« V A L K Y R I E »
Clarice dormiu era exatamente 04:42 da madrugada. Eu sei porque foi o exato momento em que ela ressonou contra o meu peito em um sono profundo. Considerando que já era tarde para dormir e que ainda tinha resquícios do benzodiazepínico no organismo, esperava que fosse dormir por horas, pelo menos até o período da tarde. Tempo o suficiente para eu me preparar para o interrogatório que sentia se aproximar de mim.
Estou muito grata por Maris ter salvo a minha pequena. Sinto arrepios e dor no peito apenas em pensar em todo pesadelo e terror que poderíamos ter vivido se ela não estivesse por lá naquele momento. Mas a Maristela sendo Maristela acabou me colocando em uma saia justa que eu ainda não estava pronta para lidar.
Como vou explicar para a Clarice a respeito do teste de DNA? Ela não ser filha do Luís é um grande alívio. Uma excelente notícia, agora eu ter feito isso em segredo… não me parece que ela irá ficar muito contente e eu não estou em condições de lidar com a minha namorada me odiando.
Na época que decidi agir pelas costas da Clara eu sequer me lembrei do que ocorreu entre a Karina e a Maristela. Se tivesse me lembrado, certamente teria dado um passo para trás e desistido da ideia. São assuntos diferentes e com gravidades diferentes, mas às vezes querer proteger demais seu pequeno pode acabar o machucando na mesma proporção.
E eu nem falei com a Larissa a respeito… talvez eu devesse falar com as duas. Ou seria melhor conversar com a Clara em particular primeiro?
Sinceramente eu acho que seria mais fácil fazer isso na França, de preferencia com o meu pai por perto. Ele é o tipo de cara que sabe tratar de assuntos delicados e tirar o curativo de uma vez sem que doa tanto.
Para variar, enquanto deveria estar me preparando para essa conversa delicada, minha mente não conseguia se desligar do que aconteceu essa noite. Me sinto culpada por não ter garantido a segurança da minha pequena. Eu deveria estar um, dois, três, quatro passos a frente em qualquer situação e não contar com a sorte como foi dessa vez. Desde o curso de extensão em Franco da Rocha eu deveria ter colocado esses colegas de faculdade na lista de desconfiança. Eles não são bons amigos e não pensam duas vezes antes de deixarem Clarice na mão.
Infelizmente, nos dias atuais, uma mulher não deve ir a eventos como esses sozinha, especialmente se pretende consumir bebida alcóolica. Se com seus amigos de confiança já corremos riscos, imagine sem eles? Tenho certeza que se a Clara tivesse com qualquer um dos outros amigos, ela teria ficado perto deles para evitar o tal desgraçado do Rafael.
Tentei me desviar dos pensamentos para conseguir concentrar na comida que estava fazendo. Ainda era cedo para almoço, principalmente para Clarice acordar, mas eu precisava de algo para ocupar a minha mente. Ao menos cozinhando estaria fazendo algo útil.
– Que cheiro bom! O que você está fazendo?!
Quase cortei o meu dedo junto com o tomate com o susto que levei. Quando foi que Clarice surgiu na cozinha? Por que ela já está acordada essa hora?!
– Sanduiche de atum para o café da manhã e carne de panela para o almoço mais tarde. Por que já está de pé?
– Eu acordei, você não estava na cama e estava com cheiro de comida boa. Estou com fome, – Clarice me abraçou, ignorando completamente o fato de eu estar com uma faca na mão e em processo de corte de tomates. – Além do mais, é um absurdo levantar da cama antes de eu ter acesso aos meus Valquírios. Eu respeito seus rituais diários, você não respeitou o meu.
Respirei fundo para não responder a minha namorada.
Essa garotinha já está ficando muito folgadinha em relação aos meus peitos.
– Pardon, ma vie – respondi em tom irônico. – Da próxima vez que for levantar, eu te acordo antes.
– Exatamente. Para dar atenção aos meus tetês, pode me acordar a qualquer momento, eu não ligo.
– Alors, d’accord… agora me solta para eu terminar aqui, por favor.
– Você já me amou mais.
– Está com fome agora? Posso colocar os sanduiches no forno?
– Pode, né. Já vi que outras coisas não vai me dar, – ela revirou os olhos e cruzou os braços. Acho que está andando demais comigo.
