Elora Aneva

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42. Point de Vue

« C L A R I C E »

Sabe quando você está tão na merda que até seus motivos para comemorar não te animam? Eu sorri para brindar, mas foi um sorriso forçado.

Não me leve a mal, eu estava feliz pelo resultado. Teoricamente terei justiça pelo o que me aconteceu, mas era isso: teoricamente.

Para chegar à sentença, não só a acusação como a minha defesa, me estraçalharam de todas as formas possíveis. E parte de mim não sabe se estava pronta para me expor dessa forma. Memórias em segredos que nunca me abri para ninguém, agora são de “domínio público”. Mas o que me deixou assim, foi reviver toda a merda do passado.

Lembrar de tudo e agora saber que não era para ser assim. Que enquanto eu me fodia, o Luís e companhia se beneficiavam do meu sofrimento ao mesmo tempo que apagavam a história e memória da minha mãe. Isso era brutal demais.

Eu venci a guerra, mas no final, eu era o soldado ferido e ensanguentado que agora precisava lidar com suas dores. E minha forma de lidar com isso foi me isolando…

Depois da taça de champagne – que sequer finalizei – eu caminhei pelo bosque dentro do Apex até o outro lado onde ficava o casarão e o carro da Val estava estacionado. E pensar que a chave estava dentro e poderia ter dado uma merda colossal… todo o dinheiro que o Luís teria que me pagar eu teria que usar para pagar a Val e ainda sairia devendo porque ele nunca terá o valor total para restituir.

Felizmente estava tudo no lugar. O carro, minha mochila, minhas coisas e outras tralhas da Val que estavam aqui. Respirei aliviada em saber que não terei mais um motivo na lista para a deixar brava comigo.

E por falar nela… eu não acho que vamos ter a nossa conversa hoje. A Val viu a sentença através do celular do Bruno – e o vídeo do Theo, porque sim, ele gravou – e mandou uns áudios. Mas ela estava tão loucona de sono – e provavelmente ódio – que até o Bruno teve dificuldades para entender sua mistura de francês e português nos áudios que me mandou. E sinceramente? Eu precisava estancar meus próprios sangramentos antes de mais um começar.

Dessa vez – e que fique claro que é somente dessa vez, – eu prefiro que a Val vá dormir e descanse para que eu possa ficar sozinha… no apartamento dela. Um pouco abusado da minha parte ir para lá levando em consideração todo o contexto, mas onde mais poderia encontrar um espaço para ficar sozinha-sozinha?

Além do mais, para o que eu gostaria de fazer, eu precisaria de espaço físico que fosse grande. Eu queria pintar. Pintar tal qual a época em que ficava sentada no chão com o meu mini cavalete enquanto minha mãe fazia seus quadros enormes e incríveis. Era o meu passatempo favorito, tinha até uma jardineira jeans igualzinha a dela. E a gente penteava os cabelos iguais: duas tranças partido no meio.

Eu queria ter o cabelo igual o da minha mãe, mas eu acabei puxando a minha avó. Triste…

Antes de ir para casa da Val, eu busquei o Chloée e passei numa loja de artigos artísticos que a minha mãe costumava comprar seu material. Não era nada barato para uma mera estagiária e bartender como eu, mas uma vez na vida – e parcelado no cartão – você nem sente o rombo que um quadro 4cm menor que o seu próprio tamanho, o mínimo possível de pincéis decente e um salário de um mês em tubos de tinta aquarela Winsor & Newton.

A vantagem do condomínio da Val ser de rico é que, quando o segurança me viu me ferrando para tirar a tela de 1,5m de dentro do carro, ele veio me ajudar e chamou outra pessoa pelo rádio para me acompanhar até o apartamento. Se fosse lá no meu condomínio, dependendo de quem estivesse na portaria, nem interfonar para chamar a Larissa ou a Glória faria.

Dessa vez, eu estava preparada para fazer arte. Antes de começar forrei o chão com papel kraft. Comprei um rolo enorme – e pesadíssimo – para cobrir tu-do. Deus me livre sujar/manchar qualquer coisa aqui na ausência da Val. Até o Chloée foi obrigado a usar sua capa de chuva e os sapatinhos… não tive coragem de trancar ele para fora do escritório. Apesar do risco de ter esse mini pestinha aqui, esse não era o escritório principal que a Val costumava trabalhar, estava mais para “sala-do-piano-esquecido” que para qualquer outra coisa e mais um pouco viraria um depósito de tralhas não usadas.

