« N A R R A D O R »
Segunda-feira, 08:27 da manhã.
A ansiedade e preocupação acompanhavam Larissa a cada passo que dava em direção ao grandioso edifício comercial no coração da Faria Lima. Clarice havia comentado muitas vezes sobre o lugar e todos os seus aspectos arquitetônicos, de fato era tudo muito lindo e digno de admiração. Mas a jovem arquiteta se sentia tensa demais para apreciar.
– Olá, bom dia. Em que posso ajudar? – A recepcionista cumprimentou Larissa com um sorriso bastante cordial.
– Eu vim falar com a Valquíria, – ela conferiu o celular mais uma vez, – Valquíria Touchon da TM Visionnaire, escritório de arquitetura.
– Tudo bem. E você tem algum horário marcado?
– Não. É um assunto pessoal.
A recepcionista a encarou desconfiada. – Certo. Me empresta um documento? – Ela prontamente entregou sua identidade pela fresta do vidro. A mulher verificou algo no computador e então devolveu o documento. – Senhora Larissa, seu nome não consta na lista de pessoas autorizadas. Infelizmente não poderei autorizar a sua entrada.
– Mas você não pode ligar? É só falar que sou parente da Clarice Mansur. Ela vai querer me ouvir.
– Infelizmente não posso te ajudar.
– É importante! – Larissa se desesperou. – É do interesse dela. Você precisa ligar. Ao menos ligue para ela.
– Senhora, por gentileza, eu peço para manter o nível da voz ou serei obrigada a chamar a nossa equipe de segurança.
Larissa respirou fundo e se acalmou. – Ok, beleza.
Derrotada, ela decidiu esperar perto da catraca dos elevadores. Sabia que em algum momento do dia, Valquíria passaria por ali e Larissa estava disposta a esperar, não importava quantas horas fossem necessárias. Os seguranças também a rondava como se ela fosse uma possível ameaça, mesmo assim ela não recuou.
Para a sua alegria, a “sorte” estava a seu favor e não muito depois, Larissa reconheceu a mulher que procurava de longe. Clarice tinha razão quando disse uma vez que Valquíria tinha uma áurea que a cercava que era difícil de explicar, mas qualquer um notava. Mesmo se não tivesse visto o seu rosto nas capas de revistas que encontrou ao procurar por sua aparência, Larissa iria a reconhecer apenas pela sua áurea.
Valquíria pegou o celular no segundo seguinte que entregou a chave do seu carro para o manobrista e entrou no saguão com uma expressão nada amigável. Larissa por um instante se intimidou, mas mesmo assim seguiu em frente para conseguir seu atestado de maluca.
– Valquíria! – Larissa a chamou e a reação dos seguranças foi imediata. Eles tentaram a conduzir para fora, mas ela foi insistente. – Valquíria, aqui!
A francesa a olhou confusa, mas continuou seu caminho – agora escoltada por um segurança.
– Senhorita, por favor, se retire. – o segurança pediu, mas Larissa continuou.
– Valquíria! Eu sou prima da Clarice! Por favor. Valquíria!
Ao citar o nome “Clarice”, Larissa conquistou a atenção da francesa que imediatamente parou e se aproximou dela. – Está tudo bem, deixem ela.
– Tem certeza, senhora?
Valquíria respondeu com um olhar e foi o suficiente para os seguranças se afastarem. – Você é mesmo prima da Clarice? – A francesa perguntou a Larissa que a observava sem reação. – Qual o seu nome?
– Larissa… Larissa Souza. Nós somos primas. Eu sou sobrinha do pai dela, Luís.
Não que fosse necessário para Valquíria todos aqueles detalhes, afinal, ela já havia ouvido esse nome vindo de Clarice. Mas apreciou a tentativa da menina de mostrar que de fato eram parentes.
– Larissa, você tem notícias da Clara? – Val perguntou preocupada. – Ela não fala comigo desde sexta-feira.
