrado no fundo da minha mente e não fazia ideia que existiam, mas agora estava aí; nas mãos de todo mundo. E eu fui obrigada a ouvir relato dos detalhes de todas as agressões que sofri.
A exposição estava me deixando desconfortável. Meu estomago apertou e sentia que a qualquer momento iria vomitar a meia laranja que comi. Eu não queria estar aqui, não queria não!
– Portanto, Excelência, os documentos apresentados e o testemunho da Professora Heloísa comprovam que, desde a infância, a srta. Clarice foi vítima de um ambiente violento e abusivo, o que contribuiu decisivamente para sua postura defensiva naquele fatídico dia.
– São alegações antigas e sem contexto, meritíssimo.
– Sem contexto? Clarice fazia aulas de desenho e pintura, meritíssimo. Ela era artista assim como a mãe, Aurora Mansur, cuja a última exposição aconteceu três meses antes de sua morte. Luís não só agrediu a filha, como tentou apagar a maior conexão que Clarice tinha com a mãe, ao forçar a porta contra mão de uma criança.
– Artista?! Era só rabisco de criança, – o Luís não se conteve em seu lugar.
Ouvir a voz desse homem me causou calafrios. A realidade em que não deveria temer seu tom de voz irritado ainda era algo muito recente para mim. Era muito cedo para ouvir e não reagir.
Fechei os olhos tentando respirar fundo e manter a calma. Lembrei da minha mãe segurando os meus dedos para guiar o pincel, da sua voz suave perto do meu ouvido; “a artes é respiração, Clarice. Nunca deixe alguém te sufocar”.
– Por que tentou esmagar a mão dela, Luís? Ela era só uma criança de oito anos, – a Dra. Samantha se virou para ele, calculista.
– Foi acidente! Ela se meteu no caminho quando fui fechar a porta.
– Se meteu no caminho? – Samantha exibiu o documento amarelado de tão antigo. Me pergunto como conseguiu algo do tipo. – Esse “acidente” resultou em uma intervenção cirúrgica na mão e alguns meses de fisioterapia. Um acidente com a porta de madeira não causaria tanto estrago.
Luís se levantou revoltado e totalmente desequilibrado. – Isso é mentira, seu juiz! Eu cuidei dessa menina como se fosse a minha filha!
A frase pairou no ar, pesada. Como se fosse. O que ele queria dizer com “como se fosse”? Eu queria acreditar que só eu havia ouvido isso, mas o murmúrio vindo das pessoas que assistiam ao julgamento me fez perceber que não era a única.
– Sr. Luís, permita-me questioná-lo: em sua declaração, o senhor afirmou que ‘cuidei dessa menina como se fosse a minha filha’. Poderia esclarecer exatamente o que quis dizer com ‘como se fosse’?
– Sr. Juiz, o que eu quis dizer é que, mesmo diante de tantas dificuldades, sempre a tratei com o mesmo cuidado, responsabilidade e amor que um pai dedica à sua filha. Foi apenas uma forma de enfatizar que, apesar das adversidades, nunca deixei de protegê-la
Se esse tempo todo ele estava me tratando com cuidado, responsabilidade e amor, não quero imaginar como seria se fosse sem.
– Sr. Luís, a escolha das palavras é bastante peculiar, – o juiz insistiu. – Se Clarice é, de fato, sua filha, por que utilizar “como se fosse”? Essa expressão parece, ao menos, insinuar que há algo a ser esclarecido sobre a natureza do vosso vínculo. O tribunal necessita de uma explicação clara e sem ambiguidades.
O Luís desviou o olhar, a tensão perceptível em seu rosto, e percebi que estava encarando Lúcia. Era claro que esse covarde iria olhar para Lúcia e pedir socorro. Pena que dessa vez ela não poderá ajudar.
– Excelência, eu… eu a tratei com o mesmo zelo e afeto, pois sempre a considerei como minha filha. Foi uma escolha infeliz de palavras, nada mais. Eu não pretendia insinuar qualquer coisa diferente.
