« V A L K Y R I E »
Os dias se passaram lentamente, quase se arrastando e a alta não veio. Parte disso foi uma decisão minha em conjunto com os advogados do processo da Clara, que achamos melhor terminar o tratamento no hospital ao invés de continuar a domicílio. Com ela hospitalizada era mais fácil justificar sua ausência na primeira audiência. Conhecendo o Brasil e suas leis, eu sabia que a velocidade em que tudo estava correndo era por pura influência dos “contatos” da minha família e eu queria usar isso a meu favor evitando o máximo do envolvimento da Clara.
Infelizmente, isso não significava evitar o meu envolvimento também. Eu mesma tive o desgosto de conhecer o meu sogro na primeira audiência. Foi uma experiência surreal. Acho que qualquer pessoa era capaz de ver o quanto aquilo era uma encenação. O exagero da faixa na cabeça quando todos sabíamos que havia levado pouquíssimos pontos que não justificava. A minha surpresa era ver o advogado ao seu lado, a prova concreta que aquela era mais uma artimanha suja para prejudicar a Clarice com intuito de me afetar, só isso justificaria um dos amigos mais próximos do Pedro Henrique assumir esse caso.
Logo o primeiro dia foi um verdadeiro fiasco. Eles não contavam com provas e registros das agressões que aconteceram no passado, tampouco que a visitinha de Lúcia não seria bem vista. E sinceramente, embora eu tivesse inúmeras cartas na manga para todos os resultados possíveis, eu não via a necessidade. Eu não sabia se era a falta de inteligência, a ganancia ou a soberba masculina, só sei que o plano foi péssimo e eles não cogitaram um cenário como esse.
Não que eu tenha pena, mas no fim, quem irá se foder nessa história é o Luís. Eu duvido que quando estiver atrás das grades o Pedro Henrique irá se lembrar dele. Enfim, escolhas…
– Eu não acho que as audiências irão levar muito tempo, – Giovana comentou. – Está muito claro quais as intenções aqui.
– O que você acha?
– Dinheiro. As falas desse homem são muito suspeitas para esperar algo diferente.
Novidade…
– A audiência já acabou? – Minha mãe que saiu nos últimos minutos antes de acabar se aproximou de nós.
– Sim, a próxima será em duas semanas, – a Gio respondeu.
– Então acho melhor irmos. Seu pai ligou, a Clara recebeu a alta e pelo o que disse, ela está bastante agitada para ir embora e quase fugindo sozinha.
Sorri com a menção do meu amor. Estava com tantas saudades que nem parecia que tomamos o café da manhã juntas.
– Eu vou direto para casa. Vou esperar por vocês lá, – minha mãe fez uma rara careta confusa. – Clara com certeza estará com fome. Eu vou preparar uma comida bem gostosa enquanto não chegam.
– Certo, eu vou avisar ao seu pai. Vamos indo? Você vem junto, Giovana?
– Estou de carro, – ela sorriu.
– Nos vemos depois então. Venha nos visitar quando puder.
Minha mãe nunca convidou meus amigos franceses para nos visitar, mas o Bruno e a Giovana eram sempre convidados. Margot nunca escondeu suas preferências. Pergunta a ela quantas vezes chamou meus ex’s para uma visita… vai ver no fundo ela sempre soube que aqueles homens não eram para mim.
– O que vamos fazer para o aniversário da Clara, Chloée? – Minha mãe perguntou aleatoriamente dentro do carro e eu me virei para ela em choque.
– Aniversário?
– Sim, minha querida. Você não sabia?
– Não. Como você sabia?!
– Ela me contou já faz um tempo. Acha que ela irá gostar de uma festa? Podemos ver se aquele lugar que fizemos sua última festa está disponível.
– Não. É muito exagero. E conhecendo a Clara, ela não irá querer nada muito grande ou cheio de gente. Provavelmente irá querer algo que tenha bastante comida, um bolo bem grande e doces.
