« C L A R I C E »
Os dias no hospital eram estranhos. A mesma rotina, os mesmos horários, no mesmo lugar, da mesma forma. Era como se estivesse presa no mesmo espaço de tempo. A vida acontecia lá fora e eu estava aqui sem poder sair, presa em meu próprio corpo que agia estranho.
É claro que com o passar dos dias eu fui melhorando de forma gradual e lenta, mas estava lento demais. Eu queria ver o mundo lá fora, ficaria feliz até em pegar um ônibus lotado para a faculdade e ir trabalhar. E comeria todas as comidas saudáveis que a Val me inventasse sem reclamar.
Mas ainda era uma realidade um pouco distante, ainda mais quando ficar de pé sobre as próprias pernas era motivo de celebração.
Sem ninguém por perto, Fernando estava me ajudando a ficar de pé sozinha um pouquinho todos os dias até que a Val nos pegou no flagra no sábado de manhã.
– Ela está de pé sozinha, – Fernando comentou algo antes da Val reclamar.
E realmente.
Pela primeira vez nessa semana eu estava de pé sem precisar segurar em alguém, embora o braço do Fernando estivesse poucos centímetros do meu alcance e de prontidão para não me deixar cair. Eu estava de pé sem apoiar nele.
Acho que a Val só não reclamou porque ainda estava surpresa em me ver de pé sozinha.
Tentei me aventurar um pouco mais e dar um passo em direção dela. O primeiro deu certo, no segundo as pernas ficaram bambas e no terceiro Val já estava lá para me pegar. Tudo bem que eu quase caí, mas dar três passos foi tão incrível que eu comecei a rir nos braços da Val.
Depois disso eu me empenhei um pouco mais. O tratamento era chato, muito chato, mas eu queria ir embora então aceitei colaborar… só um pouquinho. Às vezes eu só estava entediada demais e louca para ir embora então nada estava bom e eu só queria chorar e resmungar.
A única coisa boa da minha estadia eram as minhas noites. Parte de mim estava com medinho de receber alta e acabar o tetê. Sabe, a maman achar que eu não preciso mais dos nossos momentos e for tudo para o beleleu… não que eu seja uma pequena, nem nada, longe disso, eu sou bem grandona. É só que… essa aproximação é gostosa. Eu gosto.
Mas apesar dos pesares, por mais interessante que minhas noites aqui possam ser, depois de dez dias internada nada mais me animava. Eu só existia e cuidava da minha seita no Cult of the Lamb.
– Chega de jogos por hoje, Clarice – A Val estendeu a mão me pedindo o meu Nintendo Switch. Eu não queria parar meu joguinho agora, mas o seu olhar não era muito amigável, então eu entreguei em sua mão. – Très bien, – ela guardou meu Nintendo propositalmente longe. – Você anda jogando demais esse negócio. Eu não sei se estou gostando disso.
– O que? Vai me proibir de usar e deixar de castigo?
Ela não respondeu, mas seu olhar denunciou. Ela não pode fazer isso, pode?
Sem meu joguinho em mãos, me restou observar a minha namorada pelo quarto como se cada movimento fosse milimetricamente calculado. Sua mente estava claramente trabalhando a mil por hora e o tique nos dedos frenéticos entregavam o seu incomodo. Algo estava errado.
– Você está bem? – Perguntei preocupada.
– Oui.
Depois dessa resposta rápida em francês eu tive certeza; ela não está bem.
– Tem certeza? Você me parece um pouco tensa, – Val me olhou surpresa e eu dei ombros. – Eu conheço você. Vem cá, – abri os braços a chamando, – eu te dou colo… quer um tetê também?
Val revirou os olhos e me abraçou. – Bobinha, isso funciona com você.
– E se eu te fizer um oral? Funciona muito bem com você.
– O único oral que você pode me fazer agora é deixar de falar asneiras, – ela se afastou do meu abraço para ficar sentada na cama. – Como você consegue ser assim, hein?
– É o convívio com você.
Val me olhou brava e mudou sua expressão. – Nós precisamos conversar.
Ok, agora quem estava preocupada era eu. “Nós precisamos conversar” em um tom sério nunca é algo bom. E antes mesmo que eu pudesse formular uma frase para responder, em minha mente eu pensei todos os cenários possíveis dessa conversa. Obviamente só os piores.
– Você vai terminar comigo? – Fui direta seguindo a estratégia de arrancar de uma vez.
