Elora Aneva

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60. La Maman Lâche

« V A L K Y R I E »

Quase meia noite e cá estava eu encarando a minha mãe me sentindo uma adolescente que foi pega aprontando e estava prestes a levar uma bronca.

A conhecendo bem, eu sei que não vai ser nada caótico do tipo “você precisa terminar com a Clarice”. E justamente por conhecê-la bem, eu não fazia ideia de qual seria a sua verdadeira reação.

A Margot é um tipo de mulher bastante determinada, firme, confiante e principalmente direta. Ela tem um bom olhar não só para as artes e os negócios, mas também para pessoas e relacionamentos. Eu namorei o Pedro Henrique quase dois anos antes de o apresentar aos meus pais e bastou um único olhar para a Margot fechar o semblante e desde então torcer – milimetricamente – o nariz a qualquer menção.

Ela viu em questão de segundos o que eu vi depois de anos.

Mas isso não quer dizer que não tenha conhecido pessoas que teve uma boa primeira impressão e depois de um tempo mudou a sua opinião a respeito. E quando isso acontece, você sabe. É impossível decifrar seu olhar ou o seu humor, mas se ela não gosta de alguém é tão evidente que mesmo sem demonstrar seu desgosto, a pessoa sempre se sente desconfortável em sua presença.

E é assim que temos o Bruno, Giovana e Juliana adorando a minha mãe como se fosse a pessoa mais legal do mundo, enquanto tive amigos que juravam que a Margot era uma mãe fria, calculista e cruel… e isso nunca foi verdade. Temos nossas complicações, mas isso tem a ver com o fato dela ser uma Touchon, porém, no quesito maternal, a minha mãe é um doce e muito amorosa… do jeito dela.

– Fiz para você, – ela disse ao me servir uma xícara de chá. Vanilla Bourbon. – Exatamente como gosta.

– Obrigada.

Beberiquei o chá e a sensação aveludada na boca causou o conforto tão conhecido. Mesmo sem açúcar, Vanilla Bourbon era um chá doce e combina muito bem como uma bebida quente ou fria. O cheiro também é reconfortante.

– E então, por onde vamos começar? Sinto que temos muito o que conversar. E não é de hoje.

Sorri desconfortável. – O que você quer saber primeiro?

– Eu não sei. São tantas coisas que já não sei o que é mais preocupante. Acho que podemos começar pelo o motivo pelo qual pediu para ser escoltada para casa. Te conheço bem o suficiente para saber que odeia se sentir perseguida por um segurança e de repente pediu pelo Damien e reforços. O que está acontecendo? Se estiver correndo algum risco, é importante que a equipe de segurança saiba com o que estão lidando.

A escolha do tema me causou um alivio e me permitiu soltar o ar que sequer me dei conta que estava prendendo.

Era claro que, diferente do meu pai, a minha mãe não aceitaria quaisquer desculpas. Então, de certa forma já esperava por esse interrogatório.

– O Pedro Henrique está em Paris em algum apartamento com a vista para o meu. A Hélène está ultrapassando os limites aceitáveis com essa ideia de me casar com o traste.

Minha mãe bebericou o seu chá preto, pensativa. – Suspeito que sua avó o trará aqui para o jantar de natal.

– Debaixo do seu teto? Um pouco ousado e afrontoso, não?

– A Hélène está usando a carta da recém internação para fazer o que quiser.

– E você vai deixar? Se o Pedro Henrique entrar por uma porta, eu saio pela a outra.

– Não será preciso fazer isso. Eu já tomei as minhas providências.

– Que são?

– Ora, se sua avó pode trazer quem ela quiser para o evento “dela”, eu posso convidar quem eu quiser para a minha casa, – a encarei confusa. – Bruno e Leopoldina estão a caminho.

Ergui o cenho desconfiada. – Os dois estavam em um cruzeiro.

– Exatamente, estavam.

Se tem alguém que o Pedro Henrique odeia, essa pessoa é o Bruno. Mesmo sendo extremamente gay e mais interessado no que o Pedro tem entre as pernas do que o que eu tenho entre as minhas, isso não evitou o ciúme irracional. Eu sinceramente nunca entendi. Era como se na cabeça do idiota, eu morresse de amores pelo meu melhor amigo e só não tivesse ido para frente por ele ser gay, mas no momento que a cura viesse, eu estaria de quatro por ele.

O tanto de mulher que dá em cima do Bruno achando que é hétero e foram incapazes de fazer o seu amigo levantar… talvez Pedro Henrique tenha ciúmes disso. Deve ser intimidador conhecer um homem gay que atrai mais mulheres do que você sendo hétero.

Em minha defesa, o Pedro Henrique era outra pessoa antes de conhecer a minha família materna e descobrir o fato de eu ter autismo. Nós nos dávamos muito bem no início, principalmente sexualmente. E talvez esse fosse meu erro. Se nós transássemos menos e conversássemos mais, eu teria perdido meu interesse antes. O material poderia ser grande e grosso o suficiente para entreter uma mulher que saiba fazer proveito dele, mas a Clarice com dois dedos tem um desempenho muito superior. E quanto o material… tenho dildos maiores e ainda vibram.

Talvez eu devesse usar um com a Clarice qualquer dia desses.

Minha mãe estalou o dedo na minha frente atraindo a minha atenção. – Não vá para longe, mocinha. Beba o chá.

– Quando eles chegam? – Beberiquei o chá. Quentinho.

– Ainda amanhã, acredito eu. Você está tomando seus remédios? – Minha mãe mudou de assunto me causando estranheza. Por que esse assunto agora?

– Eu já tenho mais de trinta anos, se recorda né? E sim, eu tomo todos os dias religiosamente no café da manhã, junto com o primeiro chá…

… e o remédio para induzir a lactação, mas esse aí minha mãe não precisa saber.

– E está comendo todas as suas refeições?

– Todas elas e algumas a mais por causa da Clarice. Por que esse questionário sobre a minha saúde de repente? Eu estou ótima.

– Apenas consultando para ter certeza.

