« V A L K Y R I E »
– Tem certeza que não quer mais um pouco de tetê? – Perguntei mais uma vez.
Sinceramente, não sabia até que ponto uma cena de Clarice poderia chegar. Se o seu drama duraria alguns minutos ou se estenderia por algumas horas, ainda não tinha total dimensão da sua determinação. Já lidei com situações semelhantes no passado, também assisti outros pequenos e consigo imaginar o que me aguarda por aí.
– D’accord… já que não quer, podemos voltar para a fazenda.
Eu não sou pequena como a Clarice, tampouco tenho pernas curtas para simplesmente passar para o banco da frente e por isso preferi sair para entrar pela porta da frente. Ela já estava com seu cinto, braços cruzados e bico de pato no rosto. Poderia até falar algo sobre a sua birra, mas sua cara de brava não me deixava nem um pouco preocupada, pelo contrário, estava achando a coisinha mais fofa do mundo.
A minha petite queria leite e eu entendia isso. Todos os littles que ela conheceu até o momento tem isso com as suas mommies, entretanto, esse não é um assunto para se discutir com alguém no pequeno espaço. Se eu começar a lactar, não vou produzir leite só quando a Clara estiver pequena e não vai afetar somente essa parte da nossa vida. Em outras palavras, chantagem emocional não irá resolver de nada. Quando ela estiver grande, de preferência bem grandinha, nós teremos essa conversa. Até lá… eu que lute.
Chegamos na fazenda e já era fim da tarde, o clima estava um pouco menos caótico, porém ainda bastante agitado comparado com os ambientes que costumo estar. Eu sabia que muito em breve meus parentes iriam começar a ir embora e restaria somente alguns que ficariam para passar a noite. Até esse momento, eu achei melhor afastar um pouco a Clara do caos.
– Que tal dar uma volta a cavalo?
Clara brilhou os olhos com a ideia, mas antes de responder a Manu ficou agitada com a ideia de ir ver os cavalos.
– Manu quer ver os cavalinhos também!
– Val, você pode levar essa pequena com você? Ela está desde cedo pedindo para ir.
– Não, não posso – respondi. – O convite foi apenas para a minha pequena.
– Ah sim, sem problemas. Vou pedir ao Ricardo para levar as meninas depois. Bom passeio!
– Está certo. On y va, mon bébé (vamos, meu bebê).
Os cavalos ficavam a uma pequena caminhada da casa, o suficiente para afastar do barulho e ouvir um pouco mais os sons da natureza. Pode-se dizer que era uma caminhada bastante relaxante, algo que a ma petite precisava.
– Por que você não deixou a Manu vir com a gente? Ela estava toda serelepe e empolgada. Você foi maldosa.
– Eu não abri meu convite a outras pessoas. E você estava com ciúme da menina, por que eu traria alguém que te deixaria desconfortável com o passeio?
– É um ciúme bobo, você não deveria se preocupar.
– Mas eu me preocupo. É o seu bem-estar, é óbvio que eu vou me preocupar…, mas eu preciso que me diga. Não espere que eu vá perceber ou ler o ambiente, isso não vai acontecer. Então preciso que seja honesta e sincera comigo, se está mal, se está se sentindo desconfortável, se quer sair ou ficar, me fala…, mas me fale com todas as palavras, por favor. Eu não gosto de charadas.
– Eu sei, eu entendi. Desculpa por não ter falado nada mais cedo…, mas não precisava ter sido tão maldosa assim. Você às vezes é muito dura com as palavras, não pode ser assim. Ela é só uma criança.
– Eu só respondi à pergunta, o que teve de errado na minha fala? Ela perguntou se eu poderia e eu disse a verdade: não, eu não posso.
– Você poderia ter sido mais delicada, “dessa vez eu não posso levar a Manu”, “desculpa, só que agora eu quero ir com a minha namorada”, “outra ocasião eu levo”
– Você disse não do mesmo jeito.
– Mas de uma forma mais suave para doer menos. É por isso que todo mundo no escritório acha que você é uma cruela malvada, você se faz parecer ser uma. Acho que está na hora da gente começar a trabalhar na sua imagem e principalmente no jeito que fala com as pessoas.
