Elora Aneva

Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

49. Sauvé par les pattes de l’ennuyeux

« C L A R I C E »

Sabe quando você combina de sair e no dia combinado você só quer morrer ao invés de sair de casa? Pois bem, eu me sentia assim.

Aceitar ir ao festival de rock era apenas um teste para conhecer os possíveis lados da minha namorada. Não era possível que a Valquíria fosse realmente a pessoa mais tranquila e fácil de lidar. Desde que entramos no acordo eu andei lendo alguns livros e afins, inclusive héteros – o que não me orgulho muito – e o comportamento dela não condiz com a minha pesquisa. Muito menos com minha experiência do passado.

Eu até apelei um pouquinho e comprei uma roupa um pouco fora do meu padrão do dia-a-dia. Não havia nada demais, também não estava afim de sair por aí seduzindo outras pessoas que não fosse única e exclusivamente a minha mulher. Porém, não era mais uma das minhas roupas largas, apenas apropriadas para o meu tamanho. Entende-se por: é possível perceber que tenho peitos.

Qual é? Você pensou o que? Eu não sou capaz de sustentar um look fatal Femme com a minha Val. Eu ainda estava apostando no básico: um vestido de alcinhas preto com fecho de abotoar na frente, meia calça preta e meu coturno de ocasiões em que eu quero ser um pouco mais alta, caso contrário não vou enxergar nada, preciso dizer a cor? Acho que não. 

– E aí? O que achou?

Val estava sentada na sua poltrona de leitura, com óculos no rosto e uma revista de sudoko nas mãos, mesmo em sua skin mais idosa possível estava gatíssima. Aproveitei seu minuto de distração para tirar uma foto rápida, pois definitivamente iria desenhar essa cena depois.

– Hmm, deixa eu ver – Val demorou um pouco para levantar o olhar tamanha sua concentração em seu sudoko. Ela me encarou em silêncio por tempo suficiente para me preocupar. – Você realmente tem intenções que eu te deixe sair vestida desse jeito?

– Por que? Achou inapropriado?

– Inapropriado? – Val deixou a revista e o óculos de lado e se levantou. – Agora mesmo estou me controlando muito para não mudar os seus planos e te foder a noite toda, – ela me puxou para um abraço, – você está irresistível, ma vie.

– Eu não vou me incomodar em mudar os planos.

Val riu e balançou a cabeça. – Por mais que a ideia muito me apetece, você também precisa socializar com seus amigos. Nós teremos duas semanas para nos aproveitarmos.

– Duas semanas que estaremos com a sua família por perto. Qual vai ser o plano?

– O plano é ficar apenas o necessário com a família por perto. Os outros dias quero aproveitar só eu e você. De preferência com celulares desligados para ninguém encher o meu saco.

– Isso é possível?

– Vai ser.

– E você vai conseguir?

– Espero estar ocupada o suficiente para não perceber.

– Pode deixar que eu vou cuidar disso, – a envolvi pela nuca e a beijei.

Era a primeira vez que beijava a minha mulher sem ficar nas pontas dos pés… okay, só um pouquinho. Talvez eu devesse aprender a andar de salto e usa-los o tempo todo. É tão mais prático o acesso fácil.

– É melhor paramos por aqui, – a Val disse ao me afastar dela. – Se continuarmos, eu não vou garantir que irei te deixar sair.

– Já entendi, já entendi… aposto que não dá nem para pedir um tetê antes senão você vai querer fazer outras coisas também.

– Exactament.

Revirei os olhos e cruzei os meus braços. – Você é uma estraga prazeres.

– Tem certeza disso, Clarice? – Eu queria não responder isso, mas senti o meu rosto corar e pelo sorrisinho da Val, ela entendeu o que significava. Droga! – Você não vai usar nem uma jaqueta? Está meio chuvoso lá fora, vai ficar com frio.

– Ah, eu vou levar minha jaqueta jeans preta.

Val estreitou o olhar. – Para ficar ao ar livre? Com esse tempo? Nem fodendo, Clarice. Você vai passar frio e depois ficará com resfriado. Nós vamos viajar em alguns dias, minha bebê resfriada é a última coisa que eu preciso. Vem, acho que tenho alguma jaqueta decente para esse tempo que sirva em você.

Considerando os looks do meu amorzinho, por um momento pensei que não fosse ter nada que cairia bem em mim, mas havia me esquecido de um detalhe: estamos falando da Valkyrie, eu definitivamente não conheço todos os seus looks… só suas lingeries.

– Toma, vista essa jaqueta de couro com zíper, ela vai combinar com o seu look e irá te proteger do frio, – ela me entregou a peça de roupa e voltou a procurar algo em seu closet. – Quer um cachecol também?

– Amor, nós ainda estamos no Brasil. Também não exagera.

– Oui, tem razão.

Só de pegar a jaqueta da Val sabia que aquilo provavelmente não foi nada barato, pelo menos o “Paris” escrito na etiqueta deixava isso meio escancarado, se veio de lá só pode ser caro. O couro me parecia bem real e por dentro a coisa mais quentinha do mundo. Eu só queria ouvir uma boa música ao vivo essa noite e agora pelo visto ficarei o tempo todo preocupada com a possibilidade de danificar a jaqueta.

E conhecendo a sorte que eu tenho, é exatamente isso que irá acontecer.

Talvez seja melhor levar no banco de trás do carro e “esquecer” lá. Eu definitivamente não posso me enfiar em mais uma dívida…, mas era óbvio que a Val nunca iria me permitir esquecer a roupa de frio. E ainda bem que não deixou, caso contrário eu iria sofrer.

Só de pensar que estou sofrendo com a brisa fria em São Paulo, quero nem pensar o que irá me acontecer nos próximos dias.

– Olha só ela! – Marina me agarrou pelo pescoço me puxando para perto. – Finalmente você chegou, vem se juntar com a gente!

O festival estava acontecendo em um espaço aberto ao ar livre. Em outras palavras, havia opções limitadas para sentar, a maioria das mesas eram daquelas altas que servia apenas de apoio para bebidas e as pessoas se aglomeravam ao redor. O fato dos meninos terem conseguido uma mesa com aqueles bancos de madeira só dizia o quão cedo chegaram aqui.

