« V A L K Y R I E »
Até alguns minutos, eu tinha plena certeza que lidar com a Clarice seria muito mais fácil que lidar com a Hélène… e eu me enganei.
Ser maman me deu o luxo de acreditar que, fora as birras e manhas de pequena, a minha pequena jamais em hipótese alguma iria me evitar. Ainda mais me evitar por estar brava comigo.
Eu sou o aconchego e porto-seguro da minha bebê, como ela ousa me evitar assim?
Nós saímos da caverna em silêncio, subimos para o andar de cima em silêncio e continuamos em silêncio no corredor quando não me aguentei mais;
– Clarice, vamos…
– Eu estou brava e irritada com você agora, Valkyrie – ela me interrompeu. – Me deixa em paz.
– Mas nós precisamos conversar.
– Conversar sobre o que? Nada mudou de lá até aqui. E como eu disse, no momento eu estou brava e irritada, – ela entrou no quarto e por um momento pensei que estava juntando as suas coisas para ir embora, embora. – Eu não quero papo, quero paz e sossego.
Para o meu alívio, Clarice só estava atrás do seu Ipad e não fazendo as suas malas. Mas o alívio durou pouco ao ver que estava caminhando em direção a porta.
– Onde você vai?
– Qualquer canto em que eu possa ficar sozinha. Não deve ser difícil encontrar um lugar assim numa casa desse tamanho.
Clarice estava de fato determinada a me ignorar e pelo visto, tentar uma conversa agora iria resultar em mais brigas. A contragosto, eu aceitei minha derrota.
– No fim do corredor… – Clara me encarou confusa. – A última porta a direita. É uma sala de estudos. Ninguém vai te perturbar por lá.
Eu queria que a minha namorada se isolasse de mim? Não. Mas também não queria ficar caçando ela pela casa. Ao menos assim, eu saberia onde encontrá-la depois de um tempo.
Desnorteada e sem saber exatamente o que fazer, eu fui atrás de uma distração que me impedisse de colapsar: a cozinha.
Não era a minha intenção me envolver com os preparos do jantar de hoje, mas era impossível estar nesse ambiente sem querer assumir ele. Queria fazer apenas os cookies e acabei mudando o preparo de quase todos os pratos e levando os chefs a loucura com a minha presença.
– O que está fazendo na cozinha?
O tom de voz nada contente me fez gelar a espinha. Queria estar alucinando e que não passasse das vozes da minha cabeça querendo me pregar uma peça. Mas infelizmente, o perfume no ar não me deixava enganar.
Me virei de frente e lá estava ela em carne e osso.
– Grand-mère, – sorri nervosa.
– Não deveria ter um chef de verdade responsável pelo château? – Hélène perguntou me olhando de cima a baixo. Eu estava usando um avental, e esse avental estava sujo de farinha.
– Sim, mas eu…
– Então deixe que os chefs de verdade façam o seu trabalho. Essa não é a sua função. Tem uma equipe de funcionários à disposição para isso.
Eu sou uma chef de verdade.
A Hélène sabe que eu me formei no Le Cordon Blu assim como a maioria dos chefs que admira. E eu sei que ela costuma ir com frequência no meu restaurante. Posso não estar lá sempre, mas o menu e as receitas são meus.
O comentário foi tão ríspido que um dos cozinheiros veio assumir o que eu fazia e eu aceitei a contragosto.
– Você não deveria estar em Paris? – Perguntei entregando meu avental para o chef.
– Achou mesmo que não viria para conferir como estão os preparativos de amanhã?
– Então você já está indo embora?
Hélène me encarou por um momento. – Está querendo se livrar da sua avó, Chloée?
Sim.
– Non… apenas quis me informar.
Se minha resposta foi convincente ou não, eu não sabia dizer. Hélène me olhou com a sua típica desaprovação. Demorei um pouco para perceber que estava em meus “trajes conforto” para cozinhar. É raríssimo eu usar um dolman, normalmente uso quando pretendo ficar horas cozinhando algo como hoje.
E não, não era um dólmã todo branco completinho tal qual estivesse no filme Ratatouille. Era um dólmã de manga curta rosa com estampa de morangos e um turbante costela de adão com a mesma estampa para segurar o cabelo. Definitivamente não era algo que usaria se quisesse passar alguma credibilidade ou ser vista, principalmente pela Hélène.
– Esse lugar não está muito vazio para quem pretende fazer um jantar de ceia de natal ainda essa noite? Onde estão os preparativos? Já está ficando tarde.
Diferente de Hélène que transforma qualquer reunião de família em um evento de gala, aqui em casa éramos casuais. Nossa ceia sempre foi algo mais íntimo e familiar, exatamente como acontece no Brasil. Meu pai nunca abriu mão disso e minha mãe aprendeu com ele o que era viver em uma família cheia de afeto e carinho.
– Não vamos dar uma festa. Será um jantar familiar. Como todos os anos.
– Ah… pelo visto seu pai ainda não superou, – ela disse caminhando em direção a sala.
No caso, Hélène se referia a superar viver do mesmo modo que a sua família de origem. E não, antes que venha pensar que o meu pai era um pobre coitado, essa nunca foi a realidade. Não se compara com um Touchon, isso é óbvio. No entanto, minha avó ascendeu na vida através dos estudos, tem pós-doutorado e foi reitora da universidade federal do Rio de Janeiro. Meu pai já era mestre em engenharia agrônoma quando conheceu a minha mãe e estava prestes a iniciar o doutorado, mas desistiu a contragosto da minha avó para focar em mim.
Enquanto a Hélène era contra o casamento dos meus pais por querer um marido aristocrata para a minha mãe, a Geralda era contra porque queria que meu pai fizesse o doutorado. Ainda assim, a minha avó paterna aceitou a decisão do meu pai ao saber que tinha eu no meio.
As irmãs do meu pai têm mais estudo que os irmãos mais velhos da minha mãe, por exemplo. A minha tia mais nova nem se fala. Ela foi o tipo de adolescente que participou de feiras de ciências internacionais e foi convidada para estudar em Harvard. Inclusive, na noite em que meus pais se conheceram, o Fernando estava trabalhando de segurança pois toda a família estava na missão de bancar a tia Ester por lá.
A minha tia Ester pôde escolher entre trabalhar na NASA nos EUA ou na CNSA na China. Te garanto que não tem nenhum Touchon que chegou a esse nível.
E para não ficar muito para trás, meu pai fez o doutorado dele quando eu comecei a estudar no Le Rosey.
– E por onde anda aquela menina loira? Ela não deveria estar com você?
Minha avó se sentou no sofá e confesso que me senti desconfortável com a ideia de a ter por aqui por muito mais tempo que o necessário, mas pelo visto ela não tinha intenções de ir embora já e até pediu um chá.
– A “menina loira” tem nome, Clarice. E não, ela não está aqui comigo porque não deveria estar aqui. Sou eu quem gosta e quis cozinhar.
– Ao invés de estar preocupada com a sua aparência e como irá se apresentar hoje e amanhã, está aqui… cozinhando.
– O que há de errado com a minha aparência?
Hélène me encarou como se tivesse feito a pergunta mais idiota possível. – O correto seria o que não há de errado. Talvez hoje não seja relevante, mas amanhã espero que esteja de cabelo e unha feita. E coloque uma maquiagem nesse rosto. Uma mulher que se preze deve estar sempre elegante e não usando, – ela fez uma pausa julgando meu dólmã de morangos, – isso.
– Bom, pelo menos agora quando chegar amanhã não irá se decepcionar tanto ao ver que continuarei exatamente assim.
Até porque, minhas unhas estão feitas. Elas só estão curtas por motivos óbvios e cor neutra porque eu quis. E meu cabelo está com corte e hidratação em dia. Talvez eu devesse pintar em breve. Embora não tenha problema – ainda – com fios brancos, meu cabelo tem suas partes mais claras que me incomodam às vezes. Provavelmente quando envelhecer serei igual a minha mãe que tem uma mecha da frente mais branco que o resto.
Que pesadelo será quando começar a ficar grisalha!
– Esse desleixo também faz parte dessa sua nova fase?
– A minha nova fase?
– O seu relacionamento com a moça.
Confesso que fui sonsa ao fazer essa pergunta genuinamente. Em minha defesa, demorei a me dar conta justamente por não ser uma fase.