– Pronto, Chloée… o que vamos pintar? – Ele virou a cabecinha de lado e eu quase morri de amores. – Você não sabe? Nem eu… na verdade eu sei…, eu só… não sei se ela vai gostar. Sua outra mãe está brava comigo e meio distante… tipo, literalmente distante, mas também distante-distante. Eu não sei… eu também não quero pensar muito nisso.

O Chloée latiu, saiu correndo e voltou com o seu brinquedinho de pelúcia: um macaco com braços bem longos. Ele largou no chão perto de mim e eu fiquei olhando para isso um pouco incrédula.

– Você está realmente pouco se ferrando para os meus problemas, não é mesmo garoto? – Peguei o macaco do chão. – Quero só ver se vai continuar assim quando for obrigado a morar só num apartamento que cabe dentro desse cômodo e não tem espaço para você correr.

Joguei o macaco para o outro lado e o Chloée foi buscar todo feliz com seu jeitinho de correr engraçado que parece empinar as patas da frente. Logo em seguida ele voltou e pediu mais uma vez para jogar o macaco. E era isso, eu comecei a preparar meus materiais, parando de minuto em minuto para jogar o macaco.

Fiquei um tempo parada encarando a tela branca, pensando o que e como poderia pintar. A verdade é que eu poderia fazer algo melancólico e dramático ou algo forte e raivoso que combinasse com os meus sentimentos. Mas meu coração, embora ferido e ensanguentado, só pedia pelo meu ponto de paz e conforto.

Suspirei triste e desanimada…

Demorou quatorze anos para me sentir genuinamente segura com alguém e foi muito fácil estragar com tudo. Bastou um momento de rebeldia sem sentido e uma decisão errada em um momento de fragilidade. E pronto, a cagada estava feita.

Não tenho muito que me defender, eu também ficaria puta com essa situação. Só de imaginar a possibilidade da Val com outra pessoa em seus braços e tendo o nosso momento com alguém que não fosse eu me deixava furiosa e na merda. Agora mesmo me encontro irritada e com ódio com a cena fictícia.

Em meio a esses pensamentos tristes – e irritantes – eu decidi o que iria pintar. Embora tudo ao meu redor estivesse um caos agora e memórias desagradáveis tenham sido desenterradas, eu queria me lembrar e registrar o que trazia conforto e paz. E que me faz sorrir em momentos aleatórios, que traz um calorzinho no peito na expectativa de um abraço, que traz leveza para os meus dias, que trouxe de volta cores para o meu mundo cinza.

Eu queria pintar o Chloée.

– O que você acha, meu filho lindo? – Eu peguei o Chloée do chão e o enchi de beijinhos. – Coisa mais linda da minha vida! E você tem razão, é exatamente isso que vou pintar.

Chloée.

No caso, Valkyrie Chloée.

Qual é? Você realmente achou que estava pensando no cachorro? Eu amo o Chloée e daria minha vida por ele, mas ele está em terceiro lugar na minha vida. Primeiro lugar pertence ao meu amor, Valkyrie. O segundo lugar é dos os peitos da Valkyrie. E terceiro lugar, o meu filho com a Valkyrie, Chloée. Resumidamente, meu podium inteiro tem a Val nele.

Meu deus, o que será de mim se essa mulher me deixar?!

Não quero nem pensar. Nem pensar!

Meu pulso ainda estava dolorido, mas uma vez que o “boom!” criativo me atacou e os traços começaram a fluir como um rio, eu já não ligava para mais nada. A sensação de ver meus rabiscos criarem forma em um quadro e aos poucos a tela ganhar vida era tão boa. Tão boa que me fez perguntar porque eu abandonei a pintura.

A tela que escolhi era exatos 4cm menor que eu e provavelmente era a maior tela que já ousei pintar na vida. E como meu único cavalete era folhas do tamanho A4, eu apoiei no chão mesmo. Isso significava que estava pintando em pé, sentada e deitada no chão, dependendo do que estava fazendo.

E por fim, depois de algumas horas consideráveis, eu estava no chão totalmente largada encarando o teto enquanto o Chloée brincava em me escalar e pisar na minha cara.

– Você não se cansa, cara? – A resposta dele foi atacar meu rosto. – Você definitivamente precisa das suas duas mães. Uma não é o suficiente para dar conta da sua energia. Jesus…

Em algum momento entre patadas na minha cara ou mordida no meu nariz, o meu celular começou a tocar ao meu lado. Já esperava pela ligação da Larissa, então só atendi sem me dar o trabalho de olhar a tela. Até porque, com um mini cachorro pulando no meu braço e tentando comer meus dedos, não seria possível.

