« C L A R I C E »
Viajar com a Valquíria me fez perceber uma coisa: medo de avião é um problema pequeno quando se tem dinheiro.
Já percebi que até a experiência mais glamourosa que tive enquanto minha mãe era viva não era absolutamente nada perto do que estava acontecendo e Val não parecia se impressionar.
Nada de banco duros por horas, espaço lotado, pessoas grosseiras e impacientes, crianças correndo ou gritando. Existe um outro mundo dentro do mesmo aeroporto e descobrir ele me deixou em choque. E não, não estou falando de salas VIP que você paga sei lá quantas centenas de reais para entrar. Existe algo ainda mais exclusivo que isso e que me chamou de pobre fodida em diferentes línguas por nem sonhar com a sua existência.
Eu me senti estranha naquele ambiente usando moletom quentinho e confortável escolhido pela maman enquanto as pessoas ao nosso redor estavam de roupas formais. A Valquíria estava sendo Valquíria, não tinha muito que dizer. Mas algo me dizia que sua escolha de roupa tinha a ver comigo, ou melhor dizendo, com o meu lado pequeno e ao acesso ao tetê.
Foram três horas me sentindo um peixinho fora d’água e totalmente desconfortável. Três horas que me fizeram refletir no que me aguardava do outro lado desse trajeto e que fizeram a comida descer difícil pela garganta.
– Você está bem, bébé? – Val perguntou preocupada. – Está com uma carinha estranha. Teve algum – ela olhou para os lados discretamente e continuou baixinho, – acidente?
Meu rosto corou de vergonha ao lembrar desse pequeno detalhe.
Nós fizemos um teste durante o dia. Nada de fraldas o dia inteiro. Pequena ou grande, eu deveria me controlar. Pensei que seria fácil, passei a vida toda assim e não seria a presença da maman que iria atrapalhar isso… eu falhei. No meu momento mais distraída – e nem tão regredida assim – eu percebi tarde demais e me molhei toda.
Chorei muito, a Val me abraçou e disse que estava tudo bem, que iria cuidar de mim e acabei ganhando um tetê e uma fralda.
Queria passar por tudo isso usando uma fralda mesmo que fosse de vestir e bem discreta? Não, não queria. Mas era isso ou correr risco de um acidente no avião e não ter o que fazer por horas… a vida já me humilha bastante, eu não preciso dar mais oportunidades para tornar isso pior.
– Não, ma-…
Fiquei com vergonha de usar “maman” em público e alguém ouvir, então parei no meio do caminho.
– Já está quase na hora. Termina de comer para irmos ao banheiro antes.
Acostumada a viajar na classe animal, socada com o máximo de gente possível num espaço pequeno, tendo que lutar pelo encosto para o braço com a pessoa do lado, eu não imaginava que no mesmo avião existia uma realidade onde não havia filas, você é buscado pela cia aérea e existe uma entrada exclusiva para a tal da primeira classe.
Isso. Nada de business. “La Premiere Cabin” era onde estávamos.
Só de pensar no preço de tudo isso estava me dando taquicardia e arritmia. As contas não fechavam na minha cabeça. A Val por ter um Pritzker deve ter o salário mais alto de todos os arquitetos do escritório, existe a comissão e participação de lucros, mas nem jogando os números lá em cima faz sentido ter condições para comprar duas passagens de primeira classe com uma semana de antecedência. Também não acho que o fato de a Margot ser presidente do conselho iria conseguir influenciar no salário da filha. Ou iria?
Que a Val é herdeira, isso eu não tenho dúvidas. Pelo o que ela me disse, ela se mudou para o apartamento quando os pais decidiram voltar para a França. Conhecendo a Margot, isso provavelmente foi um presente. Caro para um baralho? Sim, mas pelos comentários do Bruno e da Gio a família dela é rica. Mas rica a ponto de achar tudo isso normal? Acho que não… ou será que a Val está tentando me “agradar”? Sinceramente, espero que não. Eu ficaria mais contente na classe animal.
Sei lá, eu sabia que seria diferente só pelas três horas de espera, mas isso eu não esperava. Nós tínhamos literalmente dois assentos cada e um deles virava uma cama. Para que eu precisaria da segunda poltrona? Qual a finalidade? Colocar o Chloée? Porque foi exatamente o que eu fiz e o comissário não reclamou, apenas sorriu e acenou. Ninguém fala nada aqui? É permitido tudo?
– Bébé? – Val me chamou. – Tem certeza que está tudo bem?