O juiz, observando a hesitação e a fissura na resposta, insistiu com firmeza que causou medo até em mim:
– Sr. Luís Carlos, é imprescindível que este tribunal compreenda de forma plena a natureza de sua relação com Clarice. Se existe alguma particularidade ou exceção nesse vínculo, que possa ter influenciado o curso dos acontecimentos, este é o momento para esclarecê-la.
– Clarice é minha filha, meritíssimo.
Luís olhou para mim com evidente decepção no rosto, porém, não me pareceu encenação. Ele nunca escondeu seu descontentamento comigo e eu nunca entendi qual era os seus verdadeiros motivos. Se era por eu ser mulher ou por não fazer/ser o que ele queria que eu fosse, eu nunca saberei… também não me importava em saber. Atualmente só existe uma pessoa que eu realmente me importo com o que pensa de mim… nem meus sogros me preocupam assim.
Queria que a Val pudesse estar aqui.
Quando eu achei que não poderia piorar, eu fui colocada na linha de fogo para responder perguntas tanto da defesa e acusação. E céus, que sensação desagradável e horrível estar sentada ali para me expor ainda mais.
– Clarice, por favor, descreva para este tribunal, com suas próprias palavras, o que aconteceu naquele dia, desde o início até o momento em que se viu forçada a agir – a Dra. Samantha pediu com voz calma e de certa forma encorajadora.
Respirei fundo e me preparei para responder. – Eu havia acabado de chegar em casa e encontrei o Luís. Era muito cedo para ele estar em casa naquele horário, normalmente ele fica até um pouco mais tarde na rua, mas naquele dia ele estava lá com o copo de cachaça na mão. E no mesmo instante que me viu, ele já começou a gritar comigo. Eu costumo trabalhar aos finais de semana em um bar para juntar um dinheiro extra para custear os gastos da faculdade e pagar o apartamento que estou financiando e faço estágio. Não é um dinheiro exorbitante, mas o Luís acreditava que estava escondendo a minha real situação financeira e me ameaçou para ter acesso ao aplicativo do banco no meu celular. Eu me recusei porque sabia que ele iria querer parte do dinheiro que passei anos juntando para dar entrada no meu apartamento e eu já dava dinheiro para ele todos os meses para ajudar nas despesas da casa.
– Srta. Clarice, confirme para este tribunal: no dia dos acontecimentos, seu pai, Carlos, encontrava-se visivelmente alcoolizado? – A Dra. Samantha me questionou.
– Objeção, Meritíssimo! – Fui interrompida antes mesmo de poder responder. – Essa pergunta extrapola o incidente em si e adentra questões pessoais desnecessárias!
– Objeção indeferida. Srta. Clarice, responda à pergunta.
– Sim. Ele estava bêbado no dia.
– Srta. Clarice, você pode nos dizer se esse episódio de embriaguez de seu pai era algo isolado ou fazia parte de um padrão de comportamento? – o juiz perguntou. Seu olhar para mim era um pouco assustador, como se pudesse ver através da minha alma.
– Não era isolado… meritíssimo, – quase me esqueci o título do cara. – Ele costumava beber bastante.
– Clarice, eu preciso que você nos descreva como era o comportamento do seu pai quando ele estava sob o efeito do álcool, não apenas no dia dos fatos, mas de forma geral. Como e quando isso começou? E como essa situação afetava o ambiente em sua casa?
Respirei fundo tentando manter a calma e principalmente grande. Minha vontade era de sair correndo por essa porta e deixar que qualquer outra pessoa respondesse por mim, mas eu precisava encarar meus problemas de adulta.