Não é algo fora do comum encontrar uma pessoa com autismo tendo problemas com a alimentação. O meu problema ia além da textura quando se tratava de comida e é compreensível a preocupação da Margot. Tenho um histórico considerável de inibir a fome involuntariamente por sobrecarga ou stress. Mas convivendo com alguém como a Clarice é quase impossível pular uma refeição. Sem contar que lactar tem me deixado mais faminta que o usual.

– Você já decidiu o que fará a respeito do pedido de casamento?

– Que pedido… ah, está falando da aventura da Hélène e seu Henri? Nem perdi meu tempo pensando a respeito. A resposta é não. Não há nada a decidir a respeito.

– E a Clarice?

Gelei a espinha. O elefante branco que estava na sala.

– O que tem Clarice? – Me fingi de sonsa.

– Sua avó está planejando com o seu ex um pedido de casamento diante da família inteira. Mesmo que a resposta seja não, ela está bem com tudo isso?

– Ah… ainda não conversamos a respeito.

– Ainda não? O que está esperando?

Ela ficar grande por tempo suficiente?

Como eu vou despejar esse assunto com alguém no pequeno espaço? Sei que a minha Clarice grande irá reagir de uma forma muito mais tranquila e racional, porém seu lado pequeno eu já não sei o que pensar. Pode ser que dê tudo certo ou pode ser que seja o fim do mundo. Tenho medo de arriscar e criar um problema que não existe.

– Uma oportunidade(?), – respondi sem saber se afirmava ou perguntava.

– Uma oportunidade? E se a oportunidade não vir a tempo, irá esperar isso tornar um problema maior para falar a respeito? Amanhã, – minha mãe checou a hora no relógio. – Hoje é véspera de natal e o dia seguinte muito provavelmente esse homem estará aqui e a única a não saber disso é a Clarice.

– Já entendi o recado.

– Bom, – Margot e eu bebemos o nosso chá nos encarando em silêncio. Silêncio esse que durou pouco. – E vocês? Quando pretende se casar?

O chá me desceu como uma pedra na garganta. Por pouco não me engasguei outra vez.

Casar?! Por que esse papo agora?

– Sabe qual a idade da Clarice, não sabe? Ela nova. Muito nova.

– E faz diferença? Vocês já moram juntas.

– Na verdade…

Iria corrigir minha mãe sobre Clarice e eu morarmos juntas, mas apesar de não oficializarmos, é fato que a minha namorada vive mais em meu apartamento que o seu próprio. Meu closet tem um lado só dela. E exceto pelas manhãs em que ela está na faculdade, o resto do dia passamos juntas seja no trabalho ou em casa.

– Vocês nunca conversaram a respeito, não é mesmo? – Ela balançou a cabeça negativamente em reprovação. – E mesmo assim, foi mais fácil para você decidir lactar por ela ao invés de falarem em casamento?

Dessa vez eu engasguei mesmo. – Como é? Como você…

– Ah, por favor, Valkyrie. Não foi difícil ligar os pontos. Eu te conheço nos mínimos detalhes, achou mesmo que não iria reparar nos seus seios crescendo repentinamente? Você não engordou em nenhuma outra parte para justificar essa mudança.

– Eu poderia ter colocado silicone.

– Silicone não muda de tamanho depois do banho. Foi por isso que você saiu, não foi? Eu vi que estava inquieta. Pensei que fosse o nervosismo por seu pai mostrar suas fotos para a Clara, mas ficou evidente que não era isso no momento em que voltou e não estava mais incomodada. Além do mais, o que mais explicaria você ter leite no quarto quando não esteve na cozinha para buscá-lo?

– Leite em pó e água?

Minha mãe revirou os olhos. – Valkyrie, eu sou mulher. Eu amamentei por muitos anos. Eu reconheço o cheiro do leite de longe e aquilo que derramou no tapete era definitivamente leite humano.

Que derramou no tapete? Ah, mon dieu… eu derrubei a mamadeira e me esqueci dela!

– Mas você amamentou há muitos, muitos anos. Você pode ter se enganado.

– Não fazem tantos anos assim…

– Claro que sim, eu parei de mamar no peito quando tinha… – eu me interrompi no meio do caminho. – Eu não fui a única, fui?

– A maçã nunca cai muito longe da árvore, – ela deu ombros e se serviu mais chá.

Eu quis morrer no mesmo instante.

Por mais hipócrita que seja da minha parte, saber que meus pais praticavam ou praticam qualquer coisa próxima do que eu tenho em meu relacionamento, me causou dores físicas.

– Agora me diz a verdade; o que tem a Clarice? É o mesmo que a Juliana tem?

A encarei por um momento sem acreditar no que ouvia. Como assim “é o mesmo que a Juliana tem”? Como ela sabe disso? Quem foi que contou?

– Você sabe da Juliana?! Desde quando?! Quem é você? Onde está a minha mãe?!

– Não seja dramática, minha filha. Você sabe que a Juliana me tem como uma segunda mãe e se sente mais confortável em conversar comigo. Ela sabe que sei guardar segredos muito bem.

– E por que nunca me contou nada?!

– Como disse, eu sei guardar segredos muito bem… descobri-los também.

Minha vontade era de enfiar a cabeça num balde de água gelada com gelos e gritar. É tanta informação para processar ao mesmo tempo que meu cérebro estava fritando e precisava resfriar.

Suspirei derrotada. Não tinha muito para onde ir. Infelizmente, minha mãe de fato era excelente em descobrir segredos. Ela tem um dom nato para ser detetive. E crescer com isso foi o motivo dos meus maiores traumas da vida.

– Sim, você tem razão. A Clara é como a Juliana.

Observei a minha mãe bebericar o chá na maior paz do mundo. Nós temos o mesmo costume de usar a bebida para nos dar tempo de refletir antes de falar qualquer coisa. O que significa que ela estava pensando. Agora, o que ela estava pensando… isso aí era impossível de saber apenas olhando para o seu rosto.

