« V A L K Y R I E »
Sair mais tarde no trabalho também significava pegar o ápice trânsito em São Paulo. Eu me sentia sem sair do lugar parando de semáforo a semáforo para chegar na creche do Chloée. Sim, agora essa fazia parte da minha rotina diária; levar e buscar o Chloée da creche. O que não fazemos por amor.
– Maman?
– Oui, ma vie.
– Eu molhei.
Virei para Clarice para entender o que quis dizer com “molhei” e a princípio não vi nada.
– Molhou onde, meu amor?
– A fraldinha.
– E vazou? – Clara negou com a cabeça, na via das dúvidas eu a apalpei de leve para conferir. Ela estava seca. – Então está tudo bem, meu amor. Logo chegaremos em casa e vamos tomar um banho.
Clara concordou com a cabeça e voltou a prestar atenção na rua. Foi o tempo da música acabar e nós avançarmos um semáforo para ela se virar para mim outra vez.
– Maman?
– Oi, bebê.
– Qué uvinha.
Aproveitei que o trânsito estava totalmente parado para me virar completamente para Clarice. Será que eu estou ouvindo coisas ou entendi errado? A minha pequena realmente me pediu algo? Pode soar banal e irrelevante, mas estamos falando de alguém que só me pede peito ou para cozinhar algo. São raríssimas vezes que vejo a minha namorada e bebê expressar um desejo ou vontade, ao menos não para mim. Isso me deixa levemente frustrada.
Entendo o desconforto de Clarice comigo. Ela não quer que eu interprete errado, que veja seu pedido como uma forma de interesse ou de tirar proveito, mas eu sou a sua namorada e maman. Eu deveria ser a primeira pessoa que viesse a sua cabeça quando precisasse de alguém ou algo. Mas não é bem assim. Se eu quiser mimar a minha namorada e bebê, eu preciso adivinhar ou decifrar o que quer e o que gosta. Tudo isso pisando em ovos com medo de que ao invés de agradar, acontecer justamente o contrário.
Havia um mercado daqueles de produtos orgânicos próximo a creche do Chloée. Então primeiro buscamos o cachorro e depois passamos por lá, porém, Clarice teria que ficar no carro com o filho já que o mesmo não poderia entrar conosco.
– Tem certeza que só quer uva? Nada mais?
– E água de coco, – ela respondeu empolgada. – Já tem banana em casa.
– D’accord, ma vie. Eu vou lá então, qualquer coisa você me liga e se for andar com o Chloée usa a coleira, ok? Eu não demoro.
Apesar de ser alucinada por doces e açúcar, Clarice tem muito gosto por frutas. Ao menos o seu lado pequeno adora quase todas elas, especialmente banana, e depois do hospital tem comido algumas vezes durante o dia. Para quem vivia de fast-food ou absolutamente nada, esse é um grande avanço a qual eu me orgulho – e incentivo – muito. E foi por isso que comprei a uva, os cocos verdes e umas frutas a mais que eu sei que ela gosta.
Não demorei muito preocupada com o que uma pequena poderia causar caso o tédio lhe batesse. Felizmente, Clarice estava bem comportadinha ao lado do carro acompanhando o Chloée.
– Acho que ele quer fazer pipi, – Clarice comentou assim que me aproximei dela.
– Pode ir lá, mas não vai longe.
Era óbvio que um cachorro de Clarice teria suas manias. O Chloée só fazia xixi em superfícies “fofas” e “absorventes”, seja grama, tapetinho higiênico ou o próprio tapete da minha sala. Xixi no concreto ou em qualquer lugar que poderia formar uma poça e sujar suas patinhas? Não, isso é demais para o cachorrinho… pensando bem, isso provavelmente seria uma mania que eu teria se fosse um cachorro também.
Estava colocando as sacolas no porta mala enquanto Clarice estava com o Chloée na grama que tinha perto. Talvez eu tenha exagerado um pouco nas frutas ou talvez fosse o fato de ter pego alguns cocos verdes e melancia, mas até que o carrinho estava um pouco cheio para quem ficou pouco tempo no mercado.
Faltava apenas as últimas sacolas quando ouvi gritos atrás de mim.
– Você! Sua vadia fran…
– Val!
Tudo aconteceu tão rápido. Quando olhei para trás estava a desgraçada da Claudia quase em cima de mim prestes a me atacar se não fosse Clarice que foi mais rápida e se meteu no meio para a empurrar para longe. Apesar de fofa a atitude da minha namorada, não foi muito efetivo tendo em vista o tamanho e a força de um Chloée.
Por reflexo Claudia empurrou Clarice para o lado a fazendo desequilibrar e cair de bunda no chão. Chloée tentou avançar na puta e foi puxado de volta pela coleira. Minha vontade e meu coração pediam para ir socorrer a minha pequena, mas Claudia veio para cima de mim me impedindo.
– Eu sei que foi você! Sua vadia francesa! Eu vou acabar com a sua raça!