Precisei fechar o olho por um segundo e respirar fundo para manter a postura.
– Não é uma fase, grand-mère. Eu a amo.
– Claro que a ama, – Hélène concordou com certo desdém. – Você sempre teve um coração… sensível. Desde criança. Sempre foi fácil se apagar à ideia errada de amor. É natural que tenha se apaixonado por uma mulher depois do que lhe ocorreu.
– Eu não me apaguei à uma ideia errada e não me apaixonei pela Clarice por ter fracassado com um homem.
– É isso que está tentando se convencer? – Serviram o chá da minha avó e eu recusei. – Por que não se senta?
– Estou melhor de pé.
– Se você diz, eu não vou insistir – ela bebericou o chá. – Sei que está brava comigo, mas eu não poderia deixar de dizer a verdade.
– A verdade?
– Sim, Chloée. A verdade. O Henri cometeu um erro, um erro grave que a magoou. É compreensível que isso tenha te abalado e mexido com a sua cabeça a ponto de ter se afastado dos homens por um tempo, mas… isso não precisa definir a sua vida.
Revirei os olhos ao ouvir o nome do traste. – Você veio até aqui para advogar por ele? Não vai dar certo.
– O Henri ainda te ama, minha querida.
– Eu não poderia me importar menos com isso.
– Pois deveria. O Henri não é exatamente o tipo de homem que sonhei para você, mas ele se esforça o bastante e tem um futuro promissor.
Claro, qualquer um se casando por dinheiro tem um futuro promissor.
– Grand-mère, – respirei fundo para manter a postura. – Eu amo a minha namorada. E a ela também me ama. Me ama, me entende e me respeita. A Clarice não está interessada no meu status ou no meu dinheiro, muito menos na minha família.
– Não está interessada, mas se aproveita… ou você realmente acha que uma garota da idade dela teria outro motivo para se relacionar com você? Chloée, você deveria ser madura o suficiente para reconhecer o que é algo sério e o que é apenas diversão. Depois que conseguir tudo que quer ela irá embora.
– Você não a conhece.
– Conheço o suficiente para saber qual será o futuro de vocês, – ela me rebateu. – Chloée, ouça. Eu estou velha. Eu não vou viver para sempre. E eu não posso deixar essa vida sem antes garantir que os meus dois amores estejam no caminho certo. A Julie está feliz, vai se casar em breve e logo será mãe, enquanto isso, você está se aventurando sem rumo.
Estava demorando para citar a Juliette nessa história.
– Entendo a sua preocupação, grand-mère. Mas essa é uma preocupação desnecessária. Eu não estou me aventurando sem rumo. Eu estou muito feliz e bem com como minha vida está seguindo, não irei mudar.
Hélène fez a sua típica careta de decepção. – Você não se cansa de querer me decepcionar, Valkyrie. Jamais pensei a minha única neta de sangue seria quem testaria meu frágil coração dessa forma. Tudo que eu quero é que seja genuinamente feliz; casada com um bom marido como o Henri e que tenha seus próprios filhos. Será pedir demais esse último desejo e me dar esse presente antes que meu coração falhe de vez?
Sim, é demais. Demais para um caralho!
Toda a cena era tão absurda que eu precisei de um tempo para processar. Hélène joga sujo, mas ela nunca havia sido tão baixa a esse ponto.
Desviei o olhar revoltada apenas para me deparar com a última pessoa que gostaria de ver aqui nesse instante.
– Clarice…
O coração fraco aqui é o da minha avó, mas foi o meu que parou. Não sei dizer ao certo desde quando Clarice estava ouvindo a conversa, porém esse seu olhar para mim eu já conhecia. Era o mesmo de quando a rejeitei depois da nossa primeira noite juntas. Um olhar que me perseguiu por muitos pesadelos.
Nossa interação não durou mais que alguns segundos, pois Clarice logo deu as costas para ir embora. São situações diferentes, mas foi impossível não sentir o medo de que fosse recolher as suas roupas como da última vez para ir embora e me deixar.
Eu nem pensei.
Meus pés se moveram sozinhos para a seguir e pela primeira vez na vida me via ignorar os chamados de Hélène. Por todos esses anos, eu fiz de tudo para conquistar a aprovação da minha avó, me machuquei demais no processo. E agora eu não poderia me importar menos com a sua opinião.
– Chloée, onde está indo? Nós não acabamos de conversar… Valkyrie Chloée!
Eu já estava no corredor e dando passos cada vez mais rápidos quando Hélène me chamou outra vez e eu a ignorei. Para o meu alívio, Clarice parou no corredor ao lado ao invés de se esconder. Ouvi seu choro e me desesperei mais um pouco. A abracei por trás mesmo e a apertei forte.
– Ma vie…
– Quem é Henri, Valquíria? – Ela me interrompeu, brava e triste(?).
– É como a Hélène chama o Pedro Henrique, – confessei.
– Essa… essa… – Clarice não continuou a frase. – Por que ele? Por que ela não vê que ele sim é interesseiro?
– Ela só se importa com os próprios interesses.
– E você? Com o que você se importa?! – Clarice não me deu tempo para responder. Ela começou a se remexer tentando se soltar do meu abraço. – Me solta, Valquíria.
– Clarice, espera. Vamos conversar.
Ignorando ao meu pedido, Clarice insistiu em se soltar de mim, mas eu peguei sua mão a impedindo de correr e forçando-a se virar para mim.
– Ma vie… – dei um passo me aproximando com a intenção de abraçá-la, mas fui impedida por ela.
– Fica longe, Valquíria!
– Clarice, s’il te plaît…
– Eu disse para você ficar longe! – Clarice rebateu firme, um tom que nunca usou comigo antes.
Antes que eu pudesse tentar a abraçar de novo, Clarice se inclinou para frente e logo entendi o porquê queria me manter longe. Ela vomitou.
– Mon dieu, ma vie…
Tentei me aproximar para ao menos segurar seu cabelo e Clara novamente me barrou, me empurrando com o braço para me manter afastada.
– Eu vou limpar…
– Você não preci-
Mais uma vez ela vomitou, um pouco mais que antes e pelo visto não iria parar até que seu corpo colocasse tudo para fora.
– Banheiro… eu preciso de um banheiro.
– Tem um lavabo ali.
Ajudei Clarice até o lavabo que por sorte era realmente muito próximo. Eu não tinha intenções algumasdeixá-la -la sozinha agora, menos ainda enquanto passava mal dessa forma. Mas as intenções dela eram diferentes das minhas.
– Eu não quero você aqui, – ela disse me empurrando para fora.
– Clarice…
– Valquíria, eu não quero vomitar em você. Sai!
– Me deixa segurar o seu cabelo.
– Coentro.
Até que ponto ser maman me dava o direito de ignorar a palavra de segurança? Eu queria dizer que Clarice estava pequena demais para decidir se deveria ou não estar ao seu lado, mas seria uma mentira.
Dei um passo para trás saindo do lavabo e Clara fechou a porta. Fiquei ali parada ouvindo o meu amor passar mal sem poder fazer nada. Tudo isso era tão frustrante.
Será que é desse jeito que o Chloée se sente quando o tranco para fora do quarto?
« C L A R I C E »
Eu não tinha intenções de bisbilhotar, mas ouvir meu nome atraiu minha atenção enquanto procurava o caminho para a cozinha. Não tinha entendido muito bem o que a Val tinha falado e me aproximei esperando encontrar Margot, até ouvir a voz nada familiar para mim.
Queria não ter entendido uma única palavra que aquela velha francesa disse. Queria que essa fosse só mais uma das conversas em francês que meu cérebro ignora, mas não foi. Maldito dia que decidi estudar essa língua!
“Elle n’est pas intéressée, mais elle profite” repetia em loop na minha cabeça enquanto meu estômago repelia qualquer substância dentro dele.
Eu não queria me colocar numa posição de aproveitadora, até porque eu nunca quis nada que a Valquíria me deu. Eu nunca pedi por nada disso. Mas recebi… agora pensar em tudo que ela fez por mim me dava enjoo.
Mesmo sem interesse, eu me aproveitei e aproveitei muito do dinheiro da Valquíria. Tudo que ela fez esse tempo todo foi gastar comigo.
