« C L A R I C E »
Se você me perguntar o que exatamente estava acontecendo aqui, eu não saberia responder.
De repente me encontrei com Theo no corredor, ele me convenceu de ir para o meu apartamento – que embora seja meu, eu nunca sequer passei uma noite lá – e algumas horas depois me vejo sentada na mesa com Glória, Larissa e Theo me encarando como se eu tivesse cometido um crime.
Quanto ao crime, dependendo do ponto de vista pode até ser verdade. Ao menos meu pai acha que sim…, mas fora isso, eu não consigo imaginar o porquê de estar em meio a essa roda vida com literalmente uma luminária virada para a minha cara.
– Essa luz está forte demais. Não pode apagar?
– Não… nós queremos ver suas expressões e principalmente se está mentindo.
– Okay… o que foi que eu fiz? Eu não lembro de ter feito nada de errado.
E não é como se eu tivesse oportunidade para tal. Eu passei as últimas semanas com a Val quase que 24/7 e antes disso estava no hospital. Como eu poderia aprontar? Quero dizer, aprontar fora dos termos pequenos e não acho que meus amigos estejam interessados em minhas aventuras pequinês.
– Nós vamos te dar a oportunidade de confessar, – Larissa começou. – Tem alguma coisa que esteja acontecendo que você não quis nos contar?
– Tipo?
– Coisas ruins… coisas que nos deixariam furiosos e prontos para construir uma guilhotina, tal qual os antepassados de um certo alguém.
Confesso que fiquei sem entender.
Se fosse um tempo atrás, eu certamente teria uma lista bem extensa para falar. Morando com o meu pai e perto da tia Lúcia, era impossível não ter o que falar. Mas agora… tirando a parte do hospital e do processo em andamento, tudo parece ok. Estranhamente ok. Se não fosse pelos meus problemas pessoais, a vida com a Val seria muito tranquila e eu nem sei se sei viver assim.
– Não, não tenho não.
– Tem certeza? – Larissa insistiu.
– Tenho.
– Clara, – Theo pegou as minhas mãos. – Eu sei que seu histórico não lhe ajuda muito e a maioria, para não dizer toda, experiência que você teve no passado é muito pesada, triste e difícil. Mas apesar de todos os abusos que viveu, não quer dizer que deve aceitar nenhum tipo de abuso agora. Mesmo que as proporções não seja as mesmas e que esse abusador possa ser legal em alguns momentos. Você não está sozinha e nós não somos mais crianças. Se precisa de ajuda, você pode contar conosco.
Recolhi minha mão desconfiada.
Eu conheço esse tipo de conversa. Já vivi várias delas no passado. Normalmente eram de pessoas que queriam de alguma forma colocar meu pai na cadeia e o fazer pagar por toda violência doméstica que cometeu contra mim, mas que no final acabava dando em nada. Pelo contrário, apenas enfurecia a tia Lúcia e o traste, me deixando em uma situação ainda pior.
Balancei a cabeça afastando os pensamentos ruins…
Toda essa conversa estava me dando enjoo. Não gosto de pensar no cara mal e na bruxa malvada. Eles fizeram muito mal pro neném… eu quero a minha maman.
– Vocês estão assustando eu… quero ir embora.
– Clarice, essa é a sua casa.
Mas aqui não tem a maman e nem o Chlô. Como pode ser a casa do neném sem a maman? Eu quero o Chlozinho!
– Eu quero ir para mam… a Val.
– Você não vai para lá até dizer o que está rolando.
– Mas eu num sei o que tá rolando! Eu quero ir embora!
Eu levantei e a Larissa puxou a minha manga cumprida me impedindo de ir. – Não, você vai ficar… que porra é essa Clarice? O que é isso no seu pescoço?
Larissa levantou e dobrou a gola da minha camisa. Seu olhar para mim era horrorizado, exatamente como quando o cara mal batia no neném.
– Que marca é essa? Quem fez isso em você?
Demorei um pouco para entender o que era até lembrar da maman e as coisas… enfim.
– Não é nada, está tudo bem.
– Você não me respondeu. Quem fez isso em você?
Senti o meu rosto corar de vergonha tendo que admitir. – A ma-Val…, mas não foi nada demais.
– E como ela fez essa marca no seu pescoço? – Glória perguntou.
– Apertando.
