Elora Aneva

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39. Les règles ne s’appliquent pas

« V A L K Y R I E »

– Isso é… muita coisa, não? – Comentei ao ouvir toda a explicação de Bruno. – Quanto tempo até dar algum resultado?

Depende. Tem mulheres que fazem todo o processo em menos de um mês e outras que levam meses.

Meses?!

Eu certamente iria enlouquecer. Esses horários, intervalo de duas horas para bombear, mesmo de noite… isso vai foder com a minha rotina de um jeito. Bagunçar a minha rotina é um tópico sensível. Mesmo que eu faça o intervalo mais longo possível – míseras quatro horas – ainda assim não existe possibilidade de não bagunçar tudo.

É gata… você precisa realmente estar certa do que quer antes de começar a induzir a lactação. Não é um processo fácil.

Ou você poderia agilizar a sua paternidade e eu deixo que a natureza siga o seu rumo. E aí, vamos ser papai?

Bruno fez uma careta. – Não me envolva nessa sua bagunça não, Kyrie. Eu já disse que preciso preparar algumas coisas antes de me tornar mamãe. Não posso simplesmente parir um filho para esse mundo sem estruturas. O que você acha que eu sou?

Acho incrível como Bruno fala como se fosse ele quem fosse ficar 9 meses gestando e não fosse receber o seu bebê prontinho em mãos. Aí, aí viu…

Você tem dois anos para se estruturar. Eu me recuso engravidar depois disso.

Qualquer coisa eu peço a Clarice, – Bruno estava zombando, eu sabia disso pelo seu tom de voz. O tom de que nada que estava falando era sério. Ainda assim me irritou do mesmo jeito.

– A Clarice não irá gestar nenhum bebê para você. Fique longe da minha namorada, merci.

Me chame de hipócrita ou o que for, mas era totalmente contra a essa ideia mesmo que não saiba explicar exatamente o porquê. Se um dia Clarice decidir que quer engravidar, então nós teremos um filho. Fora a isso, eu não quero a minha pequena gestando o bebê de ninguém.

Enfim, gata. O que o Dr. René te disse é o correto. Hormônios, domperidona e bombear. Tem os chás que podem ajudar também. Mas se não quiser usar nada disso, acho que tem alguns mommies no Apex que conseguiram apenas bombeando e massagens, mas leva muito mais tempo.

Dois meses, é o máximo que estou disposta a tentar. Se não der certo, Clarice terá que esperar a sua boa vontade de ser “mamãe”.

Te garanto que ela não irá morrer por esperar.

Quem irá sofrer sou eu! Clarice já disse que não se importa em esperar. Sou eu quem quer amamentar a minha pequena. E agora estou aqui morrendo de saudades da minha bebê e de dar mamar para ela. Acho que me acostumei demais em ter a minha pequena o tempo todo me rondando pedindo tetê.

A tendencia é piorar, está ciente disso, né?

Eu sei…

Eu já considerei todas as possibilidades, desde Clarice não gostar do leite a eu não ser capaz de suprir sua demanda, porque convenhamos, não existe explicação lógica para a minha pequena ter problemas com a balança e estar abaixo do peso. Essa garota está o tempo todo comendo e beliscando algo. Não perde uma oportunidade de “fazer uma boquinha”.

– Eu… eu acho que vou voltar ao Dr. René amanhã. Talvez bombeando eu sinto pouco menos saudades de dar mamar a minha bebê, não sei.

Não tenho peitos e não amamento ninguém, não sou capaz de opinar. Mas estarei aqui caso precise de algo.

Merci, Bruno.

Sozinha sentada na varanda do meu apartamento, observei a torre Eiffel completamente imersa em meus pensamentos. Não era por acaso que Paris era conhecida como a “cidade do amor”, mas vir aqui sem o meu amor era trágico demais e perdia qualquer encanto. Essa distância toda só me dava a certeza de que era ao lado de Clarice que quero estar. Ela é a minha pessoa. O meu amor verdadeiro.

Talvez ter procurado o Dr. René nas primeiras 24h na França tenha sido uma atitude um pouco repentina – para não dizer desesperada. Honestamente, eu não esperava que não poder dar mamar para a minha pequena fosse me deixar tão… estranha. A princípio acreditei que fosse em razão de tudo que aconteceu no sábado. Eu esperava que Clarice fosse querer passar seus últimos momentos comigo aproveitando o seu tetê, em meus braços, curtindo esse momento único e nosso, mas não foi bem assim.

Por praticamente onze horas e trinta e sete minutos, que foi o tempo que levei até pousar no aeroporto de Paris, eu tentei me convencer de que ela não me rejeitou por não ter o leite e seus motivos eram outros. Mas foi em vão… nada era capaz de me convencer o contrário.

E para a minha surpresa, descobri que quem espera Clarice pedir colo e peito sou eu. Quando se aproxima os horários – mesmo com a diferença de fuso – em que costumamos ter o nosso momento e ela não fala nada, não faz um comentário a respeito, quem se incomoda sou eu. Como assim enquanto eu praticamente criei um relógio biológico, ela sequer menciona a respeito? Como ela pode fazer parecer tão fácil? Onde já se viu um pequeno que não liga para os seus tété?

