Elora Aneva

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24. Valkyrie Álvares Cabral

« V A L K Y R I E »

Observar o efeito Clarice em minha vida era algo um tanto… intrigante.

Acho que nesses 31 anos de vida, nunca antes vivi tantas “fortes emoções” em um período tão curto de tempo. E quando eu penso que não pode ser ainda mais caótico, ela vai lá e me surpreende me pegando desprevenida. Mon dieu, como eu odeio ser pega de surpresa e desprevenida. Odeio agir no improviso e bem, conviver com Clarice é isso: improvisar a todo instante.

E surpreendentemente, eu não consigo deixar de a amar, muito menos querer me livrar desse caos que é o dia-a-dia ao seu lado.

Eu a amo, isso é um fato e indiscutível. Depois de tudo que eu senti e vivi nessas últimas horas, não há nem espaço para questionamento sobre os meus sentimentos. Para eu estar tão certa disso, é porque é real.

Sendo autista eu sempre questionei meus próprios sentimentos. Era estranho ouvir das pessoas que eu era apática, fria ou insensível quando dentro de mim eu achava que amava demais. Levou anos de terapia para entender que não eram os meus sentimentos que eram errados ou confusos, e sim, as pessoas que não entendiam a minha forma de amar. Embora eu saiba disso hoje, ainda levo tempo para distinguir o que é uma obsessão momentânea ou que é algo real e duradouro.

Eu tinha mais suspeitas antes, hoje eu tenho certeza: o meu amor é muito, muito, muito real e se depender de mim e a Clarice aceitar, irá durar por toda a eternidade.

– Eu estou aqui, – repeti enquanto acariciava as costas dela. – Não chora, meu amor.

Sinceramente, quando Clara começou a chorar durante o banho, me bateu um desespero. Os médicos ainda não deram um diagnóstico definitivo sobre o que ela tem. Existem algumas suspeitas e somente os exames poderão confirmar o que é ou não. No entanto, enquanto não há a resposta concreta, uma coisa é certa: Clarice não pode se estressar, agitar, ficar nervosa ou qualquer coisa que possa aumentar sua pressão e desencadear mais um sangramento. Em outras palavras, chorar não é uma opção.

Para a minha sorte, Clarice se acalmou até que rápido. Mesmo assim, por via das dúvidas, deixei que me abraçasse – mesmo que me molhando completamente – para manter seu rosto reto e evitar que seu sangue encontrasse o caminho de saída. Foi triste a ver tão quieta e calada, normalmente a minha namorada adora fazer piadas e é bastante vocal durante o banho, mas dessa vez ficou em silêncio a todo instante.

Larissa não soube me passar todos os detalhes do que aconteceu, até porque ela mesma não estava lá desde o início, mas era evidente que isso afetou a Clara e eu queria matar a vadia da tia e o pai dela por a deixar triste e abatida.

Quando molhei o cabelo de Clara, ela me apertou com um pouco mais de força. Por um momento pensei que a água estivesse fria ou quente demais, mas estava normal. Ela mesmo já tomou banho com água muito mais quente que isso e eu já disse que não é saudável, mas sempre muda a temperatura quando está sozinha no chuveiro.

– O que foi, meu amor?

Clara levantou o rosto para me olhar. – Não machuca eu, por favor.

Meu sangue ferveu. Eu queria questionar e entender por que ela me pediu isso, mas Clara estava com uma expressão de que iria chorar a qualquer momento. Para evitar o choro, eu apenas a consolei.

– Não, mon amour – a acariciei o seu rosto. – Eu não vou te machucar, d’accord? Você confia em mim? – Ela assentiu e eu lhe dei um beijo. – Vai ser rapidinho.

– Tá bom.

A imagem do amor da minha vida ensanguentada ainda estava em minha mente desde ontem à noite quando a encontrei no hospital. Eu mesma a limpei com toalhinhas umedecidas enquanto aguardava a sua transferência para cá e ainda assim seu cabelo foi uma parte que só se resolveria com um verdadeiro banho. E era por isso que insisti em continuar mesmo entendendo que talvez tudo isso estivesse causando algum gatilho. Parte de mim sentia que precisava a limpar do que passou e deixar o passado ir embora ralo abaixo.

De banho tomado, pijama confortável, cabelo limpo e penteado, Clarice estava impecável… e eu, um puro desastre. Confesso que até tentei me ausentar por cinco minutos e tomar o banho mais rápido do mundo, mas Clara ameaçou a chorar e eu fiquei. Com a roupa molhada e toda acabada, eu fiquei.

– Deita comigo? – Clara pediu.

Dei um beijo em sua mão que estava segurando. – Eu não posso deitar com você nesse estado, mon amour. Vou molhar a cama e o seu pijama.

– Só um pouquinho?

Eu me sentia entra a cruz e a espada. Meu lado racional dizia “não”, eu não deveria me deitar com a Clara pelos mesmos motivos que já dei. E o meu lado emocional estava sofrendo com a possibilidade de dizer não para esse olhar tão fofo. Só um pouquinho não faria mal, faria?

Para o meu alívio, meus pais apareceram no quarto com um buquê de flores e alguns presentes nas mãos, me tirando da responsabilidade de tomar uma decisão. Eu rapidamente me coloquei de pé da beirada da cama e “cedi o espaço” para que Clara recebesse a sua visita.

– A bela adormecida acordou, – meu pai disse animado. – Como você está, Clara?

– Com fome.

– Estar com fome é um bom sinal. Normalmente quando se está mal, a primeira coisa que deixamos de fazer é comer – minha mãe comentou. – Ela ainda não recebeu a janta, Valkyrie? – O tom da minha mãe mudou completamente quando sua fala foi direcionada a mim.

– Não, eles disseram que irão trazer a qualquer momento.

– E você não fez esse momento ser agora? A Clarice está com fome.

Era impressão minha ou minha mãe estava me fazendo cobranças em favor da Clara? Ela nem disfarça o favoritismo, é isso? Não foi preciso que eu fizesse nada. Com a minha mãe por perto, tudo acontece em um passe de mágica. Sempre foi assim, ela respira e todos estão correndo ao seu redor para que suas vontades fossem atendidas. O tratamento não era muito diferente dos meus outros parentes por parte materna, mas acho que o fato da Margot estar pouco se importando em se sentir VIP, a torna ainda mais VIP. Minhas tias surtam se não recebem a atenção que esperam receber…

Eu aproveitei a distração de Clara para sair de fininho e ir tomar um banho e me livrar das roupas molhadas que estavam me agoniando. Anexado ao quarto do paciente, havia um pequeno quarto para acompanhante com o básico para sobreviver uma – breve, assim espero – estadia. Poderia facilmente dormir aqui ou até mesmo trabalhar, mas quem conseguiria ficar em outro lugar senão ao lado do seu amor dentro de um hospital? Eu não consigo me imaginar dormindo aqui, por exemplo.

Com meus pais por perto, eu me dei o “luxo” de tomar um banho sem ser cronometrando os segundos. Por um momento, pensei que Clarice fosse reclamar da minha “demora”, mas quando voltei para o quarto, ela estava bem entretida recebendo comida na boca, enquanto meu pai mostrava empolgado todos os presentes “anti-tédio” que havia trazido e Giovanna – que havia chegado na minha ausência – o acompanhava na empolgação. Em outras palavras – cruéis e duras – Clarice sequer teve chances de notar a minha ausência…

Observando a cena, eu não me lembrava de relacionar com alguém que fosse tão amplamente aceito pelos meus pais e amigos mais próximos. Só fato dos meus pais a aceitarem dessa forma era um milagre divino e digno de menção honrosa. Não é nada fácil inserir uma estranha num ambiente com duas autistas, salvas raríssimas exceções. Felizmente, Clarice era uma delas. E bem, quanto aos meus amigos… acho que Bruno e Giovana já estavam nos vendo como um casal antes mesmo que nós duas cogitássemos a possibilidade.

Será que era o destino? Fica difícil não acreditar até mesmo para mim que nunca dei ouvidos ao assunto.

Clara estava tão distraída vendo meu pai e a Giovana que tive a impressão que comia sem prestar atenção no que estava sendo colocado em sua boca. Ela não era exatamente a pessoa mais saudável para comer. As poucas vezes que a vi comer comida saudável foi porque eu fiz ou escolhi o restaurante, fora a isso suas opções eram sempre as piores possíveis.