– Apertando você quis dizer enforcando?! – Theo perguntou incrédulo.
– Espera aí gente… calma, vocês estão nervosos, – Glória disse. – Você está dizendo que a sua namorada te enforcou, certo? E foi consensual? Você queria ser enforcada?
Eu não sabia responder. Por que eu iria querer ser enforcada? Faz dodói!
– Por acaso ela já fez algo mais?
– Algo mais?
Será que a Laris queria saber das coisinhas de adultos? Mas, mas… eu não quero falar disso. Isso é coisinha para Clarice grande. Eu quero a minha maman!
– E então, Clara. Estamos esperando…
– Eu num quero falar disso. Não quero!
Theo se levantou e veio me abraçar. – Ei, nanica. Está tudo bem. Não precisa ficar assustada ou com medo.
O abraço do Theo não era como o da maman e não era exatamente o que eu queria agora. Podia ser bom, mas o da maman era melhor e eu queria o dela. Eu precisava do dela. E como não tinha, o vazio no peito parecia ficar maior.
– Não chora, – Theo tentou me consolar. – Está tudo bem. Nós estamos aqui com você.
– Mas eu quero a maman!
– Desculpa, o que?!
– Mamãe?
– Você quer a sua mamãe? – Afirmei com a cabeça. Laris e Theo se entreolharam preocupados. – Clari… a sua mamãe, ela… ela está muito longe agora, ela não pode vir até aqui…, mas… você tem a nós e nós vamos cuidar de você e te proteger, okay?
– O que você quer dizer com ela tá longe? Para onde ela foi? Cadê a maman?!
A maman deixou eu? Ela abandonou o neném? Mas ela… ela não… ela não pode deixar eu!
O coração do neném estava fazendo dodói. E agora era como se estivesse tentando preencher o vazio do meu peito com lágrimas, mas o fundo furado não deixava encher. Por que a maman num quer mais eu? Ela num ama mais o neném? Ela num quer saber d’eu?!
– Oh, meu deus. Não fica assim, bebê – Theo me apertou contra o seu peito e eu afundei o rosto em sua camisa chorando aos soluços. – Eu sei que dói, mas vai passar. Vai passar…
– Num vai passar! Não vai! Liga pra ela! Liga!
– Clarice…
– Me dá o meu celular. Se eu ligar, ela vai atender. Ela sempre me atende eu!
Ao invés de ligarem para maman, Theo me levou para o sofá e me fez deitar em seu colo. Será que ele não entendeu que não é a minha Val e não vai funcionar? Eu quero ela! O colo dela!
Eu quero a minha maman!
« V A L K Y R I E »
Uns quinze minutos depois que a reunião começou, meu celular começou a vibrar em meu bolso. Esperava que fosse a minha pequena para falar algo, provavelmente pedindo para lhe levar alguma coisa e por isso logo tratei de verificar o que era. Para o meu pavor, a mensagem que recebi era de Damien, o chauffeur, avisando que a Clarice ainda não havia aparecido por lá.
Eu sequer havia me recuperado do primeiro desaparecimento de Clarice e já estava sendo presenteada com outro. Dessa vez, porém, o mistério foi facilmente solucionado apenas com o registro das catracas dos elevadores.
De alguma forma, Damien conseguiu que verificassem os registros de acesso e em seguida as câmeras de segurança e fez questão de filmar com seu celular para me enviar o vídeo. Não que eu precisasse de algo além das imagens para saber que Clarice havia saído com Theo. O que não fazia muito sentido, já que o horário da sua saída ainda era de expediente.
Infelizmente, minha reunião atrasou consideravelmente e por essa razão, quando saímos, a maioria das pessoas no escritório tinham ido embora e não daria para questionar onde Theo havia ido.
Durante o trajeto até o Yago para buscar o Chloée, eu tentei ligar tanto para Clarice quanto o Theo e nenhum dos dois me atenderam. Tampouco responderam as minhas mensagens. Eu não tinha motivos para me preocupar com a segurança da minha pequena, sabia que estava em boas mãos. Entretanto, eu precisava saber como estava se sentindo e principalmente o quão pequena estava.
Tudo bem que ele seja um amigo de infância, mas eu não acredito que Clarice se sinta confortável em expor esse seu lado com os amigos, e por algum motivo eu estava claramente sendo ignorada pelos dois.