– O meu pai começou a beber no mesmo dia em que enterraram a minha mãe. Ele não participou do cortejo fúnebre e nem do sepultamento porque estava no bar. Chegou em casa bêbado tarde da noite, fez uma fogueira no quintal e começou a jogar tudo que era da minha mãe lá. Quando eu acordei e vi o que estava acontecendo, comecei a chorar e implorar para que não fizesse aquilo. Ele pegou a meu pulso e puxou para perto do fogo e perguntou se eu queria que ele me jogasse lá… depois disso eu nunca mais senti segura perto dele, principalmente quando estava bêbado. Suas reações eram sempre uma incógnita. Não sabia se iria gritar comigo, me bater ou quebrar a casa. Ou se iria chorar e pedir desculpas…, todo dia era uma novidade. E aos poucos, com o passar do tempo eu passei a evitar estar em casa. Se não estava na biblioteca estudando até fecharem, estava em todos os eventos da igreja. Qualquer lugar era mais seguro que perto dele.
– Não foi bem assim! Clarice, diga a verdade! – Luís gritou me fazendo encolher de medo. – Pare de mentir.
– Silêncio. Ordem nesse tribunal!
Levou um tempo para acabar os burburinhos. Internamente estava torcendo para que isso acabasse logo. Minhas mãos tremiam em meu colo e meu estomago revirava. Eu queria vomitar, sair correndo, desaparecer. Tudo ao mesmo tempo.
– Excelência, aqui estão os boletins de ocorrência que registram agressões cometidas pelo sr. Luís em diversas ocasiões, bem como o registro da sua entrada, e subsequente fuga, de uma clínica de recuperação. Esses documentos demonstram de forma inequívoca o padrão de comportamento violento do Sr. Luís quando embriagado.
– Objeção, Meritíssimo! Essas informações, apesar de chocantes, não são diretamente pertinentes ao incidente em questão.
– Objeção indeferida.
Pelo o sorriso da Giovana que estava sentada ao lado do terceiro advogado, deduzi que isso fosse algo bom e tive uma pequena expectativa que minha parte tinha acabado.
Mas eu estava enganada. O advogado do Luís, que eu ainda não sabia o nome ou não me atentei o suficiente para decorar, se aproximou de mim com um sorriso desagradável e que fez meu estomago embrulhar ainda mais.
– Srta. Clarice, você afirmou que vivia com medo do seu pai por causa de sua violência. Contudo, não é verdade que, enquanto sua mãe, Aurora, ainda vivia, você passava longos períodos somente com ele, enquanto ela se dedicava à sua carreira de artista e viajava em busca de fama e aplausos? Isso não indica, de alguma forma, que ele já fora, em tempos passados, um pai de confiança?
Porra… até a minha mãe?!
Citar a minha mãe me deixou ainda mais incomodada e desconfortável. Mais um pouco teria uma taquicardia. E em busca de um ponto de conforto, eu olhei para as pessoas sentadas na “plateia” e me deparei com uma cena inusitada: Bruno segurando o celular com a tela virada para mim e nela estava Val, assistindo tudo por vídeo chamada.
Saber que ela estava aqui mesmo sem estar me deu um pequeno alívio e segurança para responder.
– Sim, é verdade que, quando minha mãe era viva, eu fiquei algumas vezes sozinha com o meu pai enquanto ela viajava a trabalho. Mas era diferente, ele não bebia e não era violento.
– Então, Clarice, se você admite que seu pai se transformou apenas após a morte da sua mãe, não seria razoável concluir que, durante os tempos em que ela estava viva, a presença constante e dedicada do sr. Luís eram a única razão pela qual você se sentia segura? Afinal, se ela realmente se importasse com você, por que teria insistido em deixá-la sob os cuidados de um homem que, agora, se mostra tão… instável?
– A minha mãe raramente viajava sem mim! Eu a acompanhei em quase todas as suas exposições! – Tentei defender a minha mãe e acabei soando um pouco afobada.
– Objeção, Meritíssimo! – Giovana disse praticamente junto comigo. – Essa pergunta é claramente ofensiva e tem a única intenção de difamar a memória da Sra. Aurora. A conduta de sua falecida mãe não tem qualquer pertinência com os fatos atuais e nem pode ser usada para desestabilizar a testemunha!
– Objeção acolhida. A acusação deverá se ater aos fatos relacionados ao comportamento do réu e seu depoimento. A memória da Sra. Aurora não será objeto de inquirição neste momento.