Eu quero a minha pequena ansiosa para o nosso próximo momento juntas, querendo meu colo, meu calor, meu aconchego. Desejando o meu leite. Amor em líquido que meu corpo irá produzir somente para ela e eu quero viciar meu bebê nele. E enquanto isso não acontecia eu me sentia vazia e incompleta.

Os acontecimentos em meus dias em Paris pareciam ir em modo turbo. No intervalo de domingo para terça-feira eu; recebi notícia de que minha avó piorou, encontrei com todos os meus parentes, visitei ao hospital inúmeras vezes. Passei horas pesquisando sobre induzir a lactação, visitei o Dr. René duas vezes e dei início aos hormônios. Recebi notificação da clinica que o resultado do teste de DNA estava pronto. Quase consegui colocar todo meu trabalho em dia e provavelmente enlouquecido toda a minha equipe com isso.

Tudo isso e ainda era só terça-feira. No fim do dia, eu combinei de encontrar com a minha mãe no meu apartamento. Era muito difícil conseguir conversar com ela sem meu pai por perto. Eu o amo do fundo do meu coração, mas tem assuntos que simplesmente não dá. Sua boca grande irá dá com língua nos dentes e seja lá o que estiver no resultado do teste, eu prefiro eu mesma dar a notícia a Clara.

– Eu estou com medo, – confessei. – Quando fiz isso eu realmente achei que seria melhor saber a resposta e de preferencia não deixar Clarice ainda mais nervosa, mas agora… sinto que a trai por ter feito por trás de suas costas. E se ela não me perdoar?

– Ela vai, – minha mãe disse com tranquilidade. – Talvez fique brava em um primeiro momento. Eu também ficaria. Aquele homem que vimos no dia do julgamento, ele não tem nada a ver com o seu pai. Imagine o que é crescer acreditando que aquilo é um pai.

Minha mãe não sabia nem a metade de tudo que descobri sobre o passado de Clara e o que esse desgraçado fez contra ela. Também não sei o que ela seria capaz de fazer se soubesse. Parte de mim acredita que minha mãe se sente parcialmente culpada por não ter, de certa forma, cuidado da filha de alguém que considerava uma amiga após a sua morte.

Sem mais delongas, eu entrei no site do sistema da clínica e preenchi os dados do protocolo para ter acesso ao resultado. Ansiosa que estava, deixei a minha mania de ler tudo aos detalhes para ir direto a parte final que realmente interessava: “… a análise exclui parentesco biológico de primeiro grau lateral (primo-avô/prima-neta) com 99,8% de certeza”.

– Clarice e a Larissa não são primas, – encarei a minha mãe, me sentindo desesperada e sem saber o que fazer. – O Luís não é o pai da Clarice.

– Parece que agora temos um problemão para lidar, minha filha.

– Mãe, e agora? Como vou falar isso para Clarice? – De repente me lembrei de um detalhe muito importante. – Meu deus! Quem é o pai dela? Você sabe quem é? Onde podemos encontrar? E se ela quiser saber?

Minha mãe fez uma careta sem saber o que responder. Entenda uma coisa, nunca é um bom sinal quando Margot tem alguma expressão estampada em seu rosto que não seja o seu típico olhar neutro.

– Mãe… diga alguma coisa.

– Eu não sei, Chloée.

– Por favor, não me chame assim. Eu me sinto um cachorro agora.

Margot balançou a cabeça, mas não comentou nada a respeito. Se fosse qualquer outra pessoa a dar meu nome para um cachorro, ela provavelmente teria reclamado e ter dado um jeito para mudar. Mas como era a Clarice… essa daí pode tudo.

– Eu não sei quem pode ser, Valkyrie. Quero dizer, tenho minhas suspeitas, mas não posso afirmar nada. Aurora teve um relacionamento com o George na época que eu estava grávida de você. Mas nós sabemos que existe um intervalo de tempo do seu nascimento para o da Clarice. Pode ter aparecido outra pessoa nesses anos e eu não conhecer.

– Esse tal George, parece com a Clara?

– Acho que tenho alguma foto no château em Épernay. Mas não sei se fará alguma diferença… você já viu como era a Aurora?

– Não. Clarice nunca me mostrou.

– Ela com certeza é bem diferente do que está imaginando.

Eu sempre imaginei a minha sogra uma versão um pouco mais velha da própria Clarice, tipo a minha própria mãe. O mesmo tom de loiro, os olhos que mudavam de cor de acordo com a luz do ambiente, a pele clara. Provavelmente estatura média para baixa. Mas para ser bem diferente, ela só podia ser como eu: completamente castanha.

– Eu vou pedir que peguem as fotos antigas que estão guardadas. Tenho certeza que devo ter algo por lá.

Conhecendo a minha mãe e sua mania de querer tudo registrado, ela realmente deve ter alguma foto. Eu não faço ideia de quantos álbuns ela tem só meu de quando era bebê e criança. Felizmente aquela não era época de Instagram ou redes sociais. Eu iria odiar ter minhas fotos expostas.