Ela pagou a porra de um hospital particular para mim. E os advogados do processo com o meu pai. E o celular que me roubaram. As passagens para estar aqui. A viagem para o Rio de Janeiro. Eu praticamente moro em seu apartamento sem pagar por nada… e agora todos esses atos de amor em exagero começaram a me pesar como uma dívida. Como se eu tivesse aceitado viver dentro de uma casa que não era minha, em uma vida que não era feita para mim.
Eu me sentia suja. Culpada…
Culpada por querer ficar num lugar que não serve para mim. Culpada por continuar a querendo para mim mesmo quando eu sei que não deveria. Culpada fazê-la -la perder seu tempo comigo quando existem opções muito melhores que eu. Culpada por ser egoísta e continuar querendo o seu amor só para mim.
Talvez um dia a Valquíria perceba que está em desvantagem. Talvez ela ainda vai ser quem irá me rejeitar… de novo. Até esse dia chegar, eu ficarei aqui torcendo para que demore. Demore por toda uma vida.
– Mon amour?
Ouvir a voz da Valquíria do outro lado da porta chamando por mim, me fez desabar em lágrimas mais uma vez.
Tudo que eu mais queria nesse exato momento era me jogar em seus braços e nele ficar até toda essa sensação ruim em meu peito ir embora. Ao mesmo tempo em que estar ao seu lado agora me fazia sentir ainda mais culpada.
Embora a ideia de ficar no lavabo até a hora de voltar para o Brasil me parecesse bastante atraente agora, eu me levantei do chão frio e lavei minha boca e rosto para recuperar o mínimo de dignidade que ainda me restava antes de sair.
Abri a porta e levei um pequeno susto ao ver que a Val estava tão perto dela.
– Está melhor? – Ela perguntou.
Eu mal, mal consegui conter meu choro e toda aquela vontade de chorar que me atingiu como avalanche só de a olhar outra vez. Ela estava tão, tão, tão fofinha com a seu dólmã de morangos. Em outro cenário eu com certeza teria comentado a respeito. E tirado uma foto escondida para o meu acervo pessoal. Algo que até essa manhã seria tão natural e agora só a ideia me fazia sentir desconfortável, como se não tivéssemos intimidade o suficiente para tal.
– Estou, – respondi sem graça.
– O que está sentindo?
– Quero deitar um pouco.
– Ah, oui. Vamos para o quarto.
Val me estendeu a mão, mas eu abracei o meu próprio corpo para não ter que aceitar.
No desespero de fugir, eu nem me dei conta de que tinha seguido pelo lado contrário do corredor e agora precisávamos voltar para perto de onde a bruaca velha provavelmente estava. Saber disso me deu enjoos outra vez, só não teria nada para colocar para fora.
De fato, a velha estava lá, só não estava sozinha. Alguns funcionários da casa, a própria Margot e o Bruno estavam ao seu lado a acudindo. Era só o que me faltava Hélène morrer agora e eu também ter que carregar essa culpa sobre os meus ombros.
– Está tudo bem? – Valquíria perguntou.
– A sua avó teve outro mal súbito, nós vamos leva-la ao hospital.
Queria mesmo acreditar que foi um mal súbito, mas eu não conseguia. Para mim isso soava como manipulação e filha da putagem. Me parece muito com algo que a tia Lúcia faria para tentar convencer a Larissa e a mim de algo que não queremos. Se isso surtiria efeito na Valquíria, eu sinceramente não sei. Até antes de chegarmos aqui, eu teria certeza que ela diria algo como “se morrer, enterra” e agora, pelo o seu olhar perdido, acho que acredita no que está vendo… ou pior, está se culpando.
Seria deselegante eu simplesmente me ausentar e tacar o foda-se para a velha? Provavelmente. Talvez eu devesse fingir outro enjoo e sair para “vomitar”.
Queria ser cruel o suficiente para ignorar toda a situação, mas essa não seria eu. Então quando todo mundo se juntou nos carros para ir ao hospital, eu fui junto. Apesar de não acreditar em Hélène, ela é muito velha, quase centenária, as chances de morrer por um stress era real e se isso acontecesse, eu estaria ao lado da minha namorada.
– Eu acabei de chegar e já me colocaram para trabalhar. Eu não vim aqui para isso, hein – Bruno comentou quebrando o silêncio assim que chegamos na sala de espera do hospital.
– Você acha que ela vai ficar bem? – Valquíria perguntou e eu inspirei fundo para conter o que sentia dentro de mim.
– Vai ficar ainda melhor se Hélène entender que é uma senhora idosa e no seu atual estágio de vida, sua única preocupação deveria ser qual chá da tarde irá tomar e não expandir negócios ou encher o saco.
– Bruno! – A senhora que entendi ser sua mãe o repreendeu. – Isso é coisa para se dizer?
– É a minha opinião médica.
Somente Bruno para me tirar um micro sorriso. Suas palavras eram duras, porém sinceras. E de certa forma surtiu efeito em acalmar os ânimos. Bom, pelo menos quando olhei para Valquíria ela me pareceu um pouco mais aliviada.
É horrível se importar com alguém que só te faz mal, mas eu entendo. Eu mesma às vezes me pego pensando se ter mandado o Luís para a cadeia não foi cruel demais. Ou se obrigar meus tios que não tem “nada a ver” com o que aconteceu colocar suas casas a venda. Eu não deveria me preocupar se pagar aluguel irá afetar a qualidade de vida deles ou se um dia terão condições de comprar outra casa. Mas eu me preocupo e não me surpreende que a Val também se preocupe com a sua avó.
Eu não poderia esperar algo diferente.
Por trás da sua áurea inabalável, a Valquíria por quem eu me apaixonei é um doce e sensível. Que ama e ama até demais. E faria qualquer coisa por quem ela ama.
– Clarice, eu não ouvi a sua voz desde que cheguei aqui. Você está bem? – Bruno perguntou cortando o assunto que tinha com Fernando, ambos despreocupados, as únicas tensas aqui eram Valquíria e eu. Sem muito ânimo, eu apenas assenti com a cabeça. – Ah, é? E o gato comeu a sua língua? Ou está de castigo e não pode falar?
– Não.
– Entendi.
E foi essa a nossa conversa. Eu realmente não estava afim de papo com ninguém.
Um tempo depois Margot veio acompanhada de alguns médicos. Exatamente como Bruno havia dito, Hélène estava ótima e estava sendo dispensada com a orientação de evitar atividades físicas intensas e stress.
Na saída do hospital encontramos com duas pessoas que desconhecia, mas que aparentavam estar preocupadíssimos com a velha.
Traumatizada por querer entender francês, optei por ignorar a conversa. Então quando ao invés de voltar conosco, Hélène saiu acompanhada dos outros dois, eu fiquei sem entender nada. Também não questionei.
– Ela vai voltar para Paris, – Valquíria respondeu à pergunta que não fiz quando me viu observar a cena confusa.
– E é seguro viajar essa distância nesse estado?
Não que eu me importe, que fique claro.
– Eles estão de helicóptero. É rápido.
Outro mundo, Clarice. Outro mundo.
– Você não tem medo?
– De helicóptero?
O meu amor é mesmo uma sonsinha, não é?
– D’ela morrer.
– Não.
Não é o que parece, mas não iria discutir sobre isso.
– Como você está se sentindo?
Triste, brava, depressiva, revoltada, dodói, carente, necessitada de cuidados e atenção da maman. Tantas coisas…
– Melhor, eu acho… – respondi.
– Você precisa descansar. Vamos para casa.
Minha casa está muito, muito, muito longe daqui…
Nós voltamos para a casa dos pais da Val e ao menos para os dois era como se nada tivesse acontecido. Margot pelo menos estava pleníssima e bastante interessada na conversa que tinha com a mãe do Bruno, que depois descobri que se chama Leopoldina. Fernando estava curioso para saber das ilhas do Caribe que o Bruno visitou. A única preocupada era a Val.
Detestava ver a minha namorada tão perdida e desnorteada. Eu estou brava, muito brava com tudo que aconteceu e o que ouvi, mas mesmo assim, ver o meu amor dessa forma era ainda pior. Não poder fazer nada para ajudar me deixava muito na merda e escancarava como sou inútil como sua namorada.
Mas o que eu poderia fazer nessa situação? A Valquíria está mal pela avó que pediu com todas as palavras para se casar com outra pessoa como um “último desejo” pouco antes de parar no hospital. Parar no hospital por ter passado mal depois que a própria Val a deixou sozinha para vir atrás de mim. Um aspiral de merda sem fim que se eu continuar refletindo mais, quem irá realizar o desejo da velha sou eu.