– Quoi? Clarice, non!
– Ufa, – respirei aliviada. – Por um momento pensei que fosse terminar comigo.
– Por que eu faria isso?
– Sei lá, se cansou de mim?
– Vai precisar mais que isso para me cansar de você. O assunto em questão não é sobre nós… ao menos não sobre o nosso relacionamento, – Val pegou a minha mão e me observou por um momento. – Eu sei que eu prometi que não teríamos essa conversa até que saísse do hospital, mas os ventos mudaram de rumo e agora eu preciso que conte não só para mim, mas também os nossos advogados, absolutamente tudo que aconteceu nos últimos dias que esteve com os seus parentes, nos mínimos detalhes.
“Nossos advogados?” A encarei desconfiada. Desde quando nós temos um? Ainda mais no plural! E para que eu iria precisar ter?
– Por que isso? Você vai denunciar o meu pai? Eu não sei se quero fazer isso, Val. Eu não quero ter que me encontrar com ele nem que seja num fórum, menos ainda ficar remoendo esse assunto até tudo acabar. Eu prefiro esquecer e deixar para lá.
– Je suis désolé, mon amour (sinto muito, meu amor). – Val acariciou o meu rosto. O seu olhar preocupado e cabisbaixo me deixou preocupada. – Nós não podemos fazer isso.
– Por que?
– Porque foi o seu pai quem te denunciou.
– É o que? Meu pai me denunciou por que? O que eu fiz?
– Por acaso você acertou a cabeça dele com algum objeto metálico?
Levei alguns segundos para me lembrar da fatídica noite e meu mundo parou de repente. É verdade, eu acertei sim. Duas vezes. Mas…, mas…, eu fiz isso para me defender, ele estava me machucando.
– Pela sua cara eu já sei que sim, – Val concluiu. – Seu pai está te acusando tentativa de homicídio. Ele acha que você tentou o matar.
– Que?! Não! Eu não tentei matar ninguém! Eu jamais faria isso!
Foi nesse momento que a minha ficha caiu para algo ainda pior; e se a Val não acreditar? E se ela achar que eu realmente tentei matar meu pai? E se ela deixar de me amar por isso? Eu não sou uma pessoa má! Eu não sou! Eu… eu… eu puxei o cabelo da Jujuba também, mas não sou uma pessoa má!
– Val, você precisa acreditar em mim! Eu não tentei matar ele. Ele estava me colocando contra a parede, eu só fiz isso para conseguir me soltar. Acredita em mim! Acredita em mim! Não me odeia.
Val me segurou pelos ombros e me olhou séria. – Clara, se acalma. S’il te plâit! (por favor). Eu acredito em você. E mesmo que você tivesse tentado algo contra ele, a única coisa que eu faria era te ajudar a esconder o corpo ou finalizar o trabalho. Eu sou incapaz de te odiar.
– E se eu for presa? Você viraria mulher de bandido por mim?
– Como se eu fosse deixar você ser presa, – ela revirou os olhos. – Você não tem que se preocupar com nada, d’accord? Eu só preciso que dê o seu depoimento aos advogados e o resto deixe comigo.
A Val já disse uma vez que a Margot tinha costume de “mexer os pauzinhos” por ela no passado. Eu não iria comentar, mas agora mesmo ela soou igualzinho a própria mãe. Dizem por aí que as leis não se aplicam aos ricos, será que isso também vale para as namoradas deles? Eu não sei o que pensar disso…, mas que uma skin Valkyrie Mafiosa seria muito sexy, seria…
– Quer dar uma volta no jardim? – Ela mudou de assunto.
Ir para o jardim era uma das minhas coisas favoritas nessa minha rotina hospitalar. Ar fresco, sol, silêncio… eu gostava muito, mas não podia ir sozinha… ainda, então aproveitava sempre que alguém se oferecia a me levar.
Sentir o sol contra a minha pele e a brisa fresca em meu rosto era resquício de vida e liberdade que ainda me existia enquanto estava presa aqui. Foi o suficiente para me fazer deixar o medo da prisão de lado e relaxar. Me fazia pensar o que estaria fazendo se estivesse lá fora, como poderia ser a vida… tudo isso só me fez perceber uma coisa:
– Quero milkshake.
– Não, você não quer.
– Por favorzinho? – Fiz biquinho e a cara mais fofa possível. Val me olhou com desgosto e suspirou derrotada.