– Ela não está com você?! – Larissa levou as mãos para a cabeça desesperada. – Fodeu… fodeu. Fodeu! Fodeu! A Clarice sumiu de vez!
Narração Valquíria:
“Desesperada” não descrevia nem perto o que sentia naquele momento.
Ouvi todo o relato da Larissa, prima da Clara, com total pavor e revolta. Como era possível alguém com tamanha crueldade no coração? Meu estomago embrulhou várias vezes ao saber o que se passou com o meu amor. O sentimento de revolta e indignação foi inevitável. Até o momento eu não considerava nem mesmo a Claudia uma inimiga, mas essa Lúcia… ela conseguiu esse posto e eu estava determinada a destruir a vida dessa mulher.
Eu vou dar motivos reais para ela me achar o próprio Satanás.
– Alguém planejou tudo isso, – eu disse vendo as fotos sobre a minha mesa. – Somente isso explica uma foto tirada quando tínhamos acabado de entrar no carro. Veja, isso aqui foi ainda essa quarta-feira.
– Mas quem será? – Larissa perguntou. – Eu não conheço ninguém que queira prejudicar a Clarice… a não ser a Diana, mas não acho que ela iria tão longe. Ela sabe que essa brincadeira poderia sair dos limites com os meus parentes.
– Seria muita coincidência ter sido algo que a Diana fez, mas eu não acho que foi ela. Muito menos que o objetivo disso tudo seja prejudicar a Clarice.
“Você me paga, Valquíria” a voz de Pedro Henrique ecoou em minha mente. Esse filho da puta…
Que o Pedro Henrique seja baixo o suficiente para usar Clarice para me atingir, disso eu não tenho dúvidas. O que ele achou que iria conseguir com esse jogo infantil e idiota, isso sim é a incógnita.
Sem pensar muito, peguei o meu celular para ligar para Pedro Henrique. Bastou três toques para ele me atender e embora não estivesse vendo seu rosto, sabia que estava sorrindo. A sua voz de filho da puta entregava.
– Eu sei que foi você, – afirmei. – O que você fez com a Clarice?
– O que eu fiz? Você deveria me perguntar o que ela andou fazendo esse final de semana. Já ficou sabendo que a sua garota estava com outra?
Revirei os olhos. – Pedro Henrique, eu esperava mais de você… não estamos em uma novela. O seu joguinho barato não irá dar certo. Me surpreende que esse tenha sido o seu plano o tempo todo. Eu sou autista, não burra.
– Não acho que irá continuar confiante assim quando ver as fotos e o vídeo que tenho da…
– Onde está a Clarice?! – Esbravejei o interrompendo.
– Não sei, você já tentou ligar para a outra?
– Pedro Henrique, desista desse seu joguinho idiota. Eu quero saber onde está Clarice! Onde você a levou?!
– Está achando que eu sequestrei a pirralha? – Pedro riu. – Isso está me saindo melhor que encomenda. Eu não tenho nada a ver com o sumiço do seu animalzinho de estimação. Para alguém que se considera inatingível, você é bastante frágil. Eu só tirei umas fotos e foi o suficiente para tudo isso?
Mordi a língua para evitar de falar merda. Eu não sei até que ponto ele estava blefando e enquanto Clarice não estivesse ao meu lado, eu era justamente isso: frágil.
– Sabe o que mais é bastante frágil, Pedro Henrique? Seu status, dinheiro, carreira… não se esqueça que tudo que você considera seu na verdade é meu e eu posso tirar a qualquer momento.
– Você sabe muito bem que não é bem assim. Nós estivemos juntos tempo o suficiente para ser uma união estável. Eu ainda posso reclamar o carro e o apartamento.
– Quero ver o que irá reclamar quando eu jogar fogo nos dois.
– Você não ousaria.
– Talvez não ousaria jogar fogo com você dentro… ainda, mas estou começando a mudar de ideia.
Pedro Henrique bufou estressado. – Eu não sequestrei essa garota. Não faço ideia de onde ela esteja.
