Elora Aneva

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62. Enel, arrête de me faire baisser mon énergie!

« V A L K Y R I E »

Bastou um dia de rebeldia da minha pequena para sentir como se tivesse passado uma eternidade desde o nosso último momento de paz. Confesso que ainda estava um pouco desconfiada e com medo de uma possível revolta repentina. Até cogitei que Clarice fosse me chutar quando tentasse lhe colocar a fralda, mas felizmente não aconteceu.

Se eu soubesse que conseguiria cativar a total atenção da minha bebê com pelúcias da Bluey, eu teria lhe dado esse presente antes.

Ela deitou na cama por livre espontânea vontade, me permitiu tirar a parte de baixo do seu pijama e – por um milagre – não reclamou quando usei o lencinho úmido em sua pele. E não, não foi por minha causa. Ela só estava admirando suas pelúcias a ponto de não perceber o que acontecia ao seu redor.

Aproveitei essa distração para cuidar da pele da minha pequena sem pressa. Normalmente trocar a Clara é uma disputa para ver o quão rápido consigo fazer. Não ter que me preocupar com a sua irritação era algo que iria aproveitar enquanto podia.

Após a pomadinha e o talco, era hora de fechar as abas da fraldinha lilás e estava pronta a minha neném… e ela nem percebeu.

– Eu vou guardar… – Clarice sequer me deu ouvidos, então eu só desisti de avisar onde iria e fui guardar as coisas e lavar minhas mãos.

Teoricamente essa era a noite de usar os pijamas de natal que meu pai sempre inventa de arrumar todos os anos, mas suéter para amamentar era péssimo. Eu não quero ter que levantar toda a minha roupa para conseguir dar mamar. Amanhã no café da manhã eu troco o meu pijama e o da Clara, por agora eu vou usar… camisa de botões. Está frio demais para uma camisola, embora seja a minha preferência.

Maman? – Clara me chamou chorosa. – Maman?! Cadê?

Do closet ouvi as fungadas de quem iria começar a chorar e saí toda desengonçada vestindo a calça enquanto andava de volta para o quarto.

– Que foi bebê?

– Vo-vo-você de-deixou eu…

É, pelo visto sua distração não é o suficiente para não notar a minha ausência. E eu estava tentando fortemente não ficar contente com isso.

– Eu já voltei, mon amour. Não precisa chorar.

Clarice me olhou tal qual o gato de botas e aceitou as minhas palavras. – Deita com eu?

Se fosse possível tatuar um momento no cérebro, eu tatuaria essa cena.

Talvez eu estivesse no auge da carência depois de um dia vivendo de migalhas. Talvez Clarice só era fofa demais para meu coração resistir. Ou talvez fosse os dois. Independente de qual fosse a resposta correta, eu me vi totalmente incapaz de ignorar o pedido da minha bebê.

Terminei de me preparar para dormir? Não. Isso irá afetar o meu humor amanhã? Com certeza. Se eu vou voltar atrás? Não, não vou. Uma noite sem cuidados com a pele não irá me envelhecer mais rápido… eu acho. Quer dizer, eu não vou pensar nisso.

Também não é como se eu tivesse a idade da minha mãe…

– Você já está com sono, meu amor? – Perguntei me juntando a Clarice de baixo da coberta.

– Hmmm, não tô não. E você, quer mimir?

– Non.

– Ah, então tá bom.

Clarice deixou sua Bluey e Bingo de lado e veio para cima de mim deitar em meu colo, sentando entre as minhas pernas. Em outras palavras, sabendo que não iria dormir por agora, ela tomou a liberdade de decidir que eu a daria colo e ficou por isso. Não que eu tivesse intenção alguma de trabalhar em meu laptop ou ler um livro, mas se fosse esses os meus planos, foda-se né. A minha pequena deixou claro que não estava nem aí.

– Abraça eu. Eu fiquei o dia inteirinho sem amor, sem carinho, sem nadinha.

– Porque você não quis…

– Porque eu ‘tava brava com a maman por ser bobona.

– E ainda está?

– ‘Tô! Mas um pouco menos… e eu também quero mimo antes de mimir, então vou deixar para ficar brava amanhã.

– Espera aí, você ainda vai ficar brava comigo amanhã?

Clarice não me respondeu, apenas me olhou em silêncio. Não era preciso palavras para entender exatamente o que estava me dizendo.

– Você quer me ver sofrer, não é mesmo? – Revirei os olhos. – Posso pelo menos saber um pouco mais o que está se passando dentro dessa sua cabecinha? O que de fato está sentindo e o que eu posso fazer para te fazer sentir melhor?

– Eu não… eu num quero falar…

– Mas você sabe que terá que falar, não sabe? – Novamente ela me encarou em silêncio deixando no ar a sua resposta. – Clarice, eu sou arquiteta e não uma vidente. Eu não leio mentes. Se você não usar as suas palavras para expressar o que sente aí dentro, eu não vou saber o que está sentindo, muito menos o porquê está se sentindo assim. Você vai ficar chateada comigo por continuar te machucando sem saber e eu frustrada por não entender o que está se passando com você. Não parece legal, né?

– Não…

– Pois então. Você vai me dizer agora o que exatamente você ouviu que te deixou assim?

Clarice hesitou por um momento. Talvez se não estivesse em seu pequeno espaço, muito provavelmente não iria se abrir… não ainda. Mas a minha pequena não tem segredos com a maman e acabou cedendo.

– Eu num queria ter bisbilhotado a conversa da maman com a véia velhota, mas eu ouvi… quer dizer… ouvi em partes… e ela tem razão.

Ergui o cenho desconfiada. – A Hélène tem razão?

