Elora Aneva

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47. Le lait de maman

« C L A R I C E »

 Os planos para a noite mudaram muito rápido. Em algum momento durante o expediente, Bruno ligou para Val e ambos ficaram de se encontrar após o trabalho. Em outras palavras, eu estava sem minha mulher até segunda ordem. O que poderia ser rápido ou poderia demorar horrores. Mas considerando que a Val decidiu sair mais cedo, eu não esperava que fosse ter meu amorzinho de volta tão cedo.

– Você vai me esperar em casa ou nas suas amigas? – Val perguntou do outro lado da porta.

Nós estávamos no banheiro. Eu não quis repetir a sensação de mais cedo e confesso que “arreguei”. Bastou enviar um emoji de bolinha amarela e pronto, Val pediu para a encontrar no banheiro do terraço que é praticamente esquecido. Por um momento pensei que fosse inventar mais uma de suas loucuras e já estava desesperada com ideia. Uma coisa é você fazer xixi de porta aberta porque quer continuar a conversa ou porque simplesmente não se incomodou em fechar, outra totalmente diferente é ser obrigada a fazer algo na frente de alguém.

Felizmente, isso não aconteceu.

Por mias louca que a minha namorada seja – e que ela nunca leia meus pensamentos, – ela só veio checar como estava me sentindo e contar a mudança dos planos para hoje. Ela também trouxe a minha calcinha e eu fiquei muito grata por isso.

– Eu prefiro ir com a Laris e ficar de bobeira por lá. Você vai demorar a voltar? Qualquer coisa durmo por lá mesmo.

– Você não vai dormir longe de mim.

– Por que? Vai ficar com saudades?

– Algo de errado nisso?

– Okay, você pode me buscar quando acabar, – pensei um pouco na minha fala e mudei de ideia. – Na verdade, deixa que eu busco os dois… eu não sei em qual condição etílica estarão até o fim da noite.

A Val sozinha é até comportada. A junção com o Bruno que talvez não seja uma ideia muito inteligente quando estamos no meio da semana e no dia seguinte tem trabalho. Mas enfim, os dois vivem em uma realidade paralela e dependendo da situação, talvez o Bruno esteja precisando de uma companhia para afogar seja lá o que.

Só espero que esteja tudo bem com o Nuno, eu gosto dele. Gosto ainda mais do fato dele ser gay e ter deixado a Val para mim. Imagine só um universo alternativo que eu tivesse que competir com o Bruno o coração da Val. Os dois dividem o mesmo neurônio, eu teria que batalhar muito embora a vitória seria minha.

Que foi? É verdade. A Val se apaixonaria por mim em qualquer universo alternativo, você ainda tem dúvidas disso?

– Não se preocupe com isso. Eu não vou beber.

– Não vai? Nem uma taça de vinho? – Saí da cabine do banheiro já usando minhas roupas normais, se é que você me entende. – Vocês não vão jantar?

– Eu não posso beber… – Val olhou para a porta rapidamente só para ter certeza de que não iria aparecer alguém, – estou tomando remédio para induzir a lactação, esqueceu?

Para sempre?!

Val fez uma careta. – Non! Eu não sou tão doida assim. Até o fim dessa semana pelo menos. Bom, depende de como estará o leite até lá. Eu acho que já está demorando para conseguir algo satisfatório.

– Você está se saindo muito bem, – eu a abracei. – Os Valquírios estão cada vez mais cheios de leite. Eu estou adorando.

– Vai mesmo chamar meus peitos de “Valquírios”?

– É que eles são perfeitos como você. E para mim Valquíria é sinônimo de perfeição – fiquei na ponta do pé para dar um beijo na minha mulher, – eu te amo.

– Eu também te amo.

E era assim que se encerrava qualquer reclamação da Val.

Apesar de amar muito a minha chefe – sério, eu realmente amo a minha chefe, – passar a última hora do expediente sem ela por perto foi divertido. É o que acontece quando deixam as crianças sem supervisão. Fizemos o nosso trabalho, claro. Mas também fofocamos e rimos bastante. Porém, o que realmente aproveitei para fazer na ausência da minha chefe, foi procurar por Giovana.

Eu tinha um assunto particular para tratar com ela e meio que queria que fosse algo mais discreto. Se a Val estivesse por perto tenho certeza que faria uma ligação ou duas para trazer alguma solução e eu no momento quero só consultar… isso significa, matar uma curiosidade e não necessariamente fazer algo a respeito.

– Ei, Giovana – bati na porta da sala dela, – você está ocupada? Pode falar por um minuto?

Gio me olhou por cima dos óculos desconfiada e meio que procurando pela a minha sombra – também conhecida como Valkyrie – antes de me responder.

– Claro, claro. Entre e feche a porta, por favor, – fiz como pediu e me sentei onde ela indicou com a mão. – E aí, o que quer falar? A Kyrie te mandou aqui?

– Não, não é nada sobre o escritório.

– É sobre trabalho ou pessoal?

– Um pouco dos dois, eu acho. É sobre parte do processo, na verdade. Mas vai ser rápido, eu prometo. Eu não quero ocupar muito do seu tempo.

– Não se preocupe com isso, sou todos ouvidos para você. Fico até nervosa quando tenho uma Touchon na minha sala.

– A Val não vem, eu estou sozinha.

– Eu sei.

Nos entreolhamos em silêncio.

Então tá bom…

– Enfim, o que quer falar sobre o processo? Aconteceu alguma coisa? Alguém te procurou ou algo do tipo?

– Não, eu queria saber sobre o leilão da casa da minha mãe. É possível fazer algo para impedir isso?

Gio inspirou fundo e isso não foi um bom sinal. – É… quanto ao imóvel é um pouco complicado. Até o dia do julgamento acreditávamos que o imóvel ainda seria leiloado, mas a verdade é que ele já tinha sido arrematado em um leilão extrajudicial. Existe possibilidade de anular essa arrematação através de uma ação judicial, mas não seria algo tão simples assim por você ter direto somente a metade do imóvel. Às vezes negociar diretamente com o novo proprietário seja mais prático e vantajoso. Eu posso sugerir para a Val…

– Não precisa, – a interrompi.

– Não precisa?

– Eu não quero encher a cabeça da Val mais ainda. E não é como se eu fosse morar no imóvel ou algo do tipo.