– Chegou bem a tempo loirinha, as bandas boas vão começar logo, logo – Diego disse animado. – Pega uma cerveja, fica com vergonha não. A primeira rodada é por minha conta.

Em cima da mesa havia algumas latinhas empilhadas, provavelmente todas elas um oferecimento do Diego.  Eu não fiz a recatada e aceitei… apesar de não ser muito fã de beber, após uns anos de bartender eu aprendi a gostar de cerveja, principalmente chopp.

Pensei que levaria um tempo para mim de fato sentir a vibe e curtir o momento, mas a verdade que não precisou mais que alguns covers de algumas músicas que costumava ouvir no passado para a nostalgia me colocar no “mood” da noite.

Sabe a sensação de finalmente comer um prato delicioso que você gosta muito depois de muito tempo que não o comia? Era exatamente assim como me sentia. Sendo sobrinha de uma tia louca que considerava qualquer tipo de música que não fosse um louvor algo do mundo e inadmissível, ir em shows das suas bandas favoritas não era uma missão fácil. Foram pouquíssimas vezes que consegui fugir para assistir algum show de alguém que gostasse muito. Era sempre muito bom e divertido toda vez que conseguia, mas depois que Larissa e eu fomos pegas e as duas se ferram por minha causa eu me aquietei.

Dois chopps depois eu já estava lá frente do palco junto com Marina e outros do nosso grupo sem vergonha nenhuma. Até mandei uns vídeos cantando os covers das minhas músicas favoritas para a Val ver. Ela provavelmente irá odiar tudo porque o barulho deve ser horrível, mas eu quis compartilhar o que sentia com ela.

E foi em um desses momentos que trocávamos mensagens que trocaram de banda no palco. Eu estava entretida demais com a minha mulher para prestar atenção em qualquer outra coisa, mas bastou tocarem a introdução de literal um segundo da introdução para eu reconhecer a música e automaticamente querer curtir o cover de Ignorance do Paramore. Terminei de enviar a mensagem para a Val e olhei para o palco.

O choque foi tanto que eu por um momento paralisei totalmente incrédula. Maristela?! O que diabos a chata do Apex estava fazendo ali?

Quis julgar e logo esperar o pior da insuportável, afinal, para fazer um cover ao vivo do Paramore, ainda mais fazendo o papel da Hayley Williams que tem uma energia única, a pessoa tem que ter culhão e coragem… e infelizmente, a Maris aparentemente tinha… e muito.

Odiava admitir isso, mas a bicha era boa e apesar de não me orgulhar disso, estava sendo de longe o melhor show da noite. Sabe o que é pior? Justamente no momento em que a banda estava tocando Misery Business, também conhecido como o “hino proibido”, Maristela me reconheceu. E eu tive certeza que ela me reconheceu porque me deu um tchauzinho no mesmo instante. Mas agora você me pergunta, “o que tem de pior nisso, Clarice?”. Pois bem, foi justamente no momento que ela cantava a frase “once a whore, you’re nothing more, I’m sorry that’ll neve change”. Tradução livre: uma vez puta, você não é nada mais que isso. Sinto muito, isso não vai mudar.

Foi coincidência ou o que?

Olha, eu não estou com paciência para intrigas e agora estamos as duas fora do pequeno espaço. Se ela me provocar eu vou seguir o exemplo da minha namorada e bater nela!

Confesso que fiquei levemente puta – isso mesmo, uma vez puta sempre puta – e parei onde estava. Acontece que quando você para quando todo mundo está pulando, as pessoas acabam esbarrando em você e foi exatamente o que aconteceu comigo. Olhei por cima do ombro e reconheci o rapaz, ele era uma das pessoas que estava na mesma mesa que eu. Logo ao lado dele estava Marina e outros dois rostos familiares.

O meu momento de puta passou muito rápido e logo estava empolgada com That’s What You Get. Tente me entender, qualquer fã de Paramore desde os primórdios irá vibrar de um jeito diferente aos hinos do velho testamento e era exatamente assim que estava me sentindo. Sim, eu também queria ser a Hayley Williams quando mais nova. Só me faltou o cabelo laranja e 3cm de altura… 

Depois de assistir a Maristela, eu fui obrigada a dar um time e ir buscar outra bebida no bar. Já estava com sede e provavelmente suado todo o álcool que circulava em meu corpo. E não, eu não tive coragem de tirar a jaqueta mesmo começando a sentir calor. Prefiro suar como uma porca que correr o risco de esquecer em algum lugar. Me conheço o suficiente para isso.

Comprei um chopp e uma água – pois sou responsável – e retornei a mesa. Só haviam alguns casais que estavam conosco, mas eles estavam cada um imersos no próprio mundo deles que eu basicamente estava sentada sozinha. Bom, pelo menos por dois segundos até o rapaz que estava perto do palco comigo sentar ao meu lado também com um copo de chopp cheio.

Rapaz que nem deixou o silêncio entre nós se formar para perguntar algo que não ouvi.

– Hã? O que disse?

– Você é fã de Paramore, não é? – Ele repetiu não contendo a empolgação dentro de si, provavelmente outro fã enrustido.

– Sim. Bastante.

– Deu para perceber. Estava tão empolgada que até a cantora te notou, – ele riu. – Hoje em dia é difícil encontrar os fãs por aí, ainda mais das antigas.

– Nem tanto, a Marina por exemplo também adora o Paramore. Tem várias por aí.

– É, mas nenhuma delas é como você, – ele sorriu e deu um gole no chopp, logo seguida colocando a mão sobre a mesa quase tocando a minha.

Rapidamente recuei a minha mão. Essa é a mão que uso para tocar o sagrado corpo da deusa minha mulher. Eu definitivamente não quero nenhum homem chegando perto dela.

– É só porque o cover foi muito bom. Eu normalmente fico mais na minha. 

Ele sorriu. – Posso perceber. Você é a Clarice, certo?

Nós fomos apresentados mais cedo, mas eu não me importei o suficiente para decorar, então não fazia ideia.

– Isso… e o seu é…? Eu não recordo o seu nome.

– Rafael.

– Ah beleza, Rafael. Eu vou ao banheiro, a gente se vê por aí.

Eu nem queria ir ao banheiro, mas também não estava afim de bater papo com estranhos. Então me levantei e fui bater perna próximo as tendas das lojinhas para ver o que tinha de bom e interessante por ali. Tinha umas camisas que com certeza compraria se fosse – ainda mais – irresponsável. Foi difícil, mas me contive.

