« C L A R I C E »
Depois da minha descoberta, eu fiquei meio cabreira com a semi-francesa.
Quando fui a sala de reunião para entregar o documento para assinar, ela não fez nada do que acusaram. Estava pronta para uma grosseria e recebi um quase imperceptível sorriso.
– Eles já vieram ver a impressora? – Valquíria perguntou enquanto analisava o documento rapidamente antes de assinar.
– Aparentemente estão aí… como vieram tão rápido, não sei.
– Hm… – ela me devolveu o papel e a caneta.
Ficamos nos encarando em silêncio e eu não sabia como reagir. Será que posso só sair? Tenho que pedir permissão ou… ? Como funciona isso? E por que ela continua me olhando?
– Você já conheceu o pessoal? – Valquíria perguntou casualmente quebrando o silêncio.
– Não, eu quase não venho aqui… –
Olhei ao redor e realmente, as pessoas que estavam sentadas a mesa eu não as conhecia, no entanto, lá no fundo da sala, sentado ao sofá com o tablet no colo e fones de ouvido estava alguém que conhecia muito bem e não via há anos.
– Theodore? – O Theo estava super concentrado em seu tablet e completamente alheio ao mundo ao seu redor.
-Eu? Alguém me chamou? – Ele levantou o olhar retirando os fones de ouvido e fez uma careta surpresa ao me ver. – Meu Deus! Clara! – Ele deixou o tablet de lado e se levantou para vir me abraçar ignorando completamente o ambiente que estávamos e quem estava ao nosso redor. – O que você está fazendo aqui?
– Eu trabalho aqui.
– Mentira! – Theo fez sua típica careta pensativa por alguns segundos. – Você é a nova estagiária?! Não acredito!
– Sou.
– Vocês se conhecem?
Não sei dizer ao certo qual foi o tom de voz de Valquíria, mas sua pergunta soou estranha.
– Sim! – Theo respondeu empolgado. – Nós éramos vizinhos. Eu fui babá dessa criatura… se eu soubesse que era você quem tinha entrado, eu teria ido te visitar no andar de baixo.
– Você realmente não se mistura lá mesmo?
– E tem como? A Val só não me prende em um cativeiro porquê não tem um aqui.
O olhar que a Valquíria lançou para o Theo justifica o medo que as pessoas tem dela. Por pouco não me mijei.
– Comment ça?!
– Brincadeirinha, ma cherie. Você é a melhor chefinha dessa empresa! – Theo fingiu ter intenção de abraçar Val e ela imediatamente se inclinou para o lado e levantou o braço para o afastar se recusando.
– Va-t’en ! Sem abraços! Você vai amassar a minha roupa e eu não quero. – Sem se ofender, Theo apenas riu balançando a cabeça e se voltou para mim.
– Como você está? Nós temos tantos assuntos para colocar em dia. Você ainda mora no mesmo lugar? – Assenti. – Beleza, eu vou te levar para casa hoje como nos velhos tempos.
– Você sabe que é muito longe para ir andando como nos velhos tempos, né?
– Eu tenho carro, bobona. Passa aqui antes de embora.
– Eu vou. – Theo me abraçou outra vez.
– Meu Deus como a minha Clarinha cresceu… quer dizer, envelheceu. A altura continua a mesma.
– Ei! Eu cresci sim, – Theo me encarou esperando a verdade. – Dois centímetros.
– Ai, ai. – Theo virou meu corpo pelos ombros e me conduziu até a porta. – Não se esqueça de passar aqui mais tarde… eu realmente estou feliz em te reencontrar. E agora que eu sei que está aqui, vou tentar te puxar para o andar de cima. Quem sabe, entrar para a nossa equipe.
– Eu?
– Sim, você. Quem mais?
– Você viaja, – balancei a cabeça. – Eu vou levar isso para o Felipe antes que ele tenha um troço.
Quem poderia imaginar que iria reencontrar o meu leãozinho aqui.
Eu tinha uns onze anos quando os pais do Theo se divorciaram e ele se mudou para Portugal com a mãe. Na época não tínhamos fácil comunicação como hoje em dia e eu era uma criança. Acabou que nos afastamos ao ponto de não ter mais notícias dele por uns bons anos.