A revolta de Clarice passou rápido, logo em seguida ela foi montar a mesa para tomarmos café. Nós comemos o sanduíche de atum com queijo e tomate cereja e em seguida a minha draguinha devorou a salada de frutas que lhe ofereci. Sou incapaz de seguir o ritmo do meu amor no quesito alimentação, mas gosto de a observar comendo. Ela não percebe, no entanto, toda vez que come algo que gosta ou que esteja muita gostoso, faz pequenas dancinhas e comemorações. É muito fofo e eu me apaixono todas as vezes.
– E então… que horas vai me contar o segredo que esconde? – Clara perguntou repentinamente me fazendo engasgar com meu chá de camomila.
– O que te faz pensar que eu guarde um segredo de você?
– Amor, você está muito suspeita. Eu conheço você… se não tivesse um, não teria engasgado. Ou se assustado na cozinha.
Ela me chamou de amor… ainda não me acostumei com isso. E me odeio por ser incapaz de me importar com todo o resto da sua fala quando a única coisa que reparei foi no seu “amor”.
– E aí? … eu quero saber, – Clara chamou a minha atenção. – Não vá se perder aí dentro dos seus pensamentos. Eu quero saber a verdade. Você está me escondendo algo e eu consigo ver em seu rosto.
– Desde quando passou a me conhecer tão bem?
– Meu passatempo favorito desde que te conheci é te observar. Você é tão linda que querer te olhar é natural, e conhecer cada um dos seus jeitos e trejeitos foi consequência disso. Minha meta de vida é ser a maior conhecedora de Valkyrie, até mais que o Bruno.
– Você definitivamente já conhece muito mais coisas que ele…
Clarice ficou vermelha entendendo ao que me referia. – Será que a gente pode ir direto ao ponto? Não tente me enrolar. Até ontem eu achava que não havia segredos entre nós e quero voltar a esse estágio… é sério, amor.
Um sentimento de remorso subiu a garganta.
Considerando as nossas idades, não deveria ser eu a pessoa levar esse leve puxão de orelha, mas cá estávamos nós em uma situação que não sei como irá acabar. Por mais que eu não quisesse lidar com esse assunto dessa forma, sabia que seria incapaz de carregar essa incerteza nos ombros sem colapsar. Idade pode não me impedir de fazer, no entanto, havia me ensinado muito bem meus limites.
– Tem certeza que está bem para termos essa conversa agora? Você teve uma noite agitada, não quero colocar mais uma coisa sobre essa pilha e acabar sendo demais para lidar.
Clarice parou de mastigar sua banana para me encarar desconfiada. – É tão sério assim?
– Ao meu ver…
– É sobre nós? – Ela perguntou preocupada. – Eu aguento qualquer coisa que não seja você dizendo algo que irá dar um fim em nós.
– Não é sobre nós, meu amor. É sobre a sua família, ou melhor, aquela corja de cobras que considerava família. Especialmente o Luís.
– Ah, meu deus. Não vai me dizer que ele foi solto!
– Só por cima do meu cadáver. Aquele homem não irá ficar um dia a menos na prisão.
– Então se ele não foi solto, o que mais de ruim ele pode ter feito? Eu não consigo imaginar.
– Ele não é o seu pai. – eu fui direto ao ponto. Não sabia outra forma mais “suave” para dizer isso. Palavras não são bem o meu ponto mais forte.
– Eu sei… aquele homem nunca foi um pai de verdade. Qual é o segredo por trás disso?
– Biológico, – acrescentei. – O Luís não é o seu pai biológico.
Clarice ficou imóvel sem reação por um momento. A conhecendo bem, acho que esperava que eu fosse dizer que era brincadeira ou uma piada. Mas ao perceber que falava sério, ela respirou fundo e balbuciou algumas palavras desconexas.
– Isso é real?
– Oui, ma vie. Nós suspeitamos dessa possibilidade e decidimos investigar. E esse foi o meu erro… eu fui atrás de respostas sem o seu consentimento. Achei que não valeria a pena tocar nesse assunto com você se não fosse algo real, só que o resultado do exame veio e as suspeitas se tornaram reais: o Luís não é o seu pai biológico.
– E como descobriram isso?
– Exame de DNA… você fez um no dia que foi ao hospital na consulta de retorno.