Quer uma dica para vida? Se um dia precisar iniciar a briga com alguém, especialmente alguém que luta muay thai e krav magá há mais de vinte anos, nunca, em hipótese alguma, venha com a defesa aberta e peito exposto.
Claudia veio para cima de mim com intenção de dar um tapa ou puxar meu cabelo, eu sinceramente não entendi. Antes que isso acontecesse, eu agarrei sua cabeça pelas orelhas e puxei para baixo de encontro com o meu joelho. Sem lhe dar tempo para reagir, dei outro chute, dessa vez um frontal em seu peitoral a fazendo cair deitada no chão. Me aproximei dela agachando ao seu lado e agarrei a gola da sua camisa a puxando para perto de mim.
– Oui, você tem razão. Fui eu que enviou aquelas imagens para o seu marido. E me parece que ele não gostou muito de saber o que a esposa anda fazendo por aí com garotas vulneráveis.
– Nós temos dois filhos pequenos, você não tinha direito! – Claudia respondeu visivelmente com dor. Provavelmente um nariz quebrado… mais um para a minha lista.
– Pensasse neles antes de se aproveitar da vulnerabilidade de outra pessoa.
– Não pense que irá ficar assim, eu vou reportar para o Apex…
– Você não vai reportar nada. Como você mesma disse, as regras da casa não se aplicam em que não faz parte dela.
– Sua filha da puta! Isso não vai ficar assim! Eu vou acabar com você.
– Não seja ainda mais tola, Claudia. Não pense que isso foi tudo e ainda tenho muitas outras formas para foder com você e a sua família. Ouse fazer algum mal a minha pequena e vou te dar outros motivos para me ter em seus sonhos.
– Você se acha muito superior, Valquíria. Quero ver se irá continuar com essa sua pose quando a sua pequena te trocar por outra melh… – a interrompi com um tapa que serviu para lavar a minha alma do ódio guardado.
– Maman! – A Clarice me chamou atrás de mim, pela sua voz estava chorando.
Foi necessário um autocontrole surreal para não largar essa puta e ir até a minha pequena e principalmente, um autocontrole que não sabia de onde tinha para ter dado um tapa e não um soco.
– Você tem sorte que a minha pequena está aqui senão já teria desconfigurado esse se rosto, – disse mais baixo para a Clarice que agora estava mais perto não ouvir.
– Maman! Por favor…
Me coloquei de pé e coloquei a desgraçada de pé também. Por mais que eu ainda estivesse com ódio e me controlando para não a descer no soco, não seria covarde em a deixar largada no chão ensanguentada. Aproveitei também para limpar em sua roupa o pouco de sangue que ficou na minha mão depois do tapa.
-Não brinque comigo, Claudia. Você sabe que não estamos no mesmo nível.
Clara me puxou para mais perto dela, me afastando da diaba lactante. Claudia limpou o rosto com a mão e saiu furiosa. Por mais que ela soubesse que a minha ameaça era real e eu não pensaria duas vezes antes de foder ainda mais a sua vida e arrastar sua família junto, talvez seja sensato ficar de olho nessa mulher por um tempo.
Não eu. Eu tenho mais o que fazer.
– Você se machucou? – Perguntei a Clara. A coitadinha estava chorando com o Chloée nos braços.
Clara balançou a cabeça rapidamente e me encarou fazendo bico. – Você… você… você é uma vilã maldosa?
– Quoi?! Non! (Que?! Não!) Ma petite, eu… – dei um passo para perto e Clara deu outro para trás. – Você está com medo de mim?
– A maman… a maman fez dodói… fez dodói na tia má…
– Tia é o caralho! Aquela vadia é uma filha da pu… – respondi na força do ódio e parei no meio da frase para respirar fundo. Ela está pequena, Valkyrie. Controle suas emoções e não assuste ainda mais a sua bebê, s’il te plaît (por favor). – Pardon (desculpa), ma petite. Aquela moça não é uma tia. Ela é a verdadeira vilã, não eu.
– Mas ela-ela… a maman… a maman… cruel… bate… dodói… castigo.
Clarice estava nervosa e chorando muito para dizer uma frase coerente. Ficar ali não era uma boa ideia, especialmente que estávamos em um espaço público e mais gente poderia aparecer.
– Entra no carro, ma petite. Vamos para casa e lá nós conversamos – Clarice ficou parada me olhando. – Ma vie, você não precisa ter medo.
Clara estava prestes a dar um passo em minha direção e desistiu no meio do caminho, virando para o lado e indo para o seu lugar no carro. Era só o que me faltava agora… por causa dessa desgraçada lactante, a minha pequena está com medo de mim também.
Se bem que… eu peguei um pouco pesado. Não havia necessidade nenhuma em dar uma joelhada no nariz dessa puta, ainda mais sendo um dos meus golpes mais fortes, mas eu não resisti. Ainda me corroo de raiva ao lembrar das imagens dela com a minha pequena. Imagine a tortura que foi editar essa merda para cobri o rosto da minha bebê e não a expor nessa brincadeira toda. Poderia pagar alguém para fazer, mas só a ideia de ter outra pessoa vendo a vulnerabilidade da minha e só minha mulher sendo aproveitada dessa forma me dava nos nervos.