Eu estava mesmo sendo repreendida e levando uma lição da Clarice? Não sei se gostei dessa sensação. Normalmente isso não acontece comigo.
– Quando a gente voltar você vai pedir desculpas e levar a Manu para dar uma volta de cavalo.
– Eu não!
– Valquíria. Você vai.
Minha vontade era dar mais uma das minhas respostas brutalmente sinceras que a Clara considera “maldosa”, mas respirei fundo. E a contragosto, aceitei.
– Oui, Clarice.
– Boa menina, – ela respondeu fazendo um carinho nas minhas costas e eu encarei brava.
Quem essa garotinha pensa que é?
Ainda bem que já estávamos na frente do estabulo. Mais um minuto dessa conversa e meu relacionamento estaria em apuros.
– Nossa… quantos cavalos vocês têm aqui?
– Depende. Que moram na fazenda, acho que são treze ou algo assim. Os demais são comercializados depois de certa idade, – fui direto para o cavalo mais tranquilo e manso, apenas por segurança. – Esse aqui é o Blanc. Esse rapaz é bem sociável e dócil.
– E grande, né…
– Um pouco, – eu ri. – Me dá a sua mão.
– Eu não, para que? E se ele me morder? Minha mãozinha é preciosa e muito necessária. Você não pode viver sem ela.
Revirei os olhos. – Não seja, bobinha. Ele não vai te morder.
Como esperava, o Blanc reagiu bem a aproximação da Clara e após o primeiro contato ela perdeu o medo. – Ele é lindão… o cabelo dele é mais hidratado que o meu.
– Provavelmente ele tem um tratamento melhor que o nosso.
– Melhor que o seu?
– Oh, oui! A Hélène sempre tratou os cavalos dela melhor que qualquer ser humano. Ela pode esquecer o meu aniversário, mas o Noir, seu cavalo mais amado, ela não esquece. E detalhe: nós nascemos exatamente no mesmo dia com diferença de pouquíssimas horas. Boatos que ela só acompanhou o nascimento de um de nós.
– Nossa, mas um cavalo vive tanto tempo assim?
A encarei séria. – Como é que é, Clarice?
– Nada, nada – ela sorriu amarelo. – Vamos passear?
– Eu percebi o que está tentando fazer. E respondendo a sua pergunta, o Noir já é um cavalo idoso aposentado. O Blanc também, só que ele tem 23 anos.
– Aposentado aos 23 anos… queria. Como que monta em um bicho desse tamanho? É mais alto que você!
– Vem, vamos entrar.
Apesar do medo, Clara aceitou entrar comigo na baia. Blanc era tão tranquilo que nem reagiu a duas humanas entrando em seu “quarto” e ainda aceitou colocar a sela sem reclamar.
– Coloca o pé esquerdo aqui, agora faz um pouco de força passando a perna direita por trás. No 3… 1, 2, 3…
Clara tentou pela terceira vez subir no cavalo e não teve força na perna o suficiente para conseguir montar. – É muito difícil, eu não consigo. Eu não tenho um metro de perna como você. Respeite minhas limitações de anã.
– Segura na sela que você consegue.
– E se eu cair?
– Eu te seguro.
– E se o Blanc sair correndo?
– Ele não vai. Confia em mim.
Clara tentou outra vez e com um pequeno empurrãozinho, ela conseguiu montar no Blanc. Peguei o pé dela e ajeitei no estribo, depois dei a volta para fazer o mesmo do outro lado. Com a postura correta e ereta, era hora de dar as rédeas nas mãos dela.
– Segura assim, ok? Mantém a rédea curta e firme, mas sem fazer força. Se quiser virar para esquerda, você abre a mão para a esquerda até o cavalo virar a cabeça e para a direita a mesma coisa. Para parar é só puxar as duas rédeas para trás, mas não puxa muito senão o Blanc vai levantar as patas da frente. Acha que consegue controlar sozinha?
– Sim. Acho que sim… é um pouco alto aqui em cima. É assim que o seu pai vê o mundo?
– Acredito que sim.
Guiei o Blanc para fora da baia e apenas por garantia prendi a corda no gancho da parede para pegar o meu cavalo. O cavalo Picolé não tinha uma linhagem de prestígio quanto o Blanc, era bem melhor para corrida que hipismo e o seu temperamento não era os dos melhores, mas era um bom rapaz.