– Qual sabor?
– Ovomaltine com muito Ovomaltine e bem grandão.
– Pequeno.
– Médio.
– Ok.
Sorri vitoriosa.
A Val se faz de durona, mas é um coração mole. Se eu insistisse mais um pouquinho iria conseguir meu milkshake do tamanho do mundo, mas ficarei feliz com o médio… por hoje.
Como a Val conseguiu traficar um milkshake para dentro do hospital eu não sei. O importante era que ela conseguiu e foi de longe o melhor milkshake da minha vida. Não sei se pelo sabor ou pelas saudades de um, mas definitivamente o melhor.
Eu amo a minha namorada.
Os dias se passaram e a tensão dentro de mim só cresceu. Por mais que Valquíria, os três advogados cuidando do caso e até meus sogros me garantiram que eu não precisava me preocupar, era impossível não sentir aquele medinho por trás da orelha. E se por acaso todos as tentativas darem errado? E se os juízes me considerarem culpada?
Estava tão ansiosa e preocupada que minhas noites com a Val se tornaram mais difíceis. Por mais que ela tentasse me levar para aquele estado da mente que não sabia como chamar, eu simplesmente me sentia bloqueada ou agitada demais para me permitir relaxar.
– Mon bébé, já são uma da madrugada. Eu sei que você está tão cansada como eu, por que está lutando tanto contra esse sono, hein? – Val acariciou o meu rosto.
Em resposta, eu puxei a sua camisa e afundei o rosto contra o seu peito choramingando. Minha inquietação estava me deixando frustrada também. Mas ao mesmo tempo era incapaz de pegar no sono. Dentro de mim eu sentia um desejo, uma vontade de algo desconhecido.
– O que eu faço com você, hein ma petite? – Val perguntou. – Você quer tentar mamar outra vez?
Eu não sabia que palavras usar para responder, então me calei na esperança que a maman entendesse aquilo que nem eu era capaz de entender.
– Já sei o que pode te ajudar, – apesar dos meus resmungos, a maman se levantou da cama. – Um momento, mon amour. Eu já volto.
A observei sair do quarto me deixando sozinha. O tempo se arrastou enquanto ela não voltava. O que deveriam ser menos de dez minutos me pareceu horas. Eu já estava prestes a chorar quando a Val entrou outra vez carregando dois copos de papel nas mãos e um canudo.
– Você gosta de leite puro, certo? Eu trouxe dois…, mas estão quentes. Será que você consegue tomar com isso aqui sem se sujar? Eu não sei se tem uma mamadeira aqui para você tomar deitada.
A maman entrou no quarto ao lado e voltou logo em seguida com uma mamadeira.
– E não é que não tinha uma mamadeira mesmo? – Ela sorriu e o seu sorriso me trouxe uma certa paz.
Eu não entendia nadinha do que a maman estava fazendo e não via a hora de ela deitar comigo outra vez. Quanto mais demorava, mais eu me sentia incomodada e frustrada com a espera. A agitação me bateu forte outra vez e eu não consegui me conter.
– Oh, mon Dieu, mon bébé est fatigué. Maman met beaucoup de temps, n’est-ce pas, mon amour ? Maman s’en va déjà, ma vie (oh, meu deus, meu bebê está cansado. A maman está demorando muito, né meu amor? A maman já está indo, minha vida).
A maman se deitou do meu lado e eu rapidinho grudei seu corpo no meu. Sentir seu cheirinho e calor me ajudou aquietar um pouco. Eu queria mimir e não aguentava mais ficar acordada, mas o sono não vinha.
– Aqui, bébé. Toma um leitinho para te ajudar a dormir.
Eu não queria leitinho da mamadeira, eu queria do tetê. Por que a maman não quer dá leitinho do tetê pr’eu?
– Você não vai encontrar nada aí, ma petite. Toma a sua mamadeira e eu te dou tetê depois.
Choraminguei frustrada, mas aceitei a mamadeira. Não era bem o que eu queria e mesmo assim, quando o leitinho bateu o sono veio junto… por pouco tempo. Eu não sei por quanto tempo eu dormi, só sei que muitas vezes acordei e demorei a voltar para o soninho gostoso.
Desisti de dormir pouco antes do horário que o meu sogro costumava chegar e fui direto para o meu banho. Se eu sentia que não consegui descansar a noite inteira, Val com certeza descansou bem menos. Ela normalmente é a primeira acordar e agora estava largada na poltrona ao lado da cama como quem foi vencida pelo cansaço. Eu até tentei mudar sua posição para algo menos desconfortável, mas quem disse que eu consegui?