Balancei a cabeça negativamente. Não poderia mentir dizendo que está tudo bem porque eu sei muito bem que a Val não vai cair nessa, mas também não precisava dizer o real motivo do meu desconforto.
– Vai ficar tudo bem, okay? Não precisa ter medo. Quer vir para cá?
Os nossos assentos eram os dois do meio. As cabines dos cantos eram individuais, então embora tivesse uma divisória ajustável entre nós, era a melhor forma de viajar em conjunto. E o fato de ter cortinas dos dois lados nos permitia ter privacidade, o que me dava certo alívio. Talvez se eu focar nas partes boas e ignorar a parte financeira… como se isso fosse possível sendo o próprio Julius.
– Bébé, – Val pegou a minha mão quando cheguei perto e me puxou para o seu colo. – Eu sei que está com medo, mas vai ficar tudo bem. Quando menos esperar vamos estar chegando lá.
– Eu não sei se quero chegar lá, – eu afundei o rosto contra o pescoço da Val e abracei forte.
– Como assim, ma vie?
– E se a sua família não gostar de mim?
– Se não gostarem problema deles. Meus pais te adoram, para mim isso é o suficiente. O resto não me importa.
– Não importa mesmo?
– Oui, mon bébé… é por isso que está com essa carinha? Não é pelo medo do avião?
– Medo também, mam-…
Nem era para falar disso com a maman, mas escapuliu. Agora ela vai achar que sou bobona. Bobona e chata.
– Eu te amo muito, bébé. Te amo e vou te amar para sempre. Nada e nem ninguém irá mudar isso, está me ouvindo? – Ela me apertou contra o seu corpo e me deu um beijo no topo da cabeça antes de continuar baixinho só para eu ouvir. – Depois do jantar a maman te dá um remedinho e um tetê para você dormir, d’accord? Eu sabia que você iria regredir, mas não esperava que fosse tão rápido.
– Você… você está brava com eu?
– Non, mon bébé. Jamais.
Fiquei no colo da maman até dar a hora do avião sair e ela me levar de volta para o meu lugar e me colocar o cinto. Eu poderia fazer sozinha, mas ela insistiu em “cuidar da sua bebê” e eu não iria negar.
O Chloée ficou mais tranquilo que eu na decolagem. Acho que quase quebrei a mão da maman de tanto que apertei enquanto o avião subia sem parar. Ela pelo menos não reclamou e deu uns beijinhos para me acalmar.
Só fiquei mais calma quando o serviço de bordo começou. Como a cabine da janela estava vazia, os comissários montaram a mesa de jantar para nós ali e por um momento ficou parecendo que estávamos em um restaurante. O papa estava delicioso e comer me deu dois pontos de felicidades.
– Acho fofo como você é facilmente comprada com comida, não é mon bébé? Já está até sorrindo de novo.
– Com comida e leite, maman.
– Oui, le lait…
Olhei para a maman e ela estava corada de vergonha. Ela fica fofinha assim. A minha maman é muito linda!
– Aqui, tome o seu remedinho enquanto ainda tem sobremesa – ela disse mexendo em sua necessaire.
– É ruim?
– É remédio, ma vie – ela pingou as gotinhas na sua colher que não estava usando e me ofereceu, – vamos lá, é só um pouquinho.
A contragosto abri a boca e recebi a colherada de remédio. Ruim, muito ruim o gosto. – Que nojinho! Eca! – Fiz uma careta e tive um pequeno tique no olho de tão horrível o sabor.
– Não seja exagerada, Clarice. Não é tão ruim assim.
– É, ma… é péssimo.
– Bebe um pouco da sua água que passa.
Depois de papar, eu fui no banheiro fazer pipi e escovar os dentinhos. Não queria usar a fralda de vestir. Embora a cabine do banheiro fosse mais espaçosa que esperava, não tinha espaço suficiente para fazer uma troca decente. Iria evitar ao máximo.
Durante o jantar, os comissários haviam preparado nossa cama. O tamanho era ideal para uma única pessoa, mas se ajeitar direitinho cabia a maman e eu graças ao meu tamanho mini. Nunca reclamei dos meus 1,54m!
A maman fechou as cortinas dos dois lados e apagou um dos abajures deixando um climinha mais escurinho e confortável para nós.
– Ainda não está com sono? – Ela perguntou me fazendo carinho no rosto.
– O remédio não tem o mesmo efeito do tetê.
– Estou percebendo isso.