Antes disso éramos bons amigos. O Theo era o mais velho do grupinho e servia de babá nós pirralhas da rua, vulgo Larissa e eu. E não surpreende ninguém que justamente os três excluídos da igreja mais tarde se assumiram parte da comunidade LGTV. Cada um em seu tempo, mas sem deixar nenhum para trás… hmmm, será que o Theo sabe que eu sou lésbica?
Nós realmente temos muito assunto para conversar. Simplesmente anos de fofoca atrasada.
Pensando nisso, fiquei muito ansiosa para acabar o expediente. Contando minutos para dar 18h e quando deu, eu fui direto para o andar de cima. Eu vim pouquíssimas vezes aqui, acho que duas no máximo. Sei que os poderosos tinham seus espaços aqui – e lá embaixo também – mas, embora não seja algo feito de propósito, ficava subentendido que os melhores funcionários e os mais bem pagos estavam todos no segundo andar. Tirando os departamentos que são pequenos demais para serem divididos em andares.
Mas enfim, o clima no segundo andar era totalmente diferente do primeiro. As pessoas sorriam, os estagiários não pareciam crianças da quinta série e dava até para ouvir gostosas risadas. E pelo o pouco que ouvi da conversa que estavam rindo, eles não estavam falando mal de alguém e lá embaixo era só isso que era falado.
A cena que encontrei no andar de cima era Theo de pé guardando suas coisas na mochila falando algo que as mulheres ao seu redor davam risadas. As mulheres em questão eram uma desconhecida que estava de pé ao seu lado e Valquíria que estava sentada na cadeira do Theo com a sua xícara de chá entre as mãos.
E não, eu não reparei nas pernas da minha chefe. Longe de mim tamanha baixaria… e convenhamos que de baixaria ela não tem nada. O que essa mulher tem de pernas, eu tenho de altura. Meu senhor, misericórdia… fez até calor.
Os meus pensamentos devem ter emitido sons altos o suficiente para Valquíria me ouvir e desviar o olhar em minha direção e ser a primeira a me notar.
– Você está aí? Vem para cá, deixa eu te apresentar – Theo me puxou para perto ao me notar ali. – Amanda, essa é a Clarice, a nossa futura estagiária.
– Nossa estagiária? – Amanda se virou para Val que deu ombros enquanto discretamente inalava o aroma do chá em suas mãos. – Eu vou ficar feliz em ter uma estagiária. Por que não temos uma, Val? Enquanto os outros mandam estagiário para buscar a esposa na consulta, nós aqui estamos nos ferrando com os assuntos mais simples.
– Não gosto do trabalho deles… – ela bebericou o chá, – para não dizer outras coisas, – ela jogou a indireta no ar enquanto continuava beber casualmente.
Se ela não gosta deles, imagina de mim que fiz um prejuízo altíssimo com uma impressora 3D na minha segunda semana trabalhando aqui.
– Enfim, meninas. Amo vocês, mas não o suficiente para querer ficar até mais tarde. E eu preciso levar essa mocinha aqui para casa.
– Vocês moram perto um do outro? – Valquíria perguntou.
– Lados opostos de São Paulo, mas temos muito que fofocar, então vale a pena o sacrifício.
– Você não tem jeito mesmo, Theodore – Amanda riu e pegou a sua bolsa. – Eu também vou indo. E você, dona Valkyrie, não vá madrugar aqui. Vá para casa e durma.
A parcial-francesa assentiu a cabeça bebericando seu chá. E algo me diz que ela vai madrugar aqui.
Com direito a ida ao Drive-thru para pegar um lanche e bebidas para enfrentar o trânsito de São Paulo, Theo e eu fomos em direção a minha casa fofocando sobre tudo que aconteceu nos últimos anos que não nos falamos.
Fiquei feliz em saber que a vida de Theo não foi dramática como a minha. Tirando se adaptar a um novo país, sua mãe foi totalmente apoiadora em sua carreira e principalmente sexualidade, bem diferente do pai homofóbico que continua um escroto e melhor amigo do meu pai.
Theo ter cortado totalmente o pai da vida foi um livramento. Livramento esse que eu almejo todos os dias, mas se não bastasse ter que aturar o meu, ainda tinha que aguentar o dele frequentando a minha casa.
– Se eu soubesse antes que estava fazendo arquitetura, eu teria descolado esse estágio para você antes. Tem noção que incrível vai ser trabalharmos juntos?