Os pensamentos me fizeram bater o porta-malas do carro sem querer. Putain, Valkyrie! Se acalme… respira fundo.
O trajeto para casa foi em total silêncio. Nem mesmo o Chloée que parece ficar ligado aos 220vlts quando estamos na estrada estava na janela como de costume. Toda essa situação estava me deixando tensa e nervosa. O que eu vou fazer com a minha neném? Logo hoje que ela foi mais a fundo em sua regressão.
– Chegamos, bebê – eu disse ao desligar o motor do carro no estacionamento do prédio.
Clara se virou para mim mordendo o lábio inferior como quem estava segurando o choro. Eu fiquei sem reação sem saber o que poderia fazer, ela estava com medo de mim. Eu sou o motivo das suas lágrimas agora.
– Maman!
Os cenários que vieram à minha mente não me preparam para o que aconteceu. Clarice se soltou do cinto e veio para cima de mim pedindo colo. Empurrei o banco do carro para trás para nos dar mais espaço e a abracei forte.
– Está tudo bem, meu amor. Você está segura. A maman não vai te fazer nenhum mal.
– Mas é que… é que… – Clara tentou responder, mas estava chorando aos soluços.
– Calma, bebê. Respira – limpei suas lagrimas com os polegares fazendo um carinho. – A maman não consegue te entender se você estiver muito nervosa, – usei a voz mais mansa e suave possível, mas não surtiu muito efeito.
Essa situação estava me deixando assustada. Eu quero ser o porto seguro da Clarice, não o contrário. Sei que o seu lado grande rapidamente iria ficar confortável comigo de novo, mas a minha bebê é exatamente isso, uma bebê.
Com receio de ser rejeitada, ofereci o tetê para a Clara sem me importar com onde estávamos já que não era possível enxergar dentro do carro. Felizmente a minha pequena abocanhou meu seio e algumas sugadas depois senti o leite descer.
– Você está segura com a maman, ma petite – fiz um cafuné em suas madeixas loiras, – a maman nunca te fará algum mal. Você é o meu bebê, a minha petite. E eu te amo.
Clara soltou o peito para me encarar. – Mas é que… você… você disse que iria dar palmadas no neném… um montão de palmadas no neném… e a maman… tô medo.
– Você está com medo que eu vá bater em você como eu fiz com aquela filh-bruxa lactante?
– É que… a maman é muito foti… vai fazer dodói no neném.
Mordei o lábio inferior para conter a minha reação. Eu estava quase explodindo de fofura com a carinha que a minha bebê fez e o seu jeitinho todo manhoso e fofo de falar. Então era isso que as outras mommies estavam falando quando ficavam morrendo de amores por seus babies e eu sem entender?
– Mon bébé, você é o meu bem mais precioso e delicado. Eu nunca, nunca vou te machucar. As palmadas que a maman dá no neném são para o próprio bem do neném.
– Num é maman… palmadas fazem dodói no bumbum.
– E a maman não passa pomadinha para sarar depois?
– Sim.
– Pois é. Você se lembra que aprontou muito enquanto eu estava fora e se colocou em perigo, quase se machucou e poderia acabado muito mal? – Clara ficou vermelha envergonhada e balançou a cabeça tímida. – Você conquistou muitas palmadas depois disso e até agora ainda não recebeu nenhuma delas. Sabe por que?
– Não. Por que, maman?
– Porque elas não são para te machucar, são para te corrigir e ensinar uma lição. É para que no futuro, quando estiver prestes a se aventurar, lembrar do bumbum dolorido e não fazer nada para deixar a maman brava. Só que quando a maman chegou aqui, viu que a minha bebê precisava de colo, aconchego e amor e deixou as palmadas para depois. Se fosse para te machucar como aquela bruxa malvada, a maman não iria se importar com o seu bem estar primeiro.
– Então a maman não vai fazer dodói no neném?
– Nunca, meu amor. A maman só é forte para proteger o neném, não machucar.
Clara me abraçou me fazendo sentir um grande alívio no peito. – Eu amo muito você, maman.
– E eu também te amo muito, ma vie
« C L A R I C E »
Eu nunca pensei que diria isso um dia, mas preciso admitir: ver a minha namorada dando golpes na maluca lá – para me defender – foi a coisa mais sexy que eu já vi. Cheguei à conclusão que a Val poderia me chutar e eu estaria agradecendo por ser acertada por sua perna torneada de pele macia e longa.
– Que cara é essa, Clarice? – Val perguntou com certo tom de julgo quando saiu do banheiro após seu banho. – Está muito suspeita.
– Estava pensando sobre o que aconteceu hoje, – Val parou o que estava me fazendo para me encarar preocupada.
– E o que pensou?
– Que a sua skin lutadora brava é sexy. Você também usa aquelas roupas curtinhas dos lutadores? Deve ficar maior gata.