De repente senti uma movimentação estranha atrás de mim. Por um momento pensei que fosse só as pessoas tentando passar por mim na pequena loja improvisada em uma tenda, mas ao me virar me deparei com o tal Rafael outra vez.

– O que está fazendo? – Perguntei brava. Qual é desse cara, hein? Vai ficar me perseguindo, é?

Ele ficou vermelho e visivelmente nervoso. – Eu? Nada. Eu só… vi que estava vendo a camisa da minha banda… você gostou?

– A arte é legal, – respondi sem dar muita trégua. Esse cara não tem desconfiômetro?

– Aposto que ficaria linda nela.

Respirei fundo.

Por que deus? Por que? Por que uma mulher não pode aproveitar nenhum momento em paz sozinha que sempre surge um homem feio e chato para encher o saco?! É por chatos como esse Rafael que eu prefiro minhas roupas largas.

– Sabe que eu acho que a minha namorada vai pensar a mesma coisa.

– Sua namorada é muito corajosa de te deixar sozinha por aí. Qualquer um seria louco de te olhar e não apaixonar.

Revirei os meus olhos para não revirar minha mão na cara dele. – É que você não viu a minha namorada. Ela é a mulher mais gostosa e gata desse mundo. Eu que seria louca se a trocasse por outro alguém.

– Você não precisa trocar. Nós podemos nos divertir só por essa noite.

– Muito soberbo da sua parte pensar que existiria essa possibilidade. Você não entendeu? Eu sou lésbica. Nem que eu fosse solteira me envolveria com você.

– Talvez você só não conheceu o cara certo. 

– Ah claro, você é a cura gay. Pica das galáxias. Não fode.

– Se me der uma chance para mostrar, eu posso ser a sua cura gay… por que não tomamos um chopp juntos? Eu pago.

– Nem morta. Agora se me dá licença, eu não vou perder meu tempo precioso com você!

Saí dali sem esperar para ouvir o sem noção. Era só o que eu faltava, um homem autointitulado “pica das galáxias” achar que eu trocaria a minha Valkyrie por aquilo. Só se eu estivesse completamente fora de mim ou cometendo suicídio.

Para mim já deu. Eu vou embora desse lugar.

Procurei um lugar mais afastado e tranquilo o suficiente para conseguir falar ao telefone. Enquanto esperava para ser atendida, dei um gole no meu chopp e ele desceu amargo pela minha garganta.

– Oui, ma vie – Val atendeu como seu típico bom humor para falar comigo. Foi o suficiente para aquecer meu coração e aliviar a raiva que estava sentindo. Imediatamente deixei o meu copo sobre o toco de madeira que delimitava o estacionamento. – Você não deveria estar curtindo o seu festival, petite?

Eu quero ir embora, – respondi de imediato quase a interrompendo.

O que aconteceu? – Ela perguntou preocupada, – Sua voz está estranha, parece nervosa.

Tem um cara chato me enchendo o saco e você não está por perto para dar um soco nele, então prefiro ir.

Defina “enchendo o saco”, Clarice – o tom de voz da Val mudou completamente, até eu engoli o seco com medo.

-Ele deu em cima de mim e fica me seguindo em todo lugar que vou.

– Ele não tentou nada com você, tentou?

Não. Tem muita gente por aqui.

Ótimo. Eu realmente não quero ter que tirar a Gio das férias por eu ter arrancado as bolas de um filho da puta com as unhas e perder meu réu primário.

Eu ri. Só a Val para me fazer rir nessa situação. – Eu também não quero ver a minha namorada com as mãos nas coisas de um homem, nem que seja para arrancar fora.

D’accord, mon amour. Eu uso um cutelo.

Você é bobona, Valquíria. Me surpreende que você ainda tenha o seu réu primário.

Por enquanto, né? Eu não posso te deixar sozinha algumas horas e de repente tenho uma lista de pessoas para gastar, – eu consegui a visualizar revirando os olhos do outro lado da linha. – Eu já estou a caminho para te buscar, mas estou razoavelmente longe e vou demorar um pouco. Se quiser ir para outro lugar por perto, eu te encontro lá.

Eu acho que vou assistir mais um pouco dos shows enquanto te espero. Não precisa vir dirigindo como uma louca, ok? Também não quero acidentes. Tem um monte de gente aqui, eu estou segura.

Estarei dentro dos limites permitidos, mon amour. Até daqui a pouco. Qualquer coisa me ligue.

Conversar com a Val me deu uns dois pontos de felicidade e foi o suficiente para neutralizar o sentimento ruim que o idiota deixou. Não iria deixar um infeliz estragar minha noite, então enquanto a minha mulher não chegava, eu iria aproveitar.

Estava caminhando de volta para onde estava acontecendo os shows quando senti o álcool bater diferente. Muito diferente. Era como se tivesse acabado de tomar um copão de leite da maman e meu corpo entrasse me relaxamento instantâneo querendo dormir. Sem pensar muito, eu abri minha garrafa de água e joguei um pouco no meu rosto.

Iria ligar para a Val outra vez quando alguém pegou em meu pulso e me puxou para perto para um abraço não desejado.

– Você realmente achou que eu te deixaria escapar assim.

Eu não consegui ver seu rosto, mas reconheci a voz. O tal Rafael.

– Eu seria louco se perdesse a chance de colocar as mãos em você.

Se tem uma coisa que aprendi relacionando com a Val era que a violência é sempre uma opção, por essa razão, mesmo me sentindo relativamente fraca, tentei imitar o seu primeiro soco que presenciei e golpeei o Rafael em algum lugar abaixo da costela.

Óbvio que o resultado não foi o mesmo. O Rafael não se encurvou de dor como o outro cara, mas serviu para me soltar. Cai sentada no chão de britas e meu corpo estava pesado demais para levantar. 

– Isso é jeito de tratar quem até te comprou presentes? – Ele me encarou bravo vindo me levantar do chão.

– Ela não precisa de você para comprar presentes, – essa voz eu conhecia muito bem. Era tão chata e insuportável como sempre, mas dessa vez soou como um anjo que caiu do céu.

