« C L A R I C E »
– Como você está se sentindo?
Val me perguntou ao sair do seu banho. Como estava de costas, deitada na cama usando meu celular enquanto a esperava, eu não estava vendo o seu rosto, mas sabia exatamente qual era o seu olhar. Era nítido que a minha namorada estava muito preocupada comigo, provavelmente pensando que havia exagerado comigo ou pesado a mão.
Bem, vamos ser honestas aqui: Valquíria de fato pesou a mão… existe uma diferença gritante entre suas palmadas de disciplina comigo pequena e os tapas que me deu essa tarde. E com essa diferença, eu cheguei à conclusão de a verdade é que: não é a Val que pesou a mão e sim, ela que é muito mais suave e amorosa comigo. É só comparar o como ela é com os outros e como ela é comigo.
Pensando nisso, me faz ver como eu fui lenta para perceber que ela tinha algum interesse em mim além do trabalho. Tirando nossa péssima comunicação, ela sempre foi muito fofa e cuidadosa quando se tratava de mim. E ainda é.
– Estou bem, – me virei um pouco para a olhar. – Provavelmente vou lembrar da tarde de hoje por alguns dias, mas eu estou bem, – eu voltei a minha atenção para o celular. – Eu já levei surras piores.
– Isso não… isso definitivamente não é um bom comparativo, – ela se sentou ao meu lado na cama para começar sua rotina de beleza pós banho pré sono. – Isso não foi um gatilho, foi?
– Nem um pouco. Se tinha uma coisa que eu não estava pensando naquele momento, era outra pessoa ou situação que não envolvesse você – me deitei de lado de frente para a Val. Já disse que eu acho super sexy as camisolas que ela usa para dormir? Pois é, a minha mulher estava linda. – Acho que, a principal diferença de hoje para o que aconteceu no passado, é que no fundo eu sabia que você não faria nada para me machucar e pararia a qualquer momento se eu quisesse… não se compare com aquele escroto, por favor.
– Eu não estou me comparando com ele. Eu estou planejando como vou dar uma surra nele.
– Você é tão elegante o tempo todo, mas sai do papel de o auge da elegância para uma barraqueira da feira de domingo tão facilmente. Acho isso incrível… com quem aprendeu isso?
– Minha mãe. Mas a minha mãe é sangue frio, eu não sou. Se alguém mexer comigo ou com alguém que eu amo, eu vou reagir na hora. Minha mãe espera, planeja e revida… o que eu acho muito pior, normalmente as vinganças dela doem muito mais que um soco meu.
– Eu não quero ser inimiga da sua mãe.
– Você não vai. Ela ama você… sinceramente, além do Bruno, eu nunca a vi gostar tanto de alguém.
– É o meu charme.
Val revirou os olhos, mas eu sei que no fundo ela concorda. Ela também se encantou por ele.
– Como você está se sentindo agora?
– De novo? Eu estou bem.
– Estou me referindo ao estar se sentindo pequena, grande ou regredindo.
Bem, eu estava observando minha mulher passar sua loção no corpo e meus pensamentos não estavam nada inocentes. Acho que posso dizer que estou totalmente grande… e honestamente, sinto que faz um bom tempo que não me sentia tão dentro do “grande espaço” antes, ao menos, não tão confortável nele. Agora que sei um pouco mais sobre isso em mim, arrisco dizer que até antes de conhecer a Val, eu nunca de fato me senti totalmente confortável na minha skin grande.
– Estou bem grande.
– Nós ainda não conversamos sobre a audiência.
– Agora eu estou pequena.
– Clarice, é sério. Você não irá poder se ausentar dessa vez e eu quero que esteja pronta para o que irá acontecer, principalmente para quem irá ver.
– Meu pai?
– Ele não é o seu pai. Pai é quem cuida e o que ele fez com você é tudo, menos cuidado. Ele não merece esse título, – dei ombros. Ela tinha razão, mas ele era o que eu tinha. Fazer o que? – Talvez a Lúcia esteja por lá. Ela foi da última vez. E tinham outras pessoas junto com ela.
– Quantas audiências com essas pessoas eu terei que participar, hein? Eu queria apagar da minha memória a existência deles.
– Isso vai acabar logo, – ela se inclinou para dar um beijo no topo da minha cabeça. – Eu prometo.
– Pelo o que você me disse da sua mãe, acho que você também está planejando algo contra o Luís.
– Todos os dias. E só não fiz nada ainda por sua causa. Não quis te chatear e por fim, o infeliz foi lá e fez merda. Viu só? Dá próxima vez eu sigo meus instintos ao invés desse seu coração bondoso e pacífico.
– Eu não fazia ideia de que ele iria me denunciar, ok? O meu… o Luís nunca bateu bem da cabeça, mas não achava que seria idiota a esse nível. Foi por isso que quis paz. Eu já envolvi polícia antes, além de não ajudar em nada, apenas piorava a situação. Eu só não queria repetir tudo outra vez e só seguir com a minha vida.
– E agora você vai continuar seguindo com a sua vida, só que ele seguirá preso.
– Mas a tia Lúcia ainda estará solta. Solta e com ódio por terem prendido o gêmeo dela.
– Ela que não é doida de vir atrás de você outra vez que eu vou dar muito mais que um puxão de cabelo.
– Eu não botava muita fé que você fosse realmente assustadora como o Bruno dizia ou você faz parecer, mas se seu soco dói como seu tapa, eu agora passo a acreditar.
O semblante de má sumiu no mesmo instante tornando um olhar preocupado e doce. – Você achou forte? Eu tentei pegar leve, desculpa. Machucou?
Como era possível eu estar com meu bumbum todo vermelho e dolorido e quem está sofrendo mais é a Val?
– Está tudo bem, eu já disse umas cem vezes, – revirei os olhos. – O que vai fazer amanhã? Você vai ter que trabalhar? – Mudei de assunto propositalmente. Sabia que a Val iria se distrair muito fácil e deixar de ficar com sua preocupação exagerada em cima de mim.
– Sim, mas eu volto para almoçar com você.
– O que eu vou fazer aqui sozinha?
Eu sei que a Val consegue ficar nesse lugar sozinha, mas eu já acho bastante assustador e teria medo de qualquer ruído diferente. Quem me garante que ninguém invadiu o apartamento e está se escondendo em algum lugar esperando o momento certo para atacar?
– Acho que vou chamar a Laris para sair de tarde. Ir na Liberdade ou algo assim.
– Você tem consulta médica amanhã e a Larissa estará ocupada, – Val respondeu quase me interrompendo. – Ela agora está trabalhando na Visionnaire… de tarde.
– Ah… verdade. E desde quando eu tenho consulta e não estava sabendo?
– Você precisa monitorar o ferro nesse sangue, se esqueceu? Era para ter ido semana passada, mas enfim. Amanhã depois do almoço eu te levo lá.
– Que chato… acho que vou encher o saco da Glória então. E aproveitar para levar o Chlô para conhecer a outra casa dele. Eu não quero que ele fique acostumado apenas com apartamento de gente rica. Ele precisa conhecer sua realidade.
A Val não gostou muito, mas também não falou nada. Ela não gosta quando a lembro que eu ainda moro em outro lugar e não aqui. Se dependesse dela, eu nunca mais voltaria para o meu apartamento e eu sequer tive a chance de dormir por lá.
– Será que dá para levar o Chlô na consulta?
– Não inventa moda, Clarice. Você irá pegar ele na volta. Eu te dou uma carona até a Glória.
Val terminou sua sessão de beleza e foi guardar suas coisas. Ao voltar, ela ficou parada na ponta da cama tempo o suficiente para atrair a minha atenção desconfiada.
– O que está fazendo?
– Pensando.
– Sobre?
– Você não se sente pequena, certo? Isso significa que não irá querer usar nada para dormir, vai?
Senti meu rosto queimar de vergonha. Minha namorada falando com naturalidade sobre eu usar uma fralda para dormir. Que vergonha!
E pensar que ela já me viu assim tantas vezes… que vontade de esconder meu rosto num buraco.
– Não, – respondi sem graça.
– D’accord. Vamos dormir então, – ela apagou as luzes do quarto, deixando apenas a do abajur acesa e veio se deitar ao meu lado. – Você grande vai querer que eu te coloque para dormir ou isso é coisa de pequeno?
Novamente senti meu rosto corar envergonhada. Constrangida, eu respondi quase inaudível. – Quero.
Val me abraçou me puxando para mais perto e abaixou a alça da camisola. – Apesar de você ser a coisa mais fofa quando está envergonhada, você não tem motivos nenhum para ficar assim, amor. Eu já disse antes e vou repetir, você pequena ou grande, ainda é o meu amor.