Em outra ocasião, eu teria ido agora mesmo para Épernay ou tentado desvendar o mistério com as poucas informações que tinha a Margot. No entanto, estava perto do horário em que precisava bombear e definitivamente não queria minha mãe por perto nesse momento.

Por hora, esse assunto teria que esperar.

E céus, como foi difícil falar com a minha pequena logo seguida disso e ter que guardar essa informação para mim. Eu não consigo imaginar como eu reagiria ao descobrir que o homem que me fez tamanha crueldade não é meu pai. Provavelmente iria me revoltar com a situação e até mesmo com a mãe falecida. Vinda da Clarice eu não sei, só consigo imaginar três cenários possíveis:

1. Se revoltar com tudo e todos, inclusive comigo;

2. Ficar triste e chorar por dias;

3. Internalizar qualquer sentimento, fazer piada a respeito e ser “indiferente”.

Sendo o terceiro cenário o mais provável dos três e não necessariamente a melhor opção. É mais difícil mensurar o tamanho do estrago quando a pessoa não externaliza o que sente. Um dia, mais cedo ou mais tarde, os muros dessa represa de sentimentos e emoção irá se romper e aí temos um problema ainda maior.

Eu estava uma pilha de stress com toda essa situação. Essa informação em segredo pesando toneladas sobre meus ombros. Minha avó no hospital ainda no mesmo estado. O celular despertando a cada duas horas para bombear fodendo completamente qualquer resquício de rotina que estava tentando manter nesse caos, interrompendo o meu sono e acabando com o meu humor.

Em momentos como esse eu precisava da minha namorada aqui. Não sua versão pequena, a grande. Faria loucuras por um orgasmo forte, intenso e demorado e um momento em que eu me sentisse no controle de tudo para esquecer o caos que está todo o resto. Nem que fosse só por algumas horas.

Para não enlouquecer pensando em coisas inapropriadas para locais públicos, eu me forcei a focar no trabalho. Meu dia se resumiu em bombear, pensar em sexo, trabalhar, bombear mais uma vez, visitar a minha grand-mère, pensar que não devo pensar em coisas inapropriadas, voltar para casa, pensar em sexo e bombear mais. Os únicos momentos de paz foram as breves ligações que tive com a Clara em qualquer oportunidade possível.

Mas como se a minha namorada também estivesse conspirando contra mim, ela decidiu tirar a minha paz e sossego quando a liguei naquela noite. Talvez a distância lhe fez perder o medo. Nada mais explicava tamanha audácia para falar comigo. Ou Clarice estava com saudades de levar palmadas da sua maman e por isso estava procurando por uma punição.

No calor do momento eu não pensei que talvez estivesse ultrapassando os limites. Suas palavras e o total descaso falando comigo pintando as unhas como se eu fosse uma amiga qualquer, apenas serviram como gasolina para os meus pensamentos que já estavam em chamas. O lado domme gritando para ensinar essa garota petulante uma lição: eu sou sua maman, sua atenção é minha quando estou falando com ela.

Eu tentei não envolver Clarice em meus desejos mais sórdidos e os guardar para mim, mas a cada dia tem se tornado um desafio ainda maior. Como poderia resistir quando dobrar aquela garota teimosa era incrivelmente prazeroso? Eu estava me correndo por dentro para a dominar e a fazer minha em todos os aspectos e a parte de mim que dizia não, que tentava ser racional e me convencer de que teríamos um relacionamento “normal” morria lentamente. Aos poucos percebia que não era Clarice só que estava em minhas mãos e sim eu que estava totalmente rendida aos seus pés.

Ainda durante a chamada eu precisei me tocar e encerrei as pressas por precisar lidar comigo mesma. Não era exatamente assim que gostaria de me resolver, mas devo confessar que após impedir a minha petite peste de gozar, eu tive um dos melhores orgasmos sozinha que tive na vida. Só por isso eu talvez devesse ser boazinha com a minha Clarice amanhã e quem sabe a deixar ter esse gostinho também.

Depois de um orgasmo avassalador eu poderia facilmente dormir, mas o celular despertou outra vez.

Era hora de bombear.

« C L A R I C E »

Quinta-feira.

A luz da manhã entrou pelo quarto como uma maman furiosa. Acordei de repente, coração batendo forte, como se tivesse fugido de um crime durante a noite. Os flashes dos meus sonhos ainda bem vivos em minha mente. Sem dúvidas, dormir frustrada afetou consideravelmente o rumo do meu sonho.

E lembrar da videochamada fez minhas bochechas corarem. Esfreguei o rosto nas mãos me sentindo envergonhada e querendo morrer. Ainda não acredito que tudo isso aconteceu. E pior, eu aceitei tamanha palhaçada. Meu deus, como sou patética! Patética, idiota e cadelinha para me entregar assim. Onde está a sua dignidade, Clarice?