– Uma festa em casa? O aniversário dela cairá no próximo sábado, acho que não será problema para os convidados se fizermos uma festa na piscina. Ela gosta de piscina?
Eu não acredito que a minha mãe sabia do aniversário da Clara que será em quatro dias e eu, sua namorada e maman, não estava ciente disso. Por que essa petite peste não disse nada? Aí, aí viu… deixa essa garota comigo.
Felizmente hoje já era dia de limpeza no meu apartamento e quando cheguei estava quase tudo em ordem. E para a minha surpresa, a Teresa estava montando um bolo de brigadeiro que ela começou a fazer assim que eu enviei uma mensagem para o Yago preparar tudo para a chegada da Clara. Fofo, mas um perigo. Quando eu era mais nova, a Teresa sempre fazia doces e sobremesas que eu conseguia comer, era um pesadelo para a minha dieta. Imagina se a Clara cai nas graças dela? Tem certeza absoluta que irá dar doces nas minhas costas como faz com meu pai até hoje.
Mas não seria hoje que as duas iriam se conhecer. Clara estava acostumada com esse ambiente praticamente vazio, acho melhor chegar e ver como sempre viu. E bem, eu também não tinha intenções de dividir a atenção da minha namorada com outras pessoas por muito tempo.
O almoço foi algo simples, porém cheio de ferro e amor. Arroz, feijão, purê de batata, frango empanado frito, couve e espinafre. De sobremesa o bolo de brigadeiro e sorvete, mas isso a Clara não precisava saber por enquanto.
– Chegamos! – Papai anunciou embora não fosse necessário, eles não foram nada silenciosos ao entrarem. – Que cheiro gostoso, o que está fazendo de bom?
– Frango empanado! – Os olhos da Clara brilharam, completamente boquiaberta como se fosse a melhor coisa do mundo. Detalhe que a primeira coisa que ela reparou e foi ver de perto foi a travessa de frango e não a maman dela. – Posso comer um? Por favorzinho.
Tirei um pedaço dos primeiros que foram fritos e estavam menos quente. – Só esse, a senhora irá almoçar.
– Hmmmm! Isso está muito bom! Casa comigo?
– Bobinha.
A naturalidade em que Clara disse isso me deixou envergonhada. Não por que eu não gostaria que fosse verdade, é justamente o contrário. Ela disse em tom de brincadeira, mas queria eu que fosse sério. Eu me casaria ainda hoje se Clara quisesse, mas ela é nova demais para pensar nessas coisas, ainda tinha muito chão pela frente e eu não me importava em esperar… e se não acontecer também, estava tudo bem. Depois do fracasso do meu quase casamento, minhas expectativas eram baixíssimas.
Eu não vou colocar esse peso sobre as costas da Clara, só iria tornar a nossa diferença de idade um problema.
Enquanto meu pai me ajudava a terminar o almoço, minha mãe fez algo inusitado: ajudou a Clara secar o cabelo após o banho. Minha mãe male, male secava o próprio cabelo, ela só lava no salão, mas ela detesta cabelo molhado, na sua cabeça se você anda de cabelo molhada no minuto seguinte estará com resfriado, e se ela me visse assim, rapidamente me aparecia com um secador nas mãos. Em outras palavras, ela realmente gosta da Clara para se oferecer a fazer algo que só fazia por mim, sua única filha.
– Eu estava com tantas saudades da sua comida, – Clara comentou enquanto devorava o seu segundo prato.
Parecia até que Clarice estava presa em jejum durante todo esse tempo. Ela de fato conseguiu emagrecer ainda mais a ponto de levantar preocupação dos médicos, mas concluíram que era pelo metabolismo dela. Mesmo comendo todas as refeições oferecidas pelo o hospital, ainda era menos que seu corpo estava acostumado a lidar diariamente. Como uma pessoa de um metro e meio consegue comer quase como o meu pai de quase dois metros, eu não conseguia entender, só sei que ainda estou ajustando minha compra de mercado e não encontrei a quantidade correta.