Uma péssima hora para ser adulta.
E mais uma vez estava diante de uma mesa de café da tarde tão grande que poderia ser chamado de ceia de natal e não estava afim de comer nada. A minha garganta estava ruim, mas não tanto quanto ontem e engolir já não era tão doloroso assim. Eu só… estava triste.
– Você não vai comer, Clara? – Margot perguntou após um tempo. – Sua garganta ainda dói?
– Não, eu só… não estou legal do estômago. Na verdade… se não se incomodarem, eu prefiro me deitar um pouco.
– Você disse que estava se sentindo melhor, – Val me olhou preocupada.
– Estava… até sentir cheiro de comida e me sentir enjoada outra vez. Eu vou me deitar, licença.
Em partes era verdade o que sentia.
Vomitar a minha alma para fora me deixou com um pouco de dor de estômago e cabeça. Deitar era uma desculpa, mas também uma necessidade.
Me perdi a caminho do quarto e abri duas portas erradas até encontrar a certa. Não sei quem é o doido que acha legal moral numa casa desse tamanho. Eu mesma não estava gostando nem um pouquinho dessa experiência.
Ao invés de ir direto para cama, eu fui para o chuveiro.
Às vezes, um banho lavava muito mais que apenas o corpo e no momento esse era o único lugar seguro em que podia chorar. Ali, ninguém me olhava, ninguém fazia perguntas. A água quente escorrendo pelo meu rosto era a única desculpa que eu precisava para deixar sair o que estava entalado na minha garganta.
Era o único lugar onde minha dor não precisava ser justificada, nem defendida, nem contida por medo de incomodar. Sozinha ali eu finalmente podia existir inteira… mesmo que isso significasse existir em pedaços. Porque é exatamente assim que me sinto agora, um caco.
Me encolhi de baixo da água quente. Não tinha intenções de lavar meu cabelo agora, mas deixei molhar. Abraçada ao meu próprio corpo, as lágrimas vieram sem esforço, mas sofridas. Doloridas.
Doía. Doía muito amar a Val e, ainda assim, me perguntar se eu era o erro que a afastava da vida que todos diziam que ela deveria ter. Doía estar em uma casa tão grande, tão bonita, tão cheia de história… e me sentir totalmente deslocada.
Tudo aqui era bonito demais, limpo demais, organizado demais. Perfeito demais. E no meio de tanta perfeição, querer chorar parecia um ato de ingratidão. Como se admitir que estava machucada fosse uma afronta ao privilégio de estar aqui. Como se a minha tristeza não fosse válida por estar numa viagem perfeita em outro país. Como se minha dor não tivesse direto de ocupar esse espaço.
Mas ela ocupava.
E eu me sentia errada por desejar não ter vindo. Por desejar ter ficado no Brasil.
– Ma vie? Você vai demorar?
Como explicar a vontade desesperada de abraçar a maman e ao mesmo tempo achar tão errado?
– Eu vou lavar o cabelo.
– D’accord. Eu te ajudo.
– Não precisa…
– Não foi uma pergunta, ma vie. Eu vou te ajudar.
Observei Val se despir sem ser capaz de me opor a sua presença. No fundo, a parte pequena de mim queria que ela viesse. Que assumisse o controle e levasse esses sentimentos ruins para longe.
Ela entrou no box e eu desviei o olhar envergonhada. Devagar se aproximou e esticou o braço em minha direção. Me encolhi fechando os olhos sem saber como receber o seu abraço e quando o abraço não veio levantei o olhar confusa. Só então percebi que o frasco de shampoo estava atrás de mim.
Senti um mix de alivio e decepção. Aliviada por saber que a maman jamais irá ultrapassar os meus limites e irá esperar o meu tempo. E decepcionada por saber que a maman jamais iria ultrapassar os meus limites e iria esperar o meu tempo… mesmo que o meu tempo seja demorado e uma parte de mim pedisse por urgência.
Devagar, em círculos suaves, a maman começou a lavar o meu cabelo com a atenção e o carinho que somente ela tem. E o gesto, por mais simples que fosse, estava cheio de cuidado e amor. Tão cheio que me fez arder por dentro.
Fiquei parada, me sentindo tímida demais e pequena demais para ir atrás do abraço que tanto desejava. Mesmo querendo me jogar em seus braços e pedir. Mesmo querendo sumir dentro dela e esquecer de tudo. Eu só encostei a cabeça em seu peito devagarinho com medo da rejeição. Mas ela não me rejeitou.
O que eu queria era me entregar ao choro e escorregar para o mais longe possível, mas me segurei no mesmo lugar e me contentei com as lágrimas silenciosas que insistiram em escapar.
– Você não está chupando dedo, está bébé? – A maman quebrou o silêncio.
Como o meu dedo foi parar na minha boca, nem eu sei. Eu mesma só me dei conta quando a maman perguntou. E eu sei que ela não gosta, mas agora eu precisava do meu dedinho.
– Talvez… um pouco.
– Estamos no meio do banho, acho que dificilmente estará com a mão suja. Dessa vez, está tudo bem. Mas é só dessa vez.
– Obrigada…
Eu quis chamar a maman de maman, mas fiquei com vergonha. O que a velha maldosa iria pensar se soubesse disso? Num quero nem pensar. Nem pensar!
A maman lavou o meu cabelinho e depois o próprio cabelinho. O banho demorou um pouco mais do que pretendia, mas ficar ali encostadinha na maman enquanto a água quente escorria o meu corpo era exatamente o que o meu coraçãozinho precisava.
Depois do banho, a maman secou o meu cabelo, mas na hora de vestir a minha roupinha, eu não quis. Eu preciso ser grandona aqui. Não é hora de ser neném.
– Eu trouxe umas coisas para você mais cedo. O Bruno disse que era bom, – a Val pegou a bandeja e trouxe para a cama. – Tenta comer pelo menos a maçã e beber a água de coco.
– Num quero.
– Clarice, você está basicamente dois dias sem comer direito. Precisa comer algo. Quer parar no hospital outra vez?
– Não.
– Então coma.
– Num quero.
– Clarice…
– Eu. Num. Quero!
A maman me encarou brava, mas eu num ‘tava nem aí. Eu também estava braba. Muito braba!
A resposta da maman nunca veio porque alguém bateu na porta, era a Margot. Com mais comida e o Nando atrás carregando umas caixas.
– Pelo visto alguém ainda não comeu nada, – Margot me encarou séria e eu me encolhi. – Acha isso bonito, é? – Neguei com a cabeça. – Je sais.
– Nós trouxemos presentes, mas ouvi dizer que até os presentes que não são do papai Noel são revogados quando não se come direito.
– Não existe papai Noel, Nando.
– Existe. Eu já fui na casa dele… tenho fotos. Se você comer, eu te mostro.
– Num tô fome.
– Tem certeza que não vai querer nem olhar para a sua bandeja da Bluey?
– A Bluey? – Perguntei curiosa.
Por que a Margot estava falando da Bluey? Eu gosto da Bluey!
– Oui, a Bluey.
– A Bluey, Bluey?
– Oui, petite. A Bluey… não é cachorrinha que você gosta?
– Mas como… como você… como você sabe?
– Eu sei de todas as coisas.
Olhei para a maman e ela deu de ombros. – É verdade, ela sabe de todas as coisas.
A Margot trouxe a bandeja para o meu colo na cama. Eu não estava muito afim de comer, mas confesso que ver toda a louça da Bluey me deixou um pouco empolgada.
– Olha, é a Bingo! – Mostrei para a maman o garfo com a ponta da Bingo. – E tem a Chili e o Bandit também!
– Por que você não estreia sua louça da Bluey comendo um pouco, hein? – A maman sugeriu.
– Minha louça?
– É seu, pequena.
Eu amei a louça da Bluey, mas mesmo assim… – Num tô fome.
– Clarice, – Margot chamou a minha atenção. – Você precisa comer alguma coisa. É melhor comer toda essa fruta e beber o seu suco.
– Só a frutinha e o suquinho?
– E as torradas.
– Tá bom.
Eu não queria a Margot brava com eu, então eu papei tudinho. Menos os cookies. Eles tinham cara de cookies da maman e eu não quero eles. Os cookies da maman era pra ser de amor e a maman num tá amando o neném!