– Sim. Eu posso não querer coisas, mas você dá as coisas sem eu pedir. E no final, eu vou ser intesse… inteisse… intesseireira… esse negócio aí do mesmo jeito. E eu me sinto um peixinho fora d’água aqui. Eu num combino com esse lugar… eu num combino com você… e isso me deixa triste.

– Eu entendo que cause uma estranheza inicial, você não é a única e nem a primeira a se sentir assim. Justamente as pessoas que não são interesseiras são as que mais sofrem com isso, mas acredita em mim, amor; é passageiro. Você vai se acostumar com isso assim como a minha família por parte de pai e os meus amigos mais íntimos. É uma questão de tempo… e eu sei que não é justo da minha parte te pedir isso sabendo do seu desconforto, mas por favor, nos dê esse tempo, – peguei a mão da Clarice e dei um beijo. – Eu prometo que vou fazer que estiver ao meu alcance para que não se sinta tão deslocada até se adaptar.

– Até mudar para o Paraisópolis?

– Onde?

– Você nunca ouviu falar do Paraisópolis? – Clarice me encarou com julgo. – Você é realmente outro nível de rica em São Paulo…

– Eu pensei que tivesse sugerido o Grajaú.

– É que agora eu lembrei do Paraisópolis…, mas enfim, mudar de casa não vai resolver nadinha. A bruaca véia e talvez a sua família todinha devem achar a mesma coisa de mim… que eu sou uma intesse-inte-sei-lá-o-que e pipipi-pópópó. E só com isso já ficam jogando aquele bobão pra cima de você, imagina se descobrirem que além de intesse…

Inte-res… – a ajudei.

Além de inte-res-seira… eu também sou pequena. Pequena e chata… e feia… e boboca.

– Você é pequena, mas não é chata, menos ainda feia ou boboca. E definitivamente não é interesseira.

– Sou inte-res-seira sim… eu tenho interesse nos seus peitos… e a sua bunda! A sua bunda é sensacional, maman!

Estava demorando para isso acontecer… mesmo pequena, a Clarice ainda é a Clarice e não dava para esperar outra coisa vindo dela.

– Já entendi, ma vie.

– Mas a sua família não vai entender se eu falar isso. Eles vão achar que eu sou uma ‘berração bizarra e querer ainda mais tirar você de mim.

– Você não é uma aberração, mon amour. Eu amo todos os seus lados e você é perfeita para mim exatamente como é.

– Você ama porque num tem escolha.

– E você acha que, se por acaso você me deixasse, eu iria voltar a me relacionar com um homem como o Pedro Henrique? Esse é um caminho sem volta, ma vie. Eu não consigo nem imaginar outra realidade em que eu não seja mais “maman”.

Clarice inclinou para frente para ficar cara a cara comigo. – Está dizendo que vai procurar outra neném?! Você vai ter outra pequena?

– Não vou ter outra pequena porque você será eternamente minha e não irá se livrar de mim tão fácil assim. Hélène e nem ninguém será capaz disso. Estamos entendidas? Você é a minha pequena. E você não dê ouvidos a mais ninguém senão a mim.

– Você promete de dedinho?

Estiquei o dedinho para ela. – Oui, mon amour. Je te le promets. (Sim, meu amor. Eu te prometo.) – Clarice entrelaçou o dedinho com o meu e me fez uma carinha de neném manhoso. – Vamos fazer um acordo? Você irá me contar tudo o que te disserem ou que ouvir por aí sobre nós ou você, d’accord? Deixa que eu lide com essas pessoas.

– Tá bom, maman… agora me dá um tetezinho, eu tô faminta!

– Com fome?! Mas você… ah, você não comeu direito, – revirei os olhos e comecei a desabotoar o meu pijama. – Você sabe que teté não mata sua fome, não sabe?

– Mata sim! A maman tem um montão de leite pro neném.

Queria ter a confiança que a Clarice tem em relação ao meu peito e seu leite. Acho que se não fosse pela a determinação dela, eu ainda não estaria lactando. Pensar nisso é deveras preocupante.

A ma petite não mentiu sobre estar com fome e eu tive a certeza disso quando abocanhou o meu seio. Às vezes ela se empolga e se esquecesse que o tetê dela também é o meu corpo e dependendo da forma como suga pode me causar dor.

– Ma vie, eu não estou indo a lugar nenhum, tá? Vai com calma, s’il te plaît.

Clara respondeu alguma coisa com a boca cheia que eu deduzir ser “perdão” ou “pardon”.

Com o ritmo ajustado, a dor deu espaço para o alívio. Eu achava ser exagero das outras mommies no Apex quando ficavam desesperadas para amamentar a ponto de interromper qualquer coisa que seus littles estivessem fazendo. Hoje eu entendo e entendo muito bem como é. Depois do orgasmo, ter o seu seio esvaziado é a melhor sensação da vida.

– Você melhorou um pouco do resfriado, mas a asma ainda está atacadíssima, né mon bébé? – Comentei ao ver a minha pequena sofrendo para mamar e respirar pela boca ao mesmo tempo, quase engasgando no processo. – Coitadinha da ma petite, só sofre esse neném.

– É que tá vindo muito leite. O tetê tá muito cheio. Tá até duro, ó! – Clarice cutucou o meu seio com o dedo para mostrar o quão “duro” estava.

– Eu sei exatamente como está o meu corpo, ma vie. Agora para de falar com o peito na boca que isso dá agonia.

Tentando ajudar a minha bebê, eu ajustei os travesseiros atrás de mim para inclinar um pouco mais para trás e a puxar para mais perto quase “em cima” de mim, de forma que poderíamos usar a gravidade ao nosso favor e evitar que engasgasse com o leite.

