Elora Aneva

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33. L’art

« V A L K Y R I E »

Sabe quando você está em um sono tão profundo que demora para distinguir o que é sonho e realidade? Foi exatamente o que aconteceu comigo ao dormir na rede. Demorei a perceber que a sensação úmida e quente na minha perna não era um sonho e sim a realidade me mandando acordar imediatamente.

Minha primeira reação foi tirar o cachorro de cima de mim. Já estava prestes a ficar furiosa com o Chloée logo no primeiro dia, quando me dei conta de que não era ele a fonte que estava me molhando.

Clarice… – ela nem resmungou, estava em um sono profundo e pesado.

Olhei para o teto aceitando o meu destino. Clarice não era um cachorro de 20cm que poderia ser facilmente tirada de cima de mim e por fim teria que lidar com isso do mesmo jeito. Que situação…, mas pense pelo lado positivo, é o meu primeiro golden shower e não foi no colchão, a rede é só jogar na máquina e lavar.

– Mon bébé, acorda – tentei a despertar outra vez. – Você precisa acordar. Você fez um acidente em nós.

Citar acidente fez a Clara abrir os olhos de repente. Ao perceber o que acabara de fazer, ela fez um movimento brusco e caiu para trás na rede, por muita sorte consegui salvar a sua cabeça de bater no chão, mas não pude evitar que caísse de bunda no chão.

– Você se machucou? – Eu perguntei me levantando para a ajudar.

Clarice me olhou horrorizada ao se dar conta de que seu acidente me molhou também. Rapidamente, ela se empurrou para trás com as mãos se afastando de mim e então levantou e saiu correndo.

Quando fui correr atrás dela, o Chloée veio para os meus pés e eu quase escorreguei na poça que se formou no chão. Foram alguns segundos perdidos que foi o suficiente para perder a Clara de vista. Fui para o quarto achando que estaria por lá e não a encontrei por ali, nem no closet ou o banheiro. Também não estava no banheiro social ou quarto de hóspedes.

– Mon amour, où es-tu? (onde você está?) – Chamei em voz alta. – Clara, cadê você? Clarice!

Ao perceber que Clara tinha se escondido e não estava nada afim de revelar onde estava, decidi trancar todas as portas que davam acesso a área gourmet ou alguma varanda. Se ela quer se esconder, que seja na parte de dentro.

Petite?! Fala comigo! Onde você se meteu, hein? – Nenhuma resposta, e eu estava começando a me preocupar. O que essa garota estava aprontando? – Chloée, cadê a sua mãe? Vai achar ela.

O cachorro virou a cabeça de lado confuso e extremamente fofo.

– Você só serve para ser fofo, né?

A cada minuto que passava e a cada cômodo que vasculhava, me arrependia de ter escolhido morar em um duplex desse tamanho, qual era a necessidade mesmo?

Estava prestes a apelar fazendo cookies para atrair a Clara, quando ouvi ruídos baixinhos dentro da lavanderia. Fui seguindo o som até parar na porta do lavabo que tinha ali, ao tentar abrir a porta descobri que estava trancada.

– Mon bébé? O que está fazendo aí dentro? – A resposta não veio. – Abre a porta para maman, por favor? Amor? – Esperei mais um pouco e nada. – Se você não abrir, eu vou ser obrigada a pegar a chave reserva e abrir eu mesma.

– Na-naum, – Clara respondeu chorosa. – Naum enta.

– Por que não?

– Pu-pu-pu-quê você-você vai ba-ba-tê n’eu.

Eu vou te bater? – Perguntei confusa. – Mas eu não falei isso, bébé. Eu não vou te bater.

– Mas eu, mas eu… eu fiz pipi na maman!

Do lado de fora pude ouvir que a intensidade do choro aumentou e sua respiração estava totalmente desregulada com os soluços. Em minhas pesquisas sobre asma, vi sobre como o emocional poderia desencadear uma crise e estava ficando preocupada.

– Mon bébé, ouça a maman: está tudo bem. Eu não estou brava com você e não vou te bater por isso.

– Naum vai mesmo?

– Não, meu amor.

– Verdade verdadeira?