– Entendi… eu sei como você se sente. A Juliana também tinha a mesma mania de querer resolver todos os problemas da minha vida só porque tinha condições para isso. Leva um tempo, depois elas aprendem a se controlarem ou você se acostuma e passa a ser bom.

– Mas eu não estou com a Val por interesse.

– Nós não somos cegas, Clarice. O Bruno é uma víbora, mas até ele tem um coração mole e se derrete relativamente fácil. Eu não. Eu não me vendo por carinhas fofas… você pode ser a primeira namorada da Kyrie, mas não pense que foi a primeira tentar. Você não faz ideia de quantas interesseiras existem dentro desse universo.

– Ué, a Val não era hetero?

– “Hétero” e sonsa. O fato dela não perceber as investidas não alteram a realidade. Você ainda vai perceber, a Kyrie é um imã de sapatão. Não que você devesse se preocupar…

– Não ficaria surpresa. Ela me atraiu. Mas enfim, embora eu espere não ter que lidar com isso tão cedo, eu confio na minha Val e não me preocupo. 

Gio concordou com a cabeça. – Sabe de uma coisa, Clarice? Eu gosto de você.

Eu tinha impressão de que todos os amigos da Val, a Giovana certamente seria a mais difícil de conquistar. Saber que ela gosta de mim me deixou contente. Já posso dizer que tenho aprovação das pessoas mais próximas da minha mulher.

Nossa conversa foi interrompida por uma chamada telefônica. Não que eu tivesse mais o que falar e também não queria ocupar mais o tempo da Gio. Ou seja, essa foi a minha deixa para pedir licença e me despedir.

Era isso… se minhas esperanças para recuperar a casa da minha mãe já eram baixas, agora eram totalmente nulas. A começar pelo fato de que não queria mais estender os honorários dos advogados as custas da Val. E depois tinha o fator: beneficiar o Luiz por tabela. Se ele tem direito a metade do imóvel, não sei se pela “divida milionária” que tem comigo é possível mudar algo, mas honestamente? Eu estou exausta. Eu quero paz e sossego.

É hora de só seguir em frente.

« V A L K Y R I E »

Apaixonado?!

Eu não bebi uma taça de vinho sequer e estava duvidando das minhas condições etílicas com toda essa conversa. Eu estava mesmo ouvindo o Bruno falar que estava apaixonado? E não, ele não estava falando apaixonado no seu sistema de “pega & devolve”. Bruno estava falando de um relacionamento sério… o Bruno!

– Desde quando está saindo com alguém?! E com quem?

– Você realmente achou que andei esse tempo todo sumido, sem dar as caras em um único capítulo porque eu estava trabalhando? Jurou, né gata.

– Ora, você quem me disse que estava fazendo mais plantões por ter assumido a residência do hospital escola… é algum residente seu?

– Querida, isso não é Grey’s Anatomy, no dia que um médico tiver tempo para transar em expediente ainda mais no SUS, esse país já terá virado uma utopia inimaginável.

– Então quem?

– Não posso comentar.

– Por que não?

– Porque dá azar.

– Dá azar?

– Deus age no silêncio.

Revirei os olhos. – Não me venha com papo de crente. Me conte logo a verdade. O que está acontecendo?

Eu conheço o Bruno muito bem para saber que o seu problema não é sobre não poder falar do seu novo lance(?) para não dar azar. Existe outros motivos por trás. Se fosse para não falar, ele não teria me ligado. Não faz nem sentindo. Para que chama alguém para uma “conversa urgente” se não pode comentar do assunto?

– Você tem razão, – Bruno confessou. – Eu estou apavorado com essa história toda.

– Por que?

– Porque ele é do tipo gay romântica que gosta de fazer jantares, tomar um vinho e depois fazer amor gostosinho. Ele é um fofo que faz declarações de amor e te faz sentir a mulher mais amada do mundo.

– Ainda não identifiquei o problema.

– Acontece que ele gosta de relacionamento sério. Namoro assumido com aliança e tudo. Morar junto, casamento e por aí vai.

– E não é o que você quer?

– Bicha, você já me viu durar em algum relacionamento? Vamos ser realista. – Fiquei sem argumento e apenas dei um gole no meu suco de uva… como podem dizer que isso parece com vinho? Péssimo. – Ele é tão fofo e merece alguém que o ame da mesma forma. Que seja romântico, que lhe dê flores, encha de carinhos, beijos, mimos.

– E por que essa pessoa não pode ser você?

– Eu queria ser, mas percebi que quando o assunto é “relacionamento sério” eu apavoro. Acho que tenho problemas de assumir compromissos. E se não der certo? Você sabe que eu tenho as minhas fases. 

– Tem mesmo… acho que você tem trauma assumir um compromisso por causa do Dito Cujo, mas já fazem tantos anos e aparentemente esse cara é legal, então por que não?

– E correr o risco de machucar aquela coisinha fofa? Ele não merece isso.

– Nunca se sabe, Bruno. Se fosse eu me recusando a me relacionar com a Clara por algum motivo, você estaria me xingando e mandando tomar vergonha na cara, – cruzei as pernas e os braços na cadeira. – É muita hipocrisia ouvir isso de você, sabia? Você é o maior advogado do amor, mas quando se trata de você é uma vadia covarde.

– São situações diferentes. Você e a Clara era óbvio que iria dar certo. Eu sou um mar de incertezas, não por parte dele, mas a minha. E se eu não conseguir manter essa vida de casal caseiro?

– Já tentou conversar com ele a respeito disso? Dizer que você também curte uma vida fora de casa. Se ele quiser te acompanhar, ótimo perfeito. Senão quiser ir, mas não se incomodar também é uma opção. Eu mesma me recusei a acompanhar a Clara em um festival de música esse final de semana e ela vai com os amigos. Vai que o seu príncipe encantado seja um desses também? Ou talvez no Apex ele se interesse por coisas mais a sua vibe?

– Eu não posso levar ele ao Apex… não antes de me sentir totalmente confortável com o rótulo do nosso relacionamento.

– Que tal um encontro triplo? Eu não confio no meu próprio julgamento, mas as Juvanas têm um faro para pessoas ruins e eu consigo ver seu coração. Sei muito bem quando é algo passageiro e momentâneo e no momento, me parece que você finalmente está gostando de alguém de verdade.

– Aí amiga, eu queria poder fazer esse encontro, mas ainda é cedo… preciso de mais tempo.

– Nesse caso, meu amigo, eu sugiro que arrisque um pouco. Eu não poderia falar outra coisa quando eu mesma me aventurei em relacionamento lésbico e não poderia estar mais feliz por isso.