Para fins de teste, eu peguei o celular do Yago emprestado para ligar e curiosamente fui atendida.
– Alô?
– Theodore, por que está ignorando as minhas chamadas?
– Valquíria? – Ouvi uns ruídos como se ele estivesse mudando de ambiente e posso estar ficando louca, mas juro que ouvi a minha pequena perguntar se era eu antes do silêncio abafar a sua voz. – O que você quer?
– Ora, como assim o que eu quero? Você está com a Clarice, quero saber como ela está e que horas irá voltar.
– Ela não vai voltar.
– Comment ça?! Por quê?
– Não pense que só porque você é quem é que poderá fazer qualquer coisa e vai ficar tudo bem.
– O que você está falando? Eu não entendi o que quer dizer. O que eu fiz?
– Valquíria, todo mundo viu.
– Viu o que? Olha… me diga onde você está, eu vou até você. Eu não estou entendo nada que está falando e não acho que vamos nos entender por ligação.
Percebi o receio de Theo antes de responder, mas eventualmente ele cedeu. – Tudo bem, aceito conversar com você pessoalmente, apesar de estar puto, ainda acho que você vale o braço a torcer. Sabe onde é o apartamento da Clara?
– Sei.
– Me liga quando chegar. E não tente entrar, você não tem permissão para subir.
Por que o Theodore está me tratando como se eu fosse uma vilã?
Eu nem pensei antes de mudar a rota que estava fazendo para casa. Poderia ter deixado o Chloée em casa, mas se por acaso Clara estivesse brava comigo, eu poderia usar o cachorro como moeda de barganha. Se ela não quiser me ver, ao menos fará isso pelo seu filho de quatro patas.
Como se estivesse me monitorando em algum lugar, Theo saiu dos portões eletrônicos no exato momento em que sai do carro carregando o cachorro no colo.
– O que está acontecendo, Theodore?
– Você me explica. O que significa isso, Valquíria?
Theo me entregou o celular. Confusa, peguei o aparelho na mão e me deparei com um vídeo. Um vídeo gravado de uma parte mais alta do heliponto e mostrava exatamente o momento em que conversava com a Clara. Não era possível ouvir ou entender a conversa, mas as expressões corporais não eram nada favoráveis.
Clarice chorava cabisbaixa enquanto eu a segurava pelas laterais dos braços de uma forma nada suave e depois parecia apontar o dedo na sua cara. E justamente no momento que estávamos prestes a nos abraçar, o vídeo acabava. Dando a entender que eu estava sendo uma verdadeira filha da puta enquanto Clara, coitada, estava chorando encolhida e amedrontada.
– Eu não esperava isso de você, Val.
– Você não está pensando que eu sou abusiva com a Clarice, está? Theo… esse vídeo está fora do contexto.
– Eu estou confuso. Muito confuso. Eu quero acreditar que não há nada de errado, mas se não estivesse, a Clara não estaria mal agora.
De repente todos os meus questionamentos sobre a origem do vídeo e como foi parar na mão do Theo se tornaram insignificantes. Só havia uma única preocupação possível:
– Mal? O que aconteceu com a Clara? Por que ela não está bem?
– Não se preocupe. É “normal” – ele fez aspas com as mãos, – ela agir assim quando precisa de uma válvula de escape. A questão é: por que ela precisa de uma válvula de escape? O que está acontecendo? Eu não acho que isso seja só por causa do Luís. Ela já não fazia isso antes mesmo de eu me mudar.
– Isso o que? O que está acontecendo? Onde ela está? Eu quero ver a Clara!
– A Clarice irá me matar se eu te contar… apesar dessa situação confusa, você ainda é a namorada dela e não acho que ela vai querer que veja isso. É melhor voltar amanhã ou outro dia.
– Isso não vai acontecer. Você não vai me impedir de ver a minha namorada. Eu mato você.
– Você ainda não se explicou, – ele cruzou os braços. – Eu não vou deixar você subir sem antes entender o que está passando com vocês duas. E não venha dizer que não é nada demais, ela confessou que você já bateu nela por “ter feito algo que não gostou”. Fora as marcas no pescoço e os hematomas nos braços.
Eu raramente sinto meu rosto corar, mas dessa vez foi inevitável. Sem dúvidas Clarice estava pequena, somente isso para explicar tamanha confusão com seus amigos. Que situação… que situação!