Voltei do banho e como minha namorada estava dormindo ainda na mesma posição, eu só tirei a mamadeira da sua mão para lavar na pia do banheiro e esconder antes que alguém chegasse. E foi no timing perfeito, por que assim que voltei para o quarto principal, Fernando entrou com o seu típico bom humor.
– Olha só quem está de pé, – ele comentou surpreso. – O que está fazendo fora da cama?
– Tomei banho, – dei um sorriso amarelo.
Fernando estreitou o olhar desconfiado. – E cadê a minha cria? – Apontei para a poltrona e ele acompanhou com o olhar. – Jesus… eu vou dar um jeito nisso.
E era claro que, o que eu não fui capaz de fazer por falta de força, Fernando conseguiu como se fosse nada. Eu só tentei mudar de posição e ele simplesmente pegou a Val no colo e colocou na cama do quarto ao lado como se fosse a coisa mais leve do mundo.
– A Val não vai gostar de acordar lá não.
– A Chloée vai sobreviver. Já tomou o seu café da manhã? – Neguei com a cabeça. – O que acha de tomar um café da manhã ao ar livre?
Deve ser muito legal viver com tratamento VIP. Eu nem sabia que era possível tomar café da manhã no jardim do hospital, mas o Fernando conseguiu que fosse servido em uma das mesinhas de metal que haviam lá. De repente ele fez com que um hospital ficasse com cara de hotel e eu amei. E eu pensando que só a Margot possuía os poderes…
Quem não gostou dessa nossa aventura foi a Val. Juro que nunca vi essa mulher saí com os cabelos despenteados em publico e ela apareceu no jardim tal qual uma fugitiva da ala psiquiatra depois de um tempo que estávamos ali.
– Como você tira a Clarice do quarto sem deixar um aviso? Tem noção o quão desesperada eu fiquei?
– Não tenho noção, mas posso ver – Fernando sorriu. – Sente-se aí, tome café da manhã conosco.
– Achou que eu tinha fugido, foi? – Brinquei.
– Não sei. Do jeito que você adora me enlouquecer, eu não ficaria surpresa, – ela se sentou a mesa ao meu lado. – Que horas são? Eu preciso passar em casa antes de ir ao escritório, acho que estou atrasada.
– Se você quer chegar às 09h e passar em casa antes, você está definitivamente atrasada… come um damasco, eu sei que você gosta – estendi o garfo com um pedaço para ela e ela aceitou. – Não tem banana… eu queria banana.
– Eu trago banana para você quando voltar.
– Eu já disse que te amo hoje? – Ela me deu um beijo no rosto e comeu o que ofereci na boca.
– Então era assim que você se sentia, minha filha? Uma tocha olímpica observando sua mãe e eu.
Val negou com o dedo enquanto mastigava o outro pedaço de damasco que lhe dei na boca. – Não, vocês dois são piores.
Eu ri da careta que a minha namorada fez. Meus sogros parecem um casal bem… apaixonado. Se eu já notei que ele estão sempre se tocando quando estão próximos e sempre trocam gestos de afeto, prefiro não saber o porque dessa careta da Val.
– Hoje é aniversário de namoro da sua mãe e eu, – Fernando comentou mudando de assunto. – Nós vamos para o Rio de Janeiro celebrar no restaurante que tivemos nosso primeiro encontro.
– Vocês dois já não estão casados?
– E daí? Vamos celebrar mais um ano juntos. Espero que não se importe por te deixar essa tarde, Clara.
– Imagina! O Theo vai vir no horário do almoço e a Glória e Lari também disseram que virão em algum momento.
Os dois são fofos…, mas isso é demais. Eu e a Val nem temos uma data oficial de namoro. Pior, sequer fizemos o pedido, simplesmente começamos a nos namorar e era isso. Eu sou péssima com datas. Imagine se a Val se importasse como os pais dela? Iriamos brigar todos os meses.
Val ficou pouco tempo conosco e teve que ir embora. E meu sogro e eu não ficamos muito no jardim depois disso também. Eu estava com dor de cabeça desde que acordei e queria um remédio na veia, então voltar para o quarto foi a decisão mais sensata.