Para caber as duas, eu estava parcialmente em cima da maman, o que não era muito diferente do que já acontecia todas as noites. Era um mistério como íamos dormir com a Val me abraçando e fazendo de apoio entre as pernas e acordávamos comigo praticamente em cima dela.
– Eu posso? – Perguntei colocando a mão sobre o meu tetê.
– Está pedindo permissão? – Ela ergueu o cenho. – Quem é você? O que fizeram com a minha Clarice?
– É que… a gente tá… aqui.
– Ninguém irá abrir a cortina e mesmo se abrir, do jeito que está de baixo da coberta ninguém iria ver. Também não tem ninguém ao nosso lado para ver… e se apagar a luz ficará tudo escuro. Não tem com o que se preocupar, mon bébé.
A maman levantou o seu suéter de lã até dar acesso ao tetê. Estranhei a presença de um sutiã, ela raramente usa um e quando usa geralmente faz parte do seu look.
– Calma, bébé. Não precisa ficar bravinha, – ela soltou a parte da frente do sutiã. – Esta aí, ó. Demorou um segundo.
– Demorou muito!
– Shhh! Para de birra e mama.
Tinha me preparado psicologicamente para ficar doze horas longe dos meus amores, então ser acesso aos meus Valquírios me deixou extremamente feliz e relaxada. Misturado ao remédio então, eu acho que exerci um péssimo desempenho em mamar todo o leite. Acabei cochilando e acordando no meio do processo algumas vezes até dormir de vez.
A minha viagem se resumiu a dormir, acordar, mamar, voltar a dormir, acordar para a refeição – forem três ao total, -, mamar mais um pouco e cochilar. Quando chegou ao fim eu queria que voltasse lá do início outra vez. Poderia viver o resto da minha vida assim e não iria reclamar. Não preciso de mais nada, só peito, soneca e comida. A trindade da perfeição.
– Isso é mesmo necessário? – Perguntei ao ser obrigada a vestir mais uma peça de roupa.
– Oui, ma vie. Não quero que passe frio quando sairmos do avião.
– Mas eu já estou usando uma segunda pele, suéter e casaco. Precisa mesmo desse cachecol enorme e toca? Desse jeito só meus olhos vão ficar descobertos.
– É essa a intenção.
– Eu já estou com calor, maman.
– Deixa só esse avião pousar e as portas abrirem que esse calor irá passar rapidinho. Agora para de reclamar e veste logo isso porque eu estou mandando.
Quis tirar pelo menos o cachecol e a toca, mas pelo o olhar que a maman me lançou sentada da sua poltrona já entendi que se fizesse isso iria levar no bumbum. Até o Chloée recebeu roupinhas, embora fosse menos que eu.
O pouso foi tranquilo e pela primeira vez na vida não estava cercada de pessoas desesperadas para sair, ficando de pé antes da hora ou ansioso para tirar as malas dos compartimentos… um dos motivos de isso não ter acontecido foi o fato de só ter a Val e eu ali.
A porta do avião abriu e realmente a temperatura deu uma pequena caída, nada demais. O real impacto foi assim que coloquei o pé para fora da aeronave. Havia uma pequena fresta entre o avião e o finger, por ali entrou um vento tão, tão, tão gelado que parecia cortar a pouca pele que tinha exposta.
– Friiiiiooo!!! – Reclamei tremendo.
– Eu avisei, ma vie.
– Vo-vo-cê não fa-fa-falou que eu ia conge-ge-ge-lar!
A maman tirou o próprio cachecol que era tão grande que poderia chamar de mini manta e me enrolou nele girando o meu corpo. Não entendi o que ela fez, mas tive a impressão que ficou bonitinho e esquentou mais um pouco.
– E você? Não vai congelar?
– Non, ma vie. Eu já estou acostumada. E lá dentro será mais agradável.
À medida que fomos caminhando para o interior do aeroporto, o clima ficou mais agradável, porém não o suficiente para abandonar minhas roupas quentes.
Todo o processo na imigração foi um saco e Val deixou de ir pela fila do passaporte europeu – entende-se por: quase não ter fila e passar muito mais rápido, – para ficar comigo. Ironicamente, havia um casal hétero na nossa frente e o cara simplesmente foi pela outra fila e deixou a mulher sozinha. Já tinha achado fofo ela ter ficado comigo, depois disso achei muito mais.
– A gente vai pedir um carro no aplicativo ou ir de táxi? – Perguntei, mas não tive resposta. Val estava olhando para todos os lados e não sabia se procurava por algo ou se estava reagindo cada mínimo ruído ao seu redor.