– Você quer abrir os seus presentes?
– Mas ainda nem é natal…
– É que esses presentes são para a petite Clara e está liberado abrir antes do natal.
– Eu quero!
O primeiro presente foi um caderno de colorir da Bluey com um monte, monte, monte de canetinhas coloridas. Eu fiquei super empolgada porque eu adoro pintar e pintar com canetinha é legal. O segundo foi um Lego da casa da Bluey e eu amo montar Lego. O terceiro não era bem algo relacionado a Bluey, mas a sua escolha com certeza foi considerando o fato de amar a cachorrinha: um bracelete Tiffany T com turquesa… e diamantes.
Foi impossível não ouvir a voz da velha maldosa e chata na minha cabeça: elle n’est pas intéressée, mais elle profite.
– Ficou perfeito em você! Combina com os seus olhos quando estão azuis, – Margot comentou empolgada depois de me fazer experimentar o bracelete. – Eu achei a sua cara. Você gostou?
– É lindo, – sorri sem graça.
É lindo, mas ficaria mais feliz se não tivesse me dado. Não quero nem imaginar quanto deve ter custado esse bracelete da Tiffany & Co. Se eu pensar que é bijuteria vou me sentir menos desconfortável.
– Ficou muito lindo em você, mon amour. Deveria usar amanhã.
Tá maluca? Aquela velha com certeza vai comentar algo. Pela minha saúde mental e paz de espírito, eu prefiro não usar isso. Quem sabe no dia de São Nunca seja uma excelente ocasião.
– Vou pensar, – menti. Não vou não.
– Enfim, se pretende descansar um pouco antes da ceia de natal, é melhor fazer isso agora, senão ficará muito tarde.
– Espero que até lá você melhore, o cheiro da comida está maravilhoso! – Fernando comentou. – Já estou ansioso para meia noite.
Normalmente eu também costumo estar sempre empolgada para a ceia de natal. Comer é a minha atividade favorita. Mas tive o prazer de ser sugada por aquela velha velhota.
Fernando e Margot saíram me deixando a sós com a maman.
– Quer um tetê antes de tirar um cochilo?
– Tô cheia. Quero mimir.
– Não quer um tetê?
– Não.
Val me observou em silêncio por um momento. – Você não está recusando o tetê por causa da Hélène, está?
– Não.
– Eu sei que você ouviu a nossa conversa mais cedo, ma vie. O que está pensando, hein?
– Nada.
– Sabe que mentir para maman tem punição. Vai querer mesmo receber uma na véspera de natal?
– Num tô nem aí, – respondi brava. – Por que você num vai atrás da sua vovózinha e num me deixa mimir em paz?!
A maman respirou fundo e me encarou séria. – Clarice, eu sei que está brava com toda essa história, mas eu já disse que não tem com o que se preocupar. Não vai acontecer.
– Se você diz… agora eu quero mimir.
– Sem tetê?
– Sem tetê pra você.
– Sem tetê para mim? Mas eu não…
Virei de costas me enrolando na coberta e ignorando a maman.
Tô boladona com ela e vou continuar até toda essa palhaçada acabar!
« V A L K Y R I E »
O desespero de não entender a sua pequena é real.
Vivia com a falsa ilusão que tinha a minha pequena na palma da minha mão e saberia lidar com qualquer que fosse a situação. Agora a vejo escorregar entre os meus dedos e não saber como a trazer de volta para mim.
Não era como se só estivesse brava e fazendo birra por atenção. Clarice está me evitando e rejeitando, o que é pior ainda.
Tento não comparar com a época em que ainda não estávamos juntas e cometi a idiotice de dizer que a nossa primeira noite juntas foi um erro. Mas até então, aquela foi a única vez que me senti e de fato fui rejeitada pela Clara.
Sua namorada estar brava e te rejeitar dói, mas a sua namorada e pequena fazer isso dói de um jeito diferente. De um jeito que me preocupa. Preocupa e muito.
É justamente pelo o histórico de Hélène de destruir meus relacionamentos que me sinto desesperada. Eu sabia que ainda era cedo para Clarice a conhecer. Eu queria ter nos dado mais tempo. Tempo para consolidar o nosso namoro e ter a certeza de que, apesar da Hélène, Clarice ainda iria decidir ficar e aturar a grand-mère.
Queria entender o que estava passando na cabeça da minha pequena. Queria poder a trazer para o meu colo e ser a sua fonte de conforto. Mas agora até tetê ela negou. A minha Clarice negou peito… nenhuma rejeição é maior que essa. Eu me sinto um lixo.
– Crise no paraíso? – Bruno me perguntou. Levantei o olhar confusa. Todo esse stress estava deixando a minha mente a mil ouvindo tudo e todos ao mesmo tempo. – Você e a nanica. Está tudo bem?
– Eu também queria saber.
– Já até imagino o que aconteceu. É, gata… é complicado.
Encarei Bruno um pouco incrédula. Ele sempre tem o que dizer e conselhos para dar. Não é possível que agora tudo que tenha a falar seja “é complicado”.
– Você já foi melhor.
– O que posso dizer? Sua matriarca é um tanto… excêntrica. Ela fere de jeitos diferentes. Não sei o que fez para ferir a nossa Clarinha.
– Ela é minha Clarinha.
– Por enquanto, né mona – o fuzilei com o olhar. Como ousa dizer um absurdo desses? – O que a Hélène quer de você dessa vez? Consertar a cagada que a outra lá fez na empresa dela? Mudar para Paris? Tem que ser algo grande para fingir um mal súbito.
– Fingir?
– Gata, eu não trabalho igual uma puta em dois hospitais para ser facilmente enganado. Eu sou professor. Respeita a minha história.
Eu também tinha as minhas suspeitas, mas não iria afirmar nada sem provas. É deveras conveniente para Hélène vir passar mal aqui e justo agora. E mesmo que fosse real; por que isso mudaria algo na minha decisão? Qual o sentido de atender o “último desejo” dela para morrer logo em seguida? Eu a decepcionei a vida inteira, por que agora seria diferente?
Eu estou cansada. Muito cansada.
Iria dizer que preciso de férias, mas pelo visto isso não é o suficiente. O que eu preciso é de um tempo reclusa longe de tudo e de todos, exceto pela Clarice… nos períodos da tarde e noite. Pela manhã ela pode dormir o tempo que quiser, eu não ligo.
– Ela quer que eu me case com o Pedro Henrique e já preparou um jantar de noivado.
– A bicha é ousada. Inacreditável. Sua mãe não me contou desse babado quando me chamou para cá. Vai ser uma novela e tanto.
– Você quer parar de se empolgar em cima do meu sofrimento? A Clarice está furiosa comigo porque quando eu soube ao invés de confrontar a Hélène e cancelar essa palhaçada toda, eu achei melhor evitar a briga e só impedir de acontecer ou simplesmente não ir ao jantar. O resultado é o mesmo, só menos desgastante.
– Para você, né. Eu ficaria possesso se soubesse que o ex do querido está planejando pedi-lo em casamento na frente de todo mundo e ele não acabar com essa palhaçada antes mesmo de acontecer. Imagine eu, toda linda e esbelta, passando por essa humilhação.
– Afinal de contas, quando irá apresentar o querido?
Bruno me olhou sério. – Não é esse o tema da conversa. Não venha mudar de assunto. Temos problemas maiores para resolver, como salvar o seu relacionamento.
– Será que você poderia parar de falar como se a Clarice fosse terminar comigo a qualquer momento? Está me assustando.
– É essa a intenção. Eu sou médico, sempre considero a pior hipótese e trabalho para descarta-la. O que poderia ser pior que o término?
– Nada.
– Então pronto, – Bruno me deu dois tapinhas nas costas. – Boa sorte na sua missão. Eu agora vou falar com o meu querido.
– Vai lá.
E pensar que eu achei que ter meu melhor amigo por perto enquanto a minha querida me ignora faria me sentir menos solitária. Mero engano.
É cedo para começar a beber?
Aproveitei o período de ócio e tédio para ver as notificações do meu celular. Não estava com saco para responder as mensagens de ninguém, menos ainda e-mails de trabalho, porém havia um e-mail que atraiu a minha atenção.
O comprador do quadro da Clara finalmente me respondeu aceitando o meu pedido. Eu não iria tentar comprar de volta, embora essa fosse a minha vontade. Mas eu queria ver. Ver pessoalmente.