– Muito bem. Tendo isso esclarecido, não tenho mais perguntas para a srta. Clarice.
O filho da puta sorriu para mim antes de voltar para o seu lugar. Olhei para Luís e vi o sorriso em seu rosto e tive certeza que foi proposital. A intenção não era trazer algo relevante para o julgamento, apenas para me atacar.
Eu odeio esse cara! Eu odeio!
Para o meu alívio, o juiz determinou um intervalo de uma hora e minha reação imediata foi me enfiar no primeiro banheiro que vi no caminho para vomitar. Eu estava nervosa, puta, revoltada, com ódio, com vontade de matar. Eu só queria que isso acabasse logo! Juro que se tiver que passar por isso mais uma vez, eu prefiro ser presa direto.
– Clara? Você está bem? Precisa de alguma coisa? – Giovana perguntou do lado de fora do box.
– Estou.
Eu já não tinha nada no estomago para vomitar de início e tudo que saiu de mim foi água. Mesmo assim eu sentia como se um trator tivesse passado em cima de mim e só queria a minha cama. Ou melhor, a cama da Val. Eu queria a cama da Val.
– Tem certeza? – Giovana perguntou assim que sair da cabine do banheiro.
– Tenho. Eu só… estou revoltada. Aquele filho da puta falou da minha mãe!
– Foi baixo e claramente um golpe para te desestabilizar, mas não dê o gosto de vitória a eles. Lava o seu rosto e venha tomar um ar.
Ela esfregou as minhas costas e minha vontade era me desabar e escorregar para bem fundo onde tudo isso que está acontecendo não tivesse acesso.
– Eu quero a minha maman.
– Vixi… eu posso até ligar para aquela puta francesa para você. Mas a maman… é melhor mais tarde. Ainda temos algumas horas por aqui e você precisa estar conosco. E aí, vai querer falar com a sua puta francesa ou acha que não consegue?
Confesso que dei uma pequena risada. – Não chame ela assim.
– Está bem, vai. Vamos lá para fora e você fala com ela um pouco.
Saímos do banheiro e o único lugar que poderia ter um pouco de privacidade para falar com a Val foi no carro do Bruno. Eu sabia que tinha enormes possibilidades de não me aguentar e não queria chorar em nenhum lugar onde Luís ou Lúcia pudessem me ver.
– Você foi muito bem, – Val comentou.
Eu sabia que ela não estava em casa por não reconhecer o ambiente ao seu redor, mas também não estava no hospital, o que de certa forma, me pareceu bom.
– Você achou mesmo? Eu perdi o controle na hora que ele falou da minha mãe e me desestabilizei.
– Ma vie… você foi ótima, – ela insistiu. – E muito forte. Eu estou orgulhosa de você.
– Você está orgulhosa de mim?
– Eu sei que não está sendo fácil para você passar por tudo isso e mesmo assim está enfrentando de cabeça erguida.
– Mas você está orgulhosa de mim mesmo depois do que aconteceu ontem?
Val fez uma careta de desgosto. – Devant mes éclairs, Clarice?! Putain… (Na frente dos meus éclairs*, Clarice? Porra…) – Ela revirou os olhos. – O dia já está desagradável o suficiente, será que podemos não falar daquela puta agora? Um problema de cada vez. No momento estou tentando digerir o ódio que estou sentindo por esse Luís, – ela deu um gole em sua xícara de chá. – Filho da puta… a Gio me mandou uma mensagem dizendo que passou mal no banheiro. O que aconteceu? – Ela mudou de assunto.
– Eu vomitei.
– De novo?
– Foi nervoso. Eu não estou doente.
– Quer mesmo que eu acredite nisso depois de ontem? Você vomitou no Apex também. O que você comeu?
Essa pergunta me fez arregalar os olhos e engolir a seco. Ela vai me matar.
– Comi laranja.
– Antes de passar mal?
– Hoje.
Ela me encarou confusa. – Não entendi. Você comeu uma laranja hoje antes de passar mal? E o que você comeu antes disso?