– E aí, chata. Isso é hora de ligar?

– Comment ça, Clarice? – Essa voz me fez sentar no chão imediatamente. – C’est comme ça que tu me parles?!

Tinha coisas que a Val falava e eu entendia com a alma, por isso na minha cabeça eu ouvi sua versão brasileira dizer; “como é que é, Clarice? Isso é jeito de falar comigo?” seguido de algum xingamento porque ela não gosta de certos modos que falam com ela, mas manda todo mundo tomar no cu.

– Desculpa, eu achei que fosse a Larissa. Pensei que estivesse dormindo? Que horas são?

Sei bem… aqui são cinco da madrugada.

Eita, já é uma da manhã aqui?!

– Por que está acordada a essa hora? E no sábado…

Cheguei na conclusão que o único horário possível de falar com você é quando todo o resto está dormindo e eu tenho paz.

O que está acontecendo por aí? A sua avó está bem?

Val riu. – A Hélène está melhor que todo mundo. Tem pouco mais de 24h que acordou e está enlouquecendo toda a equipe médica. Parece que a velhice e a experiência de quase morte a deixou mais louca.

É por isso que está distante?

Se você diz distante como sem muito tempo; sim. A Hélêne definitivamente está me deixando muito ocupada com suas demandas infinitas.

E é só por isso? Você não está se afastando de mim, está? Porque eu tenho a sensação de que você só está procurando a melhor ocasião para terminar comigo e eu estou com medo.

A Val ficou em silêncio. E quem cala consente… só por isso meus olhos já estavam cheios de lágrimas e eu estava prestes a chorar.

Foi isso que a Claudia te disse? – Ela perguntou depois de um instante que para mim durou horas.

– Também…

E o que mais ela disse?

Muitas coisas.

Que coisas?

Percebi que a corda que me segurava e impedia de escorregar estava por um fio. Ouvir a voz da Val em um momento em que tudo que eu mais precisava e queria era seu colo e abraço, deixava esse fio ainda mais fino e frágil.

Muitas coisas más que não vale repetir.

Mas eu quero saber…

Eu não respondi. Eu só consegui aguentar o dia de ontem e tudo que passou porque estava grande. Se eu ficar pequena, qualquer resquício de força que ainda existe em mim irá virar pó e eu… eu ainda tinha não sei quantos dias para aguentar o tranco sozinha.

– Mon bébé? Eu ainda estou esperando…

Não me chama assim, – pedi baixinho. – Por favor…

Limpei as lágrimas rebeldes com as costas das mãos ainda sujas de tintas.

Clara… o que você está sentindo? Fala para mim.

Eu não quero falar sobre isso agora. Eu não estou bem… não só pelas coisas que a Claudia disse, mas também por tudo que aconteceu na audiência. Tocaram em todas as feridas possíveis e o Luís sabe o que me deixa mal, sabe como me desestabilizar e não me poupou em momento algum. Eu não consigo estar feliz com o que aconteceu e sinto que estou no meu limite.

Eu sinto muito, ma vie… o que eu posso fazer por você?

Agora? Nada… eu queria um abraço, mas você está muito longe.

Você comeu alguma coisa?

O Bruno me levou para comer coxinha.

Isso eu sei. Quero saber depois disso. Você não comeu nada ainda?

Não.

Clarice, eu estou preocupada com você.

Desculpa.

A mam-Val suspirou. – Não peça desculpas, apenas coma algo, d’accord? Se não comer irá ficar doente outra vez. Eu não quero que vá parar no hospital… minha cota de hospital esse ano já bateu faz tempo.

Se eu fosse para o hospital você voltaria?

Você não inventa, Clarice. Está tomando os seus remédios?

Sim. Eu comi laranja porque é melhor para comer com o remédio.

Você vai jantar antes de dormir, okay? Isso não é um pedido, é uma ordem.

Tá bom, eu vejo se tem alguma coisa na geladeira. Acho que a Teresa fez algo ontem e eu não vim… eu estou com saudades da sua comida. E com saudades de comer com você… e comer você também.

Val riu, dessa vez uma pequena risada genuína que acalentou meu coração dodói. – Você sempre vai de zero a mil em frações de segundos, não é mesmo meu amor?

É que pensar nessas coisas é uma ótima forma de me distrair das outras.

Quais os seus planos para esse final de semana?

Ficar de boa aqui no seu apartamento.