Maristela puxou a sacola da mão do Rafael e tirou a camisa que tinha dentro. Nem parecia que tinha se enfiado entre Rafael e eu para me proteger de um possível abuso.

– É sério? Você realmente achou que uma camisa feia dessas seria um bom presente para paquerar uma mulher? Não que a Clarice estivesse disponível, mas chega ser ofensivo querer dar um trapo desses para uma futura Touchon, – ela jogou a camisa nele. – Sorte a sua que ninguém mais irá ver isso. Você deveria ter vergonha pelo o gosto.

Rafael tirou a camisa sobre a sua cabeça furioso. Estava tão puto que seu rosto estava vermelho de ódio. E mesmo sendo mais alto e com alguns músculos visíveis, Maristela não recuou um centímetro sequer quando ele quase avançou na sua direção.

Será que ela também é outra faixa preta?

– Quem você pensa que é, sua puta? – Ele pegou o braço de Maristela e puxou para perto, falando bem perto do seu rosto apontando o dedo tentando a amedrontar. Ainda assim, ela não se moveu. – Eu vou acabar com você e com a sua amiga. Vai aprender qual o seu lugar e como falar com um homem.

Tirei forças de não sei onde para levantar e tentar a puxar para longe dele, mas uma mão enorme tocou no meu ombro me fazendo ir para trás. Eu já iria reclamar, mas ao olhar para o lado notei a discreta arma na cintura do cara e travei completamente. Meu deus! O que estava acontecendo aqui? Socorro?!

– Eu até poderia te dizer quem sou, mas sinceramente? Eu tenho coisa melhor para fazer que perder meu precioso tempo com você, mas esses dois grandalhões ali terão o prazer em te mostrar.

Quando a Maristela disse grandalhões, ela realmente quis dizer grandalhões, tal qual o meu sogro, do tipo que poderia esmagar seu crânio com a mão. Eles não vestiam uniformes, mas era claramente seus seguranças. Seguranças armados!

Eu estava tão paralisada de medo que nem ouvi o que os seguranças disseram. Só sei que o Rafael tentou correr e não deu nem dois passos antes de ser pego. Observei os seguranças arrastarem o idiota para longe sem conseguir processar tudo que via. O que iriam fazer com ele? Quem é essa garota? E por que ela tem seguranças armados que arrastam pessoas para sei lá onde?!

– Da próxima vez que for usar alguma droga, seja mais esperta – Maristela disse para mim com julgo. – Ou pelo menos se certifique de que não esteja sozinha ou tenha alguém para te proteger.

– Eu não uso drogas! – Respondi brava limpando a minha roupa.

– Não? – Ela ergueu o cenho me encarando desconfiada. – Então aquele idiota te drogou. Você está claramente drogada.

– Eu também acho. De repente me senti muito sonolenta e fraca.

– Você bebeu tudo?

– Não, eu dei um gole só. O copo está ali – apontei para o copo esquecido na mureta. – Mas estava meio diferente, amargo.

Maristela foi até lá e pegou o copo e trouxe para perto. – Isso pode ser útil depois… você adora se meter em encrenca, hein? Talvez um tempo reclusa te seria útil.

– Queria descordar, mas do jeito que anda a minha vida… seria útil mesmo.

– Vem, eu vou te levar para dentro.

Embora eu estivesse meio sei lá, consegui caminhar até onde Maristela me levou. Era uma área restrita aos artistas com sofás, água e até uns petiscos e tira-gosto. Nós fomos para a parte mais vazia e eu nunca me senti tão grata em poder sentar em um sofá.

Assim que me sentei, a Maris me estendeu a garrafa de água que estava na sua mão. – Toma, beba uma água. Você precisa tirar seja lá o que tem no seu organismo para evitar uma punição da sua mommy.

Era estranho alguém estar preocupada com a reação da minha “mommy”, especialmente por esse alguém não ser lá a mais legal do mundo comigo. Se bem que, eu não acho que a Val me daria uma punição por isso… eu não fiz nada de propósito.

– Obrigada, – aceitei a garrafa, pois sentia minha boca seca.

Maristela balançou a cabeça em desaprovação e tomou a garrafa da minha mão antes que eu pudesse tomar, me molhando um pouco. – Sua francesa não deveria te deixar por aí sozinha. Acabou de descobrir que foi drogada por alguém e o que faz no minuto seguinte? Aceita bebida aberta de alguém que mal conhece. Você é burra ou tem desejos suicidas?

– Você é insuportável, sabia? – Revirei os olhos.

– Não tenho culpa se não consegue lidar com a verdade. Você deveria estar grata por ter salvado seu rabo. Sabe lá deus o que aquele idiota iria fazer com você, – ela me deu outra garrafa de água lacrada. – E não beba nada que não esteja lacrado que você não saiba a origem. Isso é o básico do básico.

Quanto a isso eu não poderia negar. Insuportável ou não, Maristela me salvou e estava certa a respeito da bebida. Que ódio… essa garota me dando lição. Quem ela pensa que é?

– Eu sei, obrigada… o que vão fazer com ele?

– Sei lá, – Maristela deu ombros. – Isso não é problema meu.

Agora foi a minha vez de a encarar desconfiada. Como assim ela não sabe? Os seguranças arrastam o rapaz para longe e ela não está nem aí? E se fazem algum mal? Outro crime?

Ao perceber o meu olhar de espanto e pavor, Maristela continuou. – Depende da situação… se estiverem só importunando, eles só os levam para longe. Se for um crime, que foi o que aconteceu, eles encaminham para a delegacia. Ninguém será morto, se é o que está pensando.

– Por que você tem dois seguranças? – A pergunta saiu antes que eu pudesse filtrar. Talvez fosse o álcool ou a droga, quando dei por mim já tinha saído.

– É o que acontece quando seu pai é odiado por todo tipo de criminosos por aí.

Então o plot da máfia é real? Não creio.

– Meu pai é desembargador. Ele sentenciou muita gente barra pesada a prisão… você não faz mesmo ideia de quem eu sou, né?

– Não? Por que eu deveria saber? Nossas interações não foram nada legais.

– E você achou que o processo com o seu pai aconteceu em tempo recorde por acaso?

– Como você sabe do processo?