O pequeno ajuste surtiu efeito e ajudou a minha pequena a encontrar seu próprio ritmo sem se afogar em leite. Mesmo assim eu estava morrendo de dó a observando respirar com a boca sem saber se prioriza mamar ou respirar. As condições já não eram favoráveis por conta do inverno, o resfriado apenas piorou tudo.

E eu me sinto culpada por ter acontecido. Não só pelo resfriado, como todo o resto…

Por mais que o relacionamento entre meus pais e a Clarice tivesse dado mais certo que em meus melhores sonhos, eu nunca me iludi em relação a Hélène. Se não fosse por sua condição de saúde, eu jamais teria vindo para cá com a minha namorada em tão pouco tempo de namoro. Minha grand-mère é do tipo de pessoa que se apresenta depois de alguns anos e não meses. Mas cá estamos nós e tudo que poderia dar errado está se saindo ainda pior.

Há vários anos venho empurrando com a barriga o inevitável. Fecho os meus olhos e ouvidos para a realidade e fico presa a um passado que já não existe mais há muito, muito tempo. Um passado que só existiu na minha cabeça e a verdade é muito mais fria, cruel e dolorosa.

A Hélène brigar por mim quando todos achavam que deveriam defender a “criança especial”, não tinha nada a ver com ela aceitou o que eu sou ou como eu sou. Na época parecia que a minha grand-mère era a única que me via além do autismo. Até meus próprios pais entraram no surto de quererem me proteger de todos e quaisquer gatilhos mesmo que isso apenas tornasse tudo pior. Só a Hélène acreditou em mim e provou a todos que eu poderia ser uma criança como qualquer outra tendo autismo ou não.

A Margot e a Hélène se odeiam desde muito antes de eu nascer, mas quanto a isso, até a minha mãe foi obrigada a admitir: ela foi a primeira a me tratar como qualquer outra criança e me encorajar a ser o que sou hoje. Obviamente que depois que meus pais perceberam que eu não precisava viver numa bolha para “não sofrer gatilhos” eles passaram a me incentivar da mesma forma. Mas os dois eram – e ainda são um pouco – pais super protetores e sei que o que fizeram não era por maldade e sim por serem pais de primeira viagem fazendo o que achavam ser o melhor.

Mas enfim, é muito difícil crescer com uma visão sobre alguém e depois ter que desfazer dessa imagem por se dar conta de que não condiz com a realidade. O seu herói na verdade é o vilão e nada do que você acreditava era verdade. Parte de mim não quer aceitar quem a minha grand-mère realmente é. Enquanto a outra parte tem ciência de que o amor da Hélène é tóxico e eu poderia ser mil pessoas para ela e ela iria odiar cada uma delas.

Então sim, Clarice tem razão. Eu por anos preferi fugir ao invés de enfrentar a Hélène. Vivia dizendo sim para todas as suas vontades passando por cima das minhas próprias. E depois que passei a entender melhor nosso relacionamento, tentei dizer não e fui incapaz. Foi mais fácil mudar de país e fugir.

Aí veio o Pedro Henrique e nos primeiros dois anos do nosso relacionamento era tudo muito lindo, tudo muito mágico. Até que ele conheceu a Hélène e virou seu principal aliado para me convencer a fazer as vontades dela. Vontades dela que o beneficiaria.

Não que eu me importe com o fim que levou meu antigo relacionamento, não ter me casado com aquele imbecil foi um livramento. Mas correr o risco de perder a Clarice pelo veneno da Hélène… definitivamente não é algo que eu vou aceitar quieta.

Eu amo essa garota muito mais do que eu gostaria de admitir e só a ideia do nosso término me causa arrepios.

– Num chora não, maman – Clarice interrompeu meus devaneios me trazendo de volta a realidade.

– Eu não… – passei o dedo em meu rosto e me surpreendi ao sentir a lágrima ali.

– Você tá triste? – Clara perguntou preocupada.

– Não… estou com medo. E preocupada.

– A maman com medo?! – Clarice me encarou surpresa. – Eu nem sabia que a maman também sentia medo. A maman é tão ‘foti e corajosa.

– Mas eu também tenho medo, ma vie. Muito, muito, muito medo. Medo de te perder.

– Me perder? – Ela perguntou genuinamente confusa. – Mas como é que a maman vai perder eu se você sempre sabe onde eu tô? Ó, – Clara exibiu o seu smartwatch e ligou o sistema de S.O.S. fazendo o meu celular sobre a mesa de canto tocar. – Viu só? A maman acha eu rapidinho.

– E se você tirar o seu relógio?

– Eu num vou não.

– E se você quiser tirar?

– Num sou nem doida. Minha listinha de castigo já ‘tá enorme, não preciso de mais não.

Sorri para a minha bebê e beijei o topo da sua testa. – Ô, mon bébé… você é muito fofa, sabia? Eu amo muito você. E por mais que saber que não pretende se aventurar por aí sem o seu relógio, não é exatamente com isso que eu estou preocupada.

– Num é?

Neguei com a cabeça. – Não, ma vie. O meu medo de te perder é que você em algum momento decida ir embora e me trocar por outra maman que te faça mais feliz que eu.

– Uai, e por que eu iria querer outra maman se eu já tenho a minha? Você é chatinha. E às vezes maldosa. Mas é minha maman e eu amo a minha maman um montão. Então não, eu num quero trocar você por outra mais legal e peituda.

Encarei a minha pequena levemente desconfiada. “Mais legal e peituda”? O que ela quer dizer com isso? Meus peitos não são bons o suficiente?

Valkyrie, foco!