Nós abrimos os presentes, ouvimos casos da vida, jogamos umas partidas de Uno. Nem parecia que estávamos todos tensos e apreensivos observando o quanto Clara estava visivelmente fraca e cansada. Exceto por ela, nós todos sabíamos que a principal – e mais preocupante – suspeita que os médicos tinham em relação ao diagnóstico de Clara era uma possível leucemia. No entanto, enquanto não saía o resultado de alguns exames mais precisos, não existia uma resposta definitiva ou tratamento adequado.

A decisão de aguarda a confirmação antes de comunicar a Clara foi um consenso de todos. A princípio não gostei da ideia de esconder algo tão sério e manter Clara no escuro sobre a própria saúde, mas fui convencida a me manter em silêncio. Se eu estava ansiosa, tensa e nervosa com toda a situação, imagine a minha namorada que é a principal afetada? Para alguém que precisa se manter calma para não agravar a situação, essa notícia não seria nada útil.

Até poucos dias atrás achava que a visita surpresa dos meus pais estava apenas servindo para me enlouquecer, mas ter os dois por perto em um momento como esse foi o melhor que poderia ter me acontecido. Os meus amigos são ótimos para dar apoio e suporte, entretanto, nenhum deles são capazes de superar Margot e Fernando. Os dois me estressam e são a razão dos meus fios de cabelo branco, mas a vida sem eles seria péssima e eu os amo muito. Sou muito sortuda, eu sei… queria eu que a Clara também tivesse tido a mesma sorte que eu.

– Uno, – eu disse, pela terceira vez.

– Vocês duas estão roubando, não é possível – meu pai reclamou. – Eu não te criei para ser assim, minha filha.

– Pois é, que feio – Giovana colocou ainda mais pilha.

E não, por mais que Clara e eu estivéssemos jogando como uma pessoa só, não estávamos trapaceando no jogo.

– Ora, eu tenho culpa se vocês não têm estratégia alguma?

– E existe estratégia para jogar Uno? – Giovana perguntou revoltada e então assumiu sua postura de sempre. – Embora eu tenha adorado perder para vocês duas, ou três vezes seguidas, eu preciso partir. Minha esposa já deve ter terminado seu horário maluco de trabalho por agora. Pequena Clara, eu espero te ver ainda melhor quando voltar. Foi bom te ver acordada, mas quero te ver andando. Pode ser?

– Pode deixar!

– Eu vou indo então, – Gio cumprimentou a todos com um rápido beijo no rosto. – Até a próxima.

– Eu vou te acompanhar. Eu ainda não tive chances de agradecer a Ju – eu disse e Clara imediatamente segurou a minha mão.

– Você vai me deixar sozinha?

– Não, meus pais vão ficar com você. Eu não demoro.

– Mas eu não quero que você vá! Fica comigo! Fica comigo!

Olhei para Clara sem reação. Primeiro por não entender o porquê dessa reação. Segundo, por ver seus olhos começarem a marejar e o desespero de não deixar essa menina chorar subia.

– Deixa as chatas saírem, vamos jogar batalha naval – meu pai interviu. Ele me conhecia bem demais para saber quando eu estava em estado de “choque”. – Eu duvido você conseguir ganhar de mim.

Clara trocou olhares entre meu pai e eu completamente dividida. Ela claramente queria jogar e ao mesmo tempo estava insegura em me soltar.

Dei um beijo no topo de sua cabeça e sorri ao atrair sua atenção para mim. – Joga a sua rodada de batalha naval. Eu não vou demorar a voltar.

Demorou alguns segundos de delay até que Clara me soltou e decidiu jogar com meu pai. Era inegável que o comportamento dela estava muito estranho desde que acordou e eu não sabia até que ponto isso era devido ao que lhe aconteceu esse último final de semana. Ainda era muito cedo para essa conversa, eu teria que ser um pouco mais paciente.

Giovana estava no corredor usando o celular enquanto me esperava.

– Consegui sair. Desculpa te fazer esperar.

– Sem problemas. Os pequenos realmente ficam manhosos e carentes quando estão dodói, mas nada que colo e peito não resolvam – fiz uma careta confusa.  – Você sabe que está lidando com uma little, não sabe?

Eu a olhei desconfiada e confusa por um momento antes de responder. – A Clarice já disse com todas as palavras que não é uma little.

– Tal qual todos os outros littles que não sabem e/ou não aceitam que são, – Gio riu. – Conheço vários que falavam isso, parece até um protocolo padrão.

Nós começamos a andar pelos corredores do hospital. Eu não sabia exatamente para onde íamos, mas a Giovana parecia conhecer esse lugar como a palma de sua mão e não me surpreende. Ela é casada com a diretora executiva do único hospital brasileiro na lista dos cinco melhores do mundo, em outras palavras, a Juliana praticamente mora aqui de tanto que trabalha. Sim, é estranho pensar que a pequena mais pequena do Apex em seus momentos grandes é simplesmente tudo isso.

– Por que você acha que a Clara é pequena?

– Valquíria, eu sou mommy antes mesmo de conhecer a minha esposa. Reconheço um pequeno de longe e posso afirmar com toda a certeza; a Clarice é uma pequena sim. E me parece que é uma pequena além do ageplay, que não tem muito controle sobre a regressão, assim como a minha esposa, – Giovana me observou por um momento. – Você não acredita em mim, não é mesmo? O que mais poderia explicar o comportamento dela, Val? O lado pequeno dela está escapando.

– Ela acabou de passar por uma situação traumática, talvez seja isso – Gio continuou me encarando com julgo em silêncio. – Ela quase surtou com a possibilidade de ter que usar uma fralda. Praticamente todos pacientes desse andar estão usando uma agora e não são pequenos. Por que justamente a “pequena” iria ser contra?

– Porque ela ainda não entende o que está acontecendo e tem medo. São poucos os pequenos que regridem sem antes fazer um show assustados com a “descida”. Clarice está sozinha agora, é óbvio que sentirá assustada em escorregar por achar que estará em queda livre e ninguém irá a pegar lá em baixo. Até ela perceber que o escorregador é curto e seguro, leva um tempinho.

– Mas ela não está sozinha.

– Eu não sou a mommy dela, você é? – Eu não respondi a provocação. – Me surpreende que você ainda não tenha feito nada. Tudo bem que você nunca foi uma mommy, mas você é a porra de uma domme e está deixando uma pequena fazer o que bem quiser. Aquele homem realmente te estragou.

Revirei os olhos. – Eu não tenho esse tipo de relacionamento com a Clara.

– Pois deveria. Os pequenos precisam de regras e disciplina além do amor, carinho e cuidado. Sem isso eles vão ser uma ameaça a eles próprios. Veja só a minha esposa, ela é literalmente a diretora executiva desse hospital. Consegue colocar ordem nessa porra toda e estar no top cinco do mundo, mas se eu deixar sozinha por um mês, ao final dele estará no mínimo diabética ou desnutrida. Você a conheceu antes de mim, sabe o que estou falando…

Era impossível negar que existia uma Juliana antes e depois da Giovana.

Lembro do tempo de faculdade, nós nos conhecemos na turma de Direito Social, uma disciplina obrigatória para todos os cursos. A Ju era a melhor da turma, tinha as melhores notas e era adorada por todos os professores, tudo isso cursando duas graduações. Sua vida era estudar, raramente a encontrávamos fora do Mackenzie. A cobrança que fazia sobre si própria eram níveis surreais até mesmo para mim.

Ela estava à beira do burnout quando Bruno e eu intervimos. Na época estávamos no auge da nossa descoberta sexual e achamos de bom tom arrastar a Ju para o Apex. Ela precisava relaxar e principalmente extravasar e honestamente, não havia lugar melhor que aquele para levar uma amiga que precisava de socorro.

Por fim estávamos corretos. Lá ela conheceu a Gio e foi uma conexão quase que instantânea. No início achava que a Giovana era apenas a sua domme que lhe colocava algumas regras e disciplina, anos mais tarde descobri que ela na verdade era a sua mommy. Foi um verdadeiro choque ver a pessoa que vivia com a cara enfiada nos livros mais chatos da história, usando chupeta e vendo desenho.