– Sequestrando ou não, você é o pivot de toda essa história. É melhor você começar a procurar pela Clarice se não quiser parar de baixo da ponte ou atrás das grades porque eu vou arrancar tudo de você a cada fio de cabelo da Clara que cair enquanto ela estiver longe de mim.
– Você não…
– A começar pela Lamborghini que tanto adora. Será que a Clara irá gostar? Talvez eu devesse colocar no nome dela!
– Você não vai colocar o meu carro nas mãos dessa pirralha…
– A revoir, Pedro – o interrompi encerrando a ligação. – Putain! Misérable bâtard, fils de chienne de pute (Puta! Desgraçado miserável, filho da vadia puta!).
A voz desse infeliz estava me dando nos nervos. Eu queria esfregar a cara desse infeliz desgraçado no asfalto!
Eu estava com ódio do Pedro Henrique e ódio de mim mesma. Sábado à noite eu fui até a casa de Clarice e a vi entrando em um carro com a família. Em momento algum imaginei que algo como o que Larissa me descreveu estivesse acontecendo. Naquele momento acreditei que o silêncio da Clara fosse por algo que a chateou ou a deixou brava. Não ficaria nada surpresa se tivesse feito algo que não a agradou sem perceber, então meio que “aceitei” a minha derrota… por que eu não os segui? Por que?!
A minha nuca coçava de nervoso. O que será que aconteceu? Onde será que Clarice está? Eu nunca quis tanta abraçar e matar a mesma pessoa ao mesmo tempo.
Dessa vez, a primeira pessoa que pedi ajuda foi a minha mãe. Para situações tensas como essa, ninguém melhor que ela para ter a calma e autocontrole para lidar com tudo. Eu estava um caos sem saber o que fazer, o que pensar e a única coisa que queria era chorar, mas eu odeio chorar.
Depois de ligar para todas as pessoas possíveis, desde o chefe da segurança particular da minha família até o governador do estado, minha mãe ligou para o meu pai. Eu agora não tinha dúvidas alguma que os dois haviam de fato aceitado Clarice já que estavam tão preocupados como se fosse eu a desaparecida.
– Acho melhor você vir para casa, o Damien vai te levar – minha mãe disse. – Nós não sabemos até que ponto você está em risco também. Não se pode confiar na sanidade e juízo de um homem.
Por mais que eu não acreditasse que Pedro Henrique seria audacioso ao ponto de tentar fazer algo comigo, eu aceitei o conselho de minha mãe. Eu não tinha cabeça alguma para ficar no escritório e já não estava participando de nenhum dos meus compromissos.
Antes de me levar para casa, Damien, segurança pessoal da minha mãe, levou Larissa para o tal apartamento que Clarice estava prestes a se mudar e havia comprado. Ainda preferiria que morasse comigo, mas aqui ao menos estava mais próxima de mim e o condomínio dava um pouco mais de segurança.
Larissa e Glória até perguntaram se eu gostaria de entrar, mas eu recusei. Estava orgulhosa da minha namorada por ter conseguido alcançar o seu objetivo depois de muito esforço e queria conhecer seu novo cantinho, no entanto, farei isso quando ela mesma puder me apresentar. Até lá, prefiro esperar.
Suspirei derrotada só de pensar no que poderia ser o significado desse “até lá”. Algumas horas? Dias? Semanas… eu não vou aguentar esperar por tanto tempo. Eu não tenho estruturas para isso.
Sozinha em casa, eu chorei. Eu detesto chorar. Você raramente irá me ver chorar, mesmo quando estou com muita dor. No máximo algumas lágrimas involuntárias, mas chorar copiosamente e sofrer em prantos não, isso não. Sempre achei que chorar assim passava uma imagem que não condizia com minha personalidade e essência, além de estragar a maquiagem e até sujar a roupa. E eu estava odiando Clarice por me deixar nesse estado lastimável.
Ah, Clarice… quando eu encontrar você… quem irá te prender sou eu! Prender em mim, na minha vida, na minha cama, no meu coração.
Volta logo!