Bruno colocou os cotovelos sobre a mesa e apoiou o rosto nas mãos me encarando. – E vocês duas, hein? Vocês já estão morando juntas, né? Quando vem o casamento?

Eu quase engasguei com o suco após essa pergunta. – Você sabe que a minha namorada é onze anos mais nova que eu, não sabe? Ela é muito nova para isso.

– E daí que ela é um neném? Você acha que ela vai mudar de ideia daqui uns anos por isso não quer casar agora?

– Mudar de ideia? Você acha que ela pode mudar de ideia?

Paranoia instalada com sucesso.

– Honestamente? Não. Você tem aquela garota na mão desde o primeiro dia. Ainda mais agora que está com esses peitões, ela provavelmente deve estar no paraíso dos littles.

O comentário me fez até mudar de postura envergonhada. Meus seios estavam maiores, sim estavam. Entretanto, não foi uma mudança tão considerável assim. Poderia ser facilmente confundido com alguns quilinhos extras… ao menos era o que eu pensava.

– Estão assim porque já faz um tempo desde que bombeei. Será que poderia ser mais discreto com esse seu olhar?

– Desculpa, é que eu ainda não me habituei ao fato de que minha melhor amiga não só está relacionando com outra mulher, como também se tornou uma mommy…  mommy lactante!

Olhei ao redor no restaurante para ter certeza de ninguém mais ouviu esse comentário. – Você quer anunciar para todo mundo ouvir, é?! Fica quieto… oui, enfin… eu estou relacionando com uma mulher e sou uma maman. A parte lactante ainda é está em um processo lento.

– Ainda nada?

– Um pouco. Um pouco mais a cada dia, porém pouco.

Era estranho conversar sobre o meu processo de lactação, mas distrair dos próprios pensamentos fez o Bruno relaxar um pouco.

Conheço a minha gay favorita, sei que está surtando internamente com a possibilidade de assumir um relacionamento sério. Não é pelo relacionamento em si, mas o rótulo. É como se tudo fluísse bem até aparecer a aliança. O divórcio dos pais dele foi um evento traumático e difícil. E se não bastasse isso para destruir sua crença em casamentos, veio o Dito Cujo que traiu sua confiança e destruiu o casamento dos dois.

Sim, por incrível que pareça, o Bruno já foi casado… por menos de um mês, mas ainda assim foi um casamento no papel e tudo. Os dois eram um casal lindo e apaixonado, cheios de planos para o futuro, inclusive filhos e afins. Eis que um dia a verdade veio à tona e deu no que deu. Foi tão péssimo que ao invés de divórcio, o casamento foi anulado.

Se não existiu perante a lei, também não existiu para nós os seus amigos. É por isso que o Dito Cujo é apenas “dito cujo”. Ele não merece ser nomeado e nem lembrado.

E sim… foi pior que a traição do Pedro Henrique. Me descobrir corna não foi uma coisa legal, mas teria me arrasado muito mais se fosse o que aconteceu com o Bruno.

Embora não tenha envolvido álcool, a conversa com a minha gay se estendeu por muito mais horas que eu imaginava. Fazia um tempo considerável que não nos encontrávamos assim e acabei me deixando levar. Quando pedimos a conta no restaurante já era quase meia noite e éramos uns dos últimos clientes ali.

Estávamos do lado de fora esperando o manobrista trazer o carro quando eu percebi que meu celular havia descarregado. No mesmo instante que vi isso senti uma tensão subir a espinha. Será que a Clara está brava comigo? Eu acabei sumindo por mais de oito horas.

 – O que aconteceu que você está toda tensa? Sua pestinha aprontou na sua ausência?

Eu sinceramente não tinha nem cogitado essa possibilidade e agora estou ainda mais preocupada.

– Eu espero que não.

– Então qual é o problema?

– Meu celular descarregou e eu sumi por mais de oito horas.

Bruno virou de frente para mim. – Gata, acorda para vida. Já esqueceu quem é a sua namorada? Ela sabe que eu sou uma gayzona e não tem ciúmes de mim. Ela não deve ter pensado nenhuma besteira tal qual o traste.

É verdade… por que eu estou preocupada?

Pelo visto não é só o Bruno que precisa se livrar de alguns traumas do passado.

– A Clarate acha tão gayzona que é mais fácil me ver te comendo com um cintaralho que o contrário, – comentei encarando a rua na minha frente. – Ela definitivamente não deve ter suspeitado de algo.

– Para os termos femininos você é realmente tem seu destaque, mas urgh… não. Nem com cintaralho. Não tem nada que me apetece aí, – ele me entregou o próprio celular. – Já está chamando… fale com a sua tampinha.

O manobrista chegou e nós entramos no veículo. Eu já estava achando que a ligação quando finalmente fui atendida, só não foi pela a minha Clarice.

Alô? – A voz masculina não me era desconhecida, mas por soar um pouco rouca e sonolenta demorei a identificar.

– Theo?

Bruno olhou para mim. – Theo?

Val? É você?

Sim, sou eu… a Clara está por aí?

Ah… sim, sim… ela está – ele parecia estar funcionando em modo economia de bateria de tão sonolento, – ela está dormindo… a gente – ele bocejou, – fez uma sessão de cinema e todo mundo apagou no meio do segundo filme… você quer que eu a acorde?

 Entrei em um profundo paradoxo.

Acordar a minha pequena e a trazer para casa tarde da noite ou a deixar passar a noite com os amigos?

Eu não me incomodaria nem um pouco de ir até a Glória ou Theo, seja lá onde ela esteja nesse momento para a levar comigo. Entretanto, eu precisava permitir que a minha bebê também tivesse seu tempo com os amigos.

Mordi o lábio inferior sentindo meu corpo se dividir ao meio.

– Onde você estão?

Na Glória.

Okay… eu vou deixar você voltar a dormir. Se acontecer qualquer coisa você me liga, d’accord? Independente do horário.

Já entendi a regra, fora do escritório você é a mommy.

Eu prefiro maman.

Como quiser, diva. Agora se você não se – ele bocejou outra vez – importar, eu vou voltar ao meu sono da beleza. Nos vemos amanhã.

Boa noite.

Encerrei a chamada e devolvi o celular do Bruno.

– E aí?

– Vou passar a noite sozinha. Sem Clarice, sem Chloée, só eu e deus.