– Nem por causa da bruaca velha? Você não me trocaria nem por causa dela? Você já está brava comigo por causa dela…

– Eu ‘tô brava…, mas é com a véia. Mas já que eu não posso ficar brava com a véia, eu ‘tô brava com você por causa dela…  e vai passar. Agora mesmo quase esqueci e aí você lembrou eu…, mas eu num vou trocar a maman só por causa da véia velhota bruxa chata. Num troco a maman nem quando dá palmadas que doem pra um baralho, por que eu vou trocar por causa da véia lá? Se a maman que é a maman num vai trocar eu…

– Eu jamais te trocaria, mon amour – reiterei.

– Então! ‘Tá com medo porque? ‘Tá tudo certo, tá tudo bem. Fica ‘sussa, tá bom? – Clara inclinou a cabeça para o lado me encarando curiosa. – ‘Tá segurando o choro, num ‘tá, maman? – Mentir não adiantaria de nada agora, então apenas afirmei com a cabeça, mordendo o lábio inferior como se isso fosse evitar o inevitável. – Você também pode chorar, maman. Coloca para fora. Eu ‘tô aqui com você.

Eu detesto chorar, mas eu desabei.

Sabia que estava diante da minha petite e por ela deveria ser uma maman forte, mas eu falhei.

Posso enganar a todos com a máscara de que permaneço intacta, porém a verdade é que ando pelos cantos colhendo os meus cacos. Tentando agir conforme a minha idade, mas no fundo sinto a mesma criança insegura e receosa que sempre fui. Eu não sou nada daquilo que as pessoas imaginam de mim. Não sou forte e corajosa, muito menos confiante. Eu sou uma farsa que finge ser aquilo que a Hélène idealizou para mim…, mas não consigo ser isso para a minha Clarice.

Me assusta que ela consiga me ver através dessa máscara e se deparar com toda a minha fraqueza e insegurança. E dá medo, muito medo que essa Valkyrie não seja a mesma pela qual ela se apaixonou.

– Vai ficar tudo bem, docinho. Tá bom? – Clara segurou o meu rosto entre as mãos e limpou minhas lágrimas com os polegares. – Eu num vou deixar mais a bruxa véia machucar a minha maman. Eu vou te proteger e cuidar de você, tá?

Peguei uma das mãos da Clarice e dei um beijo demorado por dentro. Ela voltou a acariciar meu rosto com uma delicadeza que é somente sua e sempre me desmonta por dentro. Fechei os olhos me rendendo ao toque suave da sua palma quente contra a minha pele e seus dedos macios passando de leve na minha bochecha.

Queria concentrar toda a minha atenção em seu toque e me esquecer de todos os outros estímulos ao meu redor. Esse era um poder exclusivo da minha Clarice que era capaz de colocar o mundo no silencioso e me manter aqui. Me perder dentro da minha própria mente e ter uma crise agora não era uma opção.

Eu não posso a abandonar agora…

Não sei quanto tempo se passou quando ouvi a voz de Clarice me chamar, mas ainda não estava pronta para outra conversa. As palavras me fugiram e meu corpo se recusava a obedecer aos meus próprios comandos. 

Docinho… eu vou preparar um chá. Já volto.

Clarice estava prestes a se levantar e eu a segurei no lugar.

Fica.

Um chá faria bem agora, mas eu não quero nada disso.

No momento, o único calor que eu preciso é o da minha Clarice em meus braços.

Tudo bem, eu fico… estou aqui com você.

Levantei o olhar para o meu amor e me deparei com os seus olhos fixos em mim. Atenta. Preocupada. Eu não posso me perder agora. Não posso.

Superei a minha vontade de cortar esse contato visual e memorizei mais uma vez todos os seus detalhes em minha mente.

Eu estou bem, – consegui verbalizar depois de alguns minutos em silêncio. – Eu estou bem, – reafirmei.

Tem certeza?

– Sim.

– Posso ficar calada se você quiser, até tento respirar mais silencioso se…

– Ouvir… eu quero te ouvir, minha vida. Pode falar.

– Em francês?

– Não. Por que?

– É como você está falando agora…

Tudo soou tão natural que eu não percebi. Sequer me dei conta o momento em que mudamos a língua.

Droga! Eu não acredito que logo na primeira vez em que a Clara conversou em francês comigo eu não me atentei a esse detalhe. Que péssimo, Valkyrie!

– Pardon, eu não percebi.

– Por que está pedindo desculpas? Eu sabia que iria se sentir mais confortável falando em francês se estivesse em crise. É o que está escrito no seu manual lá.

A encarei curiosa. – Você leu o meu diário de protocolos?

– Se eu li? Eu estou quase terminando de decorar ele inteiro. Se é importante para você, é importante para mim também. E eu quero saber como te ajudar em momentos como esse. Não dá para ficar dependendo do Bruno para sempre, né?

Será que eu estou de TPM? Não é possível que eu queira chorar de novo por causa dessa fala da minha namorada.

– Ok, eu sei que chorar às vezes é bom e tals, mas você não é esse tipo de pessoal e está me preocupando. Por que não descemos para tomar um chá? Chá de camomila porque está tarde e o seu favorito é cheio de cafeína.

Mon dieu, ela decorou até isso?!

Por mais fofo que fosse essa cena, ver a minha bebê saindo do seu pequeno espaço por minha causa me deixou levemente chateada comigo mesma. Esperei o dia inteiro por esse momento para ser eu mesma o motivo do término precoce dele. Sinto falta de ter a minha bebê para cuidar e principalmente de ser sua maman. Foram só algumas horas, mas para mim foi como a eternidade.

– Já que estamos aqui, você quer comer alguma coisa? – Perguntei assim que entramos na cozinha.