Depois do almoço e a sobremesa fomos para o sofá. Minha mãe e eu tomamos um bom chá, meu pai o seu café, e Clara estava tão cheia que não conseguia tomar nada, mas no fundo eu sabia que seu lado pequeno queria algo que não poderia oferecer. Lado pequeno esse que aos poucos foi se manifestando à medida que o sono pós prato consumia.
Por um momento tive medo que Clarice escorregasse demais. Sabia que meu pai achava normal e fofo, mas a minha mãe… ninguém sabe o que ela está pensando. Que ela viu e notou a leve mudança no comportamento da Clara eu não tinha dúvidas, mas o que estava pensando? Impossível saber. Aos menos sua careta de julgo não estava ali.
E tem gente que diz que eu sou como a Margot. São doidos. Eu sou muito mais expressiva que ela. Graus de autismo diferentes.
– Tô sono, – Clara choramingou se virando no sofá, onde ela deitava com a cabeça em meu colo.
Clara pegou a barra da minha camisa e puxou de leve. Felizmente seu próprio corpo deitado de lado escondeu o movimento. Não satisfeita, ela levantou a mão e eu peguei no ar e dei um beijo antes de repousar novamente em meu colo. Sua intenção era abrir os caminhos para os tetês e isso definitivamente não estaria acontecendo agora.
– Acho melhor nós irmos embora, – minha mãe disse ao colocar sua xícara de chá e pires sobre a mesa de centro. – Clarice ainda precisa descansar e eu ainda tenho algumas pendências do trabalho que precisam ser entregues hoje. Não se preocupe, – minha mãe me interrompeu antes que eu pudesse questionar algo. – Está tudo sob controle. Aproveite que agora estão em casa e descanse também. Sua olheira está cada dia pior, o melhor que pode fazer agora é dormir também.
– Quer ajuda para a levar lá para cima? – Neguei com a cabeça. – Sendo assim, vamos zarpar, meu amor.
Meus pais foram embora e eu corri para pegar a mala preta da minha mini Clara. A última coisa que eu gostaria era um acidente no meu sofá e pelo tempo que ela pegou no sono e a quantidade de suco que bebeu, era só questão de tempo para acontecer.
Deitadas na cama, eu aproveitei meus minutos de paz para fazer umas compras online. Durante a internação de Clara eu não tive tempo e cabeça para absolutamente nada que não fosse cuidar dela. Agora com calma, poderia escolher coisinhas para mimar o meu bebê.
Eu não queria exagerar para não a assustar, apenas alguns itens básicos para começar. Nesses últimos dias de hospital eu tive uma chance de conversar com a Juliana, pelo os seus relatos, regredir ajuda a desassociar dos problemas, desligar um pouco do mundo e verdadeiramente relaxar. Exatamente o que a minha Clara precisa, mas para chegar a esse ponto, precisamos ir mais a fundo.
Quando terminei, eu me juntei ao soninho com a minha dorminhoca. Como era bom a abraçar e ter espaço para as duas ficarem na cama confortavelmente ou não nos preocupar se seremos vistas. Finalmente as coisas voltando a normalidade nesse lar.
Por mais cansadas que estávamos, duas horas depois do início da sonequinha, eu precisei acordar Clara com beijos pelo rosto. Já era quase 19h no relógio e para uma noite inteirinha de sono, uma sonequinha mais longa que essa poderia causar problemas.
– Não, maman. Tô sono demais. Deixa mimir.
– Você vai voltar a dormir mais tarde, bébé. Vem comer bolo, vem.
No mesmo instante Clara levantou o tronco para se sentar na cama, coçou os olhos e bocejou sonolenta. – Bolo. Eu quero.