– Se trouxer seu travesseiro de suporte eu deixo você passar a noite comigo.

Chega a ser triste pensar em pegar o travesseiro no closet. Desde a Clarice que não tenho usado na minha cama, a envolver é muito mais confortável que abraçar um travesseiro. Mas fazer o que né… é o que temos para hoje. É isso que dá se acostumar com a presença da sua pequena sempre.

Quando vim dormir com o Bruno, eu pensei que o pior seria a ausência da minha namorada. Realmente, dormir sem a Clara foi mais difícil e demorado que o usual e por consequência acordei bem mais tarde que o usual, quase atrasada. Porém, entretanto, todavia, quando acordei de manhã eu desbloqueei um “segundo efeito” após uma noite inteira sem minha bebê que até então desconhecia: seios desconfortavelmente cheios.

Eu me senti carregando pedras nos peitos de tão pesado. Eles estavam cheios como nunca antes, sensível e doloridos. Talvez ter ido deitar sem bombear também não tivesse sido uma boa ideia. Eu subestimei minha capacidade de produção de leite e me fodi. Fodi muito.

Se Clara estivesse aqui esse seria um problema facilmente de ser resolvido, mas esse não era o caso e usar as bombinhas logo de manhã era um saco. Se eu ao menos tivesse tempo disponível para lidar com isso.

Fiz o que dava para ser feito. Tirei o suficiente para aliviar o desconforto e cessar a dor e segui com a minha vida. Apesar da situação incomoda, quase encher os frasquinhos das bombinhas e ainda sentir que havia leite dentro de mim me deu uma pontinha de orgulho. Poderia finalmente dizer que estava lactando de fato?

Clarice me encheu de mensagens desde a hora que acordou até o momento que entrou em sala. Uma mistura de “eu te amo” e “estou com saudades”, com “quero tetê” e “estou com fome”. Mensagens que conseguiram me tirar o primeiro sorriso do dia.

Só essa garota para me fazer passar a manhã contando os segundos para a encontrar… o que a Clarice fez comigo?

Esquecer meus compromissos da agenda era algo tão raro e impossível na minha vida. Eu costumava estar por dentro de tudo o tempo todo, no entanto, com a minha vida pessoal e profissional em um ritmo caótico, o cenário agora era outro. Isso significa que eventualmente deixava coisas passarem pelo meu radar sem ser notado, como hoje.

Hoje eu tinha uma manhã de compromissos externos. Justo no dia em que meu corpo decidiu trabalhar a todo vapor na produção de leite.

Se eu estivesse sozinha, seria muito mais fácil para lidar. Eu poderia simplesmente ficar uns minutos extras no carro e ordenhar um pouco o leite. Dar um sumiço no banheiro. Parar na farmácia para colocar absorventes de colocar no sutiã sem ter alguém ao meu lado observando. Mas eu não estava. Letícia estava me acompanhando como de costume e a Amanda por algum motivo que não me recordava e não me importava agora, também veio. 

Chegou um momento em que não estava conseguindo prestar atenção em mais nada. Minha única preocupação era se iria começar a vazar e manchar a minha roupa. E claro, hoje em especial, eu achei de bom tom usar uma blusa acetinava verde musgo. Apesar de escuro, irá ficar bem marcado qualquer gota de leite que vazar.

Até o final da última vistoria eu já estava vendo estrelas de tão cheia, dolorida e pesada que me sentia. Se não bastasse esse desconforto ainda tinha o fato calor que estava me deixando mau humorada.

– Vamos almoçar? – Amanda sugeriu. – Eu conheço um restaurante árabe aqui perto que é ótimo.

– Eu topo, estou morrendo de fome! – Letícia concordou empolgada.

– Eu… uh… eu preciso ir para casa tomar outro banho. Esse calor está me matando, estou toda suada.

– Calor? Está até que fresco hoje. Tem certeza que está bem? Você é muito jovem para menopausa. 

Iria responder alguma coisa qualquer, mas fui distraída pelo bebê chorando do outro lado da rua. Eu não o conhecia e certamente o bebê também não, mas de alguma forma seu choro me causou reações indesejadas. E se até agora não vazei, dessa vez não passava.

– Eu realmente preciso ir indo agora, meninas. Não quero me atrasar muito. Nos vemos mais tarde no escritório. À bientôt!

Sem esperar por respostas, eu fui para o meu carro para sumir dali o quanto antes. Sinceramente nem sei para onde dirigi, só me enfiei por algumas ruas mais tranquilas e vazias e estacionei no primeiro lugar que encontrei. Precisava ordenhar um pouco do leite agora ou iria surtar.

Na hora de pegar a bombinha me deparei com um pequeno detalhe: onde estava a bendita?

A imagem das bombinhas no exato lugar onde deixei essa manhã veio a memória e eu quis me dar um soco.

– Putain, Valkyrie! Putain!

Em uma pesquisa rápida no GPS vi que dos três possíveis endereços; casa, escritório e faculdade da Clara, a última opção era a mais próxima e estava a caminho das outras duas. Ou seja, estava na hora de ir atrás da culpada desse problema lidar com ele.

« C L A R I C E »

“Je t’attends dans le parking…”

Eu recebi a mensagem e fiquei sem entender. “Estou te esperando no estacionamento” disse o tradutor, porém eu segui confusa. Como assim me esperando no estacionamento? Não era mais prático esperar na entrada? E por que ela veio até aqui? Ainda faltava a última aula. Eu não tive ontem, mas hoje estava tudo normal. 

Tudo bem que era a última semana e ninguém se importava com mais nada. Só estavam presentes aqueles que não podiam mais levar falta para não ser reprovado e os que ainda precisavam de notas. Eu vinha porque eu sou trouxa. Antigamente eu ainda tinha a desculpa de que o Luiz ou a Lúcia iriam me matar se eu faltasse…, mas agora é só costume e trouxisse mesmo.

“Sors de là et viens ici! Maintenant!” a segunda mensagem veio antes que eu pudesse responder a primeira e dizia: “saía daí e venha aqui! Agora!”.

Eu fiz… merda? Mas eu não me lembro de ter feito nenhuma cagada… ou eu fiz? Eu conheço a minha mulher e por mensagem já dá para saber que ela esta definitivamente brava. Ela não viria aqui no meu horário de aula para cumprir suas promessas de punições, viria? Eu sei que estou em débito nas palmadas, mas isso seria exagero não?