Se a Val acha que venceu, ela não venceu. Eu vou sair, ela querendo ou não. Eu não sou submissa de ninguém e ela não manda em mim…

… ao menos foi o que eu tentei me convencer. Toda a coragem e determinação que tinha ao levantar da cama foram se esvaindo ao longo do dia. Até o final do expediente eu já estava em dúvida se deveria ou não continuar com os meus planos. E também não sabia mais se estava desistindo de ir por vontade própria ou porque minha namorada mandou.

Ela não tem controle sobre o seu lado grande, Clarice. Eu repetia isso em loop mentalmente enquanto tomava coragem mais uma vez. Não quero ninguém mandando em mim, para onde vou ou o que deixo de fazer. Sempre começa assim, com coisas pequenas aqui ou ali e de repente estou lidando com uma controladora louca e abusiva. Limites.

Era um pouco audacioso da minha parte ir até a casa da Camile com o carro da Val, mas queria ter a total liberdade de ir embora quando bem entendesse sem depender de um motorista de aplicativo. E provavelmente, se Val estivesse de acordo, iria mandar pegar o carro também. Ela não é do tipo que se sente confortável com desconhecidos no volante.

Estacionei o carro uma quadra depois do local marcado. Desliguei o motor, mas não saí. Minhas mãos grudavam no volante, úmidas do suor frio. O cheiro do perfume da Val ainda impregnava os bancos, como um lembrete de que aquilo era dela. Eu era dela.

Olhei pelo retrovisor. Haviam poucas pessoas na rua, cada um cuidando da sua própria vida, somente alguns olhares curiosos. Eu não sentia confortável com a atenção que atraia andando para cima e para baixo com esse veículo. Combina com a Val, não comigo.

O relógio marcava exatamente 18:00, ou seja, 22:00 em Paris. Tarde, porém não tarde o suficiente para a minha namorada querer dormir. E sinceramente, visto os horários que me manda mensagem, suspeitava que seu sono estava totalmente desregulado. O que explicava seus cochilos aleatórios e aparente mau humor. Em resumo: ela não poderia saber em hipótese alguma da minha pequena aventura ou estaria fodid*.

Ela está na França, relaxa Clarice. Vai ficar tudo bem. Não tem como ela saber… ou tem? A Val sempre sabe de tudo… será que esse GPS mostra a localização em tempo real? Me perguntei encarando o painel desconfiada. A Valquíria era meticulosa. Paranoica. Capaz de tudo… ela definitivamente sabia onde eu estava. Sem sombra de dúvidas.

Droga! Eu deveria ter vindo com a moto da Glória.

Meu celular vibrou no banco do passageiro. Quase dei um pulo para fora do veículo no susto. Coração mil por hora preso na garganta. Peguei o aparelho já esperando uma mensagem dizendo que estava encrencada e que era melhor ir para casa. Mas era óbvio que era só uma notificação do Youtube.

Respirei fundo e decidi tomar coragem de sair.

Iria levar mais ou menos três horas até Valquíria me ligar como todas as outras noites. Era tempo mais que o suficiente para visitar a minha amiga e caçar meu rumo de volta para casa. Contanto que eu já estivesse na estrada de volta para casa quando recebesse sua ligação, estaria tudo certo.

Meu deus, quem eu quero enganar? Ela vai descobrir! Ela vai descobrir! E se eu voltar agora? Será que dá tempo? É melhor eu volt…

– Clarice! – Camile me gritou da janela do seu apartamento, acenando para que eu pudesse ver. – Aqui!

Droga… agora já era, não dá mais para fugir.

Seria muito bizarro se eu simplesmente desse as costas e fosse embora, mas era exatamente o que gostaria de fazer. Entretanto, não foi o que fiz. Fui obrigada a seguir adiante com o meu ato de rebeldia a contragosto. A Val nunca mais aceitar minhas desculpas, eu tô muito ferrada.

Entrei no apartamento de Camile e me senti estranha. Não que o ambiente fosse ruim, era bem organizado e limpinho. Mas, entretanto, todavia, a decoração era um excesso de informação crente. A começar pelo capacho com frase gospel. Logo ao abrir a porta um quadro de leão e versículos escritos. Na parede uma frase motivacional. Até os porta-retratos era crente e tinha uma bíblia aberta na estante. Simplesmente péssimo.

 A Val acharia péssimo e imaginar o seu olhar de desgosto com o uso do espaço me fez sorrir. Se tem uma coisa que a arquiteta mais genial e incrível que conheço não admite é mal uso do espaço.

Pelo menos o cheiro vindo da cozinha parecia bom. Ela estava fazendo café e bolo. Também tinha alguns salgados, pão de queijo e pão comum. Um pouco exagerado, mas Camila claramente estava tentando causar boa impressão e ser receptiva.

Sentamos no sofá enquanto o bolo estava assando para conversar. Camile me contou empolgada sobre o seu casamento e a chegada do seu primeiro bebê. E a única coisa que pude fazer era sorrir e acenar. Mulher hétero contenta com tão pouco.

– E você está feliz? – Perguntei discretamente, tentando disfarçar.