– Eu já sabia, – ela confessou. – Para ser honesta, eu tive certeza durante a internação dela… estava apenas esperando o momento que fosse me dizer a verdade.

Se dependesse de mim… nunca – comentei entre os dentes. De repente me surgiu uma interrogação e estava incerta se deveria ou não esclarecer essa dúvida. Por fim, eu tomei coragem e perguntei. – O meu pai ele…?

Minha mãe juntou a sobrancelha como quem estava esperando que eu continuasse, porém pegou a continuação da minha pergunta no ar e fez uma careta.

– Oh, non! Seu pai não… ele não é como as meninas. Ele não tem interesse nas mesmas coisas. Ele só é um tanto… jovial, mas é só a sua personalidade.

Ufa…

Nada contra os pequenos, eu até tenho uma, mas o meu pai?! Eu não tenho dúvidas que a minha mãe é a dominadora da relação e o meu pai apenas um pau mandado, mas o imaginar como pequeno?! Isso é demais para mim.

– Enfim, estou genuinamente contente em saber que esse detalhe não tenha sido um empecilho para você. Pensava que no momento em que descobrisse sobre esse lado dela, iria recuar. Ou que Clarice eventualmente fosse encontrar alguém que lhe aceitasse por inteiro.

A encarei confusa. – Por que achou uma coisa absurda dessas? Eu amo a minha namorada… por inteiro.

– Você nunca se deu bem com a ideia de ter um bebê seu e de certa forma, é exatamente o que ela é em alguns momentos.

– Mas é diferente… no início foi estranho, eu não sabia muito bem o que fazer ou como lidar, mas agora sou incapaz de viver sem esse lado da minha namorada também.

Confessar isso para minha mãe causou sensações estranhas dentro de mim. Não sei se por refletir o início de tudo até o presente momento ou se por me sentir aliviada em poder falar a respeito com a pessoa que sempre fui incapaz de esconder meus segredos. Só sei que pensar nesse amor que sinto me fez sorri feito uma boba.

– Estou contente que as coisas tenham dado certo para vocês. Clarice te faz bem. Muito bem, aliás. Há meses não te vejo trabalhar dia e noite. Você me parece feliz e radiante. E eu vejo que os sentimentos dela para você são genuínos. Ela é incapaz de esconder isso, até mesmo no escritório. É a primeira vez que eu de fato apoio um relacionamento seu e sinto que deveriam ao menos cogitar o casamento.

– Ela só tem…

– Eu sei muito bem qual a idade dela e ainda acho que deveriam conversar, – minha mãe me interrompeu. – As garrafas de champagne para o casamento de vocês estão reservadas. A nossa melhor safra até o momento. Vocês preferem uma festa mais reservada ou algo grandioso?

– Mãe…, nós não estamos nos casando. Para de agir como a Hélène.

– Para agir como a Hélène eu teria que planejar uma festa de noivado antes mesmo da festa que ela planejou, mas eu conheço a filha que tenho. Se sua avó te conhecesse também, saberia que não irá dar certo. Eu vou tentar impedir esse vexame, mas se acontecer, será um show digno das suas novelas.

– Nem me fale… espero que esse idiota não queira passar por essa humilhação.

– Ou que sua avó não tente forçar a barra e finja outro infarto.

– Ela não faria isso… faria?

– Bem, ela me deserdou com objetivo de me fazer desistir do seu pai e… enfim. O que eu quero dizer é; não vamos pegar ninguém de surpresa com essa palhaçada. Conte o que está acontecendo para a Clarice ou quem irá contar sou eu.

– Você não tem tato para esse tipo de conversa.

– É para isso que eu tenho o meu marido, – ela deu ombros e terminou o seu chá. – Já está tarde. Amanhã será um dia longo. Eu tenho que levantar cedo e sair.

– Para onde vai?

– Você ainda pergunta? Eu quero que a minha Clarinha saiba que pode ser ela mesma conosco. Eu preciso de presentes para o seu lado pequeno.

– Mamãe, por favor, não vá assustar a minha Clarice.

– Não se preocupe. Eu sei exatamente o que estou fazendo.

Parte de mim confiava na minha mãe. A outra parte só queria que ela ficasse na sua por puro medo de sua tentativa de criar um ambiente de aceitação ser um tiro pela culatra. Clarice não é do tipo de pessoa que quer se expor ao mundo.

E se ela brigar comigo por não ter evitado isso, serei obrigada a lhe dar razão.

Queria ficar mais e pedir, implorar para que minha mãe se controlasse em sua empolgação. No entanto, a notificação no celular me fez desistir de qualquer conversa. Por segurança, deixei Clara usando seu smartwatch até durante a noite e por algum motivo, seu coração estava acelerado e o nível de stress subiu.

– Eu vou subir. Estou cansada… conversamos depois.

– Bom descanso, meu amor. Qualquer coisa pode nos chamar.

Espero não precisar…

De volta para o quarto, antes mesmo que pudesse acender a luz para ver o que estava acontecendo, fui agarrada em um abraço apertado.

– Maman! Num deixa eu, num deixa eu! Tô medo!

– Eu estou aqui, meu amor – eu a abracei de volta. – Eu já voltei e não vou mais a lugar algum.

 – Promete?

– Oui, ma vie. Vamos para cama, vem.

– Qué colo!

Clarice nem hesitou em me pedir colo, como se fosse minha obrigação a carregar comigo. Ela com certeza se sente confortável com o fato de que eu tenho forças para levantá-la assim. Só espero que isso não vire um hábito frequente. Minha pobre lombar não aguentaria.

– Mama, abraça eu! Rápido! – Clara disse assim que nos deitamos na cama, como se sua vida dependesse disso.

– O que aconteceu, hein? Teve algum pesadelo, foi? – Eu me aproximei dela de baixo das cobertas e fui apertada em um abraço incapaz de esperar que eu me ajeitasse.

– Num gosto de ficar sozinha. Medo, maman… e saudade. Saudade dói.

– Você fica tão manhosa quando regride assim. Nem parece a mesma de poucas horas atrás…, não pense que isso irá anular seu castigo. A mocinha está bem encrencada comigo.

