Elora Aneva

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03. Petit-déjeuner

VALQUÍRIA

Eu sinceramente não esperava… essa noite saiu muito melhor que todos os meus planos.

Se ter a companhia de Clarice essa noite em minha suíte já era muito mais do que imaginava ser possível, tudo isso que aconteceu há poucos minutos parecia um sonho erótico de mau gosto, que servem apenas para torturar sem de fato permitir aproveitar do banquete.

Mas isso não era um sonho.

Ao menos a água fria em minhas mãos, enquanto lavava o gozo de Clarice na pia, era bem real.

Devo confessar que fiquei bem atentada para descobrir o seu gosto, mas eu prefiro direto da fonte, então me aquietei.

A verdade era que, se ela não parecesse um filhote de gatinho assustado na minha mão, eu teria feito muito mais do que fiz. Estava salivando para a ter na minha boca, mas isso poderia ser um tiro pela culatra.

A sorte da Clarice é que eu sou um tanto paciente com as minhas presas e não tenho pressa alguma.

Quando voltei para o quarto, Clarice estava terminando de se limpar com os lenços umedecidos e pude a apreciar por mais alguns segundos.

Já faz um tempo considerável desde a última vez que estive com uma mulher trans, então nada disso era uma novidade para mim. Na verdade, a essa altura do campeonato, encontrar uma novidade é uma raridade.

Minto, o dito “comum” é o mais raro para mim que particularmente não sou nada “baunilha”.

Se bem que… pensando bem, a própria altura seja uma novidade. Eu não me recordo de ter me envolvido com alguém tão… baixinha. Clarice parece que veio em tamanho mini, mas pelo visto isso não é sobre todas as partes.

Espero que ser pequena não signifique ser frágil, ou sou capaz de quebrar essa garota no meio depois de fazer tudo que planejo fazer com ela.

– Se sente melhor? – Perguntei.

Clarice quase deu um salto ao ouvir a minha voz. Era normal ver seu rosto corar toda vez que me aproximo, mas hoje em especial o tom levemente rosado deu espaço para um vermelho mais intenso. Uma gatinha assustada.

Fofo.

Ela sorriu sem graça, tímida. – Sim… uh… eu… eu acho que devo te pedir desculpas… eu não… eu não queria te causar problemas, muito menos te colocar em uma situação delicada com o seu namorado. Prometo que nunca vou falar disso com ninguém…

– Meu namorado? – Ergui o cenho surpresa.

– Sim, o Vinícius do financeiro… é esse o nome dele, não é? – Clarice mudou o semblante de repente. – Era segredo?!

– Deve ser, afinal, nem eu estava sabendo disso. E certamente não estaria masturbando outras pessoas por aí se tivesse namorado… ao menos não sem o consentimento dele.

Clarice arregalou os olhos e desviou o olhar envergonhada. – Oh… entendi. Me desculpa.

– Você costuma pedir desculpas por tudo?

– Desculpa, eu não… – Clarice parou ao notar o meu olhar curioso e perceber que pediu desculpas de novo. – Desculpa.

Revirei os olhos balançando a cabeça.

– Alors, acho que já deu por hoje, não acha? Vamos dormir um pouco… ou tentar.

 – Eu acho melhor deitar no sofá… eu não quero te incomodar… de novo.

– Certainement pas (definitivamente não). Eu não vou deixar você dormir no sofá, – segurei nos ombros dela a guiando de volta para cama. – Você dorme comigo na cama… e você não deveria se preocupar, o “problema” já foi resolvido.

– É…, – ela respondeu sem graça, toda vermelha de vergonha.

Clarice era um poço de timidez, mas eu tinha a sensação que conseguia ser ainda pior quando era eu ao seu lado. Depois de muito a observar, eu não pude deixar de notar que ficava tensa sempre que eu chegava.

É por que ela me vê como sua chefe? Mas eu não sou sua chefe direta. Trabalhamos em departamentos diferentes. Eu até tento ser legal com ela…

– Bonne nuit, ma chérie. Fais de beaux rêves. (Boa noite, minha querida. Tenha bons sonhos), – eu disse após apagar a luz do abajur.

– Boa noite.

CLARICE

Quando acordei de manhã eu demorei um tempo considerável para entender e me recordar de tudo que aconteceu. No primeiro momento pensei que tudo não passou de um sonho erótico muito errado com a minha chefe, mas então, senti o perfume no ar e o toque sobre a minha barriga.