– Eu… uh… – Clara coçou a nuca um pouco envergonhada. Comportamento esse que me deixou desconfiada e preocupada. – Eu… eu pretendia terminar o que comecei mais cedo… – a encarei um momento sem entender, – se você deixar… e não te incomodar, – ela acrescentou.

– Ah, você está falando do tetê? Por que eu iria me incomodar?

– Sei lá, é que você não gosta muito que te toquem quando está em uma crise. Eu não quero te causar gatilhos ou algo do tipo.

– Entendi…

A preocupação da Clarice era genuína e eu apreciava isso, mas também não gostava de ver que estava andando sobre ovos para lidar comigo. Ela é a última pessoa que eu quero que me veja diferente daquilo que eu realmente sou só por causa daquilo que eu tenho.

– Eu disse que eu estou bem. Você não tem que se preocupar.

– É claro que eu me preocupo, você é o meu amorzinho e docinho. É óbvio que eu vou me preocupar e te querer bem, bobona. E eu posso esperar por você. Não vai ser o fim do mundo se não puder… enfim, você entendeu. É meio estranho falar disso sem estar de fato pequena.

– E não era para estar assim. Eu amo você com todo o meu ser, mas nesse momento eu queria o seu lado pequeno para amar.

Clarice parou de encher a chaleira para me encarar. – Não acredito que a minha namorada está me trocando por outra… tudo bem que a outra sou eu mesma, mas mesmo assim, me sinto trocada e rejeitada da mesma forma. Você tem um lado favorito e nem disfarça.

– Não seja dramática, Clarice. Eu não tenho um lado favorito.

– Não é o que parece. Se não tem um lado favorito, por que está querendo o outro agora? Você não me quer mais, é?

– É porque eu no momento eu quero cuidar e mimar a minha bebê. O que tem de errado nisso?

– E você não pode me cuidar e mimar fora do pequeno espaço?

– Como se você fora dele fosse aceitar ser paparicada sem se sentir desconfortável e reclamar. Não consegue nem admitir em voz alta que mama no tetê. Me surpreende que ainda não tentou tirar a fralda.

Clarice ficou vermelha como um pimentão. – Shhhh!!! ‘Tá maluca, mulher? E se alguém te ouvir?!

– Mon amour, são quase quatro da madrugada. Não tem ninguém acordado a essa hora. E se falar comigo desse jeito outra vez irá apanhar.

– Desculpa, – a encarei séria esperando. – … senhora, – disse entre os dentes.

– Você um dia ainda vai aceitar o seu lado pequeno sem estar no pequeno espaço?

– O chá, Valquíria. Quantas colheres eu devo colocar? – Clarice mudou de assunto.

Essa garota é um caso sério.

Me acostumei rápido demais com ela escorregando sem muito controle depois que comecei a lactar que tinha me esquecido que ainda estava lidando com uma pequena em processo de aceitação.

Nós não tocamos mais no assunto e esperamos pelo chá conversando banalidades.

A Clarice grande pode não aceitar muito bem meus mimos e carinho de maman, mas com certeza era a minha melhor companhia. Me sinto uma boba alegre ao seu lado por me fazer rir das coisas mais simples e aleatórias possíveis e me fazer esquecer o motivo pelo qual estava chorando há pouco tempo.

Eu não trocaria o que temos juntas por nada nesse mundo e quanto a isso não tem nem discussão. Sinto muito, Hélène, mas dessa vez você perdeu.

– Vamos subir? Você está tremendo de frio, – eu comentei.

– Eu estou. O chá esquenta o corpo, mas o redor está um gelo. Quero ir para de baixo das cobertas.

– E já está ficando bem tarde, logo mais o povo começa a acordar e nós ainda não fomos dormir.  Vamos lá, eu ainda tenho que te amamentar e estou quase cheia de novo.

Clarice novamente ficou toda vermelha de vergonha. – Meu deus, Valquíria. Será que você pode não falar disso assim tão abertamente em voz alta?

– Foi de propósito, – sorri.

– Cara… você tem sorte de ser muito linda e gostosa. Sou fisicamente incapaz de odiar mulheres lindas e gostosas.

Mulheres? No plural?

– Eu não ando com gente feia, então estou sempre cercada das mais gatas. 

– Comment ça, Clarice?! (Como é que é, Clarice?).

– Que foi? Está com ciúmes, é?

– Estou, – respondi brava. – Você já deveria saber que eu sou bastante possessiva com aquilo que é meu. E eu não quero as “mais gatas” cercando a minha mulher.

– Relaxa, docinho. Eu só tenho olhos para você.

– É melhor ter. Eu não quero ser obrigada a arrancar esses olhos tão lindos.

Clarice desfez o sorrisinho no mesmo instante. – Eita. Eu só estava brincando.

– Continua cutucando a fera com vara curta para não ver se eu não uso essa vara para umas boas palmadas.

– Já joguei a vara longe.

Tenho certeza que se um dia eu perder o réu primário será porque eu voei na cara de alguma piranha qualquer que se aventurou para cima da minha mulher. Só a ideia de isso um dia acontecer me deixa possessa. E eu nunca fui assim com homem algum.

 De volta para o quarto, eu abracei a minha namorada assim que entramos. Ela conseguiu me deixar brava com cenários hipotéticos, mas seu abraço ainda era o antídoto para a minha raiva.

– Eu preciso da minha bebê agora. Só um pouquinho.

– Mas eu não consigo assim. Eu não sei entrar lá assim…

– Eu te levo.

– É diferente quando você faz isso sem eu perceber. Agora eu estou bem ciente da sua intenção e não acho que consigo.