Nós estávamos no caos que era o desembarque do aeroporto de Paris. Era nítido que esse ambiente estava causando desconforto e grande incomodo na minha Val que seus protetores auriculares não estavam sendo totalmente eficientes em a proteger. Ver isso estampado em seu rosto apenas aumentava a minha urgência em nos tirar dali o quanto antes.
– Amor? Você está bem?
– Oui, je… – O anúncio nos autofalantes do aeroporto fez a Val paralisar.
Tentando dar um conforto sonoro aos seus ouvidos, cobri suas orelhas com as mãos e a forcei olhar para mim. Talvez não faça tanta diferença em relação aos ruídos, porém ter sua atenção voltada para mim com certeza daria um descanso a sua mente que estava ligada a tudo ao mesmo tempo.
– Táxi?
Já tinha aprendido a minha lição decorando o “Diário de Protocolos” do meu amor e sabia que a melhor forma de me comunicar agora que ela não estava totalmente bem era com poucas palavras e direto ao ponto. Não que a Val estivesse em crise, mas estava na hora de desacelerar as coisas e reduzir os estímulos para dar tempo ao seu cérebro de processar com mais calma.
– Chauffeur… mon chauffeur.
– Chofer? Você tem um chofer?
Val olhou por cima do meu ombro e eu acompanhei o seu olhar. Vindo em nossa direção, havia um senhor de cabelos grisalhos de terno e gravata e pelo sorriso que nos deu, era algum conhecido da Val.
Tive certeza quando ele nos cumprimentou, porém tive mais certeza ainda que era algum funcionário da família ao reparar no broche que estava usando. Imagine um circulo de prata com um TC ao centro, emoldurado por folhas e galhos de pé de uva e um cacho no topo feito de pedrinhas de diamante, pois é. Um brasão. Que tipo de família tem um brasão?!
– Bienvenue à nouveau, mademoiselle, – ele disse a Val. – J’espère que vous avez fait un bon voyage jusqu’à Paris.
Entendi por alto que estava dando boas vindas e dizendo algo sobre esperar que a nossa viagem até Paris tenha sido boa. Não foi uma tradução palavra por palavra e eu seria incapaz de responder, mas estava orgulhosa do meu desempenho. Falando nisso, não posso esquecer de manter a minha ofensiva.
– Merci (obrigada).
Val se limitou a responder somente uma palavra e um quase-sorriso de meio segundo. A observar quase explodiu a minha mente. A “pobi” do meu amor sempre foi julgada por ser grosseira e arrogante por responder simpática exatamente assim, quando na verdade só estava com a mente sobrecarregada.
Bom, pelo menos o homem não se importou com a resposta curta e direta. O seu sorriso continuou o mesmo e o aparente bom-humor também.
– Você deve ser a Clarice, – ele falou comigo em um português com sotaque nível Erick Jacquin e meu nome com exageros de R, mas que soou fofo. – Eu sou o Pierre. Enchanté.
– Prazer, – sorri meio sem graça.
– On peut y aller, mesdames ?
Isso aí eu não entendi, mas a Val respondeu “oui” e eles começaram a caminhar em direção a saída, logo entendi que estávamos indo embora finalmente.
Se entrar no carro foi um alívio para mim, fico imaginando como deve ter sido para a minha Val. Sério, eu estava morrendo de dózinha, especialmente pelo fato de que ela tirou os protetores algumas vezes durante o voo para conseguir interagir comigo e sem dúvidas ao final isso só acabou piorando tudo. Além do mais, tantas horas seguidas usando isso deve ser desconfortável.
– Está tranquilo agora, benzinho. Tira um pouco isso para relaxar, – mostrei a caixinha dos protetores e ela entendeu o recado retirando-os. – Melhor, né?
O meu amor não me respondeu, tampouco conseguia olhar para mim diretamente por mais que alguns breves segundos. Ela estava se esforçando para manter sua máscara de pessoa neurotípica e claramente não estava lhe fazendo bem. Valquíria sendo Valquíria mais uma vez, pega leve comigo, mas consigo mesma mantém as exigências lá em cima, sem se permitir não estar bem ou minimamente fora do que considera a imagem perfeita.
Quis acolher a minha Val, mas não sabia se a forma em que eu me sentia acolhida seria bem recebida pelo o meu amor nesse momento. Confesso que me sentia estranha em querer abraçar a minha namorada e não saber se podia, mas entender e respeitar nossas diferenças também é amor.