– Você entendeu tudo errado. Não é nada disso que está pensando… acredite em mim. Eu nunca faria algo para machucar a Clarice. Eu a amo e você sabe disso. Vocês confundiram as coisas, eu não estava agredindo a Clara… nós estávamos…
Por que eu sentia como uma adolescente confessando para o sogro que levou a filha dele para cama?
– Estávamos… fazendo… coisas de casal.
– Coisas de casal? Oh… Oh! Meu deus… você fez aquilo no pescoço dela de propósito?
– Mais ou menos. Não foi intencional, Clara que é muito branca e fica marcada por qualquer coisa… o que explica todo o resto. E sobre o vídeo, por incrível que pareça, eu estava a consolando. Você a encontrou depois disso e ela não estava chorando desesperada como no vídeo, foi por causa das minhas palavras um pouco mais duras. Você me conhece, Theo.
Ela respirou fundo. – Conheço, por isso consigo acreditar em você…, mas ainda acho melhor voltar amanhã.
– Você só pode estar brincando?! Eu não vou sair daqui sem ver a Clarice.
– Ela vai querer nos matar…
– E você tem medo de alguém de um metro e meio? É melhor me levar lá agora ou eu vou fazer um barraco do tamanho que nunca viu.
– Vindo de você isso é preocupante, – Theo olhou para o celular na mão e fez um sinal com a mão para esperar. – Oi? Ah, meu deus! Tá, calma. Nós estamos subindo – ele desligou a chamada e pela sua cara pálida, não era algo bom.
– O que foi?
– O nariz da Clara está sangrando.
De certa forma eu não estava surpresa. Com a intenção de proteger a Clarice, os seus amigos a colocaram sob estresse e enquanto sua anemia não estiver totalmente sob controle, seu emocional iria desencadear sangramentos. Conseguindo estancar, está tudo bem. Problema seria se não fosse possível parar o sangramento.
Quando entramos no apartamento, me deparei com a minha pequena vermelha de tanto chorar, sentada no sofá sendo consolada por Glória e Larissa. Para o meu alívio, o sangramento era pouco e nada comparado com o terror de semanas atrás.
Ao me ver, Clarice praticamente saltou do sofá para vir me abraçar. Sem pensar muito, entreguei o cachorro para o Theo e acolhi a minha pequena. Novamente eu não consegui entender uma palavra sequer do que Clarice tentava me falar entre seus soluços e palavras desconexas sem sentido. E para variar, com ela tentando fundir seu corpo no meu, o som estava bem abafado. A essa altura eu tinha certeza que a minha camisa branca estaria manchada de sangue, mas não me incomodava.
– Clarice, ma vie, se acalma, – segurei o rosto dela entre as minhas mãos a forçando me olhar. – Você precisa se acalmar. Assim eu não consigo te entender.
– Mas eu…, mas é que… você me… embora… a maman…
A cabeça da minha pequena estava tão a mil que sua linha de raciocínio mudava no meio da frase e sua fala estava incompleta. A agonia que isso estava me dando só aumentou a minha necessidade de desacelerar essa garota.
– A maman deixou…
– Clarice, a sua mamãe… ela não… – Theo começou com o tom de voz mais suave possível, mas eu o interrompi com um sinal com a mão.
– A maman deixou o que, mon bébé? Respira fundo e me explica o que está passando nessa sua cabecinha. Você consegue respirar comigo? – Clara afirmou com a cabeça. – Inspira devagarinho… segura um pouco… agora expira – conduzi o exercício de respiração para que ela me acompanhasse. Na terceira vez, Clarice já estava começando a se acalmar e controlar um pouco seu choro. – E então, mon amour. O que a maman deixou?
– Eu… a maman deixou eu, – Clarice estava prestes a se desesperar outra vez, mas eu me antecipei em a ajudar.
– Ei, ei, ei, respira. Calma… você sabe que isso não é verdade! A maman está aqui.
– Mas…, mas… eu achei…
Era nítido que apenas uma conversa não seria capaz de tranquilizar a minha pequena. Ela estava um pouco melhor, porém totalmente instável e agitada. Sabia que bastaria poucos minutos de colo e peito para o problema se resolver e perceber isso apenas me deixou ainda mais maravilhada com o poder do tetê. Confesso que parte de mim ainda achava exagero da Giovanna e as outras mommies quando falavam que essa é a solução mágica.