– Ma vie, eu sou a sua maman – a acariciei o rosto e forcei que olhasse para mim, – não precisa ter medo, estou aqui com você. Me deixe cuidar da minha bebê.

Clarice pensa que está sob o controle do seu pequeno espaço, mas a verdade é que tem a chave dele sou eu.

Gosto que ela tenha autonomia para entrar e sair quando quiser, que faça como sentir em seu coração e de acordo a sua necessidade. Porém, a decisão final é minha. Como a sua maman posso fazer com que permaneça dentro ou fora do mundinho como eu quiser. E é por isso que pequenos não devem confiar os seus cuidados nas mãos de pessoas má intencionadas como a diaba lactante. Essa também é a principal diferença entre ser domme e mommy; posso transformar o lugar de conforto da minha bebê o céu ou o inferno. É uma responsabilidade muito grande que eu aprendi a amar.

Sim, eu primeiro me tornei uma maman porque Clarice precisava de uma. Hoje eu sou porque eu quero e amo ser.

– Você quer ver os seus presentes que ainda não abriu?

– Mais presentes?! – Clarice reclamou. – Valquíria, eu não quero que fique gastando uma fortuna…

– Não foi uma fortuna, okay? Relaxa – a interrompi. – Quer dizer… uma eu mandei fazer então pode ser mais caro do que você encontra pelas lojas, mas não é nada exagerado. Você também não pode me impedir de mimar minha namorada e bebê. Nem são tantos, são só dois. Eu não estou nem aí para o que os outros pensam.

– Mas eu estou!

– Problema. Eu já me controlo muito no dia-a-dia, pelo menos no natal me deixe te presentear, – Clarice iria dizer algo, mas eu a interrompi levantando o dedo. – É melhor não reclamar ou vou me tornar sua sugar mama.

Clarice revirou os olhos. – Não quero uma sugar mama. 

– Droga, já ia cantar “let me be, I wants to be, gots to be, new whip, new heavy on the wrist ‘cause I’m a sugar mama mama mama, I’m your! Sugar mama, sugar mama” – Clarice me encarou com julgo sem reconhecer a música. – Você não conhece? – Ela negou. – Beyoncé, Sugar Mama. Às vezes eu esqueço que você é muito mais nova.

 – Sabe docinho, você é uma excelente arquiteta, – a encarei sem entender o comentário repentino. – Não mude de profissão. Deixe a Beyoncé fazer a dela, – Clarice riu e levou um tapinha no braço pela audácia.

Olha, mas que filha da puta…

– Você quer que eu fique pequena e me agride? Isso é feio, sabia?

– Quer mais?

– Não. Mas sabe que depois dessa sua performance a última coisa que eu vou querer fazer é escorregar, né? Estou um pouco traumatizada.

Revirei os olhos. – Você vai regredir mesmo depois do seu trauma.

– Como tem tanta certeza?

– Me surpreende que ainda tenha dúvida. Agora chega de enrolar, me espera aqui, eu já volto.

Os presentes da Clara estavam escondidos junto com os presentes do “Papai Noel” e por essa razão não deixei que viesse comigo até o closet. Até onde eu sei, eu estou proibida de a encher de presentes, não o bom velhinho.

– O que é isso?

– Você já vai ver, – peguei a sua mão e a trouxe para perto do sofá. – “Come sit on mama lap” – não resisti e cantarolei outra vez. – Parei, parei…, mas é sério, senta no meu colo.

– Tem espaço no sofá.

– Mas eu mandei sentar no meu colo.

Desconfiada, Clarice se sentou em meu colo. Era como se, por saber das minhas intenções, estivesse atenta a qualquer dos meus movimentos com medo que eu fosse lhe enganar. Essa garota se esqueceu que se eu quiser eu a faço a regredir só tirando o sutiã.

– Por que está tão tensa, ma vie? Sou eu, sua namorada.

– Exatamente por isso que eu estou preocupada.

Eu a abracei e dei um beijo em sua testa. – Eu sei que está se sentindo assim por conta do que ouviu e vai demorar para se esquecer disso. Mas me ouça agora; eu sinto o seu amor por mim e sei que é genuíno. Então, por favor, me deixe te amar de volta do jeito que eu sei te amar?

– Você não precisa me dar coisas para eu me sentir amada.

– Mas essa é uma das minhas linguagens do amor. E se não aceitar irei ficar ofendida, escolhi a dedo cada um dos detalhes.

– Okay.

Entreguei a caixa menor para Clara. – Esse não é exatamente para a minha bebê. Normalmente os submissos usam algo que remete aos senhores no Apex…

– Você não me comprou uma coleira ou algo do tipo, né? Eu não vou usar.

– Não, bobona. Nós não temos esse tipo de relacionamento, mas se quiser eu posso te dar uma coleira social, – brinquei.

– Não, obrigada.

– Eu já sabia que não. Agora abra e para de ficar imaginando coisas.

Clara desfez o laço da caixinha receosa, porém todas as suas preocupações se desfizeram no momento em que viu o colar que havia dentro.

 Ainda que Clarice fosse minha submissa, nada que usasse para remeter ao meu senhorio seria grosseiro e descarado como ela estava imaginando. Não combina comigo. E eu não preciso de nada escancarado para dizer que é meu. A joia que escolhi a dedo era um colar em ouro com formato V em sua ponta, cujo o real significado escapa aos olhos de todos. Exceto os nossos.

Para todo mundo, esse será apenas mais um colar delicado e de bom gosto. Para Clarice será um símbolo silencioso de pertencimento, um lembrete constante de que estou ao seu lado, mesmo quando a minha mão não está visível. E quem sabe assim ela não apronta tanto na minha ausência.