O que eu não como de açúcar, minha namorada come por duas Clarices e eu. Ainda tínhamos que cuidar para que a alimentação dela seguisse a dieta à risca, ela ter saído do hospital não quer dizer que estava tudo bem e que o problema acabou. O bolo agora era só um mimo e porque eu adorava ver a sua carinha feliz comendo.
– Qual bolo você quer de aniversário? – Perguntei aleatoriamente enquanto comia o meu bolo que não era o mesmo que o da Clara. Era bem menos doce e sem recheio.
Clara ficou me olhando desconfiada e séria. – Eu não quero um bolo de aniversário.
– Por que não? Você adora bolo.
– Mas eu não gosto do meu aniversário e não quero um.
– Mas é o seu aniversário, um bolo é obrigatório e lei.
– Eu aceito o bolo, mas não gosto e não quero comemorar meu aniversário.
Um absurdo!
Como uma pequena não quer celebrar o aniversário? Eu nem gosto de doces e sei que esse é o momento perfeito para empanturrar de doces. O aniversário é o melhor dia do ano!
– Por que você veio com esse papo do nada? – Clara perguntou desconfiada. – Você não está inventando de fazer festa, está? Eu não quero. E se fizer, eu vou ficar brava com você.
– Tudo bem. Podemos não fazer uma festinha, mas seu aniversário não pode passar em branco. Podemos celebrar só você e eu, o que acha? O que você quiser fazer… qualquer coisa.
– Tanto faz, eu não ligo.
– Mas amor! É o seu aniversário. É o seu dia. É o único dia que tem os poderes de aniversário. Não pode simplesmente não fazer nada, – ela deu ombros. – Okay… já que você não quer fazer nada, eu vou planejar um dia bem legal para nós. Aliás, amanhã nós vamos sair.
– Sair? Para onde?
– Comprar roupas. Eu tirei uma mini férias do trabalho e quero viajar com você. Vamos para o Rio de Janeiro. Você já foi? – Ela negou com a cabeça. – Ótimo, então vamos aproveitar o seu dia lá. E depois podemos ir à praia antes de irmos para a fazenda visitar a minha avó.
– Visitar a sua avó? Eu vou conhecer a sua avó? Mas… você tem certeza disso? Não estamos indo rápido demais?
– Amor, meu pai literalmente cuidou de você por mais de duas semanas no hospital. Minha mãe te adora de uma forma que eu não entendi até o momento. Você acha que os dois não comentaram nada sobre você com a minha avó? E outra, com ela não precisa falar nada. Ela sempre sabe. Então nem vou tentar dizer que somos só amigas. É melhor falar a verdade que ouvir lição e sermão sobre mentir. Fica tranquila, ela é um amor e faz comida boa.
– Comida boa?
– Sim, melhor que a minha.
– Eu quero!
Às vezes tenho medo de levar a Clarice nos melhores restaurantes e ela se apaixonar pelo chef e me trocar. Porque, pelo jeito que é louca por comida, a melhor forma para a conquistar é pela barriga. Eu preciso aprimorar ainda mais meus dotes culinários para manter essa garota comigo…
Depois do bolo, Clara e eu fomos ver algumas coisas para a nossa viagem. Eu poderia planejar tudo sozinha, escolher os melhores lugares para irmos e aproveitar cada minuto, mas não queria correr o risco de fazer algo que não fosse como a minha namorada gostaria. Era a nossa primeira viagem juntas, afinal.
E ainda bem que decidi consultar sua opinião… descobri que Clarice detesta avião. Detesta no nível; prefere viajar de ônibus ou carro por várias horas ao invés de enfrentar um voo de apenas uma.
– São quase seis horas de viagem daqui até lá – disse ao ver o trajeto pelo mapa no laptop em meu colo. – Dá tempo de ir e voltar de avião.
– Eu tenho a regra de que se eu consigo dirigir todo o trajeto sem precisar parar para dormir, eu vou de carro. Avião não.