Não vai convidar os seus amigos?

Para o seu apartamento?! Nem pensar! Do jeito que sou sortuda, vão quebrar logo o vaso que sua mãe te deu e aí eu fico te devendo uma fortuna e sua mãe passa a me odiar.

Como se fosse possível a minha mãe te odiar. Se não bastasse ela te adorar, você é filha de uma antiga amiga dela. Você me atropelar que ela vai dizer que foi um acidente, “coitadinha da Clarice”.

Eu nunca vou te atropelar.

Eu espero.

A ligação com a Val não durou muito. Era bem cedo em Paris, mas ela tinha muita coisa para fazer no dia e como eu tinha um quadro enorme para pintar, não me incomodei… só um pouquinho. Eu queria a atenção dela para mim só mais um pouquinho mais, mas aceitei a minha realidade.

Nem dez minutos depois que encerramos a chamada, o interfone tocou. Sem entender muito, fui atender pensando ser Bruno e suas maluquices, mas era um funcionário do condomínio.

– Sra. Touchon, chegou entrega para a senhora. Posso levar?

– Entrega a essa hora da noite? Pode deixar aí em baixo?

Eu sei não… muito suspeito. Nas séries policiais, isso certamente seria uma bomba.

– É comida, senhora. Não posso deixar aqui na recepção.

– Eu não pedi comida.

O rapaz ao interfone conversou alguma coisa com alguém antes de retornar para mim. – O entregador do restaurante disse que foi pedido da Sra. Valquíria para Clarice Touchon.

– Aaah… sou eu sim!

Tirando a parte que eu não sou uma Touchon, mas enfim, obras de Valkyrie.

– O concierge irá levar para a senhora. Tenha uma boa noite!

Sinceramente, eu já estava me esquecendo que prometi a Val que iria vasculhar a cozinha para ver se encontrava algo. Ainda bem que ela me mandou algo.

Alguns minutos depois, apertaram a campainha e pelo olho mágico vi que realmente se tratava de alguém que trabalhava no condomínio me trazendo uma caixa de um restaurante. Se tivesse dinheiro, daria gorjeta ao rapaz que veio até aqui, mas quem é que usa dinheiro físico atualmente?

A caixa em si estava cheirando muito bem e quando abri o cheiro de fome subiu. Frango empanado, purê de batata e arroz – a salada a gente ignora – simplesmente minha combinação favorita de comida! E tinha cookies de chocolate de sobremesa.

Para ficar perfeito só faltava a Val e o tempero dela, mas isso não iria acontecer, eu me contentei com o que tinha.

Apesar de ter comido bem, não consegui comer tudo e resolvi guardar para mais tarde. Fui partir para a sobremesa e ao abrir a caixinha menor, dentro dela tinha um papel colado na parte superior. Era uma impressão de uma foto de um bilhete escrito à mão.


A letra linda, porém, quase indecifrável era impossível não reconhecer. É sério, a letra da Val é a coisa mais linda do mundo para se apreciar… menos ler.

“Asp… Esp… espero que…” isso é o G ou um S? “Espero que os melhores cookies…” é o que?! Meu deus. “… melhores cookies alguma-coisa o seu dia, mon amour”. O que será isso? Ami.. ani… aninune… anime… anime? Ah, animem de animar, não de desenho. Entendi. “Espero que os melhores coookies animem o seu dia, mon amour”. Jesus amado… “Tu nu.. tu me… tu me manques plus que tout. Je compte les secondes pour te retrouver”… até que consegui ler mais fácil, só não entendi nada.

De acordo com o tradutor, “tu me manques plus que tout. Je compte les secondes pour te retrouver” significa “sinto a sua falta mais que tudo. Estou contando os segundos para te reencontrar”.

Ela sente a minha falta… ela sente a minha falta!

Abocanhei um cookie de chocolate com gotas de chocolate e a decepção só não foi maior porque era chocolate. De onde essa doida tirou a informação que esses cookies são os melhores? Não vou dizer que são horríveis, até dá para comer e tals. Mas depois que se acostuma com os da Val; é difícil comer outra coisa.

“Os melhores cookies” não sei de onde… a Val tem cada ideia. Até parece que é possível alguém superar os delas, nem a… oh… oh… OH! São os cookies da Gisele! Meu deus, a Val acha que a Gisele faz os melhores cookies até hoje?!?!?! Meu deus!