– Sim, bebê. Foi só um acidente, você não fez por mal. A maman sabe que você é só um neném. Um neném muito pequenino que não consegue evitar acidentes e precisa usar fraldinha, – sim, eu estava propositalmente tentando empurrar Clarice para o pequeno espaço.

– A maman… ainda… ama eu?

– Amo muito, ma petite. E você, também me… – fui interrompida pelo abraço repentino que recebi assim que a porta se abriu.

– Diculpa eu, maman. Num fiz querendo. Diculpa?

– Está tudo bem, meu amor – dei um beijo no topo da sua cabeça e acariciei suas costas. – Você está bem? – Ela concordou balançando a cabeça, mas fui obrigada a pegar entre as minhas mãos e forçar olhar para mim. – Olha para a maman; você está bem mesmo?

– Sim, maman.

Depois de tirar as minhas próprias conclusões a observar, eu a abracei outra vez. – Vamos tomar um bainho quentinho, d’accord?

Clarice estava muito manhosa e abatida com o que aconteceu e eu acabei a levando para o banheiro no colo. Tudo isso estava sendo uma grande prova de amor. Eu jamais imaginei que um dia iria ser literalmente mijada por alguém e ainda por cima a carregar no colo para dar banho, detalhe: ainda toda molhada. Se isso não é a prova de que o amor que sinto pela Clarice é diferente de todos que já senti antes, eu não sei mais o que seria.

Mas a verdade é que, a vendo assim, eu seria capaz de fazer qualquer coisa para a animar um pouco. Tenho a sensação de que seu lado pequeno não sabe me diferenciar dos seus parentes e espera o pior sempre. Acredito que irá levar um tempo para entender que não vou a machucar, não importa o que tenha feito.

Felizmente, eu sou bastante paciente. Ou pelo menos sei o que fazer para lidar com meu stress e raiva. Em outras palavras, eu consigo esperar o tempo da Clara e a ajudar perceber que eu não sou como aqueles filhos da puta e infelizes que diziam ser a sua família.

Nós tomamos um banho quente e demorado na banheira. Depois eu vesti uma fraldinha na minha bebê e o seu pijama. Ainda não era o horário que costumava dormir, mas por conta da viagem acho que posso antecipar a hora de ir para cama.

– Está com fome?

– Um pouco.

– Um pouco? – Perguntei surpresa.

Clarice com “um pouco” de fome é inusitado… ou será que o seu pouco são quantidades normais?

– O que você quer comer, meu amor? Qual o seu nível de fome: quer jantar ou fazer uma refeição rápida?

– Uma refeição rápida. É só um pouquinho de fominha, maman.

– Quer uma mamadeira, então?

– Mamadeira? – Clara me olhou confusa.

Ao invés de esperar por sua resposta, eu decidi preparar uma mamadeira com a fórmula que a Giovana mandou no seu “kit maman”. Clarice não me parecia que iria dizer o que realmente quer, então tomei a liberdade de decidir por ela.

– Aqui está, bebê – entreguei a mamadeira nas mãos de Clara. – Está na temperatura ideal, eu testei.

Clara encarou o objeto em suas mãos e olhou para mim. – Eu posso tomar do sofá?

– Você quer tomar a mamadeira do sofá? – Ela afirmou com a cabeça. – Alors, okay. Vamos lá.

– Vem Chlô! – Clara chamou o seu cachorro ao levantar da cadeira e ir para a sala.

Eu acompanhei os dois para a sala. O Chloée ficou deitado no tapete brincado com seu macaquinho de pelúcia. Ele não tinha altura para subir no sofá e eu nem queria que fizesse, ele estava bem perto dos pés da minha pequena.

– Maman?

– Oui.

– Vem assistir novelinha comigo?

– Assistir novela com você?

– Uhum. Aquela que você estava vendo.

Minha intenção era lidar com a cozinha enquanto Clara tomava a mamadeira, não pretendia me juntar a ela no sofá, mas eu não resisti. E bastou me sentar, ela já veio para cima do meu colo toda manhosa e dengosa.

– Isso aqui não estava no combinado, Clarice – eu brinquei e ela riu da própria audácia.

– Liga a TV, maman, bota a novela e segura aqui pra eu.