Clarice mais uma vez ficou em silêncio processando e a sua falta de reação estava me deixando agoniada. Não era como se estivesse feliz com a descoberta ou brava, sua reação era totalmente neutra e sua neutralidade é um caso sério. Se estava realmente tudo bem ou se estava reprimindo tudo até surtar, era sempre uma incógnita.
– Você não vai dizer nada?
– Tem tantas perguntas passando na minha cabeça que eu nem sei por onde começar. Eu sei que as falas do Luís no julgamento foram estranhas e até suspeitas, mas se eu fiz o DNA antes disso… o que fez levar a essa suspeita? Eu não consigo entender.
– Eu achava que sua mãe era apenas mais umas das artistas que minha mãe tinha interesse, mas pelo visto eram muito mais amigas que isso. Então, no primeiro julgamento que você não estava presente, minha mãe viu o Luís e disse que tinha quase certeza que ele não era o homem que a sua mãe estava na época que engravidou ou algo assim.
– E se o Luís não é o meu pai, quem é então?
– Eu não sei, mon amour. Eu posso ter feito o DNA pelas suas costas e eu sinto muito por isso, mas eu jamais iria atrás disso sem saber se é algo que realmente queira.
– Eu não sei… eu não sei o que sentir com essa informação. Parte de mim está aliviada por saber que o Luís não é meu pai e ao mesmo tempo revoltada que eu vivi um inferno com esse homem justamente por achar que fosse. E eu estou tentando não levar esse sentimento para a minha mãe, mas é difícil não pensar que ela poderia ter deixado isso em algum lugar ou sei lá, falar para os meus avôs.
– Me parece que o Luís também sabia, então não era bem um segredo para todo mundo… e bem, ele queimou os pertences da sua mãe. Nunca saberemos se nesse meio havia alguma coisa que revelasse isso. É difícil dizer. Talvez encontrando o seu pai biológico podemos descobrir o outro lado da história, mas acho que isso será um pouco mais difícil.
– A sua mãe não sabe?
– Me parece que o contato que ela teve com ele foi pouco ou nulo. Pelo que entendi, ele apareceu bem na época que a minha mãe conheceu o meu pai e deu o golpe da barriga nele.
– Sua mãe deu golpe da barriga no seu pai?!
– Ela diz que não, eu tenho certeza que sim. Não tinha engravidado até aquela idade, para engravidar de um homem que relacionou uma ou duas vezes? Aposto que ela nunca tinha sido rejeitada até conhecer o meu pai e sabia que o único jeito de o segurar seria fazendo um filho. E se não fosse por mim, os dois não teriam ficado juntos.
– Seu pai rejeitou a sua mãe? Não acredito. Ele parece ser totalmente louco pela sua mãe. Só não é mais louco que eu sou por você.
– E você também me rejeitou… os relacionamento dos dois tinham outras questões envolvidas, como o fato da minha avó jamais aceitar meu pai com uma mulher branca e pior francesa. Mas enfim… porque a minha mãe estava muito concentrada em seu próprio relacionamento e futuro, acabou não acompanhando muito bem o envolvimento da sua mãe com o seu suposto pai.
– Mas eu nasci onze anos depois de você e até onde eu sei, minha mãe só se casou com o Luís e eles já estavam juntos antes de eu nascer. Isso eu tenho certeza porque eu já vi foto dos dois. E quando a minha mãe era viva, o Luís era decente e definitivamente era apaixonado por ela… isso quer dizer que a minha mãe traiu o Luís?
– Não estou aqui para julgar, mas… talvez? Isso explicaria muita coisa. Especialmente o comportamento do Luís depois que ela morreu. Se ele a amava, não faria sentido querer apagar sua memória. Para mim isso me parece outra coisa. Vai ver ele descobriu a traição e se revoltou… e nessa história toda, direcionou a raiva que sentia em você. Não que você fosse idêntica a sua mãe, mas os traços são os mesmos. Só faltou os cabelos ruivos.
Clarice me olhou surpresa e ao mesmo tempo confusa. – Você já viu fotos da minha mãe? Eu já procurei em todos os lugares possíveis e até na internet o que encontrei era muito limitado e antigo.
– Ah… sobre isso… eu fiquei de trazer a foto que a minha mãe encontrou no Château de Épernay, mas na correria de vir para cá às pressas acabei esquecendo em Paris.