– Você achou muita coisa, ma vie. Está na hora de achar um pouco menos… e estancar esse seu nariz, – me virei para os amigos de Clara. – Tem algodão?
– Tem um absorvente interno, serve? – Glória exibiu o absorvente que tinha em mãos.
– É menos pior que os tampões que eles usam no hospital.
– Eu não quero.
– Ainda bem que eu não me lembro de ter perguntado, – Clara fez bico para a minha resposta. – Você quer mesmo voltar para o hospital?
– Não.
– Então me deixe cuidar disso, – aceitei o absorvente que a Glória me ofereceu e tratei de ajudar Clara com o seu nariz que ainda sangrava um pouco. – Você está um pouco febril, mocinha. Senta no sofá um pouco.
– Senta comigo.
Sentamos juntas no sofá e Theo trouxe uma toalhinha úmida para Clara colocar sobre a testa já que não tinha um antitérmico disponível. A minha pequena estava um verdadeiro desastre com um absorvente no nariz, o rosto inchado e vermelho de chorar e a toalha na testa, mas para mim ela era linda de qualquer jeito.
Pedir Clarice para ficar de cabeça reta e nada, daria a mesma coisa. A cada dois segundos ela se distraia com o Chloée e ela olhava para baixo, me obrigando a levantar a sua cabeça com o dedo em seu queixo o tempo todo. Pelo menos seu novo melhor amigo estava lhe dando certa paz no coração.
– E então, será que podemos conversar sobre o que aconteceu? Theodore?
– Eu confesso que agi sem pensar muito, provavelmente porque fui inflamado pelos rumores antes mesmo de ver o vídeo.
– Rumores?
– Seja lá quem gravou isso não pensou duas vezes antes de compartilhar e você viu o vídeo, dá a impressão que está mesmo brigando com a Clara.
Eu já tenho uma reputação muito boa, com esse vídeo será melhor ainda. Me surpreende isso não ter parado nas mãos da minha mãe ainda. E não, ela nem vai pensar no trabalho. Provavelmente irá reclamar e achar a Clara uma vítima.
– Eu não me importo com o que os outros acham. Eu sei o que sou… e apesar de não ser uma flor que se cheire, não sou tóxica e agressiva.
– Eu avisei que vocês estavam exagerando, – Glória levantou as mãos em rendição.
Glória era a única a saber do Apex e provavelmente ligou os pontos para justificar as marcas. Só não sei qual o seu conhecimento sobre o lado pequeno da Clara.
– Sinceramente, foi o comportamento da Clari que me deixou desconfiada. Ela não age assim quando está “bem” – Larissa fez aspas com as mãos. – Isso me preocupa.
Virei para Clara que já estava mais para lá do que para cá no sono e me surpreendi em algo: ela estava chupando o dedo. Minha reação foi involuntária e mais forte que eu.
– Clarice! Desde quando você começou com essa mania de chupar dedo? Que coisa feia, para já com isso.
Clara me olhou confusa, fez bico e estava prestes a levar o dedo para boca novamente, mas eu a impedi.
– Para com isso.
Sem querer continuar ou com cabeça para formular uma frase, Clara agarrou a minha roupa e afundou o rosto contra o meu peito choramingando.
– Val… não faz assim – Theo começou preocupado. – Ela… ela só está confusa agora.
– Confusa? Quem está confusa sou eu. Desde quando ela tem essa mania de chupar dedo? Eu nunca vi isso antes.
– É porquê… – Larissa começou e então parou no meio do caminho. – Ela tem essa mania… quando as coisas estão muito ruins ou difíceis de lidar… a Clarice só… como posso dizer isso? Age de uma forma… diferente? E faz isso.
– Faz isso: chupar dedos?
– Mais ou menos.
– É nojento.
– Val, eu sei que você é um pouco chata para essas coisas, mas tente entender…
Pouco? Eu sou muito chata. Mãos estão sempre sujas. Sempre.
– Não existe muita coisa para entender sobre chupar dedos. Mãos são sujas e não vão em bocas, discussion terminée (acabou a discussão).
– Mas é que… ela faz isso quando não está bem.
– Eu sei que parece estranho, mas a terapeuta dizia que era a forma da Clarice de lidar com o luto e o sofrimento. Ela meio que… se comporta como se fosse… uh… bem mais nova? E bem… chupar dedo faz parte do pacote.