– Nada. Eu estava sem fome.
– Você estava… sem fome!? Você? – Ela ergueu o cenho. – Ok, ok, d’accord. C’est mauvais. Très mauvais. (Okay, okay, certo. Isso é mau. Muito mau)… vá agora mesmo comer alguma coisa. É uma ordem.
– Mas…
– Sem “mas”. Você vai comer agora e nós nos falamos mais tarde.
– Está bem…
Não estava bem.
Eu não queria comer. Não queria sair do carro. Não queria encarar a realidade. Não queria voltar para a audiência. E tudo que eu mais queria eu não iria ter… ao menos não tão cedo. Eu não aguento mais.
Não aguento.
Fingi comer alguma coisa para Val – e o Bruno – não me encherem o saco. Pela primeira vez na vida deixei mais da metade de uma coxinha no prato por não ser capaz de continuar. Eu definitivamente não estou bem. Onde já se viu não ser capaz de devorar uma coxinha?!
De volta para a audiência, eu quis morrer. Se não bastasse tudo que já aconteceu, agora teria que ouvir Luís e suas versões dos fatos. Céus, alguém, por favor, me mate agora mesmo! Eu não aguento mais. Não dá mais!
O advogado do Luís começou com o seu tom de voz quase aveludado. Totalmente diferente da forma em que falava comigo mais cedo. – Sr. Luís, o senhor teve contato próximo com a sua filha durante os períodos em que ela enfrentava situações de estresse extremo após o falecimento da sra. Aurora? Poderia descrever como a senhor observava as reações dela nessas ocasiões?
– Sim, eu estive presente em todas as ocasiões, embora ela diga que não – Luís usou sua skin de pai coitado e vitima que sempre usa quando queria manipular os outros. – Foi uma fase muito difícil para toda família perder a nossa menina em vida. Após a morte da minha ex-mulher, a minha filha passou apresentar episódios de ansiedade intensa, crises de pânico e, em alguns momentos, reações emocionais que poderiam ser interpretadas como instabilidade. E a maioria de seus surtos eram por situações que nunca aconteceram, estavam todas em sua cabeça.
– Então, o senhor concorda que essas reações, esses ataques de pânico e mudanças bruscas de humor, indicam que a Srta. Clarice possuía uma condição psicológica fragilizada? Uma instabilidade que poderia ter influenciado seu comportamento no dia em que te atacou?
Antes que Luís pudesse responder, o meu advogado Samuel – que quase nunca fala, mas estava sempre passando papeis para a Samantha, – levantou a mão e se pôs de pé.
– Objeção, Meritíssimo! O sr. Lemes está tentando extrapolar os fatos observados, insinuando diagnósticos que não lhe competem. O testemunho do Sr. Luís deve limitar-se apenas aos comportamentos que ele presenciou, sem emitir parecer clínico.
Um leve clima de tensão rolou no ar enquanto o juiz avaliava a objeção por um breve instante que pareceu eras.
– Objeção deferida. Sr. Luís, peço que se restrinja a descrever os comportamentos que observou, sem especular sobre diagnósticos ou condições médicas.
Eu fui obrigada a observar Luís e o seu advogado tentarem me taxar de mentalmente instável por um momento, mas acho que nem o júri comprou essa ideia. Que provas o Luís teria sobre eu ser louca? Louca é a irmã dele.
– Senhor Luís, a srta. Clarice afirma que, na noite da agressão, o senhor exigiu o acesso ao aplicativo do banco dela. Por quê?
Dessa vez, Giovana quem se levantou e foi interrogar o traste. Até onde sei, ela não gosta de atuar nessa área do direito, mas por causa da Valquíria, aceitou assumir o meu caso junto com a Samantha e o Samuel. E parte de mim sentia aliviada em ter alguém realmente conhecido comigo.
– Ela mentiu, como sempre! – O Luís deu uma risada forçada. – Eu só queria protegê-la. Essa garota estava se prostituindo, recebendo dinheiro sujo para se envolver com mulheres.
