« C L A R I C E »
Eu que pensei que estava fazendo Valquíria me esperar, acabei a esperando uns dez minutos até ela terminar de papear e decidir ir embora.
Honestamente não acreditava que estivesse sendo sincera quando disse que não se incomodava em me esperar e de fato, ela não parecia nada incomodada. Não ficaria surpresa se dissesse que esqueceu que estava me esperando.
– Mon Dieu ! Il est déjà tard! [Meu Deus! Já está tarde!] – Ela se assustou ao olhar a hora em seu relógio. – Vem, eu vou te levar para casa logo.
– Você não está com sono?
Valquíria riu por um instante e então percebeu que eu não ria junto. – Você está perguntando sério? – Assenti. – Eh bien… você dificilmente me verá com sono. Eu não sou conhecida por dormir muito, pelo contrário…
– Se eu pudesse eu dormiria o dia inteirinho! Dormir é tão bom! Eu não vejo a hora de chegar em casa e ir de base!
– Então vamos embora logo.
Assim que passamos da porta do casarão, o cansaço bateu forte. Como se meu corpo tivesse se desligado da skin trabalhadora e ligado na skin exausta. Meu cérebro nem raciocinava mais e eu já nem sabia mais porque estava seguindo a Valquíria, pois estava funcionando a monocomando que era “siga a Valquíria”.
– Oh mon Dieu, quelle pitié ! [Oh, meu deus. Que dózinha] – Valquíria disse ao olhar para minha cara ao chegarmos no carro. – Você parece exausta, – ela abriu a porta do carona para mim, – entra aí, vou te levar para casa para dormir e descansar. Você está precisando.
Não tive energias para responder, male, male saiu um “obrigada”. E assim que entrei, ela fechou a porta. O carro estava frio, assim como lá fora e eu me senti bobona por não trazer uma roupinha extra.
– Você não colocou o cinto de novo, – Valquíria reclamou antes de dar ignição no carro. Somente depois de cintos colocados, ela deu a partida. – Eu liguei o aquecedor, daqui a um pouquinho vai ficar quente.
E realmente, o ventinho quentinho não tinha esquentado todo o carro, mas já era um pequeno alívio em mim.
Agora pensa, o carro híbrido é bem mais silencioso que o normal. Em um banco super confortável e temperatura agradável… antes que eu pudesse assimilar o ambiente ao meu redor, eu já tinha ido de base.
Quando acordei eu nem sabia onde estava, com quem estava, para onde ia ou que estava acontecendo. Demorei alguns segundos para entender que ainda estava em um carro indo para casa.
– Pensei que não fosse acordar, – Valquíria comentou atraindo a minha atenção. – Já estamos quase chegando.
Realmente, pela janela reconheci a rua e o trecho que passávamos. Logo, logo, chegaríamos.
– Foi mal, eu capotei.
– Eu vi. Você parecia realmente muito cansada. Você pode voltar a dormir se quiser, eu te acordo quando chegarmos.
– Não, eu vou ficar acordada.
Levando em consideração que a velocidade máxima de Valquíria não ultrapassava os 50km/h, nem mesmo tarde da noite quando não tinha trânsito algum ou trecho com radar, ainda dava para tirar outro cochilinho.
Mas não.
Eu fiquei acordada.
Olhando a rua vazia, os poucos carros que brotavam nos ultrapassando e Valquíria há 44km/h.
Ela numa paz e eu me corroendo por dentro com vontade de pisar no acelerador.
Meu sono até passou de tão agoniada eu estava.
– Está entregue, dona Clarice.
– Obrigada, dona Valquíria. Te vejo mais tarde então?
Valquíria fez uma careta confusa. – Segunda-feira, não?
– Ah, você não vai ao Apex esse final de semana?
– É final de semana temático, eu não costumo ir – Ela levou a mão no queixo. – Você vai trabalhar lá essa tarde?
– Até fechar na verdade. Esse final de semana o bar é todinho meu. A Glória está com dengue.