– Levando em consideração que eu só fui aprovada por ser literalmente a opção menos ruim, eu não acho que iria passar em outra ocasião.
Theo me encarou curioso. – Quem te disse isso?
– Ué, a sua chefe nem quis me entrevistar de tão ruim que achou meu portfólio. Eu fico imaginando como era os dos outros candidatos.
– Você não conhece a Val. Se você fosse tão ruim assim, te garanto que nem estaria nessa empresa. Se ela decide algo, não tem Cristo que faça mudar de opinião. E não tem ninguém naquela empresa que ousa ir contra ela. Se você entrou, foi porque ela quis.
– Eu não acho não.
– Confia em mim. Tem quatro anos que eu trabalho com ela e cinco naquele escritório. Eu sei como as coisas funcionam e te dou uma dica: se junte as pessoas certas. Não caia nas lábias de alguns arquitetos chefes, o Martin principalmente, ele dá em cima de todas novatas e muitas delas caem no papo.
– Theo… – o interrompi antes que isso virasse um papo cabeça entre irmão mais velho e caçula. – Eu acho que faltou lhe dar um update muito importante sobre a minha vida: eu sou sapatão. Lésbica, sáfica, caminhoneira. Eu definitivamente não vou cair no papo do Martin, mais fácil ele cair no meu.
– Mas você… você era a maior membro da igreja.
– Agora sou pastora da igreja lesbeteriana, prazer.
– E como foi isso? Quando? Como você se descobriu? Você já namorou alguém? Alguém mais sabe?
Quando o Theo foi embora eu ainda era muito criançona, em outras palavras, eu nem pensava sobre minha sexualidade e meu passatempo favorito era desenhar e pintar. Ele não viu o meu despertar de interesse nessas beldades do mundo que chamamos mulheres.
– Eu demorei a acordar para vida, confesso – comentei de forma dramática. – Precisou de um beijo roubado da aluna mais gata do colégio e depois disso eu descobri que beijar garotas atrás da quadra era legal, mas tudo no sigilo e na “sisteragem”. Eu não achava que era lésbica até chegar na faculdade e começar a ir em bares, festas e conhecer a Diana.
– Quem é Diana?
– A minha quase primeira namorada.
– Quase?
– Nunca oficializamos porque eu nunca me assumi e ela era a minha professora. Não ia pegar bem na USP se descobrissem que a professora Diana estava se envolvendo com uma caloura… depois descobri que ela era casada, mãe de dois filhos e eu não era a única que ela envolvia. Era quase um esquema de pirâmide de amantes.
Theo parou o carro no semáforo amarelo e me encarou boquiaberto. – Você se envolveu com a sua professora da faculdade?! Tá maluca?! Quantos anos ela tinha? Quantos anos você tinha?
– Acho que quarenta e três, – encarei o nada fazendo as contas. – Eu entrei na faculdade com 17, quase 18. No meu aniversário fomos para um bar, ela estava lá e se juntou a mesa conosco. Depois disso as coisas foram desenrolando e passamos meu aniversário de 19 juntas num chalé bem fofo e tivemos a nossa primeira vez.
– Meu deus, Clarice! Está tudo errado! E quando foi que descobriu que ela era casada?
– Eu faço uns freela em eventos e festa, fui trabalhar num evento familiar como bartender e ela estava lá com o marido e os dois filhos. Muito fofos os meninos, são gêmeos, foi horrível.
Theo ficou me olhando sem reação até o semáforo abrir. – Eu sinto muito. Deve ter sido péssimo.
– Foi, mas de noite a Glória me levou para uma balada. Eu enchi a cara de verdade pela primeira vez e tive o meu coração consolado entre os braços e pernas de outra mulher gatíssima. Doeu, mas passou rápido.
– Que horror, Clarice. Se alguém mais me contasse eu jamais iria acreditar que você iria se envolver com a sua professora com o dobro da sua idade. Sempre achei que o seu seria o único casamento hétero que eu seria padrinho.
– Deus me livre, – até estremeci de pavor. – Só beijei um garoto e foi tão horrível que nunca mais tentei.
– Seu pai já sabe?
– Se minha mãe fosse viva, ela saberia. Meu pai nem sonha. Vez ou outra ele comenta sobre do filho de um amigo que tem a minha idade e é solteiro, parece que é doido para me casar.