– Sim! O Diego é um marido maravilhoso. O meu príncipe encantado enviado por deus. Ele é tão carinhoso, prestativo e atencioso. O pessoal na igreja acha fofo que sempre vamos com roupas combinando, mal sabem eles que isso é coisa dele.

Roupa combinando? Isso era para ser romântico?

– Esses dias reclamei que estava com dores nas costas e ele lavou a louça do jantar para que eu pudesse descansar, – ela sorriu totalmente apaixonada e eu desconfortável.

Sem estar grávida, se eu comentasse para a Val que estou com dores nas costas, o mínimo que iria acontecer seria receber uma massagem. Limpar casa, estaria fora de cogitação. E se fosse o contrário, seria mesma coisa. Eu limparia o apartamento dela daquele tamanho todo sozinha só para deixar minha mulher descansar as pernas e as costas. Não deve ser fácil carregar tamanha gostosura… e bota tamanho nisso.

– E Diego me leva em todas as consultas do pré-natal. Levanta uma hora mais cedo para me acompanhar, acredita nisso?

– Mas ele é o pai.

– Ah, mas nem todo pai vai em todas as consultas.

A minha namorada praticamente morou no hospital por vinte e um dias porque eu estava internada. Traficava chocolate e doces quase todos os dias só para me ver sorrir. Eu nem estou grávida, menos ainda esperando um filho dela e ela me acompanha nas minhas consultas comuns. Dirá lá pré-natal. E quando a Val foi ter o bebê do Bruno, pode ter certeza que eu vou acompanhar tudo só para estar ao seu lado.

Isso é o mínimo, sabe?

O assunto teria rendido mais se o interfone não tivesse tocado. Camile rapidamente se colocou de pé para atender.

– Acho que eles chegaram.

– Eles quem?

Alguns minutos depois, a campainha tocou e, juro por Deus, a temperatura do ambiente despencou uns 15°C de repente. Imediatamente, peguei minha mochila para tirar o casaco, mas todos os meus músculos enrijeceram ao reconhecer aquela voz diabólica. Virei o rosto em direção à porta, e meu coração acelerou como se fosse explodir. Aquilo só podia ser uma pegadinha ou uma piada de mau gosto.

O que diabos a Lúcia estava fazendo aqui?!

– Clarice, – ela disse meu nome com um falso sorriso estampado em seu rosto.

– Lúcia… o que significa isso, Camile? O que essa mulher está fazendo aqui? Você não disse que iria a convidar.

– Clara, calma.

– Calma?! Essa mulher literalmente tentou me manter em cárcere privado…

– Você está distorcendo os fatos, Clarice.

– Clarice, se acalma. Por favor… eu só estou tentando te ajudar. A sua tia comentou que estava perdida no mundo e abandonou a sua família para viver o lesbianismo. Eu não poderia ver uma amiga se afundar assim e não fazer nada.

Revirei os olhos. – Você está me zoando, né? Você está presa a um homem que te fez largar a faculdade dos seus sonhos para ser dona de casa e não respeitou sua vontade de ser mãe só daqui uns anos, e tem audácia de dizer que eu estou me afundando por estar com alguém que realmente me ama e faria o possível e o impossível por mim? Me poupe, Camile. Nem você acredita que é feliz de verdade.

– E o que adianta ter tudo isso se irá perder a sua salvação? Você está abrindo mão de algo muito maior para viver a sua aventura, – minha tia disse.

– Já acabou o seu discurso? Porque eu estou vazando. Eu não vou perder o meu tempo alugando os meus ouvidos para as suas asneiras.

Lúcia deu um passo em minha direção. – Você não vai a lugar nenhum antes de receber uma oração, Clarice.

– É melhor pensar duas vezes antes de tentar algo, Lúcia. Dessa vez eu não estou sozinha. Encoste um dedo em mim e você irá lidar com um inimigo pior que o satanás que tanto teme.

– Eu não temo o satanás!

– Mas com certeza vai temer a minha namorada. Ela já te mostrou um pouco do que é capaz, te garanto que dessa vez será muito mais que um puxão de cabelo. Vai mesmo encarar? – Pela primeira vez na vida vi tia Lúcia hesitar e um sorriso triunfante surgiu nos meus lábios. Seu silêncio era saboroso demais. – Foi o que eu pensei. Agora se me dá licença, eu vou embora. Nos vemos amanhã no tribunal… é melhor não faltar, vai ser a última tarde que verá seu irmão em liberdade.

– Você realmente pretende seguir adiante com isso?

– Foi ele quem começou.

– Porque ele queria te ver e saber por onde andava, mas já ofereceu acordo para retirar a queixa e você negou. Preferiu ser a menina teimosa e rebelde que sempre foi.

– Acordo? – Perguntei confusa, mas logo desisti. – Eu não estou nem aí. O Luís finalmente terá o que merece e se continuar me importunando, quem irá atrás de você para ter o mesmo fim sou eu. Passar bem.

– Clarice!