Felizmente, o tal George não era apenas um turista como suspeitava. Ele não só residia em Paris, como concordou com a minha proposta para ver o quadro. Combinamos de nos encontrar em um café bastante conhecido próximo a sua casa, onde o quadro estava em sua parede.
Obviamente que não seria tola de ir a casa de um desconhecido sozinha. Ainda estou em dúvida se arrasto meu pai ou Damien para nos acompanhar. Os dois juntos seria um tanto intimidador, não é bem a impressão que eu quero passar.
Outra coisa que fiz para passar o tempo foi cozinhar um pouco mais. Não era bem comida natalina, apenas algumas opções mais suaves para Clarice, caso seu estômago ainda estivesse ruim.
E uma outra tentativa tola de a reconquistar pela barriga, já que os cookies não deram certo.
O bom de uma ceia de natal sem tanta formalidade, é poder ficar em casa sem ter que se produzir dos pés a cabeça. Tudo bem que eu tinha um look especial para ocasião, ou melhor dizer, uma lingerie especial, mas qualquer possibilidade de sexo atualmente é um sonho distante.
Quando entrei no quarto para me trocar, Clarice estava em um sono profundo e chupando dedo. Substituí o dedo por sua chupeta e a cobri outra vez. Ainda era um pouco cedo e ela poderia dormir um pouco mais.
Se eu pudesse escolher e seguir o meu coração, eu vestiria um pijama agora mesmo, mas pijamas são para mais tarde.
– Mon bébé, – passei a mão nas madeixas loiras de Clara. – Está na hora de levantar.
– Hmmm. Não! – Clara murmurou rabugenta.
– Todo mundo já está lá em baixo, só falta você.
– Eu qué mimir!
– Você poderá voltar dormir mais tarde, – me aproximei de seu ouvido e falei baixinho. – Tem um monte de sobremesa deliciosa e você vai poder comer tudo, quantas vezes quiser.
Clara abriu só um dos olhos. – Que tipo de sobremesa?
– Éclair de chocolate, crème brulée, cookies, bolo de chocolate, sorvete. Várias opções.
– Você me convenceu no éclair de chocolate, – ela se sentou na cama e bocejou coçando os olhos.
Por um breve segundo pensei que teria a minha neném manhosa só para mim, mas sua expressão sonolenta mudou para uma bebê brava tão rapidamente. Como se naquele instante tivesse se recordado que estava me odiando.
– Vamos trocar de roupa?
– Não! – Clara fez bico brava. – Vai trocar a roupa do “Hen-ri”!
Clarice fez uma careta exagerada ao pronunciar “Henri” tal qual ao personagem Aaron Bailey de Três É Demais. Nada petulante.
– Clarice, eu já disse e deixei claro que não irá acontecer nada.
– Deixou claro para quem? Sua vovózinha estava aí ainda hoje dizendo “Henri t’aime toujours, ma chère.” – Novamente, Clarice fez careta não só para dizer “Henri” como toda frase. Dito isso, ela se levantou e saiu em direção do closet dando passos raivosos. Como se tivesse tamanho para tal cena…
Em meio a minha preocupação com sua reação e como estava processando tudo, eu ainda encontrei espaço para me sentir orgulhosa da minha garota que estava indo muito bem em francês e sozinha.
– Até quando irá agir assim e evitar falar comigo?
– Num sei, ‘pegunta pro “Hen-ri”.
– Você não vai vestir a sua fraldinha?
– Por que? Acha que eu num sei ficar sem?
– Não, é que você está… – desisti no meio da frase. – Quer saber, deixa para lá. Fica sem.
Quais as chances disso dar certo? Quase nulas, mas Clarice quer ser teimosa, eu vou deixar. Depois irá chorar por ter causado acidente.
– Está colocando o suéter ao contrário.
– Você num sabe se eu quero usar assim.
– Você não quer. A etiqueta irá incomodar o seu pescoço.
Clarice quis ser teimosa e vestiu o suéter ao contrário do mesmo jeito. Apenas para tirar logo em seguida e vestir do modo correto. Pelo visto a minha pequena está empenhada em me contrariar.
Queria não me deixar abalar tanto pelo fato da minha pequena recusar a minha ajuda para tudo e para variar me ignorar. Talvez eu não tenha me dado conta antes o quanto ser maman não só se tornou algo da minha rotina, como era algo que me fazia muita falta. A começar pelo fato de que, agora se Clara me evita por muito tempo, sinto dores reais com o excesso de leite.
Excesso esse que já estava me incomodando há um tempo.
– Ma vie, você já vai descer? Não vai querer mamar antes? Ainda falta um tempo para a ceia e a Margot não irá deixar tocar em nada antes do horário.
– Não tô afim.
– Ei, mocinha. Você sabe muito bem que o leite não irá parar de vir só porque está brava comigo.
– Por que não vai dar tetê lá pro “Hen-ri”?
A minha sincera vontade era dar umas boas palmadas toda vez que Clarice repete o nome “Hen-ri”. Ela decide agir como uma brat na véspera de natal e depois eu quem sou maldosa por lhe dar uma punição.
Ordenhar o leite era um saco, mas eu não tive outra escolha. Essa petite peste estava indo para outro nível em sua rebeldia a ponto de recusar o tetê de fato. Pelo menos agora, eu poderia armazenar no congelador sem ter que me preocupar com possíveis questionários.
Já estava esperando pelo caos. Alguma cena para me tirar o sério na frente das outras pessoas, mas pelo visto a imprevisibilidade não era somente negativa. Embora estivesse um pouco mais quieta que o usual, Clarice estava interagindo com os demais e até rindo das besteiras do Bruno e o meu pai.
O seu problema era somente comigo.
O que era péssimo, afinal, eu queria minha bebê de volta. Mas ao mesmo tempo era um alívio saber que seu incomodo não se estendia aos demais. Que de certa forma, ela ainda estava confortável com as pessoas que são a minha família.
Sua escolha por sentar na poltrona ao invés do sofá era uma forma sutil de manter a distância e me fazer sofrer. Não estou habituada a querer algo e não ter, o que me faz perceber o quão de fato sou mimada. É muito frustrante, ainda mais quando se trata do meu amor. Estou acostumada em ser o centro das atenções de Clara e ser tirada dele não me agrada em nada.
Não é por questão de ego. Se fosse, eu teria feito o que sempre fiz em situações semelhantes: dobrar a aposta. Devolver com a mesma moeda em dobro. Até o “Hen-ri” que a Clarice está adorando falar, não teve a mesma coragem porque sabia que o resultado seria eu o deixando.
Essa é a maior prova de que a minha namorada está pouco se fodendo para dinheiro. Ela não está tendo nenhum pouco de dó e piedade da minha alma carente do seu amor. Não é possível que a minha bebê seja tão cruel assim!
A história de que os littles são seres totalmente carentes e dependentes de suas mommies é uma falácia daquelas. Eu estou triste e puta com tudo isso.
Imaginei que, por ter comido mais cedo, Clarice iria aproveitar a ceia. Mas enquanto todos se serviam e comiam felizes, ela estava há um bom tempo fingindo comer um pedaço de peru, ignorando o resto que estava em seu prato.
– Você não deveria comer o purê de batata, – comentei baixinho só para Clarice ouvir e bebi meu vinho.
– Deveria sim!
A psicologia reversa, meus amigos, é uma excelente aliada para lidar com pequenas brats.
– Não coma muito, o seu estômago ainda não se recuperou 100%.
– Eu como se eu quiser, você num manda em mim!
– Você não tem jeito mesmo, né Clarice? – Comentei com o meu falso descontentamento.
Você pode até estar brava comigo, Clarice. Mas eu ainda sou a sua maman.
Como esperava, ela comeu tudo que estava no prato e ainda repetiu um pouco mais. No segundo prato ela já estava bem mais falante e voltando a rir da conversa. Quase aquilo que costuma ser no dia-a-dia.
Esperava que a minha pequena fosse se empolgar ainda mais para a troca de presente, mas foi justamente o contrário. Toda a empolgação da ceia foi embora no momento que nos reunimos para a troca. Ela parecia mais interessada em seu crème brulée que qualquer outra coisa.
E eu sabia o porquê… por ter ouvido as asneiras da minha grand-mère, muito provavelmente estava desconfortável em ganhar presentes como os que recebeu.