– Mas sei lá, vai que você perde seu interesse em mim e só me veja como um neném? Eu não quero isso.
– Clarice, entenda uma coisa: eu amo ser sua namorada, assim como amo ser a sua maman e vou amar ser várias outras coisas. Eu amo você.
– Várias outras coisas, tipo? Minha submissa?
Val riu. – Isso não está incluso no pacote. Eu não me submeto a ninguém. Já fiz isso antes, não é muito do meu feitio.
A observei desconfiada e ao mesmo tempo refletindo muito. – Você nunca me contou o que fazia no Apex. Quando vai me relevar seus segredos sórdidos?
– Você quer ouvir?
– Óbvio! É óbvio que eu quero saber o passado e principalmente os interesses da minha mulher.
– Pensei que ficaria com ciúmes ou até raiva.
– Por que eu ficaria com ciúmes do seu passado? Eu nem te conhecia e provavelmente era só uma criança… sem ofensas, – me adiantei em me desculpar ao perceber que chamei a minha namorada de velha na cara dela e todos nós sabemos que a Val detesta que falem da sua idade.
Ela revirou os olhos. – O Pedro Henrique nunca gostou de saber.
– Felizmente eu não sou ele.
– É, você tem razão.
Aproveitei que Valquíria deixou “meio caminho andado” e terminei de puxar a alça da sua camisola o suficiente para deixar o seu seio a mostra. Um sorriso surgiu em meu rosto apenas por poder apreciar a bela visão. A minha namorada era de longe a pessoa mais gata e gostosa que eu já vi e conheci na vida, mas nada supera a perfeição que são seus preciosos peitos. Eu os vejo e tenho vontade de dizer “aleluia”.
– Então? – Perguntei a incentivando a começar. Eu não estava exatamente com sono e agora acariciando minha coisa mais favorita no mundo que não queria dormir mesmo.
Me chame do que quiser, eu não estou nem aí. Mas sim, eu estava me aproveitando da ocasião para massagear o seio da minha mulher sem ela reclamar. Já falei que a Val se distrai muito fácil? Pois é.
– Eu não sei o que quer saber, – ela deu ombros.
– Começa pelo o começo. Como você perdeu sua virgindade?
– Ah, isso… eu era um pouco mais nova que você. Eu estava viajando com o meu até então “namorado” em Malta. Numa das noites nós decidimos ir em uma avenida cheia de clubs que tem por lá e depois de passar em vários deles, conheci o Cauã, um brasileiro que estava por lá. Passamos o resto da noite juntos e acabamos em um motel. Não foi nada especial de primeira vez ou algo do tipo.
A observei por um momento juntando os pontos. – Mas… você não viajou com o seu namorado?
– Sim.
– E esse Cauã era ele?
– Não.
– Perdeu a sua virgindade traindo o seu namorado?!
– Você falando assim soa muito pior do que realmente foi.
Eu estava em completo choque e horror dessa história.
Não que eu seja o maior exemplo do mundo já que me prestei ao papel de amante algumas várias vezes, mas que fique claro que não era eu quem estava traindo. Eu estava solteira todas as vezes. Eu jamais trairia a pessoa com quem eu escolhi ter um relacionamento sério e achava um absurdo as mulheres traírem seus maridos comigo. Eu não teria coragem para tal, jamais.
– É melhor você não me trair ou vamos terminar.
– Eu não sou uma traidora infiel, me respeite.
– Você traiu o seu primeiro namorado… perdendo a virgindade com outro! Isso é traição dupla. Era para ter a sua primeira vez com quem dizia amar.
– Uh, non! Dégoûtant! (Nojento!). Isso é nojento… você me imaginaria indo para cama com o Bruno?
– Urgh, que nojo! Não. Vocês dois são quase irmãos. Parece incesto.
– Exato.
Fiquei em silêncio refletindo.
– Você namorou o Bruno? O Bruno?!
– Em nossa defesa, nós nunca chegamos namorar de fato. Nós nem sequer nos beijamos! Apenas decidimos namorar porque todo mundo já achava que nós éramos um casal e acabamos cedendo a pressão. Nós estávamos quase entrando na faculdade e ainda éramos virgens e sem atração nenhuma por outras pessoas. Foi um delírio coletivo acreditar que todos estavam certos sobre nós.
– E você traiu o seu melhor amigo?
– Mas eu não disse que fui a única. Ele também me traiu. Na mesma noite… e com um cara. Ele sabia e eu também. Foi acordado.
– Que belo namoro o de vocês…
– Nós terminamos no dia seguinte e o Bruno se descobriu o gay que é hoje.
– Eu juro que se não estivesse acariciando os seus seios agora, eu teria passado mal com essa história toda e ficado traumatizada, – afundei o meu rosto contra os meus amores e sorri. – Mas seus peitos me protegem de todo mal e dano psicológico.
– Você é muito besta, isso sim.
– Ah, antes que eu me esqueça, – me afastei de Val para a encarar séria. – Você ouse me trair e nunca mais irá me ter na sua vida. Estamos entendidas? Não tem essa de acordo aqui. Você é minha e só minha. Não aceito compartilhar.
– Ainda bem que temos um consenso, mon amour – ela me abraçou e deu um beijo na minha testa. – Se cogitar olhar para outra mulher, eu mato você e ela.
Apesar de não ter vontade alguma de olhar para outra mulher, a ameaça causou um pequeno nó no estômago. Quando se trata da Val não dá para saber o que é um blefe ou verdade. Na dúvida, eu prefiro não descobrir.
– Tá, você e o Bruno terminaram e aí? – Mudei de assunto.
– Eu continuei saindo com o Cauã. Foi ele quem me iniciou no Apex.
– Ele foi o seu dom?
– No início, sim. Mas eu não me adaptei bem a esse estilo de vida. Eu tenho autismo, e no meu caso, essa dinâmica estava atrapalhando meus rituais do dia-a-dia que me traziam paz de espírito. Em poucas semanas invertemos os papéis e ficamos juntos por quase dois anos.
– E por que vocês terminaram?
– O Cauã se apaixonou por um homem. Eles se casaram e eu fui madrinha deles.
– Os seus dois primeiros namorados se assumiram gays? – Eu não consegui conter a risada.
– O terceiro também…
– Você sabe que isso é muito coisa de lésbica que não sabe que é lésbica, se atrair por homens gays?
– E se você ver as fotos do Cauã naquela época, ele poderia ser facilmente confundido com uma sapatão.
Coitadinha da minha mulher… todos os namorados dela se assumiram gays. Como é possível isso? A Val era de tirar o fôlego e atrair os olhares de qualquer um que passa. Tão linda que deveria converter homens homossexuais a heterossexualidade e ser considerada a cura gay. Mas por incrível que pareça, causou o efeito contrário… vai ver, ela sempre teve algo lésbico dentro dela que repelia os homens e provocou isso.
De certa forma, fico contente por isso. No fim das contas, quem saiu sortuda fui eu.
– Você disse que o Cauã te levou para o Apex, certo? Isso significa que ele ainda é membro? Eu o conheço?
– Acredito que não. O Cauã é pai de três crianças lindas, não acho que tenha o mesmo tempo disponível para frequentar o club… ao menos não o lado Apex.
– E o Pedro? Ele era o seu submisso? Ele ainda não se assumiu gay, né?
– E se for, acho que nunca irá assumir… e não, ele não era o meu submisso. E nem eu dele. Nós tínhamos um relacionamento totalmente “baunilha”, ele dizia que essas “coisas que eu gostava” era de mulheres depravadas e putas.
– Sinceramente eu ainda não entendo o que viu nele para ficarem tanto tempo juntos. E pior, ser noiva dele! – Balancei a cabeça em negação. – É mais fácil aceitar você e o Bruno.
– Ele me conheceu em um momento de vulnerabilidade e soube muito bem se aproveitar disso, – Val deu ombros e fez uma careta meio abatida.
Me recordei do nosso encontro na obra e senti uma raiva e ódio crescer dentro de mim. Aquele desgraçado conseguiu entrar na mente da minha mulher de um jeito que… eu não sei, não parecia ela. Definitivamente não era a minha Val toda incrível e inabalável. Eu espero nunca mais ver meu amor daquele jeito outra vez.
– Azar o dele que eu cheguei para acabar com qualquer influência que ele ainda tinha em você. Agora você e essas belezinhas aqui são totalmente minhas, – dei um beijo em cada um dos seios da Val e sorri satisfeita.
– Estou começando acreditar que você está mais interessada pelos meus peitos que por mim. Por acaso eu sou só um par de peitos para você?