Minha manhã com o Nando foi legal. Nós fizemos as unhas enquanto fofocávamos sobre o passado da Val. A essa altura eu já sabia todas as suas histórias de infância. Também falamos sobre crochê, comida e a novela mexicana que o Nando e a Val estavam assistindo até eu ser internada.
Coitadinha do meu amor, nem tempo para assistir suas novelinhas ela tem mais.
Depois que o meu sogro foi embora, Theo veio me visitar em seu horário de almoço. O escritório ficava a dez minutos do hospital e a chefe dele o mandou fazer uma “vistoria” em uma “obra” o que nos dava um tempo extra juntos. Por fim foi bom que o Nando já não estava mais já que o Theo me traficou McDonald’s.
– Quando você vai sair desse hospital, hein? – Theo perguntou. – Eu já tinha me esquecido como era a sua namorada de mau humor. Ela está comendo o juízo de todo mundo.
– Você deve estar exagerando.
– Estou te falando. Quando você estiver acordada e todo mundo vier te visitar você pergunta a eles.
O pessoal do trabalho já tentou me visitar duas vezes e nas duas eu estava dormindo. O que eu poderia fazer, né? Eu preciso aproveitar enquanto posso, logo mais não poderei mais dormir nos horários mais inconvencionais possíveis.
– Vocês são exagerados. Ela nem é lá tudo isso.
– Com você, né gata?! Você é o equilíbrio daquele escritório e cada diz fica mais nítido. Então trate de melhorar logo para voltar. Nós temos muito que fofocar… aliás, eu fiquei sabendo o que os gêmeos estão aprontando com você, – Theo mudou de assunto. – A Val me contou.
– Alguém mais sabe?
– Não. Além de nós dois, só a Giovana sabe. Sua mulher quer o máximo de discrição no assunto. E eu entendo. Tem uma gentinha ali que adora uma fofocar, iriam falar horrores por muito tempo.
Só de pensar nisso me senti envergonhada. O que pensariam de mim se soubesse disso?
– Eu fui visitar a minha avó, – Theo comentou me deixando surpresa. – Eu sabia que meu pai estava lá, mas eu sabia que a minha avó não iria jogar nada meu fora mesmo eu morando longe… e eu tinha certeza que tinha escondido em algum lugar aquelas fotos e os documentos que levamos na delegacia.
Tentar denunciar meu pai foi a maior loucura que tentamos fazer e o resultado foi muito desastroso. Ficamos os três de castigo. O pai do Theo – tão delicado quanto o meu – deu uma “boa lição” para aprender e eu tenho certeza que isso foi o pivô do divorcio dos pais dele. A Laris também não ficou muito atrás nas mãos da tia Lúcia e nós duas sofremos pequenos maus tratos por semanas. E com meu pai nada aconteceu… foi aí que eu aprendi que a única solução era me mudar para longe deles.
– Eu sei que não tem nada a ver como caso de agora, mas talvez isso ajude em algo…
Eu andei procurando e encontre no nosso histórico do Facebook as fotos de uma das vezes que… enfim. Não tem a ver com o caso de agora, mas pode ajudar a mostrar quem ele realmente é. Só que eu só vou entregar isso para alguém se você permitir.
Mordi o lábio preocupada. Eu não queria ir tão a fundo, mas eu tinha medo que minha inércia fizesse com que o Luís saísse de vítima nessa história quando ele não é.
– A essa altura, eu acho que devemos usar todas as armas que podemos. Se você tem essas fotos… use.
A ideia de revirar o passado não era nada legal, mas ser presa era pior ainda. Eu vou deixar quem entende do assunto tomar as decisões. Eu não vou conseguir fugir para sempre.
– Eu acho que se a gente procurar com o coração ainda conseguimos mais provas.
– Você voltar para a casa da sua avó com seu pai lá por minha causa?! Não. Já temos o suficiente. O Luís acha que está brigando comigo, mal sabe ele que está contra a Val e isso é mil vezes pior.
– Ele vai receber o que merece.
Eu ainda não sabia o que sentir com tudo isso. Tudo que eu queria era que me deixassem em paz na minha, mas agora tenho que lidar com isso. Por que esse idiota não ficou na dele? Teria sido tão mais prático para nós dois.
O Theo foi embora e eu aproveitei meu tempo sozinha para pintar aquarela. Como raramente estava só, eu quase não mexi no presente que a Val me deu. Eu não me sentia confortável pintando com alguém me observando. E como eu estava viciada em vídeos de cachorrinho maltês, eu decidi pintar um.