« C L A R I C E »
Quando as portas do ônibus se fecharam, eu senti um alívio surreal crescer dentro de mim. Ainda troquei um olhar com a tia Lúcia uma última vez e jurei para mim mesma que seria para nunca mais.
Lúcia e Luís agora eram uma página virada em minha vida e eu não voltaria atrás. Para eles restaram apenas meus desprezo e indiferença. Eles não mereciam nem mesmo o meu ódio já que para odiar alguém demanda energia e dedicação e eu não desperdiçaria isso com eles.
O ônibus que peguei me faria dar uma volta por quase toda zona sul para chegar no apartamento de Val, mas eu não me importava. Qualquer caminho para ficar longe daqueles dois valeria a pena e eu daria volta ao mundo se fosse preciso para chegar nos braços do meu amor.
Sentada e com mais calma, eu tirei o moletom e a máscara que estavam na mochila e vesti. Eu parecia uma fugitiva da polícia com praticamente somente os olhos expostos, mas ao menos estava irreconhecível.
Eu ainda sentia a adrenalina por todo meu corpo. Meu coração estava disparado e a cada ponto que o ônibus parava, tinha sensação de que Lúcia ou Luís fossem entrar. Somente muito depois quando estávamos chegando no ponto final da linha que minha ficha de fato caiu. Ainda faltava um longo caminho para chegar na Val e por não ter meu celular para pesquisar rotas, teria que ir longe até perto do trabalho para então pegar a linha de ônibus que passava na rua de trás da casa dela. Em outras palavras, ainda restava mais ou menos uma hora de viagem.
O metrô estava relativamente vazio quando entrei. Eu não esperava que a essa altura alguém ainda estivesse me perseguindo, mas se estivesse, aqui tinha apenas o suficiente de pessoas para que eu pudesse me mesclar. Na minha cabeça ainda não fazia sentido que alguém estava me espionando e pior, se deu o trabalho de revelar as fotos e levar até o meu pai. Quem sou eu na fila do pão? Provavelmente a última que quando chega a vez já acabou os pães todos.
Cerca de duas estações depois, eu estava olhando a escuridão pela janela quando senti minha máscara ficar grudenta e pegajosa. Dei uma ajustada achando que fosse resolver e quando olhei para a minha mão, estava manchada de sangue. Meu nariz estava sangrando.
Segurei firme com a cabeça reta para estancar e não adiantou de nada. Jogar a cabeça para trás também não. O sangue continuava a escorrer e aos poucos a máscara preta não era mais suficiente para disfarçar. Eu me sentia cada vez mais fraca e com falta de ar devida à perca de sangue e quando os pontos pretos começaram surgir no meu campo de visão, eu realmente fiquei com medo.
Eu tinha opção de seguir o caminho e torcer para conseguir chegar no meu destino final ou descer na próxima estação e ir para a unidade de ponto atendimento.
Com a força que já não tinha no meu corpo, eu levantei e saí do metrô. Como eu consegui caminhar até a UPA, eu não sabia dizer. Só sei que quando cheguei lá e tirei a minha máscara, não precisei sequer registrar na recepção para me ajudarem a parar o sangramento.
No entanto, a urgência do primeiro atendimento não significou muita coisa. Não lembrava mais se alucinei ou se algum médico realmente disse algo sobre eu precisar me internar, que iriam me transferir para outro hospital, que eu precisava esperar. Eu só sei que estava com frio. Muito frio. Meu corpo tremia inteiro de frio. Tremia tanto que a enfermeira jogou duas cobertas sobre mim e não surtiu efeito algum.
Horas e horas, e horas, e horas se passaram e eu havia me tornado uma com a cadeira dura da UPA e me sentindo uma vampira recebendo sangue – e perdendo na mesma proporção. Eu vi o dia clarear e escurecer pela janela e aos poucos me sentia aprisionada mais uma vez. Dessa vez em meu próprio corpo e na cadeira em que estava. Eu não queria estar sozinha aqui e ao mesmo tempo tinha medo que acabassem contatando pessoas que não queria que viessem aqui.