– Meritíssimo, essa declaração é absolutamente caluniosa e não tem qualquer respaldo nos fatos, – Giovana disse ao juiz. – A srta. Clarice mantém um relacionamento sério e genuíno com sua parceira, que é uma mulher de sucesso e apoio financeiro, e cuja relação se fundamenta no amor e no respeito mútuo. Não se trata de prostituição, mas de um vínculo afetivo legítimo. Essas alegações são uma tentativa de desestabilizar a minha cliente e manchar sua honra.
– Objeção deferida. Prossiga.
– O sr. Luís alega que queria acesso a conta bancária de Clarice para “protegê-la”, no entanto, segundo os extratos do Banco Central – Giovana abriu a pasta, – até cinco anos atrás, o senhor fazia transferências da conta de Clarice para a sua conta própria. Quando ela tinha dezessete anos. De acordo com as prestações de contas dadas a justiça, o senhor alegou que o dinheiro movimentado servia para custear o padrão de vida de Clarice.
Giovana distribuiu uma cópia dos papeis para o juiz e ao júri.
– Como os senhores podem ver; entre os gastos, consta a escola particular, cujo a qual, Clarice foi transferida poucos meses após o falecimento de sua mãe e desde então estudou em escola pública. Além disso, dias após a morte de Aurora, o senhor Luís vendeu quadros, joias e até o piano que pertencia a família há gerações. Dinheiro que, por lei, era de Clarice, mas que foi usado indevidamente por Luís para presentear suas irmãs com uma casa, custear a faculdade no exterior do sobrinho… e um carro para o afilhado, conforme os comprovantes entregues aos senhores.
Que os quadros e o piano foram vendidos, isso eu sabia. Mas a parte que a minha herança pagou a casa das minhas tias, a faculdade do Junior e o carro do chato que o Luís diz ser padrinho, isso aí eu não sabia. Eu não fazia ideia que minha mãe tinha deixado esse tanto de dinheiro… eu não acredito que trabalhava igual uma condenada para juntar dinheiro para dar entrada num apartamento e enquanto meu pai deu casa para as minhas tias!
– Isso é… invenção! Eu administrava o patrimônio!
– Aqui está o contrato de penhora da casa de Aurora. Imóvel esse que, de acordo com o testamento deixado por ela, deveria ser quitado com o seu seguro de vida, mas que não teve seu desejo seguido. O imóvel foi penhorado para pagar empréstimos pessoais e poderá entrar em leilão caso a dívida não seja quitada.
Ele me disse que vendeu a casa… para pagar as dívidas das viagens a trabalho da minha mãe. Esse mentiroso filho da puta!
– O senhor Luís não apenas roubou a herança de Clarice como a deixou sem teto. Tudo para sustentar vícios e… – Giovana virou uma foto – festas em boates de alto padrão.
Eu lembro dessa foto.
Um ano após o falecimento da minha mãe. O Luís quis “me levar” para Aruba, dizia que uma viagem iria me animar e blá-blá-blá. Nós fomos e ele simplesmente me largou com uma babá desconhecida para ficar passeando exatamente como na foto em que ele estava rindo, agarrado a duas mulheres com uma garrafa de champagne Bollinger nas mãos. Garrafa essa que você encontra no Apex por míseros R$13mil, quase 14.
– Mentiras! Eu criei essa ingrata sozinho! – Luís gritou furioso.
– Ingrata? – Giovana perguntou pleníssima, sem se alterar. – Clarice ficou meses na fila do sistema de saúde público para fazer a cirurgia na mão, como consta em seu histórico médico. Enquanto isso, na mesma época, o senhor depositou R$80mil na conta da sua irmã, Lúcia. Valor mais que o suficiente para as despesas médicas de Clarice, que o senhor, se recusou a pagar.
Luís levantou de repente, empurrando a cadeira com um estrondo. – Cala a boca, sua puta! Você não sabe nada da minha vida!