– Quem você acha que a sua namorada procurou para acelerar o processo? Ela pode ter todo o dinheiro do mundo, mas eu tenho o poder, – ela deu ombros como se fosse a coisa mais trivial do mundo.

Mas de tudo que eu ouvi, só consegui prestar atenção em um detalhe: – A Val te pagou? – Perguntei meio incrédula.

– Quem dera… – ela se sentou em uma das poltronas. – A francesa ofereceu, mas a minha esposa cortou meus planos de aposentadoria precoce antes mesmo que tivesse chances de aceitar. A Karina não é do tipo que aceita dinheiro fácil… infelizmente.

E você aceitaria?

– Óbvio?! Você acha que essa sua jaqueta da Balmain se compra com sorrisos?

Como ela sabia a marca da jaqueta se a etiqueta estava na minha nuca na parte interna?

– É da Val.

– Eu já suspeitava, – ela rebateu e por um momento me perguntei o que isso queria dizer, mas deixei de lado. – Enfim, sobre o seu caso; eu não iria cometer nenhum crime. Não era como se a Val tivesse pedido para interferir na sentença, ela me pediu para agilizar as coisas.

– E você me ajudou mesmo sem receber um centavo por isso?

– Eu não sou tão filha da puta assim, okay? Sei que não sou uma pessoa fácil de lidar, principalmente uma pequena fácil de lidar, mas não sou filha da puta. Apesar de não te conhecer, sabia que não tinha feito que estava sendo acusada e não deixaria alguém inocente ir para aquele inferno. E tudo o que eu fiz foi comentar sobre o caso para as pessoas certas e trazer atenção deles para o caso.

– Você é estranha.

– Eu sei…

Que ódio, agora parte de mim sentia que a devia algo pela ajuda. Eu sei que resolver um processo criminal em tão pouco tempo no Brasil não é algo tão simples. Querendo ou não, essa chata me poupou de tempo de agonia.

– Sinto muito por ter feito tudo sem receber nada em troca…, eu sei que não tenho a mesma grana que a Val, mas eu…

– Garota, nós não temos nenhuma dívida, okay? A sua francesa fez uma generosa doação a ONG da minha esposa em seu nome. Eu posso não ter me beneficiado disso, mas centenas de crianças com doenças raras irão e a Karina ficou muito feliz. Se a minha esposa está feliz, eu estou feliz. Nós estamos kits.

Encarei Maristela em silêncio refletindo em suas palavras. Doação? Em meu nome?

– Pela a sua cara, você também não sabia disso…

Eu não estou surpresa que a Val tenha mexido os pauzinhos. Isso sempre esteve muito explícito desde o princípio. Mesmo que o ex dela estivesse financiando os advogados do meu pai, sabia que a Val tinha mais cartas nas mangas. Eu só fui inocente demais em não cogitar a possibilidade de que essas cartas valessem dinheiro.

Aí droga… eu agora tenho mais uma coisa para pagar. Definitivamente preciso voltar as minhas noites de bartender no Apex. Talvez eu devesse começar a vender os meus quadros também… ou me prostituir.

– Ei, não leva para o coração – Maristela chamou a minha atenção quebrando o silêncio. – Eu sei, é meio chato descobrir o que andou acontecendo pelas suas costas, mas a maioria das mommies tem essa mania de nos “poupar” para o nosso bem. Às vezes dá certo, às vezes só nos emputece, mas na cabeça delas somos sensíveis e frágeis demais para lidar com os assuntos de grande… não que isso seja uma verdade, mas leva um tempo para elas entenderem isso.

– Você parece entender do assunto.

Não faz ideia do quanto, – Maris deu um sorriso tristonho meio suspeito.

Com certeza havia algo por trás da sua fala, mas não éramos intimas o suficiente para perguntar.

– Mas enfim, não fique brava com a francesa. Ela é legal. Eu gosto dela.

Gosta?! Você tem um jeito estranho de demonstrar isso.

Ela riu, provavelmente concordando. – Pode crer…, mas de alguma forma fazemos uma boa parceria. Eu cobria suas fugas para fugir dos eventos chatos e ela me não dedurava para os meus pais quando me pegava aprontando algo.

– Pensei que se conheceram no Apex.

– Ah, não. Frequentamos os mesmos espaços desde que me entendo por gente. 

– Quanto anos você tem?

– Vinte e seis.

Parte de mim se sentia completamente maluca e lelé da cuca por querer juntar as peças do quebra-cabeça, mas era impossível não cogitar essa possibilidade:

– Que tipo de eventos chatos eram esses que vocês frequentavam?

– Ah, o mesmo de sempre; jantares, gala, opera, orquestras, leilões, inaugurações, reuniões políticas, eventos filantrópicos e por aí vai.

– Exposições de artes?

Maristela fez uma careta de julgo e logo em seguida pensativa. – Hmmm… não é tão frequente quanto os outros, mas já aconteceu algumas vezes. Não era a mãe da francesa que tinha uma escola de artes ou algo assim? Ah sei lá, eu só sei que já fui em alguma exposição ou evento do tipo que promovido por algum Touchon.

– Margot?

– Sei lá, eu devia ter uns nove, dez anos, eu não lembro dessas coisas. Por que está me perguntando essas coisas?

– Curiosidade, – sorri amarelo.

– Se está tão curiosa, pesquise nos jornais ou pergunte a sua mulher. Eu não sou sua wikipedia, – ela cruzou os braços e desviou o olhar.

Observando a Maristela, eu tinha leve impressão de que talvez – ênfase no talvez, – ela fosse uma pessoa legal se escondendo atrás de uma fachada de garota marrenta e grosseira. E pensar que um desses eventos chatos que ela frequentou pode ter sido alguma exposição da minha mãe…

Pensando bem, se eu estava em todas as exposições da minha mãe e a Val nos “eventos chatos” da mãe dela, nós duas já estivemos no mesmo ambiente muito mais vezes do que realmente achávamos. Meu deus, ainda bem que ela não me conheceu de fato naquela época, com onze anos de diferenças, eu estaria saindo das fraldas e ela tendo seu primeiro crush. Que horror!

Bizarro pensar em como tudo seria bem diferente se minha mãe estivesse viva… aliás, por que estou pensando nisso? Devem ser as drogas…

Mon bébé?

Clarice…

Mon amour!?