Lembro que ela ficou muito chateada na época… se eu desmentir isso hoje ela vai me matar. Ai, ai, Clarice… você só faz merda também, hein. Será que é por isso que ela nunca mais me fez cookies? Nem lembro a última vez que comi essa divindade. Me amarraria num cookie agora.

Larguei os cookies na cozinha e voltei para o escritório continuar meu quadro. O céu já estava claro e o Chloée dormindo largado quando decidi parar. Ainda estava longe de terminar, mas pelo menos tinha metade do caminho andado.

Um banho quentinho depois, eu fui deitar na cama com o Chloée. A Val não estava aí e não teria problema se ele ficasse comigo. E a Larissa deu banho nele ontem, ou seja, limpinho, cheiroso e muito delícia. Vai ficar comigo sim. Se a Val não gostar, ela que venha de Paris reclamar na minha cara.

O resto do meu sábado foi a mesma coisa. Acordei quase horário do almoço, levei o Chlô para dar uma volta e esticar as patinhas pelo condomínio mesmo. Pintei mais um pouco enquanto jogava o macaco do Chlô. Dormi apoiada na mesa encarando o quadro. Pintei outra vez até o Chlô vir para o meu pé e não sair mais.

– O que você quer, rapaz? – Ele latiu e deu uns passinhos para trás. – Cadê o seu macaco? Vai lá pegar.

O Chlô latiu e saiu correndo. Minutos depois ele voltou com a coleira na boca, jogou no meu pé e começou a latir.

– Sério isso? – Revirei os olhos e peguei a coleira do chão. – Tá bom, seu chato. Vamos passear.

Lavei minhas mãos que estavam sujas de tinta e saí com o Chloée para passear. Dessa vez saí do condomínio para ir numa praça que tem ao lado para ele ver ares novos e poder correr na grama livremente. Para uma mini bolinha de pelo, o Chlô tinha muita energia para gastar e eu estava sofrendo com essa vida de mãe solteira. Amo muito esse neném, mas ele precisa de duas mães.

Essa mãe aqui está cansada.

Ficamos um bom tempo brincando: eu sentada no banco jogando bolinha para o Chlô correr atrás e trazer de volta. Estava um sol de rachar a cabeça e de repente nuvens carregadas fecharam o tempo. São Paulo é conhecida pela cidade da garoa e é normal a chuva chegar do nada sem aviso prévio, mas dessa vez não foi uma garoinha. O que caiu foi um diluvio de uma hora para outra.

– Chloée! Vem cá, pestinha!

Corri atrás dele e ele achou que estava brincando e saiu correndo para mais longe. Foram algumas voltas em círculos até conseguir pegar essa pestinha do chão e correr para o condomínio.

O Chloée e eu estávamos encharcados quando chegamos no apartamento. E para variar, minha bolinha de pelo branca agora era uma bolinha de lama.

– Você também, hein… só apronta. Será que é assim que a Val se sente comigo? Que horror!

Esse pilantra tomou banho ontem e agora precisava lavar de novo. Pelo menos ele era pequenininho e não dava muito trabalho… em partes, porque apesar de pequeno, para ele qualquer coisa era brincadeira e aí já viu.

– É melhor você não se sujar outra vez, está entendo rapaz? Você nem poderia tomar outro banho hoje. Se você fosse eu já teria levado palmadas. Bobão! Agora vai brincar e me deixa quieta.

Eu também precisava de um banho. Ainda estava com a roupa encharcada e toda molhada da chuva. Nada como um chuveiro quentinho para relaxar e voltar a dignidade.

Era estranho colocar a minha fraldinha sem a maman, mas como era daquelas de vestir, eu andei fazer isso eu mesma nessa última semana. Não queria arriscar acidentes durante a noite e nem ter o trabalho de lavar roupa de cama também. A fraldinha de vestir não absorvia tanto e não era tão confortável como a outra, mas quebrava o galho e aguentou o tranco até aqui.

O mundo estava caindo em água lá fora e eu fui obrigada a fechar todas as cortinas para não ver nada. No escritório onde estava pintando o quadro era ainda melhor de ficar, a acústica de lá era muito boa e o que ouvia vindo de lá de fora era quase nada. Dava uma falsa segurança de que tudo estava bem.

Eu voltei a pintar sentada no chão com o Chlô dormindo entre as minhas pernas. E enquanto estava ali sem ver ou ouvir o que acontecia do lado de fora, sentia que estava tudo bem… em partes, pois o meu celular tocou e eu quase fui parar o teto com o susto.

Dessa vez não era a Val, era a Laris mesmo.

– E aí, anã. Você está bem?