Enrolar só iria piorar a minha situação. Ao invés de ir para a última aula, eu fui para o estacionamento encontrar a minha mulher enquanto rezava pela a minha alma.

Encontrar a Val não foi difícil. Ela estava encostada no carro em uma vaga um pouco mais afastada onde tinha menos veículos ao redor. Seus dedos frenéticos digitavam no celular e sabia que era comigo porque senti o meu vibrar no bolso.

– Val? – Perguntei ao me aproximar dela. – O que está fazendo aqui essa hora?

J’ai besoin de toi (eu preciso de você).

Fiquei sem entender nada. Ela apenas abriu a porta de trás fazendo um sinal com a cabeça para entrar e eu obedeci ainda confusa.

– O que aconteceu? O que veio fazer aqui? – Val tirou a camisa, exibindo o torso nu e me pegando desprevenida. – Você veio aqui para transar?! Não que isso seja um problema, eu adorei…, mas assim do nada?

– Não, nós não vamos transar no estacionamento da sua faculdade – ela revirou os olhos. – Meus seios estão muito desconfortáveis e doloridos. Você era a solução mais próxima de onde eu estava. Então chega de conversa, eu preciso da sua boca ocupada com outra coisa.

Val me puxou para o seu colo e me ofereceu o seio na boca sem cerimônias. Normalmente momentos como esse são mais… o que posso dizer? Tranquilos e calmos? Dessa vez a minha mulher estava com pressa e urgência. E é claro que eu estava mais do que contente em poder ajudar a aliviar seus sintomas.

O que eu não esperava era receber um jato de leite que me pegou de surpresa e fez engasgar.

– Você está bem? – A Val me ajudou com tapinhas nas costas. – Desculpa…

– O que aconteceu com você?

– Eu não sei, estou lactando.

– Percebi. Agora entendi a sua pressa, você está realmente cheia.

– Quase explodindo, então s’il te plaît…

Entendi o recado e voltei ao meu trabalho, dessa vez preparada.

O tetê estava até um pouco duro de tão cheio e sem sugar já estava vazando. E isso não era uma reclamação. Eu estava adorando!

–  Ei, pequena, não é para fazer o meu seio de chupeta. É para esvaziar o tetê, então mama direito – comecei a sugar um pouco mais forte como de costume e o alívio que isso causou na Val estava estampado em seu rosto. – Ah, oui… bem melhor agora.

Mamar por mamar e mamar para esvaziar o tetê eram duas coisas bem diferentes. Igualmente satisfatório – e delicioso – mas diferentes. Ao menos esvaziar o tetê exigia um pouco mais esforço da minha parte e me deixava muito bem acordada, provavelmente iria me cansar mais rápido também. Em compensação, parecia dar um grande alivio a maman que estava visivelmente sofrendo com esse excesso de leite repentino.

Por mais que mamar e ter leitinho fosse muito bom por si só, ver e saber que estava ajudando a maman a aliviar a dor e sentir confortável também me deixava feliz. Eu não quero a minha maman sofrendo por causa do neném.

Dentro do carro o único som que quebrava o silêncio eram os das mamadas continuas e os goles espaçados que eu dava. Essa era a primeira vez que sentia o leitinho docinho da maman na minha língua a cada sugada e isso estava mexendo bastante comigo. Queria fechar os olhos e me entregar a sensação de conforto e aconchego, mas eu não podia mimir e nem escorregar antes de ajudar a maman nos dois seios.

 – Vem para o outro lado, ma vie. Depois você volta para aí.

Embora eu ainda não tinha terminado o trabalho de um lado, o outro ainda estava desconfortável e começando a vazar e precisava da minha atenção. Eu prontamente atendi ao pedido e voltei a mamar.

Passei a mão no meu tetê que estava livre para ele não se sentir abandonado por mim. Ainda ficava meio boba de pensar que a maman estava fazendo leitinho no tetê só para mim. Ela ama tanto o neném que transborda e – literalmente – vaza leite. Eu não quero que isso acabe nunca!

– Acho que já está bom, bébé – a maman quebrou o silêncio. Eu continuei exatamente onde eu estava, mamando o meu tetezinho em paz – Você ainda quer mamar mais? – Afirmei com a cabeça. – Não quer ir para casa? Mamar deitadinha na nossa cama?

Pensando bem, mamar no carro nem era tão confortável assim.

– Vamos para casa, maman…, mas antes… eu preciso ir fazer xixi! Eu já volto!

Quem diria que mamar um tantão de leite iria dar vontade de fazer xixi, não é mesmo?

– Pena que não temos tempo para preparar uma comida, – Val comentou quando chegamos no apartamento. – Eu até hoje estou devendo cozinhar para você.

– Você está deixando de me amar, essa é a verdade.

Comentei na brincadeira e a Val me olhou séria.

– Isso não é verdade. Você realmente pensa isso?

– Claro que não, amorzinho – dei um beijo demorado na bochecha dela. – Foi brincadeira, okay?

– Vindo de você… comida é algo sério, sabe bem disso.

– Se for assim, você não está me devendo nada.

– Você não quer mais comer a minha comida?

– Eu já comi. O papa que você preparou nesses dois aqui, – eu peguei os seios da Val e dei um beijinho neles. – Eu quero mais. Tem mais leite para mim?

Val me encarou por um momento semicerrando o olhar. – Um pouco, sim. Mas a senhorita precisa almoçar… comida de verdade.

– Eu não quero comida de verdade, eu quero leite!

– Clarice, por favor, não comece.

– Mas maman! Eu quero leitinho… por favorzinho?

– Sem tetê para você agora. Primeiro almoço.

– Num quero papar!

Será que a maman não entende? A comidinha do neném é o leite! Eu num quero mais nada!

E a maman não dar o tetê do neném deixou o coraçãozinho dodói. Muito dodói. Tão dodói que abriu um buraco muito grande e deu tristeza que não sabia como processar de outra forma senão chorando. Queria preencher esse vazio outra vez e só era possível com colo, abracinho e beijinho da maman. E o tetê…, mas a maman num quer dar o tetê do neném. E pensar nisso me fez chorar mais.

– Ma vie, por que está chorando desse jeito?

– Tetê! Eu quer!

– Você vai ter o seu tetê. Agora respira um pouco, se acalme – a maman segurou meu rosto entre as mãos, – cheira a florzinha e assopra a velinha, mon bébé. Acompanha a maman.

Balancei a cabeça me negando.

