Elora Aneva

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63. Une pause

« M A R G O T »

Considerando que era natal, o clima nessa casa parecia um enterro.

Exceto por Fernando e seu inabalável bom humor, todos os demais estavam… exaustos(?).

Era de se esperar que Bruno e sua mãe Leopoldina estivessem cansados após atravessarem o oceano repentinamente. Valkyrie e Clarice, porém, estavam como zumbis à mesa. Claramente não dormiram essa noite e se dormiram foram pouquíssimas horas, não o suficiente para descansarem bem.

Clarice ainda disse duas ou três palavras entre bocejos durante o café da manhã. Já a Valkyrie… suspeito que somente seu corpo estava entre nós. Reflexos lentos, não-verbal e olhar praticamente fixo ao prato a sua frente, evitando contato visual. Os preparativos para o – desnecessário e exagerado – evento de hoje não poderia estar melhor.

– Estou preocupada com a sua filha, – comentei com Fernando quando estávamos a sós na estufa.

– Qual das? – ele respondeu ainda atento ao vaso a sua frente. – Eu agora tenho duas meninas.

Cuidar do jardim é uma tarefa minha. O meu passatempo favorito. Mas assim como eu, Fernando estava fugindo das pessoas que agora ocupavam o nosso espaço. Quase não conseguimos tomar um café da manhã em paz. Toda a equipe responsável pelo jantar da dona Hélène chegou bem cedo para nos perturbar e agem como se essa casa não fosse um lar.

– A que te fez perder os cabelos.

– Ei! – Fernando me encarou se fingindo de ofendido. – Eu sou careca por opção e você sabe muito bem disso.

– Só você ainda acredita nisso, meu amor.

– Eu vou deixar meu cabelo crescer.

– Não, você não vai. E não vamos mudar de assunto. Eu estou realmente preocupada não só com a Chlo… Valkyrie, mas a Clara também. As duas definitivamente não estão em bons termos.

– Não estão? Como isso é possível? Eu passei a noite em sono intermitente esperando as bonitas terminarem as risadinhas na cozinha para colocar o presente do Papai Noel de baixo da árvore no quarto delas. Já era dia quando consegui entrar por lá, por pouco pensei que teria que desistir.

Apesar de já ter idade para ter os próprios filhos, Valkyrie ainda é visitada pelo Papai Noel todos os anos e desconfio que irá continuar assim até que nós não estejamos mais aqui.

Lembro-me até hoje do dia em que a Val me questionou se o Papai Noel era o “papa Fer” e eu fiz prometer que não contaria que tinha descoberto o segredo sabendo que o Fernando iria ter mais uma das suas crises de “minha-bebê-cresceu-tanto”. Sinceramente não esperava que ela levaria a promessa tão a sério, também não entendo como meu marido só percebeu que a filha fingia acreditar quando ela já tinha dezesseis anos.

Até hoje os dois nunca tocaram no assunto. Valkyrie finge que acredita e Fernando finge que não sabe disso. E eu, como sempre, acompanho a loucura dos dois sem questionar.

– Rindo na cozinha?

– Como se estivessem tomando uma no barzinho.

– Então quer dizer que elas já estão bem ou ao menos melhorando.

– E elas estavam mal?

– Sim. Estavam! E por causa da Hélène. Ela está determinada em perturbar a vida da Clarice e por consequência a Chlo—Val… tenho sensação que seu objetivo é desestabilizar a Val. Em meio a uma crise, é mais provável que consiga manipular a sua filha.

Fernando deixou a tesoura de podar sobre a mesa e se virou para mim outra vez com um olhar sereno. Sereno demais em meio a esse caos.

– Você fala de mim, mas está agindo igual.

– Como assim?

– Diz que eu ainda vejo a nossa filha como uma menininha e cá está você, mais uma vez, a defendendo como tal.

– O que você espera de mim? Quer que eu fique parada? O que há de errado com você, Fernando?! – Me permiti alterar o tom e lhe dar alguns tapas leves no braço após um absurdo desses.

– Calma! Calma! Não me agride, mulher! – Ele recompôs a postura. – Eu só acho que está na hora de largar de vez essa senhora. Você fica em cima dela achando que assim irá proteger a Val e veja só no que deu… a cobra venenosa agiu do mesmo jeito. O que adiantou? Nós estamos presos a esse país por conta dela enquanto nossa filha se mudou para outro para fugir dela. E quando isso vai parar? Quando a Hélène morrer? Nós dois sabemos que aquela senhora vai durar e não vai ser pouco. É capaz de nós irmos e ela continuar aqui.

Infelizmente Fernando tinha razão.

Às vezes me sinto segurando a coleira de um cão raivoso para evitar que avance na minha menina quando se trata de Hélène. Porém, segurar essa coleira é ainda mais trabalhoso quando a menina em questão quer brincar com esse cachorro e fica por perto, apesar do perigo.

Honestamente, eu nunca planejei ser mãe. Sequer cogitava um casamento. Minha vida e rotina era corrida demais para amores que não fossem passageiros. Não tinha tempo para manter um relacionamento. Tinha o meu trabalho na construtora e a minha galeria em seu auge. Definitivamente não pretendia me envolver com ninguém, minha paixão e família era minhas obras de arte.

E aí surgiu o Fernando… foi paixão à primeira vista. Não vou dizer amor, pois nem eu pretendia algo mais que um amor de uma noite. Mas uma noite se tornou duas, depois três e de repente estávamos nos encontrando todos os dias e se era para sexo ou não, já não fazia diferença.

Nossa paixão foi avassaladora e o nosso amor profundo, único…, porém, as circunstâncias nos forçaram a nos separar.

Descobri que estava grávida na mesma semana que minha irmã mais nova descobriu ser estéril e não poderia ter filhos. O timing não poderia ser pior. Além da vergonha para o nome da família, minha gravidez fora do casamento era uma afronta ao sofrimento da minha querida irmãzinha. A solução imediata de Hélène foi o abordo e por ter recusado, a sua outra solução perfeita era que eu entregasse meu bebê para Emma criar, assim o sangue Touchon ficaria dentro da família e “minha honra” não seria manchada.

Acho que isso é o suficiente para você entender o motivo pelo qual detesto a minha própria genitora. Obviamente que esse não é o único, houveram várias outras ocasiões para me fazer a detestar. No entanto, nada que Hélène tenha feito superou o momento que quis arrancar de mim minha própria filha.

O fato de Emma concordar com essa maluquice também afetou nosso relacionamento. Cogitei sim cortar as duas da minha vida, mas pelos meus irmãos mais velhos, eu não o fiz. Confesso que ainda hoje guardo ressentimento dessa época. Uma traição que jamais esperaria da minha própria irmã, mas que perdoei para que pudesse partir em paz.

Acredita que essas duas ainda juraram que eu iria assumir a responsabilidade pela Juliette quando a Emma partisse? Como se a mãe biológica dela não estivesse viva. Hélène ainda age como se Juliette fosse sua única neta e não a Valkyrie.

E não, meus irmãos mais velhos não consideram a minha genitora o suficiente para seus filhos a considerarem vó. Ela sempre será a esposa do pai deles e às vezes “madrasta”.

– Está dizendo para deixar a construtora que meu bisavô fundou falir?

– Talvez isso seja um pouco radical, apenas saia de lá.

– Mas é justamente o que vai acontecer. Sabe muito bem que a Hélène não faz ideia do que está fazendo. Ela nunca trabalhou na vida até meu pai falecer e só decidiu trabalhar agora com medo dos filhos dele tomar a empresa e a deixar qualquer coisa perto do que ela considera pobreza. Aquela mulher só sabe manipular os outros e abrir caminhos para conseguir o que quer. E agora quer passar o “legado” para a filha da Emma.

– Passar o legado da família para a única não Touchon e curiosamente correndo o risco de falir a empresa. Enfim, você sabe que o único “legado” Touchon que me interessa é dos ainda mais antigos e que nós reerguemos sem concretos e cimento. E eles tem menos de 30% das ações do escritório no Brasil. Não irá afetar muita coisa na vida da nossa filha. E mesmo que afete, você já recuperou e multiplicou sua antiga fortuna. Abrir uma nova empresa não será problema.

– Eu não sei…

– Margot, a Hélène está infernizando a vida da sua filha para ela assumir uma posição que ela não quer. Se não existir mais a empresa, não tem posição para assumir, logo, não terá mais motivos para perseguir nem a Val e nem a Clarinha. Não haja como essa fosse sua principal fonte de renda ou como se ainda tivesse interesse em continuar trabalhando nisso.

Entre minhas flores e minhas galerias de arte, a construtora é sim um fardo desnecessário sobre minhas costas, mas era a forma que encontrei de blindar minha filha lá no Brasil e manter a empresa que meu pai tanto amou e tinha orgulho. Não sei nem se a própria Valkyrie irá concordar. Mas eu também estou ficando velha e não quero minha única filha distante. Ela evita nos visitar por causa da avó e suspeito que Clarice também irá seguir os mesmos passos.

– Até que o seu bonsai está ficando bonitinho, minha vida – Fernando comentou contente. – Eu fiz um excelente trabalho.

– É, você fez… mais uma vez. Você deveria me ajudar mais vezes no jardim. Pode começar colhendo meus morangos.  

– Eu sou colho as minhas uvas, minha vida. 

– Quem te ouve falar assim parece que você é o descendente dos “ainda mais antigos” Touchon. Você deveria estar mais interessado em passar mais tempo com a sua esposa que colhendo uvas.

– Meu amor… nós literalmente passamos todos os dias e o dia todo juntos. Só tem um momento em que você não está por perto e prefiro manter meus momentos no banheiro a sós.

Eu o abracei. – Não estou interessada em compartilhar esse momento com você, não seja bobo… e mesmo passando o dia inteiro com você, exceto por esse momento, às vezes sinto que não existem horas suficientes em um dia para estar ao seu lado e saciar minha saudade.

– E tem gente que acha que você não é romântica, – Fernando beijou o topo da minha cabeça. – Eu te amo, minha baixinha.

– Je t’aime aussi.

– Você usando “saudade” é muito fofo.

– Eu usei errado?

– Não, está certo. Justamente por isso que é fofo.

– Bem… não é difícil aprender o conceito de saudade quando se ama… eu acho… enfim, eu vou levar o Chloée para passear. Quer vir comigo?

– Ué, mas ela está dormindo… ah… você está falando do cachorro.