– Não, não. Eu amo a sua bunda também, – abocanhei o seio que estava exposto e levei uma mão até o bumbum da Val para o acariciar.
Val revirou os olhos balançando a cabeça e passou a mão em meus cabelos. – Você não tem jeito mesmo. Não sei o que eu faço com você.
– Nhão-haje-coo-shh-cê… – Val me tirou o seu precioso peito e me olhou séria.
– Eu não entendi nada que você falou e já mandei não falar com meu peito na boca.
– Desculpa, – sorri. – Eu disse para você não agir como se não gostasse do fato de eu ser completamente fascinada por você.
– Talvez.
– Você me faz repensar a ideia sobre ser mãe. Chega ser pecado estar com você e não querer um filho seu.
– Se te consola saber, eu e o Bruno temos uma promessa de fazermos o filho dele juntos… por inseminação artificial só para deixar claro. Quando ele decidir ser pai, eu vou gestar o bebê. Então teoricamente terá um descendente meu por aí. Espero que você não se incomode por isso.
– Vai ser muito estranho ter a minha mulher grávida de um bebê que não será nosso, mas eu posso ver vantagens nisso.
– Que tipo de vantagens?
– Seus seios cheios de leite, – aproveitei para abocanhar o meu querido outra vez.
Será que eu devo dar nomes a eles? Eles são tão perfeitos que eu deveria chamar de Valquírios.
– Você realmente quer muito isso, não é mesmo? – Afirmei com a cabeça, já que não poderia falar por estar com a boca ocupada. – E se você não gostar? E se enjoar? Eu não consigo pensar em lactar sem me preocupar com esses detalhes.
– Posso te garantir que duas coisas que não vão acontecer é “eu não gostar” e “eu me enjoar”.
– Como pode ter tanta certeza disso? – Val me encarou por um momento e então fechou o semblante. – Por acaso outra mulher já te amamentou antes, Clarice?
O tom de voz que a Val usou ao me questionar isso deu a leve impressão de que dependendo da minha resposta, meu bumbum poderia sofrer ou o meu acesso aos meus, digo, os peitos da Val, seria negado.
– Sim e não. Calma, deixa eu explicar… eu nem sabia que ela era lactante para início de conversa. Aconteceu que estávamos na hora lá e quando eu fui chupar o seio dela fui pega de surpresa, mas ela nunca deixou nem chegar perto fora o sexo.
– Por que não?
– Porque ela dizia que ela não era a minha mãe e eu não era nenhum bebê para ela ficar amamentando. E ela achava repugnante a ideia de um adulto querer mamar.
– E você queria?
– Eu não conseguia pensar em outra coisa… se ela não fosse casada na época, era capaz de eu nem estar aqui hoje. Eu saí com ela muito mais tempo que gostaria só por causa desses pequenos e breves momentos e provavelmente teria ficado muito mais só para continuar. Você iria me conhecer e eu estaria lá cega por peitos. Pensando bem, eu já dava sinais muito claros de ser pequena… como eu nunca suspeitei antes?
– Por acaso essa mulher era a sua ex? A tal Diana?
Se eu citei o nome da Diana para Val uma vez, foi muita coisa. O fato dela ainda se lembrar disso era impressionante… e assustador.
– Não, ainda bem que não. Seria péssimo para a minha cabeça. A Isabel era chata, eu realmente fiquei com ela tanto tempo por causa de um desejo de pequena que eu sequer sabia que era. Já a Diana não mexia com meu lado pequeno, mas era uma ardilosa manipuladora… ah, meu deus… não termina comigo não.
– Hã? Quando foi que eu disse que iria terminar?
– Momento algum, mas por um segundo pensei no estrago que seria se um dia você me deixasse. Estou muito mal acostumada com o seu amor, carinho e atenção que eu não sei mais se sou capaz de viver sem.
– Você está falando sobre mim ou os meus seios? Eu estou um pouco confusa.
– Dessa vez eu estou falando de você mesmo.
– Vai ser mais fácil você me trocar por outra lactante que eu te deixar, ma petite. Eu não pretendo ir a lugar nenhum.
– Naah… a Clarice do passado se contentava com pouco. A Clarice de agora é perdidamente apaixonada, completamente louca e totalmente fascinada por você. Não existe outra mulher no mundo que me faça perder o interesse em você. Isso não vai mudar nem se você decidisse tirar os meus preciosos de mim, – afundei o rosto contra o peito dela me preparando para despedida imaginária. – É sério.
– Para dizer que me ama mesmo sem peitos, só pode ser verdade.
– Ei, pera lá. Peitos são tudo de bom, mas que fique claro que os seus peitos são a perfeição em terra. Não generalize o meu amor. Você vai ofender os meus Valquírios.
– Você não está nomeando meus seios, está?
– Não gostou de Valquírios? Que tal Valtetas? Se tivesse leite eu poderia chamar de Valca.
– Acho que já deu a sua hora de dormir, – ela revirou os olhos e esticou o braço para apagar o abajur. – E sem brincadeiras e piadinhas se ainda tiver interessem em amar para dormir.
– Sim, senhora.
Por mais milagroso que fosse, eu não estava com sono e realmente precisava de certo incentivo para querer dormir. Ou seja, sem mais brincadeiras ou piadinhas por hoje. Agora era hora de me aquietar e apenas concentrar no cafuné que recebia e a sensação de relaxamento que essa aproximação causava.
Apesar do leite ser um adendo muito saboroso a esse momento, não era exatamente ele o mais importante. O que realmente importava – ao menos para mim – eram os detalhes. Era o contato da pele da Val contra a minha. O seu cheirinho me envolvendo causando uma sensação de conforto diferente e única. Os carinhos e beijinhos repentinos. Eram as trocas de olhares ocasionais e os sorrisos que vinha em seguida. Era o silêncio que pairava quando estávamos as duas imersas no próprio relaxamento e de alguma forma esse mesmo silêncio confortável falava tanto sobre amor.
E estando grande é mais fácil entender isso porque quando estou pequena sinto como se houvesse um vazio que precisava encher e ele só se preenche com o amor e atenção que a maman pode dar, principalmente durante momentos como esse. E ao mesmo tempo sinto que estou furada, então nunca é o suficiente. Eu sempre vou querer mais e mais e mais e mais.
É uma carência sem fim da maman que parece que se ela não estiver por perto será o fim do mundo… o que é bem diferente de quando estou grande. Eu sinto falta, saudades e a quero por perto, mas não vou morrer se não estiver. Os sentimentos são menos águas agitadas e mais algo claro e cristalino, o que me permite ver exatamente o porque quero todas essas coisas de quando a Val me amamenta.
Se isso faz sentido, eu não sei. Mas na minha cabeça faz.
– Val?
– Hmm?
– Você estava mesmo cogitando lactar por minha causa?
– Hm… oui. Pourquoi?
– Porque eu quero que saiba que, apesar de ser algo que eu gostaria muito, você não precisa fazer isso se não se sente confortável. Eu realmente amo nossos momentos do jeito que são e não iria me incomodar nem um pouquinho em esperar o quanto for necessário.
Val acariciou meu rosto delicadamente e deu um beijo em minha testa. – Algum motivo para dizer isso de repente?
– Não quero se sinta pressionada.
– Eu não estou, ma vie. Se eu cogitei isso foi por amor e não por pressão. Mas eu entendo que essa deve ser uma decisão nossa. Eu não vou lactar para ficar tirando leite porque a bonitinha não quer mamar.
– Está falando de mim? Porque se for você já deveria saber que eu jamais recusaria mamar. E se um dia eu fizer, eu estou doente, louca, fora de mim e preciso de intervenção médica ou psiquiátrica.
– D’accord, mon bébé. Nós conversamos sobre isso amanhã, agora vamos dormir. Está tarde, eu vou trabalhar e espero que você levante para cuidar do seu filho. Eu dei folga para ninguém vir aqui amanhã… eu não quero que conheça os funcionários da casa com uma marca dessas no pescoço e não confio em você para se lembrar disso enquanto estiver sozinha. Então vai ter que lidar com o Chloée sozinha.
Se eu estava com um pouco de sono, esse sono foi embora com a vergonha que estava sentido. Como eu não reparei nisso quando tomei banho? Meu deus que horror… a Val que me desculpe, mas eu vou caçar alguma coisa nas maquiagens dela para esconder isso. Eu não vou sair assim na rua, não mesmo.
Que horror…
« V A L K Y R I E »
Faltavam poucos minutos para o horário combinado quando estacionei o carro em uma vaga qualquer próxima a faculdade da Clara. Era estranho vir até aqui sem ser para a encontrar. E me sentia ainda mais estranha por estar aqui sem que ela soubesse.