– Eu posso… posso deixar pra depois? Eu tô triste e sofrendo… preciso de amor… só um pouquinho, vai?

– Eu não posso.

– Mas…

– Te amo demais para te dar só um pouquinho, só posso se for um montão – eu a apertei um pouco mais e lhe dei beijos demorado no rosto. – Você quer um mamazinho para voltar a dormir?

– Quero!

Eu disse que não deixaria a Clarice ter tetê, não disse? Para isso, eu preciso aprender a controlar a minha vontade de a ter em meus braços grudada em mim. Pensava que amamentar era bom só para os pequenos, mas era reconfortante para mim também e a proibir disso era um castigo de mão dupla.

Ser maman não é nada fácil.

« C L A R I C E »

O meu soninho foi tão gostoso que acordar não foi difícil. Todas as camas da maman são maravilhosas, mas essa aqui… era como dormir numa nuvem. Eu estava no paraíso.

E acho que a própria maman sentia isso também.

Normalmente quando acordo, ela já está de pé. Muitas vezes nem no quarto está, porém com seu super poder de maman sabe exatamente quando acordo e sempre, sempre abre a porta segundos depois que abri os olhos.

Hoje, porém, era pouco mais de seis da manhã e a maman estava dormindo. Dormindo, dormindo. Um soninho tão pesado que eu poderia levantar e ela nem ia perceber. Mesmo que levantar significasse me soltar dela.

Será que eu acordei cedo demais?

Tanto falam de mim sendo a louca dos tetês, mas a maman dorme to-das as noites pegando nos meus e ninguém fala nada. Tarada dos peitinhos.

Com muito esforço, consegui um espaço para virar de frente para a maman. Como é possível mesmo dormindo ela ser tão linda e perfeita? Eu amo essa mulher um montão!

– Mami? – Esperei um pouquinho para ver se teria alguma reação, mas não aconteceu. – Maman?!

– Hmm, ma vie? – Murmurou um pouco impaciente.

– Levanta, vamos papar.

Ontem não comi quase nada e agora estava com tanta fome, mas tanta fome, tanta fome que queria almoçar às seis da manhã um pratão de feijoada. E olha que eu nem levanto tão cedo assim.

– Que horas são? – Ela abriu parcialmente os olhos para conferir a hora no relógio em meu pulso. – Seis da manhã… seis da manhã?! Mon amour… vai dormir.

Mas eu tô com fome. Quero papar.

– Você quer tetê e dormir, – ela disse me puxando para baixo, perto do seu peito.

O leitinho da maman é delicioso e eu amo, mas a maman num entendeu que eu tô com FOME. Tem um buraco enorme no meu buchinho e eu preciso comer. Comer muito. Comer de verdade! Leitinho num vai encher meu bucho agora não.

– Maman, eu tô com muita fome.

– E eu com muito sono. Agora mama e cala a boquinha.

A maman quando está com sono é poucas ideias. E eu nem vou reclamar… tudo bem que eu tô com fome e amassaria um pãozinho agora, mas vai que ela acorda e se lembra que tá braba e num quer me dar tetêzinho? Melhor aproveitar agora antes que seja tarde demais.

Eu prefiro mamar enquanto a maman está acordada. Com ela dormindo não tem carinho, beijinho e qualquer outro miminho. Também gosto de ouvir a sua voz, até quando não está falando comigo e ela não é do tipo que fala enquanto dorme. A única parte boa era poder fazer o tetê de pepeta e aproveitar o tempo que eu quisesse.

Tempo esse que era muuuuuuuito tempo. Até eu me cansar… ou em outras palavras, a barriguinha reclamar de fome outra vez.

Num ia acordar a maman outra vez, então decidi levantar sozinha. Fui no banheiro e minha fraldinha de vestir estava sequinha. Cogitei tirar e colocar roupinha de gente grande, mas a maman já disse que só quem mexe na fralda da neném é ela. Eu não preciso de mais um castigo na minha lista enoooooorme.

Antes de sair, cobri a minha docinho para ela num ficar com frio e nem meus tetês. Dei um beijinho do seu rostinho e saí de fininho para fora do quarto.

Fechei a porta com todo o cuidado do mundo para não fazer barulho, prendendo o ar para que nem a minha respiração incomodasse a minha maman lá dentro e a despertasse por causa da sua super audição.

– Bonjour, Clarice!

Como um gato, eu quase parei no teto com o susto que levei. Era Margot. Extremamente casual vestida com seu pijama de inverno e um roupão daqueles bem quentinhos.

– O que faz fora da cama tão cedo? Dormiu bem?

– Sim, oui… eu dormi sim. Eu só… estou sem sono(?).

– Está com fome? O Fernando já está lá em baixo preparando o café.

– Tá bom, – sorri.

Ver o Nando de forma casual era normal para mim. Eu literalmente o conheci usando bermuda e chinelo de dedo. Já a Margot… se a vida fosse uma série, ela seria aquele personagem que é a presidente de algum país. Sempre bem vestida, elegante e formal, acompanhada de um homem de terno todo preto fazendo a sua segurança.

Engraçado que a minha Val parece o exato meio termo entre os pais. A maior parte do tempo está arrumada como uma modelo, mas de vez em quando vai encontrá-la  de chinelo de dedo e um shortinho jeans.

– Você bebe café, Clarinha?

– Sim, bebo sim.

O Nando estava prestes a me servir café na minha cumbuquinha nova e a Margot nos impediu colocando a mão no meio para afastar a garrafa.

– Eu não vou deixar você encher a Clarice de cafeína.

– Ué, por que não? Você não pode beber cafeína?

– A mam… a médica (?) nunca falou nada… eu num sei.

– Na dúvida, é melhor evitarmos. Quer leite? – Margot ofereceu já quase servindo para mim.

– Já tô cheia de leite.

A verdade é que eu agora não vejo mais graça em leite de vaca, só se for da raça Valkyrie, aí eu quero e quero muito.