Em algum momento, quando o céu havia escurecido mais uma vez, me levaram de ambulância para outro lugar não muito longe. Pensei que fosse mudar em algo, mas apenas saí de uma cadeira para outra. Agora eu estava esperando liberar o quarto, eles disseram, ou eu alucinei isso também.
Sem receber mais sangue na veia e largada numa cadeira no canto da enfermaria, eu me senti completamente esquecida. Tentei o máximo que pude lutar contra o cansaço que me assolava, mas aos poucos me rendi e fechei os olhos. Se era para um sono profundo ou eterno, só havia uma forma de descobrir…
Clarice?
Clarice, é você?
Clarice!
Acorda!
A voz masculina e meu corpo sendo chacoalhado me fez despertar do sono. Alguém estava me carregando e então eu estava em uma maca. Quanto tempo eu dormi? Onde eu estava?
As luzes do hospital passavam sobre a minha cabeça causando incomodo em meus olhos, virei o rosto para o lado e vi alguém familiar.
– Bruno? – Minha voz saiu como um sussurro.
Era a primeira vez que o via assim, tão sério. Ele estava de uniforme que um dia já foi branco e agora estava manchado de vermelho e algo me dizia que eu tinha minha parcela de culpa nisso.
– Você não inventa de morrer, Clarice – ele disse bravo. – Ainda mais no meu plantão. Tem noção do que a Valquíria pode fazer comigo se isso acontecer?
Ouvir o nome do meu amor me fez sorrir… ou ao menos eu acho que sorri. Eu não sei, eu me sentia tão fraca.
– Aguanta firme só mais um pouco, – ele deu um leve tapinha no meu rosto. – Fica acordada. Olha para mim.
Eu tentei. Eu juro que tentei. Eu sabia que se Bruno estava ali, logo Valquíria estaria também. E foi esperando vê-la que eu tentei ficar acordada…, mas eu dormi.
A luz branca contra o meu rosto me fez despertar. Era tão intensa e forte que, por um instante, pensei que estava atravessando a última fronteira. Meus olhos estavam pesados e o incomodo me impedia de os manter abertos. A minha última memória era turva, um borrão de medo, dor, frio, e depois… o vazio.
Será que eu morri?
O Bruno vai me matar!
Tenho certeza que quando ele chegar desse lado enviado pela Val, ele irá me caçar para me matar uma outra vez.
Eu não posso ter morrido!
Com um esforço maior do que esperava, consegui abrir meus olhos devagar. Minhas pálpebras pareciam pesar toneladas e queriam se fechar sozinhas. A medida que a claridade foi se amornando, o que era apenas um brilho foi ganhando contornos, cores suaves e formas. Ao meu redor, vi um quarto com paredes claras, uma decoração neutra, mas aconchegante. A cama em que estava era macia e quentinha, e havia alguns vasos de flores sobre a mesa ao lado e no sofá.
Eu definitivamente não estava em um lugar assim quando tudo virou escuridão. Já estava quase me desesperando por achar que estava em um outro plano quando percebi que algo aquecia a minha mão. O toque da pele suave e macia contra a minha era muito real e físico para estar do outro lado. Alguém estava segurando a minha mão.
Com a cabeça baixa, apoiada sobre a cama, Val parecia ter sido vencida pelo cansaço enquanto me esperava acordar. Seus cabelos caíam soltos e desgrenhados, pareciam tão macios que quis tocar. Precisei usar toda a força do meu corpo para conseguir mover minha mão livre até ela e assim que toquei as pontas dos dedos em seus fios, Val despertou em um movimento brusco e repentino.
Se eu estava morta, eu voltei a vida quando seus olhos encontraram os meus. O sorriso que surgiu em seus lábios trouxe o ar de volta aos meus pulmões. E mais uma vez eu me vi apaixonando pela a mesma mulher.
– Mon amour! – Val me agarrou um abraço e então me encheu de beijos. – Você voltou!
– É… eu voltei.