Meu pai lhe deu um colar muito lindo e delicado que combinava bastante com ela, mas com pingente de diamante. Bruno trouxe roupas de uma grife caribenha de onde estava antes de vir para cá e sua mãe artigos de artes.
Alguns dos presentes que comprei para Clara estavam no quarto. Queria entregar em particular, especialmente aquele que era para a minha pequena. Mas eu tinha dois que poderia entregar em público sem problemas: um macbook para os seus estudos e um celular novo.
Pensei que fosse ficar feliz, mas seu sorriso não era verdadeiro. Ao menos não era nada parecido com o que costumava me dar… e isso me deu um medo.
Como se Clarice estivesse esperando o momento certo para me dar a notícia ruim que eu não quero ouvir.
A minha mãe foi a penúltima a dar presentes e a essa altura eu já não estava prestando atenção em mais nada. Meus olhos estavam fixos em Clarice. E os delas fixos em qualquer coisa que não fosse eu.
– O presente que eu tenho para você, Clarice, é um pouco diferente. Você não vai receber ele aqui e eu preciso que me diga onde exatamente quer deixar, – minha mãe a entregou um caixa que parecia vazia de tão leve. – Espero que goste.
Clarice abriu a caixa desconfiada. Até eu estava. Desconfiada e preocupada. Com medo de que minha mãe tivesse exagerado e jogado a última pá de terra para enterrar quaisquer chances de me consertar com a Clara.
– Eu não… eu não entendi, – Clarice retirou vários papeis de dentro da caixa confusa. Essa foi a primeira vez em que ela me olhou pedindo a minha ajuda e eu também não fazia ideia. – O que é isso?
– São os documentos de posse dos quadros da sua mãe… ao menos todos os quadros que consegui localizar. Estão guardados na minha galeria em Paris esperando você decidir para onde quer levá-los.
– Eu… nem sei o que dizer…
Pela primeira vez na vida me vi sentindo inveja da minha própria mãe que recebeu o abraço mais gostoso do mundo e eu colhendo migalhas. Um absurdo. Mas devo admitir… ela mereceu.
A última a dar os presentes foi a Clara. Era visível o seu nervosismo para entregar, porém suas escolhas foram as mais significativas. Para o meu pai, ela pintou uma coleção de quadros em aquarela de imagens da sua religião. Para a minha mãe, uma decoração de parede composta em fibras naturais e um prato de cerâmica, que casaria perfeitamente com o estilo arquitetônico da casa dos meus pais em São Paulo. E sinceramente me deu orgulho como a sua chefe, em ver tamanho bom gosto na escolha.
Considerando como estava sendo tratada desde essa manhã, eu já esperava que Clarice me deixaria por último apenas para me evitar ao máximo. Mas me olhar se tornou inevitável quando precisava entregar o que tinha escolhido para mim. E diferente dos presentes dos meus pais que estavam em caixas maiores, o meu presente era tão pequeno que a caixinha cabia escondido entre as suas mãos.
– Eu… uh… é para você, – ela me estendeu a caixinha vermelha e laço dourado toda envergonhada, nem parecia que era minha namorada a mais de um semestre.
Confesso que demorei a pegar o presente apenas para aproveitar ao máximo da atenção do meu amor, aceitando suas migalhas.
Dentro da caixinha havia um anel extremante delicado e lindo.
– Espera aí, você vai pedir a Val em casamento assim sem avisar ninguém? Eu não me arrumei para isso! – Bruno comentou e Clarice ficou vermelha como um pimentão.
– Não… isso não… não é um pedido de casamento. É um anel… ele gira no meio… é para os tiques com os dedos.
– Já estava indo buscar o champagne, – meu pai entrou na brincadeira.
Se fosse um pedido de casamento eu teria aceitado. Mas um anel para os meus tiques me emocionou tanto quanto se fosse. Cresci escondendo essa mania, tentando parecer normal quando meu corpo tinha vida própria e precisava “descarregar”. Com medo de ser julgada quando simplesmente não conseguia parar, nem quando de tanto raspar unha na pele começar a sangrar.
Meus anéis são um recurso de alívio e conforto imediato e discreto. Sair sem eles é quase como estar nua. Clarice me dar um anel especialmente para isso era o mais belo e puro ato de amor que poderia me dar.
– J’ai adoré, mon amour (eu amei, meu amor) – eu disse sem conter as minhas lágrimas. – C’est très beau! (É muito lindo!).
– Se chorou, é porque realmente gostou.
– Eu quero ver.
O anel da Clara não precisou de uma grife estampada para ser a minha joia mais valiosa.
Esse momento para ser perfeito só faltava a minha pequena voltar a me amar como antes… não pense que esse momento fofo e emocionante foi o suficiente para derreter o coração dessa garota. Ela estava pior do que a própria Elsa de Frozen e eu sinceramente não sei o que quer que eu faça para voltar a me amar.
Enfrentar a Hélène? Clarice ouviu a minha conversa com ela essa manhã. Eu deixei claro com todas as palavras que a amo! Não pode ser que ela espera que eu vá atrás do Pedro Henrique para dizer isso. Não faz sentido querer contato com esse traste nem que seja só para expressar o meu amor por ela.
Dizem que não é possível morrer de amor, mas eu estou morrendo com a falta dele!
Quando o sono começou a bater e todos decidiram ir para cama, eu pensei que sonolenta a minha bebê iria querer um colo, um chamego, um dengo, qualquer coisa. Mas ela entrou no quarto e foi para o closet se trocar, sem trocar uma mísera letra comigo.
– Mon bébé, antes de você ir para cama… eu tenho um presente para você.
– Num quero presente.
– Nem mesmo se esse presente for a Bluey?
Mostrei a pelúcia na expectativa que ela fosse se empolgar e eu vi em seus olhos – agora quase castanhos por causa da luz – uma leve fraquejada. Estava óbvio que a bichinha queria pegar a sua Bluey, mas estava lutando contra o seu desejo.
– Num quer a sua Bluey.
– E a Bluey e a Bingo?
– A Bingo? – Clarice fez uma careta empolgada que durou um único segundo e então fechou o semblante outra vez. – Num quero a Bingo.
– Mas elas vão ficar tão, tão, tão tristes sem você. Elas estavam tão ansiosas para dormir agarradinhas com a neném.
– É só mandar para o “Hen-ri”
Respirei fundo ao ouvir esse nome mais uma vez.
– Você realmente não vai querer ver nenhum dos presentes que a maman comprou para você?
– Num tem pesente nenhum da maman! Eu num quero! Num quero!
Clarice saiu correndo para o banheiro e fechou a porta na minha cara. Sinceramente não sabia se ficava furiosa por seu comportamento ou me preocupava com o que poderia acontecer dentro desse banheiro.
– Abre essa porta, – eu bati na porta, tentei abrir a maçaneta e estava trancada. – Clarice, eu mandei você abrir.
– Você num manda em mim!
Se eu não estivesse ouvindo o som da torneira e Clarice escovando os dentes, eu teria arrombado essa porta. Mas se fizesse isso, iria cair sobre a sua cabeça e seria ainda pior.
Fui obrigada a esperar. Então esperei. Sentada na cama, fazendo todos exercícios de respiração possíveis para me acalmar, afinal, é natal. Não se pode bater em pequenos no natal.
Após levar todo o tempo do mundo. Clarice saiu do banheiro de dentes escovados e rosto lavado. Trocou de roupa no closet e estava pronta para deitar quando veio para o quarto.
– Eu sei que você conseguiu ficar a noite inteira sem a sua fralda, mas você não vai dormir sem.
– Vou sim!
– Você não vai.
As roupas de cama de inverno são grandes demais e vão todas para a lavanderia. Não existe lavanderia aberta no natal em Épernay, tampouco vou dar trabalho para a equipe de limpeza por birra de uma pequena.
– Clarice, vem colocar a sua fralda – eu disse firme.
– Vai por fralda no seu Hen-ri.
– Clarice. Vem. Aqui. Agora.
– Eu num vou colocar fralda porra nenhuma! Caraio!
– Como é que é? O que você disse?!
– É isso aí que você ouviu. Não vou colocar fralda ‘pola nenhuma!
– Eu vou lavar a sua boca com sabão se continuar falando palavrão assim, garota!
– Foda-se, eu tô nem aí pa você. E vai toma no cu, Valquília!