Margot ergueu um cenho desconfiada e desistiu de me servir o leite. – A Val já acordou?

– Ela voltou a mimir tem um tempão já. Tá de preguiça.

– Minha filha de preguiça… eu achava que era mais fácil o papa se assumir gay.

– Eu acho que meu sono é contagioso. Pegou até nela.

– Para quem tem tanto sono, você levantou bem cedo. Ainda não são nove da manhã.

– É que eu dormi bem essa noite. Meu nariz já não está tão entupido e eu consegui respirar.

– Será que até amanhã estará melhor?

– Eu espero.

– Beba um pouco de suco de laranja, tem vitamina C – Margot me ofereceu. – Você bebe no copo mesmo ou prefere outra coisa?

A olhei confusa. – Como assim outra coisa? Eu só bebo no copo.

– Mas você está… – ela se interrompeu no meio da frase. – Você não tem um copinho especial?

– Não?! Eu preciso de um?

– Oui, bien sûr! (Sim, claro!) – Margot me serviu suco no copo “normal”. – Mas não se preocupe, vamos providenciar o seu copo mais tarde.

 Eu queria dizer que não precisava de um, mas não sabia ao certo se estávamos falando de um tipo específico de copo assim como as cumbuquinhas. Eu achei muito fofo a minha “bol à prenóm” e queria usar para tudo.

Tomar café da manhã com a Magô e o Nando era legal. Os dois eram divertidos… cada um do seu jeito. O Nando era mais animado e era tão engraçado que não precisava falar nada para te fazer rir. Já a Magô era mais séria, porém entendia todas as minhas referências do mundo da arte e tínhamos muito, muito, muito assunto em comum.

Já tinha comido um tantão de pão de queijo, bolo, queijinho e afins quando a maman apareceu com um semblante não muito feliz. Parecia até brava… comigo? Eu num fiz nada agora de manhã.

– Bom dia, minha filha. Que cara é essa? Acordou do lado errado da cama?

– Acordei abandonada na cama, isso sim – ela cumprimentou os pais com beijinhos na testa e veio até a mim.

– Eu estava com fominha, – eu ofereci um pedaço do bolo de cenoura que estava comendo.

A maman recusou rapidamente. – Eu te amo, mas não é para tanto. Esse brigadeiro é uma bomba de açúcar.

– Mas é bom, – ela me deu um selinho rápido. – Você acabou de me beijar cheia de açúcar.

– Esse é um sacrifício que vale a pena, – ela se sentou ao meu lado e eu dei um jeitinho de me aproximar mais. É estranho admitir, mas esse tempinho que ela ficou mimindo eu já senti saudades. – O que estavam falando quando cheguei?

– Nada demais, – respondeu Fernando.

– A Clarice não tem um copo, – Margot disse quase ao mesmo tempo que o marido. – Ela deveria ter um.

– Um copo? – Pelo visto nem a maman sabia de que copo estávamos falando e essa conversa sobre copos me deu vontade de beber meu suquinho de laranja. – Que tipo de copo?

– Um copo para evitar bagunças.

– Ela não precisa de um. Ela sabe usar um…

Quando a vida quer te ferrar, ela não pensa duas vezes e justamente quando a maman dizia que não precisava de um copo para evitar bagunças, eu virei quase todo meu suco acidentalmente ao colocar o copo na borda do prato.

Se derramar suco de laranja no forro de mesa branco já era ruim. Derramar quase todo o suco na maman era pior ainda.

– Desculpa, ma… eu…

– Como eu ia dizendo, – Margot continuou. – Um copo com tampa para evitar bagunças.

A maman lançou um olhar para a mãe dela, mas não respondeu o seu comentário. – Eu vou me limpar, – ela se levantou.

– Quer ajuda?

– Não precisa, meu amor. Termina o seu café. Eu já volto.

Observei a maman voltar para de onde veio incerta se no final eu vou levar palmadas ou não. Eu num quero passar o natal com o bumbum doendo e a palmada da maman dói.

– Não fique assim, Clara – Margot atraiu a minha atenção. – Está tudo bem. Ela não vai te punir por isso, foi um acidente. Eu não vou permitir.

– Você… você… você lê pensamentos?

– Quase isso. Agora termine de comer o seu café da manhã em paz. Você ainda não tocou na sua salada de frutas.

Nem tava afim de comer saladinha de frutas hoje, mas como a Magô mandou, eu aceitei.

– Okay… então tá bom, – disse o Fernando sem entender nadica de nada.

A manhã seguiu como se eu não tivesse derramado nada. A maman voltou de banho tomado e toda cheirosa, tomou o seu café sem reclamar em nenhum momento, até foi fofa comigo como sempre é. E a vida seguiu na paz.

Se fosse na casa da tia Lúcia ou com o meu pa- o Luís, eu ficaria ouvindo xingamentos e reclamações por horas. A tia Lúcia não daria sossego até limpar tudo, incluindo lavar o forro. E continuar comendo seria quase um crime de guerra. Nada de comer antes de colocar tudo em ordem.

“Eu não vou permitir”… isso quer dizer que a Magô pode me salvar de todos os castigos? Será que ela vai colocar a maman de castigo também? Mas para isso ela… ela sabe de mim?

– O que você tanto pensa, eu posso saber? – Val me despertou dos meus pensamentos atraindo a minha atenção.

– No banho de suco de laranja que eu te dei.

– Está preocupada com isso?

O tempo estava bonito essa manhã. Tão bonito que a maman e eu levamos o Chloée para dar uma volta no jardim da casa.

Louco pensar, mas o jardim da casa era tão grande, tão grande, que para passear com o cachorro bastava dar uma volta nele. Não seria exagero dizer que caberia mais de um campo de futebol aqui.

– Talvez, – eu respondi.

– Eu não vou brigar com você por isso, sabe né? Você já me deu banho de coisas piores.

Senti meu rosto virar um pimentão com a lembrança. Santo deus! Que vexame! Que vexame!

– Maman! Não pode falar disso!