Sabe, eu gosto bastante da Clarice. Mas não vou negar, será difícil me adaptar a escolha peculiar do nome do seu cachorrinho. No entanto, quem sou eu para julgar…

« V A L K Y R I E »

Dormir tão tarde definitivamente não foi uma das minhas ideias mais inteligentes. Especialmente num dia onde o café da manhã faz parte da tradição da família e a probabilidade de não te deixarem dormir até tarde era considerável.

E nós tínhamos Bruno em casa para nos acordar.

Diferente dos meus pais que não se arriscariam a entrar no quarto com receio de flagrar algo que não deveriam, Bruno estava pouco se fodendo e entrou mesmo quando não o atendemos batendo na porta.

O café da manhã passou diante dos meus olhos como um breu na minha memória. Era como se apenas um terço de mim estivesse desperto e toda essa parte de mim estivesse focada em prestar atenção em Clarice e seus possíveis deslizes. Felizmente o seu próprio sono agiu em meu favor e assim que cumprimos a etiqueta do dia, saímos para voltar a dormir.

Ou assim esperei…

– Olha! Tem presente de baixo da árvore! Não tinha isso aqui ontem, tinha?

– Hmmm… non – bocejei. – Acho que o Papai Noel passou por aqui essa madrugada, mas vamos… – bocejei outra vez, meus olhos querendo fechar ignorando meu comando de ficarem abertos, – vamos deitar, depois você mexe nisso.

– NÃO! – Clara gritou me fazendo acordar mais um pouco. – Eu quero ver agora! Agora!

– Garota, você não estava com sono há dois segundos?

– Mas agora eu quero abrir presentinho… por favor, vai? Deixe, maman! Eu quero ver! Eu quero ver!

Estava com sono? Estava. Vou me arrepender da minha decisão? Muito provavelmente. Mas o natal já não estava lá sendo grandes coisas, eu não o tornaria ainda pior.

– Oui, ma vie. Vamos abrir os presentes.

– Eba!

Clara se aproximou da árvore e foi tirando as caixas para colocar na mesa de centro uma a uma. Porém o número não batia com a quantidade de presentes que eu havia deixado… pai.

Aí, aí… e não é que ele teve coragem de entrar aqui?

– OH! Um estojo de madeira Art & Graphic da Faber-Castell!!! – Clara disse boquiaberta. – Albrecht Dürer?! É aquarela! Um montão de muitas cores!

Eu mesma comprei o presente e não fazia ideia do que Clara estava falando. Apenas segui a indicação da atendente da loja de artigos de arte, que me garantiu que a minha namorada amava aquarelar, iria amar esses lápis e pelo visto ela estava certa. Foi a reação mais genuína da minha pequena até agora… eu vou comprar a loja!

– Mais um montão de folha de aquarela! A gente pode pintar agora, maman?

– Agora?! Mas você não ia… – respirei vencida, – podemos, Clarice. Vamos pintar.

– O que mais tem aqui? – Ela pegou os presentes que eu desconhecia e abriu. O olhar e o queixo caindo de Clara ao levantar a tampa da caixa me causou certo arrepio na espinha. Uma preocupação. Algo que meu faro de maman conseguiu captar no ar. O que Margot e Fernando aprontaram? Apenas sorria, Valquíria. – Tintas! Um montão de tintas!

O presente claramente foi direcionado ao lado pequeno da Clarice.

Eram tintas e pincéis de alta qualidade, porém, sem ser profissional e não tóxica. Uma pintura para o lúdico e que conhecendo a minha petite peste ela irá entender como: tinta para pintar meu cachorro. Ou esse era um grande sinal para eu trocar o meu tapete branco.

 E pensar que eu optei por lápis aquarela para evitar as tintas nas mãos da minha pequena e ela vai as ter mesmo assim…

– Esse é seu, maman! Tem seu nominho nele! Abre! Eu quero ver o que o Papai Noel te deu! Abre!

Obviamente que o meu presente não seria nada tão interessante para Clara, mas era de belíssimo gosto.

– O que é? O que é?

– Um Louboutin.

Clara fez uma careta ao ver o sapato. – Um salto? Mas a maman já é alta. De salto vai ficar gigante!

– Um salto nunca é demais, Clarice.

– Eu, hein… quero abrir mais presentes!

Entre os outros presentes tinha outro salto, alguns anéis e par de brincos para mim e um coturno e um vestido lindíssimo para a Clara. Sem dúvidas, quem escolheu os presentes foi a minha mãe. Meu pai jamais seria capaz…

– Essa caixa é pesada. Pega aí, maman. Na moral.   

Encarei Clarice séria. – Isso é jeito de falar comigo? Tenha modos, garota.

– Desculpa, maman… pega a caixa, por favorzinho? Eu te amo muito!

– Você não tem que dizer “eu te amo” para pedir um favor, ma vie.

A caixa era a mais pesada de todas, mas não era o suficiente para Clara não conseguir pegar. O volume era maior que o seu peso. Isso se chama manha.

Retirei a tampa curiosa para saber o que havia dentro e me deparei com outra caixa, porém de madeira com excelente acabamento, mas sem uma logo, marca ou algo para indicar o que se tratava. Poderia ser só um estojo de madeira ou um mini baú.

– O que será que é? – Clara perguntou.

– Abre, ma vie.

Clara pegou o caixote e girou sua chave para abrir. – Um estojo Schmincke Mussini!

Essa era a versão adulta do presente da Clara pequena e definitivamente profissional. As opções de cores eram bem mais limitadas e vinham em tubos ao invés de potinhos. E além das tintas, haviam pincéis, carvão, paleta e outros frascos que não sabia o que era.

– Isso não me parece aquarela.

– Né não, maman. É tinta óleo.

Me dei conta disso ao pegar um dos frascos e ler que era um solvente. Os outros frascos também estavam na mesma categoria de “produtos tóxicos, manter longe de pequenas”. Um grande não-não para agora.

– Vou poder fazer outro quadro do dia da oficina para a maman ver!

– Muito fofa a intenção, mas não. Você está proibida de mexer nessas tintas, estamos entendidas? – Peguei o tubo da mão de Clara e devolvi para o estojo de madeira. – Esse aqui vai ficar guardado com a maman e você não ouse pegar nele. Essas tintas não são para o pequeno espaço.

– Mas eu quero fazer outro pra maman…

– Ma vie, nós vamos ver o seu quadro. Eu já conversei com o comprador. E por falar nisso, ele disse algo sobre seu portfólio. Você combinou de enviar algo a ele?

– Sim…, mas eu num tenho… não disso.

– Então faça. É importante.

– Mami, num qué! Isso é coisinha chata de gente grande. Eu quero meus deseinhos fofos!

Os “desenhos fofos” em questão poderiam facilmente ser parte do portfólio dessa garota, mas ela estava começando a deslizar e não iria discutir sobre isso agora.

– Pintar! Pintar, vamos pintar! Eu quero pintar com a minha Bingo!

– O que quer dizer com pintar com a sua Bingo? Não pretende pintar a Bingo, pretende? Não tem nem 24h ainda…

– Ah, é… vai sujar, né? Mas…, mas se for de lápis tá tudo bem, né maman? Eu vou pintar de lápis do Papai Noel!

– Vem, vamos usar a mesa da biblioteca.

Clarice saiu feliz para buscar sua Bluey e Bingo na cama e correu para a biblioteca. Eu fui atrás nos meus passos lentos, carregando o estojo de madeira e refletindo sobre minhas decisões na vida. Entre dormir duas horas e não dormir nada, meu corpo lida melhor com não dormir. Porém, a animação da minha petite me dava energia para me manter acordada.

– O que a gente vai desenhar, maman?

– Não sei, eu só sei desenhar projetos arquitetônicos e ainda assim, nem sempre sai como imagino na minha cabeça.

– Não sai?

– É natal, por que não desenha algo no tema? A casa do Papai Noel, ou o próprio Papai Noel… uma árvore de natal. Algo assim.

– Hmmm, tá bom. Vou pintar a casa do Papai Noel, assim você me ajuda, tá?

– Oui, ma vie.

Nós nos sentamos lado a lado à mesa, Clarice seguiu todo um ritual preparando sua folha e os lápis, incluindo colocar suas companheiras em seus devidos lugares nos acompanhando à mesa. Quando finalmente achei que fosse começar, ela me deu o lápis em sua mão.

– Vai, maman. Desenha a casa do Papai Noel.

– Eu? Mas por que não você?

– Porque você não sabe fazer o resto. Você tem que me ajudar.

– Ah, entendi… e como você quer a casa do Papai Noel?

– Bonita… e tem que ter chaminé porque é no meio da neve.

Em outra ocasião em que não estivesse com sono, muito provavelmente teria pensado numa ideia mais criativa. No entanto, apenas desenhei o básico de uma cabana de inverno com a chaminé que Clarice pediu.

– Só isso a casa do Papai Noel? Pequenininha?

– É um Papai Noel minimalista.

– E onde vai caber tanto presente? Faz maior, maman! – Ela me devolveu o lápis.

Revirei os olhos, mas acabei obedecendo a ordem. – Mas que cliente exigente.

Usei técnica de profundidade para “expandir” a casa do Papai Noel e dar a sensação de ser bem maior. Em termos práticos, fiz alguns riscos a mais, mas que entregaram o objetivo.

– Tá, agora é a sua vez. Como vai pintar a casinha?

– É de madeira?

– Oui.

– E a chaminé tá acesa?

– Hmm, pode estar(?).

Clarice ficou pensativa por um tempo. – Tá bom… iih, esquecemos a água, maman.

Logo entendi o que seus olhinhos verdes estavam me pedindo e revirei os olhos me levantando do lugar para ir encher os pinceis com água na pia do banheiro. Se eu levei três minutos para ir até lá, fazer o que tinha que fazer e voltar, foi muita coisa. Mas aparentemente, três minutos para Clarice era tempo suficiente para transformar um esboço de uma cabana em algo de outro nível, ainda que estivesse só no início.

– Aqui está seus pinceis.

– Merci, maman – ela respondeu sem desgrudar os olhos do papel.

Honestamente, essa era a primeira vez que eu tinha chances de observar Clarice com seus lápis. Já a vi trabalhando em alguns projetos, mas nada que ela faz no escritório se compara ao que faz fora dele e normalmente, ela gosta de pintar sozinha. Ou acompanhada do Chloée… as únicas vezes que a vi pintando foi para encontrar o caos.

Confesso que estava impressionada.