Sinceramente pensei que seria mais fácil manter esse segredo, mas eventualmente me via pensando em como ela irá reagir quando souber a verdade. Existem tantas possibilidades, desde as mais tranquilas a mais caóticas e dramáticas possíveis.
Meu pensamento foi interrompido com a batida no vidro do carro. Era Larissa.
– Foi mal, eu me atrasei um pouco lá dentro. Te fiz esperar muito?
– Estava respondendo e-mails de trabalho, eu nem vi o tempo passar.
– Legal… podemos ir então?
– Oui.
Era evidente o desconforto entre nós duas. Não sabia ao certo se era pela falta de intimidade ou por todo o contexto em si. Talvez um pouco dos dois. Nós ainda não tivemos muitas interações e as poucas que tivemos foram em contextos nada agradáveis. A Larissa era literalmente o único contato que teria com a família da minha namorada e de certa forma isso me deixava preocupada. E se ela não gostar de mim? Isso irá mudar alguma coisa na percepção da Clara?
Para quebrar um pouco o clima, decidi colocar uma música. Se eu continuasse ouvindo meus pensamentos mais um minuto seria incapaz de concentrar no trânsito e seria um baita vexame ter que parar no meio do caminho para me autorregular ou pedir Larissa para assumir o volante.
– Você gosta de Beyoncé?
– Oui, é a minha cantora favorita.
– Isso foi bastante inusitado.
Me virei para ela por um instante um pouco confusa. – Isso é bom ou ruim? Eu não entendi.
– Bom, eu acho. Eu achava que fosse do tipo de pessoa que ouve música clássicas… ou até as músicas chatas que a Clari gosta.
– Ela não ouve muita música perto de mim.
– Ainda bem…, era um saco tentar conversar com aquela garota quando colocava aqueles fones de ouvidos com aqueles rocks barulhentos.
– Ela não aparenta gostar desse tipo de música.
– Igual a você…, mas hoje em dia ela ouve umas coisas legais também. A gente a educou muito bem nesse aspecto. O Theo e eu a colocávamos ela para ouvir outros estilos já que na igreja a gente tocava só música gospel.
– Vocês também cantavam na igreja com o Theo? Toda vez que ele me conta isso eu tenho vontade de rir. Eu não consigo o imaginar cantando hinos da harpa.
– É… todo filho de crente passa por essa fase, ainda mais quando faz parte dos únicos jovens que arranha alguma coisa nos instrumentos e te colocam para tocar em todos os cultos.
– Ah, é? E o que vocês tocavam?
– O Theo só cantava, a Clara tocava bateria e eu a guitarra.
– Bateria? A Clara disse que tocava piano.
– Também, mas ela tocava mais quando a tia Rô era viva. A tia a fez entrar no conservatório de MPB bem pequenininha para aprender piano. Aí ela morreu e a primeira coisa que a minha mãe fez foi tirar ela da “escola do mundo”.
Fiz uma careta confusa. – O que seria uma escola do mundo?
– Uma escola que não seja da igreja. Crente acha que qualquer coisa que não seja gospel é do mundo, e no conservatório de MPB você aprende com MPB, música do mundo. A bateria era numa escola cristã, então era “aceitável”.
Não consegui esconder meu desconforto ouvindo isso. O que a Lúcia fez foi desrespeitoso com a memória da Aurora e o que ela queria para a própria filha. Desrespeito com a Clara e a memória de sua mãe. Errado em tantas camadas que fica até difícil não ir atrás dessa mulher e arrastar a cara dela no asfalto. Não dá para negar, eu a odeio muito mais que odeio da Claudia.
Por mais que eu não me considere uma pessoa religiosa, minha família por parte de pai é. Meus avós, meus tios e tias, primos e claro, meu próprio pai, são de uma religião afro-brasileira e sempre me ensinaram a respeitar não só a crença deles, como todas as outras. No entanto, esse respeito não era recíproco e muitas vezes os vi recebendo ofensas gratuitas vinda de crentes.
Mas apesar dessa situação desagradável, não é esse o principal motivo pelo qual eu não gosto, não suporto e não convivo com crentes. O motivo que me levou a esse “extremo” é o mesmo que quase divorciou os meus pais há mais ou menos uns vinte e cinco anos.
Eu era uma criança recém diagnosticada com autismo e nem meus pais ou as minhas famílias estavam preparados para lidar comigo. Não que eles não me aceitavam, apenas não tinham conhecimento de como lidar com uma criança com autismo e estavam bem na fase de buscar ajuda profissional, aprender sobre essa condição e montar toda estrutura para que eu tivesse a “melhor vida” possível. Tudo era muito novo para todo mundo e vamos ser honestos, eu era totalmente caótica na época.
Em uma viagem para o Brasil, meu pai conheceu um lugar que oferecia apoio a crianças com autismo e a família. Meu pai, em toda a sua inocência – e sonsice – me levou lá. Eis que o “grupo de apoio” na verdade era um bando de crente que acreditavam que o autismo era consequência do pecado e que era necessário orar para deus curar e livrar desse mal. A situação foi tão traumática que eu tive uma das piores crises que eu consigo recordar e quando meu pai descobriu o que fizeram já era tarde demais.
Eu nunca vi meus pais brigarem como naquele dia. Minha mãe ficou muito, muito, muito furiosa com o meu pai. A começar pelo fato de ele ter me levado em um lugar sem saber exatamente como era, depois deixar que eu fosse sozinha para uma sala com estranhos e eu ficar tão mal que foi preciso que ela fosse me buscar porque eu não queria ir com ele.
Resumindo a história: menos de uma hora com crentes resultou em uma crise familiar que levou anos de terapia para eu superar e quase causou um divórcio. A Margot processou o tal “instituto”, o pastor e todas as pessoas que levantaram a mão para orar para deus me curar. Ela fechou as portas daquele lugar e seu ódio é tão grande que ela se lembra dos nomes de todos eles até hoje. E se você ousar citar esse ocorrido, ela vai fechar a cara e ficar de mau humor por dias.
Coitadinho do seu Fernando. Ele viveu o inferno na terra para conquistar o perdão da Margot e me convencer de que não era parte daquelas pessoas más. Mas ele aprendeu a lição: não confie em crentes.
Tenho certeza absoluta que, se fosse em outro universo em que a família da Clara não fosse problemática e pudéssemos ter uma convivência, a minha mãe fingiria que não fala português só para evitar a interação.
– E você não toca mais? Não tem saudades?
– Às vezes sim, mas quem tem tempo para isso? E a gente cresce e passa ter outros interesses. Você não gosta das mesmas coisas que gostava quando criança, gosta?
Senti meu rosto corar de vergonha. Será que ela irá me achar estranha por praticar os mesmos esportes há mais de vinte anos? São pouquíssimas coisas que eu deixei de gostar com o tempo… será que eu sou “infantil”?
– Seu silêncio diz muita coisa.
– Bem… eu ainda pratico as mesmas lutas marciais e os mesmos esportes. Com menos frequência e intensidade, mas estou lá toda semana.
Larissa deu uma risada. – Não vá tentar fazer isso como atividade de casal… Clarice não vai conseguir te acompanhar.
– É, eu já estou ciente disso.
Por incrível que pareça, conversar com a Larissa foi mais fácil que eu esperava. Eu não sabia exatamente qual era a diferença de idade entre Clarice e ela, entretanto, era muito evidente como as duas pensam de forma totalmente diferente em quase tudo, principalmente em relação a família. Enquanto Clarice se preocupa com como eles vão se sentir e pensar, tem receio de tomar alguma atitude que irão os chatear, Larissa não está nem aí. Ela é bem decidida e determinada quanto aos seus parentes, mesmo sendo a própria mãe, ela não se preocupa com o que a Lúcia irá pensar.
E apesar dessa diferença entre as primas, elas parecem se completar. Larissa dá o empurrão que a Clara precisa para tomar algumas atitudes mais difíceis, enquanto a Clara traz o humor e leveza que a Larissa necessita. Acho fofo o relacionamento delas e fico contente que Larissa tenha aceitado a proposta de emprego para continuar em São Paulo.
– Será que isso vai doer? – Larissa perguntou enquanto estávamos no corredor esperando para sermos chamadas.
– Não. Eles vão apenas coletar uma amostra pequena de sangue e saliva. Você não tem medo de agulha, tem?
– Eu não sou a Clarice, não se preocupe.
No mesmo instante, a enfermeira que faria a coleta do material chamou a Larissa para a salinha. Por um momento fiquei em dúvida se deveria acompanhar ou não, então acabei indo somente até a porta onde ela poderia me ver sem sentir que eu estava a tratando como uma criança. Às vezes eu preciso entender que quem precisa de mim quase o tempo todo é a minha pequena.