Apesar de ser um aroma diferente, de alguma forma ainda tinha uma certa familiaridade. Algo que denunciava ser a francesa a dona desse perfume. Por mais que no fundo eu quisesse acreditar que tudo não passou de um sonho proibido, sua presença era inegável. Ela estava bem atrás de mim e sua mão sobre mim me mantinha no mesmo lugar, impedindo de fugir.

Porque sim, era exatamente o que eu gostaria de fazer agora. Dar o sumiço enquanto ela dormia. Ir para casa e fingir que nada aconteceu. Valquíria está completamente fora da minha liga, eu sei reconhecer meus limites e principalmente evitar dramas.

Mas aparentemente Valquíria não tinha os mesmos planos que os meus. Apesar de me mover lentamente, evitando ao máximo que ela acordasse enquanto tentava sair da cama, de alguma forma acabei sendo puxada para um abraço mais firme e colado.

Eu naturalmente estou em desvantagem em relação a mais da metade da população adulta do mundo, ter um pouco mais de um metro e meio não era lá muito favorável em nenhuma situação. Nessa em específico era pior ainda. Valquíria era alta, alta do nível em que eu preciso olhar para cima para ver o seu rosto e para a minha surpresa – e desespero – também é forte. Forte para um baralho.

Merda, eu não… eu não consigo me soltar dessa mulher! Eu quero sair!

Ai, eu desisto. O jeito é esperar… não tenho outra escolha.

Apesar de gostar muito de dormir, normalmente eu não consigo voltar uma vez que acordo, dessa vez, porém, em algum momento voltei a dormir enquanto esperava pela francesa. Eu culpo o colchão… e as roupas de cama também. Era tudo tão confortável, como não apagar outra vez enquanto se deita nas nuvens? Impossível.

– Bonjour.

Eu tinha acabado de abrir os olhos, sequer tinha me ajustado a luz quando ouvi a voz rouca e aveludada me cumprimentar.

O rosto de Valquíria foi a primeira coisa que vi e apesar de lindo, eu quase tive um infarto. Por um milésimo de segundo havia me esquecido que dormimos juntas.

Antes que eu pudesse devolver o “bom dia”, um flash de memória do que aconteceu essa noite me veio à mente. O sangue em meu corpo não sabia se descia para entre as pernas ou se subia para o rosto, só sei que eu me afastei dela na cama para evitar o calor do seu corpo quase colado no meu.

Aí, Clarice. Vai se tratar!

– Bom dia, – sorri nervosa.

– Dormiu bem?

– Sim, obrigada… que horas são? Eu preciso ir embora.

– Não tão cedo mocinha, você ainda vai tomar café da manhã comigo.

– Café da manhã?

Valquíria se levantou da cama e eu desejei que ela não tivesse feito. Não olha para ela. Não olha!

– Oui, petit-déjeuner – ela repetiu em francês. – O café da manhã é a refeição mais importante do dia e eu jamais permitiria que fosse embora antes dele… também não é como se as suas roupas já tivessem voltado.

Por um momento eu havia me esquecido completamente que não tinha as minhas roupas comigo e sem elas, eu não poderia voltar para casa. Nem mesmo sair para comprar um.

Valquíria entrou no closet-barra-banheiro, me deixando sozinha no quarto.

Toda essa situação para mim era um tanto surreal. Eu nem bebi ontem à noite, como eu vim parar literalmente na cama da minha chefe? Se a minha mãe ao menos estivesse aqui… eu tenho certeza que poderia pedir socorro a ela e nada disso teria acontecido. Já não posso dizer o mesmo do meu pai, esse aí é um inútil na maioria das vezes.

Queria dizer que tomar café da manhã com a minha chefe fosse menos constrangedor que todo o resto, mas não foi. Eu não sabia se devíamos falar do que aconteceu, se fingia demência e seguia a vida como se nada ou sei lá. Na dúvida eu fiquei muda. E Valquíria, apesar de estar impecável sem nem um frizz no cabelo, também estava mais… introspectiva.

Será que a realidade bateu na sua porta? Se arrependeu?

Bem, eu nunca vou saber.

A campainha do quarto tocou. Valquíria e eu nos entreolhamos e ela então se levantou.

– Bom dia, senhora. Entrega da lavanderia – uma voz masculina disse em um tom super educado.

– Mas já? Hmm, okay. Merci.

Valquíria voltou para o ambiente que eu estava.

– Minhas roupas chegaram?

– Oui, uh… estão na cama.

– Ótimo, eu vou…

– Terminar a sua comida primeiro, – Valquíria completou a minha frase me cortando. – Suas roupas podem esperar.