– Imagino os trastes que ele quer jogar para cima de você.
– Desse nível aí mesmo.
Theo ficou reflexivo por um momento enquanto comia sua batatinha e dirigia. – Então quer dizer que somos os três gays?
– Uhum. Bem gays.
– Isso explica muita coisa.
– Explica.
– Precisamos agendar esse reencontro… eu preciso ver essa Clarice com os meus próprios olhos.
– Essa Clarice está descansando no leito esplêndido. No momento estou no mode trabalhar como uma escrava e fazer dinheiro para sair de casa logo.
– Você vai conseguir. E agora eu estou por perto outra vez para o que precisar.
Sorri tentando ser simpática.
Todo mundo diz que eu vou conseguir, no fundo eu sei que é verdade, mas enquanto isso não acontece, sinto que o caminho é tão distante. Às vezes parece que corri quilômetros e lá no final percebo que estava o tempo todo em cima e uma esteira e não sai do lugar, todo o esforço foi em vão. Mas apesar dos pesares, eu ainda sigo caminhando confiante e esperançosa.
Por sorte Theo não decidiu entrar comigo e fazer uma visita, caso contrário iria dar de cara com o pai que não tem contato há anos. Os dois trastes estavam bebendo no quintal, ouvindo música alta e sendo nojentos. E pensar que meu pai já foi um cara que preste e o luto o tornou isso…
Mas isso não é justificativa. Ele perdeu a esposa e eu perdi a minha mãe e nem por isso joguei tudo para o alto e saí ferrando com a vida alheia. Homem é um bicho besta e fraco.
Apesar da perturbação, era bem melhor quando os dois estavam lá porque assim não me enchiam o saco aqui. Meu pai acha que sou servente dele para ficar atendendo suas vontades e não me deixa em paz e eu tenho mais o que fazer.
Tirando a presença do Theo no escritório, a minha semana no trabalho foi extremamente tediosa e estressante. Quando não estava falecendo de tédio, estava me estressando com as piadinhas sem graça sobre o incidente da impressora. Se nem a chefe do meu supervisor encheu o saco, por que diabos estagiários do primeiro andar estavam me enchendo?
Enfim, eu fiquei revoltada que passei a ficar até um pouco mais tarde para estudar para as minhas provas. Era a minha forma de recusar carona sem dizer não – coisa que eu preciso aprender a fazer – e evitar um pouco do pico do trânsito em SP. Ah, e tinha o fator evitar o meu pai, o que também era ótimo. Ou seja, 100% de aproveitamento do meu tempo.
Sexta-feira, porém, eu não iria para casa.
Glória guerreira foi tombada pela dengue e restou a mim assumir a batalha por ela. O Apex Club era realmente um excelente lugar para a minha amiga trabalhar e não a deixaria ficar mal com os caras. E não é como se estivesse fazendo de graça, além de receber muito bem pelas horas, iria ganhar uma lasanha da minha amiga.
Se ela tivesse oferecido só a lasanha eu já teria aceitado… pensando bem, eu faria qualquer coisa por comida.
Como não daria para ir para casa antes de ir ao Apex, decidi aproveitar as mesas de desenho do escritório para fazer uns trabalhos da faculdade. Não tenho uma dessas em casa e faz uma baita diferença desenhar com uma dessas. E nada como uma sala vazia, fones de ouvido e paz para ficar imersa e fluir. Em um piscar de olhos uma hora e meia passaram e logo, logo teria que sair para o meu próximo destino.
Mas não antes de um cafezinho. Não sou muito fã, mas eu vou ter que ficar acordada até de madrugada e já madruguei para ir a aula essa manhã.
– Ah, ah, mademoiselle. Que vais-je faire de toi ? [Ah, ah, senhorita. O que vou fazer com você?]
Se eu fosse um gato, eu certamente teria dado um salto que me faria parar no teto com o susto que levei ao ouvir a voz da minha chefe vindo atrás de mim. Eu não sei o que essa mulher tem que adora me assustar. Se eu tiver um ataque do coração, a culpa será dela.
Me virei esperando uma chefe brava e encontrei uma expressão neutra e ao mesmo tempo relaxada. Eu não tinha a visto hoje e seria muito triste saber que iria perder esse look do dia.