– Posso te tocar? – Perguntei estendendo a mão no ar, mas mantendo certa distância do seu rosto.
Val pegou os meus pulsos, por um momento pensei que fosse rejeitar o carinho, mas para a minha surpresa ela levou minhas mãos até o seu rosto aceitando o toque. Eu me senti tocando o bem mais precioso desse mundo e de certa forma era, ao menos para mim, o meu bem mais preciso.
– Deita aqui, – pedi a puxando gentilmente para deitar a cabeça no meu colo. – Você precisa descansar um pouco.
Soube que a fazer deitar em meu colo foi a melhor coisa a ser feita quando a Val se soltou se permitindo relaxar. A minha namorada era um verdadeiro gato: cara de má e mau humorada, mas se faz um carinho no lugar certo se entrega totalmente… até se cansar.
O Pierre entrou no carro, olhou para nós e sorriu. – On y va (vamos)? – Concordei com a cabeça. – Super (ótimo)!
O trajeto até a cidade durou pouco mais de uma hora e durante todo esse tempo a minha namorada dormiu no meu colo enquanto eu observava a rua. Não tinha como negar, mesmo durante o inverno, Paris era realmente uma cidade muito bonita, muito gelada, mas também muito bonita. Para quem gosta de arquitetura então, irá gostar muito mais.
Nós paramos em uma rua arborizada cercada de edifícios que seguem o estilo da arquitetura Haussmann com fachadas de pedra esculpida, varadas com grades ornamentadas, janelas altas e simétricas, a típica cara parisiense. Para quem não conhece a história de Paris, Haussmann foi o prefeito que meteu o louco e tornou a cidade inteira em um canteiro de obras por vinte anos, mas que se não fosse por isso, também não seria o que é hoje.
Mas assim, não pense que todos os edifícios são históricos e construído no século XIX. Existem os verdadeiros e os que vieram depois. E eu não fazia ideia se o que estávamos prestes a entrar era um deles. Não que isso faça alguma diferença. Eu sinceramente ficaria mais contente em uma construção recente e com uma tecnologia mais moderna.
A arquitetura neoclássica do saguão do prédio me fez sentir entrando em um museu. Certamente se um dos meus professores estivessem aqui, provavelmente iriam fazer uma aula só para falar das molduras e ornamentos esculpidos da parede ou das colunas e os pisos em mármore. E eu que achei que de férias da faculdade não iria pensar nela, mas cá estava eu vendo com meus próprios olhos conteúdo que estudei.
Enquanto as áreas comuns do prédio estavam presas no passado clássico, o apartamento da Val claramente passou por uma reforma dando toque sutil de modernidade sem perder o charme e elegância. Uma tarefa nada fácil, mas que a minha namorada fazia parecer que era.
Eu não queria me prender a isso, mas como estudante de arquitetura eu estava fascinada e empolgadíssima. Aposto que qualquer outra pessoa amante do assunto também ficaria igual a mim nessa situação. O convívio no dia-a-dia com a minha Val me faz esquecer quem ela é, e que representa arquitetura e urbanismo atualmente, aí quando me recordo fico assim “baralho, eu namoro a Valkyrie Touchon!”.
É difícil entender o que a minha namorada viu em mim, eu claramente não estou a sua altura… em todos os aspectos possíveis. Mas eu agradeço aos céus e a todos os deuses por isso todos os dias.
Minha empolgação acabou no momento que lembrei de um detalhe: precisava fazer xixi.
Eu abandonei a fralda no primeiro banheiro que vi assim que saímos do avião e agora precisava agir como gente grande. Por pouco não me distrai o suficiente e comecei minha estadia por aqui do pior jeito possível.
Quando voltei do banheiro, Pierre estava falando um monte de coisa em francês para a Val que estava com uma cara de quem não estava muito afim de ouvir. Muito provavelmente não pelo o que ele dizia, mas por não querer ouvir ninguém.
– Você está com fome, menina Clarice? – O Pierre me perguntou, agora em português. – O chef deixou um delicioso café da manhã pronto para vocês, mas se preferir eu posso solicitar que venha preparar o almoço.
Mandar alguém vir para cá? Com a Val querendo se isolar até de mim? Um café da manhã parece ótimo.
– Não precisa, estamos bem com o que tem aí.
– Oh, oui… sendo assim, eu vou indo. Voltarei às sete para busca-las.
Buscar para onde? Eu quis perguntar, mas ele foi mais rápido em se despedir. Acho que também sabia que seria melhor dar espaço para a Val. O problema é que ele se foi e eu fiquei sem saber o que iria acontecer depois das sete.