– Estou. E você?

– Está bem mesmo? O céu está quase preto por aqui, vai cair um pé d’água.

– Por aqui já está caindo, mas quase não dá para ouvir daqui de dentro então estou suave.

Tem certeza? Não quer vir para cá ou que eu e a Glória vá para aí te fazer companhia?

– Laris, você está em São Paulo. O caos que não vai estar nas ruas agora, vai ser muito pior se tentar vir para cá. Eu vou ficar bem… e o Bruno mora aqui do lado. Eu não sou um bebê. Não se preocupe comigo, vai dar tudo certo.

E foi só falar isso para todas as luzes se apagarem e ficar um completo breu. O clarão que deu pelas fretas da cortina me fez arregalar os olhos, logo em seguida um barulho altíssimo.

Ok… ok… eu estou bem. Eu estou bem. Vai dar tudo certo. Eu estou bem. Você é muito velha para ter medo de escuro, Clarice. Se controla.

Eu ouvi isso.

– Caiu a energia por aqui.

Vixi… agora fodeu. Quer vir para cá?

– Nem pensar! O tempo está horrível lá fora. Eu vou colocar meus fones e fingir que nada disso está acontecendo. Tá maluco.

Tem certeza que vai conseguir? Se precisar de um resgate é só avisar. Eu não subo todos esses andares de escada por você, mas te espero lá embaixo. Pode ser?

– Você é uma idiota.

Do nada algumas luzes acenderam. O mínimo necessário para enxergar tudo ao redor, porém, mais iluminado que o que a Val costuma usar durante a noite e quer “manter o sono regulado”. Dava para ficar bem com isso. 

– Enfim, se precisar de alguém… eu sei que você quer se isolar e tals. Depois de tudo que ouvi, já esperava que fosse ficar assim, mas… você sabe que dessa vez não precisa enfrentar tudo sozinha ou fingir que não sente nada, não sabe? Está tudo bem se quiser chorar ou sei lá… como é que vocês chamam isso? Regredir? É isso? Você me entendeu…, não somos sua namorada, mas podemos dar um jeito.

Fofo, porém, meu deus… que vergonha!

No momento eu prefiro continuar como estou. Grande e na minha.

Se você diz…

Entendo a preocupação da Laris. Quem acompanhou de perto o meu luto, sabe que foi um tempo bastante complicado e caminhar tão perto de algo parecido com aquilo é realmente preocupante. Eu estou me distraindo como posso para me afastar dos pensamentos sombrios, mas se olho para o lado, eles estão lá a minha espera. Um pequeno deslize e todas as minhas barreiras caem.

E diferente daquele tempo em que lidava “apenas” com a perda da minha mãe. Agora o que tenho aqui é o luto acompanhado de uma pilha de lixo que jogaram em cima. Lembranças e memória de anos de repetidos abusos e maus tratos. São tantas feridas que o próprio luto se tornou uma dor distante.

Luís não me roubou apenas uma herança que teria mudado a minha vida. Ele fez questão de apagar e queimar quaisquer resquícios da existência da minha mãe. Eu era muito nova e aos poucos as memórias foram se apagando. Lembro muito bem dos seus cabelos ruivos e verdes quase cristalinos, mas alguns detalhes dos seu rosto se perderam com o tempo. Sua voz se tornou distante e seu perfume eu já não lembro mais.

O tempo é cruel demais. Ele corrói e deteriora qualquer coisa, não importa se é um objeto ou uma lembrança. O que se pode fazer é tentar conservar e retardar esse processo, mas inevitavelmente, o tempo fará o seu trabalho e por mais que eu tentasse conservar a memória da minha mãe, fazer aquilo sozinha era doloroso e quase impossível. Nem mesmo os meus desenhos foram poupados e mesmo escondendo todos eles, sempre encontravam.

Acho que o mais difícil foi aceitar e deixar ir…, mas depois que aceitei, perceber que estava me esquecendo aos poucos da pessoa mais importante da minha vida se tornou um pouco menos dolorido. 

E por não querer nunca mais me esquecer dos detalhes preciosos de quem mais amo, eu decidi fazer esse quadro. Provavelmente essa é a primeira e a última vez que faço algo tão detalhado, mas eu não queria perder nada.

Se por acaso um dia eu perder minha memória, quero olhar para esse quadro e lembrar dos mínimos detalhes que me fizeram me apaixonar. Não era tão perfeito como a realidade, mas era o mais próximo que era capaz de chegar.