– Verdade… eh bien, dans ce cas [ah bem, nesse caso]… eu vou lá de noite te buscar.
– Que?! Me buscar?! Por que?!
– Se você vai fechar o bar, quer dizer que sairá tarde. Vendo como dormiu no carro agora pouco, tenho certeza absoluta que seria facilmente sequestrada se voltasse para casa sozinha. Agora vá, você precisa descansar logo já que irá voltar trabalhar em poucas horas.
Também não era bom ela ficar parada com esse carro por esses lados, então eu decidi fazer como ela mandou… droga! Agora eu vou ficar reparando nisso, ela manda e eu obedeço. Não gostei disso não.
Valquíria ainda me esperou entrar em casa para ir embora. Eu não sei onde ela mora, mas com a velocidade que corre ainda deve demorar.
Essa mulher é louca. O que será que passa na cabeça dela?! Eu hein, eu vou dormir.
Quando eu cheguei no Apex Club na tarde de sábado a sensação era que eu não dormi o suficiente e que eu nunca saí daqui. Eu estava morrendo de dó da minha amiga que estava dengosa e sofrendo, mas se a lasanha dela não estiver boa e grande o suficiente para que faça valer a pena esse meu esforço, eu mesma irei matar ela
– Clarinha, você chegou – Ana Marta, a chefonas e responsável por todo Apex veio me cumprimentar. – Você está bem?
– Estou, estou sim e você?
– Ótima! A Glória te passou os detalhes de hoje?
Fiz uma cara confusa. – Ah, não. A Glória mal, mal conseguiu dar detalhes sobre ela mesma de tão doente, coitadinha… Eu só sei que é um final de semana temático… tem alguma coisa a mais que eu preciso saber?
– Sim. Hoje é o encontro dos littles – Ana Marta vez abriu o braço como quem me convidava a andar com ela e fomos até o meu bar. – Hoje está extremamente proibido servir bebida alcoólica para pulseira branca. Nós passamos a usar pulseiras por causa de uns levadinhos que estavam aprontando. Então sem álcool, ok? Os meninos já desceram os copinhos e os itens decorativos. Ah… e você não pode dar doces também! Na verdade, não dê nada além de água aos pequenos, eles têm alguém para cuidar deles e oferecer comida e bebida.
Eu deveria estar com a cara mais confusa de todas. O que raios estava acontecendo aqui?
Seja lá o que era o tema do final de semana, eu me sentia indo para uma festinha infantil com a decoração colorida e feliz. Montaram brinquedos, carrinho de pipoca, algodão doce e sorvete. Faltou só o bolo e diria que era aniversário de alguém.
– O que significa isso? – Perguntei curiosa ao ver o Otávio carregando caixas para o meu bar. – Hoje é dia de carregamento?
– Não. Eu só estou te adiantando o serviço. Se você fosse trazer tudo da cozinha iria demorar uma vida – ele deixou uma baita de uma caixa na minha bancada. – Trouxe leite, morango, abacaxi, tem isso aqui que eu não sei o que que é, copos coloridos e um liquidificador extra… esse aí você devolve para cozinha, senão eles vão nos matar.
– Acha mesmo que vai precisar de tudo isso? Se servindo álcool já não sai tanto, não servindo então…
– Ah, você não viu nada. Vitamina de frutas, leite, suco, smoothie… vai dar trabalho.
Sorri nada contente.
Se tem uma coisa que barista odeia são drinks que pedem liquidificador. Quer me ver triste? Me peça Piña Colada. Aí me inventam uma tarde em que tudo pede liquidificador, ou seja, odeio você Glória!
Eu já imaginava que um local como esse não seria frequentado por crianças. Talvez em um dia da família para os sócios conhecerem os familiares um dos outros, sei lá se existe. Porém, eu tive um instinto de que hoje não era esse dia, mas confesso que os “littles” que me apareceram não era o que eu esperava, mesmo sem saber o que esperar.