Para a minha surpresa, saber da existência dessa foto atingiu muito mais Clarice que descobrir o resultado do teste de DNA. Era difícil dizer ao certo o que estava pensando, mas seus olhos começaram a encher de lágrimas e esse foi o momento que achei melhor continuarmos essa conversar em outro lugar.
– Viens avec maman, mon amour. Allons sur le canapé. (Vem com a maman, meu amor. Vamos para o sofá) – eu disse me levantando e oferecendo a mão para que me acompanhasse.
Clarice sequer olhou para mim, apenas aceitou a minha mão e me acompanhou até o sofá da sala onde nos sentamos e eu a trouxe para o meu colo em um abraço apertado. Pronta para caso quisesse escorregar e precisasse do mais perto que poderia ter da sua mãe agora. Não que eu fosse capaz de substituir esse lugar no coração da Clara – e definitivamente não era o que queria. Eu amo ser a sua maman, mas qualquer coisa diferente disso era um “não” bem negativo. São tipos de amores diferentes…, mas que eu poderia pelo menos oferecer um colo e conforto(?).
– Eu posso pedir para que enviem uma foto da foto se quiser ver ainda hoje, – comentei quebrando o silêncio. – E acredito que a essa altura, minha mãe já tenha encontrado as outras fotos que acredita ter guardado, mas se não tiver achado ainda, podemos passar um dia inteiro revirando as coisas até encontrar.
– Eu prefiro esperar…, eu esperei até agora, alguns dias a mais não irá me matar.
– Se é o que você quer, então eu respeitarei.
– Você realmente acha que eu me pareço com ela?
– Especialmente quando está sob a luz natural e seus olhos estão tão verdes que parecem cristalinos. É quase uma versão loira dela.
Clarice deu um sorriso meio tristonho. – Eu sempre quis ter o cabelo da minha mãe… era tão mais legal e lindo.
– Sem dúvidas ficaria muito linda, mas eu gosto das suas madeixas loiras e provavelmente iria sofrer para a me acostumar.
– Isso é uma indireta para não mudar meu cabelo? – Ela deu uma pequena risadinha e isso me fez sentir um pouco aliviada.
– Não sou um tipo de pessoa que lida muito bem com mudanças tão fácil, ainda mais se for algo repentino e drástico. Se decidir que é algo que queira fazer, por favor, me deixe preparar psicologicamente.
– Acho melhor continuar sendo loira… não é tão legal, mas pelo menos já tem o “selo de aprovação Valkyrie Touchon”. E a ideia de ficar retocando no salão me dá preguiça.
Senti um alívio interno ao ouvir isso. Não tenho dúvidas que a minha namorada ficaria linda com qualquer tipo de cabelo, mas o desgaste mental que seria me adaptar a essa mudança… eu já estou lidando com problemas demais. A própria Clarice não nos dá um único capítulo de paz. Não é o momento de ficar ruiva, talvez no futuro.
– Você também vai me deixar ver as suas fotos? – Clara perguntou repentinamente. – Aposto que era a bebê mais linda desse mundo. Eu preciso ver isso.
– Meu pai vai adorar te mostrar os registros fotográficos de todos os dias da minha infância. Na época nem existia câmera digital e devo ter milhares de fotos, imagina se existisse.
– Se tivesse dito que eu poderia ver fotos da minha mãe e as suas lá no início, eu teria ficado empolgada com a viagem antes… eu só fico triste pelo Chlô… eu não queria ter que deixar ele por tanto tempo. Tenho medo que se esqueça de nós.
Fiz uma careta confusa. – Por que nós o deixaríamos? O Chloée irá conosco. As roupas de inverno dele até já chegaram… algumas, as outras mandei fazer por lá. Ele vai ficar tão fofinho.
– Você mandou fazer roupas de inverno para o cachorro?
– Oui… o Chloée dorme enrolado na coberta com o tempo frio daqui. O coitadinho iria sofrer…
Clara me beijou interrompendo a minha fala e eu fiquei sem entender. Por que isso de repente?!
– Eu amo você, Valkyrie.
– Eu também(?).
– Podemos tirar uma sonequinha? Toda essa conversa drenou minha energia e eu ainda me sinto meio bléh…
– Você está me convidando para cochilar com você ou para te colocar para dormir?
– Um pouco dos dois, – ela sorriu amarelo. – Sua cama é muito grande para ir deitar sozinha e tá meio friozinho, né? Um leitinho quentinho também iria cair muito bem.