Val riu balançando a cabeça. – Incroyable, mon amour. Há poucas horas você estava com medo de mim perguntando se era uma vilã maldosa e agora está dizendo que a cena toda foi sexy? – Ela se sentou na beira da cama ao meu lado. – Você se lembra do que aconteceu?
Hmmm… essa é uma pergunta complicada.
Não é que eu me recordo de tudo nos mínimos detalhes. Não me lembrava de chamar a Val de vilã, por exemplo, mas lembro dela ter dado um chutão naquela loira filha da xuxa que quase acabou com o nosso relacionamento.
– Em partes, – respondi. – O mais importante eu me lembro; a surra que deu na loira louca. O que você fez para ela, hein?
– Enviei as mesmas fotos e o vídeo para o marido dela, – a encarei incrédula. – Com seu rosto censurado, claro. Eu não queria te expor também, meu objetivo era só afetar a Claudia.
– E isso não é sei lá, contra as regras da casa? Você não vai ser punida por isso.
– Ela ter te tirado de dentro do Apex também era contra as regras da casa, mas de acordo com ela, como você não era membro as regras não contavam.
Fiquei reflexiva por um momento. – Você não acha que… foi um pouco dura na vingança? Ela é mãe, não é? Isso provavelmente irá afetar a vida dos filhos.
– Duro foi o meu joelho na cara dela, Clarice. Essa puta merecia mais. Você não tem ideia do que a Claudia já aprontou no Apex. Ela achava que só por não transar propriamente dito não estava traindo o marido e desse jeito a cabeça daquele homem tem mais galhos que uma árvore de natal.
– E qual a rixa dela com você? Vocês brigaram, foi?
Val revirou os olhos. – Tem certeza que quer saber?
Essa pergunta vinda da minha namorada era um sinal de alerta muito grande, daqueles que vem em placa neon e letras garrafais. Levando em consideração o passado sórdido da minha mulher, qual o nível da minha evolução para ouvir isso em paz? Seria meu lado fofoqueiro maior que o meu ciúme? Mas… se a Val já se envolveu com outra mulher eu preciso saber. Até então eu achava que era sua primeira mulher em tudo… será que nem isso?
– Quero, – comecei a palavra com determinação e terminei com certo receio.
– Eu transei com o marido dela…, mas antes que me julgue, eu não sabia que ele era marido dela. E Claudia se revoltou porque antes disso ela estava há meses tentando me levar para cama. Até hoje não sei se ele flertou comigo porque sabia do interesse dela em mim primeiro.
– A Claudia queria transar com você?!
De repente eu me senti uma peça de um jogo. Claudia se aproveitou da minha vulnerabilidade para atingir a minha namorada, ela nunca teve interesse em mim. E agora eu estou ainda mais revoltada em saber que essa piranha queria transar com a minha mulher.
– Ela não era hétero ou algo assim?
– Pelo o que se fala no Apex, ela nunca teve relação sexual com as pequenas dela, nem mesmo a Madu que durou alguns anos. Eu sinceramente não sei dizer, acho que é bi de balada e que pratica ageplay não sexual(?).
– Você já quis ir para cama com ela? – Cruzei os braços e a encarei séria. – Você já se interessou por outra mulher que não fosse eu, Valkyrie?
Val mudou a postura ao ouvir seu próprio nome. Sua áurea autoconfiante e inabalável se dissipou exibindo sua faceta que poucos conheciam. E arrisco dizer que parte dela só eu conhecia.
– Eu… uh… olhando para trás, hoje eu reconheço que alguns das minhas obsessões eram muito mais que um hiperfoco autista…, mas na época não cogitava ou tinha interesse em ter algum relacionamento romântico, – ela respondeu com certo receio e preocupação. – Com você foi diferente. Pensei em te beijar desde o dia da entrevista… para não dizer outras coisas.
– Você só está me dando mais provas para a minha teoria de que você só me contratou porque queria me levar para cama.
– Non! Clarice, non!
A reação da Val me fez dar boas gargalhadas. – Meu amor, eu estou brincando com você. Não leve a sério o que disse.
Coitada do meu amor, ela acredita em qualquer coisa que eu fale, mesmo sendo a maior asneira.
Para não a deixar mal e reflexiva com o seu próprio autismo, eu a abracei subindo em seu colo e enchi de beijinhos para a distrair. Se deixar, uma coisa pequena como essa seria o suficiente para desencadear a neurose da minha mulher de ser a “perfeita neurotípica” mesmo isso não existindo fora da sua cabeça.
– Bem, pelo menos o dia de hoje serviu para me ensinar uma coisa.
– O que?
– Que eu não quero apanhar de você… ao menos não para valer.
– “Não para valer”? Já está me imaginando te batendo, é?
– Não foi o que eu falei.
– E ainda teve coragem de dizer que não seria minha submissa.
– Talvez eu seja para a sua skin Valquíria Vilã.
Val me jogou na cama deitada e engatinhou para cima de mim. – A versão vilã não é boazinha como a maman. Tem certeza que é o que você quer? – Ela deu beijos perto da minha orelha descendo para o pescoço enquanto subiu a mão por debaixo da minha camisa, me fazendo arrepiar.