– Não acho que isso seja algo que a Clarice queira fazer. Ou que esteja disposta a explorar.

– Em alguns caso não é sobre querer e sim precisar. Acha mesmo que eu esperei a minha bebê estar disposta para tomar uma decisão? – Gio riu. – Ela estava à beira de um colapso. Não poderia esperar para ter uma conversa para tentar a convencer de que seu corpo e mente pendiam desesperadamente por uma regressão. Eu só fiz o que precisava ser feito; dei o último empurrão que faltava para ela escorregar. Enfim, depois conversamos e nos acertamos, mas nem sempre dá para fazer isso antes. Se é o melhor para a saúde e o bem-estar, você coloca os pequenos para fazerem. Não é porque eles querem, mas porque você está mandando. Simples assim.

Nós estávamos chegando na parte administrativa do hospital, mas antes de abrirmos a porta que separava o setor, eu me intrometi no caminho bloqueando a passagem.

– Por que você está falando sobre isso de repente?

– Nem eu e nem o Bruno achamos que irá tomar a atitude que precisa e bem, se uma little sem supervisão ter outra crise de ciúmes e se meter com a minha bebê de novo… eu não vou deixar passar. Se você não coloca limites na sua pequena, quem irá colocar sou eu!

– Você não ouse.

– Então você coloque limites na sua garota. E é bom fazer isso logo… Clarice não tem controle algum. Já viu o tanto de doces e besteiras que ela come quando está trabalhando no Apex? – Ela abriu um lado da porta de madeira. – Eu juro que a vi comendo todos os doces que eu deixo a Ju comer em uma semana em menos de 1h. Me surpreende que o único problema dessa garota seja anemia e não diabetes.

Ouvir o comentário me causou uma sensação como se eu estivesse falhando. Eu não tenho responsabilidade sobre a Clara, eu cuido dela porque a amo, mas doeu como se eu tivesse. Como eu não sabia desse hábito dela? O que mais ela faz na minha ausência? Eu preciso descobrir.

Fomos até o escritório da Juliana e para a novidade de zero pessoas, ela ainda estava trabalhando. Eram pouco mais de 21h e com certeza, se deixarem, ela ficaria até tarde da madrugada.

– Oi, bebê – Gio cumprimentou a esposa. – Vamos embora?

– Só um momento, estou salvando aqui… e vou responder esse e-mail rapidinho.

– Amor, amanhã.

– Mas… – ela suspirou. – Amanhã, – ela encerrou o que fazia e desligou a sua máquina. – Pronto.

A Ju se levantou e deu um abraço na esposa. Eu fiquei esperando o casal terminar o momento de afeto refletindo se Clara e eu já poderíamos ser consideradas um grude como essas duas.

– E aí, Val? Como está a Clara? Ela acordou?

– Sim, ela acordou mais cedo.

– Os exames já saíram? Eles deram um prazo de alguns dias, mas eu pedi ao laboratório para priorizar os resultados dela, então não devem demorar a sair.

– Alguns já saíram, mas os principais ainda não. Enfim, eu quero te agradecer por ter resolvido tudo ontem à noite em tempo recorde. Acho que ninguém mais iria conseguir ser tão rápida quanto você.

– Isso é verdade, foi mais rápido para a minha esposa conseguir o leito que sair do pequeno espaço, – Giovana riu e a Ju revirou os olhos.

– É sempre um prazer poder ajudar. Eu não tive oportunidade de fazer uma visita hoje, mas amanhã, eu com certeza vou dar uma passadinha para dizer oi.

Houve uma pequena troca de olhar entre Giovana e eu após a fala da Juliana.  Foi quase uma ameaça silenciosa para que eu controle a mão de Clarice e não a permita puxar nenhum cabelo durante essa visita, caso contrário, era capaz da própria Gio puxar o cabelo da Clara de volta. E a conhecendo bem, sei que ela é capaz disso.

– Sim, faça uma visita. Será bom para a Clara se distrair um pouco!

– Vamos embora? – Ju perguntou a sua esposa. – Eu estou com medo de ficar aqui mais um minuto e surgir outra demanda.

Nós nos despedimos e eu voltei para o quarto em que Clara estava. Dessa vez ela me notou assim que apareci, mas não sabia se era por saudades ou por que estava me esperando para que a levasse ao banheiro para fazer xixi.

– Os médicos realmente autorizaram ficar levantando da cama assim? – Meu pai perguntou preocupado quando saí do banheiro sozinha. – Eu sei que você está a ajudando, mas ainda assim é um esforço, não?

– Clarice se recusou a aceitar qualquer outra coisa e começou a ficar nervosa, acabamos cedendo a sua vontade.

– É impressão minha ou nos tornamos refém de uma garota de um metro e meio?

– Quase isso… ela só não precisa saber – sussurrei.

Imagine só se a Clara percebe que pode manipular a todos com apenas uma ameaça de choro? Eu não quero ser obrigada a traficar McDonald’s para dentro do hospital. Eu me sentiria uma pessoa horrível se assim fizesse.

Com Clara de volta na cama, meus pais decidiram que era hora de partir, mas já anunciaram que viriam pela manhã. A princípio pensei que seria somente pela Clara, mas depois do abraço que minha mãe me deu e o pedido para não me esquecer de me cuidar também, sabia que sua preocupação era comigo.

– Até quando eu vou ter que ficar aqui? – Clara me perguntou.

– Você ainda nem consegue levantar sozinha, mocinha.

– Hm… é…

Clara estava estranha. Sabe quando você quer falar algo, mas não sabe como e quais palavras usar? Me parecia isso. Dei o tempo que ela precisava apenas a observando enquanto lhe fazia um cafuné. Eu fui privada de ficar perto do meu amor por tanto tempo e agora eu não conseguia ficar com as mãos longe dela.

– Você está brava comigo?

Fiz uma careta confusa. – Por que eu estaria brava com você?

– Eu… eu… sumi? Te deixei preocupada… e para acordar em outro hospital, acho que te dei dor de cabeça e trabalho.

– Você me deixou preocupada, isso é verdade. Dor de cabeça eu tive de nervoso e ansiedade. Mas nada disso foi sua culpa… eu jamais ficaria brava com você ou te culparia por isso.

– E você não vai me questionar nada e me obrigar a falar?

Respirei fundo me dando tempo para pensar na melhor forma de falar. – Eu não gostei de descobrir dessa forma o que exatamente acontecia dentro da sua casa. Se eu soubesse como seus parentes te tratavam, eu jamais teria te dado carona tantas vezes de volta para lá. Você não precisava ficar naquele lugar, ainda mais sendo a minha namorada.

– Mas eu não quero que pense que estou com você para tirar algum proveito. E eu já estava prestes a me mudar… minhas coisas já estão na Glória.

Mon amour… se você não entendeu ainda, eu amo você. Eu não iria medir esforços para te deixar segura. E se a sua preocupação é sobre tirar proveito, acha mesmo que eu não estaria me aproveitando da situação te levando para morar comigo? Eu vejo infinitas possibilidades de me aproveitar disso.

Clarice me observou desconfiada. – Você é tão… você.

– Devo considerar isso uma ofensa ou elogio?

– Elogio.

Super!  (Ótimo!).

O bocejo de Clarice foi o sinal de que estava na hora de encerrar por hoje. Teoricamente era para ela estar descansando e se recuperando, mas aqui nesse quarto parecia que estávamos em reunião de família, faltou a comida e a bebida.

– Vamos dormir?

– Deita aqui comigo um pouquinho?

Se podia deitar na cama com a Clarice? Eu suspeitava que não. Se eu me importava com isso? Pode ter certeza que também não.

Minha intenção não era dormir na cama, mas confesso que o cansaço me bateu sem que eu percebesse. Poderia ter passado o resto da noite ali se não fosse acordada em um susto com a Clara me segurando de repente.

– Val!

– Quoi? Oui? Hã?

– Banheiro! Agora.

Sinceramente, se Clarice não estivesse tão desesperada para fazer xixi e meu cérebro ainda processando o que aconteceu, eu teria ficado puta com essa garota. Tem pouco mais de 24h que a encontrei quase morta no hospital, como ela me dá um susto desses? Por uma fração de segundo pensei que fosse uma emergência real e urgente.

– Ufa, foi por pouco.