Ela riu e me puxou para mais perto. – Oui, ma vie. Já esqueci.

Continuamos caminhando pelo jardim em silêncio. Mesmo sem pensar mais no suco, ainda me sentia estranha e desconfortável. Tenho a sensação de quanto maior é a casa, maior a sensação de que sou um peixinho fora d’água e parte de mim estava ansiosa para amanhã.

Já conheci a Hélène e sei que ela não é legal. Mas amanhã estarão presentes os outros parentes. E eu não sei o que pensar. Só sei que esse jardim é gigante demais e me arrependi de ter caminhado para tão longe e agora vou ter que voltar.

– Você não está pensando só no suco, está?

– Eu estou com preguiça… preguiça de ter que voltar tudo isso.

– Cem metros, Clarice. Não seja tão sedentária. Eu vou colocar você para fazer exercícios quando voltarmos para o Brasil.

– Quer me matar? Eu quase tenho uma crise de asma subindo as escadas para o quarto, – o semblante da maman mudou com quem estava levando minha fala no sentido literal. – É exagero. Isso não aconteceu… eu só… sei lá, me sinto num cenário de filme. Um filme que eu não faço parte dele.

– Por que está dizendo isso?

Como eu explico isso para a Val sem causar neuroses em sua cabecinha?

– Eu sabia que você era rica e que veio de uma família ainda mais rica, mas nada que imaginei chegaria perto disso…. essa casa é maior que o meu quarteirão, mais cara que todas as casas da vizinhança juntas. E provavelmente, nem se eu ganhasse na mega da virada iria conseguir comprar isso aqui. Nós não somos do mesmo mundo e você sabe disso.

– É isso que está te tirando do pequeno espaço?

A encarei confusa. – O que o pequeno espaço tem a ver com isso?

– Você estava tão minha neném e de repente ficou calada e quieta. Distante. É como se suas preocupações de Clarice grande te expulsassem do seu cantinho e trancassem a porta.

– Talvez…

– Ma vie, – Val parou na minha frente e segurou as laterais dos meus braços. – Eu sei que não crescemos no mesmo mundo. Sei que, até mesmo no cenário em que meus pais nunca tivessem seguido em frente com o vinhedo, a minha mãe sozinha teria proporcionado uma vida bastante confortável sendo a engenheira que sempre foi. Sei que sou uma pessoa muito sortuda por ter os pais que tenho, mais sortuda ainda por ter tido todo suporte possível para lidar com o autismo. Sei que os meus problemas não são reais comparados a uma pessoa que não nasceu com a vida ganha como eu. Mas se eu tivesse que escolher, eu não pensaria duas vezes antes de abrir mão de tudo isso para viver contigo.

– Você sairia do Brooklin pra ir pr’o Grajaú comigo?

– O seu apartamento não é no Grajaú…, mas se é onde quer morar…

– Claro que não, Valquíria. Ninguém quer morar lá, é longe para um caceta. Eu só quis testar a sua sanidade.

– E?

– Cheguei à conclusão que você é doida, – revirei os olhos. – Enfim, eu não quero que abra mão de nada. Também não quero estragar a sua vida. E eu me sentiria uma baita filha da Xuxa se te forçasse a isso. Eu só… tenho medo.

– O que tem medo?

– Que um dia você queira alguém que pertença ao mesmo mundo que o seu.

Val pegou o meu rosto entre as mãos e olhou dentro dos meus olhos. – Clarice, você é o meu mundo. Eu te amo, acredita em mim.

– Eu acredito.

Ignorando o fato de que qualquer pessoa poderia nos ver ali, Val me beijou lentamente no meio do jardim. Um beijo lento e cheio de ternura… um beijo que não foi muito adiante por causa do meu fôlego reduzido. Eu odeio o inverno!

– Eu já não sei mais como é viver a vida sem você, – Val segurou meu rosto ainda mais firme para que eu não tivesse outra escolha senão olhar para ela. – Não ouse me deixar ou serei obrigada a te sequestrar e agora você sabe que eu tenho dinheiro para isso.

– Eu também non xei maix vivê xem vôxê – ao perceber que estava me apertando com uma força exagerada, Val soltou meu rosto desfazendo o meu bico de peixe. – Eu também não sei viver sem você… eu só sou… um pouco insegura. Estou acostumada a ser deixada por tão pouco que estar numa situação em que eu sou ainda mais descartável dá um friozinho na barriga.

– Você não é descartável.

– Você entendeu, Val.

– Não, não entendi. Você não é nada descartável. Se de fato fosse, a piranha da Diana não teria tentado se reaproximar de você.

Levei uns bons segundos para me recordar da minha última interação com a Diana. Sim, ela quis conversar comigo. Também tentou inventar a desculpa de um quadro para forçar alguns encontros, mas isso não quer dizer muita coisa. Vai ver ela só estava carente e sentiu saudades de alguém para manipular.

– Você está loucona, Valquíria.

– Nós estamos de volta para o chamar pelo nome?

– Hã?

– Você voltou a se referir a mim pelo nome e eu não estou gostando disso. Eu sou sua maman, seu amor, seu docinho ou seja lá como queira me chamar. Pelo nome soa distante demais e eu não quero te sentir assim.

– Me desculpa, meu amorzinho – eu a abracei pela cintura. – Eu te amo muito, minha vida. Meu docinho de leite!

– De leite?

– Eu realmente estava pensando em doce de leite que eu adoro, mas até que combina com você…

Val revirou os olhos. – Você é uma bobinha… minha bobinha.

Trocamos um beijinho rápido e então a Val me virou para o sentido de qual nós viemos.

– Vamos voltar para dentro. Tenho uma coisa que eu quero te mostrar.

– O que? Vai tirar a roupa para mim?

– Não, você já me viu nua várias vezes, não tem nada de novo nisso. Eu quero te mostrar o porque meu pai investiu uma fortuna numa casa tão grande.

– Você não tem que fazer isso.

– Eu já faria de qualquer forma. Você vai gostar… é até que legal.