– Ela pode usar uma chupeta se quiser, eu não ligo. Mas dedos estão fora de cogitação.
Dessa vez eu falei olhando para Clara porque sabia que, por mais que ela estivesse totalmente alheia a conversa ao seu redor, olhando nos meus olhos era iria ouvir. E tanto ouviu que escondeu o rosto contra o meu peito outra vez.
Onde já se viu? Não quis usar a chupeta para depois querer chupar dedo? Era só o que me faltava.
– Deixa eu ver se entendi bem; você aceita chupeta mas não aceita dedo?
– Oui.
Os três me olharam confusos e ao mesmo tempo receosos, como se escondessem algo.
– Então você sabe?
– Eu preciso que você seja um pouco mais específico, Theo.
– Sabe que a Clarice tende a ter uns comportamentos… não convencionais para adultos? – Ele tentou explicar sem de fato explicar.
– Acho meio difícil conviver com a Clara a maior parte do tempo e não saber que ela regride e tem “comportamentos não convencionais para adultos”. E ela não é a única a agir assim, eu conheço outras pessoas que são assim.
– Oh… agora tudo faz sentido. Clarice é tipo aquele pessoal que regride do Ape… – Glória ao perceber a gafe, começou a tossir e fingir o engasgo. – Nossa, foi mal… eu engasguei.
– Eu confesso que no início eu não percebi, – continuei o assunto para não dar tempo de questionarem a Glória. – Mas meus amigos mais próximos e até a minha mãe notaram o comportamento da Clara. No hospital era ainda mais óbvio, ela praticamente não tentou esconder.
– Eu lembro, – Larissa comentou. – E eu estava preocupada, mas como ninguém tinha questionado nada, eu apenas fingi demência.
– E você está bem com isso? – Theo perguntou surpreso. – Nem todo mundo aceita esse comportamento vindo do seu parceiro. Eu não sabia que a Clara ainda fazia isso, mas eu vi no vídeo que não estava no seu “estado normal da mente” e por isso a arrastei para longe do escritório.
– Pois é… não vou citar nomes aqui, mas a Clari já teve problemas com “ex’s” que simplesmente não aceitaram isso e meteram o pé… ou se aproveitavam desse lado dela para a manipular, – Larissa revirou os olhos.
Meu estomago embrulhou como se Larissa tivesse entrado em detalhes do que aconteceu. Apenas imaginar a possibilidade de alguém se aproveitando da minha pequena me dava uma revolta e vontade de ir atrás dessa pessoa. Clarice é facilmente manipulável nesse estado, especialmente quando confia em quem está a manipulando.
Que judiação com a minha bébé.
– Como eu disse, eu conheço pessoas próximas a mim que tem esse mesmo costume e que lidam muito bem com esse lado. Clarice ainda não é uma dessas pessoas e agora ouvindo de vocês que não é algo recente, consigo imaginar o porquê.
– Então você não vai terminar com ela por causa disso? – Larissa perguntou surpresa.
– Não. Eu amo a Clara. E amo todas as suas versões. Até as que testam a minha paciência e provavelmente será o motivo do meu infarto qualquer dia.
– Vocês duas são definitivamente almas gêmeas, – Glória comentou.
Eu também concordo.
A nossa conversa acabou em pizza. Apesar de Clara estar mais pequena que o usual e extremamente carente e manhosa, conseguimos aproveitar algumas horas com os seus amigos. E eles não julgaram o fato de eu preferir comer só as bordas que a pizza em si. Bom, depois da minha pequena se revelar uma verdadeira fofoqueira.
Nós estávamos começando a comer quando surgiu a pergunta:
– Ué, você só vai comer as bordas? – Glória perguntou curiosa.
– A Vaval é autista, – respondeu Clarice na maior naturalidade enquanto roubava a parte da pizza que eu não iria comer. – Você pode ficar com as minhas bordas, tá bom?
– Isso é verdade? – Theo estava confuso e desconfiado.
– É sim, né maman?
– Oui… uh… eu tenho autismo.
– Ah…, suave. Quer mais bordas? Eu te dou as minhas, – Glória disse já cortando as bordas do pedaço em seu prato.
– A próxima a gente pede uma pizza de borda… deve existir isso, eu acho.