Simplesmente gatíssima, Valquíria vestia um conjunto colete, blazer e calça de alfaiataria off white e salto. Mulheres de terninho é a minha religião e ver ela assim me fez sentir abençoada.
– Pensei que estivéssemos esclarecidas sobre você não poder fazer hora extra.
– Eu bati o ponto.
– E continuou aqui? – Valquíria desencostou do batente da porta e se aproximou. Haviam alguns poucos metros entre nós e eu já conseguia sentir o cheiro do seu perfume. – Alguém te pediu para continuar trabalhando?
– Não, eu não estou trabalhando… eu estava usando a mesa de desenho para fazer um projeto da faculdade, mas eu já estou de saída, – sorri amarelo.
Por uma fração de segundos pensei que ela não fosse gostar, mas pelo visto ela estava cagando e andando para o fato de que eu estava usando o espaço do escritório para fazer minhas coisas pessoais.
– E você vai para casa a essa hora sozinha?
– Eu não vou para casa não. Eu vou para o Apex essa noite.
Ao citar Apex a expressão de Valquíria mudou, assumindo um ar ainda mais relaxado e descontraído. – Parfait! Vamos juntas então, eu te dou uma carona.
– Oi?!
Acho que a minha incredulidade estava exposta no meu rosto. Como assim nós vamos juntas? Juntas para o Apex… o Apex!
E se alguém ver?
Se bem que… ninguém sabe o que diabos é o Apex. Quem passa na frente acha que é só mais um clube de gente muita rica… ah, quer saber? Eu que não vou recusar uma oportunidade de andar de Mercedes que não seja ônibus. Vou economizar no bilhete único e chegar mais cedo. Ou seja, só vantagens.
– Que horas você precisa estar lá?
– Até 20:45.
Valquíria viu a hora em seu relógio de pulso. – Hm… está com fome?
– Um pouco, eu acho – respondi pensativa. Eu sempre estou com fome, então é complicado analisar.
Eu tenho club social da mochila e lá no Apex posso pedir um sanduíche para os chefs, E eu também comi a mexerica do Theo mais cedo… vou sobreviver.
– Então vamos agora e paramos para comer no caminho. Você não pode trabalhar de novo sem antes comer.
– Tem comida no Apex. – comentei casualmente para ver se ela pescava e falhou, ela não pescou.
– Nós podemos jantar lá também. Se não me engano quem fica lá hoje é o Raul e a comida dele é simplesmente superb.
Eu simplesmente desisti de argumentar e tentar me livrar dela. Não era como se fosse funcionar mesmo.
E mais uma vez, decidindo por mim, Valquíria saiu atrás de sua bolsa e voltou para irmos juntas. Eu não queria ir exatamente agora, mas se a parcial-francesa quer… quem sou eu para falar alguma coisa.
– Podemos ir?
– Sim, – concordei, embora não fosse essa a total verdade.
Coloquei minha mochila nas costas e segui Valquíria me sentido uma cadelinha ao seu lado.
Era sério.
Valquíria segurando o blazer sobre os ombros e dando passos confiantes parecia desfilar pelo estacionamento do prédio, enquanto eu ao seu lado além de nanica, eu ainda parecia uma total desengonçada.
É difícil explicar. Valquíria tinha uma beleza comum. Era linda, muito linda, mas que facilmente passaria despercebida entre as pessoas. No entanto, a sua postura e sua áurea inabalável tinham um sexual appeling muito grande e incapaz de ignorar. Quase impossível não querer olhar e quando olhasse não ficar encantado.
Valquíria primeiro abriu a porta traseira do carro, pegou a mochila de mim e deixou junto com seu o blazer e sua bolsa sobre o banco de trás. Em seguida assumiu o volante e eu sentei no carona ao seu lado pela segunda vez. Respirei com cautela para não danificar nada com o ar saindo dos meus pulmões.
Ao contrário de mim, Valquíria estava super relex tirando seu salto – e por algum motivo isso era um evento raro e icônico, já que geralmente quando se menciona a francesa sua imagem vem acompanhada de roupas elegantes e definitivamente um salto alto. E claro que alguém como a Valquíria teria um mocassim tão elegante quanto o salto para usar de substituto. É capaz eu pedir uma trema e ela tirar da bolsa.
– Acho que nunca te vi sem salto, – levei a mão na boca de repente pelo comentário que deixei escapar. Esperei um olhar bravo e recebi um olhar curioso seguido de um sorriso.