Nós voltamos para a casa e a Val me fez esperar enquanto ia no quarto buscar alguma coisa importante. Para a minha surpresa, a tal coisa nada mais era que um touca, cachecol e mais um agasalho para mim.

– Para que tudo isso? Nós vamos sair de novo?

– Não, mas lá é frio e úmido e você é friorenta.

– Sou mesmo.

Ao invés de sairmos, nós entramos.

Entramos num cômodo que mais parecia um escritório-barra-biblioteca pessoal, mas que tinha um detalhe que destoava totalmente da decoração neoclássica sofisticadíssima: um elevador.

Se fosse uma missão do GTA, eu certamente não acharia seguro entrar nesse elevador, mas como estava com a minha mulher, eu apenas confiei. As opções de andares eram “0” e “-1” e nós estávamos indo para o “-1”.

Conheço de bebida o suficiente para saber que é comum armazenarem garrafas de vinho e champagne no subsolo. Enquanto descíamos no elevador, imaginei aqueles sótãos com a parede de tijolinhos, as luzes baixas e um monte de barril. Mas quando a porta se abriu não foi isso que eu vi.

Quando a Val contou sobre as cavernas de Épernay, era literalmente isso: uma caverna.

Não tinha parede de tijolinhos ou barris. A iluminação vinda do chão poderia até dar um ar mais aconchegante e acolhedor para o ambiente, mas as paredes e o teto nada mais eram que rocha esculpida. Eu mesma não teria coragem de ficar aqui caso apagassem as luzes com medo de aparecer um morcego ou algo do tipo. 

Ainda assim, não era o fato de estar de fato numa caverna subterrânea que me surpreendeu. A porta do elevador dava direto para um extenso corredor com centenas de garrafas enfileiradas. Era muita coisa. Era mais do que se tivesse todas as garrafas do Apex armazenadas de cabeça para baixo no mesmo ângulo.

– Essa parte não é aberta para visitação, – Val comentou. – Essas garrafas aqui são do “acervo pessoal” dos meus pais. Para ocasiões especiais.

– Tipo?

– O nosso casamento.

– O nosso? Você se casaria comigo?

Val se virou para trás para me encarar. – Você tem dúvidas disso? Não é para isso que as pessoas namoram?

– Algumas pessoas namoram só para aproveitar a companhia da outra.

– E você me namora por isso?

– Claro que não. Eu teria aceitado me casar com você depois da nossa primeira noite, mas você me deu um pé na bunda.

Val balbuciou algumas palavras e foi incapaz de formar uma frase.

– Eu fui uma baita idiota na época…

– Foi mesmo.

Mas… você diz isso agora. Quando eu te convidei para vir morar comigo, você não aceitou. E até hoje não se mudou oficialmente, mesmo dormindo todas as noites comigo.

– Situações diferentes.

– Como diferentes?

– Você me quis depois que me deu um pé na bunda, – Val me encarou como quem esperava uma continuação. – Eu demorei quase três ou sei lá quantos meses para saber que estávamos namorando de fato porque até então achava que eu era só seu passatempo. Eu não iria morar com alguém que tinha certeza que não teria futuro, – Val juntou as sobrancelhas e logo me adiantei; – isso é passado, ok?

– Então por que não se mudou oficialmente ainda?

– Sinceramente? Eu me esqueci.

Exceto quando a Val estava na França sem mim, eu consigo contar nos dedos de uma mão as noites que dormi longe dela depois que Lúcia e Luís não eram mais um problema para mim. Ainda tenho coisas em caixas no apartamento com a Glória. Como vou lembrar que teoricamente moro por lá?

– E quando pretende mudar oficialmente?

– Eu não pretendia… você faz questão? Eu basicamente já moro com você, que diferença faz?

– Toda diferença.

Eu poderia até retrucar, mas apesar de não fazer diferença nenhuma, para a minha mulher que tem o seu próprio jeito de pensar deve fazer. Numa hora dessas é melhor só sorrir e acenar.

– Tem mais lugares para ver ou é só o acervo dos seus pais?

– Tem 18km² de caverna para ver, eu não achei que fosse querer ver tudo. O carrinho fica estacionado lá na outra entrada.

Dezoito quilômetros quadrados?!

– Oui. É uma caverna pequena comparada as outras que tem por aí.

– Mas… existe garrafa para ocupar todo esse espaço?

– Se você considerar que elas ficam por aqui trinta anos antes de sair.

E esse tempo todo, eu achava que meus sogros eram pequenos produtores. Eu não quero nem pensar quando custa cada uma dessas garrafas, menos ainda multiplicar pela quantidade que está diante dos meus olhos. Sou pobre demais para essa matemática.

– Vem, vamos andar um pouquinho, – ela me estendeu a mão e eu aceitei.

Caminhar de mãos dadas por uma caverna não estava na minha lista de coisas para fazer com a minha namorada, mas estava se saindo melhor do que eu poderia imaginar. Gosto de aprender coisas novas e também gosto de ouvir a voz da Val, ou seja, foi um aproveitamento total.

– Nós vamos beber do champagne dos seus pais hoje a noite? – Perguntei aleatoriamente. Eu não sou fã de beber, mas estou curiosa para experimentar do champagne dos meus sogros.

– Se você quiser podemos beber. Hoje a noite será somente meus pais e nós… talvez o Bruno e a mãe dele também.

– O Bruno? O seu vizinho e melhor amigo?

– O próprio.

– Mas ele não estava viajando em um cruzeiro ou algo assim?

Val suspirou, o suspiro que dá quando está desconfortável-barra-cansada de algo. – A Hélène trouxe o Pedro Henrique para cá.

– O seu ex noivo?

– Oui.

– Mas vocês não se dão bem. Por que sua avó traria esse cara para cá?

– Porque ela acha que consegue me convencer a mudar de ideia e que eu vou aceitar o Pedro Henrique de volta.

A encarei confusa. – Esse cara é um babaca idiota e tóxico do caralho, por que em sã consciência a sua avó quer que você volte para ele?