Eu fiquei tal qual o gif daquele cara abrindo os braços olhando para um lado e para o outro com uma interrogação estampada na sua cara.
– Preciso de um banho, – Val manifestou se levantando de onde estava sentada. – Você também, – ela pegou em minha mão e me arrastou pelo o apartamento.
“Preciso de um banho juntas”, ela quis dizer. E não, não estou reclamando.
Tomamos banho de chuveiro com direito a shampoo, condicionador e beijos. Ainda era cedo para usar pijamas, mas foi justamente que – pasmem – a minha Val escolheu para nós usarmos. Pijamas combinando… e eu que critiquei o marido da chata crente por escolher roupas combinando para ir para o culto de domingo, agora estou aqui usando pijama que combina com a minha mulher.
Os pijamas não eram iguais. No dia em que eu ver a Valquíria usando um shortinho de pijama acho que será o fim do mundo. Mas tanto a camisola dela e a minha camisa e shortinho tinham os mesmos detalhes. O mesmo bordado que tinha na barra da camisola, tinha na barra e nas mangas da minha camisa. Ambos pretos.
Como estava secando o cabelo longe da Val para não incomodar seus ouvidos, a encontrei na cozinha colocando a mesa com coisas que estavam com uma cara deliciosa.
– Está com fome?
– Se antes não estava, agora estou – me aproximei para dar um beijinho e fuxicar o que ela estava fazendo. – O que está fazendo aí?
– Nada demais, cortando queijo. Sua comida já está na mesa. Gosta de croissant?
– Acho que dificilmente vai ter algo que eu não goste.
– Comida saudável.
– Retiro o que eu disse.
Uma das coisas que eu gostei do apartamento, era o fato de ter uma mesa pequena na cozinha. A cozinha em si não era tão grande quanto o apartamento do Brasil. Ela tinha um tamanho adequado e funcional, mas que ficar parado no caminho iria atrapalhar. Para mim, o fato de ser menor dava a sensação de ser mais aconchegante e de não estar sozinha ou distante.
– O que você quer beber?
– Tem leite?
– Tem. Quer que esquente um pouco?
– Uai, e já não vem na temperatura certo?
– Não, estava na gelade… oh, oui… ce lait (esse leite). Non, não tem esse leite. Você vai beber chá comigo, – ela colocou uma xícara a minha frente sobre a mesa e serviu o chá. – Vanilla Bourbon. É melhor não reclamar.
– Oui, mon amour.
Val se sentou ao meu lado na mesa trazendo consigo o seu prato que poderia ser facilmente algo servido em restaurante com 3 estrelas Michelin de tão bem montado, mas eu não comeria.
– Você realmente ama muito queijo, não é meu amor?
– Oh, oui. Quer provar? É camembert.
– Não… esse não.
– Gouda? Esse você vai gostar.
Ela me ofereceu um cubinho na boca e eu aceitei. É, a Val tinha razão. Gouda era bom.
– Eu gostei.
– Quer mais?
– Sim.
No final da nossa refeição eu acho que a Val se arrependeu de me apresentar as maravilhas que eram alguns dos queijos que comia. Vou confessar que só entendia de queijo muçarela e queijo Minas, às vezes o tal cheddar dos fast-food, mas nunca me interessei em comer algo diferente. Nem vendo a Val se alimentando tal qual um ratinho todos os dias.
Gouda é bom. Provolone é bom. Maasdam é bom também… gorgonzola, brie e camembert eu não tive coragem de experimentar.
– O Pierre disse que voltaria às 19h para nos buscar. Onde a gente vai essa noite?
Val bebeu o chá fazendo uma careta desagradável. – Loucuras da minha avó. Ela quer porque quer que eu vá para lá essa noite.
– E você não quer?
– Minha cabeça dói, eu estou cansada. Ainda preciso de um tempo para me recuperar da viagem. Eu definitivamente não quero ir.
– E por que está indo de mesmo jeito? Sua avó sabe que você tem autismo, por que não fala com ela que precisa de um tempo e não se sente bem e confortável para ir lá hoje?
– Falar isso para a minha avó será ainda pior… ela não irá aceitar e ainda irá infernizar a vida da minha mãe e a minha se eu não aparecer.
Eu lembro que há muito tempo, provavelmente nas primeiras conversas que tivemos, a Val comentou algo sobre sua avó ser complicada e um dos principais motivos por querer viver no Brasil só para estar distante. Eu só não esperava que fosse tão complicada ao ponto de a Val querer ir ao tal jantar mesmo se sentindo mal só para ter “paz” ou não poder falar como se sente de fato porque a velha “não irá aceitar”.