Era o mesmo que observar uma impressora. Clarice sabia exatamente o que queria pintar e não parou um único instante para pensar. Estava vidrada em seu papel e colocava nele o que estava na sua mente com uma facilidade impressionante.

– Eu amei sua casa do Papai Noel, maman! Olha!

A minha?! O que eram os meus riscos perto de todo o resto que ela fez?

Se eu não conseguir convencer essa garota a mudar de carreira, eu irei força-la. É um crime limitar um talento desses trabalhando no meu escritório!

– Ficou lindo mesmo, ma vie. E agora, vai pintar outro desenho? Ou vamos dormir?

– Mas eu num acabei… falta as árvores, o lago congelado, a neve. Assim não tem graça. O Papai Noel vai ficar triste sem uma vista para observar da janela tomando chocolate quente com biscoitos. Eu vou continuar!

Balancei a cabeça concordando ao mesmo tempo que sorria desesperada. Essa garota não vai dormir hoje… e nem eu.

Juro que tentei manter meus olhos abertos e participar das conversas todas as vezes que Clarice falava algo comigo, mas chegou um momento que já não sabia mais se estava de fato a respondendo ou imaginando. De repente estava caindo de sono, incapaz de me manter acordada.

– Vai mimir, maman. Você tá mortinha de sono.

– Está tudo bem, ma vie.

– Num tá não. Você tá aí pingando de sono. Vai mimir porque você depravada de sono é chatona e mau humorada.

– Você quis dizer privada de sono?

– Foi o que eu falei.

A essa altura nem eu confiava nos meus próprios ouvidos e fui incapaz de refutar.

– Eu não vou te deixar sozinha aqui, meu amor.

– Mas eu num tô sozinha. A Bluey e a Bingo tão comigo! E é sério… tá de boa. Vai mimir. Seu corpinho precisa de energia para fabricar meu leite. Se acaba a energia, como é que faz leite?

– É isso que eu sou para você? Uma fábrica de leite?

 – Uma fábrica não. A melhor fábrica de leite!

Em outras palavras, uma fábrica de leite. A que ponto nós chegamos, Valkyrie…

– Tudo bem, eu vou dormir – eu me levantei. – Você termine só esse desenho e depois venha deitar também. Se não vier em até uma hora, eu vou vir te buscar. D’accord?

– Tá bom, mami.

– E eu não quero você zanzando pela casa. Seu limite é até as escadas. Nada de descer para o outro andar sozinha. Estão montando o evento de hoje e eu não confio em você no meio desse povo. Estamos entendidas?

– Sim, capitã maman!

– Agora eu vou deitar, até daqui a pouco meu bebê – dei um beijo demorado nela para me despedir.

Era arriscado deixar Clarice a solta em um dia como esse, mas estava confiante que sua paixão por desenhar era maior que sua vocação em fazer o que não deve e me estressar. Um voto de confiança para lá de insano, porém seguia segura…

… ao menos eu espero estar certa.

Dormir sem meu travesseiro de apoio – também conhecida como minha namorada – era mais difícil e desconfortável, entretanto, estava com tanto cansaço que eventualmente peguei no sono e dormi.

Quer dizer, eu tentei.

Por fim, o que atrapalhava meu sono não era o fato de não ter o meu apoio e sim a preocupação com a minha petite peste a solta. Por mais que tivesse dado meu voto de confiança, também tinha os meus receios. Além do mais, a qualquer momento Hélène poderá aparecer por aqui. Eu não quero que as duas se encontre e vire um caos ainda pior que qualquer coisa que Clarice pudesse aprontar sozinha.

Para meu alívio, pouco depois que eu deitei, Clarice se juntou a mim de baixo da coberta e encontrou seu caminho até meu seio. Era questão de tempo até que pegasse no sono, mas antes que isso acontecesse, eu dormi e dessa vez em um sono pesado.

« C L A R I C E »

Dormir era bom. Dormir era bom demais. Mas dormir demais não era legal e eu já tinha mimido suficiente e queria levantar.

A maman não parecia que iria acordar tão cedo. Eu só a vi dormir assim há trezentos capítulos quando ela capotou de sono e eu tive que a resgatar. Ela realmente estava cansadona, que isso…

Bem, ela não queria levantar, mas eu ia. Ainda tinha meu deseinho para terminar e a Bingo e Bluey estavam me esperando na biblioteca. Porém, ao chegar lá as duas tinham desaparecido. Tinha certeza que estavam sentadinhas na cadeira, mas agora não estavam mais. Procurei de baixo da mesa, no sofá e todos os cantos possíveis e nada.

A Bluey e Bingo sumiram!

No desespero por procurar as minhas filhas, não notei de imediato que meus lápis estavam fora de ordem. E meu desenho… o meu desenho estava arruinado!

Arruinado!

– Maman… maman!

Eu corri para o quarto para acordar a maman. A gente tinha que chamar a polícia e rápido! Sequestraram as minhas filhas! E o ladrão de filhas era péssimo para desenhar!

“C’est ma Bluey!” (É a minha Bluey!)

“Non! C’est le mien! Je l’ai trouvé em premier!” (Não, é minha. Eu encontrei primeiro!)

As vozes infantis me atraíram para as escadas e lá de cima vi as duas pestinhas bem arrumadas com a minha Bluey e a minha Bingo.

Não fazia ideia de quem eram aquelas crianças, muito menos de onde brotaram, só sabia que eu queria bater nos dois e resgatar minhas meninas antes que esses idiotas machucassem elas. 

– Arrête, Roméo! Arrête! – A garotinha disse puxando a minha Bluey para um lado e o menininho reagiu puxando de volta pelas perninhas da minha filha.

Aimée! Rends-moi!

Eu quis descer e parar com essa palhaçada, mas ao colocar o pé no primeiro degrau ouvi a voz da maman na minha cabeça dizendo “e eu não quero você zanzando pela casa. Seu limite é até as escadas. Nada de descer para o outro andar sozinha.”. Se eu descer ela vai matar eu.

E agora?

– Ah, oi Clara. O que está fazendo aí?

Confesso que demorei uns segundos para reconhecer a minha sogra em sua skin camponesa parada ao meu lado. Ela poderia facilmente ser confundida com a jardineira da casa. Não parecia nadinha com a Margot elegante e riquíssima de sempre.

– Oh, você já viu os gêmeos – ela comentou ao reparar no que estava olhando. – Esses dois são um caso a parte…, mas não se preocupe, eles costumam se comportar durante o jantar.

Mas eles estão com as minhas filhas!

– Está com fome? Você ainda não almoçou. Vem comer algo… eu também acabei de colher os morangos da estufa, estão uma delícia.

Comer? Eu quero comer. Eu amo papar e morangos…, mas e as minhas filhas?! E eu não posso descer.

– Mas a ma-Val está mimindo…dormindo. A Val está dormindo – me corrigi.

– Não se preocupe com isso. Ela logo deve acordar. Qualquer coisa mando servirem o almoço dela no quarto, – Margot se virou para o lado oposto das escadas, – vem por aqui. Não conte aos gêmeos, mas eu estou os evitando enquanto posso, – ela riu.

Meu deus… eu vi a Margot rindo.

Eu não queria desobedecer a maman e nem nada, mas ela disse que não me queria descendo as escadas sozinha e bem, eu não estava sozinha. Ela não vai brigar comigo por isso, vai?

E se eu descer com a Margot agora, eu posso tentar resgatar minhas filhas!

– Quem são os gêmeos? – Perguntei curiosa. É preciso conhecer seu inimigo para bolar um plano.

– São meus sobrinhos. Roméo e Aimée. São os caçulas da família.

– Caçulas?

Isso não é bom.

– Oui. Sãos filhos do meu irmão por parte de pai. Eu tenho três. Você irá conhece-los mais tarde.

Sobrinhos da Margot, primos da Val, caçulas dos Touchons… eu não tinha chances algumas contra os filhos da pulga.

 Se eu roubasse minhas filhas de volta e os dois reclamassem de mim, eu estava ferradinha. E ainda iria parecer patética para toda a família da maman e fazer ela passar vergonha.

Não chora, Clarice! Nada de passar vexame com a Margot.

Mas eu quero minha Bingo e Bluey de volta.

A comida do papar estava deliciosa, mas eu estava triste demais para apreciar. Estava ouvindo os gritos e risadas daqueles filhos da pulga e ficando cada vez mais brava e chateada, sem poder fazer nadinha. E era bem provável que a maman só fosse comprar outras no lugar para resolver o problema. Só que eu não quero outra Bingo e Bluey, eu quero as minhas!

– Está tudo bem? Você está tão calada – Margot perguntou depois de um tempo que estava comendo em silêncio.

– Estou. Estou sim. Estou bem… bem, bem, bem, bem.

– Está? De verdade?

– Sim.

Por um momento cogitei não falar, mas a Margot sabe que eu gosto de Bluey. Ela deve entender… né?

– Na verdade, eu estou inco…

Tante! Tante! Tante! – as duas pestinhas brotaram na cozinha correndo cada um deles com a minha Bingo e Bluey nos braços. – Pouvons-nous aller au jardin? S’il te plaît-plaît? (Nós podemos ir ao jardim? Por favorzinho.)

– Non, – Margot respondeu direta.

Revirei os meus olhos e passei ignorar os dois filhos da pulga insistindo com a Margot para deixar ir ao jardim. São dois bobões feiosos! Eu posso ir no jardim sozinha. E montão de coisas mais!

Où as-tu trouvé ces peluches ? (Onde foi que conseguiram essas pelúcias?)

C’est à nous! (É nosso), – o rapazinho respondeu.

Não é não! É meu! Meu!

– São bonitas a pelúcias. O que você acha, Clara? – Margot perguntou para mim. Ela provavelmente deve estar pensando em comprar iguais. Assim como a minha maman, ela era óbvia.

Sorri forçada. – São sim.

Mas não são pelúcias! São as minhas filhas!

Quis pegar minhas meninas e sair correndo, mas eu não faria essa cena na frente da Margot. Ainda mais com os sobrinhos caçula dela. Os dois são verdadeiros Touchon e eu… eu sou só uma visita deslocada.

Continuei comendo a minha comida com ódio no coração, detestando a presença desses bobões perto de mim. Não bastasse roubar minhas filhas, agora estavam roubando a atenção da minha sogra. Isso é feio! Muito feio! Vou falar para a maman dar castigo neles.

E por falar na maman, ela apareceu. Com a cara de malvadona prestes a matar cinco com o olhar e provavelmente boladona comigo.

– O que está fazendo aqui?