– É lindo. Eu amei, – Clarice sorriu para mim e meu coração se derreteu. – É muito melhor do que eu imaginava.

– Você pode estrear no jantar de natal.

– Isso não é uma sugestão, não é? – Neguei com a cabeça. – Okay, eu vou usar.

– Boa menina, – sorri e deixei  o presente sobre a mesa de centro para lhe entregar o outro. – Agora esse outro iria te dar enquanto estava internada, mas não encontrei nada que de fato me agradasse, então levou uns meses até esse ficar pronto.

– Ah, meu deus. O que pode ser?

– Nada do que está pensando, eu te garanto.

Clarice abriu a caixa ainda mais desconfiada e sua primeira reação foi ficar boquiaberta. – É a cara do Chloée!

– Eu mandei fazer com a carinha dele. É um doudou para você usar para dormir e não perder mais as suas chupetas pela cama.

Toda noite dou uma chupeta para Clara para tirar o peito dela e toda manhã ela acorda sem. E assim vai sumindo uma por uma já que descobri que a porta para Nárnia está em algum lugar em minha cama. Pelo menos agora esse problema está resolvido.

– Tem meu nome na cobertinha e é tão fofinha! – Clara esfregou o paninho do doudou em seu rosto. – Eu amei!

– Está brava comigo pelos presentes?

– Não. Dessa vez o fiscal da receita federal não irá te prender. Eu amei os presentes, muito mais que o laptop exagerado que me deu.

– Em minha defesa, eu te dei esse presente pela a minha própria sanidade mental. Tem noção do quão agoniada eu fico toda vez que te vejo estudando ou desenhando com uma postura toda errada? Se não fizesse nada eu iria ter uma sincope.

Clarice me envolveu pelo pescoço. – Obrigada pelos presentes, docinho. Eu amei, principalmente o doudou. Ele é muito fofo.

– Escolhi cada detalhe pensando no meu bebê. Inclusive a chupeta que combina com a cobertinha e você vai estrear essa noite.

– Eu não estou pequena…

– Ainda, mon bébé. Eu já, já vou te colocar para dormir. Já está quase amanhecendo e a senhorita precisa dormir.

– Eu não estou com sono.

– Quero ver me falar isso depois que encher esse buchinho de leite.

Já disse que Clarice fica adorável toda vez que fica toda vermelha envergonhada? Ela não deveria ficar fofa assim. Isso só me faz querer a provocar mais.

– Vem, meu neném. Vamos para cama deitar. Quer o seu doudou junto? – Ela concordou com a cabeça. – Bluey e Bingo também? – Para a minha surpresa, ela negou. – Não? Tem certeza?

– Tenho.

– D’accord, como quiser…

Confesso que nem eu estava com sono por agora, mas bastou enfiar de baixo da coberta e deitar o corpo no colchão confortável para que meu corpo começasse a mudar de ideia. Tenho certeza que não fui a única a se sentir assim.

– Chega mais pertinho, mon bébé – puxei Clarice para mais perto de mim e a aninhei em meus braços. – Assim é mais quentinho. Ainda está com frio?

– Não, está gostoso assim. Se eu pudesse ficaria o dia inteirinho assim com você.

A apertei um pouquinho mais e passei a fazer cafuné em suas madeixas loiras. – Em teoria nós temos muitas coisas para fazer, mas um dia inteirinho assim com a minha pequena não me soa mal. 

–  Que coisas para fazer?

– Cabelo, maquiagem, essas coisas para ficar bonita para o jantar.

– Você não precisa dessas coisas para ficar bonita.

– Você acha, bebê? Bem, esse não é um jantar que dá para aparecer de cara limpa.

– Eu tenho mesmo que ir? Eu não quero lidar com a velha lá.

– Infelizmente será aqui, ma vie. Não vai dar para fugir…, mas não se preocupe com isso. Não será um jantar de natal comum. Tem parente que nem eu conheço vindo aí. Não vamos precisar interagir com todo mundo, isso inclui a minha avó. Ela também é idosa e se retira cedo. Ou seja, quando a velha for embora nós fazemos a festa. Mas enfim, não vamos falar disso agora. O meu neném precisa dormir.

Clarice se agarrou um pouco mais a mim. – Eu não estou com sono.

– Esse neném não vai mimir? O Papai Noel não aparece no quarto de criança que não dorme.

– Eu não sou criança e o Papai Noel não existe – Clarice disse entre bocejos de quem não estava com sono.

– Ele existe, pode perguntar para qualquer um aqui.

– Não, – Clara novamente se mexeu se agarrando ainda mais ao meu corpo, praticamente subindo em mim. – Não existe.

– Eu não vou discutir com um neném que claramente está com sono.

– Eu não estou neném.

– Não? Você está grande, não é meu amor? – Dei alguns beijinhos em seu rosto. – Grandona e sem soninho.

– Isso mesmo… mama-morzinho, eu tenho um desejo de natal.

A encarei surpresa. – Um desejo de natal? E qual seria?

– Vamos ver filme?

– Agora?!

– É natal… quebra essa regra vai!

Revirei os olhos. Como essa garota quer assistir filme essas horas da madrugada?! Quase amanhecendo…, mas é natal.

– Tudo bem, ma vie. Vamos assistir. O que você quer assistir?

– Não sei.

– Não sabe?

– Não sei.

Não sabe ou não quer admitir, hein?

Só tem uma única coisa que Clarice gosta de assistir de madrugada e eu sei muito bem o que é.

– Isso não é filme, – Clara comentou com os olhos vidrados na abertura de Bluey. – Bota filme.

– Eu vou pesquisar algum filme leve para assistirmos antes de dormir.