Saí dali imitando a confiança e postura da Val; queixo erguido, olhar fixo à frente e a áurea de quem era totalmente inatingível. O que não era exatamente a verdade, pois no momento em que fechei a porta do apartamento atrás de mim, corri para as escadas desesperada apavorada com a possibilidade de ter a louca atrás de mim. Sequer tive coragem de esperar pelo elevador e ainda bem que fiz, pois Lúcia realmente tentou me alcançar.

Dei os passos mais largos que minhas pernas curtas eram capazes de dar e sem coragem de olhar para trás, nem mesmo quando Lúcia gritou meu nome. Por que eu fui estacionar o carro tão longe?!

Alcancei a porta e meus pulmões estavam queimando. Descer escadas as pressas e correr para quem tem asma como eu, era pedir para desencadear uma crise. Mas eu não poderia lidar com isso agora. Nem mesmo trancada dentro do carro blindado me senti segura o suficiente, eu precisava ir para longe. O mais longe possível daqui. Onde Lúcia e mais ninguém seria capaz de me alcançar.

Saí com o carro cantando pneu sem um rumo aparente. Meu destino era longe, longe para um caralho. Se pudesse iria para longe 9 mil quilômetros daqui, mas como não podia, eu fui para até onde meu pulmão permitiu respirar e parei numa vaga aleatória de uma rua qualquer.

Dentro do porta-luvas, a bombinha de emergência nº7 da Val me salvou. Levou um tempo até a adrenalina passar e eu voltar a respirar como ser humano normal. Foi nesse momento que o cheiro da minha namorada invadiu meus pulmões que agora funcionavam e eu desabei. Fui sucumbida pelo medo, pavor e pânico que sentia.

Por que eu não ouvi a maman? Por que?!

Por mais que eu soubesse que qualquer coisa que a Lúcia tentasse contra mim não iria durar mais que algumas horas, pois seria questão de tempo até Val colocar toda a polícia de São Paulo atrás de mim. Ainda assim, pensar que todo aquele inferno poderia voltar só porque fui bobona burra.

A maman estar longe fez com que todos os meus sentimentos se multiplicassem e se tornassem pesados demais para aguentar. Eu estava perdendo o controle sobre mim mesma e me sentia escorregando. Mas eu não podia escorregar assim. Não sozinha. Não na rua…

De todos os endereços salvos no GPS, o mais próximo era justamente o lugar onde seria mais fácil lidar com meu lado pequeno. O Apex.

Apesar de ser um trajeto relativamente curto, o caminho foi uma tortura. Dirigir e ao mesmo tempo me forçar a ficar grande quando todo meu corpo só queria regredir e ficar pequeno, foi horrível. E para variar, a maman estava me ligando, mas sabia que se atendesse eu iria escorregar de vez.

E quando cheguei no Apex foi o timing perfeito para estacionar, abrir a porta e vomitar. Minha cabeça latejava de dor, a luz incomodava meus olhos. Toda força e resistência que ainda existia em mim foram embora. Me desabei em lágrimas enquanto pedia a maman para vir me socorrer.

Desobedecer a maman foi muito mal, muito mal! Eu nunca mais vou desobedecer ela. Nunca mais!

– Ei, mocinha – uma mulher se aproximou lentamente. – Você precisa de ajuda?

Fui olhar para a mulher e acabei vomitando em mim mesma. Sujar a minha camisa só me fez sentir um desastre ainda pior e chorei ainda mais.

– Calma, pequena, – a mulher se aproximou ainda mais e se abaixou para ficar a minha altura. Eu a conhecia, era a mulher do bar, mas não lembrava seu nome. – Onde está a sua mommy?

– Eu num tenho mommy. Tenho minha maman, mas…, mas…, mas…, ela está longe d’eu. Ela tá com a vovó dela lá do outro lado do oceano.

– Sua mommy está viajando e não levou a baby dela?

– É que… é que… o neném… o neném num tem passa-pote.

– E a sua mommy não viu isso antes? – A mulher balançou a cabeça. – A Valquíria costumava ser melhor que isso.

– Você conhece a maman?

– Sim, pequena. Eu sou uma amiga da sua mommy.

Falar da maman fez dodói no coração e voltei a chorar. – Eu quero a maman!

– Não chora, pequena – ela acariciou o meu rosto. – A tia Claudia vai cuidar de você. Vem, eu vou te levar para casa.

A ajuda da tia Claudia não era exatamente o que queria. A tia Gio era um pouquinho assustadora, mas era mais próxima do neném. E o tio Nuno também, e ele era muito legal. Só os tios num tavam aqui. Então, se a tia Claudia era amiguinha da maman, estava tudo bem também.

– Tá bom, tia.

« V A L K Y R I E »

Caixa postal… de novo.

Era a sétima vez que tentava ligar para Clarice e não era atendida. As mensagens sequer estavam sendo lidas, embora fossem entregues. Eu não fazia ideia do que estava acontecendo no Brasil, mas sabia que havia algo de errado. O aplicativo do relógio me enviou algumas notificações perguntando se estava tudo bem por causa dos batimentos cardíacos acelerados e alertando uma possível crise de asma.