– Por pouco que você quase me matou do coração, isso sim! Clarice, eu quero te matar. Meu coração ainda está disparado.

– Foi mal… é que eu acordei e estava muito, muito, muito apertada.

Respirei fundo para não dar uma bronca na Clara. Qual era a necessidade de todo esse esforço por algo simples de ser feito? A enfermeira até tentou oferecer outra opção além de fralda para que não precisasse se levantar para isso e ela também recusou. Sua teimosia estava começando a me dar nos nervos.

– O que você está fazendo? – Questionei ao ver que estava se apoiando nas barras laterais da parede do banheiro para tentar se levantar sozinha.

– Eu só queria me levantar.

– Você não pode fazer esforço, Clarice! – Disse firme, um pouco impaciente.

O olhar de Clarice para mim foi de cortar o coração. Com os olhos começando a encher de lágrimas e um bico, sua expressão me fez sentir a pessoa mais horrível do mundo do tipo “como ousa ser ríspida com um serzinho desses?”.

– Vem, mon amour – mudei meu tom de voz e a acariciei o rosto, – vamos voltar para a cama. Você precisa dormir.

Dessa vez eu não me juntei a Clara na cama. A qualquer momento os enfermeiros irão começar a entrar e sair e não seria nada bom nos encontrarem juntas. Eu fiquei sentada na poltrona ao seu lado, fazendo cafuné em seus cabelos e conversando bobeiras, até que ela fechou os olhos e dormiu.

Bem cedo pela manhã a equipe médica apareceu para examinar a Clara, fazer medicação e toda a rotina que teríamos que seguir até ela receber a alta. Bruno foi o primeiro a aparecer para fazer uma visita. Ele era neurocirugião do hospital e começaria o plantão nas próximas horas, então decidiu vir nos ver.

O café da manhã chegou quase que junto dele. As opções não eram ruins, inclusive, haviam pratos que era do gosto da Clara. Ela ama banana e tinha banana, morango, laranja e abacaxi com aveia, mingau de aveia, omelete com espinafre e pão integral, iogurte grego com granola. Não parecia comida de hospital. Não havia motivos para não querer comer. Mas Clarice decidiu que não estava afim.

– Come só um pouco, – insisti oferecendo um pedaço de banana.

– Não quero comer, – ela resmungou. – Eu quero ir embora.

Eu respirei fundo. Nós já estávamos há uns cinco minutos nessa brincadeira. Clarice não é assim. Comida sempre foi seu ponto forte. Ela sempre comeu tudo que ofereci e ainda repetiu. E agora que realmente precisa comer… ela não quer.

– Até quando eu vou ficar aqui? – Clara perguntou ao Bruno ignorando totalmente o seu café da manhã.

– Eu não sei, depende de você. Antes precisa melhorar e se não comer não irá melhorar tão cedo, então… acho que daqui um, dois…

– Dias?

– Meses.

– Meses?! – Ela se assustou. – Por que tudo isso?

– E a bonita vai melhorar como se não quer comer? A medicação pode até ajudar, mas não faz milagre não.

“Meses” era puro exagero, mas Clarice não sabia disso. O importante que o seu medo deu certo. Ela comeu um pouco de tudo, mas não chegou a terminar nada para a minha insatisfação.

– O que que eu tenho afinal? – A pergunta não foi direcionada a alguém em específico, no entanto seu olhar sobre mim esperava uma resposta.

– Os exames que você fez levam tempo para serem analisados. Sem eles, os médicos não podem dar um diagnóstico conclusivo ou começar um tratamento mais efetivo e direcionado. Ou seja, até lá, a única coisa que a senhorita precisa fazer é descansar e se alimentar bem. Você precisa de muito ferro nesse seu corpinho, então, ou você come ou leva uma injeção de ferro. O que você prefere? Se quiser injeção, eu pego uma ali agorinha.

Clara fez bico e seu olhar de gato de botas. – Num quero injeção.

– Então come mais um pouco da sua omelete de espinafre, – eu ofereci e a contragosto, Clara comeu.

Também não foi muito mais que algumas garfadas extras. Minha mãe estava certa ontem quando disse que a Clara estar com fome  foi um bom sinal. Sinal esse que se foi muito rápido.

O cansaço levou a Clara ao sono poucas horas depois que acordou. Ontem o tanto de visita que recebeu não a deixou descansar como deveria, ela provavelmente iria dormir o dia inteiro hoje. Ou pelo menos a maior parte dele.

– O que você acha? – Perguntei. Bruno e eu estávamos no corredor. Não queria atrapalhar o sono da minha namorada, tampouco que ouvisse a nossa conversa.

– Você sabe que essa não é a minha área, não sabe? – O respondi com um olhar. Eu não queria esse papo de “essa não é a minha área”, eu também não sou engenheira, mas posso dizer o óbvio. – No estado que ela está agora, eu acho que dificilmente irá receber alta nos próximos dias. Ela perdeu muito sangue. Se for realmente o que acham que é, pode se preparar para realmente ficar uns meses por aqui… ou… desembolsar um bom dinheiro para tratar em casa, afinal, você é uma Touchon e pode muito bem fazer isso.

O comentário de Bruno desencadeou todos os meus tiques de uma só vez. Eu me sentia novamente na infância e pré-adolescência quando a terapia ocupacional ainda não mostrava seus resultados. Esse estado de constante tensão iria me enlouquecer eventualmente.

– Seus dedos estão vermelhos, – Bruno pegou a minha mão. – Se continuar desse jeito irá machucar na carne viva.

Esfregar os meus anéis era um tique que sempre aparecia quando estava em stress ou em uma crise. É fácil de disfarçar ou esconder, então não me incomoda tanto. No entanto, dentro do hospital eu não estava usando os meus anéis por uma questão de higiene e também medo de arranhar a Clara em algum momento. Com isso, o tique inofensivo estava começando a causar feridas.

– Você fez o seu yoga?

– Como se eu fosse conseguir.

– Você não sabe lidar muito bem com mudanças radicais na sua rotina, ao menos isso deveria manter antes que entre em colapso. Eu não posso tratar a Clara, o que ela tem não tem nada a ver com a minha área, mas de você e suas crises eu entendo muito bem!

Senti um arrepio na espinha e logo entendi o porquê. O universo encontrou o pior timing do mundo para reunir o “Comitê de Cuidadores da Minha Vida” no mesmo ambiente. Eu não entendi o que meus pais faziam aqui tão cedo, mas quando vi minha mãe no corredor se aproximando do Bruno, eu quis sair correndo.

– Bounjour, mon chèrie! – Ela o cumprimentou com um abraço. Os dois se amam. Talvez seja por isso que ele seja o meu melhor amigo, era o único que tinha coragem de frequentar a minha casa sem medo dos olhares de Margot. – O que estão fazendo aqui no corredor?

– A Clara está dormindo.

– Oh… que pena, eu vim vê-la antes de ir para o escritório – mamãe comentou. – Alors… o Fernando veio acompanhar a Clara, você vem comigo.

– Eu não vou a lugar algum. Não vou deixara Clara aqui.

– Minha filha, nós não vimos você comendo uma única vez ontem. Como pretende cuidar da Clara, se não for capaz de cuidar de si mesma?

– Vocês combinaram o comitê de hoje?

Bruno era sínico e sabia muito bem esconder. Margot ninguém nunca sabe o que passa em sua mente ou que está sentindo. Mas o Fernando… bastou olhar para ele três segundos para o sorriso sem graça revelar.

– É claro que vocês fariam isso… por que não estou sequer surpresa?

– Fazemos isso para o seu bem, – Bruno apertou o meu ombro e colocou a mão sobre o próprio peito. Ele sabe que eu odeio essa voz mansa que costumavam usar comigo quando era menor de idade. Por algum motivo, alguns adultos achavam que precisavam fazer isso para falar com uma autista. – Nós te amamos… e também adoramos cuidar da sua vida, – Bruno finalizou com a sua voz normal. – Você quer mesmo que a sua namorada te veja como uma baranga horrorosa? Unhas descascadas, o cabelo desarrumado, as roupas péssimas… essa não é você. Reage e melhore.