Quando a primeira chegou, eu não desconfiei de nada. Achei o vestidinho jardineira jeans fofo e eu certamente usaria, trocaria o sapatinho por um all star e pronto, look do dia. Porém, entretanto, todavia, quando ela se sentou no tatame colorido no chão eu vi algo que acho que não deveria… aquilo era claramente uma fralda com desenhos de estrelas de diversas cores.
Logo em seguida chegaram mais, todos vindo da mesma direção. Alguns tinham bichos de pelúcia nas mãos, outros estavam de chupeta, isso quando eram os dois. Tinham aqueles que a roupa era de fato de um neném.
E eu fiquei… oi?! Isso é permitido? Ou socialmente aceito?
– Você nunca viu ageplay, – Otávio concluiu. – A primeira vez é assim mesmo. As pessoas olham, julgam, alguns interpretam errado e até acham que é pedofilia mascarada, mas não é nada disso. Então não se preocupe, nenhum deles tem interesse em crianças reais.
– Ah… eu não tinha nem pensado nisso… eles não têm vergonha de aparecer na frente dos outros assim? Usando chupeta e tals…
– Aqui, não… aqui é uma zona sem preconceito. Existem regras bem definidas para tudo também, você está segura aqui. Eu jurava que você já era uma pequena.
– Não é a primeira vez que me falam isso aqui. O que que é isso afinal?
Otávio apontou para as pessoas no salão. – Pessoas como eles que encontram conforto no pequeno espaço.
– Não sei nem o que que é isso, – eu voltei para trás do meu bar. – Eu vou cortar morangos.
– Já que você não é uma pequena, tá afim de um docinho? Vou roubar deles.
– Quero.
Apesar do trabalho extra que foi fazer smoothie e vitaminas, foi uma tarde boa. Comi bastante docinhos, ganhei cachorro quente, salgadinhos, pipoquinha. E quando não tinha mais nada fiquei observando os tais “pequenos”. Tirando os que faziam birra e eram repreendidos pelos que pareciam ser “adultos” aqui, o resto estavam vivendo o paraíso na terra.
Deve ser bom voltar a época em que sua única preocupação são as cores que irá pintar seu desenho e tem alguém cuidando de você. E os “adultos” do rolê em sua maioria eram bastantes carinhosos e cuidadosos com seus pequenos… nem minha mãe era tão carinhosa assim.
Talvez eu tenha ficado com um pouquinho de inveja, talvez.
Ou talvez eu só esteja carente de um chameguinho. Meu único relacionamento mais longo não tinha tantos chamegos e carinhos porquê ou estávamos nos escondendo ou o pouco tempo que tínhamos juntas usávamos para outras coisas. E mesmo assim eu me iludi como iludi, se fazem isso aí comigo… aí ferrou tudo. Meu pobre coração emocionado e boiola se derrete.
Melhor focar nas outras coisas e nelas ficar. É uma zona prazerosa e sem muitos riscos. Famosa contenção de danos.
Otávio me arrumou um papel e uma caixa de giz de cera para eu passar meu tempo enquanto não havia nada para fazer. Como os pequenos tinham sua própria programação, chegou uma hora que eu só estava existindo e nada melhor que existir desenhando.
Eu nem vi o tempo passar enquanto desenhava nas minhas folhas. E sim, no plural, já que o Otávio seguiu me abastecendo com folhas e pedindo para desenhar diferentes figuras.
Aos poucos os pequenos foram embora dando espaço aos frequentadores da noite como de costume. Apenas uma parte da decoração foi retirada, mas os puffs coloridos e outros objetos grandes ainda estavam no salão e isso foi motivo de piadas entre eles.
– Olha se não é a garota da Kyrie por aqui hoje. Tudo bem, querida? – O homem se encostou no balcão e me deu o sorriso dos dentes mais perfeitos do mundo.
Eu não sabia o nome dele, mas eu o vi ao lado da Valquíria antes. Alto, musculoso e de pele negra impecável, o homem a minha frente parecia um modelo. Eu que nem gosto de homem fiquei impactada, imagine quem gostava então…
– Tudo e você?