Meu amorzinho disse que voltaria mais cedo hoje para ficar comigo, eu estava prestes a ligar para saber quando chegaria quando a porta se abriu. Um sorriso enorme surgiu em meus lábios, afinal, esperava ver a minha pessoa favorita e bananas, mas fui surpreendida com uma visita inesperada.
– O que você está fazendo aqui? – Perguntei séria.
– Você ainda é a minha sobrinha, Clarice. Deus salvando a sua alma ou não.
Sem pensar muito, eu apertei o botão de ligar do celular cinco vezes para acionar o sistema SOS de emergência para pedir ajuda. Apesar de preso a cama, o controle para chamar a enfermeira estava em cima da mesinha e a Lúcia certamente iria fazer algo se tentasse pegar.
– Agora entendo por que não voltou. Você está muito bem, não é mesmo? Hospital caro. Recebendo muitos presentes. Sempre com visitas… realmente, com tanta tentação assim, é difícil enxergar a verdade.
– Eu não vou dar ouvidos a sua conversa. Se veio aqui tentar me converter, desista. Não vai funcionar.
– Eu vim conversar, Clarice. Apesar de não estar de acordo com a sua atitude, também não gosto do que o Luís está fazendo. Pais e filhos não devem estar um contra o outro, menos ainda na justiça. Vocês dois precisam conversar e se acertarem.
O meu celular começou a tocar em minhas mãos, era a Val. A Lúcia foi rápida ao pegar o aparelho e deixar sobre a mesa ao lado da cama. Eu não tinha nem forças e rapidez para competir com ela. Meu único objetivo era tentar manter a calma e não sangrar.
– Eu não quero conversa com aquele monstro e nem com você. Então vai embora.
– O “monstro” que está se referindo é o seu pai e o homem pelo qual a sua mãe se apaixonou um dia. Você sabe muito bem que ele nem sempre foi assim. Seu pai está perdido. Está sofrendo ainda pela a Aurora.
Travei a mandíbula furiosa. Eu não quero que essa bruxa fale da minha mãe. Não quero!
Lúcia começou mais um dos seus discursos sobre o amor da família e o que a bíblia fala. Enquanto isso meu celular não parava de tocar e vibrar sobre a mesa. Val provavelmente estava desesperada sem minhas respostas.
– Nenhuma das suas desculpas justificam as atitudes dele. Eu perdi a minha mãe e não me tornei o que ele se tornou.
– Os homens dizem que nós somos o sexo frágil, mas são eles os fracos. Quando você tiver o seu marido vai entender.
– Eu não vou ter um marido. Eu sou lésbica, tia! Lésbica. – Olhei para o celular tocando mais uma vez. – E se continuar aqui, a minha futura esposa vai te expulsar daqui a força.
– Eu sou sua família. Nós temos ligação direta. Ela não é nada sua e hospital nenhum irá dar preferência a ela.
Até eu ri. – Você não faz ideia do que está falando, Lúcia.
– Faço. E é por isso que, como a sua família, já pedimos uma liminar para você ser transferida para outro hospital. Você não vai continuar seu tratamento aqui.
– Você não pode fazer isso.
– Posso, porque sou sua família.
– Você não é a minha família!
Tia Lúcia se aproximou e segurou meus ombros. – Você está alterada, Clarice. Fique calma.
– Não! Não! Tira a mão de mim! Se você não tirar a mão de mim eu vou gritar! – Lúcia tampou a minha boca com a mão abafando meu grito.
– Sem gracinhas, Clarice. Para já com isso. Eu estou mandando.
No passado eu costumava a ter medo dessas ameaças. Tia Lúcia sempre foi má, muito má, mas agora eu sei que ela não pode mais me machucar e nem mandar n’eu. Sabe por que? Porque eu só tenho medo da maman!
Sem pensar duas vezes eu mordi a mão dela com força e por impulso ela me deu um tapa no rosto de volta. Nós duas nos encaramos sem reação por alguns segundos, foi o tempo que levou para meu cérebro processar o que aconteceu e eu levar as mãos onde doía. Meus olhos se encheram de lágrimas, eu sentia que iria explodir.
– Vous fils de pute! (Sua filha da puta!) – Val puxou o cabelo da bruxa má com tanta força que ela se desequilibrou e caiu no chão. – Quem é você?