– A Margot me chamou para comer – fiz questão dar ênfase no nome para me livrar da bronca.

A maman olhou para mim, para o meu prato e então deu um sorrisinho para mim. – Ah, d’accord. Fez bem, ma vie.

Fiz?! A maman não está brava comigo?

– Está bom?

– Está sim. Quer?

Ofereci uma garfada do meu papa para a maman e no momento que ela abocanhou o papa, os pestinhas vieram para perto e puxaram a barra da sua camisa. Eles tinham desistido de conseguir permissão com a Margot e agora estavam aqui enchendo o saco.

Val… tu veux nous emmener au jardin? (Val, leva a gente no jardim?).

Mas que absurdo! Já não basta a minhas filhas, a minha sogra e agora querem a minha maman? Mas nem fedendo! A maman é minha. Minha!

A maman olhou para os dois e então para mim com um ar de curiosidade. Ela não estava esperando que eu fosse concordar com isso, né? Num vou! Não quero saber de jardim nenhum e se ela for eu vou ficar xuxa da vida!

Por fim, ela balançou a cabeça negativamente e se virou de vez para os filhos da pulga dando as costas para mim.

Era só o que me faltava. A maman me trocando por esses dois!

Quis chorar. Gritar. Me jogar no chão. Espernear. Mas me limitei a forçar um sorriso e fingir que estava achando fofo a cena, quando na verdade queria morrer. O que eu esperava que fosse acontecer? A Val é a maior tiazona puxa saco dos sobrinhos. Ela diz que não sabe lidar com crianças e afins, mas lá no Rio eu vi que era mentira. Todos os baixinhos eram fascinados por ela e não duvido que agora seja diferente.

O jeito é chorar e aceitar… ou melhor, só aceitar. Porque chorar também não pode. Odeio ser adulta!

Je suis sûr que ceci et cela ne leur appartiennent pas tous les deux! (Tenho certeza que isso e isso não pertencem aos dois.) – Val puxou a Bluey e a Bingo das mãos dos gêmeos ignorando as suplicas para devolver. – Où les as-tu trouvés tous les deux ? (Onde encontrou as duas?).

Arregalei os olhos surpresa com a reação da maman.

Ela não só resgatou minhas filhas, como deu uma bronca nos pestinhas por terem pego algo que não era dos dois sem autorização. Observei a cena sem acreditar e até a Margot que no primeiro momento repreendeu a Val por ter puxado as “pelúcias” das crianças, acabou entendendo e concordando.

– Guarda isso no lugar, – a maman me devolveu minhas filhas, – por favor, – acrescentou para soar menos brava.

Sem nem pensar muito eu subi correndo para guardar minhas meninas em segurança e longe de mãos de crianças piolhentas.

– Espera aí, meninas! – Eu joguei as duas na cama para ir até a gaveta de emergência da maman.

As vezes esqueço que meu pulmão da Shopee não aguentava subir as escadas correndo. Quando entrei no quarto já estava quase falecendo e precisando da minha bombinha. Crise de asma resolvida com sucesso, eu voltei para as bebês.

– Desculpa a mamãe por ter abandonado vocês, meninas! Prometo que não vai acontecer mais! – Eu as abracei antes de colocar bem escondidas dentro do closet. – Agora eu vou papar antes que aqueles dois roubem a minha comida também! E nada de correr, Clarice!

Quando voltei para a cozinha, a maman estava sentada no lugar vago ao lado do prato. Pratinho esse que agora tinha uns legumes que antes não estavam lá. Ela botou mais comida pra eu?

– Coma direitinho. Daqui a pouco temos que começar a nos arrumar – ela disse assim que me sentei. – Você está bem?

– Uhum! – Dei uma garfada do meu papa e então senti o gostinho do remédio na boca. O neném não pode ter segredos com a maman! Eu tenho que falar. – Tive que usar a bombinha lá no quarto, mas eu tô bem. Foi as escadas.

– Oh… okay. Fez bem mais uma vez, ma vie – ela me beijou a testa. – Pode até repetir a sobremesa se quiser.

– Posso?! – Perguntei surpresa.

Então é isso que acontece quando você é uma boa menina?! Ganha beijinho e mais sobremesa? Legal, gostei!

Estávamos nos arrumando para um jantar de natal e eu me sentia indo para um casamento.

Cabelo, unha, maquiagem quase que tudo simultaneamente. Era como se estivesse em um salão de verdade, mas era só um dos quartos vagos da casa que decidiram usar para se arrumarem. E um monte de profissionais. Como arrumaram tantos em pleno natal?

A docinho ficou pronta primeiro que eu por ter o cabelo consideravelmente mais curto que o meu e por eu ter cortado as pontas do meu. Sinceramente nem sei porque ainda tenho o cabelo longo. Não é como se alguém fosse reclamar ou dizer que estou querendo parecer um menino só por cortar nos ombros… se bem que, eu poderia adotar um look bem curto. Quem sabe raspar uma parte. Por que não?

Eu sou livre para fazer o que eu quiser… que a maman deixar, claro.

Me senti participando do Esquadrão da Moda ou qualquer outro quadro de mudança de visual de algum programa de domingo da televisão aberta. Faltava apenas vestir minha roupa.

– Docinho, eu acabei – disse ao entrar no quarto. – O que eu vou… – paralisei totalmente ao me deparar com a cena.

Valquíria estava terminando de vestir sua meia calça para colocar a cinta-liga. Isso não… isso não era coisa de usar para seduzir na cama? Por que… por que ela estava… meu deus… estava usando isso agora? Essa lingerie estava fatal demais para um evento familiar!

Passei mal.

– Você está bem, ma vie?

– Sim, – sorri.

Não desmaia agora, Clarice. Você precisa memorizar cada detalhe para desenhar isso depois!

– Não está precisando usar sua bombinha outra vez, está?

– Não.

Por enquanto…, se continuar de lingerie e roupão, eu talvez precise muito em breve.

– Estou bem… o que eu vou usar essa noite? Eu não acho que tenho roupa para isso. E eu não quero usar um vestido, não um formal. Eu não combino com isso.

– Eu sei, mon amour. Veja as três opções que estão no closet e escolha qual gostar mais.

– E se eu não gostar de nada?

– Pelo menos um eu sei que vai gostar.

– Como pode ter certeza?

– Porque eu te conheço, mocinha.

Confesso que fui ao closet com aperto no peito. Sei que tivemos que preparar tudo de última hora, mas eu fui tola em não pensar em um backup. Vai que tudo é Touchon demais para o meu gosto? A Val se veste super bem sempre, mas eu seria incapaz de usar qualquer coisa que ela usa.

Entrei no closet sem fé e fiquei sem saber para onde olhar: se era para o vestido que com certeza era o que a Val iria usar ou para os looks ma-ra-vi-lho-sos que pelo tamanho definitivamente eram para mim. Droga, eu tenho que escolher só um mesmo? E se eu quiser usar todos.

– E aí, qual você vai querer usar?

– Não sei. Posso usar os três?

Hoje? – Val perguntou surpresa e incrédula. – Não. Você vai escolher um para usar a noite toda. Vamos ter outras ocasiões para usar os demais… e se não tiver, nós criamos.

Por que eu tenho a sensação de que para a Val trocar de roupa durante um evento era uma possibilidade real? Se bem que eu não ficaria surpresa. A minha mulher é muito gata, sexy, neurótica e louca.

As opções que tinha disponível variava entre “fofa elegante”, “fofa sensual” e “fofa mafiosa”. Considerando o vestido que minha mulher usaria essa noite, optei pela terceira opção por razões óbvias. Quando o chato do HeN-Ri olhar para ela e me ver ao seu lado, quero que fique em dúvida se estou armada ou não.

O look era uma calça de alfaiataria preta de cintura alta, uma blusa transpassada do mesmo tom de vermelho maroon escuro do vestido da Val e um blazer preto. Era estranho usar uma roupa levemente decotada, considerando que eu uso capa de botijão de gás que esconde todas as minhas curvas e chamo isso de roupa.

Me olhando no espelho parecia até que era uma Touchon… da Shopee, pois convenhamos, não tenho nem postura para isso.

– E aí, o que achou? – Perguntei a Val quando ela voltou ao closet.

Esperei por um elogio ou algo do tipo e me deparei com o silêncio. Me virei para ela e seu semblante não era de alguém que tinha gostado do meu visual. Será que ela achou feio em mim?

– Pensando bem, acho que mudei de ideia. Troca de roupa, – a Val comentou. – Você não vai usar isso, – ela disse indo atrás de outra roupa para mim.

– Está tão ruim assim? – Fui atrás dela para ver o que estava separando. – Eu achei que tinha ficado bom.

– Exatamente, – Val se virou para mim e me reparou dos pés a cabeça de forma discreta. – Você ficou bem, muito bem. Bem até demais. E eu não quero ninguém de olho na minha namorada.

– Está com ciúmes, é?

– Oui, – ela respondeu brava.

– Não deveria. Primeiro; eu só tenho olhos para você. Segundo; é um jantar da sua família.

Val cruzou os braços de baixo do seio e revirou os olhos. – Como se na minha família não tivesse parentes distante o suficiente para ser desconhecido. Eu cheguei à conclusão que eu prefiro suas roupas largas.

– Você jura? Eu estou começando a achar que deveria começar a usar roupas do meu tamanho.

– Saiba que eu só não vou te obrigar a trocar de roupa porque vou querer guardar as fotos dessa noite pela eternidade. Mas depois eu vou jogar fogo nelas.

– Está reclamando da minha roupa enquanto usa a lingerie mais sexy possível. Você não pretende mostrar isso, né?

Val fez uma careta confusa. – Lingerie sexy? Mas eu não… – ela olhou para baixo, – oh… entendi. Eu não estou usando isso para seduzir e também não vou mostrar isso a ninguém. Mas é que não vou usar bolsa e precisei improvisar.

– Não entendi. O que bolsa tem a ver com a sua lingerie?

– Vou guardar sua bombinha na minha meia calça, – ela exibiu a lateral da coxa e enfiou os dedos dentro da calça onde pretendia colocar a bombinha e eu quase precisei dela agorinha mesmo. – A cinta-liga é literalmente para segurar a meia e não deixar cair. Nenhumas intenções sórdidas por trás.

– Eu tenho bolsos no meu blazer, sabia?

– E? Eu sempre carrego sua bombinha comigo. Não será agora que farei diferente. Ainda mais hoje que já precisou usar mais cedo.

E dá para discutir com a loucura dessa mulher? Acho que não.