Segurei a mamadeira para a Clara se ajeitar em meu colo e liguei a televisão na novela mexicana que estava assistindo nos últimos tempos quando tinha oportunidade – ou seja, quase nunca.

Confesso que me distrai até rápido demais ao começar a novela e Clara precisou puxar a minha mão para ter a sua mamadeira, pois eu mesma já havia me esquecido que estava segurando para ela. Se passaram uns dez minutos e então percebi que eu era a única pessoa segurando a mamadeira enquanto a bonita mamava bem devagar como se tivesse todo o tempo do mundo somente para si.

– Mas a mocinha está bem folgadinha, não acha? Não vai segurar a sua mamadeira não, é?

– Segura pra eu, maman. Eu tô soninho.

– Você está com sono? Sei… termina isso logo que já está esfriando.

Como a Clara levou quase meia hora para beber a mamadeira, eu não sei dizer. Só sei que, quando percebi que estava vazia, deixei na mesa de canto para envolver a minha bebê com os dois braços em meu colo. Ela estava dormindo tão profundamente a ponto de ressonar e faltava pouco para acabar a novela, achei melhor a deixar continuar como estava.

Quando a novela acabou, eu fiz um exercício nos joelhos e coxa para me levantar do sofá com a Clara em meus braços. Seu sono estava realmente pesado para não ter acordado comigo praticamente a sacudindo.

Deitei Clara na cama e me juntei ao seu lado. Por apreciar o meu próprio espaço, minha referência para tamanho de cama era: “aqui cabe três do meu pai?”. Se a resposta fosse “sim”, então era ideal para mim. Era a certeza absoluta que, se um dia, por algum motivo, tivesse que dividir o espaço com alguém, não seria perturbada. Eu só não contava com o fato de iria ser perdidamente apaixonada por uma pessoinha que, na primeira oportunidade, iria se agarrar em mim tal qual um coala para dormir.

Essa era a décima segunda noite seguida que dormíamos juntas desde que a Clara saiu do hospital e aos poucos ela foi revelando seu verdadeiro lado. Se antes, as poucas noites que conseguimos dormir juntas era comigo a abraçando, agora era o contrário. Clarice era quem me abraçava, isso quando não fazia de mim seu travesseiro ou próprio colchão. E por incrível que pareça, não me incomodava. Eu meio que já aceitei meu destino – zero espaço pessoal.

Contanto que a invasora do meu espaço fosse a Clara, estava tudo certo.

O cansaço nos fez dormir até a manhã seguinte sem interrupções. Embora tenhamos descansado bastante durante as férias, Clara ou acordava muito cedo ansiosa para começar o dia ou despertava aleatoriamente no meio da noite. Hoje, porém, acordei pouco depois das nove me sentindo uma nova mulher.

Para a minha surpresa, Clara já tinha levantado. No entanto, não me deixou preocupada, afinal, podia ouvir perfeitamente a sua voz enquanto conversava com o Chloée. Até fui para a varanda do quarto ver o que estava acontecendo e lá estavam os dois na área gourmet.

O que ela tanto falava com o Chloée eu gostaria de saber já que a Clara não parava um instante sequer. Observar os dois me fez sorrir, mas a cena fofa durou alguns segundos apenas.

– Bonjour, mon amour – chamei o meu amor com um atípico bom humor, mas que estava se tornando natural para mim.

Clara se virou para trás e olhou para cima. Com o movimento eu finalmente consegui ver o que estava fazendo ou tentando fazer. Só sei que, quando notei a combinação Clarice, Chloée e tintas espalhadas pelo chão, entrei em total alerta.

– O que você está aprontando, Clarice?! – E pronto… todo meu bom humor foi embora. – O que você fez com o cachorro?!

O Chloée que deveria ser branco como a neve estava tal qual um arco-íris.

– Nada, a gente só está pintando. Olha! – Clara mostrou um papel cheio de marcas de patinhas.

Essa petite peste estava usando o Chloée de pincel! E se não bastasse isso, suas mãos estavam completamente sujas de tinta também.

Se eu pudesse, eu pulava da varanda mesmo para arrastar os dois pela orelha até o chuveirão para se limparem, mas eu apenas desci as escadas o mais rápido que pude.