– Na cabeça dela, me casar com o Pedro Henrique significa fazer as vontades dele e as vontades dele se alinham bastante com as dela. Infelizmente, eu preciso admitir algo a respeito do traste: ele é um bom empresário. Quando a minha mãe abriu a construtora no Brasil ela não tinha planos de expandir ou algo do tipo, ela só queria que o homem que eu fosse me casar fosse minimamente aceito pela família, mas ele fez a construtora crescer e crescer muito.

– Espera aí, a construtora que a Visionnaire tem um acordo é da sua mãe?!

– Eu não sabia disso também. Ela me contou tem pouco tempo.

Quando eu penso que finalmente tenho dimensão do que realmente tem a família da Val, eu percebo que não é bem assim. E ainda pior; como a Val não sabe que a mãe tem uma empresa desse porte?

– Aí você está dizendo que a Hélène quer que você se case com ele por ele ser um bom empresário?

– Ela quer que eu volte atuar em Paris porque ela sabe que os clientes de maior relevância só se importam com o meu Pritzker. E o Pedro Henrique sempre quis se mudar para cá depois do casamento e querendo ou não, ele sabia como me manipular para fazer suas vontades.

Não que seja difícil manipular a Val. Se você souber as palavras certas, consegue qualquer coisa dela. Agora sabendo seu real poder aquisitivo, é bem capaz que se eu quisesse poderia ter conseguido uma casa, um carro ou qualquer outro presente absurdo dela.

Sem querer justificar ou defender ninguém por aqui, mas se um dia o Pedro foi um cara legal, é possível entender que toda essa fortuna tenha subida à cabeça e o corrompido. Só de ouvir falar está me dando enjoos e vontade de sair correndo daqui.

– Então quer dizer que vamos ter que aturar aquele imbecil por causa da sua avó? Que maravilha de natal vai ser…

– Tem mais um detalhe.

– Mais um?!

– O Pedro Henrique pretende me pedir em casamento no jantar de noivado da Juliette.

Sabe quando você ouve algo, mas não tem certeza se entendeu ao certo o que foi dito e por via das dúvidas prefere ouvir de novo? Foi exatamente assim que me senti.

– Como é?

– A Hélène e o Pedro Henrique estão planejando transformar o jantar de noivado da Juliette no meu jantar de noivado.

Meu senhor… eu ouvi certo.

Será que isso é uma piada ou pegadinha de mal gosto? Quem é que planeja pedir alguém em casamento assim? Não é possível que no mundo dos ricos isso seja algo normal!

– E você… – eu hesitei um pouco, preocupada. – Você vai aceitar?

Pardon?! – Val respondeu revoltada. – Non! Está maluca, Clarice? Eu estou em um relacionamento com você e não com ele. A única pessoa que eu pretendo me casar um dia é você.

– Sei lá, vai que no seu mundo as pessoas ainda se casem por interesses financeiros de toda família. Eu não faço parte desse mundo, eu não sei como as coisas funcionam, – respondi levemente irritada, não necessariamente com a Val, mas com toda essa história. – E esse tempo todo você só abaixou a cabeça para as vontades da sua avó, por que agora seria diferente? Essa velha bruaca me odeia, para infernizar a sua vida até me eliminar dela é um piscar de olhos.

– Não é bem assim.

– É bem assim, sim! Só você que não se dá conta disso. A verdade é que você é a nenenzinha da vovó e aceita todos os absurdos daquela velha bobona até quando isso te machuca.

– Eu não sou nenemzinha da vovó!

– Não é o que parece, – cruzei os braços de baixo do peito e a desafiei com o olhar.

A Valquíria que eu conheço não abaixa a cabeça para ninguém, nem mesmo para mim. Ela sempre tem a resposta na ponta da língua e sabe se colocar muito bem. A Valquíria que estava na minha frente parecia fraca e submissa.

– São situações diferentes. Eu nunca iria concordar com essa insanidade.

– Ah, é mesmo? E me diz uma coisa, quando foi que você descobriu essa palhaçada toda?

– No jantar. A Juliette me contou.

– Ou seja, na primeira noite em que chegamos aqui. E você confrontou a dona Hélène em algum momento?

Pela careta confusa que a Val fez, eu sabia qual era resposta e isso me deixou ainda mais injuriada.

– Eu não… eu não confrontei a Hélène.

– Você ficou sabendo que a sua avó planejou trazer o seu ex noivo para te pedir em casamento na frente de toda a sua família e não fez nada?! Você vai simplesmente deixar rolar e foda-se?

– Eu não vou aceitar. E além do mais, os seguranças não irão permitir que o Pedro Henrique se aproxime de mim…

– Os seguranças não vão permitir? – As palavras da Val me desceram amarga e decepcionante. – É claro que a solução perfeita seria evitar que aconteça, né? Até porque quando se trata da vovó, sua solução é sempre fugir do confronto. Fugiu para o Brasil e agora está fugindo do tal pedido de casamento. E depois será o que? O que vai fazer quando ela mandar terminar comigo?

– Ela não vai…

– Não vai? – A interrompi. – Ela literalmente trouxe o seu ex da puta que pariu para cá, você acha que ela se importa com a gente? Ah, tá bom. Pode crer. Confia.

– Clarice, se acalma…

– Se acalma o caralho! – Gritei revoltada. – Já chega desse lugar! Eu quero ir embora.

Eu não quis esperar pela Val. Estava tão puta e indignada com toda essa história que eu só saí andando em busca da saída, mas ao chegar no fim do corredor percebi que não era ali. Ainda mais injuriada, voltei para fazer o caminho inverso e me dei conta de que estava perdida.

E a Val parada no mesmo lugar me observando.

– Cadê a saída?!

Val apontou discretamente a direção correta e eu segui dando passos furiosos, dessa vez pelo sentido correto.

– Vai ficar parada aí? Se move, Valquíria!

«-»

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Au revoir!

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3 Comentários

  • vanessa3107lv

    Amo

  • vanessa3107lv

    Ano

  • Erica

    Que capítulo maravilhoso amo a Clara na versão adulta

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