Acorda, bébé… – demorei um pouco para perceber que a voz que ouvia em minha mente era real. Valquíria estava aqui, mas eu estava muito sonolenta para conseguir manter meus olhos abertos mais que por alguns segundos. – A pupila dela está dilatada.

Tudo que ela usou está dentro daquele copo. Ela não usou nenhuma outra substância, se é o que está pensando. Estávamos juntas o tempo todo.

Nós não estávamos juntas. O que essa louca está falando?

Tem certeza? – Esse tom de voz da Val. Ela estava com a pulga atrás da orelha, eu não posso acreditar. – Se a Clarice tiver se aventurado nesse festival irá ficar de castigo pela eternidade. E você ficará muito encrencada por ter mentido.

Conhece a minha esposa, ela iria cortar meus dedos não tão úteis fora se eu um dia ousasse usar qualquer tipo de drogas. E nunca se dá para confiar o suficiente em segurança do seu pai, eles podem ser caguetes. Pode confiar em mim, a sua loirinha não fez nada de errado. Pode perguntar depois… ela não mente para você… eu acho.

Maristela estava advogando por mim? Era isso? Eu sei que a Val não iria me dar um castigo por isso, mas a Maristela não teria como saber. Quem olha para a minha mulher deve pensar que é a pessoa mais brava e cruel do mundo por sua expressão natural ser cara de má, o típico “resting bitch face”. Que fique claro, isso não é uma crítica. Eu sinceramente acho a parte mais sexy nela, embora eu também tivesse medo no início.

– Eu confio no meu amor, ela realmente não mentiria para mim – senti uma movimentação perto de mim, Val que estava agachada ao me lado se colocou de pé. – Alors, merci beaucoup (muito obrigada), tudo acabou bem, mas poderia ter um final que prefiro nem pensar. Você salvou e protegeu o meu amor e eu serei eternamente grata por isso. Se tiver qualquer coisa que puder fazer por você, que não irá emputecer a Karina, pode contar comigo.

– Você pedir para ela tirar o meu castigo.

Val riu. – Você não tem jeito mesmo, Maris. Não te garanto que tenho o mesmo poder de convencimento com a Karina quanto com os seus pais. Tentarei o meu melhor.

– Você é a Valkyrie Touchon, não aceito falhas vindo de você.

– Então é melhor começar a aceitar. Está para existir alguém mais firme que a Karina.

Eu só conheci a Karina de vista, mas para ser a mommy de alguém com a Maristela, ela deve ser mesmo pulso firme. Ainda assim, eu confio no poder de convencimento da minha mulher. É muito difícil não ser intimidado por sua áurea fodona e ceder as suas vontades, tem que ter muito culhão para dizer “não” para a Val.

Se as duas continuaram conversando ou se saímos dali, eu não sabia mais dizer. O sono me venceu e quando abri os olhos outra vez percebi estar em um lugar que eu odeio: o hospital.

– Nem pense nisso, mocinha – a voz de Val me fez paralisar totalmente, – você não vai tirar isso.

– O que eu estou fazendo aqui?

– Você foi dopada por um desconhecido. Eu seria louca em simplesmente te levar para casa sem saber o que usaram em você e garantir que esteja bem. Além do mais, os seus exames fazem parte da prova para o boletim de ocorrência.

– Ai meu deus, mais um julgamento?

– Não, meu amor. Fique tranquila. Os seguranças da Maristela são agentes federais, o Rafael foi preso em flagrante por ameaça e injúria a uma pessoa que tem mais políticos e juízes desembargadores na família que alguns partidos por aí. Eu já o seguiria até o inferno por ter tentado algo contra você, mas ele já se ferrou sem precisar que eu movesse um dedo para isso.

– Então você está feliz?

– Feliz? Como eu poderia estar feliz, Clarice?! – Val estava levemente irritada e isso era evidente. – Essa é a última vez que irá sair sem alguém da minha confiança ao seu lado. Seus colegas de faculdade não são um deles. A primeira vez simplesmente ignoraram um combinado que tinham feito e te deixaram sem carona em uma cidade distante, agora te convidam para um evento e largam sozinha com um predador. A verdade é que nem você os vê como amigos, se realmente fossem, teria se juntado a uma das meninas que estavam no seu grupo ao invés de passar a noite com a Maristela, – Val cruzou os braços e desviou o olhar. Retiro o que pensei antes, ela não está “levemente irritada”, ela está muito puta.

– Mas eu não… – parei no meio do caminho ao lembrar da mentira.

– Pelo menos isso fez corretamente. Seria muito pior se estivesse zanzando sozinha.

Mordi o lábio inferior me segurando. Quem mentiu para a Val foi a Maris e não eu, se eu não desmentir significa que eu não estou mentindo apenas omitindo a informações, correto?

Eu sei que poderia ter dado muita merda. Essa noite poderia acabar muito mal e eu ser a maior vítima de tudo isso, mas eu não consigo sentir essa gravidade. Talvez eu tenha sérios problemas de minimizar o que acontece comigo para não “causar incomodo” para os outros e devesse tratar isso em terapia. A Valquíria não é como os meus parentes, ela não irá ver que estou “bem” e sem demonstrar algum sofrimento e seguir a vida como se tudo fosse só uma casualidade. Embora nada tenha acontecido, ela irá – e está – pensando nas possibilidades e sofrer-barra-preocupar com todas elas.

– Felizmente o desgraçado não usou nenhuma substancia ilícita ou que fosse causar algum dano irreversível.

– O que era afinal?

– Benzodiazepínico. Antidepressivo tarja preta. A dosagem naquele copo era alta e pelo seu peso poderia causar uma intoxicação grave se tivesse bebido tudo.

– Estava amargo, eu percebi a diferença no gosto e iria te ligar quando suspeitei do que aconteceu, mas fui impedida. Eu sei que está brava e até se culpando pelo o que quase aconteceu, mas eu estou bem. Bem e segura. Não vamos estragar nosso fim de ano remoendo isso, por favor.

– E você quer que eu simplesmente ignore tudo e siga a vida? – Eu não respondi, mas minha expressão respondeu por mim. Val revirou os olhos e desviou o olhar mais uma vez evitando o contato. – Eu não sou o desgraçado do Luís ou a irmã gêmea demoníaca dele. Eu tenho sangue correndo nas minhas veias e ele ferve de ódio pensando nessa situação.