Ela colou a testa na minha segurando meu rosto entre suas mãos quentes. – Por favor, não me deixe mais! Por favor…
– Eu não vou… não posso correr esse risco… de deixar a gostosa da minha mulher… sozinha por aí.
– Idiota! Você tem noção do susto que me deu?!
– O que aconteceu? Onde eu estou?
– Você perdeu muito sangue, – Val se afastou um pouco e acariciou os meus cabelos. – Deu um susto em todo mundo, provavelmente moveu a maior campanha de doação de sangue da história do Apex e passou as últimas 24h se alimentando como uma vampira. E eu espero nunca mais passar por isso outra vez, entendido mocinha?
Segurei a mão de Val contra o meu rosto e respirei fundo tentando extrair ao máximo do seu cheiro e perfume. – Eu senti a sua falta.
– Eu amo você.
Eu sorri e teria respondido de volta se não fossemos interrompidas por uma equipe médica que entrou.
Meu corpo se enrijeceu. Eu não sou muito fã do ambiente hospitalar ou das pessoas que costumam trabalhar nele, e agora que eu tinha o mínimo de vida e força dentro de mim, minha mente pareceu se lembrar disso.
– Veja só quem acordou, – a médica disse em um tom gentil. – Como você está se sentindo, Clarice?
– Não sei… – olhei para Val como se ela pudesse traduzir o turbilhão que girava dentro de mim. – Acho que cansada… e confusa.
A médica assentiu e sorriu. – Tudo bem, é normal. Você perdeu muito sangue, e seu corpo precisa de tempo para se recuperar, – ela olhou para o tablet em sua mão e digitava algo enquanto me explicava. – Estamos monitorando sua pressão e os seus sinais vitais, e por enquanto tudo parece bem, – ela olhou para Val e eu com um sorriso tranquilizante no rosto. – Mas você precisa descansar, e principalmente, não se esforçar demais, certo? Nós vamos fazer uma coleta pequena agora, não queremos tirar muito sangue de você – ela fez uma piada, mas ninguém riu.
Concordei com a cabeça e sorri desconfortável no momento que as enfermeiras começaram a tocar em mim para ajustar alguns fios e medir a minha pressão. Institivamente, segurei a mão da Val mais forte, e senti ela me dar um apertinho suave, como se quisesse me lembrar que estava comigo.
– Está com alguma dor? – Ela perguntou.
– De cabeça… a minha cabeça dói muito. Meu corpo e a garganta também.
– Você ainda está com um pouco de febre. Pode ser que esses sintomas seja apenas um resfriado ou uma gripe, sua imunidade não está lá muito boa, mas também pode estar relacionado a causa do sangramento. Não podemos descartar nenhuma das possibilidades.
Por agora eu vou receitar alguns medicamentos para você se sentir melhor, ok?
– Ok.
Eles fizeram suas aferições e me examinaram. Quando vi a agulha vir em minha direção, olhei para Val suplicando por socorro. Ela apenas de deu um leve sorriso e beijou o topo da minha cabeça segurando o meu rosto com a mão livre. Eu não consegui ver o que a enfermeira fazia, tampouco senti a picada da agulha, mas sabia que ela estava ali. Só depois que ela se afastou e que Val me soltou, notei que havia um acesso em meu braço.
Eu ainda não tinha recuperado todos os sentidos do meu corpo. Estava tão distraída com o acordar e ver a Val outra vez que meu cérebro esqueceu de se ligar totalmente. Agora consciente e acordada, percebi que queria desesperadamente sair dali.
– Eu… queria ir ao banheiro, – falei, um pouco hesitante. – E talvez tomar um banho?
A última vez que olhai para mim mesma antes de acordar aqui, eu estava banhada de sangue. Minha roupa estava um verdadeiro caos e minha pele grudenta. Eu já não estava suja de sangue, isso eu notei, mas não me sentia totalmente limpa. E céus, deus me livre estar fedendo perto da minha namorada.