– São sapatos para trabalhar e normalmente eles são saltos. Sapatos baixos eu uso em outras ocasiões, algo menos formal.
– O meu sapato para trabalhar é o mesmo que eu uso para qualquer outra ocasião.
– Eu iria odiar usar salto para ir ao parque. Sou bem menos prática que você. Aliás, praticidade e eu não nos alinhamos bem. Eu sou tudo, menos prática.
Pensei que Valquíria fosse dar partida no carro, mas ela me olhou de canto de olho.
– Você não colocou o cinto.
– Ah, desculpa – coloquei o cinto de segurança no mesmo segundo e sorri – foi mal, não me bata.
– Eu não te bateria… não por isso.
A encarei surpresa e sem reação com a resposta.
Que ênfase foi essa? Será que…eu entendi errado ou…? Não é possível. Se fosse outra pessoa eu iria facilmente achar que estava flertando comigo, mas estamos falando da minha chefe. Minha super hetero chefe. Não, para tudo na vida tem limites. Não viaja, Clarice. Isso é você e sua mente que está vendo coisas onde não tem por causa desse extenso e doloroso período de seca.
Valquíria seguiu pleníssima dirigindo numa paz que nem eu tenho. Eu posso não gostar de palavrões e xingamentos, mas confesso que sou bem esquentadinha no trânsito e se algum momento você me ver falando alguma palavra feia, com certeza será ao volante.
Como de praxe, algo chegarmos no Apex Club, precisamos nos identificar. Valquíria já conhecia o porteiro e ele logo liberou sua entrada e em seguida veio em minha direção já colocando uma pulseira branca sem mais nem menos.
– Oxe, o que é isso aqui? Eu nunca usei isso. O que é isso agora?
Eu vi Valquíria ficar vermelha e perder a postura por uma segundo, enquanto o porteiro parecia confuso.
– Non, non. Ce n’est pas ce que tu penses [Não, não. Não é o que você pensa.] – Valquíria disse quase desesperada e então engoliu o ar e assumiu sua postura de sempre. – Ela trabalha aqui, Jorge. Não é o que está pensando.
– Ah, perdão. Eu achei que… por ela estar com você.
– Está tudo bem. Podemos entrar?
– Sim, sim, por favor. Fiquem a vontade.
E sem entender nada, eu apenas dei ombros e segui o meu caminho.
Por incrível que pareça, a ausência dos saltos altos não fez muita diferença na estatura da Valquíria. Ela ainda continuava alta ao meu lado… se bem que, muito provavelmente, o problema era eu. Talvez os meus 1,57cm de altura fosse o real problema, mas eu tento fingir que não.
Ao menos sendo baixinha eu sou abraçada por peitos. Como reclamar de algo do tipo? Não dá.
– Até que horas vai trabalhar hoje? – Valquíria perguntou de repente me acordando dos meus devaneios.
– Não sei, até onde eu sei tem um evento que vai acabar daqui a pouco e tem outro que vai pra lá da meia noite. Provavelmente até uma da manhã, talvez duas. Eu estou sozinha esse final de semana, então só saio quando fecharem o bar.
– Esses seus horários não são nada saudáveis. Quando pretende descansar?
Antes que eu pudesse responder, fomos abordadas por uma moça que sempre está sentada com a Valquíria e elas ficaram conversando. Eu não tinha o porquê de ficar ali e pedi licença para seguir o meu rumo para abrir o meu bar.
Era estranho fazer as coisas numa paz, com tempo e sem ter centenas de pessoas penduradas no balcão gritando me pedindo algo. Eu consigo entender tranquilamente o motivo por trás da decisão de Glória em aceitar um trampo fixo quando ela mesma dizia que não queria nada sério por agora.
Como haviam dois eventos acontecendo, o bar estava praticamente vazio. Havia uns gatos pingados espalhados pela área, mas não estavam bebendo. Eu fiz uns poucos cocktails e fiquei sentada na minha. Os funcionários aqui eram tão legais que arrumaram uma banqueta alta para que eu pudesse me sentar sem desaparecer completamente.
E sim, estavam me pagando caro para ficar curiando a conversa alheia e eu estava adorando… infelizmente não podia ouvir o que a minha chefe conversava com as outras duas mulheres que estavam sentadas com ela, mas elas pareciam ter uma conversa bem divertida.