– Val… olha para mim, – pedi e fui ignorada. – Valkyrie… por favor, – Val se virou para mim tentando conter o que sentia internamente. Seu nome, o verdadeiro nome, era quase como uma palavra de segurança e impossível de ser ignorado.

– Ma vie…

– Eu sei que está brava, mas ficar remoendo as possibilidades que poderiam ter acontecido irá te deixar mal e a mim também. Isso serviu de um alerta para me cuidar mais, mas se continuar desse jeito, vai me amedrontar e paralisar com trauma de algo que nem aconteceu. Eu não quero viver a minha vida com medo. Você quer? No momento eu preciso do seu colo e conforto e você desse jeito só está me deixando com medo e assustada. Eu quero a minha maman agora, depois você briga comigo.

– Sua lista de pendências para o futuro está cada vez mais extensa, Clarice. Já estou com receio de que irá ficar dias sem conseguir sentar direito.

– Viu só, isso sim é um motivo para me preocupar. Quem irá me proteger de você?

Val revirou os olhos. – Não fale asneiras, amour. Eu jamais faria algo que não fosse capaz de aguentar.

– Bem, eu tenho plena certeza que não aguentaria esse castigo.

– Já eu penso o contrário.

– Que tal a gente deixar para descobrir isso depois? Eu preciso de um abracinho seu agora… eu já estava morrendo de saudades antes de tudo isso acontecer.

A minha mulher poderia ser a pessoa mais inteligente que você pudesse conhecer, a mulher mais foda em vida e ainda assim, se souber seus pontos fracos, ela se torna um alvo muito fácil para manipular. Se ainda não sabe quais são os pontos fracos da Valquíria, eu te dou uma dica: começa com a “Cla” e termina com “Rice”.

Ela pode estar muito puta, mas nunca estará puta o suficiente para me negar o seu amor e carinho.

– Ah, eu ganhei +2 de vida agora – comentei ao receber o abraço da Val que veio até a mim na cama. – Já posso receber a alta.

– Teoricamente você já recebeu, só estávamos esperando acordar.

– Sendo assim, eu já estou pronta para ir para casa com o meu amorzinho. Todo o stress da noite está pedindo um dengo na cama com direito a tetê para relaxar.

– Você não tem mesmo jeito, não é Clarice? – Val me apertou um pouco mais em seu abraço e deu um beijo no topo da cabeça antes de se afastar. – Eu vou chamar os médicos para te examinarem e nós sairmos daqui.

Val saiu fechando a porta e de repente o quarto pareceu tão escuro. O silêncio interrompido apenas pelos bipis dos monitores me causou certo desconforto, receio. Trouxe meus joelhos para mais perto do meu peito e os abracei apertando o lençol com os dedos trêmulos, como se isso pudesse me ancorar à realidade, mas me sentia escorregar. Escorregar de um jeito não muito legal. Para um lugar não muito feliz.

Era a primeira que estava sozinha, completamente sozinha, desde que aquele… monstro… tentou me atacar. E meu coração que estava tranquilo e quieto até agora, começou a bater descompassado. Minha respiração perdeu o ritmo e sem perceber estava vasculhando todo o cômodo com o olhar. E se ele tivesse conseguido? E se ninguém tivesse me visto? E se tivesse sido pior? E se um dia for pior? Eu não acho que dessa vez, esse cara irá ficar preso como o Luís e nada descarta a possibilidade dele me encontrar de novo… não, isso não vai acontecer. A Val nunca iria deixar. Não, não.

Balancei a cabeça tentando afastar os pensamentos e me convencer que estava tudo certo, que acabou, que não tenho motivos para me preocupar, mas minha mente não obedece e meu corpo não acredita. E então, a porta se abre lentamente e meus pulmões se travam, o pânico escala num instante e a única coisa que me vem na cabeça é que é ele. Ele voltou. Ele veio terminar o que começou, mas antes que o terror me devore por completo e eu seja engolida por esse oceano, Val apareceu e sorriu para mim.

Como em um passe de mágica, a magia mágica de maman, o ar voltou aos meus pulmões, o coração encontrou seu ritmo e as sombras se retraíram para os cantos. Ela está aqui, eu estou bem. Bem e segura.

– Eles estão vindo, – ela veio para o meu lado e acariciou o meu rosto. – Está se sentindo bem? – Ela perguntou desconfiada e preocupada.

Eu não sei o que deu em mim para ter uma pequena crise de pânico, ou melhor, o início de uma pequena crise, assim tão de repente. E mesmo que tenha acabado num piscar de olhos, o meu amor é mais rápido em reparar meus detalhes que meu corpo em relaxar.

– Eu não gosto de hospitais… eu quero embora.

– Eu vou te levar para casa, mon amour – ela deu um beijo em minha mão. – Aqui, eu trouxe algo da máquina para você.

Val tirou do bolso um chocolate. Um kinder ovo.

– Não tinha o seu favorito, então trouxe esse com surpresinha que você adora.

De repente nada mais importava a não ser descobrir qual o brinquedinho que veio. Nem pensei duas vezes antes de pegar o kinder ovo que a Val me ofereceu e abriu. O médico e sua equipe chegaram e isso não foi o suficiente para atrair a minha atenção.

Montei as pecinhas rapidamente sem me interessar pelo manual. Quando terminei, exibi a maman orgulhosa.

– É um dino, maman! Um dinossauro!

A maman sorriu dando uma risadinha meio desesperada. – Oui, ma vie. Très beau, très beau. Maintenant, tais-toi, s’il te plaît!  (Sim, minha vida. Muito lindo, muito lindo. Agora fica em silêncio, por favor).

Eu não entendi muito bem o que a maman disse, mas eu entendi o seu olhar mandando ficar quieta. Será que o Dino estava atrapalhando os exames? Tá bom, eu vou ficar quietinha…, mas só porque eu quero ir embora logo.

Quando chegamos em casa, a maman me levou direto para o banheiro. Deixou a banheira enchendo, pegou uns produtinhos de banho para colocar ao lado e então se virou para mim com um sorriso e séria.

– Vamos tirar a sua roupa, bébé. Eu quero ver você.

– Me ver?

– Oui, te ver.