– Você ainda está muito fraca e ainda tem riscos de cair. Levantar agora seria perigoso. Podemos te ajudar com o que você precisar.
Fiz uma careta. A ideia de uma “ajuda” com algo tão simples me deixou desconfortável e me fez lembrar dos últimos dias com a minha tia me vigiando ir ao banheiro. – Eu consigo ir sozinha, – insisti, mas sabia que estava fraquejando um pouco só de falar.
A médica trocou um olhar com uma das enfermeiras e, virando-se para mim, disse, com a voz mais suave. – Acho que o ideal agora é você usar uma fralda, só por enquanto, e assim evitamos qualquer risco da sua pressão cair repentinamente e ter uma queda. Nós não queremos que você se machuque e volte a sangrar, não é mesmo?
Todo o sangue que ainda tinha em meu corpo subiu para o meu rosto numa fração de segundo. – Fralda? Não! Nem pensar! Eu não vou usar uma…
– Mon amour, calme-toi – Val esfregou o meu ombro com a mão tentando me acalmar e me manter no lugar. – Tranquille, tranquille.
– Não, Val! Eu não quero! – A sensação de humilhação me queimava no peito, e meu coração começou a acelerar. – Eu não vou usar isso! E também não quero ninguém me dando banho! Eu não quero! Eu não quero!
Me apavorei como se quem iria comigo ao banheiro fosse Lúcia e não uma enfermeira qualquer. Eu estava com medo e apavorada. Sentia que a qualquer momento fosse me explodir em lágrimas e a pressão em minha cabeça somente aumentou.
– Clarice, respire devagar. Se você se agitar muito, o sangramento pode voltar. Você não pode voltar a sangrar. Então, por favor, se acalme um pouco.
Val tocou meu rosto e me fez virar para a sua direção. – Meu amor, nós vamos dar um jeito nisso, d’accord? Mas agora você precisa manter a calma. Já foi muito difícil conter seu sangramento uma vez, vamos tentar não ter que passar por isso uma segunda vez, certo? – Ela se inclinou para mais perto de mim e me puxou para contra o seu corpo me abraçando. – Respira e se acalma. Eu estou aqui com você.
O pouco do contato pele a pele que essa interação nos proporcionou causou uma sensação de conforto e relaxamento que não era capaz de explicar. Com a minha mão livre, eu agarrei a camisa de Val e a puxei para mais perto como se com isso esse contato fosse aumentar. Ela pareceu entender o recado e me segurou ali contra o seu peitoral enquanto esfregava o meu braço e dava beijos no topo da minha cabeça.
A horas de “cativeiro” me deixaram completamente carente de colo e carinho. Só isso explicava o vazio que sentia dentro de mim que parecia ser preenchido a conta gotas dentro desse abraço. Mesmo com a Val aqui me abraçando e fazendo carinho, a sensação que tinha era que não era o suficiente. Eu precisava de mais, eu queria muito mais dela. E talvez eu estivesse sendo manhosa e grudenta demais, só que por agora, só agora, esse calor e contato era o que meu coração pedia e precisava, necessitava do seu amor.
Parte de mim queria chorar e preencher esse vazio com as minhas próprias lágrimas. A outra parte sabia que se fizesse isso, a Val não iria ficar contente. Então eu me contive e respirei.
– Eu te acompanho, o que acha? – Val perguntou olhando nos meus olhos. – Eu te levo no banheiro e te dou banho. Podemos fazer assim? – Assenti. – Você promete que não vai ficar agitada?
– Eu não queria ver você fora dessa cama assim tão rápido sem antes recuperar um pouco da sua força, mas se vocês duas me garantirem que não vão me provocar uma queda, eu vou fechar os meus olhos para isso.
– Tô com fome, – ignorei completamente o comentário da médica. Meu estomago estava falando mais alto.
– Isso é bom! Eu vou mandar a nutricionista passar aqui para a gente resolver isso o quanto antes.