– Ótimo!
– Aí Bruno, você não tem jeito mesmo! – Uma mulher veio atrás dele e se aproximou de nós. – Para de incomodar a moça. Deixa-a em paz… oi. – Ela me cumprimentou com um sorriso simpático.
– O que foi? Eu não fiz nada demais… eu só quero um drink, não posso? – Ele comentou com um tom irônico ácido. – O seu nome é Clarice, não é mesmo? – Assenti. – Então Clarice, eu quero um Pis-co Sour.
Eu não entendi muito bem o que estava rolando por aqui, mas os dois eram muito suspeitos. O jeito como que o tal Bruno falava comigo era suspeito. Ou era só coisa da minha cabeça. Mas enfim, eu estava trabalhando e tinha um pedido para fazer.
– Você quem desenhou isso aqui? – Bruno perguntou analisando os papéis.
– Sim, foi eu. Estava sem ter o que fazer aqui e aí fui desenhar para passar o tempo.
– Passar o tempo?! – A moça ao lado de Bruno pegou um dos desenhos e mostrou para mim de forma dramática. – Isso aqui é um passatempo?! Hoje teve oficina de artes, é um absurdo a Val ter deixado essa garota trabalhando no bar. Imagine o quadro que não sairia?! Eu vou falar esse absurdo para ela. Falando nisso, dona Kyrie vai vir hoje?
– Duvido, – Bruno revirou os olhos e então olhou para mim, – quero dizer, não sei… o que você acha, Clari?
– Eu? – Perguntei sem entender. – Por que eu saberia?
Bruno circulou o dedo na borda do copo que estava sobre o balcão e me encarou com um olhar açucarado. – Não sei…
Bruno circulou o dedo na borda do copo que estava sobre o balcão e me encarou com um olhar açucarado. – Talvez você saiba mais do que eu… ela não te falou nada?
O encarei desconfiada por um instante e me recordei de algo. – Você tem razão, ela falou algo sim… ela disse que viria de noite.
– Tipo agora?
– Hmm… acho que não. Mais tarde, talvez.
Bruno estreitou o olhar e ergueu uma sobrancelha. – Mais tarde? E vai fazer o que aqui tarde da noite quando todo mundo estiver indo embora?
O olhar de Bruno penetrou a minha alma me fazendo corar de vergonha. Eu não tinha nada a esconder e sentia como se estivesse sendo exposta. Era como se ele fosse capaz de ler meus pensamentos mais íntimos que nem eu mesma tenho acesso… meu deus, o que será que ele está vendo?!
– Ela disse que vem me buscar. – Confessei me sentindo como se estivesse confessando um crime. Bruno abriu um sorriso satisfeito e endireitou a postura.
– Viu só, eu sabia… ela não viria aqui ainda mais tarde só por nossa causa, – ele comentou com a amiga ao lado. – A bicha está no Rio de Janeiro e vai voltar para levar a Clari para casa. E você tem a au-dá-cia de dizer eu, – ele apontou para si próprio de forma dramática, – eu sou o doido.
– Você é doido, Bruno – a mulher riu e se virou para mim. – Eu acho que vou precisar beber algo também antes que esse homem de deixe doida igualzinha a ele. Me faz qualquer coisa aí…
– Não, não, a senhorita não pode – Bruno colocou a mão sobre o braço dela no balcão. – O sabor do leite, não, não. Eu não quero ouvir gritos e birra de um neném caminho de casa… e aliás, a bonita está de motorista hoje.
– Às vezes é tão difícil ser mommy, – ela murmurou. – Você ainda tem aquelas bebidas que estavam rolando mais cedo? – Assenti. – Então vai ser isso mesmo. Já que não tem álcool, pode ser qualquer uma mesmo.
Os dois engajaram numa conversa e praticamente se esqueceram de mim…, mas eu não me esqueci deles e prestei atenção em tudo. A conversa dos dois era bastante divertida e foi difícil não rir das coisas que eu ouvia.