– Eu não acredito que você conseguiu sujar o Chloée todo em menos de 24h, Clarice! – Eu disse ao entrar na área gourmet.

Chloée ao me ver ali também, ficou empolgado. Ele era um tipo de cachorro que parecia gostar de atenção e pessoas novas no ambiente. O resultado disso? Ele saiu correndo carimbando todo o chão com as suas patinhas sujas.

– Chloée, não!

Clara foi impedir o cachorro, acabou derrubando mais tinta no chão. E não o suficiente, ela pisou em cima da própria poça que criou.

Pensa pelo lado positivo, Valkyrie: não é no seu tapete da sala.

Eu vi o caos se formar diante dos meus olhos enquanto Chloée brincalhão achava que Clara estava atrás dele pela diversão. Os dois correndo em círculos enquanto carimbavam o chão todinho. Será que dá para colocar os dois de castigo?

Na primeira oportunidade que tive, agarrei o Chloée e o tirei do chão. Com isso parei as duas pestinhas de sujarem o chão ainda mais. Clarice paralisou na minha frente esperando a minha reação. Eu apenas apontei em direção o chuveirão e ela marchou de cabeça baixa.

– Lava esse pé, – mandei.

Aproveitei para limpar as patas do cachorro também e evitar ainda mais caos. Não tem nem dez minutos que acordei e já estamos assim. Onde já se viu?

– Agora entra e vai tomar um banho e tirar essa roupa suja. Anda, anda, anda! Eu vou conferir, hein! – Clarice saiu correndo para dentro do apartamento. – Eu mandei você andar, Clarice.

Ela parou, olhou para trás e disse: – Desculpa eu, maman.

Garota, não pense que irá se safar sendo fofa.

– E você, rapazinho? Nem um dia aqui e já se juntou aquela meliante, como pode?!

O Chloée parecia ter deitado sobre a tinta roxa e definitivamente precisava de um banho. Sequer tive tempo para pesquisar os petshops da região e analisar a melhor opção.

– O que você está fazendo? Para quem está ligando?

– Estou ligando para virem buscar o Chloée, ele não pode continuar assim.

– Não! – Clara puxou o celular de mim de repente me pegando de surpresa. – Você não vai ligar para ninguém!

– Como é que é, mocinha? Me devolve esse celular.

– Você não vai ligar! Não vai!

– Me devolve esse celular agora, Clarice.

– Não. Eu não deixei você ligar para buscarem o Chloée!

– E você precisa autorizar alguma coisa por aqui? – Estendi a mão para que ela devolvesse o celular. – Me dá esse celular agora mesmo e é a última vez que estou te pedindo. Você não vai querer ficar de castigo, quer?

Ao invés de me dar o celular, Clarice bateu na minha mão e saiu correndo gritando não. E se você pensou que eu fui atrás dela? Não mesmo. Eu só peguei o telefone fixo que estava ao lado e liguei para o Yago.

Quando Clara me viu com o telefone na mão, voltou correndo para perto de mim.

–  Não, maman, não! Por favor, não, não, não! Num manda o nosso Chlô embora! Ele é o meu amiguinho! – Ela suplicou aos prantos e sua reação foi totalmente exagerada. – Num expulsa não, por favorzinho?

– Expulsar para onde, Clarice? Ele só vai tomar um banho e voltar.

– Você não está expulsando o Chloée?

– Mas é claro que não. Ele agora é parte da família. Embora eu quisesse expulsar algumas pessoas da família, não dá para fazer isso… espera, você achou que eu iria devolver o seu cachorro?

Clara afirmou com a cabeça sem graça.

– E eu tenho cara de bruxa má para fazer uma crueldade dessas?

– Naum, a maman não é uma bruxa má feiosa.

– Eu não falei feiosa, mas é isso aí. Eu não me chamo Claudia, eu sou a Valquíria, você sabe muito bem disso.

– Desculpa eu, maman? – Ela me abraçou e quase que o Chlô de baixo do meu braço carimbou a testa dela.

– Desculpo, mas não pense que se safou da sua punição. Eu não me esqueci que você me desafiou e ainda bateu na minha mão.