E falando nela, ainda não havia recebido nenhuma mensagem, provavelmente estava dormindo até agora. Por sorte eu já esperava que fosse dormir até tarde e levei o Chloée para dar uma volta no condomínio antes de sair.
– É isso, acabou – Larissa disse ao sair da sala. – Agora é só esperar. A Clarice já colheu a amostra dela?
– Não, ainda não. Essa tarde.
– E como vai conseguir isso sem falar com ela?
– Ela tem que fazer outros exames de sangue.
– Eu posso te pedir um favor?
– Oui, oui, uh, sim.
– Se por acaso nada mudar, vamos fingir que isso nunca aconteceu e será um segredo só nosso. Pode ser?
– Tem a minha palavra.
Pelo visto, era um senso comum de que a Clara não lidaria bem com a suspeita do seu “pai” não ser seu “pai” e todos queriam a proteger.
Eu sinceramente não sei qual dos resultados seria melhor, mas estaria do lado do meu amor em qualquer que seja a sua vontade.
Missão concluída com sucesso, eu deixei Larissa no apartamento da Clara onde ela estava morando e voltei para o escritório para a minha – muito longa – reunião de planejamento estratégico anual que é simplesmente um saco e puro tédio. E eu não vou ter uma estagiaria para me levar chá e melhorar o meu dia…
Que triste.
« C L A R I C E »
A sensação úmida e quente de algo raspando em meus dedos me fez despertar de um soninho gostoso. Estava em meio a um sonho que já nem lembrava mais, mas que tinha certeza que foi bom e fui forçada a me virar na cama para tentar voltar de onde parei.
O latido, porém, me fez acordar.
– Chloée! – Sentei de repente na cama e tirei o cabelo da cara, para então perceber que estava todo babado de lambida de cachorro. – Urgh, que nojinho… num faz isso não, Chlô – ele latiu empolgado e balançando seu rabinho. – Shhhh! Você vai acordar a maman, deixa ela mimir!
Me virei para ver a maman na cama e me dei conta de que ela não estava mais lá.
– Cadê a maman, Chlô?
Sem pensar muito, eu saltei da cama e fui atrás da minha Valzinha.
– Maman? – Chamei, mas ela não respondeu. – Maman!
Procurei por todos os lugares e a medida que ficava mais óbvio que ela não estava por perto, sentia meu coração apertar e o nó se formar na garganta. A maman saiu e não deu tchauzinho para eu? Nem beijinho? Nem um nada?
– A maman num ama o neném, Chlô. Não ama!
Corri de volta para a minha caminha chorar e sentir o cheirinho da maman no travesseiro que me fez chorar ainda mais. Por que ela saiu sem falar com eu? Por que?! Machucou o coração do neném. Machucou!
Maman má. Muito má! Num gosto mais da maman!
Eu sabia que não podia colocar o Chlô na cama, mas eu estava triste e de coração dodói para ligar para isso. E depois do que a maman fez, eu num tava nem aí para mais nada. Bobona maldosa!
– Se a maman pode sair sem dar beijinho, eu também vou… e você vem junto, Chlô! Tá na hora de você conhecer sua outra casa!
O Chloée tem uma mochilinha para guardar suas coisinhas de passear. Enfiei mais umas coisinhas dentro, botei a coleirinha nele e estava pronta para ir embora. Eu não precisava de nada para mim. Já tinha um montão de coisa lá no apê me esperando, então estava tudo bem.
– A gente só esqueceu de um detalhe, Chlô… comé que sai daqui? – Tentei abrir a fechadura da porta, mas a maçaneta nem mexia e fazia um barulhinho chato toda vez que eu tentava. – Você sabe a senha? Eu num sei… a maman não digita senha pra sair. E agora? A gente está preso?! E se a gente ficar preso para sempre?! – Comecei a balançar a porta tentando abrir a força. – Eu quero sair! Eu quero sair! Eu num quero ficar presa aqui! Tira eu daqui!
Me sentindo sozinha, abandonada e agora esquecida, eu comecei a chorar ainda mais sentindo um dodói no peito. Por que a maman fez isso com eu? Por quê?!
« V A L K Y R I E »
O celular sobre a mesa não parava de piscar a cada nova notificação recebida. Estava me esforçando para ignorar e concentrar na reunião, mas a cada nova notificação se tornava uma missão quase impossível.
Eu sabia que não era mensagem, se fosse, a borda da tela iria piscar com uma cor diferente. E era justamente o fato de não ser mensagem que me deixava intrigada a cada vez que a tela iluminava. Inúmeras possibilidades passaram na minha cabeça e todas elas envolviam uma possível tentativa de clonagem do meu cartão. Fora ao banco, eu desativo todas as notificações do meu celular.
Discretamente peguei o aparelho para visualizar por cima o que era e me surpreendi ao ver alertas do sistema de segurança do apartamento. Fazia total sentido a Valkyrie do passado optar por deixar as notificações desse teor ativa, mas essa era a primeira vez que recebia isso… coincidentemente, também era primeira a vez que deixava Clarice sozinha por lá.
O que aquela petite peste estava aprontando?
Não resisti a vontade de destravar a tela para entender melhor. Aparentemente alguém tentou abrir a porta tantas vezes com a senha errada que agora, a cada nova tentativa, eu estava recebendo alerta de possível invasão. É quase impossível entrar no condomínio sem autorização ou passar por no mínimo uns cinco seguranças, eu tinha certeza absoluta que ninguém estava invadindo meu apartamento. A não ser que o invasor em questão fosse uma pequena pestinha.
Estava digitando uma mensagem discretamente quando recebi uma chamada da própria Clara e apesar da reunião, eu não poderia fazer outra coisa senão atender. Ignorando os olhares de reprovação ao levantar o mais silencioso possível, saí da sala e atendi a ligação.
– Clarice, o que está acontecendo por aí? – Perguntei preocupada.
A única coisa que fui capaz de entender vindo de Clarice foi “maman” e depois disso fui incapaz de identificar até que língua ela estava falando. Eu só ouvi um choro desesperado e palavras desconexas e confusas.
Ela regrediu na minha ausência? Mas como? E por quê?
– Mon amour, a maman não consegue te entender desse jeito. Você precisa se acalmar, respira fundo… vamos lá, inspira… expira… de novo, inspira… expira… agora tenta me dizer com calma o que está acontecendo?
– Você… você foi… e nem beijinho eu… fez dodói… e eu triste, – ela voltou a chorar. – A maman não ama… não ama!
Clarice não concluía uma frase para seguir para próxima. A linha de raciocínio interrompido e o choro desesperado estavam formando um nó na minha cabeça. O que essa garota estava falando? Eu não conseguia entender absolutamente nada.
– Meu amor, por favor, se acalma.
– NÃO! – Ela gritou e eu fui obrigada a afastar o celular do ouvido enquanto ela chorava alto.
Passado quase meio minuto de puro choro e palavras desconexas, eu desisti. Eu não iria derreter meu cérebro tentando entender uma pequena em crise, tampouco tentar a acalmar por ligação quando ela não quer me ouvir.
– Eu estou indo para casa, d’accord? Não saia do lugar, eu chego em alguns minutos.
– Mas…
– Eu mandei não sair do lugar, estamos entendidas?
– Sim, maman – ela respondeu entre os pequenos soluços.
Era só o que me faltava… uma pequena controlando a minha agenda. Onde isso vai parar, hein?
Sair no meio de uma reunião por alguma demanda urgente não era algo anormal, então quando voltei para buscar minhas coisas ninguém estranhou o fato de eu ter que sair. Entretanto, normalmente minha mãe não está presente nessas ocasiões, ela deveria estar em outro país e não foi ainda pelo mesmo motivo pelo qual eu estava abandonando a reunião.
Bastou eu sair da sala para o celular vibrar na minha mão. Pensei que fosse Clarice e me surpreendi ao ver que era a minha mãe perguntando se estava tudo bem com a pequena. Poderia ter sido qualquer emergência e ainda assim Margot sabia exatamente o que estava acontecendo. É incrível a habilidade dela de descobrir tudo e ao mesmo tempo era meu pior pesadelo de adolescência.
Não ia dizer a ela que a Clara estava em uma crise em seu estado pequeno, então apenas dei uma desculpa de que ela não estava se sentindo bem e como já tínhamos a consulta essa tarde, não havia muito com o que se preocupar.
Com o pequeno trânsito em São Paulo, eu consegui chegar em casa em exatos treze minutos e apesar de ser rápido, eu estava apreensiva. Ainda não tinha a dimensão do que Clarice pequena sem supervisão era capaz de fazer e isso me assustava. Qual será o nível de destruição que estará o apartamento?