Eu sabia que essa era uma táctica – muito antiga – para me convencer de algo e eu me odiava por simplesmente não conseguir ignorar. Eu tenho obsessão pela a minha aparência e quem sabe disso tem uma arma valiosíssima nas mãos contra mim. E não, não tem nada a ver com plásticas, botox, harmonização ou sei lá mais o que as pessoas fazem. A minha obsessão é com roupas, cabelo, unhas, pele, cheiro e a forma que me apresentava. Bruno sabia disso e estava tentando – com sucesso – me manipular.  

Agora eu não vou conseguir ficar mais um minuto aqui sem surtar completamente. Eu me odeio!

– É melhor o senhor me reportar cada minuto do dia da Clara – disse séria ao meu pai.

– Pode deixar, a Clara não irá espirrar sem seu conhecimento.

– Acho bom!

– Parfait! Agora vamos! On y va! – Minha mãe quase me puxou para sairmos.

– E eu vou trabalhar, pois não nasci um Touchon – Bruno disse.

– Mas eu trabalho… – protestei.

– Porque é trouxa.

Revirei os olhos.

O chauffeur da minha mãe nos levou para o meu apartamento primeiro. Eu precisava me recompor antes de expor em público outra vez. Dizer que estava impecável seria exagero. Ao menos bem vestida e unhas sem esmaltes descascando, isso sim.

Antes de seguirmos para o escritório, minha mãe e eu fomos a uma cafeteria que costumamos frequentar quando queremos um bom café ou brunch. Somente percebi a minha própria fome quando o garçom serviu o meu prato. É difícil pensar em comer quando o amor da sua vida quase morre. Confesso que não consegui deixar de olhar para o celular por mais de um minuto com medo de receber uma notícia desagradável.

– Ela vai ficar bem, – mamãe comentou antes de tomar seu café. Relutante bloqueei a tela do celular e deixei sobre a mesa. – Você realmente gosta dessa garota.

– Eu a amo.

Posso ver, – ela deu um meio sorriso breve. Entenda uma coisa; minha mãe não sorri para alguém que não gosta. Embora sua expressão seja neutra a maior parte do tempo, seu desgosto nunca fica escondido. Em outras palavras, ela de fato gosta da Clara e isso me fez sorrir. – Ela é diferente, não é?

A encarei desconfiada. A ênfase em “diferente” em deixou confusa. Diferente como?

– Como assim diferente?

– O comportamento… às vezes tenho a sensação de que ela oscila, mas não me parece que seja autista, apenas diferente. Existe algo que não comentou sobre ela?

O desespero me subiu pelo corpo por trás da minha máscara neutra estampada em meu rosto. Será que até a minha mãe viu o que a Giovana viu? Levando em consideração que estamos falando da minha mãe, é óbvio que ela percebeu. Nada passa por despercebido pelos seus olhos…

Como eu iria explicar isso a minha mãe? Zero condições.

– Sim, mamãe. Ela é… diferente. Mas esse é um assunto delicado, eu não quero que envolva. Então, por favor, sejam discretos. Sem comentários ou discursos. 

– Se acha melhor dessa forma, eu vou acreditar no seu julgamento. Mas saiba que estamos aqui caso precisem de apoio e suporte. Seu pai e eu sempre vamos acolher quem faz bem a você. Nós te amamos e amamos quem também te ama.

– Eu também amo você.

Concentrar no trabalho não foi uma tarefa muito fácil. Embora eu estivesse fisicamente aqui, minha mente estava longe e distante. A preocupação não me dava trégua e o constante pensamento de “e se acontecer alguma coisa?” me cercava. Minha única “paz” era saber que, se necessário for, eu poderia chegar no hospital em pouco mais de dez minutos.

Meu pai levou muito a sério a missão de me reportar qualquer movimento da minha namorada. Enquanto ela dormia, recebi uma atualização dizendo que ela ainda dormia a cada meia hora. Ele também avisou quando os médicos ou enfermeiros passaram no quarto. Me ligou para falar com o meu amor quando ela acordou. Seu Fernando estava realmente se esforçando para tentar me deixar tranquila com toda a situação, mas ainda assim não surtia muito efeito.

– Como está a Clara? – Theo me perguntou quando estávamos a sós em minha sala. – Eu não consegui falar com ela, acho que está sem celular. Você tem alguma notícia?

Quase respondi, então me lembrei que ele e o resto do pessoal não sabem de nós. Ou será que a Larissa contou? – Por que está perguntando isso a mim?

– Pensei que ainda estivessem juntas, não estão?

– Estamos, mas quem… – a minha ficha caiu no meio do caminho, – espera, o que? Hã? A Clarice te contou?

Theo ergueu o cenho. – Não precisou… todos nós vimos as duas se beijando na festa antes de Dubai.

Travei o rosto em um poker face refletindo.

– E então, como ela está? – Theo quebrou o silêncio.

– Fora de perigo, eu diria. Ela ainda tem muito que recuperar, mas está no caminho, – Theo sorriu aliviado. Vi em seu rosto a preocupação genuína. – Theo… você e a Clara cresceram juntos, certo?

– Sim, nós fomos vizinhos uma época.

– Então você conhece os parentes dela?

A expressão de Theo entregou. – Ela está no hospital por causa dele, não está? A Larissa também está fora de área. Acho que mudou o número. Eu ainda não consegui descobrir o que aconteceu, soube da internação pelo RH.

– Você tem motivos para suspeitar que foram eles?

Eu sabia da história, mas não sabia o histórico. Já que não podia tocar no assunto com a própria Clara, o Theo me pareceu uma boa fonte.

– Eu não espero nada diferente vindo deles… os outros tios são até ok, eles não fedem e nem cheiram, o problema está nos gêmeos:  Luís e Lúcia.

– Esse Luís não é o pai dela?

– Pai entre aspas, você quer dizer. Ele é um merda, covarde e revelou ser uma pessoa horrível depois que a Aurora morreu. Eu odeio esse cara. Por mim, já deveria estar preso há muito tempo.

– Preso?

Theo me encarou em silêncio como se estivesse decidindo se continuaria a falar ou guardaria para si o que tinha a dizer.

– É um assunto delicado.

– Theodore… eu preciso saber com o que estou lidando para ajudar a Clara. Se você sabe de algo, é melhor me contar.

Ele hesitou por um momento, mas decidiu por contar o que sabia.

Honestamente, eu não tinha ideia do que esperar. A parte do meu firme desgosto pela a família de Clara e a certeza de que os odeio, eu não os conhecia além do pouco que me disseram sobre o final de semana que passou. E nada que eu sabia me preparou para o que estava prestes a ouvir.

Eu estava fervendo. As palavras do Theo martelavam na minha cabeça como um tambor de guerra, uma batida constante e insuportável me causando agonia que o protetor auricular não seria capaz de ajudar. Meu tique nervoso estava começando a ficar incontrolável, a “coceira” querendo subir das mãos para a nuca. Levantei da cadeira e comecei a andar pela sala, não iria dissipar a fúria que me consumia, mas ajudava a controlar o movimento impulsivo.

– Ela era só uma criança, Theo – minha voz saiu trêmula, carregada de raiva e dor. – E ninguém fez nada! O próprio pai quebrou o braço dela e o resto da família… todos eles… ficaram calados?! Você só pode estar mentindo, eu não posso acreditar em uma atrocidade dessas.

  Theo me observou em silêncio confirmando o meu medo. Ele não estava mentindo. Putain! Ele não estava mentindo.

– Sempre foi assim?

– Não, antes disso a Clarice era uma criança feliz e sorridente, – parte de mim sentia alívio em saber que em algum momento o meu amor foi feliz na sua infância, outra parte se revoltava por terem tirado isso dela. – As agressões começaram depois da morte da mãe dela. Foi um momento muito sombrio da vida da Clara. Ela não queria sair do quarto, não queria ver ninguém… Ela só ficava lá, chorando pela mãe, pedindo por algo que ninguém podia dar. No início a família até entendeu, tentou ajudar, mas quando os dias se tornaram semanas e eventualmente meses, Luís foi perdendo a paciência. Começou com palavras, ameaças, até que se tornaram agressões físicas. E depois, bem… no pronto socorro alguns médicos suspeitaram que fosse violência doméstica, o policial que ficava lá chegou a questionar a Clara, mas a Lúcia não saiu do lado dela um segundo sequer até ela receber a alta. Laris e eu até tentamos denunciar de outra forma, juntamos as provas, mas éramos três menores de idade tentando denunciar alguém, eu que era o mais velho sequer tinha quinze anos que era a idade necessária para seguir sem um adulto. Lúcia acabou descobrindo, fez a maior chantagem emocional a ponto de a Clara desistir e não ter coragem de continuar. Nós dois ainda levamos a maior punição da vida.