Ver a maman ali foi a última gota de água para eu me desabar de vez nas lágrimas e chorar. Ela largou tudo para vir me abraçar e eu chorei contra o peito dela.
– Dói! Dói! Dói! Tá dodói!
– Eu vou chamar os seguranças e a polícia, – a Juliana disse. – Bruno segura essa mulher do lado de fora longe da Clarice.
– Vem, piranha. E é melhor vir quietinha. Se aquela psicopata avançar em você eu não vou impedir não.
A maman me afastou do abraço para ver o meu rostinho e me deu beijinhos ao redor de onde estava dodói. – Vai passar, mon bébé. Vai passar. A maman está aqui com você.
Ela me pegou no colo e me levou para o sofá. O meu rostinho ainda estava dodói e ardido, mas o tetê me ajudou ficar mais calminha e parar de chorar. O medo que estava sentido foi passando aos poucos e nos braços da maman eu me sentia segura mesmo com a bruxa má no corredor.
Aos poucos a noite mal dormida e o dia agitado sem sonequinhas pesaram meu corpo. O colo da maman também não ajudava muito. Era confortável demais e tornava lutar contra o sono muito difícil. Não resisti muito e acabei me deixando levar para o soninho.
« V A L K Y R I E »
Eu ainda estava processando tudo que aconteceu sem entender. Um momento estava comprando bananas para a minha garota e de repente recebo alerta de emergência em meu celular. Na hora pensei que fosse algum engano, afinal, se fosse uma emergência médica ela teria acionado os enfermeiros e não me passou a cabeça a possibilidade de outro tipo de emergência. Mas então Clara não me atendia e não respondia minhas mensagens, meu pai não estava por perto, Bruno e Juliana estavam no mesmo ambiente, mas também levaram um tempo para atenderem ao celular.
Por fim chegamos os três ao mesmo tempo no exato momento em que a desgraçada ousou encostar o dedo na minha bebê. Eu nem pensei, só puxei o rabo de cavalo dela para a afastar e sinceramente teria ido para cima se a Clara não estivesse desesperada por mim.
Quem era a filha da puta? Eu queria perguntar a Clara, mas ela saiu de um estado de nervosismo para completo sono em um tempo recorde. Eu não tive coragem de interferir, era melhor que dormisse mesmo.
– Kyrie? – Juliana bateu na porta de leve. – Posso entrar? – Ela provavelmente esperava que estivesse acalmando a minha pequena e não iria interromper.
– Oui, – respondi baixinho. – A Clara dormiu.
A Ju entendeu o recado e fechou a porta lentamente para evitar ruídos. – A polícia vai levar a mulher para a delegacia.
– Como ela entrou aqui?
– Não tinha restrições de entrada e como ela é parente da Clara, conseguiu entrar apenas apresentando os documentos. Lúcia Souza, conhece?
Mordi o lábio para me conter e não acordar a Clara. – É a irmã do pai dela… como essa desgraçada descobriu onde a Clara está?
– Eu não sei. O que extrai do pessoal da recepção é que não era a primeira vez que ela vinha até aqui. Disseram que ela veio outros dias, mas não subia porque Clara já estava acompanhada.
Agora fazia sentido ela ter aparecido justamente no dia que meu pai não estava para a proteger. Me pergunto como ela descobriu o hospital em que a Clara está internada. Preciso saber de onde essas informações estão vazando para evitar que se repita no futuro. Eu quero essa mulher e todo o resto da família longe da minha pequena… receio que minha mãe esteja correta; Clarice precisa de um segurança.
Mais uma preocupação para a lista.
– Você precisa de algo mais? Eu… tenho itens de emergência… da Jujuba… se você precisar.
– Nós estamos bem, mas obrigada.
– Certo. Estarei a uma ligação de distância. O Bruno disse que voltará assim que puder. A segurança do hospital também foi notificada, então não terá que se preocupar. Posso chamar a Gio se também precisar.
– Acho que não será necessário. Eu não vou a lugar nenhum e se essa mulher voltar aqui ela irá levar mais que um puxão de cabelo.
Até apertei minha bebê um pouco mais. Essa vadia teve sorte, se eu não tivesse que consolar a Clara, eu iria desconfigurar a cara dela. Iriamos as duas para a delegacia e eu não iria me arrepender.
A soneca da bebê foi tão rápida quanto o tempo que levou para pegar no sono. Esperei que fosse ficar manhosa e tristonha com o que aconteceu, mas ela apenas bocejou, coçou os olhos e me perguntou:
– Cadê banana?