A porta do elevador abriu e para a minha surpresa, tudo estava em ordem e no lugar. No entanto, ouvi o ruído de um choro baixinho e saí as pressas para encontrar a minha pessoinha, e encontrei parada ao lado da porta.
– Clarice? O que… o que está fazendo aí?
Em pé em sua própria poça de xixi, Clarice chorava de soluçar e estava com o rosto todo vermelho completamente miserável.
– Por-por-porque vo-você mandou eu nã-nã-não sair do lu-lu-gar, – ela respondeu entre os soluços.
Confesso que fiquei alguns segundos parada apenas refletindo o que acabei de ouvir e estava vendo. Eu não posso acreditar nisso…
– Meu amor, você fez xixi na roupa porque achou que não podia sair do lugar para ir ao banheiro? – Ela afirmou com a cabeça. – Clarice, meu amor… não era isso que eu, – eu desisti de explicar no meio do caminho. Iria adiantar alguma coisa falar agora com ela assim?
– Eu num aguentei. Desculpa eu, maman!
– Está tudo bem, ma petite. Vem com a maman tirar essas roupas, tomar um banho e se arrumar.
– Eu já posso sair? – Ela perguntou inocente.
– Oui, mon amour. Vem cá, – estendi a mão para ela.
Toda sem graça e encolhida, Clarice aceitou e pegou a minha mão.
Eu teria a pegado no colo se tivesse tempo hábil para me arrumar outra vez, mas como não seria possível, teria que limpar esse neném primeiro.
No banheiro, eu ajudei Clara tirar suas roupas e entrar no chuveiro. Ela tomou toda triste e cabisbaixa, mas ao menos se acalmou um pouco e parou de soluçar. Depois do banho eu resolvi pentear as madeixas loiras da minha pequena. Que tipo de maman eu seria se a deixasse sair com os cabelos de quem levantou da cama e não penteou? Fiz uma trança francesa que ficou muito linda e nem parecia que essa era apenas uma solução rápida e prática.
– Que roupa você quer vestir?
– Não sei.
– Como você não sabe o que quer vestir?
– Não sei.
Respirei fundo e fui eu mesma escolher alguma roupa para ela sair. Discutir com uma pequena que está triste e melancólica não nos levaria a lugar algum. Felizmente Clarice era bem prática e não seria difícil escolher algo do seu agrado: calça jeans, camisa preta de alguma coisa jovem que não conheço e normalmente duas vezes o seu tamanho e o tênis. Ela vai adorar.
Pelo menos foi o que eu achei… até ela choramingar no primeiro minuto querendo tirar a calça e não conseguir.
– Num quero isso… tira!
– E o que você quer então, mocinha? – Perguntei desabotoando a calça jeans dela.
– Num sei.
As opções de roupas eram escassas. Se Clarice não queria trazer todas as suas coisas para cá, nós definitivamente precisávamos fazer compras. De tudo que tinha disponível ali, a melhor opção que não era necessariamente uma calça jeans era uma jardineira.
– Aqui, usa isso aqui – entreguei a peça para a Clara, mas tomei de volta. – O quão pequena você está se sentindo agora?
– Num sei.
E pelo visto está pequena demais para saber qualquer coisa… ai, ai, ai.
– Olha aqui para a mão da maman, – eu mostrei a minha mão com a palma aberta para ela. – Essa aqui é você agora. Abaixa um dedo para o quão pequena você se sente.
Clara segurou a minha mão entre as suas e foi abaixando meus dedos um por um até restar o dedo anelar e o mínimo. Ou seja, preocupantemente pequena para quem precisava seguir o dia como uma mocinha grandinha.
Levando em consideração o estado que a encontrei quando cheguei, não poderia simplesmente arriscar sair sem uma proteção adequada. Não iria colocar uma das fraldas de dormir na Clara, mas pelo menos as discretas de vestir seria necessário. Quem me garante que ela não irá cometer acidentes?
– Ma vie, vamos ter que colocar uma fraldinha de vestir nesse popô.
Por incrível que pareça, ela aceitou e não reclamou quando a ajudei vestir a fraldinha. Pelo contrário, sua manha estava tanta que ela aproveitou a oportunidade para me abraçar e deixar o trabalho de a vestir para mim. Manhosa e folgadinha.
A situação que se encontrava a minha bebê era de dar dó e eu não tive outra escolha senão me sentar no recamier e a trazer para o meu colo. Desabotoei minha camisa social e a retirei completamente para deixar sobre a cama ficando com a parte de cima completamente nua. Clarice tocou o meu seio com certa delicadeza que mais era um pedido silencioso pedindo permissão.
– Deita, mon bébé – a ajeitei em meu colo para que ficasse na altura do meu seio e o levei até a sua boca. – Mama um pouquinho para ficar melhorzinha.
Não foi necessário insistir muito para ela aceitar o peito e o abocanhar. Sua manha era tanta que ao invés de mamar, Clarice estava fazendo o meu seio de chupeta. O que era um tanto irônico já que a própria não aceitava usar chupeta.
– Por que você está assim, hein? Eu posso saber? – Ao invés de responder, Clara tentou “esconder” o rosto contra o meu peito. – Fala com a sua maman, bébé. O que está passando nessa cabecinha sua?
– A maman deixou eu, – ela respondeu baixinho.
– Eu deixei?! Quando?
– Você foi embora e não deu um beijinho n’eu. Você num ama mais eu.
– Mas eu não sai sem te dar beijinhos. Nós conversamos e eu te dei tetê essa manhã, mon amour – ela me olhou confusa. – Você não se lembra, não é mesmo? – Ela negou. – E você está triste por isso? Você realmente achou que a maman iria sair sem despedir de você?
– Achei.
– Eu jamais faria isso. Eu me despedi, deixei bilhetinho para você na mesa de canto… – apontei para a mesinha e reparei que o bilhetinho ainda estava no mesmo lugar. – Ai minha vida, o que eu faço com você? Você comeu o café da manhã que eu mandei?
Ela negou. – Não comi e tô fominha.
– Você merecia um castigo por isso, mas dessa vez vou deixar passar. Termina de mamar e eu te dou seu almoço.
Todo esse show porque ela simplesmente não se lembrava de que interagiu comigo antes que eu saísse para trabalhar. Aparentemente vou precisar levantar essa mocinha da cama para poder sair sem que ela tenha uma crise sozinha.
Clara mamou por pouco tempo enquanto eu decidia o que iria pedir para o nosso almoço, mas depois se agarrou ao meu pescoço e não quis se soltar do abraço por consideráveis minutos.
A vantagem de ser amiga próxima do chef do seu restaurante favorito, era poder pedir direto com ele e chegar em tempo recorde em sua casa. Fresco e quentinho como se fosse servido em uma mesa no próprio salão. Eu sempre adorei a comida do Alexandre, é de longe a minha comida favorita em São Paulo e teria facilmente levado Clarice para conhecer antes se ela não tivesse se interessado pelos cookies da Gisele que coincidentemente trabalha ao lado dele.
Pensando bem, já passou da hora da Clarice conhecer pessoalmente a Gisele e saber quem é que faz o segundo melhor cookie que ela já comeu.
– Nem pense em parar por aí, mocinha. Você não tomou o seu café da manhã e irá comer tudo que está no seu prato.
– Mas eu num tô afim, maman.
– Eu não perguntei se estava afim, eu mandei você comer. Vamos, coma seus legumes.
Se fossemos seguir o ritmo de Clara, iriamos terminar apenas amanhã. E se ela pensou que iria conseguir se safar dos seus legumes assim, se enganou. Tomei o garfo da sua mão e ofereci a comida em sua boca acelerando o processo.
– Abra a boca, – ela balançou a cabeça se negando. – Você quer ganhar palmadas?
– Naum, – respondeu cheia de manha.
– Então abra a boquinha, meu amor.
A contragosto Clara aceitou e comeu todos os legumes me encarando como se eu fosse malvada por a forçar a comer. Felizmente, cara feia não me assusta.
Depois de almoçar e escovar os dentes, era hora de sair. Como seria isso? Eu não fazia ideia e sinceramente? Eu estava muito preocupada.
– Vamos passear, Clarice.
– Espera aí, deixa eu chamar o Chloée.
– Ele não vir conosco meu amor, deixe ele aí.
– Mas maman… você num pode deixar o Chlô sozinho. Ele vai ficar triste. Num pode deixar o neném triste.
– Vai ser rapidinho, bébé. Depois nós vamos levar o Chloée para passear também. Agora será só você e eu.
Para o hospital fazer alguns exames que aparentemente você não se lembra e vamos continuar assim até onde der.