De certa forma, eu acho fofo essa sua preocupação. É basicamente uma prova de amor.

– Enfim, nós temos menos de quarenta minutos para nos arrumarmos.

– Eu já estou pronta.

– Está, Clarice? – Val perguntou brava como se eu estivesse esquecendo de algo.

Sorri amarelo sem saber o que poderia ser. – O que foi?

– Não sei se o seu lado grande se recorda disso, mas eu estou lactando. Não quero correr riscos de ficar vazando durante a noite. Acho bom você dar um jeito de esvaziar os dois antes de eu colocar meu vestido ou eu vou arrumar pequena para amamen…

– Não! – a interrompi. – Já entendi. Eu vacilei, foi mal. Não precisa de outra pequena. Esse é o meu trabalho. E meu.

– Então venha logo. Não temos muito tempo e já passou horas desde a última vez que mamou, estou dolorida.

– Sim, meu amorzinho. Agora mesmo!

Dessa vez eu tranquei a porta antes de ir para o sofá com a Val. Já basta todos os vexames que passei aqui, não preciso adicionar isso na lista.

– Eu não vejo a hora de voltarmos ao Brasil e criarmos uma rotina, – Val comentou quando me deitei em seu colo e logo tratar de abocanhar o meu tetê. – Preciso de horários fixos.

– Horários fixos? – Perguntei sem tirar o seio da boca, ainda tentando fazer o leite descer.

– Oui, ma vie. Sinto que estou sempre cheia, preciso de uma rotina para o meu corpo se adaptar. Dois horários fixos no dia ou algo assim.

Eu até engasguei com a jatada que levei no fundo da garganta. – Dois horários fixos?

A maman está querendo limitar as minhas mamadas. Duas vezes ao dia?! Só isso?! Só pode ser uma piada! Como eu vou sobreviver assim?!

– De manhã ao acordar e antes de dormir, – ela se explicou me dando tapinhas nas costas para me recompor.

– E o que eu vou fazer no restante do dia? Sofrer? Chorar? Eu preciso mais que duas vezes.

– Não é como se a nossa rotina permitisse algo diferente disso. E não, você não vai mamar no trabalho.

Ela me tirou a minha solução antes mesmo que eu pudesse sugerir. Que tristeza, meu deus!

Embora eu quisesse iniciar um protesto agora mesmo, eu também queria aproveitar meus tetês ao máximo que podia. Por essa razão eu me calei e foquei em mamar até a última gota do meu leitinho enquanto ainda tinha tempo.

Duas vezes ao dia!

DUAS!

O “jantar” de natal da família estava mais para um banquete.

Valquíria tinha razão. Era muita gente. Hélène convidou todos os parentes vivos para o evento de hoje e era notório que nem todos se conheciam porque se reuniam em grupinhos. 

Imagine um jantar de casamento. Várias mesas redondas, você interagindo somente com aqueles que estavam na sua sem fazer ideia daqueles que estavam na mesa ao lado. Exatamente isso que era o jantar de natal.

E bem, o jantar estava acontecendo em uma tenda que montaram no jardim enorme da casa. Se não fosse pelas decorações natalinas nas mesas e no espaço da tenda, poderia ser sim facilmente um casamento ao ar livre.

Não sei se fico chocada com toda a estrutura que montaram ou com o fato da casa dos meus sogros ter estrutura para tudo isso.

– A gente vai demorar a comer, não vai?

– Está com fome? – Val perguntou preocupada.

– Não… ainda não, mas o que a gente vai fazer até a hora de comer?

– Beber champagne, fingir estar interessada em qualquer conversa que for obrigada participar e esperar o momento que a Hélène for embora para ter alguma diversão. Ela normalmente vai embora cedo. E as coisas costumam melhorar depois que servem o jantar.

– Parece chato.

– É muito chato, – Val pegou a minha mão. – Se prepare para a noite mais chata da sua vida, mon amour. Mas eu prometo compensar por ela no quarto, quando essa palhaçada aqui acabar, – ela lançou uma piscadela e beijou a minha mão demoradamente.

Em outro contexto, essa cena teria feito meu coração perder o compasso e ficaria empolgada. Mas aqui, cercada por tanta gente, eu só consegui reparar nos olhares de julgo em nossa direção, especialmente o de Hélène, e me preocupar. Valquíria não deveria beijar a minha mão assim na frente de todo mundo.

– Aqui não, Valquíria – disse entre os dentes. – Está todo mundo olhando.

– E daí? Você é a minha namorada. Que olhem! – Ela puxou a cadeira do lugar onde havia meu nome escrito. – Sente-se aí, mon amour, – fiz como pediu. – E pare de se preocupar com os outros. Você é minha – ela disse isso pegando em meu colar com a ponta em V.

Forcei um sorriso. – Tudo bem.

Val estava prestes a se sentar ao meu lado, quando notou que o nome ali era “Bruno” e então foi para o outro lado. – Leopoldina? Mas que palhaçada é essa? Onde está o meu nome? 

Depois de verificar um por um, descobrimos que Val e eu estávamos em lugares opostos, e o HeN-rI estava ao seu lado. Basicamente Hélène havia colocado a Val entre eles, como refém dos dois.

– Você pode mexer assim?

– Como se eu me importasse.

Não bastasse mexer no próprio nome, Valquíria alterou todos. Por fim, ela ficou entre Bruno e eu. O HeN-rI ficou entre Hélène e o Fernando. É importante salientar que o meu sogro é uma MURALHA de quase 2m de altura. O Pedro irá sumir ao lado dele. Além do mais, acho que não terá coragem de inventar nenhuma gracinha para cima da minha Val correndo o risco de ter o crânio desconfigurado com uma mão.

Eu não duvido que o Fernando seja capaz de esmagar a cabeça de alguém tal qual fosse uma melancia.

E pensar que ele é mandado por uma mulher só alguns centímetros mais alta que eu…

– Je crois qu’il y a une erreur à cette table. L’ordre des places est incorrect.  (Acredito eu que houve um engano nesta mesa. A ordem dos assentos não está correta) – Foi a primeira coisa que Hélène disse ao se aproximar da mesa.

Estávamos sentados respectivamente Leopoldina, Bruno, eu e a Valquíria. A sequência final ficou: Val, eu, Bruno, mãe do Bruno, Margot, Fernando, Pedro, Hélène, Juliette, Mäel, Jacques, Elisa e de volta na Val.

Resumidamente, eu só conhecia cinco pessoas num total de doze. O que era um número okay.

L’ordre est correct, grand-mère. Nous sommes parvenus à un consensus et avons décidé de nous asseoir dans cet ordre. Je ne changerai pas de place. (A sequência está correta, vó. Nós chegamos em um consenso e decidimos que sentaríamos nessa ordem. Eu não vou mudar de lugar), – Val respondeu elegante, porém firme. O que fez com que Hélène a olhar com desgosto.

D’accord. Si vous êtes tous d’accord, on restera comme ça. (Certo. Se estão todos de acordo, permaneceremos assim.) – Hélène forçou um sorriso e simpatia, mas era visível que não gostou de ser contrariada.

Pedro puxou a cadeira para a velha se sentar e de fato, perto dos outros, o inútil se portava bem. Tinha postura e uma finesse. Um requinte e elegância que até então nunca tinha visto. Se sua aparência não distinguisse tanto dos outros Touchon à mesa (cabelos e olhos claros), diria até que era da família. Parando para pensar, a Valquíria era a única que não tinha ou cabelo ou olhos claros. E sinceramente, não ficaria surpresa se fosse a única da família toda.

– Essa gente toda é Touchon? – Perguntei discretamente.

– Se fosse, ninguém aqui seria rico. Imagine essa galera toda tendo direito as ações da construtora, não ia receber um euro de dividendos. – Bruno zoou.

– A maioria aqui é da família da minha avó, – Val explicou ao terminar de dar seu gole no champagne. – Touchon é por parte do meu avô.

– Ah, entendi… espera aí, eu até agora não tinha ligado os pontos. Se onde trabalhamos é uma filial da construtora que pertence a sua família, significa que você é dona da empresa que eu trabalho?

– Garota… você é lenta.

Val lançou um olhar repreendedor para o Bruno. – Não, mon amour. Eu não tenho direito a nada da construtora. Minha avó deserdou a minha mãe antes de eu nascer, lembra? Mas sim, nós duas trabalhamos na empresa da minha família…, mas digamos que os negócios na América Latina e Europa não se misturam. São quase empresas diferentes.

– E você pode ser demitida?

– É… eu posso.

– Quer dizer que, se a velha se revoltar, ela pode simplesmente te dar um tchau e benção?

– Oui, exactement.

Não que a Val se preocupe com o dinheiro do seu salário, mas ela literalmente escolheu trabalhar por gostar do que faz e principalmente gostar da equipe que trabalha junto. Se a Hélène decidir tirar isso da Val, seria péssimo. Conseguir outro emprego não seria problema, até abrir um escritório próprio também não. Mas se adaptar a nova rotina seria uma tortura. Também não há uma garantia de que não desencadearia uma crise.

Por fim, essa velha tem mais poder sobre a vida da Val do que eu imaginava…

Meu objetivo era a ignorar durante toda a noite, porém tive o azar de sentar de frente para a velha. Val ficou ainda pior sentada de frente para o Pedro. Era impossível não ter troca de olhares do jantar e eu tive a sensação de que a chata idosa não tirava os olhos de mim.

Como era de se esperar, Hélène tomou as rédeas de todos os assuntos à mesa.

Se houvesse alguém a mesa que não falasse francês, Hélène estava pouco se fodendo. Ela puxou todo o assunto na língua sem se importar se algum dos convidados brasileiros estivesse entendo ou não. Sinceramente, senti que fazia isso para me deixar de fora, achando que não estivesse entendendo uma única palavra. E eu, não sendo boba, alimentei sua crença permanecendo em silêncio durante o jantar.

Também não era como se tivesse alguma coisa para falar nessas conversas chatas de pessoas ricas. É natal, e essa chata está falando de expansão de negócios, sabe? Ninguém quer falar da obra de não sei lá onde. Ou sobre a negociação com sei lá quem.

Uma senhora dessas com o pé perto da cova e querendo falar de trabalho. Ponte que partiu, né.

Juliette, minha querida, você está radiante hoje – pela primeira vez algo que não era sobre empresas e negócios saiu da boca da chata. – A gravidez só realça a sua beleza. Mäel, você é um homem de sorte.