A maman me ajudou a tirar roupa, peça por peça e faltou pouco para me revirar de cabeça para baixo. Quando ela disse que queria me ver, não achei que fosse literalmente me ver em cada milímetro do meu corpo como se tivesse procurando algo.

– Você está um pouco vermelha aqui, – a maman estava ajoelhada ao meu lado e a parte que se referia era a lateral da coxa, próximo ao meu bumbum. – O que aconteceu? Me diga a verdade.

– O… uh… o cara mal… ele tentou me segurar e eu… eu…

Você…?

Eu não queria falar. Se eu contasse para a maman que eu bati em alguém ela iria ficar muito, muito brava com eu. E eu num quero mais uma punição na minha listinha de pendências do futuro.

– Meu amor, por favor, eu preciso entender o que aconteceu essa noite.

– Você ‘pometi que num vai ficar brava com eu? E nem vai deixar de castigo?

A maman me encarou preocupada. – Prometo, meu amor. Pode me dizer a verdade, você não será punida por isso.

– Eu… eu… eu bati no cara mal… do jeito que você bateu no outro cara mal há um tempão atrás e aí ele me empurrou e cai de bunda no chão…

– Você deu um soco no infeliz? – Confirmei com a cabeça. A maman colocou a mão de baixo da minha costela. – Aqui? Nessa região?

– Sim, maman… desculpa eu?

– Desculpar? Eu estou orgulhosa de você, bebê. Você fez certo – a maman se levantou e me puxou para um abraço, me recebendo com um beijo no topo da cabeça. – Eu não estou dizendo para sair socando as pessoas por aí, mas se defender não é problema. Acho que já passou da hora de te ensinar algumas coisinhas… já deveria ter feito desde que saiu daquela casa infernal.

– Então você não tá brava com eu?

– Non, mon amour. Tem algum lugar mais que tenha feito algum dodói que a maman não conseguiu ver?

– O bracinho aqui tá um pouco dodói, mas num ficou vermelho – mostrei onde o cara mal me apertou. – Mas só dói se tocar… num é um dodói dodóizão. Um beijinho e vai sarar.

A maman pegou o meu bracinho delicadamente e deu um beijinho onde fazia dodói. – Assim, petite?

– Uhum! Mais um para garantir.

Recebi não só um, mas três beijinhos extras. – Chega de beijinhos por hora, agora só depois do banho, okay? Já está muito tarde para esse neném estar acordado.

– Mas e o tetê?

– Você vai ter, ma vie. Eu também preciso esvaziar para conseguir dormir, já passou muito da hora do seu mamar.

– Então tem um tanto de leitinho pra eu?

– Banho, Clarice.

– Entra comigo?

Esperava que a maman fosse recusar, mas ela só começou a tirar a sua roupa também e entramos as duas na banheira.

O nosso bainho foi regado de carinhos e beijinhos. Com a maman comigo eu nem quis brincar com as bolhas, o que eu queria mesmo era me aninhar no seu peito – fazer uma boquinha – e aproveitar o contato pele a pele. Estar pele a pele com a maman sempre é muito bom. Aquece o coraçãozinho e cura onde tá dodói.

Quando terminamos, a maman me fez deitar na cama, passou um creminho no meu corpo todinho, acho que procurando mais uma vez algo que não tivesse visto ainda. Estava com tanto sono que eu não liguei, nem quando percebi que também estava inspecionando minhas partes. Não que alguma coisa tivesse acontecido lá em baixo, mas fiquei com um pouquinho de vergonha. Reclamar da sua demora só iria fazer demorar mais e eu queria meu tetê logo.

– Num quero pijaminha, maman. Vem mimir.

– Vai dormir só de fralda e meia?

– Uhum.

– E não vai ficar com frio?

– Não porque eu vou mimir agarradinha com você.

A maman me encarou, mas não respondeu. – Tudo bem, eu vou guardar isso então.

Esperar a maman e seu ritual acabar foi uma tortura longa e sofrida, mas quando veio para cama eu fiquei um montão feliz. Finalmente o meu tetê todinho para mim e cheião de leite.

Quentinho e docinho, eu estava lavando a minha alma com o leitinho da minha maman. Se eu fiquei com medinho mais cedo eu nem lembrava mais. Agora mesmo, tudo que eu conseguia sentir era amor, conforto e segurança. Exatamente o que eu precisava. Exatamente o que eu queria.

Mamei todo um lado um pouco mais rápido que o normal por estar com fome e saudades, já o segundo eu aproveitei mais o meu momento indo devagar antes que acabasse também. Se maman não reclamasse, eu não precisava ter pressa e ela estava bem distraída com o seu celular.

Aleatoriamente a conversar com a Maris me veio a memória e então me surgiu uma curiosidade.

– Maman?

– Oui, ma petite.

– Você esconde alguma coisa de mim?

Pardon?! Je ne compris pas (Perdão?! Eu não entendi).

– Tipo um segredo. Alguma coisa que não me contou para me poupar.

– De onde surgiu essa história, Clarice?

– A Maris me contou que você pediu ajuda dela para me ajudar e disse que as mamans tem mania de fazer coisas em segredo para proteger seus nenéns…, mas maman também falou que tem que ser sincera e falar a verdade. Então por que escondeu isso de mim?

– Eu, uh… você estava muito doente, ma vie. Eu queria que tivesse o máximo de descanso e relaxamento possível, por essa razão tratei alguns assuntos do processo sem te envolver.

– Num pode fazer isso, maman. É feio. Num foi assim que a maman ensinou!

– Você não pode me dar uma lição com as minhas próprias regras, mocinha.

– Posso sim. E vou te deixar de castigo.

– Clarice, quatro da matina, vamos dormir.

Me afastei da maman para a encarar desconfiada. – Você não está escondendo segredos de mim, está?

– Je… Clarice, são quase quatro e meia da madrugada. Você está com sono, eu estou com sono. Termina de mamar e vamos dormir. Qualquer conversar agora podemos deixar para depois.

– Mas…

– Se não voltar a mamar agora eu vou guardar o seu tetê e vamos direto dormir.

Quis protestar, mas não iria arriscar perder meu tetezinho, então me rendi.

Dessa vez a maman venceu.

Mas só dessa vez!

«-»

Gostou? Não esqueça de comentar! Até a próxima…
Au revoir!

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

error: Content is protected !!