– Eu aguento.
Gemi ao sentir Val morder o bico do meu seio ao mesmo tempo que apalpava o outro. Poucos segundos foram o suficiente para entender que com a versão “vilã” eu sentiria por alguns dias o nosso sexo em meu corpo. Ela não estava sendo nada piedosa com meus seios… e é horrível admitir o efeito direto que isso estava causando em minha calcinha.
– Não se empolgue tanto assim, ma vie. Eu não vou fazer nada desse gênero com você hoje.
– Por que não? – Perguntei tentando disfarçar minha frustração.
– Você não está preparada para isso, – a encarei confusa. – E esse é o motivo pelo qual eu estou no comando, – ela apoiou a cabeça na mão deitada ao meu lado e passou a acariciar o meu cabelo. – É óbvio que eu gostaria de foder você agora mesmo. Por mim ficaríamos a noite toda assim. Mas, você confiou seu controle em mim, isso significa que eu não posso sair agindo pelo tesão e ignorar o seu bem-estar.
– Eu estou bem agora.
– E há poucas horas estava chorando com medo de mim. O que aconteceria se fizermos algo mais intenso e você regredisse no meio de tudo? Você anda muito instável ultimamente e tenho impressão que parte disso tem a ver comigo. Um tom de voz meu mais duro já é o suficiente para desencadear uma crise, eu não posso arriscar outras coisas.
– Não tinha pensado por esse lado.
– Claro que não pensou, isso são coisas que sua maman precisa pensar.
Me aninhei contra o pescoço da Val inalando o seu aroma, o meu favorito. – Nós ainda podemos fazer amor?
– Quand tu veux (sempre que quiser), mon amour.
– Pelo visto essa noite foi longa para você, – Theo comentou em tom jocoso, se sentando ao meu lado após voltar do seu almoço.
Eu estava com tanto sono que acabei tirando um rápido cochilo na minha mesa enquanto ninguém voltava.
Você realmente achou que leria mais cenas de sexo dessa vez? Pode ir tirando o cavalinho da chuva. A noite realmente foi longa para nós. Fizemos amor algumas vezes, trocamos carícias, conversamos, rimos e de repente já era quase a hora de levantar. Mas isso, isso era coisa que iria guardar para nós.
– Vocês duas não conseguem ser discretas mesmo, – ele riu.
– Hã? Como assim? – Perguntei sonolenta e confusa.
– A sua chefe também estava aérea e cheia de bocejos essa manhã. Que coincidência, não?
Bocejei me espreguiçando na cadeira. – O nome disso é “clima de feriado”. Já parou para pensar que em alguns dias estaremos de recesso de fim de ano? Duas semanas de paz e tranquilidade.
– E você já decidiu o que fará no natal? Estou ficando preocupado. Está todo mundo indo para algum lugar e só você que ainda não disse nada. Não quero que fique aí sozinha. Eu sei que é um pouco em cima da hora e as passagens devem estar caras, também não sei como está a situação da sua herança, se já recebeu algo, mas a minha mãe vai adorar te reencontrar. Você pode vir passar o natal conosco em Portugal.
– Se eu aceitasse isso era capaz de carros serem incendiados nesse lugar no minuto seguinte. Aborrecer um francês é perigoso.
– Você acha que ela não irá gostar?
– Você ainda tem dúvidas? Ela ficaria duas vezes puta: por eu ter ido passar o natal com outra pessoa que não fosse ela e por aceitar fazer uma viagem de avião tão longa tão facilmente.
E depois de ontem, eu que não sou doida de querer emputecer a minha mulher. Ela é muito mais brava e perigosa que eu imaginava. Se fosse italiana, eu estaria começando a me preocupar com a possibilidade de descobrir que também é mafiosa. Seria um plot twist e tanto… a minha sogra tem uma vibe Don Corleone e que dá ordens com o olhar.
Meu deus… talvez eu devesse pesquisar sobre a família Touchon antes de pisar na França, vai que…
– Nós vamos passar o natal juntas com a família dela em algum lugar da França, – eu continuei. – Se eu estou feliz atravessar o oceano em uma lata flutuante ou passar duas semanas congelando no inverno? Nem um pouco, mas a ideia de passar o feriado transando me anima.
– Você está indo conhecer a família da sua namorada e está pensando em sexo? Acha mesmo que será possível com todo mundo por perto?
– Para tudo há solução, Theo. E não acho que vamos ficar todos os dias com a família dela… assim espero. Minha cota de paciência com gente rica é limitada, – de repente surgiu a curiosidade. Theodore conhece a Val há anos, será que ele sabe alguma coisa? – Você conhece a família da… – Não pude citar o nome pois Matheus e a Barbara chegaram naquele instante nos cumprimentando.
Quando o ambiente estava seguro para continuarmos a conversa, Theo se virou para mim. – Não muito. Ela é muito reservada sobre a vida pessoal. Eu só fui descobrir que a mãe dela é a mãe dela quando saiu em uma revista as duas juntas. Mas isso foi na Europa, acho que nem chegou ser publicada por esses lados não.