– Tenho a impressão de que certo alguém está ficando muito mimada…
Mas isso é problema para a Valkyrie do futuro. A do presente só quer aproveitar o momento de paz e tranquilidade enquanto ele ainda existe. E de fato, mimar muito esse bebê enchendo de amor e carinho.
« C L A R I C E »
Como explicar a magia do leite da maman que está tão pouco tempo na minha vida e já opera milagres divinos?
Quando eu sugerir deitar e dormir, eu realmente precisava de um timing para a minha mente e corpo para processar tudo. E embora o meu amorzinho fosse extremamente fácil para divagar em outros assuntos e me ajudar a distrair, percebi que muito mais que uma distração eu precisava de um descanso.
Deitar na cama e afundar o rosto contra do peitoral da minha Val sentindo sua pele contra a minha é naturalmente relaxante e até então achava que nada fosse superar isso. Porém, depois que descobri a sensação de sugar o seu tetê e sair leitinho quentinho e docinho a minha vida mudou.
O leite de maman era como uma chavinha que desligava o meu cérebro temporariamente e fazia o mundo ao nosso redor desaparecer. Só existia o seu amor. O seu amor no calor dos seus braços, no seu cheirinho tão único, nos seus carinhos delicados, nos seus beijinhos. O seu amor em líquido. Eu reconheço o amor da minha Val nos mínimos detalhes em tudo que faz todos os dias, mas a sua maior prova de amor foi quando decidiu me amamentar e me nutrir desse sentimento todos os dias.
Ainda é muito louco pensar que a mulher que eu amo me ama tanto a ponto de transformar isso em um leite docinho e quentinho. Eu sou a pessoa mais sortuda desse mundo por viver esse amor… e é por isso que eu aceito o fato de ser azarada em todas outras áreas. Qualquer sorte que eu poderia ter na vida, eu gastei ao me tornar o amor da Val.
Eu não sei dizer exatamente que horas dormi, só sei que foi um sono revitalizador. Novamente acordei sozinha na cama; não que eu estivesse surpresa. Além de não dormir muitas horas por dia, a minha mulher é incapaz de ficar na cama sem fazer nada por muito tempo.
Nem precisei procurar pela Val, sabia exatamente onde a encontrar: o escritório. Como alguém conseguia ser tão linda com a sua cara séria e concentrada no trabalho, eu sinceramente não sabia responder, mas a minha mulher conseguia ser não só linda, como também extremamente sexy.
Não estávamos no trabalho, então não me fiz a rogada e fui direto sentar em seu colo para roubar um abraço e sua atenção para mim.
– Ma petite, eu estou trabalhando…
– Hoje é sábado e toda a empresa está de recesso. Até as suas obras estão paradas. Por que ainda está trabalhando?
– Para terminar o que precisa ser feito.
– E o que poderia ser tão urgente que não pode ficar para depois do recesso? Vamos lá, Val. Você precisa parar um pouco… de verdade.
– Não fale como se eu ainda trabalhasse na mesma rotina de antes. Eu melhorei muito.
– Não o suficiente. Eu sinceramente não entendo porque ainda trabalha tanto. Você é arquiteta com mais projetos em andamento e com uma fila de espera tão longa quanto uma gestação. Eu sei que mais projetos significa um salário mais alto, mas você realmente precisa de tantos projetos para se manter? Se fosse início de carreira ou começando a estruturar a sua vida, eu até entenderia.
– Honestamente, eu não tenho o que responder… até pouco tempo atrás o meu trabalho era meu passatempo favorito. É muito satisfatório ver um projeto que criei sair do papel e se tornar algo sólido. E eu sempre gostei dos desafios. Não é um mar de rosas, mas eu gosto.
– Mas não é justo você ser a que mais trabalha e carrega as metas daquele escritório nas costas. Eu só não falo que você deveria ser a chefona da zorra toda porque se fosse, eu ficaria sem atenção e carinho, mas que é o correto e o justo é… você deveria pedir uma promoção.
– Não, eu estou muito bem onde estou atualmente. Mas pensando bem, talvez eu devesse promover você.
– Eu?
– Sim. Uma assistente pessoal me seria bastante útil.
– Ué, e a Letícia já não é a sua secretária?
– Digamos que o trabalho que eu tenho para você seja um pouco mais… pessoal.