Inspirei fundo, muito fundo, para não gritar e manter a minha postura. – Você ultrapassou todos os limites possíveis, Clarice Mansur. Vou te dar uma chance para se desculpar.
Clarice deu um passo em minha direção. Olhou nos meus olhos e disse:
– Vai. Toma. No. Cu!
Eu dei uma chance e ela jogou no lixo. Essa é uma escolha dela, não minha.
Puxei Clarice para mais perto e lhe dei três boas palmadas no bumbum. Justamente por estar sem a sua fralda, iria as sentir com mais firmeza e se lembrar delas quando acordar amanhã.
– O que eu disse que faria se continuasse falando palavrão, Clarice? – Ela se recusou a responder e eu lhe dei outra palmada. – Eu fiz uma pergunta, você me responde.
– Vo-vo-cê… a maman… maman disse que… disse que-que vai… lavar a boquinha com sa-sabão.
– Então você já sabe o que irá acontecer.
– Não. Maman, não… eu num falo mais ‘palavão.
Por um instante eu hesitei, mas Clarice ultrapassou todos os limites. Recuar agora apenas serviria para dar mais abertura para seu mau comportamento. Apenas uma lambida rápida e será o suficiente para aprender a sua lição, também não vou torturar ninguém.
Ainda com dor no coração, eu a arrastei comigo em direção ao banheiro.
– Não, não, não, maman. Eu num ‘goto de sabão. Tem gosto de… goto de… sabão.
– É o que acontece quando pequenos como você falam palavrão. Pense nisso na próxima vez.
Estávamos na porta do closet quando alguém entrou no quarto sem bater na porta atraindo a nossa atenção.
– O que está acontecendo aqui? – Minha mãe perguntou confusa e preocupada.
O breve momento de distração foi o suficiente para Clarice se soltar de mim e sair correndo em direção da Margot.
– A maman é má! Ela é muito má! Ela bateu no neném! E quer… e quer lavar a boca do neném… com sabão!
– Valkyrie?! – Minha me repreendeu como se eu fosse a errada da situação. – Por que fez isso com ela?!
– Por que você não pergunta para ela o que ela fez?
Margot olhou para Clara. – O que você fez, Clarice?
– Eu… eu… – agora essa petite peste olhou para mim. Eu quero só ver o que vai falar para a Margot. – Eu…
– Você o que, Clarice?
– Eu mandei… eu mandei a maman toma no cu.
– Oui, exactement ça. “Va te faire foutre” (Sim, exatamente isso. “Vai tomar no cu”). – Margot me encarou boquiaberta. Sim, a própria Margot que raramente expressa alguma emoção nesse seu rosto sempre neutro. – Deux fois (duas vezes), – acrescentei.
– Pour quoi? Por que, Clarice?
– É que… é que…
Clarice desabou a chorar. Muito mais do que quando levou suas palmadas. Seu choro agora era diferente. Um choro sofrido. Um choro que fez toda a minha irritação se transformar em preocupação no mesmo segundo.
– É ‘puque… é puque… ela acha que eu, que eu ‘qué coisa. Mas eu num ‘qué coisa não! Eu num ‘peciso de coisa!
Minha mãe e eu nos entreolhamos confusas. Do que essa garota está falando?
– Que coisa, Clarice?
– Coisa! Todas as coisas! Eu num ‘qué coisa nenhuma! Também num quero que me dá coisas!
Eu acho que entendi, mas decidi confirmar. – Está se referindo aos presentes que ganhou?
– E todas as ‘otas coisas também. Eu ‘qué a maman, só minha maman. Num ‘pecisa de coisas. Mas ela num entende, ela num ‘qué ‘sabê. O amor do neném num ‘impota.
– Mas eu nunca disse isso, ma vie. O seu amor importa sim, importa muito.
– A véia! A véia disse! Eu entendi tudo! Tudinho!
Minha mãe olhou para mim querendo entender o que estava acontecendo e eu suspirei. – Hélène falou muitas asneiras hoje de manhã e Clarice ouviu. Ela fala francês muito melhor do que todos imaginam.
– Você ouviu o que aquela senhora disse, foi? – Margot abraçou Clarice, que a abraçou de volta. – Não dê créditos ao que ela diz. Ela é a minha mãe e eu não dou créditos a nada do que ela fala, menos ainda a sua opinião. Para ser honesta, a Hélène é tão importante na minha vida quanto um desconhecido na rua. Eu a suporto pelo resto da família, mas se dependesse única e exclusivamente de mim…
Isso é verdade.
Suspeito que a família não tenha percebido isso, afinal, ninguém consegue ler a Margot de fato. Mas se ela tivesse que escolher entre salvar a vida da Hélène e não salvar ninguém, nós teríamos uma pessoa a menos no mundo. Mas cortar a minha grand-mère da nossa vida, significa cortar todo o resto e a Margot se importa com os demais.
– Então… você num… você num acredita na véia? Você num acha que eu só ‘qué coisa?
– Em absolutamente nada. E eu tenho certeza que a Val também não. Não é, filha?
Clarice olhou para mim esperando me ouvir. Como se quisesse a minha confirmação.
– Sim, eu não acreditei em nenhuma das mentiras da Hélène. Eu sei quem você é e sei que não está aqui por querer “coisas”.
– Eu num ‘qué coisas mesmo. Eu só ‘qué a minha maman mesmo ‘probe e morando no ‘Gajaú…
A minha Clarice é realmente besta.
Afim de contextualizar, Grajaú fica um pouco depois do reino de Tão-Tão-Distante e também está bem longe de ser um dos lugares mais bonitos de São Paulo. Mas tem uma boa escola de samba.
– Eu já entendi, meu amor. Eu também iria querer viver com você mesmo pobre e morando no Grajaú.
– Bem, agora que estamos esclarecidos, acho que podemos dormir – Minha mãe disse.
– Mas… – Clarice nos entreolhou desesperada. – Mas e o, e o sabão?
– Não vai ter nenhum castigo com sabão, não é Valkyrie?
Em outras palavras ela quis dizer “eu não te dei permissão para punir a sua pequena”, mas era isso. Mesmo sem a ordem de Margot, eu não iria fazer nada com a minha bebê. Não depois de se abrir comigo… ainda que do seu jeito.
– Não vai ter nenhum castigo, bébé. Não precisa ter medo.
Sem hesitar, Clarice correu para os meus braços e me apertou.
– Boa noite, meninas – minha mãe disse se despedindo e saiu nos deixando a sós.
A minha pequena chorou um pouco mais e eu deixei que colocasse tudo que estava preso em si para fora. Confesso que até eu chorei um pouco. Soava errado dizer isso depois do anel que ganhei, mas esse abraço foi o melhor presente de natal que eu poderia receber.
– Desculpa eu, maman?
– Está tudo bem, ma vie. E me desculpa por não ter tomado nenhuma atitude antes. Eu fiz errado em não enfrentar a grand-mère antes e não quero que pense que não fiz isso por não te amar. Você é o bem mais precioso da minha vida. Eu não consigo viver sem você.
– Mas você tem um montão de bens.
– Para você ver o quanto eu te amo.
– Eu também te amo um montão mais maior que tudo!
Dei um beijo demorado no topo da cabeça da minha bebê. – O dia de hoje foi bastante intenso, acho que está na hora de irmos para cama.
– Tá bom…, mas eu… eu posso pegar a Bingo e a Bluey para mimir agarradinhas com eu?
– Oui, mon bébé. Se você se comportar e aceitar sua fraldinha, pode sim.
A resposta da Clarice foi levantar os braços como quem queria que eu a carregasse para cama para colocar a sua fralda. Abusada? Nem um pouquinho.
Só eu sei a saudade que estava sentindo de ter a minha pequena para mim. Era tanta saudade que só por essa noite, vou ignorar tudo que fez para a encher de amor e beijinhos.
Estava com medo de Clarice querer me deixar, mas a verdade é que nada e ninguém tira o bebê da sua maman.
Ela sempre será a minha bebê.
A pequena da maman.
«-»
Gostou? Não esqueça de comentar! Até a próxima…
Au revoir!

3 Comentários
Amo
Aah como esta maravilhoso estou amando muito as estória
Nossa! Isso tá muito bom.
Oque mais adoro nessa história é como os pais da Val são presentes aqui.
Adoro a Margot