Obrigada, vovó. Estamos bastante empolgados para a chegada do bebê… espero que até o casamento a minha barriga não cresça tanto. Quero que tudo seja perfeito!

É por isso que estamos correndo contra o tempo. Tudo será perfeito no seu casamento. E espero que em seguida tenhamos outro casamento também, não é mesmo Valkyrie?

Val deu uma leve engasgada com seu vinho. – Perdão, o que disse?

O seu casamento. Quando pretende se casar? Estou velha e doente. Meus dias nessa vida são curtos. Todo mundo sabe que depois que fui parar naquele hospital, é apenas uma questão de tempo para mim. Eu não quero morrer sem antes ver as minhas netas casadas e bem encaminhadas na vida.

– Sinceramente, vovó? Me casar por agora não estava nos meus planos, mas se faz tanta questão… – Val me olhou, – posso considerar uma mudança.

Considerar uma mudança? Espera aí, ela está falando sobre me trocar para atender os caprichos da velha?!

Não sabe o quanto me deixa feliz ouvir isso, minha querida. Quero muito ver o seu casamento com o Henri acontecer. Tenho certeza que serão um casal muito felizes juntos.

– Não foi o que eu disse.

– Mas é assim que será, – Hélène rebateu. – Eu não tenho mais tempo para aturar a sua rebeldia, Valkyrie. Você vive por aí como se fosse uma qualquer, mas você é uma Touchon e já passou da hora para agir como tal.

– A Valkyrie não tem obrigação alguma de…

– Margot, basta! – Hélène a interrompeu em um tom firme. – Sua filha age assim por sua culpa. Você foi uma decepção para o seu pai e agora quer que sua filha siga os mesmos passos. Eu não vou permitir isso.

Fernando iria falar algo, mas antes que dissesse uma palavra, Margot tocou em seu braço para que se calasse.

Acho que já podemos pular para a sobremesa: torta de climão.

O resto do jantar foi péssimo. Hélène conversava com o HeN-rI, a grávida lá, os outros três franceses insignificantes para história e em q-u-a-l-q-u-e-r oportunidade lançava uma indireta – ou até mesmo direta – para a Val. Val que agora estava bebendo uma taça de vinho atrás da outra sem controle algum, sinal claríssimo de que estava brava… brava não, furiosa.

Margot também estava poucas conversas. Fernando até tentou dar uma melhorada em seu humor, mas foi em vão. Bruno e Leopoldina se esforçaram para render uma conversa do lado franco-brasileiro da mesa, porém, não foi muito para frente.

E eu pensava que nascer rico já eliminava todos os problemas da vida, mas o ser humano vai lá e cria vários deles.

Após a sobremesa, Hélène fez um discurso ao microfone para toda tenda-salão ouvir. Um monte de baboseira mentirosa sobre natal, família, amor e blá-blá-blá que eu vou resumir em: estou morrendo, façam o que eu quero ou eu farei vocês irem primeiro.

Ter todos vocês aqui hoje, me encheu de uma alegria que eu já nem lembrava mais que era capaz de sentir – Hélène continuou em seu longuíssimo discurso, – mas, ao mesmo tempo, me fez perceber que a cada instante que passo com vocês é um presente que não sei até quando vou poder receber, – dramática do baralho. – Como sabem, meu coração já não é tão forte quanto antes e temo que o próximo encontro demore demais e que… bem…, vocês me entendem.

Estava me questionando se alguém realmente comprava esse discurso de “vou morrer em breve”, mas bastou olhar para os lados para ver algumas pessoas chorando. Será que a Lúcia me tornou uma pessoa insensível?

-… por isso eu não quero arriscar esperar mais um ano para sentir essa felicidade de novo. Quero prolongar esse natal, – não, por favor, não… – transformar esse momento em algo que vai ficar marcado para sempre. Dia 27, em Paris, quero todos vocês em mais um jantar… um brinde à vida, à família e a tudo que podemos viver juntos. Eu só peço isso: me deem essa alegria antes que seja tarde demais. Não quero me despedir com essa vontade presa no peito.

Se eu não tinha ocasião para usar os outros looks, agora surgiu uma. Revirei os olhos com o meu próprio pensamento. Sério, eu não tenho saco para mais um jantar como esse. Nesse ritmo, até o ano novo eu já faleci de ódio e tédio.

Um brinde à nossa família.

Não queria brindar, mas não faria a desfeita com o champagne dos meus sogros. Também estava curiosíssima para experimentar e realmente era algo muito bom. E enquanto eu estava dando um gole tímido, Valquíria virou a taça de uma única vez e a colocou vazia sobre a mesa.

Em seguida ela pegou a taça de vinho tinto e estava prestes a beber, mas eu segurei o seu braço.

– Acho que já está na hora de você começar a maneirar nisso aqui, – tirei a taça de vinho da sua mão com sucesso, mas fui surpreendida com a minha própria taça de champagne ser roubada de mim. – Valquíria, nã-

Ela virou.

– Você está maluca? Champagne te deixa bêbada mais rápido! E a ressaca disso é um inferno.

– Está me dando lição sobre champagne? Você ouviu a minha avó, eu sou uma Touchon. Eu entendo muito bem desse champagne e sei o que estou fazendo.

– Não parece.

Pensa numa francesa furiosa. Essa era a Val. Agora pensa numa brasileira que está pouco se fodendo. Essa sou eu.

Não me interessa se ela sabe o que está fazendo ou não. Para mim ela já bebeu demais e eu vou a atrapalhar a beber mais. Trabalhei anos em bares, se tem uma coisa que eu sei muito mais que pintar quadros é o momento certo de parar de servir bebida a alguém.

O garçom passou servindo mais champagne. Val pegou outra taça e eu logo em seguida roubei da sua mão e substitui pelo copo de água.

– Beba água, sua alcoólatra.

– Eu não sou alcoólatra.

– Está agindo como uma, então vou te chamar pelo o que parece, – Val revirou os olhos para mim. – Vai, beba isso logo. E não adianta fazer birra. Se não quiser beber água, vai dormir sozinha essa noite. É o que você quer?

– Isso é jeito de falar comigo? Eu sou a sua ma- – a interrompi com o dedo sobre seus lábios.

– Não, nesse exato momento você perdeu seus privilégios de – olhei ao redor rapidamente, – maman. Sei que está brava, revoltada, furiosa, sei lá mais o que, mas beber descontroladamente não vai solucionar nada. Pelo contrário, só vai piorar. Então para.

Valquíria bebeu a água. A contragosto, mas bebeu.

No entanto, colocar limites em uma pessoa que tem o poder de redesenhar a linha é um verdadeiro inferno. Eu poderia tirar todas as bebidas possíveis das mãos da Valquíria e bastava exibir sua taça vazia para brotar um garçom para servi-la. Se eu dissesse não, teria outras centenas de pessoas para lhe dizer sim e fazer tudo exatamente como queria.

É assim que as mommies se sentem quando seus littles resolvem a desafiar e fazer justamente o contrário do que foi dito? Essa vida não é para mim não.

– Ei, gata. Se importa se eu roubar a sua Val de você? – Bruno perguntou.

– Pode levar. Fique à vontade! – Eu basicamente empurrei a Val para o Bruno levar. Ela me olhou brava e eu dei ombros. – Quero assaltar a cozinha. Ainda estou com fome.

Mas na verdade eu deveria dizer: estou cansada de tentar impedir essa mulher de beber até etanol, preciso de um descanso.

– Não vá aprontar, Clarice.

– Oxe, olha quem fala. Hoje você está pior que eu. Sou eu quem devo me preocupar… então, por favor, vocês dois não vão aprontar por aí.

– Querida, nós vamos dançar!

– Dançar?! Eu não quero dançar.

– Eu não perguntei. Você vai dançar comigo.

– Aproveitem a dança. Eu vou comer.

E sim, eu realmente estava com fome.

O jantar foi basicamente vários pratos com uma quantidade ridícula de comida e depois de devorar todos eles, ainda estava com fome. Se eu não comesse nada nos próximos três minutos iria falecer antes que a Hélène.

Felizmente, encontrar e roubar comida foi muito mais fácil que esperava. A cozinha estava lotada de canapés e uns doces lá. Usei minha habilidade especial de catar comida de locais proibidos e desaparecer. E como estava temporariamente sem maman, me dei direito de pegar uns docinhos extras.

Minha intenção era sair pelo mesmo caminho que entrei, porém ouvi vozes do que parecia ser funcionários e então tomei o caminho contrário que dava para a sala principal da casa. Os canapés ainda não estavam sendo servidos, ou seja, não queria ser vista com eles por aí.

Se bem que… eu já estou dentro da casa. Por que não ir comer no quarto na paz e tranquilidade? Não é como se tivesse alguma regra sobre não andar por aqui. E mesmo se tivesse, no momento estou deliberadamente cagando para regras da maman. Não dou ouvido a bêbados descontrolados.

Estava no corredor para o quarto quando ouvi vozes vindo de um dos cômodos. Veja bem, eu não queria dar uma de fofoqueira e nem nada. Coincidentemente aconteceu de eu estar passando no momento em que eles estavam conversando e calhou que, a porta estava aberta e eu não poderia ir para o quarto sem ser vista por quem estivesse dentro do cômodo. Ou seja, tive que parar. Ouvir foi consequência não intencional.

O que é isso agora? Está querendo punir a sua própria mãe por tentar colocar juízo na cabeça da sua filha desnaturada?

Ué, mas essa velha não tinha ido embora?!

Valkyrie não precisa que coloque juízo em sua cabeça…

– Agindo como uma adolescente aos trinta e não precisa de juízo? Estou tentando protege-la e você insiste em fechar os seus olhos. Todos acham que Valkyrie é como é por ser autista. Eu não quero ninguém diminuindo a minha neta e duvidando da sua capacidade por isso. Ela é uma Touchon e terá que carregar o legado da família nas costas.

– É você quem está a diminuindo, Hélène.

– Valkyrie deveria estar a frente da empresa, mas está presa a posição de uma arquiteta qualquer por que ninguém mais acredita que ela seja capaz de ocupar o lugar que é dela por direito. Eu estou tentando mudar isso enquanto estou aqui para fazer. 

– Ela não quer isso.

– Não quer mesmo ou é o que diz para mascarar seu próprio fracasso? Eu consegui convencer a maioria do conselho dos acionistas para dar mais uma chance a ela, mas eles querem ter certeza de que estão lidando com uma mulher adulta e madura.

– Por que fez isso? Ela não quer assumir empresa nenhuma.