– É, eu também descobri no jantar com meus sogros… foi um choque e tanto. Depois me senti burra por nunca ter reparado no sobrenome. Como que ninguém percebeu isso antes?
– Ué, tem gente que nem sabe o primeiro nome dela. E diferente do Martin e o André que faltam fazer um outdoor com o nome deles em cada obra, a nossa chefe está nem aí.
– Tá, mas você não me disse o que sabe.
– Ah… os pais dela moram numa vinícola na capital do champagne, onde ela nasceu.
– Isso eu sei. Meu sogro estava me falando da época de colheita e que eles colhem a mão cacho por cacho e tem toda uma tradição ao redor disso.
Theo ficou pensativo. – Foram poucas vezes que ouvi histórias de família…, ela reclamava muito na época que estava noiva. Ela queria um casamento pequeno e só com pessoas que realmente importava, mas a avó queria fazer da festa o evento, o Pedro concordava e queria também. Fora que ele queria ir para a França e a Val sempre dizia que não suportava morar lá, acho que tem a ver com não se dar bem com os primos ou algo assim.
– Aí deus, espero que eu não vá passar raiva…
– Boa sorte… qualquer coisa estarei a uma viagem de trem de distância. Pode trazer a sua mulher junto se quiser.
Eu estava propositalmente não pensando muito nessa viagem. Apesar da viagem de avião e o tempo frio, o que realmente me preocupava era os parentes da minha mulher. Se não gostarem de mim? Meu tempo de duolingo não me tornou fluente na língua deles e se não falarem português ou inglês, serei incapaz de me comunicar com eles. Tudo bem que a Val não parece se importar muito com a opinião alheia, ainda assim queria ter o mínimo de convivência amigável com a família da minha amada.
– O que você vai fazer depois do trabalho? Preciso de ajuda para encontrar um presente de natal e aparentemente a Laris anda muito ocupada para sair com os amigos.
– Oxe, o que ela anda aprontando? Enfim, você não é o único que precisa de ajuda. Já pensei em muitas e até agora não me decidi o que comprar. É difícil escolher um presente para alguém que pode comprar tudo.
– Já pensou em fazer algo personalizado? Tipo pintar um quadro?
– Eu acabei de dar um quadro para ela. Preciso variar ou vamos acabar abrindo um museu.
– E nem mostrou fotos… você já foi melhor, Clarice.
Nossa conversa parou no momento em que nossa chefe saiu da sala brava com a sua típica cara de poucas ideias e veio em nossa direção desfilando em passos firmes. Sem dizer nada, Valquíria me entregou o seu celular, cruzou os braços e desviou o olhar como quem não quer admitir algo.
– Você precisa fazer de novo, – ela disse com o sotaque carregado, sinais de que seu humor não estava nada bom.
Bastou olhar a tela do celular para saber o que era. Se a Val não estivesse tão brava e outras pessoas não tivessem ao nosso redor, eu teria tirado sarro da cara dela. Mas no momento, devido as questões de hierarquia do trabalho, eu precisava fingir respeito.
– Eu preciso?
– Ah, oui, oui, eu… eu preciso, – ela admitiu com dificuldade, a voz quase não saindo. – Anda logo com isso… por favor.
Balancei a cabeça em negação e atendi ao pedido da minha mulher. Eu sei que para ela é difícil admitir que eu estou certa e ela errada, mas tudo bem. Eu sou uma pessoa paciente.
– Voìla, mademoiselle – eu entreguei de volta o celular. – Quer que eu te ensine?
– Non.
– Se você diz.
– Merci.
Val voltou para a sua sala um pouco menos brava. Em momentos como esse, todo mundo a evita tal qual diabo fugindo da cruz. Inclusive eu. Eu também tento ficar longe…, mas por motivos diferentes. Já namorou uma ninfomaníaca? É perigoso. Capaz de esquecer – ou ignorar propositalmente – as razões pelo qual precisamos nos manter em segredo e sigilo. Se a minha namorada não pode ser racional, eu sou por nós duas.
E com esse humor, como é que eu mando uma mensagem para sair com o Theo? Ai, ai… esse negócio de ficar pedindo autorização. Isso não vai dar certo.
– E aí, vamos? – Theo perguntou nos últimos minutos do nosso expediente. – Eu estou afim de comer algo também.
– É, hmmm… – olhei para a sala da Val, a porta estava aberta e por sua concentração, não irai sair tão cedo. Como eu falo para o Theo que tenho que pedir permissão sem parecer uma cadela mandada? – Deixa eu só… me despedir(?).
– Vou te esperar lá em baixo então.
– Okay.
Levantei da minha cadeira e me aproximei da sala da Val. Há uns meses não a vejo perder a hora de tanto trabalhar… tudo bem que ela só deixou de trabalhar no escritório para fazer o mesmo em casa, ainda assim gosto da sua atenção para mim. Será que eu estou mal acostumada?