E o assunto acabou por aí. Sem mais perguntas, sem questionamentos invasivos. Faltou pouco para responder “você tem autismo? Foda-se, me passa um pedaço da pizza de atum”, porque eles estavam pouco se importando com isso. O Theo ficou surpreso e também não falou nada.
Isso me deixou feliz. Eu odeio tocar no assunto mais pelo fato do que vem depois da confissão que a confissão em si.
Mas agora é bom saber que a minha pequena não tem filtros e deixa escapar qualquer coisa. Isso é um verdadeiro perigo!
– Mamaaaan… vem logo! Eu tô sono! – Clarice me acelerou pela quarta vez em um intervalo de 40 segundos. Ela poderia simplesmente fechar os olhos e dormir, mas ela ainda estava na sua espera por um peito. – Tetê! Cadê meu tetê?
– Eu já estou indo, mocinha. Espere.
– Mas eu num quero esperar…
Revirei os olhos e terminei o meu ritual pós-banho pré-sono. Eu me conheço muito bem e sei como fico se não seguir minha rotina sagrada, Clarice não iria morrer em esperar alguns minutinhos.
– Pronto, bébé. Estou aqui agora. Vamos dormir.
– Mas e o meu tetê?
Eu entrei de baixo das cobertas na cama e Clara não esperou eu me ajeitar para vir para cima de mim pedir abraço. Um grude essa manhosa.
– Vem, mon amour. Vem ter o seu tetê para mimir.
Clarice se aninhou ao meu lado e esperou eu liberar o seio para abocanhar com vontade. A deixar algumas horas extras sem seu tetê talvez não tenha sido uma boa ideia. Vi estrelas com a intensidade da pequena que parecia nunca ter visto um peito na vida.
– Vai devagar, bébé. Assim vai machucar o tetê.
– Desculpa, maman.
Levou um tempinho, mas aos poucos Clarice foi acertando o passo e encontrou o ritmo certo. A observando iluminada pela luz do luar, notei a sua expressão ir relaxando dando espaço para o meu neném que estou acostumada em ver.
– Te amo, minha bebê – dei um beijo na sua testa. – E eu amo ser a sua maman.
– Eu amo você, mami – ela me deu “carinho” no rosto que mais parecia tapinhas leves. – E eu amo meus tetês!
Estava demorando para declarar o amor pelos meus peitos. Se não declarasse, iria achar que ainda estava febril. Felizmente, quando chegamos em casa sua temperatura estava normal. Era só o emocional dessa pequena que não aguenta a ideia de ficar sem sua maman.
E pensar que a minha pequena já é assim sem o leite… não sou nem capaz de imaginar como seria com. Considerando o que vejo casualmente no Apex, a minha pequena se tornará um grude ainda maior. E isso não é uma reclamação.
Normalmente Clarice é a primeira a dormir quando está mamando. Dessa vez, porém, seus olhos estavam bem abertos, sem sinais algum de que iria pegar no sono tão cedo. Em contrapartida, eu estava com dificuldades em me manter acordada. Aos poucos sentia o cansaço me vencer e estava considerando me render e deixar a minha pequena ser feliz o quanto quisesse com o seu tetê.
De repente meu celular começou a tocar sobre a mesinha de canto, me fazendo despertar. Estiquei o braço e tateei sobre o móvel até encontrar o aparelho. Clara resmungou um pouco por ter perturbado o seu conforto, mas logo se ajustou outra vez.
A única pessoa que me liga em qualquer horário não importa se é dia ou noite é o Bruno. Ele tem os horários mais loucos do mundo e esperava que eu o acompanhasse. Dessa vez, porém, quem estava ligando era a minha mãe.
– Mère? Tout va bien? Pourquoi appelles-tu à cette heure? (Mãe? Está tudo bem? Por que está ligando essa hora?)
– Valkyrie, ton père et moi rentrons à Paris maintenant. (Valkyrie, seu pai e eu estamos voltando para Paris agora).
– Quoi? Pourquoi?
– Ton grand-mère… elle a eu une crise cardiaque et est dans un état grave à l’hôpital. (Sua avó… ela teve um infarto e está em estado grave no hospital).
Fiquei totalmente sem reação com a notícia.
A vovó Hélène infartou?!
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Gostou? Não esqueça de comentar! Até a próxima…
Au revoir!