O povo chato saiu e eu finalmente tive a Val todinha para mim, mas nosso abraço não durou nem dois minutos. Logo em seguida, a tal nutricionista chegou me fazendo um monte de perguntas sobre o que eu gostava e não gostava de comer, alergia e um monte de coisas que me deixaram com mais fome e um pouco de sono também.
– Vamos tomar um banho primeiro enquanto o seu jantar não chega? – Val perguntou assim que a nutricionista saiu. – Assim você pode aproveitar e fazer xixi. Já basta tudo que está acontecendo que ainda não sabemos, não precisamos adicionar uma pedra nos rins.
Sentar na cama por si só foi o suficiente para entender o porquê de a médica não querer que eu tentasse me levantar. Eu não tive forças para levantar meu tronco sozinha e se não fosse por Val me segurando, eu não acho que iria conseguir me sustentar sentada.
– Tem certeza que quer mesmo levantar? – Val perguntou preocupada e receosa.
Não levantar significava usar fralda e não. Essa humilhação eu me recusava a passar.
– Tenho.
O que era carregar 44kg para alguém que conseguia se sustentar na posição do corvo do yoga por quase cinco minutos? Val que lute. Ela consegue.
– Eu vou te deixar aí enquanto pego umas coisas para te dar um banho. Eu não vou usar esses produtos de hospital em você – ela me deu o frasco de sabonete líquido que estava na pia, – qualquer coisa, se precisar de ajuda e não conseguir me chamar, deixa isso cair no chão. Ok?
Pela forma que ela falava comigo, parecia que ela iria para longe e eu iria tentar escalar o Everest, mas na realidade ela só tinha me largado sentada na privada e foi coisa de dois, três minutos. Eu realmente não entendi todo o alarde.
– Você trouxe tudo isso para tomar banho no hospital? – Perguntei segurando a risada. – Isso é tão a sua cara.
Val ficou sem graça e não respondeu.
Quem em sã consciência iria trazer sabonete líquido, sabonete em óleo, óleo pós banho, body splash, hidratante corporal e perfume para tomar banho enquanto estivesse no hospital? A minha namorada, claro. E eu não contei os produtos de cabelo. Na merda sim, fedida nunca.
Ao invés de um chuveiro daqueles que ficam presos a parede, o hospital tinha uma ducha de mangueira que poderia ficar no suporte ou usar solto. Em outras palavras, quando vi aquilo na mão de Val meu corpo ficou tenso. Eu estava sentada na cadeira de banho e imediatamente fechei os olhos esperando o jato de água gelada sobre a minha cabeça que nunca veio.
Abri os olhos para entender o que estava acontecendo, Val estava testando a temperatura da água na própria mão. – Acho que agora está bom, – ela sorriu para mim. – Pronta para o seu banho?
Um pouco mais quentinha que o habitual, a temperatura da água estava perfeita.
Dessa vez eu não consegui me conter e chorei. Era bobo e patético chorar porque a minha namorada se importou em regular a temperatura da água antes de me dar banho. Mas depois de tantos anos de pequenas – e grandes – agressões e abusos, receber amor e carinho nos mínimos detalhes era… esmagador no bom sentido.
– Clarice, você está chorando? – Val perguntou preocupada, beirando ao desespero. – O que aconteceu, meu amor? Está com alguma dor? Quer voltar a deitar?
Eu a puxei pela camisa para mais perto de mim e a abracei sem me importar com o fato de que estava a molhando toda.
– Meu amor, o que está acontecendo com você? Fala para mim. Eu preciso te entender – Val pediu acariciando o meu cabelo. – Eu estou preocupada.
– Eu te amo.
Ela me encarou confusa.
– Eu estou chorando porque eu te amo e estava com saudades.
Val respirou fundo e balançou a cabeça. – Então é melhor parar de chorar. Eu não quero que isso desencadeie um sangramento. Eu vou ficar muito puta com você se começar a sangrar porque me ama e está com saudades.
Eu ri e voltei a abraçar. Se ela não reclamou por eu ter molhado a sua roupa, não seria eu que iria me incomodar.
Era bom finalmente estar de volta para a minha família!
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