Eu perdi noção do tempo que passou que nem me dei conta de que já estava consideravelmente tarde. Era tarde para dizer “hora de começar a fechar” e era exatamente o que comecei. Estava tão distraída imersa em meu mundo que não vi nada acontecer ao meu redor até ouvir os gritos de Bruno.
[N/A: a Clarice não entende nada do diálogo a seguir e vocês também não vão… por enquanto. A Val irá traduzir no próximo capítulo, relaxe.]
– Bonsoir, madame. C’est une heure pour arriver ? – O tom de voz debochado denunciou com quem estava falando. Eu não entendia absolutamente nada, mas suspeitava que estava tirando sarro de Valquíria que provavelmente acabara de chegar. – Vous êtes venue chercher votre fille, n’est-ce pas ?
– Ma fille ?! – A resposta revoltada de Valquíria confirmou minhas suspeitas, ela havia acabado de chegar.
Eu imediatamente parei o que fazia para a ver. Sabia que mais cedo ou mais tarde iria me cumprimentar e queria evitar um susto. No entanto, eu poderia não ter me assustado, mas definitivamente levei um choque igual.
Valquíria de tênis, calça jogging e TOP?! Top! Aquele top que nada mais é que uma pequeníssima peça de roupa e que cobre o corpo tão bem quanto um sutiã.
E não, eu não fiquei encarando o corpo dela.
Também não reparei que ela tem o corpo mais definido que parece e que ela estava sem sutiã. Nunca pensei que ficaria grata por alguém decidir tirar o blazer e o carregar no braço.
– Oui. Tu es attirée par elle, n’est-ce pas ? Je sais que tu l’es, j’ai toujours su qu’au fond tu étais lesbienne.
– Tu es folle, Bruno.
Bruno me olhou descaradamente como se estivesse pressentindo que eu estava secando a sua amiga e eu senti meu rosto queimar de vergonha porque eu realmente estava e o sorriso em seu rosto significava que ele percebeu.
– Mon amour… je suis dans ce domaine depuis des décennies. Je sais très bien de quoi je parle, crois-moi. J’essaie de te faire gagner du temps en essayant d’éviter l’inévitable qui va se produire.
– Je ne vais plus perdre mon temps avec toi, ça c’est sûr.
Bruno fez uma careta do tipo “eu avisei” e deu ombros para Valquíria que revirou os olhos balançando a cabeça negativamente. Os dois se despediram ali mesmo já que Bruno e a outra mulher estavam de saída. Antes de irem de vez, ele me olhou uma última vez e fez um “tchauzinho” com a mão seguido de um sinal como se estivesse de olho em mim, sinal esse que a Valquíria não viu já que estava caminhando em minha direção.
Por um segundo me senti totalmente exposta, como se ele soubesse os meus segredos mais sórdidos e estava prestes a me atacar caso fizesse alguma merda com a sua amiga.
E eu sequer tinha algum segredo sórdido para esconder.
Posso não falar francês, mas eu tinha certeza que a conversa era sobre mim ou relacionado a mim. Pena o Otávio não estar por perto para traduzir.
– Você está bem? – Valquíria pareceu preocupada.
– Uhum, por que?
– Está um pouco rosada e uma careta estranha.
– Cansaço. – Menti e sorri.
– Okaay… – ela não me pareceu convencida, mas aceitou. – Como foi o dia hoje? Movimentado?
– Talvez o mais movimentado de todos eles, mas por pouco tempo.
– E você comeu? – Assenti e emiti um som nasal. – Comer pipoca e doces não é bem a definição de quem comeu de verdade, Clarice.
– De onde você tirou essa informação?
Valquíria virou o rosto em direção ao pote de pipoca e o copo onde eu estava jogando os papéis dos docinhos para jogar fora depois.