A safadinha escondeu o rosto contra o meu peito e depois fez carinho no Chloée que o tempo todo estada de baixo do meu braço proibido de colocar as patinhas no chão – ou na Clarice.

– A gente não pode dar bainho nele?

– Não inventa. Já não basta o caos que está lá fora para limpar. Ele vai tomar banho no petshop e vai voltar branquinho outra vez.

Eu poderia simplesmente pedir ao Yago para dar um jeito no apartamento. Todo mundo que trabalhar para mim costuma trabalhar só para mim e eu não gosto que venham aqui todos os dias. Não que eu não goste da minha equipe de funcionários, pelo contrário, são parte da minha família e quando eu falo isso é sério. Meu pai me criou para não ser uma babaca e eu levei isso um pouco mais além depois que passei a ficar “sozinha” no Brasil.

Pensando bem, agora que vou ter que deixar a Clara sozinha boa parte do dia quando voltar a trabalhar, talvez eu deva pedir ao Yago ou a Marieta que venham fazer companhia… e garantir que ela não coloque fogo no apartamento ou em si mesma.

Acabei de desbloquear um medo que eu sequer tinha cogitado.

Será que devo checar com a Ana Marta se tem babás para pequenos no Apex para vir cuidar da Clara? Hmm… será que tem atividades por lá além das festinhas mensais?

Mon dieu, o que eu estava pensando mesmo? Ah sim… limpar a bagunça toda será o castigo da Clara. Não quero que pense que pode causar o caos por aqui e se safar facilmente. Eu não vou lidar com uma pequena brat, não mesmo.

– Ele vai voltar, não vai? – Clarice estava relutante para entregar o seu cachorro. – Você promete, não promete?

– Prometo.

– E você promete que vai cumprir sua promessa?

– Prometo que vou cumprir que prometi.

Clara olhou para mim, então para o Chloée, respirou fundo e entregou o bichano nas mãos do rapaz uniformizado que veio o buscar para levar para o banho. Pelo drama nem parecia que ele estaria de volta em até três horas e com possibilidades de muito antes.

– E agora? – Clarice me perguntou depois que fechou a porta do apartamento. 

– Agora você vem comigo.

– Para onde?

– Não pense que se safou da sua punição, mocinha. Você vai levar uma palmada por ter feito uma bagunça enorme, outra por ter tomado o celular da minha mão, mais uma por ter me desafiado e duas por ter me batido, – me inclinei para mais perto de seu rosto. – Não é você quem faz as regras e muito menos quem manda aqui, sou eu.

– Mas maman, eu não fiz querendo. Eu… eu… – ela olhou para os lados, – fiquei com medo de você mandar o Chlô embora.

– Você poderia ter perguntado ou expressado o seu medo, mas escolheu por fazer birra e partir para agressão. Eu não quero bebê minha usando a força e violência contra outras pessoas. Se tiver que bater em alguém, eu prefiro que me chame para fazer isso. Você fica fora dessa. Agora venha.

Peguei a mão de Clarice e a levei até o sofá onde eu a fiz deitar sobre o meu colo.

Bater na minha pequena causava uma sensação diferente em mim. Não era como uma sessão de spanking com algum submisso. Cada palmada era um aperto diferente no coração e uma vontade de chorar, mas eu precisava me manter firme para manter Clarice na linha.

Dei cinco palmadas – sem nem usar força – e pelo o choro da Clara pareceu que foi muito mais. Ela chorou e continuou chorando mesmo depois que eu parei. Não sabia se era por dor, por sentir mal ou por tentar apelar para o meu emocional. Só sabia que a minha menina era um tanto dramática.

– Acabou, meu amor – repeti enquanto acariciava suas costas e o bumbum onde apanhou. – Já vai passar.

Alguns minutos depois ela tomou coragem de levantar o torso e me abraçou apertado. Em nenhum momento tentei a afastar de mim, a deixei que tivesse o tempo que fosse necessário para se recuperar e acalmar. Cinco palmadas leves e ela levou quase dez minutos para tranquilizar.

– Está melhor? – Perguntei.

Ela afirmou com a cabeça. – Desculpa eu, maman?