Meu estômago se revirava, mas eu ouvia em silêncio tentando absorver sem vomitar. A imagem da minha Clarice, encolhida num canto, machucada por alguém que deveria protegê-la, sem a mãe para a acolher, sem uma família para a acolher, era quase insuportável e demais para a minha cabeça. A minha revolta também se tornou uma dor seca e amarga que se mesclava com uma indignação.

Entendo que na época não existia possibilidade de eu poder ajudar. Clarice e eu nos conhecíamos de vista apenas. Minha mãe adorava a Aurora e o trabalho dela, mas não eram amigas. Não existia nenhuma aproximação para esse contato.Mas eu estou aqui agora, sou sua namorada…

– Ela… nunca falou sobre isso – eu disse, num sussurro ainda processando o que sentia. – Esse tempo todo ela estava vivendo sob o mesmo teto que essas pessoas… ela queria sair, eu sabia que sim. Mas achei que isso fosse apenas por questão de liberdade, por querer morar sozinha. Eu não fazia ideia que tudo isso aconteceu… não sabia que estava correndo riscos nesse lugar. Por que ela nunca me contou? Eu… eu teria a ajudado! Ela sabe que teria. Eu poderia ter comprado a porra de um apartamento se o problema fosse morar comigo. Eu faria qualquer coisa… por que ela não me contou!? Ela ainda quer proteger aquele desgraçado?

Theo suspirou e esfregou a testa com os dedos. – Ela não fala disso para proteger a si mesma, Val. Não é pelo pai, pela tia ou pela corja de cobras. É por ela mesmo. Depois que ela saiu daquele quarto e voltou a vida, ela meio que apagou essa parte da memória e segue como se nunca tivesse acontecido. “Se eu não me lembro, não aconteceu e se não aconteceu, eu não sinto” é quase isso. Mas, se qualquer um traz isso à tona… você não vai querer ver… nem o Luís que é um filho da puta ultrapassa essa linha. E eu espero que você não ultrapasse também.

Engoli o seco tentando digerir tudo isso. Aos poucos tudo começava a fazer sentido na minha cabeça. O comportamento da Clarice mudou depois do jantar com os meus pais. Ter visto aquele quadro de sua mãe desencadeou a sua crise de choro aquela noite. Pensar em toda a dor que o amor da minha vida carregava em silêncio dilacerava meu coração. Impossível não querer sair daqui agora e fazer esse desgraçado pagar por cada golpe, cada palavra cruel, cada lágrima que ele a fez derramar. Se antes eu queria esse homem na cadeia, agora eu o quero morto.

Como se Theo pudesse ler os meus pensamentos, ele segurou o meu braço quando passei perto e me olhou sério. – Valquíria, – seu tom era firme, quase uma ameaça implícita. – Não tenta fazer nada. Se quiser o bem da Clarice, finge que não sabe de nada. Finge que eu nunca te contei isso… caso contrário, eu vou ser obrigado a te parar.

Eu ri amarga. – Como se você fosse capaz disso.

– Eu amo você e te admiro muito, mas eu praticamente criei a Clara junto com a mãe dela. Se você decidir tocar nessa ferida para tentar fazer justiça, eu não vou pensar duas vezes antes de te expor e tornar a sua vida um inferno. Eu perco o meu emprego, você perde sua reputação e a namorada.

Theo era o que melhor me conhecia dentro desse escritório. Era o único que também considerava amigo fora do trabalho. Ele não conhecia meus segredos mais sórdidos como a Clara, tinha apenas certa noção, mas o que sabia era o suficiente para causar uma dor de cabeça. Se eu gostei de ser ameaçada? Não, nem um pouco. Também achei ousado e audacioso da parte dele. No entanto, me deixou feliz em saber que alguém era capaz de tanto para proteger o meu amor.

– Quanto a isso você não tem que se preocupar. O meu amor pela Clara é maior que o ódio e revolta que estou sentindo por esses putos. Eu nunca seria capaz de fazer algo sabendo que iria a machucar.

– Bom saber… eu iria odiar perder a sua amizade e te prejudicar no processo, mas eu sei que você tem meios e recursos para se recuperar e me foder junto. Ao menos a Clarice eu protejo.

– Nenhum meio ou recurso seria capaz de me fazer me recuperar a da perda do amor da minha vida se ela me deixar. Suas armas são mais poderosas que as minhas.

Eu prometi não usaria o passado de Clara para foder seus parentes. Mas isso não quer dizer que eu não faria nada contra eles.

Queria ir agora mesmo quebrar todos os ossos da face daquele desgraçado com as próprias mãos. Seria muito mais satisfatório que qualquer medalha e troféus que ganhei nas duas décadas que lutei. Mas se fizesse isso corria o risco de a Clara ter medo de mim. Vou deixar que os futuros colegas de cela dele façam isso.

Dei um longo suspiro tentando empurrar a raiva para o fundo. Eu queria um cigarro, algo que me ajudasse a esfriar a cabeça, mas logo descartei a ideia. Clarice não ficaria nada contente se soubesse. Eu teria que lidar com isso de outra forma.

Trabalhar depois dessa conversa calorosa seria impossível, então eu fui embora. O Theo me fez perceber que Clarice ainda estava sem um celular. E me dei conta que, não só isso, ainda tínhamos que atualizar seus dados em tudo; faculdade, trabalho, banco, cadastro em qualquer coisa que peça endereço ou um contato secundário. Eu não quero nada, absolutamente nada, da Clarice ainda envolva algo da sua antiga vida. Se ela deixar, entro com uma ação judicial para tirar o nome dele até dos seus documentos.

Deixei a missão do celular novo para o meu gerente residencial. Sabia que isso levaria um tempo, e esse tempo eu usaria para treinar e recuperar a meu autocontrole e paz antes de me encontrar com a minha namorada. Troquei o yoga pela luta e fingi que o boneco simulador de treino era o filho da puta do Luís. Os socos que não podia dar em sua cara, eu dei no boneco. Ao final eu me sentia uma nova mulher e renovada.

Pelos reportes do meu pai, Clarice dormiu praticamente o dia inteiro, mas quando cheguei estava bem acordada jogando um tal de Caper com ele enquanto fazia uma transfusão de sangue. Toda vez que algum parente se interna, o Fernando faz o hospital virar uma colônia de férias para o tempo passar mais rápido. Ele tem uma teoria que dar risadas e se divertir ajuda a curar mais rápido… e ele realmente acredita nisso. Parece fofo até você estar morrendo de dor e seu pai falar “ri, minha filha, vai ajudar passar”.

– Você voltou! – Clara abriu os braços me chamando para um abraço. Foi difícil a abraçar e não chorar. E eu nem sou de chorar, mas é só que… agora que sabia o que estava escondendo em silêncio e o quão forte a minha namorada era, me doía não poder fazer nada. Eu não queria que ela precisasse ser forte, não queria que precisasse lidar com essa dor. – Como foi o seu dia?

– Longo e chato. Estava morrendo de saudades de você. Como está se sentindo agora?

– Um pouco melhor, eu acho. Até que isso aqui está surtindo algum efeito – ela apontou para a bolsa de sangue que estava recebendo. – Eu estou me sentindo uma vampira.

Clarice levantou o braço por um curtíssimo período de tempo ao apontar para a bolsa de sangue, esse era o verdadeiro sinal de que houve uma pequena melhora. Até ontem, esse movimento seria o suficiente para lhe causar falta de ar de tão fraca. Observar isso me deixou feliz.

– Devo te chamar de Clarice Cullen agora? – Brinquei, fazendo cafuné em seus cabelos.

– Só se você topar ser a minha Bella.

– Sempre, – lhe deu um beijo rápido nos lábios.

– Vocês duas são igualmente estranhas, deve ser por isso que dão certo – meu pai comentou com um olhar de julgo. – Enfim, agora que está aqui, minha missão de fazer companhia a Clara Cullen acabou por hoje. Eu vou indo para encontrar a minha bela e amada mulher, a senhora sua mãe.