Eu não quero cheirar florzinha e nem assoprar velinha. Eu quero meu tetê! Meu tetê!

– Não pense que irá conseguir tudo que quiser chorando.

– A maman num ama o neném. Num quer dar tetê p’ra eu!

– Você sabe que isso não é verdade, Clarice. Quer deixar a maman brava? – Neguei com a cabeça. – Então respire fundo e tente se acalmar. Vamos fazer juntas…

– Num consigo, faz dodói. Faz dodói aqui – mostrei para maman onde faz dodói no neném. – Dodói, maman. Dodói!

Era verdade. O peito do neném começou a fazer dodói. Estava difícil cheirar a florzinha e assoprar a velinha. Num tava mentindo.

– Você está tendo uma crise de asma!

A maman me pegou no colo e levou para cozinha, onde me deixou sentada em cima do balcão. Não vi de onde ela tirou uma bombinha, mas em frações de segundos ela estava ali na minha frente.

– Calma, bebê. Calma. Já vai passar, – a maman esfregou as minhas costas enquanto massageava o meu peito. – Já, já vai melhorar.

Inclinei para frente e deixei a cabeça no ombro da maman. Pela primeira vez ela estava mais baixa que eu.

– Okay, mocinha. Esse é mais um item na lista de tópicos que precisamos conversar. Você não pode agir assim sempre que quiser algo. O que irá conquistar com isso é justamente o contrário do que quer e para variar um bumbum quente.

– Num bate n’eu, maman…

– Hoje você se safou, mas amanhã se isso se repetir irá ficar de castigo. Estamos entendidas?

Concordei com a cabeça. – Você… você vai dar o tetê do neném?

– Dessa vez sim. É tudo muito novo para você, não é meu bebê? É difícil para um neném tão pequeno como você saber como lidar com essa novidade. Mas não se preocupe, meu amor. A sua maman te entende. A maman sabe o que o neném está sentindo e vai te ajudar, okay?

Eu só queria me desmanchar no colinho da maman até me sentir bem pequeninha em seus braços. Sem pensar em mais nada, deixar que ela tome conta de todo o resto. Até porque eu não tenho que me preocupar com nada quando a maman está por perto para cuidar do neném.

A maman acariciou o meu rosto. Fechei os olhos para aproveitar o seu toque e quando estava começando me desligar ela me afastou de repente me segurando pelos ombros.

– Mon dieu, ma vie! Seu nariz está sangrando!

E mais uma vez a maman logo tratou de lidar com o meu narizinho. Não foi nada legal ter algo enfiado nas minhas narinas, mas se era isso que deixava a maman feliz e mais tranquila, eu aceitei a pequena tortura.

– Parece que foi só uma gota mesmo. Eu pensei que já tínhamos passado dessa fase, mas pelo visto vou ter que antecipar o seu retorno no médico.

– Num quero picada, maman.

– Eu sei, bébé. Mas é necessário – ela acariciou o meu rosto, – não vamos pensar nisso agora, d’accord?

– Tá bom… tetê?

– E você vai conseguir mamar sem poder respirar pelo nariz? – Afirmei com a cabeça. – Vamos papar primeiro?

– Num quero papar agora… eu prometo que vou papar um montão na jantar, mas agora quero o leitinho da maman. Por favorzinho?

– Todos os seus legumes e salada?

– Sim, maman.

– Se não comer irá ficar sem tetê para dormir.

– Eu vou papar tudinho! Deixar eu mamar só um pouquinho, vai?

– Oui, ma vie. Você pode mamar, mas hoje a noite irá comer toda a comida que eu colocar no seu prato sem reclamar. Ou vai ficar sem tetê depois da janta e se chorar até o nariz sangrar, eu vou te levar no médico.

– Tá bom, maman.

O que eu não faria por mais um pouco de leitinho?

« V A L K Y R I E »

Observei Clarice completamente rendida em meus braços e peito encantada e ao mesmo tempo preocupada. Era evidente que ela estava regredindo ainda mais e ficando cada vez mais pequena, tudo isso de forma descontrolada. Isso me preocupa, Clarice precisa ter o mínimo de controle para pelo menos conseguir pedir ajudar antes de algo acontecer ou evitar de se expor na frente de pessoas que não são de confiança ou do nosso convívio dentro desse mérito.

Mon dieu, pelo visto eu tenho muito trabalho para fazer.

Apesar de não estar mais usando os tampões no nariz – seu sangramento não passou de uma gota, para o meu alívio – Clara ainda estava com pouco de dificuldade para respirar e vez ou outra parava de mamar para pegar um ar.

Parte de mim estava impressionada com a capacidade dos meus seios de continuar produzindo leite. Clarice drenou os dois lados ao ponto de que chegou um determinado momento que estava saindo apenas algumas gotinhas e pelas leves pontadas que sentia no seio, tive impressão que meu corpo estava tentando suprir a demanda de uma boquinha faminta, mas estava em seu limite e as sugadas começaram a causar desconforto.

– Ei, bebê, você já mamou tudo que tinha aí. Agora o neném vai ter que esperar um pouquinho mais.

Clarice choramingou afundando o rosto contra o meu peito agora um pouco mais flácidos e leves. A trouxe para mais perto de mim, fazendo sentar no meu colo no sofá e a abracei. Ela encaixou a cabeça entre o meu pescoço e ombro, se acalmando aos poucos sob o meu abraço e carinho.

Ainda tínhamos tempo antes do trabalho e era possível uma sonequinha rápida de meia hora.

– Você quer tirar um cochilo? – Clara negou. – Não quer mimir? Tem certeza?

– Quero chameguinho, maman – ela pediu com a voz arrastada de quem estava imersa em seu pequeno espaço.

– Tudo bem, meu amor – dei um beijo em seu rosto e acariciei suas madeixas loiras, – nós podemos ficar de dengo. Só avise a maman quando precisar ir ao banheiro, está bem? Não vamos fazer acidentes, por favor.

Nós ficamos no sofá, Clarice deitada contra meu peitoral e o rosto enfiado no meu pescoço, acariciando o meu seio sem se constranger pelo ato enquanto eu a abraçava e lhe acariciava as costas, dando beijos aleatórios em seu rosto. Eu tinha uma das suas chupetas por perto, já esperando que fosse necessária depois de mamar e coloquei em sua boca. Uma prova de que estava em seu pequeno espaço foi ter aceitado a chupeta sem pestanejar ou fazer birra. 