– Você é uma pervertida… e o trabalho que está me oferecendo eu já faço de graça.
Me levantei do colo da Val. Eu não iria querer nada com ela enquanto estivesse trabalhando fora do seu horário de expediente. Preciso impor limites nessa mulher.
– Eu vou levar o Chlô para dar uma volta, quando voltar espero não te encontrar aqui ou vou dedurar para a minha sogra.
– Isso é jogo baixo.
– É o único para o meu tamanho, – roubei um beijinho rápido. – Até daqui a pouco, meu amor.
O final de semana passou quase voando. Eu planejei dar uma volta no condomínio com o Chloée e acabou que Val decidiu se juntar e fomos parar em um parque da cidade. Apesar de não estar sol e o céu meio nublado, paramos para tomar um sorvete em uma “gelataria pet friendly” que vendia sorvetes para cachorro. O Chloée adorou e resultou em lindíssimas fotos e vídeos dele. Encerramos a noite oferecendo uma carona para a Laris até o aeroporto.
No domingo, Val foi convidada por colegas da academia para uma partida de vôlei. Eu não tenho condições físicas ou tamanho para jogar, mas me auto convidei para a acompanhar quando vi separar a roupa que usaria para jogar. Nada que eu poderia fazer num domingo de manhã com a Glória seria mais interessante que ver a belíssima raba da minha mulher naquele shortinho.
E por fim, eu passei todo o jogo fazendo diferentes desenhos da minha mulher e desejando ser aquela bola depois de a ver sacando. Também vibrei com os seus pontos, pois eu sou uma bobona apaixonada e totalmente fã do meu amorzinho.
Pós jogo nós fizemos amor. Descobri que ficar mais de uma hora e meia assistindo a minha Val jogar causava efeitos não esperados na minha calcinha e aí já viu.
Em resumo, pela primeira vez que sou capaz de recordar, tivemos um final de semana em que nossos planos saíram como planejados e foi bom. Melhor ainda foi acordar no dia seguinte e perceber que não precisaria levantar da cama. Sem aulas, sem trabalho, sem stress… e pelo visto sem amorzinho também.
– Mô?!
– Je suis là, ma vie. (Eu estou aqui, minha vida) – ela respondeu de dentro do closet.
– O que você está fazendo aí? Ainda é cedo, vem para cama.
– Nós vamos viajar amanhã, Clarice. Sua mala precisa estar pronta.
– A mala que nós fizemos ontem a tarde? – Perguntei confusa. – Eu pensei que precisávamos levar apenas o básico porque as roupas de inverno vamos pegar por lá.
– Eu não estou falando das suas roupas… ao menos não do seu lado grande. São quase doze horas de voo, seria loucura sair daqui sem cogitar que em algum momento irá ficar pequena, ainda mais dentro de um avião.
Deus me livre! A última coisa que eu quero é passar esse vexame em público.
Estar pequena entre as pessoas que estão habituadas e familiarizadas com esse universo é uma coisa, no meio de completo estranhos? Nem pensar!
– Que roupa irá usar? Tem que ser algo prático e fácil para te trocar… meu deus, como vou te trocar?! Que tipo de fralda prefere vestir?
– Nenhuma?
– Nenhuma? Eu sei que você não se sente muito confortável usando em público, mas eu não confio em você o suficiente para manter o controle da sua bexiga, especialmente quando irá passar a maior parte do tempo dormindo. Eu não vou lidar com acidentes dentro do avião e aposto que você também não irá querer.
– Mas, maman…
– Sem “mas”, Clarice. Eu sei que você anda com as asinhas muito abertas nos últimos dias, mas quem está no comando e o controle por aqui sou eu.
Estava bom demais para ser verdade… a Valquíria autoritária que tinha tirada férias estava de volta e voltou com os dois pés na porta.
– Tem as calcinhas absorventes que você nunca experimentou.
– Não.
– Ok. Quer escolher qual chupeta irá levar com você ou prefere levar todas?
– Prefiro não levar nenhuma.
Val saiu do closet e me encarou um pouco séria. – Meu amor, por favor, colabora. Reprimir o seu lado pequeno será muito pior que adaptar a situação para que possa ser você sem problemas ou interferências.
– Eu passei a minha vida toda sem regredir, eu vou aguentar doze horas de viagem tranquilamente.
– Não foi o que o Theodore me disse.