Como eu não ficava monitorando o aplicativo, minha única finalidade era justamente os alertas para possível crise de asma, mas tinha acesso ao seu perfil e todos os detalhes. Tentei entender o que estava acontecendo pelos os registros do dia, mas nada fazia sentido. Por que Clarice estava se exercitando? Era compreensível uma crise de asma logo seguida ao esforço físico, mas não por que desse exercício? Consigo facilmente Clara correndo atrás do Chloée, porém, não a vejo chegando a esse ponto.

Oi, Val – Giovana atendeu minha ligação. Ao menos alguém me atendia. – O que devo a honra da sua ligação? É sobre o julgamento de amanhã?

Não. Você está no Apex ou próximo dele?

Não, eu ainda estou no escritório. Precisei ficar até mais tarde para dar uma revisada em uns documentos, mas a Juliana deve estar lá agora, ela disse que iria assistir a palestra de hoje. Por que?

Clarice não me responde e não atende minhas ligações e o carro está dando no endereço do Apex. Acho que ela está por lá.

Hmmm… eu vou ligar para a Ju, pedir para ela dar uma puxada de orelha na sua menina. Já te retorno.

Enquanto esperava, tentei ligar outra vez. Clarice estava conquistando mais uma punição para quando eu voltar para o Brasil. Para cada chamada perdida ela irá receber boas palmadas, só não decidi se será uma ou duas.

Giovana demorou um pouco para me retornar e isso já foi um pequeno alerta.

Val. Você tem certeza de que a Clarice está no Apex? A Ju procurou e perguntou para todo mundo e ninguém a viu por lá. Inclusive aquela amiga dela está lá hoje e não viu também.

– O carro está lá e não tem muito tempo. Não faz sentido Clarice estar em outro lugar.

Eu vou pedir a Ju para dar uma olhada no estacionamento. Espera aí…

Ouvi Gio ligar para Ju por outro telefone ao fundo. Eu já estava ficando nervosa e preocupada com toda essa história. O que Clarice estava aprontando? Essa garota não consegue se comportar um dia sequer?

A Ju achou o seu carro, – Gio voltou para a linha comigo. – Mas a Clarice não está por lá e parece que alguém vomitou ali. Eu vou ligar para a Ana Marta, se foi a Clara quem passou mal ali, pode ser que ela entrou em algum banheiro sem ser vista por ninguém.

Isso foi para me acalmar ou desesperar? Eu vou localizar o celular dela para saber exatamente onde essa garota se escondeu.

Qualquer coisa me avisa caso precise de algum resgate de pequenos.

Merci, Gio.

Amigos são para isso… e funcionários também. Aliás, precisamos achar sua menina porque amanhã é a audiência.

Não se preocupe, dessa vez não tem como ela sumir.

Que mommy preparada essa… – Gio brincou. – Eu vou sair daqui a pouco e vou para o Apex. Me passa a localização depois.

Antes de você sair, pode me fazer outro favor?

Depende. Se for mais demanda de trabalho não farei favores algum.

Na minha sala, na primeira gaveta do lado esquerdo da minha mesa, tem uma bombinha de emergência. A Clara tem a dela, mas parece que já teve uma crise hoje e pode ser que esteja passando mal também. Vou ficar mais tranquila se alguém que não seja uma little tenha uma bombinha por perto.

Me parece algo racional de se fazer. Pode deixar, eu pego. E só para te adiantar, vou dar entrada com meu pedido para usar meu banco horas e tirar uns dias de folga com a minha mulher. É bom a senhorita aprovar, assinar e carimbar.

Somente Giovana para me rir em um momento tenso. – D’accord, d’accord. Eu aprovo suas folgas e te levo uma garrafa de champagne de Épernay. Estamos quites assim?

Tem algo mais que posso fazer para a sua pequena, meu amor? – Ela riu.

Meus amigos são tudo, menos normais.

Estou começando a achar que contratar um segurança à paisana não seria exagero. Clarice adorava se aventurar por aí e logo mais quem irá infartar sou eu.

Para a minha surpresa, ao localizar o celular da minha pequena, descobri que ela de fato não estava no Apex. Tampouco em um endereço que eu conhecia. Era perto, uma distância andando, mas não fazia sentido algum.

Quem morava naquele condomínio?

Pesquisando na internet descobri que era um condomínio de alto padrão, o que é de se esperar pelo endereço. Será que a tal Camile morava por lá? Se a Clarice realmente ter feito isso, eu vou ser obrigada a dividir a punição em parcelas de tantas palmadas que irá levar naquele bumbum. Onde já se viu, me desobedecer e ainda me ignorar? Essa garota estava demais!

Vou mesmo ter que voltar para o Brasil para dar um jeito nessa petite peste? Incroyable! (Inacreditável).

Compartilhei a localização com Giovana e estava considerando em enviar a polícia junto. Depois de envolver até o departamento de segurança do Apex e obrigarem rastrear os passos da Clara pela as câmeras, essa filha da puta finalmente atendeu minha chamada. Eu estava prestes a lhe dar um bom sermão, quando a voz do outro lado me fez paralisar.