O juiz bateu o martelo pedindo ordem, mas Luís estava tão descontrolado que ignorou e apontou para mim furioso:
– Essa maldita nunca foi minha filha! É sangue podre, igual a mãe!
Giovana se virou para o juiz tentando conter o sorriso triunfante. – Registro que o réu acaba de admitir, em tribunal, ódio contra Aurora e Clarice. E que violou os artigos 1.638 e 1.639 do Código Civil, ao desviar recursos da herança da filha menor.
Luís ao perceber a cagada, tentou recuar. – Eu… não foi assim. Ela me provocou!
– Sr. Luís, sente-se. Seu comportamento é inadmissível. Ordem no tribunal.
Agora entendi porque Valquíria fez questão de colocar Giovana para atuar no caso. Eu estava sem palavras e total choque.
Curiosa, me virei para trás e vi Glória, Theo e Bruno empolgadíssimos. Do outro lado, a tia Lúcia estava tensa e nervosa. Essa piranha! Sempre criticou minha mãe pelo seu trabalho, dizia que uma mulher casada não deveria ficar viajando por aí e dizia que era dinheiro sujo…, mas na hora de roubar não achou nada sujo. Que ódio! Que ódio!
Depois do show do Luís, não tinha muito o que fazer. O resto da audiência seguiu como um branco para mim. Era muita informação para ser absorvida ao mesmo tempo. Eu sabia que minha mãe era muito talentosa e estava no auge da sua carreira, mas não tinha ideia do que isso significava financeiramente e pensar que o Luís jogou no lixo todos os anos de esforço e trabalho duro dela. E pior, gastou com casa para Lúcia e a Lena, e prostitutas… era demais. Por pouco não vomitei outra vez.
Finalmente, após essa tarde infernal, era a hora da sentença final e eu estava me tremendo tanto que Giovana segurou a minha mão. Por mais que fizeram de tudo para que eu saísse livre, ainda tinha aquela porcentagem de chances de eu acabar presa e eu não conseguia ignorar isso.
O juiz levantou e todos fizeram o mesmo.
– Clarice Souza Mansur, a Justiça reconhece hoje que o que houve naquela noite foi legitima defesa. Pelas provas apesentadas nesse tribunal, absolvo-a das acusações de tentativa de homicídio.
Eu já ia comemorar achando que tinha acabado por aí quando o Juiz se virou para o Luís.
– Luís Carlos Souza, o senhor abusou da autoridade paterna, violou a integridade física e emocional de Clarice, e desviou recursos que, por lei, pertenciam à sua filha. Pelos seguintes crimes: Violência doméstica contra menor incapaz. Lei Maria da Penha, Art. 5º, combinado com Art. 121 do Código Penal. Apropriação indébita de herança de menor, Código Civil, Art. 1.638 e 1.639. Estelionato qualificado, Art. 171, Código Penal, por fraudar documentos para vender bens que pertenciam a Srta. Clarice. O senhor não apenas roubou o patrimônio, mas destruiu a infância dela. Por isso, além de restituir R$ 1,6 milhões, valor corrigido e atualizado dos bens, cumprirá 14 anos de prisão em regime fechado.
A plateia – vulgo Bruno, Theo e Glória – explodiu em murmúrios. Luís não aceitou facilmente e bateu na mesa outra vez.
– Você acredita nessa vadiazinha? Ela é doente, igual à mãe!
O juiz ignorou o show e finalizou a sua sentença: – E determino que todas as obras de Aurora Mansur ainda em posse do senhor sejam devolvidas à Srta. Clarice. Incluindo o direito autoral sobre suas pinturas.
Eu provavelmente nunca vou ver a cor desse dinheiro e duvido que ainda exista alguma obra da minha mãe com o Luís ou a Lúcia, mas quatorze anos de prisão?! Isso é… meu deus! Todo esse inferno começou há quatorze anos também e ele vai pagar por cada dia que me fez sofrer.
Só espero que não reduzam essa pena.
– Você conseguiu! – O Theo me abraçou no corredor do fórum. – Finalmente esse filho da puta vai receber o que merece!