Se em casa Clara estava meio silenciosa, no carro ela não parou de falar um instante sequer. E não, não era uma conversa. Eu a ouvi falar sobre seu sonho, sobre os lugares que quer ir com o Chloée, a roupinha que irá comprar, sobre o desenho que quer fazer, sobre querer comer banoffe outra vez e ir visitar a sua amiga. Tudo isso em um intervalo de 10min em que as únicas coisas que pude responder foi “ah é?”, “sim”, “legal” e qualquer frase mais longa que isso era interrompida por outro assunto aleatório.
– Chegamos, – eu disse ao estacionar o carro.
Clara olhou ao redor e então se virou para mim preocupada. – Mas esse é o hospital.
– Exatamente.
– Cadê o passeio legal? Eu num quero ir para o hospital! Mami, não!
Segurei o rosto de Clara entre as mãos para a manter no lugar e olhar para mim. – Clarice, ouça. Se acalme, respira fundo – ela me acompanhou em uma respiração longa. – Muito bem. Nós vamos para a sua consulta e fazer alguns exames, vai ser bem rápido. E se você se comportar bem, a maman te dá um sorvetinho, o que acha?
– Mas, mas… medo.
– Não precisa ter medo, amor. Eu vou estar com você o tempo todo, d’accord? Você quer um sorvete?
– Quero.
– E você vai se comportar para ter o seu sorvete?
– Uhum!
– Boa menina. Então vamos.
Antes da consulta, Clarice precisava fazer um exame de sangue para monitorar a anemia e coletar a amostra para o DNA, ela só não sabia da segunda parte e pelo olhar desesperado que fez ao ver a enfermeira preparar o material, ela provavelmente só tinha uma única preocupação em mente e não iria perceber.
– Você tem medo de agulha? – A enfermeira perguntou preparando o braço de Clara. A bichinha estava tão concentrada no que estava sendo feito ali que só respondeu balançando a cabeça freneticamente. – Vai ser rapidinho. Uma picadinha de nada.
Clara virou-se para mim procurando minha confirmação, como se precisasse ouvir de mim para saber se era verdade ou não. Eu estava ao seu lado, segurando sua outra mão livre e tentando a acalmar a medida do possível. Com a intenção de a distrair, eu levei a mão até o seu rosto e fiz com que olhasse para mim.
– Está tudo bem, ma vie. Você confia em mim? – Ela afirmou com a cabeça. – Vai ser tão rápido que você nem vai perceber. Quando piscar os olhos já terá acabado.
– A enfermeira tem superpoderes para ser assim tão rápido?
A moça riu e Clarice ameaçou olhar para ela, mas segurei o seu rosto firme em minha direção.
– Mais ou menos. Tenho o superpoder da experiência.
– Viu só… vai ser rápido.
A verdade era que já estava sendo. Olhando para mim, Clarice se distraiu o suficiente para levar a picada da agulha sem perceber e o que eu estava fazendo era a manter assim até acabar.
– Logo, logo o Chloée terá que passar por isso também.
– Por que? Ele está dodói?
– Não, ele vai tomar vacina.
– Ah… mais vacina?
– Sim, mais vacina.
– E cabe tanta vacina num cachorrinho tão pequeninho?
– Para você ver como ele é forte.
A enfermeira não estava entendendo nada da nossa conversa, mas também não fez nenhum comentário a respeito. Rapidinho ela conseguiu encher todos os frasquinhos necessários e nós estávamos livres.
– Prontinho, mocinha. Acabou – ela exibiu os fracos cheios.
Clara olhou para mulher, olhou para mim e ficou assim algumas vezes. – Você… você me enganou!
– Mas não doeu, doeu?
– Não.
– Exatamente.
Ela fez uma careta confusa e deixou essa passar.
Enquanto aguardávamos o horário para a consulta, levei Clara para comer um pedaço de torta na cafeteria e a deixar mansinha por mais tempo. Parecia errado a manipular assim, mas era tão efetivo e útil que não resisti.
A consulta foi tranquila. O médico examinou Clarice, analisou os resultados dos exames e ajustou a dose dos remédios. Era esperado que não tivesse se recuperado totalmente e se livrado da anemia, mas estava caminhando para isso. Ao menos agora já poderia ter sua vida de volta… em partes.
Clarice conseguiu passar por despercebido no hospital. Ela interagiu muito pouco com outras pessoas que não fossem eu. Foram pequenos momentos em que seu comportamento atraiu olhares curiosos, mas que também não pareceram desconfiar. Porém, eu desconfio de que seus amigos próximos ou colegas da faculdade e trabalho notem que há algo de “”errado””.
– Eu não acho que seja uma boa ideia você visitar a sua amiga essa tarde. Você ainda está muito pequena, prefiro que vá comigo para o escritório.
– Mas eu num quero trabalhar. Eu quero brincar com o Chlô! – Clarice bateu o pé no chão brava, dando ainda mais sinais de que não poderia ficar sozinha ou com outras pessoas em hipótese alguma.
– Você vai vir comigo e eu não vou repetir. Vamos preparar sua mochila com seus brinquedos de aquarela, nós vamos pintar juntas hoje.
– O Chloée vai com a gente?
– Não. Você não vai levar o seu cachorro para o trabalho.
– Mas eu quero!
– Eu disse não, Clarice – respondi firme.
O tom de voz um pouco mais firme foi o suficiente para Clara me olhar como se eu tivesse lhe dado uma bofetada. Seus olhos encheram de lágrimas e no segundo seguinte ela estava chorando aos berros.
– Você é maldosa! Você não se impota com o Chlô!
A puxei para um abraço. – Mon bébé, não chora. É claro que a maman se importa com o Chloée, é por isso que ele vai ficar com o Yago enquanto estivermos fora.
– Mas eu num conheço esse tio.
– Você vai conhecer um dia. Por hora ele vai cuidar do Chloée e você vai vir com a maman para o trabalho, d’accord? – Clara concordou ainda meio chorosa. – Vamos arrumar suas coisinhas?
Eu não sabia se essa manha toda era só o fato de querer o Chloée junto e as mudanças dos planos ou havia um pouco de sono envolvido. De qualquer forma, levar Clara para o escritório era um passo arriscado e eu estava bastante preocupada, mas infelizmente, era a menos pior de todas as opções. Sozinha outra vez não pode ficar. Bruno não deve estar em casa. Giovana e a Juliana trabalham. Meu pai é bobão o suficiente para achar o comportamento da Clara a coisa mais normal do mundo, mas tem a boca maior que tudo, iria comentar com a Margot e essa daí que é o problema.
Nós definitivamente precisamos ampliar nossos contatos dentro do Apex. Eu tenho certeza que eles têm alguma coisa como creche ou cuidadores, algo assim. Uma hora dessas seria uma excelente opção. E se eu não estou enganada, a Jujuba adora ir para lá. Clarice provavelmente vai gostar também.
– Está tudo certo? – Clara afirmou com a cabeça. – Não quer levar mais nada? Que não seja o cachorro.
– Então não.
– Quer trocar de roupa? Você está fofa, mas não acho que essa seja uma roupa apropriada para aquele lugar e eu não quero aqueles nojentos olhando para você.
Que fique claro, eu não sou ciumenta. Contanto que Clarice não decida sair nua por aí – o que eu não vou admitir, seria atentado ao pudor e já deu de problemas infligindo leis – eu não ligo muito para o tipo de roupa que irá usar. Vestido justo, saia curta, cropped, ela é livre para tomar suas decisões a respeito…, entretanto, todavia, prefiro que sua vestimenta esteja condizente com seu estado de mente. Ela grande irá perceber quem se aproximar com malícia, pequena não. E bem, estávamos indo para um ambiente corporativo com homens asquerosos, ou seja, é um “não” em letras garrafais e negrito.
– Eu… uuh… maman? – Clarice sorriu sem graça.
– O que foi?
– Eu… pipi.
– Você precisa trocar a sua fraldinha também?
Clara ficou vermelha e afirmou.
Definitivamente pequena demais para sair com os amigos. O lugar desse neném é ao lado da sua maman.
Ajudei Clara tirar sua jardineira e a deitei sobre a cama. A fraldinha de vestir era bem discreta e poderia facilmente passar por uma calcinha, principalmente por ser preta. Dá para dizer que combinam com as roupas que a minha pequena gosta de usar.
Limpei a pele da minha pequena com o lencinho, preparei a pele com a pomadinha e o talco, pôr fim a ajudei vestir a fralda limpa. Clara trocou sua jardineira por um vestido e uma blusa de manga longa por baixo, o céu ficou nublado e ela já estava querendo roupa mais “quentinha”. Quem a visse por aí, jamais desconfiaria que era uma pequena da maman.