– Não tem o que querer, tem a obrigação. E Valkyrie tem obrigação de levar o nome da família. Se envolver com uma menina que male, male saiu das fraldas não irá ajudar em nada. – Ei! Eu ainda uso fraldas, mas em momentos muito específicos. Eu não preciso delas! – Ela não tem mais idade para se aventurar. Sei que o Henri não é a melhor opção, mas ele sabe gerir um negócio muito bem e pode ajuda-la. Essa é a oportunidade para Valkyrie mostrar que também é capaz assim como qualquer outra. Não era isso que ela sempre quis?

– Posso te garantir que ela está pouco se importando com a opinião dessas pessoas. Quem se importa é você. E eu não concordo com esse casamento. Não vou permitir que aconteça.

– Quem se importa com esse casamento, Margot? Tudo que ela precisa é passar a imagem que eles querem ver e depois que provar que é capaz, poderá descartar o rapaz. Eu não dou um ano para esse casamento acabar, não é como se ela precisasse de mais do que isso.

Hélène está usando o Henri também? Que velhinha filha da pulga…

– As pessoas não são guardanapo para se usar e jogar fora, Hélène. Tampouco são descartáveis. Valkyrie não está disponível para casamento.

Eu vou colocar a minha neta no topo que é o lugar onde ela merece estar e não será você quem irá me impedir.

– No topo para se jogar dele? Não, você não vai fazer isso. Você deveria deixar sua obsessão por poder e status de lado e focar em cuidar da sua saúde. Desse jeito irá acabar se matando. E não se preocupe, Valkyrie não precisa provar nada a ninguém. Ela já fez isso quando se tornou a única Touchon com um Pritzker.

– E quem fez com que ela refizesse o projeto até chegar na obra premiada? Você pode me criticar o quanto quiser, Margot. Mas se não fosse por mim, sua filha não seria o que é hoje.

Quando a conversa estava ficando boa, ouvi passos em direção a porta e a sombra que se formou no chão indicava que de fato havia alguém próximo. Para evitar ser vista, eu meti o pé.

Só porque eu queria ficar e ouvir mais. Não era possível que eu entendi certo. Eu jurava que Hélène tinha um complô para manipular a Val e por fim a velha trabalha sozinha e seu objetivo é colocar a Val no topo? Topo de onde?

Preciso de mais comida!

Muito mais comida!

Serviram umas mesas cheia de canapés, doces e mais bebidas e absolutamente ninguém estava parado perto delas para ficar beliscando o tempo todo. Não é possível que isso seja costume de pobre. Se for, eu sou pobre para um caceta.

Pobre e feliz, catando algo para comer o tempo todo.

Juro que estava cuidando da minha vida, aproveitando a minha comida e observando Val dançando com o Bruno de longe, mas ouvi a palavra “brésilienne” sendo repetida bem ao meu lado. Se tem gringo falando de brasileira, era óbvio que iria querer ouvir. Até porque as únicas brasileiras-brasileiras aqui eram Leopoldina e eu.

– Não, a brasileira é a melhor de todas. Olha só para isso.

– Dizem que as mulheres brasileiras são outro nível. Eu agora entendo o porquê.

– E eu achei que tinha mirado na Touchon certa, mas aí eu conheci a que se escondia no Brasil. Me arrependi na hora. Engravidei a mulher errada.

Os homens deram risadas como se fosse engraçado.

Não conseguia ver o rosto do responsável pela a fala, mas tinha quase certeza que era o tal do Mäel, o que torna sua fala ainda mais pesada. Como tinha coragem de admitir abertamente que foi ativamente atrás de alguém da família por interesse e ainda dizer que engravidou a mulher errada?!

E você achou que teria alguma chance? A minha prima não é fácil não. Aquela ali tinha a escola inteira na friend-zone. Sem dó e piedade.

Prima?! Eu não acredito que esse cara falando um absurdo desses é primo da Val!

– Tenho mais chances que você que é parente, – eles riram.

– Ela é gostosa, mas não daria certo para vocês. Pelo o que entendi, ela não pode ter filho.

– Não? Como você sabe?

– Ah, a avó sempre diz que ela não pode ter filho.

Não entendi. Será que eu ouvi errado? A Val não quer ter filho, é diferente de não poder. Ou ela não quer por que não pode? Mas se ela não pudesse ela me falaria, não? Também não é como se nós pudéssemos ter filhos, então para que contar?

Acabo de me dar conta de que em todos esses meses, Val não teve o período uma única vez. Se fosse algo sério ela me contaria, não? Aí meu deus, ficar ouvindo a conversa dos outros está me revelando muito mais do que gostaria de saber…, mas também não conseguia parar de prestar atenção.

– Mulher assim é difícil segurar… deve ser por isso que aquele otário está aceitando essa humilhação. Imagina só se minha mulher iria ficar com outra na frente de todos enquanto eu fico chupando dedo pelos cantos.

– Eles se separaram, não?

– Não. Ela tem problema de cabeça e agora está saindo com essa garota, mas não é nada sério. Ela ainda vai casar com o imbecil. É uma fase. Dizem que as pessoas que tem a mesma doença dela costuma não entender essas coisas, ficam confusos mesmo.

Como é que é filho da puta?! Eu vou dar na cara desses idiotas agora mesmo! Quem eles pensam que são para falar assim da minha mulher. Doente vai ser a cara dele quando eu quebrar esse infeliz na porrada!

– Ouvir a conversa dos outros é feio.

Levei um susto ao me deparar com uma pessoa ao meu lado. Meu semblante fechou no mesmo instante. Pedro Henrique…

Eu não…

– Não fala francês? Eu também achava que não, mas para quem não entende nada estava reagindo muito. Seu rosto não engana.

Eu o ignorei para decidir qual seria o meu próximo canapé. Eram tantas opções de “finger-foods”. Nem sabia se tinha experimentado todas.

Sabe, eu sempre me perguntei o que foi que a Valquíria viu em você, mas agora te vendo um pouco mais produzida, eu consigo entender. Ela é muito boa em guardar segredos, mas jamais imaginei que também fosse boa em esconder a mulher que tem.

– O que você quer?

– Apenas conversar.

– Eu não tenho nada para conversar com você, – tentei me afastar, mas Pedro segurou o meu braço.

– Nós temos muito mais para conversar do que imagina, – o encarei com cara de tédio. – Olha, eu sei exatamente quais são as suas intenções.

– Sabe, é? E quais são?

– Só tem um motivo para uma garota da sua idade se envolver com alguém como a Valquíria; você acha que ela irá te proporcionar uma vida de riquezas. Dinheiro fácil. Mas não pense que será tão simples como imagina. Eu conheço a Val há vários anos. Nenhuma das suas obsessões são duradouras. Será uma questão de tempo até essa fase passar e ela te descartar.

– Assim como fez com você?

– Para eu ter sido de fato descartado, ela teria que parar de correr para os meus braços e cama sempre que alguma de suas aventuras vão mal. E será uma questão de tempo para isso se repetir mais uma vez quando o caso de vocês acabar.

– Entendi.

Meu descaso pegou Pedro despreparado. Acho que esperava uma reação mais emocionante da minha parte. Esperou errado.

– Você não acredita em mim, mas basta olhar para o seu redor. Está sozinha. Onde está a sua “namorada” agora? – Ele fez aspas com as mãos.

– Dançando com o melhor amigo bem ali. 

E você não está com ciúmes por ter sido trocada por ele?

– Não. Por que eu teria ciúmes do Bruno? Além do mais, ele é gay. Muito gay.

– E mesmo sendo gay, ela te trocou por ele.

– É.

Enfiei um canapé na boca e Pedro ficou me observando mastigar, como se esperasse que fosse dizer algo mais.

– Ouça, eu sei que tem a confiança de uma jovem inconsequente, mas te aviso de antemão que seus planos de aposentadoria precoce não irão para frente. Quem você acha que é mais importante para a Valquíria; você ou a Hélène? Nós dois sabemos que a vovó da Val não irá durar muito tempo. Ou Val irá terminar com você para atender ao último desejo de sua avó ou vai terminar por não suportar o remoço que irá sentir quando Hélène partir. Pense bem. Valquíria sempre deu mais ouvido a sua avó que a própria mãe. Ela sempre fez tudo que Hélène lhe pediu a vida toda e não será agora, em seus últimos anos, que irá fazer diferente. Vai querer mesmo carregar essa culpa em suas costas?

– Era isso que tinha a me dizer?

Pedro respirou fundo. – Bem, na verdade eu vim te avisar que Hélène está planejando o meu noivado com a Val no dia 29. Eu vou a pedir em casamento, na frente de toda família e amigos. E principalmente, na frente da avó. Nós dois sabemos que a Valquíria não irá dizer não na frente de Hélène. Apesar de querer que você suma do meu caminho, achei justo te avisar para não ser pega de surpresa. Talvez até decida ficar em casa para evitar assistir.

– Vocês dois vivem no mundo da lua ou algo assim? Acham mesmo que esse plano irá dar certo? Já considerou a possibilidade de a Val simplesmente dizer “não”?

– Ela tem as limitações dela que a fará concordar com o casamento se for pressionada.

– Limitação mesmo é a sua capacidade cognitiva, Pedro Henrique. Sinceramente, acho que nem você ou a Hélène conhecem a Val de verdade. Só isso justifica essas suas ideias de gerico que tem.

– Quando a Valquíria terminar com você, pode me procurar. Eu ferrei a vida do seu pai e não serei filho da puta para te deixar desamparada.

O Luís não é… quer saber foda-se.

Pedro citou o que ocorreu para me desestabilizar, mas eu não lhe daria esse crédito.

– Relaxa, eu não preciso do seu amparo. Eu tenho meu emprego e meu apartamento, não preciso da sua ajuda. Também não é como se você tivesse algo para oferecer. Apesar de “não ter sido abandonado”, o acesso aos bens foi revogado. Que peninha, né.

– Logo o seu também será.

– Eu não poderia me importar menos. Estou pouco me fodendo para o dinheiro e os bens da minha namorada. Não sou você… agora se me dá licença, tenho mais que fazer que ficar alugando meu ouvido para ti.

Dessa vez até eu fui obrigada a pegar uma taça de champagne da bandeja do garçom que estava passando por perto. Era só o que me faltava, ter que ouvir o Pedro. O Pedro.

Ao som de Me Emborrachare, Bruno e Valquíria dançavam na pista com certa empolgação e gingado. De certa forma era compreensível os ciúmes do Pedro Henrique, qualquer um que visse os dois entregando a alma nos passos poderia achar que eram um casal. E por conhecer os dois, eu achava graça e aplaudia.