– Mas eu não comi só isso, – ela ergueu o cenho questionando minha resposta. – Eu também comi cachorro quente e salgadinho, – ela balançou a cabeça reprovando minha resposta.
– E já está bem tarde para pedir algo agora, – ela conferiu a hora mais uma vez. – Você precisa comer comida de verdade. A alimentação é uma forma de repor suas energias e é importante especialmente agora que está trabalhando sem descanso.
– Eu vou comer quando chegar em casa.
– O que?
– Miojo, – sorri e Valquíria me olhou séria, – você já viu a tabela nutricional do miojo? É saudável.
Meu sorriso sapeca se desmanchou em um sorriso sem graça sob o olhar nada contente de Valquíria.
– Falta muito para você terminar?
– Não, eu já adiantei mais da metade mais cedo. Já, já termino.
– Quer ajuda?
– Não?! Não. Senta ali, eu já termino.
As roupas “casuais” de Valquíria ainda eram mais elegantes e sofisticadas que as minhas roupas mais sociais, mas confesso que a ver sentada vestida assim com a sua típica postura perfeitamente ereta e pernas cruzadas era engraçado.
Acho que ninguém no escritório seria capaz de imaginar a nossa chefe assim. Nem eu…
– Terminei.
Valquíria levantou o olhar para mim e sorriu. – Podemos ir?
– Sim.
Ao guardar o celular no bolso, percebi que era o de trabalho e que enquanto me aguardava, ela trabalhava.
Ou seja, fala de mim que não descanso, mas a bonita também estava respondendo e-mail.
Ao entrar no carro coloquei meu cinto imediatamente antes que levasse puxão de orelha. Já percebi que a francesa é do tipo que não liga o carro se não estiverem todos usando cintos.
– Você está com sono? – Valquíria perguntou aleatoriamente na estrada.
– Pior que não.
– Ótimo.
Ela disse satisfeita e entrou na avenida em direção oposta a minha casa e eu fiquei sem entender.
– Você disse que não estava com sono. – Ela se justificou.
– Não estou mesmo. Estou com energia para as outras duas horas que achei que iria trabalhar essa noite.
– Por que será, né? Passou o dia inteiro comendo açúcar.
Lembrar de todos os docinhos e bolos que comi hoje me fez sorrir boba. – É… hoje eu fui feliz… e agora vou ser triste. – Valquíria me lançou uma careta surpresa e preocupada.
– Como assim?
– Eu comi o melhor cookie da minha vida e eu não sei quem fez, onde comprou… e agora será só uma lembrança feliz que não voltará mais.
– Muito provavelmente foi a chef confeiteira quem fez. Raramente contratam buffet de fora no Apex, temos nossos próprios chefs e os membros que são chefs donos do próprio restaurante.
– Quem é essa pessoa? Espero que seja solteira porque eu quero me casar com ela.
– Você não é muito nova para pensar nisso?
– Em que? Comida ou casamento? – Valquíria me respondeu com o olhar. – Não existe tempo certo para pensar nessas coisas, quando te dão uma comida gostosa você come e aprecia, esperar só vai deixar frio ou estragar. E o mesmo é o amor, quando você encontra o seu, ou você vive sem medo ou vai acabar perdendo para outra pessoa mais corajosa que você…
– Tudo isso por que você quer comer os cookies da Gisele?
– Você conhece quem fez os cookies?
– O suficiente para saber que vocês não iriam dar certo… e respondendo a sua pergunta, sim, ela é solteira.
– Como pode ter tanta certeza que não vamos dar certo?
– Eu sei.
– Você vai me apresentar a ela?
Para a minha surpresa estávamos na entrada da garagem de um prédio. Prédio de gente fina para ter sistema de segurança com mais de um guarda na entrada da garagem.
Estávamos indo para a casa da Valquíria? Por que?
– O que vamos fazer aqui?
– O que você não fez o dia inteiro.
– Dormir? Mas eu posso dormir na minha casa.
– Comer comida de verdade.
– Está tentando competir com a Gisele? – O sorriso em meu rosto foi inevitável.