Mentira, não vou. Peguei o meu celular para ver se tinha alguma notificação importante, me atualizar da vida alheia enquanto Clarice assistia ao desenho sem sequer perceber que estava vendo até o fim.

Quando a abertura do próximo episódio começou eu decidi testar. – Achei um filme aqui, você quer ver?

– Só mais esse episódio, maman.

– Tudo bem, só mais esse e aí nós assistimos ao filme.

Você acha mesmo que isso iria acontecer? Eu não acho.

Até eu comecei a assistir ao desenho entretida com as brincadeiras de Bluey e Bingo, dando graças a deus que não era o Bandit e que a minha pequena não tinha tanta criatividade para brincadeiras como essas duas cachorrinhas.

– Mon bébé, a maman já disse que não pode chupar dedo, – Clara resmungou quando afastei sua mão da boca, mas se aquietou no momento que substitui o dedo por uma chupeta. – Bem melhor agora, petite. Você tem sua pepeta para usar e não ficar de enfeite.

A minha bebê estava tão fofa usando a chupeta nova que seria incapaz de dizer não a essa fofura. Minha sorte é que ela não sabe os poderes que tem e eu posso a admirar sem medo.

Confesso que eu também em deixei levar como desenho e só me dei conta disso quando senti o meu seio vazar. Clarice havia mamado só de um lado mais cedo e então o outro estava no limite. Se não bastasse isso, ela já estava há um bom tempo com a mão dentro do meu pijama acariciando o meu peito como se fosse seu doudou.

– A maman está vazando leitinho do neném.

– É, meu amor. Significa que está na hora da bebê mamar e dormir.

Pensei que lidaria com a birra de quem gostaria de assistir mais desenho, mas para a minha surpresa, Clara subiu mais um pouco em mim para mamar.

– Segura minha pepeta!

Não tive tempo de reagir. Estava distraída abrindo os botões da minha camisa e quando vi, Clara tinha enfiado sua chupeta na minha boca. Tirei no mesmo instante e prendi o doudou para não sumir.

– Está ficando maluca, mocinha?

– É pra não perder.

– Non, non, non, non, non, – dei três tapinhas de leve em sua fralda. – Você tem o seu doudou para isso. Eu não sou sua porta-chupetas.

– Mas é a minha porta-tetas! – Clarice deu o sorriso sapeca mais lindo desse mundo.

É cada humilhação que eu passo nesse relacionamento…

– Cala a boca e mama – por força do hábito, acabei verificando a fralda da neném já que estava com a mão sobre o seu bumbum. – Você usou a sua fraldinha sem reclamar?

Clara deu uma risadinha sem lagar meu seio. – ‘Tava no meio do deseinho, mama… desculpa.

– Não precisa pedir desculpas, bebê. A fralda é para usar mesmo, eu só estou surpresa por não ter pedido para te levar ao banheiro.

– ‘Piguiça.

– Estou vendo. O meu neném é muito preguiçoso mesmo, – lhe dei uns beijinhos do rosto e passei acariciar seu rosto e cabelo para a ajudar pegar no sono.

Mesmo sonolenta, a minha bebê mamou os dois lados até a última gota e ainda insistiu em um deles na expectativa de conseguir mais leite. Tudo bem que tetê é fábrica e não depósito, então sim, se Clarice insistisse ela teria exatamente o que queria mesmo que num ritmo mais lento, mas isso sim era agoniante para mim. Ou seja, era hora de colocar a pepeta na boca certa e fazer o neném dormir.

Ainda fiquei uns minutos ninando a minha pequena para ter certeza que estava dormindo antes de me levantar para lidar com a sua fralda que deveria estar fria a essa altura.

Trocar fraldas não era a minha meta de relacionamento, mas cá estava eu, após passar a noite inteira em claro, feliz pela a ma petite ter se sentindo confortável o suficiente em seu mundo para usar sua fraldinha. Até aqueci as toalhinhas para não lhe causar incomodo na hora de limpar ou a acordar com o toque frio. Estava com sono e cansada e nem por isso pulei etapas, passei a pomadinha e o talco por toda a pele e então fechei as alças da fralda nova.

Antes de deitar, peguei os presentes do “Papai Noel” e deixei aos pés da árvore de natal do quarto, bem ao lado da lareira que nunca é acendida na véspera de natal para o “velhinho” ou a “tia” tenha por onde entrar.

Eram seis horas da manhã quando finalmente me juntei a Clara na cama. Provavelmente irei sentir as consequências disso em algumas horas, mas eu não me arrependo de nada. 

Independente do resultado final, ficar com o meu amor sempre será a minha escolha.

«-»

Gostou? Não esqueça de comentar! Até a próxima…
Au revoir!

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6 Comentários

  • HashtagClarieForever

    Não estou brincando.. Eu já sonhei que lia esse capítulo
    Houve uma vez que sonhei um sonho muito breve onde eu estava lendo algo que lembrava muito sua história e durante essa leitura eu simplesmente teleportava para cima da minha cama e começava à falar um monte olhando para o teto durante uma pausa (isso aconteceu hoje, +/- 6:22 da manhã, sem a parte do teleportar obviamente), e a mesma paisagem que eu estava tendo durante a leitura foi a mesma visão que eu tinha no sonho

  • Laisla Ribeiro

    Venho acompanhando essa estória bem do começo e a evolução dela ta tão linda 😍🥰

  • EusouogrootS2

    Nao estou conseguindo assinar o plano, poderia me ajudar por favor?

    • Oi!
      As assinaturas estão temporariamente suspensas. Expliquei melhor no wattpad

  • Basetlili

    Da um quentinho no coração tão bom essa história

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