– A gente não pode mesmo levar o Chlô? Eu prometo que vou cuidar dele e ninguém nem vai ver.
– Não.
– Mas… a Magô ainda não conheceu o Chlô.
Observei Clarice abraçar o cachorro e me perguntei se o coitado no fundo não está em sofrimento. Ele não consegue ficar dois minutos inteiros no chão, o tempo todo sua mamãe o pega no colo para abraçar e encher de beijos como se fosse uma pelúcia.
– Nós podemos jantar por lá essa noite e levar o Chloée… A Margot irá adorar saber que você colocou esse nome no cachorro.
Só para deixar registrado, Chloée é o nome que a minha mãe queria para mim e o nome da minha bisavó que ela amava muito. Existe aí uma considerável possibilidade de ela achar ofensivo a escolha, mas estou contando com o fator Clarice. Aparentemente, a minha mãe vai concordar com tudo que vier da minha namorada e sinceramente, não sei se isso é bom ou ruim.
– Meu amor, me dê o cachorro – pedi pela quinta vez.
– Não! Eu não quero deixar o Chloée aí!
– Você não pode levar ele para o escritório, ma vie. O Yago irá cuidar bem dele. Vamos lá.
– Não… – respondeu manhosa.
– Você quer apanhar em público? É exatamente o que irá acontecer se não me obedecer agora.
Clara me encarou em silêncio… e voltou a chorar. Hoje essa garota tirou o dia para me tirar do sério, não é possível.
– Eu vou contar até três. Um… dois… – Clarice não esperou chegar em três e me passou o Chloée a contragosto. – Boa menina. Agora espera aí.
Saí do carro e fui levar o cachorro até o Yago. Sei que cuidar de animais não é bem o trabalho dele, mas ele tem uma carga horária menor que a Clara como estagiária e um salário consideravelmente mais alto, acho que sou legal o suficiente para pedir favores extras.
No meio do caminho para o escritório fui obrigada a comprar um doce para a minha pequena. Percebi que quando se trata do seu Chloée, suas reações são sempre extremas. Sem exagero algum, a vi chorar por cerca de cinco minutos só porque não pôde levar o cachorro para o escritório. Vale ressaltar que, se levar 4h para buscar o bichano será muito. Enquanto os boatos dizem que os pequenos são extremamente apegados a suas mamães, Clarice é apegada ao cachorro que adotou há poucos dias.
Eu deveria me sentir mal por isso?
A cara de choro não melhorou muito depois do doce, mas já era o suficiente para entrar no escritório sem que todo mundo ficasse questionando. Clara logo se distraiu com os colegas de trabalho que a receberam com muita empolgação e carinho. Felizmente o tópico da conversa se limitou ao período de internação sem dar muita margem para o lado pequeno se manifestar muito, já que o assunto era sério e as “piadinhas” eram lidas como Clarice sendo Clarice.
Eu até liguei para o departamento onde Larissa estava trabalhando para pedir que viesse para a minha “sala”. Interagindo com a prima e o amigo de infância, Clarice estava segura e eu tinha paz para trabalhar… assim eu pensei, mas foi apenas por míseros quarenta minutos.
A porta da sala estava aberta para que eu pudesse ouvir a conversa por alto e notar caso fosse necessário intervir, por essa razão Clarice entrou sem bater e veio direto para a minha mesa. Sem dizer nada, ela apontou para a minha direção e esperou que eu deduzisse o que estava tentando dizer.
– O que foi?
– Eu quero.
– Quer o que? – Acompanhei a direção que apontava com o olhar e logo entendi. – Não. Aqui não. Só mais tarde. Agora não!
Quando notei que os olhos de Clara começaram se encher, eu rapidamente me levantei, peguei em seu punho e a puxei para fora. Pelos corredores de emergência – que são vazios e totalmente discretos, – a levei para o heliponto no terraço.
– Por que a maman num quer dá o tetê do neném? – Clarice perguntou chorando.
– Clarice, aqui não é lugar. Entenda isso, por favor – respondi firme.
– Mas eu quero tetê, – ela abraçou o próprio corpo e desviou o olhar para o chão. – A Jujuba tem tetê em qualquer lugar.
Olha só isso… olha a armadilha. Que garotinha ardilosa.
– Isso não é verdade, mocinha.
– É sim! – Clara gritou. – Você num quer dar tetê pra eu porque num ama eu!
Segurei Clarice pelos braços e a olhei nos olhos, com intuito de controlar seu temperamento e evitar que se altere ainda mais. – Você não fale uma coisa dessas, Clarice. Isso não é verdade!
– É verdade sim, – ela respondeu tristonha. – Eu não sou um neném de verdade.
– Você é sim. Olha bem nos meus olhos, Clarice. Você é sim um neném e nada vai mudar isso, nem o ambiente de trabalho. Só que nem sempre é um momento apropriado e você precisa entender.
Em outra ocasião, em outro ambiente, eu a traria para o meu colo e tentaria a acalmar enchendo de carinho e beijo, mas esse não era o cenário. Eu não poderia ser a maman que gostaria agora, se assim fizesse, Clarice iria regredir ainda mais e o que eu precisava agora era justamente o contrário. Por essa razão, estava falando um pouco mais firme que o usual.
– Mas eu num quero entender, eu quero tetê e colinho!
– Clarice, olha para mim. Respira fundo. Anda, estou esperando. Respira fundo, – ela respirou fundo três vezes como costumamos fazer juntas. – A maman promete que você vai ter colinho e todo o tetê que quiser quando chegarmos em casa. Amanhã é sábado, podemos ficar o dia inteirinho coladinhas, trocando carinho e com muito tetê. Nós não vamos precisar sair de casa.
– Mas o Chloée precisa passear.
– Tudo bem, nós levamos o Chloée para passear e no resto do dia a maman irá te encher de amor e mimos. O que você acha disso?
– Quero.
– Ótimo, agora seja uma boa menina para a sua maman e se comporte. Pode ser? – Ela concordou com a cabeça. – Use as suas palavras, Clarice.
– Sim, maman.
– A maman vai te mandar para casa e você vai dormir um pouco. O motorista da minha mãe deve estar por perto, eu peço para ele te levar para buscar o Chloée e te deixar em casa. Podemos combinar assim?
– Tá bom.
– Vem aqui, meu amor.
A puxei para um abraço enquanto ligava para Damien. Algo dentro de mim dizia que essa manha era acima de tudo sono. Clarice normalmente gosta de dormir e tirar seus cochilos, mas quando está pequena sua bateria é ainda mais fraca e viciada. E já reparei que seu humor era bastante volátil quando estava com sono.
Como esperava, o motorista da minha mãe estava por perto e se propôs a levar Clarice onde precisava. Eu estava a acompanhando até o térreo, no entanto, Letícia me barrou no caminho dizendo que estavam todos me procurando para a reunião com o cliente que estava me esperando.
Clarice que estava mais calma, me fez um aceno dizendo que estava tudo bem e se despediu de mim. Ter que deixar meu amorzinho para encontrar com gente chata não era exatamente o que gostaria, mas era o que precisava fazer.
Até daqui a pouco, bebê.
« C L A R I C E »
Sinceramente não sabia exatamente o que estava se passando comigo. Eu queria agir e reagir de uma forma racional, mas sentia todas as emoções a flor da pele e qualquer coisa era motivo para entrar em erupção. Agora mesmo tentava me acalmar e conformar com o fato de que Val não viria comigo, enquanto, na verdade, gostaria de gritar e espernear até que ela viesse para casa me dar o amor e o tetê que eu queria.
As lágrimas silenciosas escaparam enquanto caminhava para o elevador. Já estava perto da saída, então não tinha gente ao redor para me julgar.
– Clarice!
Me virei para trás para ver quem estava me gritando, era o Theo. Caminhando em passos largos e tentando ajeitar a sua bolsa que parecia ter sido pega de qualquer jeito. Se não estivesse vindo em direção a saída iria jurar que estivesse chegando atrasado.
– Theo, o que aconteceu?
– Vamos embora.
– Embora para onde? A Val te mandou aqui?
– Não. Eu vou te levar para casa. A sua casa.
– Aconteceu alguma coisa?
– É o que vamos descobrir.
Sem entender muita coisa, eu decidi acompanhar o meu amigo. Val provavelmente irá ficar emburrada por eu não seguir as suas ordens, mas seja lá o que Theo tinha, parecia importante. Ela vai entender.
Será que dá para buscar o Chloée? Vixi… eu nem sei o endereço do Yago. E agora? O que catapimbas está rolando?
«-»
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Au revoir!