Não me leve a mal, eu não estava flertando com a minha chefe. Ao menos, não tinha intenção de fazer algo do tipo, mas a Valquíria levantou a bola e eu não poderia perder essa oportunidade de saque. Ainda mais agora que não estamos em ambiente de trabalho e ela não pode me demitir… não por agora.
– Já te adianto que não será fácil. Os cookies da Gisele estavam muito, muito, muito bons. Uma delícia. Irresistíveis.
Valquíria terminou de estacionar o carro. Desligou o motor e se virou para mim. – Eu pareço como alguém que precisa competir para você?
Por um momento fiquei sem entender se ela disse “para você” ou “por você” e não soube o que responder.
– Olhe bem para mim, Clarice, – ela se inclinou para perto de mim, – Eu realmente pareço com alguém que precisa competir? – Ela se aproximou ainda mais e por um momento pensei que fosse me beijar ali mesmo e todo meu sistema entrou em pane. – Se eu estalar os meus dedos… eu tenho você em minhas mãos.
Os lábios de Valquíria estavam em uma distância perigosa dos meus. Seu perfume invadiu minhas narinas causando uma confusão em minha cabeça. Era como se meu cérebro tivesse dado erro no sistema e eu fiquei totalmente sem reação.
O sorriso que surgiu nos lábios de Valquíria me fez levantar o olhar até os seus olhos. Não tive dúvidas que ela sabia exatamente qual efeito tinha sobre mim e estava fazendo de propósito. De repente a realidade me deu um tapa na cara. Eu flertei com a Valquíria de brincadeira achando que a deixaria desconcertada e quem saiu desconcertada fui eu… que ódio!
– Vamos subir.
Ela disse se afastando e quebrando todo clima como se fosse zero afetada pela nossa aproximação. Eu fui muito inocente achando que poderia brincar com ela e sair ilesa e saí como idiota. AAAAAAH!
– Você tem alguma alergia? – Ela perguntou enquanto aguardávamos o elevador.
– A comida ruim, o resto é dentro.
– Você não terá problemas com isso aqui.
Nós entramos no elevador e eu fui chamada de pobre em trezentas línguas diferentes. Tinha botões indicando os andares, mas a pessoa usou a di-gi-tal e o elevador simplesmente “ok, te levo lá”.
– Vai me dizer que você tem um chef particular também? – Eu respondi depois que passou o impacto inicial. – Eu não ficaria surpresa.
– Eu não preciso disso.
É, realmente a Valquíria não precisa de muita coisa. Que ódio dessa mulher!
Que onde ela morava seria algo uau de outro mundo, eu já esperava. Os projetos dela já são incríveis, era óbvio que seu próprio seria igual ou melhor que isso. E era melhor, muito melhor. Quando a porta do elevador se abriu, eu fiquei incrédula. Não havia nada. Um corredor, um mini hall, uma porta, nada. As portas se abriram e nós já estávamos dentro. E céus, só o ambiente principal era maior que a minha casa inteirinha!!!
E a vista!
Mesmo de noite, a vista da cobertura do prédio era lindíssima. Com uma parede inteira de vidro de uma ponta a outra, era possível ter uma visão panorâmica do Brooklin. E como uma paulistana que sou, fiquei totalmente encantada com vista que era só prédios… e algumas árvores, porque isso aqui é bairro de rico.
Enfim, à esquerda, mais ao fundo, estava a sala de jantar, com uma mesa comprida de madeira clara, cercada por oito cadeiras que deveriam custar o meu salário cada. Um pouco adiante à direita, a sala de estar se desdobrava em um espaço bastante aconchegante e espaçoso, com um sofá generoso em L que só de olhar parecia confortável.
Valquíria seguiu ainda mais à direita por um corredor que levou até a cozinha. A cozinha era digna de cenário de programa de TV de culinária. Retiro o que eu disse antes, a cozinha dela era maior que a minha casa. Eu moraria nessa cozinha. Certeza que poderia dormir dentro da geladeira e seria mais confortável que a minha cama…
Meu deus… imagina a cama que essa mulher dorme…
– Senta aí, fica à vontade. Eu não demoro com o jantar.