– Ah, o Theo não sabe de nada.
Recebi um olhar repreendedor de dona Valquíria que me fez sorrir amarelo e encolher os ombros.
– Ter negligenciado seu lado pequeno a vida toda não quer dizer saber lidar com ele. E você está desconsiderando o fato do seu contexto atual ser outro. No passado estava cercada de pessoas cruéis e insensíveis, é natural que em um ambiente hostil você se sinta desconfortável para regredir. E essa não é mais a sua realidade. Você não precisa mais ter medo de se deixar escorregar porque sabe que eu vou estar lá para te pegar. Você está acostumada a escorregar quando o sono bate ou sente vontade de mamar.
Trouxe meus joelhos para perto do peito e os abracei desviando o olhar da Val. – Eu vou me controlar.
– Você vai? – Val se sentou ao meu lado e tocou o meu braço. – Vai conseguir ficar doze horas sem os mimos da maman? Sem ser a minha bebê pequenininha?
Engoli o seco.
O que a Val estava fazendo agora era injusto… eu acabei de acordar, meu cérebro ainda estava despertando e todo meu corpo estava na expectativa daquele tetêzinho da manhã. Ela falar assim comigo toda doce e carinhosa era óbvio que iria abalar as minhas estruturas.
– Eu sei que quer colo, mon bébé. Não adianta disfarçar, eu conheço o meu neném – ela abriu os braços me chamando. – Vem, ma petite.
Juro que eu tentei. Tentei muito resistir essa tentação e não cair na sua armadilha, mas nem cinco segundos depois lá estava eu indo deitar a cabeça em seu corpo e me derreter com o seu cafuné.
– A maman só está tentando tornar a sua viagem o mais tranquilo e agradável possível, ma vie. Avião já é horrível por si só para você, nós não temos que tornar ainda pior.
– Mas eu não quero que os outros vejam, – choraminguei.
– Ninguém irá ver nada, mon amour. Eu vou estar ao seu lado e estarei cuidando de você. Essas preocupações são da maman e não suas, d’accord? Você confia na sua maman? – Concordei com a cabeça. – Então deixe esses receios comigo e só se esforce para ser a minha bebê tranquila e calminha.
A maman me encheu de beijinhos e abraçou forte.
Era difícil simplesmente ignorar esse medo atrás da orelha, mas enquanto a maman me envolvia assim ela fazia parecer tão fácil. Não sabia se irá dar certo na hora, mas estava disposta a tentar… pela maman.
A maman deitou um pouco comigo para me dar mamar antes do nosso dia começar oficialmente.
Eu não sabia que tínhamos um dia cheio de compromissos até ser obrigada a me arrumar para sair logo pela manhã.
Tínhamos tantas coisas para fazer que eu nem sabia que estava planejado. Até veterinário tínhamos que ir!
Os planos da maman apenas tornaram os meus planos de buscar o anel mais difíceis, porém o tio Nuno sempre tinha solução para tudo e adaptou a nossa ideia inicial de distração para eu conseguir fugir dela tempo o suficiente sem levantar suspeitas e a maman nem percebeu. Disse que iria comprar algumas coisinhas para comer na viagem enquanto ela resolvia sei lá o que com o Nuno.
Última noite no Brasil foi regada de pizza, vinho – para os que bebem vinho, guaraná geladinho para mim – e muitas risadas. Queria que o Bruno fosse para a França conosco, viajar com ele deve ser a coisa mais engraçada e legal do mundo, mas seus planos eram outros.
– Por mais que eu adore um drama clássico de uma novela das nove ou enredo de novela mexicana, infelizmente, terei que deixar para a próxima. Esse ano prometi passar um tempo com mamãe. Vamos fazer um cruzeiro juntos.
– Que legal! Vocês vão naqueles grandões?!
Bruno fez uma careta. – Não. Esses daí são para pequenos como você. Nós adultos preferimos outras coisas.
– Eu sou adulta.
– Até a segunda página.
Não respondi.
Isso não era algo que deveria me incomodar, mas foi inevitável pensar no que aconteceria se a Val precisasse de alguém ao seu lado que fosse adulto na primeira, segunda, terceira e outras páginas. Será que eu sou o suficiente sendo assim?