Era mais uma noite que passei em claro acompanhada dos meus pincéis, doses de energético que tinha na geladeira e o Chloée que dormiu logo nas primeiras horas. Pretendia terminar o quadro em alguns dias, porém, antes que meus olhos ficassem pesados demais para os manter abertos, assinei o meu nome no canto da tela.

Depois de quase 30h de sexta-feira até domingo, minha Valkyrie de 1,5mx100cm estava pronta e o resultado final da obra me agradava muito, mas também… eu teria que forçar muito para pintar uma Val que não saísse linda. Aquela mulher é simplesmente pura arte.

E foi admirando a beleza do meu amor que acabei dormindo no chão ali mesmo completamente exausta.

« V A L K Y R I E »

Abri a porta esperando ser recebida pela luz da manhã, no entanto, o que vi foi uma estranha escuridão. Cortinas fechadas. Todas elas. Era como se dentro do apartamento ainda fosse noite enquanto lá fora o céu estava nublado, porém desconfortavelmente claro.

Deixei a mala ao lado do aparador e logo tratei de usar o controle para abrir todas as cortinas. Ainda era cedo, precisamente 09:27 da manhã e provavelmente Clarice estava dormindo, por essa razão optei por não usar comando de voz. Ainda no aeroporto verifiquei a localização do seu celular e sabia que estava aqui, caso contrário teria ido direto ao seu apartamento.

Sem pensar muito, subi as escadas até o quarto. Estava ansiosa para encontrar o meu amor. Porém, ao abrir a porta encontrei a cama vazia e feita com perfeição e precisão que tenho certeza que Clarice jamais faria.

Ela não dormiu aqui?

Procurei pelos os outros cômodos. Sem sinais de Clarice em lugar algum do segundo andar. Voltei para o primeiro e na cozinha encontrei uma caixa de cookies abandonadas. Se estivesse vazia eu acharia “ok”, mas estava cheia e pelo visto ela só mordeu um deles e abandonou o resto.

Toda a preocupação adormecida despertou de repente. Clarice não comer já era estranho por si só. Não comer os cookies da Gisele?! É chocolate, açúcar e gordura, combinação favorita dela!

Estava prestes a ligar para ela, quando vi a miniatura de cachorro vir do corredor correndo saltitante até os meus pés.

– Isso é saudades ou você sentiu o cheiro do petisco que eu te trouxe? – Peguei o Chloée do chão para lhe fazer carinho. – Onde está a sua dona, rapaz?

A resposta do Chloée foi lamber meus dedos e morder empolgado. Resolvi o soltar no chão e fazer o caminho pelo qual ele veio. E como eu esperava, ele saiu correndo na minha frente para entrar na sala do piano e voltar com o seu macaco na boca.

Me aproximei da porta e logo vi o papel forrando o chão. Preocupada, terminei de abrir lentamente esperando o pior. Havia aprendido que quando se trata de Clarice, esperar pelo verdadeiro caos é sempre a melhor opção. Qualquer coisa diferente disso é lucro.

No entanto, dessa vez, quando entrei na sala, o que me deparei não foi o caos, menos ainda o pior. Meu coração deu um tropeço no peito antes mesmo que eu pudesse entender o que estava vendo.

Era eu.

Uma versão minha pintada em aquarela com traços suaves, quase etéreos. Como se eu tivesse sido capturada em um instante fugaz e transformada em algo eterno. Eu sabia que Clarice tinha um talento, a julgar pela sua mãe não esperava nada muito diferente, mas… uau.

Era definitivamente o quadro mais bonito que já vi na vida.

Os tons delicados se fundindo e escorrendo de uma forma controlada, exata e ao mesmo tempo imprevisível. Como se cada gota de tinta conhecesse o lugar certo para cair. Era estranho me reconhecer e ao mesmo tempo ser diferente do que via no espelho. Era como se eu pudesse me ver através dos olhos da Clara. Sem dúvidas, sou muito melhor sob seu olhar.

Quis chegar mais perto para ver cada detalhe e levei um susto ao me deparar com Clarice largada no chão. Com o pincel ainda em suas mãos e cercada por algumas latinhas de energético, ela parecia dormir em um sono profundo.

– Mon amour, – a chamei baixinho ao me aproximar. – Acorda, vamos para cama, bébé.

Clara não reagiu e ao tocar em seu rosto percebi que estava quente. Muito quente. Ela estava ardendo em febre.

Com um pouco de dificuldade, levantei Clarice do chão. Ela resmungou um pouco sem de fato acordar, não sabia se reclamava por a ter tirado do chão ou por sentir alguma dor. Coitadinha da minha bebê.