– Como assim? Você vai fazer o jantar?! – Valquíria me encarou por alguns segundos e assentiu. – Eu pensei que tivesse algo pronto, resto do almoço ou algo do tipo.
– Eu não almocei em casa hoje, – ela comentou casualmente enquanto começava a preparar suas coisas. – Eu comi comida da minha avó hoje.
– E ela não te deu uma marmita?
Valquíria ficou pensativa. – Para comer onde?
– Em casa.
– Já tem muita comida em casa.
– Mas é comida de vó.
– E?
– Não se nega comida de vó. Você é louca.
– Hmm… oui… eu ouço isso com certa frequência. Talvez eu devesse começar a me preocupar.
– Começar?! É comida de vó. Isso é coisa sagrada.
Eu observei Valquíria cozinhar ainda incrédula. Nada disso fazia sentido, ao menos não para mim. Por que diabos ela estava cozinhando para mim quase uma da madrugada? A gente nem se conhece direito, ela nem gosta do meu trabalho como arquiteta, não é possível que ela seja assim com todo mundo. A não ser que meu Pisco Sour seja o melhor do mundo, o que definitivamente não é.
Ou talvez ela seja só rica e para ela essas coisas que faz por mim e para mim não é nada demais. Essa é a justificativa mais plausível. Fora a isso, não tem um porquê. Mulher estranha…
– Eu normalmente não faço com legumes, – ela comentou aleatoriamente enquanto cozinhava as cenouras e os brócolis que cortou. – Mas você precisa ingerir algo saudável nesse corpo hoje.
– Eu gosto de cenourinha e brócolis, então tudo bem. Está com um cheiro bom. – comentei.
– Mas não estará tão bom quanto os cookies da Gisele.
– Você acha?
Ela apoio os braços sobre o balcão para e me olhou de um jeito que realmente… se ela estalasse os dedos eu…
– É difícil competir contra cookies com uma pasta quando o juri é uma formiguinha enlouquecida por doces.
– Mas eu pensei que você não precisava competir.
– Mas às vezes eu gosto… apenas pelo prazer de competir e vencer.
– Você acha que ganharia dos cookies da Gisele?
– Está me desafiando?
– Oui, – respondi desafiante. – Eu te desafio fazer um cookie que seja melhor que o da Gisele.
Valquíria ergueu o cenho. – E o que eu ganho com isso?
– Um aperto de mão, um beijo, um abraço… e um “parabéns”.
Eu pensei que ela fosse recusar. Eu só queria comer um docinho e ser feliz, ela perdendo ou ganhando, eu saio ganhando. Já ela, um aperto de mão, um beijo no rosto, um abraço e um “parabéns”, ela consegue isso no escritório se fosse mais receptiva a cumprimentos.
Mas como Valquíria é louca e eu já estava ficando certa disso, ela me estendeu a mão.
– Défi accepté (desafio aceito).
Se ela aceitou o desafio, quem sou eu para recusar.
– Desafio aceito.
Eu não tinha expectativas nenhuma que Valquíria fosse superar o melhor cookie da minha vida porquê aquele foi de longe o melhor cookie da minha vida.
Bom, não tinha até experimentar o tal espaguete a carbonara e descobrir que a filha da mãe realmente sabia cozinhar. Meu deus… cada garfada uma vontade de chorar. Era muito bom. Muito, muito, muito bom. Senhor!
Estava uma delícia! O melhor macarrão da minha vida. Fui obrigada a repetir de tão bom.
Céus, se eu tivesse que escolher entre o macarrão e os cookies para a vida toda…
Eu escolheria os cookies.
Eu posso viver uma vida sem macarrão, mas não sem chocolate.
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Gostou? Não esqueça de comentar! Até a próxima…
Au revoir!