Já estou sentindo que eu também não vou me dar bem com ela.
– Eu não quero que vá, – a Val revelou a verdade e pela sua voz, sua expressão e como evitava olhar para mim, sabia que não estava sendo fácil para ela me dizer isso. – Eu não quero te deixar sozinha, mas também não quero que tenha que lidar com a Hélène logo no primeiro dia.
– Por que?
– Porque nós acabamos de chegar, ainda é o primeiro dia e é muito cedo para já querer voltar.
– Para isso acontecer, a sua avó tem que ser pior que a Lúcia.
Val me olhou brava, não pela comparação, mas por citar o nome dessa mulher. Algo me diz que a minha namorada odeia ainda mais a Lúcia que o próprio Luís.
– Para ser como essa desgraçada é preciso se esforçar muito. A Hélène é complicada, e isso não é novidade a ninguém. Ela é uma Touchon e aristocrata raiz, para piorar é francesa e parisiense, mas apesar de tudo isso, o problema dela é comigo. Ela passou a vida toda tentando me moldar em algo que não sou e por não ser o que ela quer, ela age assim.
– Com todo respeito, a sua avó maluca? Ela tem problema? Só isso para explicar. Não tem nem cinquenta arquitetos no mundo que tem um Pritzker e você conseguiu ser uma desses arquitetos. Como a sua avó não está feliz com o que se tornou? O que ela tem de especial? É amiga da rainha Elizabete por acaso?
Val bebeu um gole do chá desviando o olhar. Ela sempre bebe algo para evitar responder o que não quer.
– A sua avó conhece a rainha Elizabete, – conclui. – Ainda assim não é tão especial quanto ter o Pritzker. Ela que se foda.
– Os modos, Clarice. Você não usa esse tipo de linguajar, espero que continue.
– Convivendo com você? – Cruzei os braços e virei para janela. – Meio difícil.
– Pelo visto alguém está muito tempo sem receber suas punições e se esqueceu como deve se comportar. Vai agir como uma boa menina ou precisa que eu te lembre como?
– Não, desculpa – respondi contrariada. – Enfim, eu sinceramente também prefiro não ir a lugar nenhum essa noite. A viagem foi longa, estou cansada e com preguiça. Lá fora está frio para um cacete e não quero deixar o Chloée sozinho.
– Eu tinha pensado em pedir ao Pierre para te levar ao cinema. Eu não pretendo ficar toda a noite por lá, então será o tempo de um filme até sair de lá.
– Não, eu prefiro ficar por aqui na minha só com o Chloée.
– Não gosto da ideia de te deixar sozinha.
– Amorzinho, vai ser só por algumas horas e não é como se eu não fosse só dormir ou assistir qualquer coisa aleatória. Vou ficar bem. E se não ficar, é só te chamar.
– Tem alguns funcionários da família que moram nesse mesmo edifício… caso seja uma urgência.
– Te garanto que não será necessário, – bocejei sentindo o peso da viagem bater nas minhas costas. – Topa uma sonequinha comigo agora?
Dormir agora era o melhor que poderíamos fazer. Ficar discutindo com a Val não iria levar a lugar nenhum. Ela não quer sair, não quer me deixar sozinha e por não querer fazer nenhum dos dois, acha que será o fim do mundo se eu ficar aqui quando na verdade eu vou só ficar de boa. Tendo comida e algo para assistir, eu fico de boa na minha.
Duas horas, foi o máximo que conseguimos de soneca até minha mulher levantar e sua ausência atrapalhar meu sono. Iria reclamar e pedir para voltar para cama, até descobrir que estava me fazendo brigadeiro. Um mimo por ter que ficar algumas horas sozinha.
Olha… se toda vez que ela me deixar sozinha por algumas horas eu ganhar um mimo, eu não vou reclamar.
– Aqui, – Val me deu a colher e panela que estava usando. – Pode raspar. Só cuidado, está um pouco quente.
– Obrigada, maman!
– Boa menina, – ela me deu um beijo na testa. – Vou tomar o meu banho.
– De novo?
– Preciso me arrumar para sair, ma vie.
Ela poderia só se arrumar como uma pessoa normal, mas era a Val e provavelmente iria trocar de perfume para o jantar e para fazer isso precisava tirar o anterior. Frescuras de Valkyrie.