– E você quer dirigir seis horas?
– É de boa, a gente sai meia noite e chega lá de manhã e vai para praia.
– E você quer que eu confie em você no volante a noite toda?
– Eu já fui para Minas Gerais de carro com meu pai. Quase doze horas com uma companhia desagradável, o que são seis ao seu lado?
– Eu não quero passar o seu aniversário na estrada, Clarice.
– Mas eu quero! É isso, eu quero passar meu aniversário na estrada.
Olhei para a cena querendo me dar um tiro… como eu vou negar um pedido de aniversário? Apesar de ser uma ideal horrível, era o desejo da Clara e a regra dos poderes de aniversário eram essas: o aniversariante pode tudo.
– Si c’est ce que tu veux… je vais beaucoup le regretter, mais… que puis-je faire ?
– O que você disse?
– Se é o que você quer, eu vou me arrepender, mas o que eu posso fazer? É o seu aniversário. Você quem manda.
– Assim tão fácil?
– Esses são os poderes de aniversário. Você decide o que vamos fazer no seu dia.
– E eu posso fazer qualquer coisa?
– Sim, qualquer coisa.
– Qualquer coisa mesmo?
– Sim, mon amour.
Clara sorriu e eu senti no meu coração que isso não era um bom sinal.
Depois de me questionar sobre os poderes de aniversário outras cinco vezes em ocasiões diferentes, eu a vi empolgada para sábado pela primeira vez. Eu estava com medo do que iria sair dessa cabecinha, mas estava pronta. Eu farei qualquer coisa para mudar sua percepção de aniversário.
Na minha família essa data é muito importante, tanto paterna quanto materna. As celebrações são diferentes, mas nunca passam em branco. Entretanto, meu pai consegue levar para um outro nível de importância e acabou me influenciando nisso. Coitada da minha mãe que precisava planejar dias perfeitos para nós e quase surtava com medo de falhar e decepcionar suas duas crianças.
Inclusive meu último aniversário eu já conhecia a Clara, mas meu desejo foi justamente ficar offline. Bruno teve a ideia brilhante de ir em um retiro espiritual onde as pessoas meditam e fazem ioga no meio do mato. Foi divertido nas primeiras 24h, depois disso mudamos os planos e fomos para um resort e spa.
Pela primeira vez em semanas, Clarice e eu tivemos um dia de paz. Depois de uma manhã de manha e dengo, nós saímos para almoçar fora, fizemos compras para a nossa viagem e outras coisas que eu quis dar para a minha bebê. Fomos em uma loja de materiais artísticos, Clara queria insumo para faculdade e eu precisava de itens para o trabalho, mas eu estava mais interessada em saber como a minha namorada se comportaria na loja.
Cada item que despertava seu interesse ou que ela parava para ver, observar ou comentar, me ajudava a entender seus gostos. No hospital, eu notei que Clara pintou pouco e todas as vezes que usou o presente que lhe dei foi quando estava “sozinha”. Isso me faz acreditar que não seja questão de falta de interesse como diz, talvez seja apenas questão de tempo e falta de motivação, mas eu quero mudar isso.
Eu gostaria de aproveitar ainda mais o nosso dia, mas a minha bebê não é bebê à toa. À medida que as horas iam passando, Clara foi ficando mal humorada, impaciente, inquieta, reclamona e chata. O sono estava a fazendo regredir e a deixar assim, em outras palavras, era hora de levar a minha pequena para casa.
– Nós já estamos indo embora, mocinha. Quer um docinho para melhorar seu humor?
Clara choramingou e me abraçou praticamente se jogando em meus braços. – Quero embora. Tô sono, maman!
Olhei para os lados para ver se havia gente por perto. Felizmente não havia ninguém perto o suficiente para a ouvir e como falava contra minha roupa acabou abafando ainda mais sua voz. Eu não tenho vergonha da minha pequena, mas me preocupa que os outros a julguem e lance olhares maldosos. Ou pior, que comentem algo que a Clara vá ouvir. É mais para a proteger.