– Você viu!
– E agora você é milionária! – Glória brincou.
– Sim, com certeza. O Luís vai mesmo conseguir pagar isso… ele deve o boteco da esquina, de onde vai tirar esse dinheiro? Ele já torrou tudo.
– Ué, vende a casa das suas tias, o carro do afilhado lá. Se organizar direitinho e vender os bens de todo mundo, ele consegue te pagar – Glória disse.
Foi nesse momento que a minha ficha caiu que a sentença do Luís poderia afetar a Lúcia diretamente. Uau… uau!
Se for para obrigar Lúcia vender o imóvel, eu deixo meu orgulho de lado e peço um empréstimo para a Val e contrato esses advogados para irem atrás disso na justiça. Provavelmente custará uma fortuna e eu vou acabar me prostituindo como disse o Luís, mas valeria a pena.
Quer dizer… isso se ela quiser me ouvir depois da conversa que estamos adiando.
– Parabéns pela a sua vitória, Clarice.
Theo, Glória e eu paramos o que fazíamos com a chegada desse ser. “Pedro Henrique”. O que diabos ele fazia por aqui? E o que fez pensar que ele poderia falar comigo?
– Você se saiu muito bem nessa. Deu a volta por cima, – ele continuou não percebendo que não era bem-vindo.
– O que você quer? O que está fazendo aqui?
– Ora, eu vim assistir ao julgamento. Soube que da última vez até minha sogra estava por aqui, eu precisei vir hoje. – Ele buscou com olhar se encontrava algum rosto familiar nas outras pessoas que estavam mais ao fundo. – Aliás, onde está o clã Touchon? Não vieram te acompanhar hoje ou já te abandonaram?
– Sua sogra? Que sogra?
– Oh, você não sabe? A Margot presidente do conselho da Visionnaire é mãe da Valquíria.
– Ah, você está falando da minha sogra… já passou alguns anos desde que você e a Val terminaram e você ainda está nessa cara? Você já não faz mais parte desse “clã”. Supera, vai viver.
– Você pode ter vencido essa, mas nem todas irá vencer, Clarice. É só uma questão de tempo. Ainda não acabou aqui.
– Isso não é uma competição, Pedro… e se fosse, – me aproximei dele e falei bem baixinho para ninguém mais ouvir, – eu já teria vencido em disparada nas vezes que fez a Val ter um orgasmo, – dei um tapinha leve em seu ombro e me afastei com um sorriso enorme no meu rosto. – Agora se me dá licença, eu não vou perder meu tempo com você. Valeu, falou.
Eu hein, eu vou perder meu tempo com esse cara? Está doido…
– O que você falou para ele? – Glória perguntou me puxando para perto do resto do pessoal.
– Nada demais.
– Sei…
– E aí, vamos comemorar? – Bruno perguntou assim que me juntei ao seu lado. – Acho que o dia de hoje pede uma boa taça de champagne.
– Eu não estou afim, – respondi.
– O que?! Garota! Vamos para o club. É por minha conta.
O club em questão, nada mais era que o lado “familiar” do Apex que eu não frequentava muito – e nem gostava. Ir para lá seria bastante útil, já teria que ir para lá buscar o carro da Val e pegar minha mochila com minhas coisas. Ou seja, apesar de não estar muito no clima, acabei aceitando.
Na saída do fórum, tive o desprazer de cruzar o caminho com Lúcia e outros parentes. Juro que consegui ver o ódio e o desgosto em seus olhos. Em outra ocasião teria medo e me encolheria, mas dessa vez estava caminhando entre dois homens gays que poderiam facilmente me defender.
No fundo eu sabia que isso não acabaria por aqui. Lúcia não iria desistir assim tão fácil e provavelmente irá tentar me encher o saco de outra forma. Mas honestamente? Eu não estava nem aí. Se ela tentar algo, irá se ferrar tal qual o irmão.
Aí, aí… até que uma taça de champagne não faria mal. Depois de tudo que aconteceu hoje, eu merecia isso.
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