É… Clarice definitivamente era a personificação da Magali.
Por vários dias eu tentei evitar o inevitável dando tempo para a Clara se recuperar um pouco mais antes de ser submetida a um stress. Entretanto, com a visita de sua tia, eu não tive escolha senão agendar o depoimento para o dia seguinte.
Sinceramente pensei que fosse a Clara quem ficaria nervosa com a situação e por fim, quem estava nervosa era eu. Theo deu o testemunho pela manhã no escritório e entregou as provas que encontrou. Eu nem estava lá, mas fiquei o tempo todo inquieta ao lado de Clara que ficou assistindo vídeos de cachorro na maior paz do mundo.
Os advogados chegaram pela tarde após o almoço. Felizmente eu pude ficar ao lado da minha bebê segurando a sua mão enquanto relatava tudo que aconteceu na noite do crime. Ela chorou quando abordou as agressões do pai durante sua infância e adolescência e eu chorei junto.
E pensar que se eu acompanhasse a minha mãe todas as vezes que me convidou para exposições de artes quando era mais nova. Ou se me animasse em viajar apenas para isso, eu certamente teria conhecido a Clara antes mesmo que tudo isso tivesse acontecido. Dificilmente teríamos a mesma aproximação de agora, mas muita coisa poderia ter sido diferente. A começar pelo fato de que eu já era maior de idade quando o Theo tentou denunciar o pai dela pela primeira vez.
As perguntas – necessárias, mas invasivas, – dos advogados estavam me deixando desconfortável por ver como isso afetava a Clara. Eu estava vendo o momento em que ela iria chegar em seu limite e regredir. Inferno! Se eu pudesse acertar a cabeça desse desgraçado do Luís com um troféu, ele iria parar da mesa de cirurgia do Bruno para remover essa merda. Mesmo sem estar aqui ele conseguia fazer a minha neném chorar e eu o odiava por isso.
Foi necessário um autocontrole e paciência de um Buda para aguentar as quase três horas que ficamos ali naquele quarto de hospital ouvindo e interrogando a Clara. Depois disso, eu me sentia na obrigação de traficar outro milkshake para ela. Não agora e nem hoje, afinal, não havia possibilidades de a deixar sozinha para isso no momento, mas em breve.
– Maman? – Clara me chamou depois que os advogados saíram e estávamos a sós outra vez. Era a primeira vez que seu lado pequeno me pedia colo e conforto e eu me derreti totalmente. Nem lembrava mais que estava irritada com toda a situação, eu só queria pegar meu bebê no colo e o amar.
– Eu estou aqui, mon bébé – Clara me agarrou em um abraço quando me aproximei e aproveitei da situação para a carregar para o sofá comigo. – Já passou, ma petite. Acabou. Não precisa chorar.
Clara continuou a chorar mesmo assim. Ela estava sensível depois de ter que ser forte por tanto tempo e muito corajosa por desenterrar um passado que só queria esquecer. Mas tudo bem, eu vou cuidar do meu neném e ajudar a sarar.
Mudei a nossa posição no sofá para Clara se deitar em meu colo, levantei minha blusa e ofereci o seio para a pequena mamar. Por causa da sua agitação, ela demorou um pouco para pegar o peito, mas assim que conseguiu, ela se acalmou um pouco.
É… eu acho que vou ter que começar a considerar usar outro tipo de sutiã se eu quiser continuar amamentando minha bebê.
Clara mamou, mamou e dormiu. Eu ainda esperei um pouco mais antes de tirar o peito da sua boca e continuei a abraçar em meu colo. Ficamos assim até eu tomar coragem de a deitar na cama outra vez. Já aproveitei para colocar uma fralda e evitar acidentes já que ela dormiu pequena. Ainda era cedo para isso para induzir a sua regressão, mas sentia que era o que ela precisava.
Que semana infernal… agora que a equipe médica está estudando a possibilidade de a Clara continuar o tratamento de casa, eu acho que essa é uma ocasião perfeita para uma viagem para o Rio de Janeiro. A mamie (vovó) Hélène é um porre e eu quero evitar esse encontro, mas a vovó Geralda é um doce e certamente terá algumas receitas milagrosas para anemia. Uns dias na fazenda não fará mal.
Hora de planejar uma mini férias…
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Au revoir!