– Você já está desculpada, meu bebê. Agora levanta, você ainda tem que limpar a bagunça lá fora antes do Chloée chegar.

Esperava reclamações, choro e birra, mas Clara apenas aceitou o seu destino. Ela também tinha colocado a rede para lavar por conta própria mais cedo e eu não poderia ignorar isso, então pretendia a recompensar depois.

Clara tirou o excesso da tinta com o papel e depois passou o pano. Não era uma limpeza perfeita, mas era decente o suficiente para não dar trabalho extra a equipe de limpeza depois. E provavelmente o suficiente para aprender a lição.

Eu a observei enquanto tomava o meu café da manhã da área externa. Sim, a minha pequena conseguiu causar antes mesmo que eu pudesse acordar totalmente.

Fiz meu exercício matinal enquanto Clara tomava seu banho e depois fui tomar o meu. Quando saí do banheiro ela estava sentada na cama me esperando. Seu olhar para mim era de quem queria me pedir algo, mas parecia hesitar.

– O que foi, meu amor? Que carinha é essa?

– Eu… uh… – ela encarou as mãos me seu colo. Me sentei ao seu lado atraindo a sua atenção para mim. – Posso… tetê?

Esse drama todo para me pedir algo que tem todos os dias.

A chamei para se ajeitar no colchão comigo. Usei os travesseiros atrás de mim para ficar mais confortável e Clara veio para o meu colo. Ela esperou por mim enquanto tirava o peito para fora e na primeira oportunidade o abocanhou. Demorou um pouquinho para ela se ajustar ao meu peito e achar o seu ritmo, mas assim que conseguiu era possível ver em seu rosto como o ato a relaxava.

– Você gosta de um tetê, né ma petite? – Ela acariciou meu rosto. Peguei a sua mão na minha e lhe dei um beijo demorado.

Ficamos um tempo em silêncio trocando carícias enquanto Clara mamava em paz.

Desde o dia lá na fazenda que ela se revoltou e não quis aceitar meu peito por não ter leite, eu fiquei pensando muito no assunto. Eu quero ter leite para a minha pequena, mas isso implica em muitas outras coisas. Essa é uma decisão sem volta. Meu corpo nunca mais será o mesmo depois do processo, as mudanças serão permanentes, mas e o desejo de Clara? E se ela se enjoar? Lá no fundo eu tenho medo de que ela perceba que se daria melhor com alguém da sua idade e decida me largar.

Bom, pelo menos agora estamos na mesma página sobre nosso relacionamento, até um tempo atrás ela nem considerava o que tínhamos um. Acho que está na hora de termos outra conversa séria sobre nós e tomar uma decisão. Eu quero poder amamentar a minha bebê como as outras mamães do Apex fazem, acho que será uma forte conexão para nós, mas não posso seguir com isso ouvindo só a Clara pequena.

Talvez um encontro seria uma ocasião perfeita!

Como o usual, minha bebê apagou completamente enquanto mamava a ponto de roncar. Eu não sei o que se tem no peito para dar tanto sono assim, mas aparenta ser bom.

– Acho que está na hora do bebê tirar um cochilo, – disse baixinho enquanto tirava meu seio da boca da Clara.

Ela resmungou, mas não acordou.

Normalmente Clarice só usa fralda durante a noite, mas devido ao incidente de ontem, achei de bom tom vestir uma fraldinha para ela descansar em paz e a nossa cama permanecer seca.

– Eu sei que fui eu que escolhi esse seu pijama, mas putain… – reclamei mesmo sabendo que Clara não iria me ouvir. Tirar seu pijama enquanto dormia era um tanto complicado e com ela se mexendo também, um horror.

São tantas coisas que eu preciso providenciar para essa garota – e para o bem das minhas costas. Inclusive mais fraldas. E algo para se distrair que não seja telas ou tinta. O Chloée não conta… parando para analisar, o Chloée tem mais itens que a minha petite e ele chegou a essa casa ontem. Que absurdo!

Se a vida tivesse me dado uma trégua, talvez teria me preocupado com isso antes. Mas como meu pai costuma dizer “antes tarde do que mais tarde”.

Hora de mimar o meu bebê!

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