Olhei para o meu prato brevemente e então para ela. Seu olhar era sério, quase sombrio. Um olhar de quem não estava aberta a discussão.

– Sim, senhora – respondi sem graça, me ajeitando novamente a cadeira.

– Você é sempre assim uma boa menina? – Valquíria apoiou o rosto na própria mão e me observou com certa… curiosidade?

– Como assim?

– Obediente.

Engoli a comida lentamente processando o que ouvi. O que ela quer dizer com isso?

– Minha mãe costumava dizer que eu era um bebê tranquilo… então, eu acho que sim?

– C’est mieux comme ça, je n’aime pas les filles effrontées, – Valquíria sorriu e endireitou as costas.

– Não entendi.

– Eu não gosto de garotas levadas, eu disse – ela respondeu naturalmente antes de levar o garfo a boca. A observei mastigar a fruta e então limpar o lábio com o guardanapo com tamanha elegância que me sentia estar diante uma princesa. – Não tenho paciência para brats, – acrescentou. – Ou qualquer pessoa que quebra regras apenas por diversão.

Ah, será que ela está falando das outras meninas estagiárias? Elas são realmente um tanto doidinhas e sem medo algum de serem demitidas. Acho que eu sou a única que leu todo o contrato e principalmente as regras do estágio. Mas enfim, quem sou eu para julgar o comportamento alheio?

– Eu imagino que deve ser cansativo lidar com esse tipo de pessoa, – comentei. – É ruim até para mim e olha que eu não faço as regras, só as sigo.

– Você segue as suas regras?

– Claro! Eu não quero me meter em encrenca, muito menos emputecer quem pode me ferrar… perdão pelo linguajar.

– Está tudo bem, você não disse nada demais.

Ótimo! Eu não quero me meter em encrenca com essa mulher.

Eu não me orgulho muito disso, mas querendo ou não, meu pai foi o responsável por abrir meus caminhos para esse estágio. Se não fosse sua influência e contatos, talvez eu não teria sequer conseguido a entrevista. Fazer merda no meu estágio, é o mesmo que manchar a sua reputação e ele já não estava muito contente em me indicar para o trabalho.

Depois do café da manhã eu fui vestir as minhas roupas agora limpinhas e ainda quentinhas. Eu fui lavar meu rosto no banheiro e encontrei um kit de higiene novo e lacrado esperando por mim. Quando foi que isso chegou aqui? Então é assim o mundo dos super-ricos? As coisas simplesmente brotam em seu caminho sem deixar rastros de quem o trouxe até ali?

Por mais tentador e interessante que pareça ser, eu não sei se conseguiria viver assim. Imagina como deve ser uma vida inteira sem nenhum problema para fazer surtar os divertidamente da cabeça?

A parte mais humilhante de ir embora foi me dar conta de que esqueci completamente do meu celular durante a noite e ele estava morto essa manhã. Valquíria acabou pedindo o carro para mim.

– Tem certeza que não quer esperar um pouco mais para carregar mais um pouco? – Valquíria perguntou minutos antes do carro chegar. Estávamos no saguão do hotel e eu ainda estava sentada no sofá, aproveitando os últimos instantes para conseguir o máximo de carga.

– Não, está tranquilo. Já tenho o suficiente para chegar em casa.

Se eu não ouvir música, trocar mensagens e não ficar presa no engarrafamento.

– Está chegando, – Valquíria anunciou. – Um minuto.

Tirei o celular da tomada e me levantei. – Dez por cento… está bom.

– Me empresta o seu celular.

– Para? – Valquíria não respondeu, mas eu obedeci só pelo o olhar que me deu.

– Eu quero saber quando chegar em casa, – ela disse digitando alguma coisa no meu celular. – Me mande notícias quando chegar, – ela devolveu o aparelho.

Observei o chat aberto no whatsapp e o singelo “oi” enviado para um contato salvo como “Valquíria Martins”. Quem salva o contato no celular com o nome e sobrenome? Se bem que… É bem a cara da diretora fazer algo assim.

– Seu carro chegou.

Eu esperava um veículo qualquer. Um Kwid, HB20, Onix, Uno, carros comuns do dia-a-dia e o que me apareceu foi um BMW. E o motorista? Terno e gravata. Ainda saiu do carro, deu a volta e abriu a porta para mim.

Existe uma versão VIP e exclusiva do aplicativo que eu não estou sabendo?!

– Não se esqueça de avisar que chegou em casa, – Valquíria comentou uma última vez ao se despedir de mim.