– Sabe uma coisa que eu odeio quando a festa é a na sua casa? É que não dá para ir embora para fugir dela, – Fernando comentou.

– Mas lá em cima nem dá para ouvir muito o barulho, dá para dormir.

– Com minhas duas meninas na festa? Eu vou ficar.

– Ué, mas a Margot já foi deitar. E a Val está com a gente.

Fernando riu e me abraçou de lado. – Eu estou falando de você e daquela bêbada ali. Eu não vou largar as duas aqui com aquele cara por perto. Os seguranças podem até proteger vocês, mas ninguém irá proteger o Pedro de mim. E eu já estou velho para a minha esposa ter que me livrar da polícia.

– Ah… eu sou uma das suas meninas agora.

– Ainda não sabia? – Ele riu. – Só não vou dizer que é a favorita, porque o Chloée é mais fofo que as duas.

Ao invés de ficar feliz, me senti… estranha.  

Para quem sempre se envolveu com mulheres casadas ou não assumidas, ter algum relacionamento com os sogros era um sonho distante. Eles nunca me conheceram como a namorada, apenas uma amiga qualquer. Essa era a primeira vez que nunca precisei mentir sobre o meu status… e também a primeira vez que esse status me preocupava.

Descobrir que o Pedro era uma peça descartável no jogo da Hélène me deu uma pequena felicidade genuína. Eu realmente acreditei que aquela velha gostasse mesmo dele. Porém, a percepção de que eu não sou nada muito diferente dele dava um gosto ruim na garganta que nem mesmo o champagne era capaz de disfarçar.

É nítido que os interesses da Val e a sua avó são bem diferentes. Enquanto uma busca aprovação, a outra tem sede de poder. E por que uma pessoa quer tanto poder está fora da minha capacidade de compreensão.

– Preciso de água, – eu disse.

– Tudo bem, vai lá.

O champagne é bom, mas não é para mim. Bebi toda a taça e foi o suficiente.

Aproveitei para pegar um copo extra para a minha bêbada. Acho que depois de tanto dançar com o Bruno, o álcool deve ter decido um pouco, mas água nunca é demais. Aliás, você já se hidratou hoje? Beba água!

– Clarice.

Me virei lentamente ainda bebendo minha aguinha. Val estava vindo em minha direção. O cabelo recém jogado para trás desgrenhados, um pouco suada e ofegante. No momento não era a mais arrumada das mulheres que estavam na festa, mas definitivamente ainda era mais bela delas.

– Ma vie, o que está fazendo aí?

– Bebendo água. Aqui ó, para você. Beba. E não reclama. Ou vai ficar de castigo.

Val bebeu um gole generoso e sorriu. – Vai me bater, é?

– Não, – a encarei desconfiada. – Não acho que isso seria castigo para você… sua sem vergonha. Seu castigo é a castidade. Uma semana sem transar.

– E ainda tem coragem de dizer que eu sou cruel, – ela balançou a cabeça em negação e virou sua água como se fosse vinho. – Feliz?

– Não, beba mais esse e aí eu vou ficar feliz de verdade, – Val revirou os olhos, mas bebeu tudo. – Muito bem! Boa menina. Será que agora descobri o segredo para te obrigar a fazer o que quero?

– Nem ouse, Clarice. Ou o seu castigo será me ver gozar a noite toda sem parar enquanto fica chupando dedo sem poder chegar lá uma única vez.

Assim, sem se preocupar em falar baixo ou sussurrar perto do meu ouvido. Valquíria simplesmente lança uma baixaria dessas e eu que lute se alguém nos ouvir.

– Valkyrie, em nome de Jesus. Se comporta.

– Dança comigo?

– Nem pensar. Eu não sei dançar.

– Não minta. Você já dançou comigo antes. E pense pelo lado positivo, na pista a música está mais alta e ninguém irá ouvir se eu falar alguma besteira.

Algo me dizia que se não concordasse em dançar agora, iria conhecer o lado mais pervertido possível da minha namorada. Essa mulher alcoolizada não tem limites.

– Uma música.

– Deux.

– Nada de duas, uma.

Ela me puxou para a pista e eu não tive escolha.

– Eu não sei dançar bachata.

– Não tem segredo, mon amour. Só me acompanhar, vem. Sete, oito… um, dois, três e ponta. De novo.

Começamos no passinho devagar e aos poucos Val me fez dar giros simples e ir complicando os movimentos à medida que pegava confiança e o ritmo da coisa. Não que eu seja uma pata dançando. Eu sei dançar alguma coisa, mas nada comparado a Bruno e Valquíria dançando como se fosse bailarinos de banda latina.

Nós duas dançando não era atração como os nossos bailarinos juntos. Em outras palavras, não tinha motivos para ficarem nos olhando, mas estavam.

O desconforto de estar sendo observada e observada com julgo me fez perder a diversão de estar dançando com a minha namorada. Não éramos as únicas lésbicas da festa, eu vi algumas mulheres que sem sombra de dúvidas eram casais. O problema conosco era outro.

Por ter notado os olhares, eu desviei o rosto no momento em que Val tentou me dar um beijo na frente de todos. Talvez ela só estivesse bêbada demais para perceber, mas eu estava sóbria e não faria isso. Não aqui, não na frente de todos.

– Chega de dança por hoje, – eu disse. – Você já conseguiu muito mais que duas músicas.

– Não seja estraga prazeres, mon amour – Val me fez girar e ficar de costas para ela, mantendo nossos corpos colados. – Fica mais um pouco?

Val deu um beijo demorado em meu ombro nada discreto para nossa plateia indesejada.

 – Estou cansada, – menti. – Eu vou subir e tomar um banho para deitar.

– Sem mim?!

– Você não vai subir agora, vai?

– Sabe, eu poderia ficar mais algumas horas aqui. Mas o seu Fernando não irá dormir enquanto eu estiver aqui e ele já está morrendo de sono… – Val aproximou da minha orelha, – e eu tenho planos melhores para nós…

Antecipei o próximo movimento de Val e antes que ela o fizesse, eu me afastei. Morder a orelha na frente dessa gente toda, está doida? Nem pensar!

– Então vamos?

– Hm… okay, d’accord.

Por fim, fomos todos de volta para casa e ainda houve uma pequena pausa na cozinha para comer um pouco mais. Eu não estava mais com fome, só fiquei ali porque sabia que se fosse para o quarto a Val viria atrás e essa mulher precisava ingerir algo além de álcool.

– O jantar com a grand-mère foi um saco, mas até que o final da festa foi interessante – Val comentou se sentando na cama para tirar os sapatos. Eu me sentei na poltrona para fazer o mesmo. 

– Você e o Bruno dançam bem. Pareceu até ensaiado.

– O Dito Cujo era professor de dança. Eu meio que fui obrigada a fazer aulas para ficar de velas para os dois.

– Ah… entendi.

Val encarou em silêncio por um instante. – O que há de errado com você? Por que está agindo tão estranha? Aconteceu alguma coisa?

– Está tudo bem.

– Clarice… não minta para mim.

Suspirei derrotada. – É que… eu estou preocupada.

– Preocupada? Com o que?

– Com você.

– Comigo? Por que?

Como explicar isso? Não posso simplesmente dizer “então, sua avó está querendo casar você com o traste porque estão duvidando da sua capacidade por ter autismo. E eles acham que o seu envolvimento comigo é uma confusão da sua cabeça. E o noivo da sua prima(?) queria ir para cama com você no lugar. E eu estou com medo que se arrependa da sua decisão no futuro. Ah, e o seu primo está espalhando segredos seus por aí.”

– Por causa da sua avó…

– De novo, ma vie? – Val me interrompeu. – Eu já disse que o que ela quer de mim ultrapassou de todos os limites. Eu não pretendo abrir mão de você para atender ao pedido dela.

– E se ela morrer?

Val fez uma careta. – Todo mundo vai morrer um dia.

– Você não vai se arrepender?

– Me arrepender?

– É, se arrepender de não ter dado ouvidos a ela. Você diz agora que está tudo bem, que ela nunca estará contente ou satisfeita e por isso não vai fazer nada, mas você passou a vida toda tentando… você se importa com a opinião dela. E vai ficar tudo bem se ela falecer e saber todo o seu esforço foi em vão por que a última coisa que te pediu você se recusou?

– Não há nada que eu possa fazer… a decepção é inevitável.

– Está mesmo certa disso?

Val se sentou de lado na cama para me ver melhor. – Onde quer chegar com essa conversa, Clarice? Está me deixando nervosa.

– É que…

Eu não tive coragem de dizer o que iria dizer olhando para a Val e fui obrigada a desviar o olhar para os meus pés ou qualquer outro lugar que não fosse ela.

– Nós duas sabemos que a Hélène não irá durar muito tempo, – eu continuei. – E nós ainda temos todo o tempo do mundo. Eu não quero que tenha que escolher entre sua avó ou eu. Ela é a sua avó, essa não é uma escolha justa. Talvez você só devesse fazer o que ela quer enquanto ainda está entre nós… não é como se ela tivesse pedindo para ser fiel ou que fique com o Pedro Henrique para sempre.

– É impressão minha ou está tentando virar a minha amante?

– Não seria a primeira vez que estaria num relacionamento assim… – Dei ombros, – e desse jeito não se sentirá culpada no futuro. Vai ser estranho não estar ao seu lado o tempo todo…, mas se esse é o jeito para um dia te ter por inteiro no futuro, eu estou disposta esperar até que esteja pronta para mim. 

O silêncio de Val atraiu a minha atenção.

Eu jurava que estava me tornando a pessoa que melhor sabia ler a sua linguagem corporal, mas descobri que não conhecia todas as suas expressões. E não fazia ideia do que estava pensando, mas uma coisa eu sabia: nós não estávamos pensando a mesma coisa, sequer estávamos na mesma página.

– O que está dizendo é que…

– Acho que devemos dar um tempo.

«-»

Gostou? Não esqueça de comentar! Até a próxima…
Au revoir!

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2 Comentários

  • melimaiabf

    oiiiie
    libera o proximo capitulo por favorrrrrr!!!!
    to muito ansiosaaaaa!!!
    essa e a melhor coisa que eu ja li e serio você ta de parabéns

  • melimaiabf

    oiiiie
    libera o proximo capitulo por favorrrrrr!!!!
    to muito ansiosaaaaa!!!

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