Depois de muito soprar meu brigadeiro, eu experimentei o que estava na colher e no mesmo instante ouvi os anjos cantarem. Como uma pessoa que detesta coisa doce e é praticamente aversa a açúcar era capaz de fazer o melhor(!!!) brigadeiro do mundo inteiro eu não sabia, mas te juro; esse era o melhor brigadeiro da minha vida inteirinha.
– Posso comer mais brigadeiro? – Pedi assim que a Val saiu do banho.
– Ainda deve estar quente, mon amour. Espera esfriar pelo menos.
– Mas é que ‘tá muito bom! Qual o seu segredo para ficar tão bom assim?
– Eu usei um outro tipo de leite.
– Você… usou o seu leite?! – Perguntei empolgada.
Val me encarou com julgo. – Não, Clarice. Creme de leite. Leite condensado, cacau em pó, manteiga e creme de leite para cortar o doce. Não tem nada demais.
Aposto que se eu usar esses mesmos ingredientes irá ficar uma merda.
– Seria mais legal se fosse o seu.
Ela revirou os olhos e saiu do quarto em direção a cozinha. Para a minha alegria, vi que estava pegando o brigadeiro e tirou um tantão com a colher!
– Isso é tudo por agora, estamos entendidas? Não é para comer tudo de uma vez e se empanturrar de brigadeiro.
– Sim, maman. Dá ‘pra eu!
Fui feliz com a minha colher de brigadeiro por alguns minutos até acabar e eu ser triste outra vez. A felicidade de pequeno dura pouco.
A maman continuou a se arrumar até ficar ainda mais gatona para sair. Era a primeira vez que a via de cabelo preso. Acho que por não querer usar um secador, ela preferiu prender em um coque baixo molhado. O penteado a deixou com cara de ainda mais séria e brava, e lindona e irresistível na mesma proporção.
Pensei que o meu amorzinho fosse sair às 19h em ponto e foi estranho a ver atrasar propositalmente. No horário que deveria sair de casa ela me chamou no sofá para me dar tetê e eu fiquei sem entender nadinha.
– Você não tinha que sair agora?
– Eu quero chegar no último minuto possível para ficar menos tempo possível. Ou você quer que eu saia sem antes ter o seu tetê?
– Não, não, pode ficar aqui! Eu quero meus Valquírios.
– Ainda com essa de “Valquírios”?
– Oui! – Me adiantei para desabotoar os outros botões que faltavam da camisa social da maman, – são meus Valquírios. Tão perfeitos quanto você! Preferia quando não usava sutiã… por que deles agora?
– Porque eu quero, mocinha – ela puxou o tetê para fora, liberando o acesso. – Não temos muito tempo, amor. Pare de enrolar.
– Seu pedido é uma ordem!
Abocanhei o primeiro tetê e me deixei relaxar no colo da maman. O brigadeiro dela pode ser o melhor do mundo, mas o leite é muito mais e sempre será o meu favorito! Especialmente direto da fonte.
– Tem certeza que ficará bem aí? – Afirmei com a cabeça. – Eu realmente não queria ter que ir, mas a Hélène irá infernizar nossas vidas e eu quero aproveitar meu momento com você em paz.
– Maman… relaxa, – respondi sem tirar meu tetê da boca.
– Quando estiver com fome me avise. Eu vou mandar trazerem o seu jantar. Nada de ficar comendo besteira, d’accord? Eu vou voltar em até duas horas ou menos que isso.
Depois de mamar os meus dois tetês e ficar de buchinho cheio, era hora de despedir da maman. Nem parecia que ela já iria voltar e que eu faço um monte de coisa sem ela todos os dias. Mais um pouco e era provável que ela fosse chorar.
– Eu já volto, meu amor. Qualquer coisa me manda uma mensagem ou me liga, eu vou estar com o celular perto de mim a todo instante. Se comporta, okay?
– Pode deixar. Bom jantar… e manda beijinho pros seus pais.
– Je t’aime.
– Eu também te amo.
A contragosto, a Val saiu. Eu ainda fui até a varanda do quarto para a ver entrar no carro e mandar outro tchauzinho. Somente quando o carro saiu de vista, eu voltei para dentro e me enrolei na mantinha quente para aquecer tudo que gelei só de ficar na varanda.
Era isso, eu estava sozinha. Sozinha em um apartamento em Paris. O que eu vou fazer até o meu docinho voltar?
Hmmm… que tal uma colher de brigadeiro?
É isso.
Vou comer brigadeiro!
«-»
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Au revoir!