– Não vou.

Estava tão impactada pelo interior do carro que sequer notei o motorista entrando e levei um pequeno susto quando me perguntou se a temperatura estava do meu agrado… faltou pouco para me oferecer um café ou taça de champagne.

Gente que luxo!

VALQUÍRIA

– Você vai quebrar esse celular se continuar encarando desse jeito, – Bruno comentou atraindo a minha atenção. – Bebe isso aqui, mona. Você parece tensa.

Bruno me ofereceu o copo tipo old fashioned. Eu normalmente não bebo whiskey sem motivos, mas não recusei o Boulevardier dessa vez. Algo forte e encorpado me faria bem agora.

– Ela não me enviou uma mensagem, – comentei após o primeiro gole. Extra forte… foi proposital? – Eu dei uma mão essa madrugada e é assim que me retribui?

Eu sei que Clarice chegou em casa bem e segura. O próprio Heitor me avisou e fez questão de a observar entrar no prédio onde morava. Ela só… se esqueceu de enviar a mensagem.

– É isso mesmo? Valkyrie Touchon está provando pela primeira vez na vida o gostinho de um ghosting? Bem-vinda ao mundo dos normais, gata.

– Ghosting? Ela não está me ignorando!

Bruno ergueu o cenho me encarando profundamente como quem pudesse ler a minha mente. Revoltada, desviei o olhar virando o rosto e cruzei os braços.

Clarice não está me ignorando. Ela não ousaria me ignorar.

– Claro, você é uma Touchon. Ninguém ignora uma Touchon.

Revirei os olhos. – Eu não sou esse tipo de Touchon, você sabe muito bem. As pessoas não me ignoram porque eu sou sexy e gostosa. Simples assim.

Eu não sou perfeita. Muito pelo contrário. Tenho meus defeitos e uma coleção respeitável de problemas, mas, convenhamos, não ser gostosa definitivamente não está entre ele. A minha fama de enlouquecer quem se envolve comigo com esse meu jeitinho Valkyrie de ser me persegue em todas as relações, eu sei.

Eu dou trabalho e compenso muito bem por ele.

– O que uma autoestima construída pelos pais desde a infância não faz, não é mesmo?

Dei ombros e bebi outro gole do meu Boulevadier.

Não estou acostumada a não ter as pessoas ao meu redor fazendo as minhas vontades, menos ainda a ouvir “não”. Talvez eu seja um pouco mimada demais e esse seja um dos meus inúmeros defeitos. É algo que tenho tentado mudar, no entanto, não é uma tarefa muito fácil e simples. Às vezes é mais forte do que eu.

Em outras palavras, o que eu quero dizer é que, eu sempre tenho o que eu quero e eu quero a Clarice para mim. 

– Você realmente acha que ela está me ignorando de proposito? – Perguntei minutos depois voltando ao assunto.

Já estávamos falando de outra coisa irrelevante, porém o comentário de Bruno ficou na minha cabeça.

Eu nunca fui ignorada por alguém antes… Isso dói.

– Como eu vou saber? Eu nem conheço essa pessoa, – Bruno respirou fundo e tocou em meu ombro. – Eu sei que você está acostumada com as pessoas correndo atrás de você e não de você, mas no mundo normal, a gente se esforça para conquistar alguém e geralmente não acontece em uma noite. Quando vai a encontrar de novo?

– Amanhã.

– Então amanhã você descobre se ela ainda está na sua ou se vamos ter que marcar um evento para o primeiro fora de Valkyrie Touchon.

– Também não exagera, eu já levei um fora antes.

– Já? De quem?

Nós nos entreolhamos em silêncio por um tempo desconfortavelmente longo.

– Eles só aceitaram sair comigo porque estavam interessados no meu sobrenome.

– Mas não te deram um fora, no final quem deu foi você.

Se você quer saber o verdadeiro motivo pela qual eu deixei a vida na França, essa é a resposta.

Lá eu era apenas um sobrenome, aqui, apesar da dupla nacionalidade, a maioria das vezes eu sou só a “gringa francesa”. Ninguém sabe ou se importa com a minha ascendência, tampouco imaginam que eu também sou uma das donas da empresa.

No Brasil eu tenho a liberdade de ser apenas Valquíria, e eu gosto assim.

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1 Comentário

  • Lrssgm

    Adorei!!!!!

  • Mariana Antunes Moreira

    Prometeee autora que não sumir please 🥹 Essa história já começou muito boooooa 😍

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