– Toc, toc – eu disse ao abrir a porta. Val levantou o olhar para mim. – Eu já estou indo. E o resto do pessoal também… pela a sua cara você vai continuar aí.
Como não tinha mais ninguém por perto, eu entrei e encostei a porta.
– Desculpa, ma vie. Eu realmente preciso terminar isso hoje. Você não vai ficar chateada comigo vai?
Parte de mim achava fofo como a minha namorada saiu de uma “viciada em trabalho” para “peço desculpas por fazer hora extra” por minha causa. Pelas as histórias que já ouvi dos meus sogros, a Val tem um histórico nada saudável em relação ao seu trabalho e por isso eles vieram da Franças as pressas quando suspeitaram que isso se repetia. Mas agora eu estou aqui e vou cuidar dos hábitos não saudáveis do meu amorzinho.
Eu sentei no colo dela e a envolvi pelo pescoço. – O Theo me chamou para sair.
– Você quer ir com ele?
– Você deixa?
– Oui, ma vie. Pode ir, te encontro em casa.
– Nana nina não! – Fiz sinal negativo com o dedo. – Você sozinha aqui vai perder a hora e eu não vou querer ninguém chegando em casa depois da meia noite! Você vai me buscar… ou o Theo vai me levar para a Glória e você irá dormir sozinha.
– É muito feio ameaçar a sua maman, mocinha. Eu posso te dar um castigo por isso.
– Deixar a sua petite sozinha também é muito feio, – rebati. – Me liga quando estiver saindo ou eu vou te ligar quando quiser ir embora, – dei um beijinho rápido nela, me levantei e inclinei para falar perto do seu ouvido. – E se for tirar o leite, deixa um pouco para eu mamar antes de dormir!
– Você está demandando demais, petite.
– Você disse que iria cuidar de mim e do meu bem-estar. O que mais poderia me deixar mais feliz e saudável? – Ela balançou a cabeça rindo. – Não demora, viu? Te amo.
– Eu também te amo, mon bébé.
Roubei mais um beijo e saí. Se não fosse o Theo me esperando no saguão, eu teria atrapalhado o trabalho da Val só mais um pouquinho. Ela nem me deu atenção essa tarde. Um absurdo! Onde já se viu trabalhar no trabalho?! Ela é diretora, deveria colocar os outros para trabalharem em seu lugar.
Deixei minhas frustrações de lado para ir me encontrar com o Theo. O objetivo era presentes de natal e acabamos nos agraciando com umas blusinhas. Era mais fácil encontrar algo para usar no festival de amanhã que pensar num presente para a Val.
Nós rodamos todo aquele shopping de rico. Depois de muito procurar, Theo achou algo para dar de presente. Eu fui capaz de encontrar algo para os meus sogros e nada para a minha namorada. Por fim, acabei entrando em uma joalheria, daquelas que tem duas, três mesas onde você se senta e é atendido por alguém de uniforme social, falando manso e que toca nas joias com luva. Loja que iria me deixar ainda mais pobre do que já estou, mas o que mais poderia dar de presente de natal para essa mulher? Ao menos anéis ela usa aos montes, colares e brincos também.
Todas as opções da vitrine eram bem lindas – e caras para o padrão Clarice – porém não me agradava o suficiente para querer comprar e dar isso de presente. Ainda assim era melhor que os presentes que tinha olhado pela internet. E depois de ter dado uma olhada em tudo, ali era a melhor opção para conseguir algo minimamente agradável.
– Esse anel é a cara dela, – o Theo comentou em uma das opções.
– Sim, ela tem uma semelhante até, mas sei lá.
– Nós temos outras opções em ouro rosé, – a moça sugeriu.
– Rosé? – Tentei não fazer uma careta.
– Já vi a Val usando anéis em ouro rosé.
– É, mas a cor da Val é o dourado. Já viu aquela mulher sob a luz do sol? Coisa mais linda.
– Foco, Clarice.
Depois de quase esgotar as minhas opções consideradas “nível Valkyrie”, eu acabei desistindo e deixei o Theo e o seu bom gosto com a atendente enquanto olhava ao redor da loja em busca de um colar ou brincos, já que os anéis estavam difíceis.
– Acho que você deveria apostar nesse, – Theo concluiu.
– Ou nesse! – Apontei para outro que estava na vitrine. – Ele se mexe, é isso?
– Sim. É um anel em ouro amarelo 18k com diamantes, – A outra atendente que estava por perto se aproximou ainda mais para pegar a joia da vitrine. – Ele faz parte da coleção de Nossa Senhora com um terço rotativo.
– E dá para tirar o terço?
– Você não está pensando em comprar uma joia da coleção da Nossa Senhora para Val?
– O meio gira, Theo! É perfeito para ela e o tic de ficar girando os anéis no dedo.
– É religioso.
– Não se eu personalizar e tirar a parte religioso, – me virei para atendente. – É possível?
As duas atendentes se entreolharam, provavelmente processando o pedido estranho.