Esperava que ela fosse ser vencida pelo o sono e acabar tirando um cochilo, porém ela ficou acordada a todo instante.

Infelizmente, não poderíamos ficar assim por muito tempo e eventualmente tivemos que levantar para voltar ao trabalho. Me preparei para lidar com as manhas e birras da minha pequena por ser obrigada a levantar, mas fui surpreendida com a sua voluntariedade e disposição.

– Você está bem? – Perguntei durante o trajeto para o escritório.

– Estou sim, – Clara respondeu com voz normal e sem sua manha e trejeitos de pequena.

– Não está com fome?

– Não, eu comi um pratão de omelete no café da manhã e enchi o bucho de leite. Eu estou bem.

A observei de canto de olho desconfiada. Um segundo neném e no outro adulta, como isso é possível? Bom, é melhor assim. Pelo menos dessa forma não teremos problemas no trabalho.

Foi o que eu achei…

Clarice trabalha meio período. Em outras palavras, ela teria que se conter por apenas quatro horas, não era tão difícil assim. Não era?

Bem, quando estava perto de completar a terceira hora do seu expediente, eu fui surpreendida com a sua presença repentina em minha sala. Não passou despercebido que Clarice entrou sem bater na porta, ela sabe que não gosto disso e no momento pareceu ignorar esse detalhe.

Trocamos olhares por um instante, estava esperando que fosse dizer o que queria, mas ela ficou em silêncio. Não que fosse necessário dizer alguma coisa, bastou alguns segundos para perceber que ela regrediu ou estava prestes a regredir.

– Feche a porta, – pedi, a lembrando desse pequeno detalhe importante. – Alors, mon bébé, qu’est-ce que tu as ? (Então, meu bebê, o que você tem?)

Clarice veio para o meu colo e eu a recebi de bom grado mesmo não sendo momento para tal. Estávamos em uma zona perigosa e lidando com uma pequena que anda bem sensível, negar um abraço poderia acarretar em algo pior: crise de choro e birra.

– O que foi, hein? Por que você está assim?

– Tetê, maman.

– Tetê? Sabe que a senhorita e eu estamos em horário de trabalho, não sabe? Ainda não é hora do seu tetê.

Clara fez um biquinho e olhar de cortar o coração. – Mas eu num ‘guento mais esperar, maman. Tô fominha… por favorzinho?

Ao perceber os seus olhinhos ficarem vermelhos e os primeiros sinais do choro se manifestar, eu a abracei segurando seu cabeça contra o meu corpo enquanto refletia no que faria com essa garota. Ela definitivamente não irá sair do pequeno espaço sem causar uma cena e atrair atenção indesejada.

Dessa vez, eu não poderia me dar o luxo de dar uma desculpa e sumir do escritório. Em pouco mais de meia hora teria um encontro com um cliente que a essa altura provavelmente já deveria estar a caminho do escritório.

A contragosto, fiz Clarice levantar para a levar para o sofá comigo. Se eu lhe desse o tetê como queria, ela iria aquietar o facho e se recuperar outra vez como mais cedo. Embora não quisesse que se habituasse a isso, no momento, essa era a solução mais rápida e prática.

A deitei em meu colo e tirei um seio para fora o oferecendo em sua boca. O leite não veio de imediato como mais cedo, precisou de algumas sugadas insistentes para começar a sentir a leve formigação do leite saindo. 

Não podíamos demorar para não levantar suspeitas, então quando deu cinco minutos no relógio, eu cutuquei de leva a minha pequena que mamava de olhos fechados atraindo sua atenção para mim.

– Pronto, ma vie. Já está bom por agora, mais tarde em casa você pode ter mais, – disse tirando o seio da sua boca e sua reação imediata foi choramingar. Segundos antes que começasse a chorar rápido, cobri sua boca com a mão. – Shhh!!! – Olhei para a porta tentando ouvir alguma movimentação do lado de fora e pelas risadas abafadas, os demais deviam estar imersos na própria conversa. – Se você espernear outra vez, irá levar no bumbum. É o que você quer?

Esperei que Clarice fosse se aquietar com a ameaça, mas pelo contrário, seus olhos ficaram marejados de lágrimas e ela estava prestes a ter outra crise. Sem pensar muito, eu a silenciei com o peito em sua boca e peguei o meu celular que estava ao lado para fazer uma ligação.

Giovana falando, – como sempre a Gio atendeu rápido.

– Gio, eu preciso de ajuda.

Ah, por favor, não venha me dizer que temos outro caso criminal para lidar.

Não, eu tenho um encontro com um cliente daqui a pouco… e Clarice regrediu. 

É… temos um problema, – ela estalou a língua pensativa. – Traga ela para cá. Eu posso ficar de olho na sua garota por alguns minutos…, mas não vou trocar fralda de ninguém, viu? Eu estou com meu conjunto off-white e quero o manter assim.

– Você é a melhor, Gio! Depois me diga o que quer que eu vou te recompensar por isso.

Férias. É a única coisa que eu quero.

Anotado.

Minutos depois Giovana estava aqui “roubando minha estagiária” para a ajudar com alguns contratos. A princípio Clara não quis ir, mas eu prometi que a encontraria em alguns minutos e então ela aceitou ir com a “tia Gigi”.

Felizmente eu tinha a maleta de ontem ainda guardada no meu armário e peguei algumas coisas da minha pequena para colocar na bolsa antes de ir para a sala da Gio.

– Ainda bem que você chegou, – Gio disse ao abrir a porta da sua sala para mim. – Já estava ficando difícil para convencer aquela mocinha ali que você estava vindo, – ela apontou para a Clara sentada no sofá com seu rosto vermelho de quem estava chorando.

– Pardon, eu precisava pegar umas coisas antes de vir, – apertei a bolsa contra o meu corpo e a Gio provavelmente entendeu o recado.

– Fique à vontade, eu vou aproveitar para ligar para a minha mulher. Faça o que tem que fazer, qualquer coisa estarei no meu canto.

– Merci.

Fui até a Clara e na primeira oportunidade ela se jogou em meu colo toda manhosa e bem pequena. Ter induzido a lactação sem estar de férias não foi lá uma decisão muito inteligente da minha parte, principalmente quando tinha o recesso de fim de ano tão próximo. Ainda bem que serão só mais alguns dias e logo, logo, essa será uma dor de cabeça a menos… temporariamente.

– Tetê?