Embora isso seja muito sensível da minha parte, é difícil não pensar nisso quando você vê sua namorada o dia inteiro neurótica planejando uma viagem que até uma semana atrás ela fez como se fosse nada, tudo isso porque você vai estar junto. Eu me sinto como um pequeno fardo nas suas costas.
– Você está pronta para conhecer os Touchon, Clari? – Bruno perguntou e eu travei. – Hélène e companhia.
– Eu… sinceramente não pensei muito (?). Os pais da Val são muito legais, então eu meio que… não refleti muito sobre o resto da família.
– Eles definitivamente não são como os meus pais, – Val comentou meio sem graça antes de dar um gole generoso em seu vinho. Dar um “gole generoso” no vinho ou chá é sinal de tensão.
– Pois é, gata. Assim como a Val, a Margot é a “ovelha negra” da família e fora da curva.
– Vai se foder, – Val revirou os olhos.
– E eu menti? Sua mãe está cada vez mais distante do que se espera de uma Touchon e você nunca quis ser, – a resposta da Val veio no olhar. Uma comunicação via bluetooth dos dois que eu não fui capaz de captar. – Eu disse que estava certo. Mas enfim… a experiência é sempre uma aventura, mas não tem muito que se preocupar, Clarice. Eu ainda acho a Margot mais difícil de conquistar e você é a queridinha dela.
– Eu sou?
– Se você não fosse minha namorada, acho que ela te adotaria.
– Eu prefiro ser a nora, – respondi sem pensar muito.
– Wount, que fofa. E vocês pretendem casar quando?
A pergunta pegou a mim e a Val desprevenidas. Nós nunca conversamos sobre casamento. Também não acho que seja um assunto que o meu amor queira falar. O término do seu último noivado não foi algo muito amigável e não sei se isso é um tópico sensível. Quanto a mim, embora eu jurasse que não iria casar tão cedo na minha vida, se a Val disser para irmos hoje, eu iria sem pensar duas vezes.
– Muito cedo para falar disso.
– E desde quando é muito cedo para sapatão? Ai, ai, você é a vergonha para a categoria, – Bruno revirou os olhos.
Antes que eu pudesse dizer algo a respeito do tema, Val mudou de assunto. Talvez o tópico seja mais sensível que imaginava. Mas enfim, o casamento em si é só um rótulo e status que não faria muita diferença em nossas vidas. Teoricamente eu nem moro com a Val e não me lembro a última vez que dormi na “minha casa”.
Quando o Bruno foi embora eu já estava caindo de sono, a única energia que ainda existia em mim era para sugar todo o leite da minha maman e então dormir.
– Eu pensei que iria te encontrar dormindo, – Val comentou ao voltar para o quarto e se juntar a mim na cama.
– E eu ia mimir sem meu tetezinho? Hm-hm.
– Você pensa em outra coisa além de peitos e leite nessa sua cabecinha?
– Em você.
– Sei.
A maman se juntou a mim na cama e eu me aninhei em seus braços. – Ir dormir sem seu carinho parece que o dia está incompleto.
– Ainda bem que nós duas estamos em consenso, – ela me deu um beijo no rosto. – Você não é a única a tirar proveitos aqui.
– É, eu sei…
De alguma forma eu ajudo a minha mulher no seu sono. Não sei dizer exatamente como, mas se está funcionando eu estou feliz.
Enquanto eu mamava, Val me contou os planos do dia seguinte e mais ou menos como seria a programação na França e uma breve introdução sobre sua família. Pelo que disse, era consideravelmente menor que a sua família do Rio de Janeiro e não tinha muitas crianças ou bebês. Se isso era bom ou ruim, eu não sei.
Era difícil dizer o que esperava dessa viagem. Valquíria não se dá muito bem com esse lado da família, logo não espero que eu vá me dar tão bem também. Ainda assim, eu fui criada no meio dos Souza. Se isso não me preparou para a vida, eu não sei o que mais poderia preparar. Não vai ser um bando de europeu rico que vai me assustar.
E pelo amor da Val eu estou bem disposta a aceitar e relevar o que for necessário. Já fui humilhada por muito menos; o que será humilhação por amor? Isso considerando que eu vá entender alguma coisa, né… Se eles não falarem português ou inglês, nossa comunicação irá se resumir a cumprimentos básicos. Meu nível no duolingo não é lá grandes coisas assim.
Seja o que deus quiser…
«-»
Gostou? Não esqueça de comentar! Até a próxima…
Au revoir!