– Tudo bem, meu amor. Vamos embora.
Desisti de fazer o que pretendia para irmos para casa. Para Clara não aceitar um doce, era sinal de que estava realmente no seu limite e bem, ela recebeu alta do hospital ontem.
No carro, antes mesmo de ligar os motores, Clara dormiu. Foi questão de segundos e não era exagero. Eu sentei no banco do motorista, ajustei a distância afinal minhas pernas não eram curtas como as dela que veio dirigindo, no que eu virei para o lado, minha namorada estava dormindo e ressonando.
– O que eu faço com você, Clarice? – Dei um beijo em sua testa enquanto dormia.
O trânsito em São Paulo tornou o nosso trajeto demorado e parado. Ouvindo as minhas músicas eu nem me incomodei em levar quarenta minutos em um trajeto que deveria ser nem a metade disso. Clarice nem viu o tempo passar, nada abala o seu sono.
– Ma petite, chegamos – Clara resmungou algo incompreensível. – Mon bébé, nós temos que subir.
– Leva eu, maman.
A observei incrédula. No primeiro momento não acreditei que essa fosse realmente querer que a levasse no colo até o apartamento. No segundo momento eu estava carregando essa petite peste nas costas.
Eu a levei direto para o banheiro, a coloquei sentada na privada para preparar a banheira para um banho. Era bem capaz de, se eu a colocasse na cama, fosse dormir até a amanhã e eu não vou dormir com quem não tomou banho e usando essas roupas com esse tecido.
Preparei a água com sais de banho e um pouco de sal Epson para relaxar os músculos depois de uma tarde andando. Tomamos uma ducha rápida enquanto a banheira terminava de encher e entramos as duas na água quentinha.
– Hoje foi um dia legal, – Clara comentou. – Eu estava com saudades de viver fora do hospital… quando eu volto a trabalhar?
– Você recebeu 15 dias de atestado, meu amor. Ainda é cedo para pensar nisso.
– Nós vamos ficar tudo isso no Rio?
– Só se você quiser.
– A fazenda da sua vovó é legal? Tem bichinho?
– Tem muitos bichinhos. Tem galinhas, patos, cisnes, dois pavões, vacas, bois, porquinhos, cachorro, gato, cavalo.
– Tem cachorro?
– Sim, tem três cachorros grandões.
– E eu vou poder brincar?
– Pode sim, eles são dóceis. E adoram nadar, você pode nadar com eles se quiser.
– Tem piscina?! – Clara se empolgou mais uma vez. – Eu adoro piscina! Eu quero! Faz um tempão que não vou na piscina!
A encarei confusa. – Mas eu tenho piscina. Aqui. Em São Paulo. Nesse apartamento. É só descer as escadas. E também tem piscina no Apex, na casa dos meus pais. No condomínio. Por que nunca comentou que gostaria de usar uma delas?
– Eu nem sabia que tinha piscina aqui… onde?
– Na área gourmet. Dá para ver da varanda do quarto. Você nunca foi lá fora?
– Não… eu não fico vagando seu apartamento sem sua autorização, tá doida? Vai que eu entro no seu quartinho proibido e encontro seus brinquedos?
– Eu não tenho esse tipo de quarto…, mas tenho espaço.
Até então eu não tinha me dado conta que nunca apresentei todo o apartamento para a Clara. Dificilmente ela irá se sentir em casa se não se sente confortável em ir em todos os lugares sem precisar de autorização, mas… vou usar isso ao meu favor. Deixarei esse tour para depois da nossa viagem.
– Vamos mudar de lugar, eu vou te fazer massagem. – Clara ofereceu aleatoriamente e sem me dar opção de resposta começou a se mexer na banheira me forçando a ficar entre as suas pernas.