– Você vai voltar amanhã?

– Pode ter certeza que sim. Nós ainda não terminamos o nosso jogo.

Meu pai se despediu de nós e foi embora.

A sós outra vez, eu me senti mais a vontade para abraçar e encher a minha namorada de beijos. A paz que sentia quando estava em seu abraço era justamente o que precisava para me recuperar depois de tudo o que ouvi hoje.

– Eu amo você!

– Eu também te amo, – ela sorriu e acariciou o meu rosto. – Seu pai é legal, mas eu estava com saudades suas. Estava com medo que fosse me deixar.

Peguei a sua mão e de um beijo demorado. – Eu jamais vou te deixar, mon amour.

– Alguém já disse que é muito sexy quando diz “mon amour”?

– Eu só chamo você de mon amour. Você é o meu único amor.

– Ainda bem… eu não iria gostar de ter que te dividir com mais ninguém.

– Você não terá que me dividir com mais ninguém. Eu sou só sua.

Clara sorriu e eu me derreti. Eu amo essa garota muito mais que deveria.

A transfusão demorou um pouco para acabar. Quando encerrou, as enfermeiras vieram para dar um banho em Clara, mas como o esperado, ela se recusou olhando para mim em súplica. Como eu teria coragem de deixar a minha namorada nas mãos de desconhecidas depois desse olhar? Impossível. Acabou que mais uma vez quem fez o trabalho fui eu. E dessa vez me molhei muito menos no processo.

– Eu já estava me esquecendo, – eu comentei ao pegar a minha bolsa. – Eu trouxe um celular novo para você. Seus amigos estão loucos para falar com você.

Clara pegou o celular da minha mão um pouco receosa. – Eu… te devolvo quando comprar um novo.

– É um presente, Clarice. Eu não quero que me devolva, eu quero que use.

– Mas…

– Sem “mas” ou a história de não querer que eu te julgue errado. Até meus pais conseguem ver que me ama de verdade, por que acha que eu não conseguiria ver isso? – Balancei a cabeça. – Eu pedi ao Yago para que trouxesse já configurado e com um número novo, mas antes que decore ele, eu prefiro que decore o meu.

Ela sorriu amarelo entendo o recado. – Eu vou decorar.

O jantar chegou e eu pensei que seria tranquilo. De acordo com o meu pai, ela comeu todas as outras refeições do dia sem fazer cena ou reclamar. Mas eu estava começando a achar que o problema dela com comida era eu.

– Eu não quero comer! Eu tô sem fome.

– Você precisa comer, Clarice. Só um pouco… por favor. Uma colher.

– Eu num quero! Num quero comer!

– É só uma colher. Só uma! Vamos lá, você consegue.

– É ruim! Não quero. Já falei!

Respirei fundo contando até três para não perder a minha paciência de vez. – Clarice, mon amour – comecei, mas minha voz já não era tão calma quanto deveria ser. – Você precisa comer. Lembra o que o Bruno disse hoje cedo? Você só irá sair daqui se comer a sua comida direitinho.

– Mas eu não quero!

Clara olhou para mim e vi seus olhos começarem a se encher de lágrimas. E mais uma vez, eu me via desesperada para impedir que essas lágrimas insistissem em cair.

– Mon amour, não chora, ok? – Acariciei o seu rosto. – Tudo bem, você não precisa comer o seu jantar. Nós podemos ficar alguns dias a mais no hospital.

– Eu não quero ficar mais dias aqui.

– Se você não comer, só irá prolongar o tempo que ficará aqui. Se quer ir para casa comigo logo, precisa comer. O que você prefere: comer o seu jantar ou ficar mais tempo no hospital?

Devagar e ainda contrariada, Clarice abriu a boca. Dei a colherada o mais rápido e gentil que consegui, e ela engoliu me lançando um último olhar de puro desagrado. Não comeu nem metade do jantar, mas já era melhor que nada.

Não precisava levar tanto tempo, tampouco tornar todo o processo difícil e torturante, mas Clarice estava disposta a testar a minha paciência. Com qual finalidade? Esse era o grande mistério. O que ela iria conseguir tentando me enlouquecer era apenas isso; me ver enlouquecida. E céus, como eu estava usando todas as forças possíveis para me manter calma.

Já estava tarde da noite, hora de dormir. Eu me ausentei por alguns minutos somente para ir ao banheiro e escovar os dentes. O que poderia acontecer em menos de cinco minutos? O que poderia?! Fui inocente em acreditar que a minha pequena pestinha iria se aguentar na cama nem que fosse por alguns segundos sozinha, pois quando voltei ela estava tentando se manter de pé agarrada ao móvel. 

– Clarice! Que fais-tu ?! (O que está fazendo?!)

Ela me olhou surpresa, como quem foi pega no flagra e a leve distração do trabalho de se manter de pé foi o suficiente para a fazer cair. Em desespero e reflexo, quase me joguei para tentar a segurar da queda. Por um milagre, consegui colocar a mão entre o chão e a sua cabeça amortecendo o impacto.

– Tu va bien? – Eu a abracei em meu colo e virei seu rosto para mim. – Você está bem? Meu amor… não-não-não-não, não chora, por favor.

O que eu mais temia aconteceu. Clarice começou a chorar aos prantos, eu a abracei tentando consolar, mas não surtiu muito efeito. Logo em seguida entendi o porquê, ela teve um acidente e molhou seu pijama e o chão do quarto.

As peças se juntaram em minha mente e ficou impossível negar: Clarice era uma pequena e regrediu.

Não tive muito tempo para processar tudo que estava acontecendo. O sangue escorrendo por seu nariz acendeu todos os meus alertas e minha única reação possível foi acionar o botão para chamar os enfermeiros.

– Oi, Clarice. Você cham… oh, ela está sangrando – a enfermeira sequer veio nos prestar socorro, apenas saiu às pressas.

Logo em seguida ela voltou acompanhada de outro enfermeiro empurrando um carrinho. A primeira ação deles foi tirar Clarice dos meus braços para voltar para cama.

– O que aconteceu? – A enfermeira perguntou enquanto vestia as luvas.

– Ela tentou se levantar da cama sozinha, caiu, ficou nervosa, começou a chorar e o nariz sangrou.

– Tentou se levantar sozinha, mocinha? Você sabe que não pode, – a enfermeira chamou atenção de Clara. – Eu preciso que se acalme. Respira fundo.

Eles tentaram estancar o sangue com uma solução em uma gaze e aplicando pressão. Durante todo o processo eu segurei a mão de Clara e seus olhos não saíam de cima de mim. Ela estava apavorada e com medo.

Foi necessário chamar o médico de plantão, pois o sangramento não quis parar. Foi necessário uma cauterização química e um tampão nasal para – aparentemente – estancar o sangue. Tudo isso levou tempo e agora entendi o que o Bruno quis dizer quando disse que não foi nada fácil parar o sangramento na primeira noite.

– Mãezinha, a sua garota está sob controle por agora, nós vamos fazer o monitoramento a cada 15min nessa primeira hora para garantir que esteja tudo certo, mas qualquer coisa, acione os enfermeiros imediatamente.

Embora eu me considere nova demais para ser mãe de uma garota de 21 anos, eu já estava me acostumando com essa confusão. Ele não era o primeiro e provavelmente não seria o último. Se bem que… nem sempre a Clara tinha a idade que tinha.

– E você, mocinha, nada de se aventurar para fora da cama – o médico pegou a mão dela e levantou, – está vendo essa pulseira bonitinha aqui? Significa que você pode cair, então não se arrisque. Ok?

Clara assentiu, mas no fundo eu sabia que a orientação entrou em um ouvido e sairia pelo o outro. Ela vai se aventurar mais cedo ou mais tarde.

Confesso que fiquei com medo de sair de perto de Clarice outra vez para acionar a equipe de limpeza, mas eu não queria que ouvisse a minha solicitação e então me arrisquei enquanto ela parecia ainda muito assustada para se levantar.

Eu tinha 15min para dar um outro banho nessa garota e trocar suas roupas sujas. Embora não estivesse reclamando sobre isso, eu sabia que estava incomodando e eu não seria cruel de deixar o meu amor nesse estado por 1h até acabar o monitoramento contínuo. E foda-se que eles podem reclamar, Clarice estava se sentindo envergonhada, eu não iria permitir que continuasse assim.