– Nós podemos encaminhar ao nosso ourives para analisar o que pode ser feito.
– Você tem um papel e caneta?
O vexame em loja de luxo, mas eu não estava nem aí. Assim que peguei o papel e a caneta que a moça me ofereceu. Usando o anel que estava dentro de sua caixinha, eu o desenhei alterando as partes “religiosas” para o que na minha cabeça fazia sentido e que julgava possível de ser feito.
Não sou profissional em desenhar esboços de joias, mas me garanto nos meus desenhos e os meus traços. Depois de criar uma arte super detalhada para não correr riscos de erros, eu devolvi o papel para a atendente.
– Conseguem fazer isso? Eu pago.
– Você é designer de joias? – A atendente, que ao ler seu discreto crachá descobrir ser Marisa, a gerente, perguntou.
– Ela não é, mas deveria ser – Theo respondeu por mim. – Eu deveria ser totalmente contra a você usar um artigo religioso para presentear a Valquíria, só que se eles conseguirem transformar isso – ele apontou para a joia – nisso – ele pegou o papel, – você tem todo meu apoio.
– Nós temos modelos mais complexos que esse desenho, certamente não será problema para os nossos ourives.
– Só tem um detalhe, tem como fazer até segunda-feira? – Sorri amarelo.
Realmente o dinheiro é capaz de comprar qualquer coisa… até a minha alma.
Era óbvio que eu – estagiária – não teria condições de pagar por um serviço totalmente manual que fosse feito em tão curto período de prazo. O anel por si só já estava estourando todo meu orçamento. Fiquei devendo o Theo, mas era por uma boa causa.
– Você sabe que agora terá que me fazer um quadro, não sabe?
– Eu vou te pagar o que estou te devendo e te dou um quadro de agradecimento… só não tão grande quanto o da Val. É horrível pintar tão alto.
– E eu quero algo que caiba na parede da minha sala. Então sem exageros.
– Fechado!
– Vamos comer? Eu estou com fome.
Meu celular vibrou no meu bolso, era mensagens da minha mulher dizendo que estava vindo nos encontrar. Que bonitinha, saiu do trabalho sem precisar que eu a enchesse o saco.
– A Val está vindo nos encontrar.
– Significa que podemos beber essa noite?
– Qual o problema de vocês que querem beber no meio da semana?
– A vida… às vezes ela pede um pouco de álcool.
Decidimos comer no Outback a pedido do Theo. Não gostava da ideia de esperar por uma mesa, mas eu usei o cartão dele então no momento faria o que quisesse. A minha namorada chegou não muito depois que nos sentamos. Sua presença era o suficiente para me fazer sentir nas nuvens.
Por fim, a noite acabou comigo servindo de motorista para os dois adultos que decidiram que quinta-feira era uma boa ocasião para beber. Claro que não iria reclamar, gostava de assistir meu amigo de infância se dando bem com o meu amor, especialmente quando esse amigo é o Theodore. Ele foi o mais parto que eu tive de figura paterna após a morte da minha mãe, então ver os dois rindo tão descontraídos aquecia meu coração.
Somente depois do banho e quando estávamos prestes a dormir que chegou o meu momento de encher a cara com a minha bebida favorita: o meu leitinho.
– Eu esperei a noite toda por esse momento, – afundei o rosto contra os meus tetês, – vocês são as coisas mais lindas desse mundo, só perdem para essa coisa linda aqui – dei um beijo na Val. – Eu amo você.
– Está dizendo que me ama ou que ama os meus peitos?
– Eu amo os seus peitos, mas no momento estou dizendo que amo você mesmo.
– Ótimo, eu também amo você, bobinha.
A abracei me aninhando em seu abraço. – Eu ainda vou poder ter o meu tetê enquanto estivermos na França?
– Você não tem muita opção, ma vie. O leite não vai parar de vir só porque estamos em outro país e essa porra dói horrores. Então é bom que lide com isso porque é a sua obrigação.
– A boca, maman.
– Pardon, bébé.
– Eu não vou te deixar ficar com dor outra vez. Nunca mais.
– Acho bom mesmo. Agora mama para nós dormimos, – ela bocejou, – estou ficando com sono já.
O pedido da maman era uma ordem. Abocanhei o meu tetê e acariciei o outro para ele não ficar triste. Demorou um pouco, mas o leite desceu docinho e quentinho como de costume. Fechei os olhos me permitindo relaxar no abraço da maman, me aproveitando do seu calor.
Ainda não estava acostumada com a paz e conforto que esses momentos me causavam. Foram anos sem sentir qualquer coisa perto disso e agora que tinha a qualquer momento e sem limitações, era estranho. Um estranho que não será muito difícil acostumar. Até porque, como poderia ser difícil me acostumar em me sentir amada e protegida por alguém? Principalmente quando esse alguém é quem você é perdidamente apaixonada e não saberia viver sem?
Nem mesmo nos meus sonhos mais felizes me imaginei tão feliz um dia como eu me sinto todos os dias ao lado do meu amorzinho.
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