A massagem da minha bebê era algo um pouco desajeitado, mas fofo. Ela começou pelo meu rosto, claramente imitando as vezes que lhe fiz massagem no mesmo lugar. Depois no pescoço, ombros e obviamente seios.
– Eu já entendi o que você quer, bébé. Depois do banho eu te dou tetê antes de dormir.
– Eu pode?
– Pode sim, meu amor.
Clara deu um beijo no topo da minha cabeça e continuou sua massagem/carinho. Ficamos abraçadas na banheira até a água esfriar e nos forçar a sair.
– Me espera na cama, eu vou pegar sua fraldinha e um pijaminha. Você quer algo mais quentinho ou fresco?
– Quentinho!
Nem estava frio, mas eu desconheço alguém mais friorenta que a Clara. Qualquer tempo nublado ela já está de casaquinho e pronta para o inverno. Em contrapartida, eu estou sempre com calor e para sentir o contrário, todos ao redor estão quase congelando.
Com a minha bebê deitada na cama, coloquei a fralda de baixo do seu quadril e preparei a sua pele com pomadinha e talco. Sem birras ou manha, Clarice estava começando a aceitar a necessidade da fralda para dormir e não protestava muito. Somente quando estava de mau humor e muito cansada que fazia seu show em momentos como esse.
Apesar de optar pelo pijama quentinho, Clara reclamou ao colocar a calça e ficou só de blusa de manga e fralda. Para equilibrar, vesti meias em seus pezinhos. Era uma combinação estranha e sem sentido, mas entender a lógica da minha pequena só iria me enlouquecer junto. O melhor era só aceitar.
Me juntei a ela na cama depois de terminar o meu próprio ritual noturno. Era cedo para dormir, no entanto, não acredito que vamos fazer algo mais essa noite.
– Tetê, maman!
– Vem cá, meu amor.
Clara estava um pouco afobada quando lhe ofereci o peito e suas primeiras sugadas foram bastante desconfortáveis. Levou um pouquinho mais de tempo para se ajustar e achar um ritmo agradável. E ao contrário da minha expectativa, ela estava bem acordada e com zero sinais de sono. Em outras palavras, eu teria uma bebê pendurada no meio peito por um tempo… até liguei a televisão na minha novela no fundo.
– Acabamos não comprando um presente de aniversário para você.
– Mas você já me deu um montão de coisinhas hoje.
– E nenhuma delas foram de presente de aniversário. Você ainda não me disse o que quer e não me diga que quer nada, – me adiantei. – É melhor escolher o que quer, para depois não reclamar que exagerei.
Clara me encarou em silêncio enquanto mamava. – Eu não sei o que quero.
Me lembrei que hoje cedo Bruno me chamou para sair amanhã e tive uma ideia. Acho que comigo Clarice não irá se abrir muito, mas o Bruno é mestre em extrair a verdade das pessoas e certamente vai saber o que ela de fato quer de presente de aniversário.
– Então amanhã você vai sair com o Bruno, eu vou te dar o meu cartão e você escolhe o que quer. Pode ser assim?
– Você não vai junto?
– Eu preciso resolver umas coisas no escritório antes de entrar de férias e quero levar o carro pessoalmente para revisão.
– Tá bom, maman, tá bom. Agora deixa eu mamar, vai assistir novela.
A encarei incrédula. Olha só a audácia dessa um metro e meio… como ela teve a coragem?!
Eu sinceramente não sabia como alguém conseguia ser tão feliz com peitos como a minha namorada e bebê ficava. Hoje eu percebi que, se deixar, era capaz de ela querer ficar horas e horas mamando e haja seios para isso. Assistindo a minha novela eu nem via o tempo passar e acabei deixando Clara ser feliz até o sono lhe derrubar, no entanto, foi inevitável não julgar a sua disposição para mamar.
Eu que lute com a sensibilidade depois… aí, aí, onde eu fui amarrar meu cavalo.
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Au revoir!