– Olá, Valquíria.

O tom da sua voz denunciava o sorriso. Bastou duas palavras para sentir meu estomago embrulhar.

– Claudia, que desprazer em te ouvir – respondi com desgosto. – Posso saber o que está fazendo com o celular da minha pequena?

Ora, eu estava apenas ajudando. Encontrei a sua little sozinha, passando mal e assustada. O que mais poderia fazer? Eu não sou tão má a ponto de abandonar uma pequena que precisa de ajuda.

O club tem enfermaria. Eu não te dei autorização para sair com a minha pequena. Sabe que isso inflige as regras da casa.

As regras não se aplicam naqueles que não fazem parte da casa, querida. A “sua” pequena sequer está registrada como pequena por lá. Sabe o que isso me parece? Que você não é uma mommy de verdade. Uma mommy jamais deixaria sua little vagar por aí sem supervisão, no volante e passando mal. E para variar entrando e saindo do Apex com toda liberdade… por ser uma domme esperava mais de você, Val.

Quanto a isso, eu não tinha o que argumentar. Claudia tinha razão. Eu deveria ter cadastrado Clarice no rol de membros e ela deveria assinar o termo de consenso para ser considerada “minha”. Se tivéssemos feito isso, Claudia não teria conseguido sair com a minha pequena sem que eu permitisse ou fosse notificada. E por estar na lista dos funcionários, ela provavelmente entrou até sem pulseira de identificação… tudo errado!

– Onde está Clarice? – Mudei o assunto para o que interessa.

A Clarinha? Ela está dormindo. Não sei se estava ciente, mas a coitadinha estava passando muito mal. Teve febre e até vomitou os remédios. Definitivamente não deveria estar sozinha.

Iria dar uma resposta, mas Claudia mudou para chamada de vídeo para mostrar Clarice.

Veja só, que dózinha.

Clara estava deitada em uma cama dormindo. Sobre a sua testa havia um pano aparentemente úmido, seu rosto estava rosado e o dedo na boca. Essa mania horrível piorou muito desde que viajei. E mesmo com o dedo na boca, pela tela conseguia ver que estava pressionando a mandíbula enquanto dormia. Conheço a minha menina, e além de doente, ela também estava tensa e desconfortável ali.

– Já estão a caminho para buscá-la, sua ajuda não será mais necessária. E é melhor que não encoste um dedo sequer na minha pequena ou irei acabar com a sua vida.

Você deveria primeiro perguntar a Clarinha se ela quer ir embora, Valquíria. Depois de conhecer o tratamento de uma mommy de verdade, eu não acho que ela ainda queira ficar com você.

– Inocente da sua parte acreditar que Clarice irá querer me trocar por você, Claudia. Manipular uma pequena em um momento de vulnerabilidade é muito baixo, até mesmo para você.

Claudia apareceu na tela e eu quis vomitar.

– Você se acha muito superior, não é mesmo Kyrie?

– Eu não acho. Eu sou. E conhecemos outras pessoas que também concordam.

Claudia fechou o semblante. Dói tocar na ferida, mas ela pediu por isso.

Vamos ver se irá continuar assim até o fim do dia…

Ela encerrou a chamada e eu imediatamente entrei em contato com a Giovana. Essa mulher é louca, não confio nela, menos ainda com a minha pequena em suas mãos e completamente vulnerável.

– A Clarice está com a Claudia, – eu disse assim que Gio me atendeu.

Eu sei, o endereço que me passou é o dela. A Jujuba costumava vir aqui na época da Madu. Mas não se preocupe já estou na frente do condomínio.

– Você sabe qual é o apartamento?

Sei. Fica tranquila.

O meu celular começou a vibrar com mensagens vinda da Clara. Fotos e vídeos.

– Me avisa quando estiver com a Clarice!

Abri a conversa com as mãos tremendo de raiva e ódio da Claudia. Se antes eu já não gostava dela, agora a tenho como uma inimiga para passar por cima com o meu blindado.

Oh, meu deus. Esse neném está dodói e sofrendo. Não pode ficar assim, deixa a mamãe Clau cuidar disso – ela retirou o dedo da boca de Clara que resmungou e choramingou, mas foi impedida de retomar com o dedo para a boca. – Calma bebê, você tem uma mamãe de verdade ao seu lado. Vem peitinho, vem”

Eu não estava acreditando no que meus olhos estavam vendo. Claudia levou aquele peito feio e horroroso na boca da minha pequena que estava dormindo. Se o ódio que estava sentindo fosse capaz de matar, as duas teriam morrido a distância. O vídeo acabou poucos segundos depois, mas ela enviou algumas fotos no mesmo minuto.

Minha vontade era de deletar tudo e arremessar o celular pela janela, mas respirei fundo e busquei a Margot que habita dentro de mim para manter a calma e a frieza. Isso não ficaria assim. Claudia achou que iria me atingir com esse vídeo e sair por cima. É o que vamos ver.

As regras não se aplicam naqueles que não fazem parte da casa, não é mesmo? D’accord, d’accord…

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