– Eu sei que você quer o seu tetê, meu amor, mas antes temos que evitar acidentes. Você não vai querer manchar o sofá da tia Gigi, vai? – Ela balançou a cabeça negativamente e eu lhe dei um beijo no canto da boca. – Você é tão fofa, ma vie. Deita para a maman te trocar.

Antes de começar, dei a chupeta para manter a Clara calminha e distraída. Seria mais fácil a trocar com uma fralda de tiras, mas só tinha as de vestir comigo. Depois de me livrar das roupas de baixo da bebê, eu preparei a sua pele com cuidado. Suas assaduras já tinham praticamente sumido com o uso do balsamo, me deixando orgulhosa.

– Levanta o bumbum, – pedi e Clara obedeceu sem reclamar. Depois de vestir a fralda verifiquei se estava tudo certo. – Levanta para colocar a roupa de volta. Boa menina.

Ajudei a Clara vestir suas calças outra vez. Guardei tudo de volta na minha bolsa e joguei no lixo as toalhinhas que usei para preparar a Clara e limpar a minha mão. Ainda restava um tempo antes da reunião e usaria para atender ao pedido da bebê.

Era a primeira vez que amamentava com uma terceira pessoa no mesmo ambiente. Embora eu soubesse que a Giovana estava pouco se fodendo para nós, eu ainda me sentia um pouco estranha. Clara, porém, também parecia estar nem aí para o que acontecia ao nosso redor.

– Agora eu já entendi o que aconteceu, – Giovana comentou depois de um tempo quando terminou sua ligação com sua esposa. – Seu leite desceu.

Senti minhas bochechas corarem um pouco. – Sim. Até ontem estava com apenas alguns ml e hoje acordei com o peito ingurgitado, com a sensação de que iria explodir. 

– Urgh, isso dói – Gio fez uma careta de quem sabe muito bem o que estou falando. – É horrível, te entendo…, normalmente isso acontece com grávidas, mas conheço algumas mommies que induziu e o leite desceu assim também. Ter pouco leite é péssimo, mas tem muito leite é ainda pior. Dói, vaza direto e precisa ordenhar o tempo todo, um saco.

– Isso foi bastante animador, obrigada.

– Relaxa, isso é só no início, depois seu corpo se ajusta com o apetite da sua pequena.

Eu estou lascada… muito lascada.

– Eu estou preocupada com a Clara, – acariciei o rostinho da minha bebê com o dedo. Seus olhos estavam fechados e pela sua sucção, ela estava prestes a se entregar ao sono. – Suas regressões estão vindo de repente e sem aviso prévio. Não importa o lugar ou horário, ela só escorrega.

– Você recém começou a lactar, dá um tempo para a sua pequena. Ela vai se acostumar, mas por agora, ela vai ficar igual criança empolgada com o cachorrinho recém adotado que quer ficar o tempo todo com o bichano e não quer dormir com medo de ele não estar lá pela manhã. Até entrar nessa cabecinha de que amanhã irá continuar tendo o leite e não tem porque se desesperar para ter o tempo todo… leva um tempinho.

Fiz uma careta e a Giovana riu. Ela já esteve na minha situação com a sua pequena desesperada por seu leite o tempo todo e sabe como é. Não que eu esteja reclamando de ter a minha pequena por perto, longe disso. Mas coitado dos meus mamilos sensíveis de tão judiados.

– Quer uma dica de amiga? Já começa uma rotina de mamadas diárias, assim a sua pequena irá saber que terá o seu “peitinho” em determinados momentos do dia e se acalmar. Jujuba mama religiosamente todos os dias ao acordar, depois do trabalho e antes de dormir.

– Ela fica o dia inteiro sem?

– Normalmente sim, mas se precisar ela tem o leite no congelador que ela pode tomar na minha ausência. Vez ou outra que eu preciso fazer um delivery de peitinho porque ela acabou regredindo no trabalho, mas hoje em dia isso é mais controlado. Leva tempo, mas tem jeito.

– E até dar o “jeito”, o que você fez?

Gio fez sua típica careta de que não vai falar o que você quer ouvir. – Paciência, né amiga. É algo que a sua pequena está esperando pacientemente há um tempo. É normal a empolgação e essa vontade desenfreada nos primeiros dias. Deixa a sua pequena ser feliz, libera essa teta.

Revirei os olhos. – Você está agindo como advogada dos pequenos agora.

– Aí, amiga. O que eu posso fazer? Eu amo ser mommy e essa é a minha profissão. Acredite em mim, depois que passa essa empolgação e sua baby começar a te trocar por desenhos ou um brinquedo, você vai sentir falta disso. Então aproveita.

Uma coisa Giovana tinha razão; ela realmente amava ser mommy e se dá bem com qualquer pequeno com uma facilidade invejável. Não é por acaso que a Jujuba é a pequena mais tranquila do Apex até em seus momentos mais pequenos. E não tenho duvidas que eventualmente, as Juvanas terão seus próprios bebezinhos para cuidar.

– Você me avisa se ela acordar e precisar de mim?

– Acho difícil acordar antes da sua reunião acabar, mas aviso sim.

Depois de mamar por quase dez minutos, Clara apagou em um sono profundo e pesado no sofá. Ela sequer percebeu o momento que troquei meu peito por sua chupeta e esse foi o meu sinal de que poderia levantar e a deixar deitadinha.

– Je t’aime, mon bébé – sussurrei contra sua pele e lhe dei um beijo por cima da chupeta e sua testa.

Segui para a minha reunião e a Gio teve razão. Clarice não acordou, pelo contrário, ela foi acordada por mim na hora de irmos embora – sim, eu aproveitei seu sono para continuar trabalhando enquanto pude, – e por pouco não tive que arrumar um jeito de a levar ao estacionamento no colo.

Minha pequena estava cada vez mais confortável com sua pequinês e apesar de isso me assustar um pouco por não saber exatamente a parte de ser maman, eu estava muito orgulhosa e morrendo de amores por ela.

Eu estava longe de ser uma maman experiente como a minha amiga, mas pela a minha bébé eu iria aprender e lhe dar todo amor e carinho do mundo como merece.

– Maman? – Clara murmurou ao se ajeitar no banco do carro.

– Oui, ma vie?

– Te amo.

Dito isso, Clara voltou a cochilar. A observei confusa, mas apenas aceitei o seu amor.

– Eu também te amo, ma vie – peguei a sua mão e depositei um beijo demorado. – Je t’aime aussi.

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