– A maman está aqui, ma vie – sussurrei contra a sua testa enquanto a levava para o quarto no andar de cima.

Clarice estava com febre. Febre e suja de tinta. Nesse momento me dei conta de que não tínhamos conversado sobre nossos limites e como ela se sentiria comigo lhe dando banho enquanto estivesse dormindo/inconsciente. Mas dessa vez iria ignorar esse detalhe. Um banho de banheira com água morna quase fria iria ajudar a reduzir a febre. E ela estava suja.

– Licença, mon bébé – pedi antes de tirar a sua roupa.

Felizmente, enquanto tirava peça por peça, não encontrei hematomas ou marcas para me preocupar. Eu ainda não sabia dos detalhes do que aconteceu com a Claudia, e por mais que eu saiba que aquela desgraçada não se envolvia sexualmente com as pessoas que tinha como sua little, nada me garantia que ela tenha machucado a minha pequena de outras formas.

Aquela diaba lactante desgraçada… seus dias de paz estão contados.

Nem mesmo a água um pouco mais fria fez com que Clara acordasse. Resmungou, reclamou durante o sonho, mas sua exaustão era tanta que estava ressonando. E como ela estava assim, levei o meu tempo para lhe dar banho e tirar as manchas de tintas das suas mãos, braços e rosto. Quanto mais tempo ficasse na água, melhor seria para reduzir a temperatura do seu corpo.

Uma semana longe da minha bebê e o resultado disso fez parecer que foram meses. Sempre cuidei da ma petite com todo amor e carinho, para a encontrar com assaduras em sua pele. Deveria esperar que deixar uma pequena vestir sua própria fralda sozinha não acabaria bem e ver isso em sua pele era de cortar o coração. Não chegou ao ponto de se tornar algo grave e talvez por isso Clarice sequer comentou seu desconforto, ainda assim preocupante. Eu jamais deixaria isso acontecer com a minha bebê.

Passei a pomada com toda delicadeza possível e parando a cada resmungo de Clara.

– Eu sei, mon bébé. Está dodói a florzinha do neném, mas a maman precisa passar a pomadinha para sarar. Já vai acabar, só mais um pouquinho.

Clarice estava usando a fralda calça, mas eu optei em colocar a convencional que já costumava usar antes da viagem. São um pouco menos discretas que a fralda calça, mas isso não seria problema em casa e apenas comigo.

Para finalizar, passei uma loção hidratante de bebê que relaxa e ajuda a dormir em todo o corpinho da minha pequena e a vestir com uma das suas camisas de pijama desnecessariamente grande. Ela não parecia ter um sono sereno, mas estava um pouco melhor.

Agora estava na hora do meu banho.

Eu poderia ter me aproveitado de um tempo mais longo no chuveiro para relaxar os músculos depois da viagem, mas meu coração queria estar ao lado da Clara e não me aguentei. Alguns minutos depois lá estava eu deitada ao seu lado a observando enquanto acariciava sua barriga.

– Você me parece muito tensa para um neném que está dormindo, mon amour – falei baixinho. – A maman tem a solução para isso, mas por agora terá que contentar com o que eu te trouxe da França.

Depois da foto que a Gio me mandou da Clara dormindo usando uma chupeta, eu não resisti e comprei uma… algumas para ser honesta. Nunca imaginei que um dia iria achar a minha namorada usando uma chupeta fosse a coisa mais fofa do mundo, mas aconteceu e essa imagem não sabia da minha cabeça.

Apesar de ser a maman da Clarice e saber que era algo que ela iria gostar, eu optei por não lhe dar o tété. Quero que esteja acordada e com os olhos bem abertos quando for mamar agora que voltei. Por hora, a chupeta será o suficiente.

– Você também gosta, não é bébé? – Sorri ao ver as linhas de tensão no rosto da pequena sumirem com sua chupeta nova na boca. E como eu já previa, ela ficou ainda mais fofa. – Je t’aime, mon bébé, – sussurrei perto do seu ouvido ao a abraçar.

Queria continuar acordada até a minha pequena abrir seus olhinhos, mas estar deitada ao lado da minha bebê e a ter em meus braços me causou um relaxamento que não sentia desde que deixei o Brasil. Aos poucos o cansaço da viagem foi pesando os meus olhos e eu não resisti.

Agarrada a Clarice na cama eu finalmente podia dizer; estou de volta.

«-»

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Au revoir!

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