Ainda não era capaz de assimilar bem a persona do trabalho e fora dele da minha chefe. Principalmente pelo fato que essa mesma pessoa é a mesma citada nas minhas aulas da faculdade. Tipo…? Ela não é o que eu esperava da Valkyrie e nem a Valquíria, e essas três versões pertencem a mesma pessoa.
Será que eu também sou assim?
Nah… eu sou a mesma coisa em qualquer ocasião.
Dado algum momento, as poucas pessoas que ainda estavam por aqui saíram para o evento que eu não me arrisco a perguntar para saber sobre o que se tratava e eu fiquei sozinha bebendo Bailey’s no gelo de canudinho enquanto assistia vídeos no TikTok.
Estava tão distraída que fui pega de surpresa quando um prato brotou ao meu lado no balcão onde estava apoiada. Levantei o olhar e lá estava a única razão dos meus sustos nas últimas semanas.
– Outro Pisco Sour? – Perguntei me levantando.
– Non, non. Não álcool. Você precisa comer – ela fez um discreto sinal com o queixo apontando para o prato e eu o encarei sem reação. – Eu não sabia o que gostava, então pedi um sanduíche… eu gosto.
– Mas… por que?
– Eu não a vi comendo desde que chegamos. Você deveria comer. Venha.
– Venha?
– Comer a mesa. Você não é nenhum animal para comer em qualquer canto.
– Mas eu estou trabalhando, eu não posso simplesmente sentar e comer.
Valquíria me olhou séria, dando a entender que estava começando a perder a sua paciência… eu acho.
– Só estamos eu e você aqui, estão todos ocupados. Se precisarem de você, irão te encontrar. E enquanto estiver comigo, ninguém irá ousar dizer nada sobre você não estar nesse bar. Agora venha e não me faça mandar outra vez.
– Sim, senhora – respondi de imediato com medo de levar uma bronca. Essa mulher dá medo às vezes.
Era de se esperar que o sanduíche escolhido por Valquíria e que ela também gosta não seria o primeiro de minha escolha. “Caprese Panini” nada mais era que uma salada caprese que meteram num pão e disseram “deu bom, tá pronto”. E embora não fosse algo que eu escolheria, era de fato muito bom.
Ou era eu que estava com muita fome.
Enquanto Valquíria comia de garfo e faca numa delicadeza e paz, eu devorava meu sanduíche como um cão esfomeado, pois de fato estava.
– Você estava com fome, – Valquíria constatou. – Por que não me pediu comida antes?
– Por que eu iria te incomodar pedindo comida?
– Não seria um incômodo.
– Mas certamente seria inconveniente. E eu nem sei se eles iriam gostar que eu ficasse azucrinando um sócio para conseguir comida se eu posso só pedir a eles.
– Eles só falariam algo se eu reclamasse, o que eu não faria. Eu ainda prefiro que me peça comida que fique aí com fome.
Discutir não nos levaria a nada.
Não satisfeita em me dar um sanduíche, Valquíria ainda me deu a outra metade do dela que eu comi com prazer. Eu menosprezei o sanduíche vegetariano, mas ele era muito bom.
– A senhora irá querer sobremesa? – O garçom que limpou a mesa perguntou a Valquíria. – Temos especial para os pequenos esse final de semana, – o garçom olhou para mim. – Fondue de frutas.
Eu senti que foi para mim.
A comunicação foi diretamente comigo.
E o garçom implantou em mim a vontade de comer chocolate. E de repente era como se, se eu não comesse chocolate nesse exato momento eu iria ter uma síncope, minha vida dependia disso.
Eu quero chocolate!
Eu quero chocolate!
Eu quero chocolate!
Espera… o que deu em mim? Por que esse surto repentino? Segura a onda, dona Clarice. Vai fazer chilique na frente da sua chefe e ela vai te achar uma doida.
– Pode trazer dois fondue, por favor – Valquíria pediu e eu faltei soltar foguetes. O garçom assentiu e pediu licença para se retirar. – Você pode ficar com o chocolate, eu só quero as frutas.
Meu deus, eu te amo!
– Obrigada.
O prato chegou e foi bem diferente do que esperava. Não era só um montinho de frutas e chocolate para mergulhar, era simplesmente um cachorro feito de morangos e mirtilo, já o prato da Valquíria era apenas um decorado normal, porém lindo também.