Quando saímos do banheiro, o quarto já havia sido limpo. E foi o tempo perfeito para deitar Clara outra vez e o enfermeiro entrar para aferir os sinais vitais dela. Aproveitei que ela estava distraída observando o que faziam com seu braço para pegar meu celular.

“Gio… preciso da sua ajuda. Onde consigo fraldas essa hora da noite?” enviei a mensagem. Conhecendo a minha amiga e advogada, sua resposta viria rapidamente.

“Estou falando com a mommy Kyrie? Uau…” a provocação veio primeiro. “Essa hora da noite a loja que gosto está fechada, mas eu tenho contato da dona. Posso conseguir um tratamento VIP. Qual modelo você precisa?”

“Modelo?”

“Aposto que não sabe o tamanho também… quantos kg a Clara tem?”

Eu deveria saber isso? É só uma fralda, não era para ser mais fácil?

“Não sei, leve?!”

“Quer saber, deixa comigo. Eu cuido disso e mando entregar no hospital. Te aviso quando estiver a caminho”

“Seja discreta, por favor!”

“Diferente de você, eu sou uma mommy experiente. Não se preocupe com isso”

Depois de uma humilhação gratuita, eu decidi confiar na expertise da minha amiga e esperar.

Com os enfermeiros entrando no quarto a cada 15 minutos, nem Clarice e nem eu conseguimos fazer outra coisa senão esperar pelos próximos 15 minutos. Confesso que me sentia tensa com medo de que esse sangramento não tenha de fato parado ou que sua perca de sangue tenha sido suficiente para voltar a estaca zero de todo o progresso.

– Tô fome, – Clara reclamou depois de um tempo.

A minha vontade foi responder: é óbvio que você está com fome pestinha, quando mandei você comer você não quis!

Mas eu respirei fundo e respondi:

– Quer um lanchinho, mon amour? – Ela assentiu com a cabeça. – Eu vou e já volto. Se você ousar levantar mais uma vez, vou te amarrar nessa cama… – dei um beijinho na sua testa, – eu não estou brincando, então não me testa.

Clara me olhou espantada. – Eu não vou.

– Boa menina.

Conseguir comida no hospital quase de madrugada era possível, mas chato. E as opções? Péssimas. Onde já se viu que eu daria uma coxinha para a minha namorada birrenta a essa hora da noite? Nem pensar. Sanduíche natural, salada de fruta e suco. E um chá para mim, já que vinho estava fora de cogitação.

A Gio me sinalizou que a entrega estava chegando e como eu já estava próxima a recepção do hospital, optei por buscar eu mesma. Esperava algo pequeno e recebi uma bolsa preta daqueles modelos de academia e ginástica. Pelo peso, não havia só fraldas.

“O que você me enviou?”

“Um kit mommy de primeira viagem… você me deve uma nota”

Voltei para o quarto e Clarice estava bem quietinha em seu lugar assistindo alguma coisa no celular.

– Trouxe o seu lanche, – ela sorriu para mim. – O que está assistindo de bom?

– Documentário sobre o Everest.

Ergui o cenho surpresa. – Documentário sobre o Everest? Por que?

– Apareceu de sugestão.

Servi a comida na mesinha e empurrei para perto da cama. – Deixe esse celular de lado, vamos comer.

– Eu quero assistir.

Os tampões em seu nariz me fizeram desistir sem insistir. Apena ofereci o sanduíche e ela abocanhou um pedaço generoso. – Devagar, mon amour. A comida não irá fugir de você.

Enquanto estava distraída assistindo, Clarice comia qualquer coisa que lhe oferecia. Para mim estava sendo ótimo, mas como esperava, eventualmente o documentário sobre o maior cemitério ao céu aberto do mundo iria falar sobre seus cadáveres. Posso não ser a Giovana, tampouco uma mommy experiente, mas sabia que ouvir da história do casal que subiu na lua de mel e morreu, do homem de botas verdes e tantos outros esquecidos no alto da montanha não era assunto para Clarice.

– Já deu desse documentário, – eu bloqueei a tela do celular e coloquei sobre a mesa ao lado da cama. – Coma a suas frutas.

– Mas eu quero assistir.

– Você pode assistir… outras coisas.

– Mas…

– Clarice, – eu disse firme.

– Tá bom…

Eu liguei a televisão do quarto e deixei em um canal de desenhos aleatório. Antes mesmo de terminar de comer, Clarice já bocejava de sono. Ela dormiu poucos minutos que o enfermeiro veio a checar uma última vez antes de tirar os tampões.

Sozinha no quarto, eu observei Clara dormir por não sei quanto tempo. Muita coisa passava em minha mente e ao mesmo tempo não conseguia pensar em nada. Só depois de muito tempo tomei coragem de levar e ir até a tal bolsa preta que me aguardava.

Realmente Gio tinha razão; o que ela me comprou era de fato um kit de primeira viagem. Tinha tantas coisas, muitas delas que eu sequer sabia para que servia ou como usar. Por hora, foquei no que realmente precisava e deixei o resto para depois.

Eu não queria fazer o que tinha que fazer por conta própria, mas depois do que aconteceu essa noite eu não poderia mais fazer todas as vontades da Clara. Provavelmente amanhã quando acordar irá ficar brava comigo, no entanto, era isso ou correr riscos. E eu, não estava afim de me arriscar.

Precisei assistir alguns vídeos tutoriais e ler alguns artigos para entender a lógica por trás de todo o processo. Minhas pesquisas acabaram me respondendo qual era a finalidade de alguns produtos que a Gio me enviou e por fim fiquei grata que tenha “exagerado”. Pelo que li, era importante para evitar assaduras e eu não queria resolver um problema criando outro.

O sono da Clara estava tão pesado que colocar uma fralda enquanto ela dormia foi mais fácil que eu esperava. Só não foi mais fácil que como os vídeos fizeram parecer, mas eu estava orgulhosa do resultado. Nunca pensei que um dia diria isso, mas até que a minha namorada estava fofa com a sua fralda. Parecia um verdadeiro neném que dava vontade de morder.

Guardei tudo de volta na bolsa preta e escondi no quarto de acompanhante ao lado. De volta para a minha poltrona, eu finalmente poderia dar por encerrado o dia de hoje… se eu conseguisse dormir.

As palavras de Theo ainda ecoavam em minha mente. Fechar os olhos apenas me fazia imaginar aquilo que tive horror em ouvir. E quando o cansaço ameaçou me vencer, o que me despertou foi a inquietação de Clara que se mexia e resmungava durante o sono.

– Não! – Clara levantou o torso de repente se sentando e me fazendo despertar totalmente. – Val? Val!

– Mon amour? – Me levantei e a abracei. – Eu estou aqui, bébé. Está tudo bem.

– Não deixa eu, não deixa – ela se agarrou a minha roupa com força. – Não deixa!

– Calma, mon bébé. Eu estou aqui com você.

O provável pesadelo a deixou abalada e assustada. O choro que veio a seguir foi quase inevitável me deixando apavorada.

– Não chora, mon amour. Foi só um pesadelo, já passou… eu estou aqui. Eu estou aqui com você!

Nem sei o que se passou na minha cabeça para pegar Clarice no colo e a levar para o sofá comigo. Eu sabia que não poderia deixar que esse choro continuasse e deveria a acalmar o quanto antes. Com Clara deitada em meu colo, eu abri os botões da minha camisa de pijama e levei o meu peito até sua boca.

– Isso funciona com todos os pequenos, vai ter que funcionar com você também! Vamos lá, meu amor, pega esse peito, por favor.

A princípio Clara não entendeu o que eu estava tentando entender e tentou negar virando o rosto. Eu insisti mais um pouco e ela cedeu. Eu vi estrelas com a sugada toda errada que ela me deu. Se eu não sabia o que estava fazendo, Clara sabia menos ainda. Mas aos poucos fomos nos ajustando e sua pegada passou a ser menos incomoda.

Assim como todos os outros pequenos, a minha pequena se acalmou ao mamar no peito e parou de chorar. Eu a observei ainda perplexa com a magia. Colo e peito, não era isso que a Gio dizia ser milagroso?

Era isso… Clarice era uma pequena e agora eu teria que aprender ser a sua mommy.

«-»

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