– Por que o meu tem um cachorro?
– Ele provavelmente achou que era uma pequena.
– Isso é bom ou ruim?
– Vai de quem gosta, não é uma parte que eu tenho muito conhecimento para falar.
Agora estou me coçando de curiosidade para saber quais são as partes que Valquíria tem conhecimento. Ela não dá pinta de nada, bem diferente de alguns sócios que deixam bem explícito seus lugares.
Será que pega mal perguntar?
– Eu achava que todos aqui fizessem as mesmas coisas, – comentei por alto como quem quer nada. – E que tudo fosse igual.
– Definitivamente não, é um universo bem amplo e cada pessoa tem o seu próprio gosto, – e quais são seus gostos?! – Tem gente que está aqui para obedecer e servir, assim como tem gente que está para mandar e ser servido. E tem aqueles que estão só para olhar, por exemplo.
– E como você descobriu que grupo faz parte?
Valquíria sorriu e o seu sorriso apenas atiçou ainda mais a minha curiosidade.
– Experimentando, – ela respondeu sem dar mais detalhes e levou um pedaço de fruta à boca basicamente encerrando o assunto ali.
Ela não deixou explícito o que fazia, mas deixou claro que já experimentou de tudo. E isso foi mais do que o suficiente para minha mente bastante fértil imaginar coisas. Precisei até respirar fundo para retomar o controle e não ter outra crise de engasgo na frente dessa mulher.
“Eu não te bateria… não por isso”… meu deus?! Ela não… ela, meu senhor!
A minha mente explodiu ao ligar os pontos.
Pensando por esse lado é um pouco óbvio quem e o que a Valquíria era. Bastava analisar o seu comportamento no escritório e fica nítido sua obsessão por controle. E não era controle como os outros arquitetos chefes que queriam saber cada passo o seu, observando como o time dela trabalha, Valquíria estava cagando e andando de como eles faziam o trabalho, mas tinham o escritório inteiro na mão no olhar, sua presença deixava todo mundo pianinho. Ela exala uma áurea dominadora e só poderia ser uma.
– Acho que eu preciso voltar para o meu bar, – comentei ao terminar o meu fondue. – Parece que o primeiro evento acabou.
Algumas pessoas estavam voltando e aos poucos o salão ia enchendo, os pedidos chegando. Como estava sozinha até que deu uma pequena correria, mas ainda assim não se comparava as festas que já trabalhei. Aqui as pessoas não se estendiam pela noite, bebiam um ou dois drinques enquanto socializavam e então iam embora.
Nesse ritmo, eram quase 1h da manhã e eu já estava limpando meu bar, etiquetando minhas coisinhas, deixando tudo bonitinho para a Clarice do futuro não me odiar e aos poucos me preparando para ir embora.
– Alguém vai vir te buscar? – A voz veio de cima do balcão e eu não precisava sequer olhar para saber quem era. – Já está bem tarde.
– Não, eu vou pedir um carro no aplicativo – respondi sem interromper o que fazia. – Ou eu fico aí até às 6h e vou embora depois.
– Você não vai fazer nenhuma das duas coisas, – levantei o olhar para encarar Valquíria e sua expressão não era nada lá boa. – Eu vou te esperar e te levar para casa.
– De madrugada e de Mercedes? Eu vou estar mais segura no carro de um estranho de aplicativo.
– Você tem tanto problema com Mercedes assim?
– Eu não, mas os caras lá da quebrada sim. Ninguém em sã consciência entra com um carro desses lá no bairro. Você não tem medo de ser assaltada?
Valquíria deu ombros. – O carro é blindado.
– E você vai fazer o que se te abordarem? Passar por cima?
– Oui.
Balancei a cabeça sem acreditar e fechei o meu freezer. – Você não é normal.
– Eu estou te aguardando, mas pode fazer o que tem que fazer no seu tempo.
Sem dizer mais nada, Valquíria saiu outra vez e se juntou a outras pessoas para conversar como se a nossa interação fosse a coisa mais natural do mundo.
Eu sei que no fim das contas quem sai no lucro por receber carona sou eu, mas o jeito dela de achar que pode tomar decisões por mim me irrita e muito.
Que ódio! Quem ela pensa que é para achar que manda em mim?!
«-»
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Au revoir!