– Eu não acredito que você conseguiu de primeira, – Clara disse indignada. – Isso não é justo.
– Eu costumava fazer hipismo na escola. Essa não é uma comparação justa.
Me aproximei da Clara e o Blanc para pegar a corda e prendi no Picolé. Eu não confiava muito em deixar a minha namorada conduzindo logo de primeira… não que ela não fosse capaz, mas também não era como se o universo conspirasse ao seu favor a todo instante.
Estalei a língua para os cavalos começarem a andar e a Clara travou inteirinha. – Está tudo bem aí?
– Estou com medo.
– Você está comigo, mon amour. Só relaxa… você vai gostar.
Em ritmo lento nós saímos do estabulo para dar uma volta pela fazenda. Era bem mais prazeroso e agradável conhecer o lugar a cavalo que caminhando, até porque, se fosse contar tudo era bem extenso e a condição física da minha namorada não permite essa caminhada sem precisar de uma bombinha. Bombinha essa que estava no meu bolso, por garantia.
Nós passamos pelos bichinhos e Clara ficou muito empolgada, tal qual a pequena que era. Se eu soubesse que ficaria tão animada assim teria a trazido para cá antes. Ver o sorriso em seu rosto me deixava feliz.
– Está vendo aquela mini construção de madeira ali? – Apontei para a direção que a Clara deveria olhar.
– O que é aquilo? A casa das galinhas?
– Sim… eu construí com o meu pai quando era criança, pode-se dizer que foi a minha primeira obra.
Clara me encarou desconfiada. – Você construiu aquilo?
– Sim. Serrei, lixei, pintei a madeira e tudo mais, – Clara continuou a me encarar com julgo. – Ah, qual é? Eu não sou tão mimada e fresca como pensa.
– Você é mimada… fez hipismo na escola. Que tipo de escola tem hipismo?
– Eu estudava em um internato. É preciso muitas atividades extracurriculares para ocupar o tempo quando se mora na escola, – por um momento Clara agiu igualzinho o Bruno quando demonstra sua falsa comoção levando a mão no peito e fazendo olhar de quem vai chorar. Eu só estava em dúvida se era sério ou encenação. – O que foi?
– Por que fizeram isso com você? Seus pais são tão legais, por que te trancaram na escola sozinha e abandonada?
– Eu não disse que fui trancada sozinha e abandonada, – semicerrei os olhos desconfiada.
– Mas em todas as fanfics que eu li, os pais só mandavam os filhos rebeldes para o internato para se livrar deles… e você disse que aprontava.
– Eu quebrei o nariz da menininha no primário, até entrar no internato eu tinha aprendido a não bater nos coleguinhas… em partes. Teve uma vez que eu entrei numa briga no Le Rosey, a minha grand-mére pegou um voo no mesmo dia e fiquei traumatizada, nunca mais aprontei na escola. Só fora dela.
– Sua avó é má?
– Depende do seu conceito de má. Ela é assustadora, rígida e severa nas regras, mas tem os seus momentos de bondade. Acho que eu sou a que menos segue as regras sociais da família… também sou a única morena de olho castanho… olha as vacas.
– Vacas!
Clara ficou ainda mais empolgada com as vacas que com as galinhas. Elas estavam distantes, deitadas umas perto das outras, vivendo a tranquilidade que só alguém sem responsabilidade do trabalho poderia ter.
– Elas são tão fofinhas, – Clara comentou. – Queria ver mais de perto.
O amor te faz cometer loucuras e foi por essa razão que comecei a cantar La Vie En Rose de Édith Piaf para Clara… e as vacas.
– Des yeux qui font baisser les miens, – Clara me olhou confusa, mas eu segui a letra da música. – Un rire qui se perd sur sa bouche, voilà le portrait sans retouches de le femme auquel j’appartiens… – no momento de soltar a voz, eu me virei para as vacas e cantei alto: – Quand il me prend dans ses bras, qu’il me parle tout bas, je vois la vie en rose. Elle me dit des mots d’amour, des mots de tous les jours et ça m’fait quelque chose – aos poucos as vacas se aproximaram para ouvir a música, Clara ficou boquiaberta totalmente incrédula, – Elle est entré dans mon cœur, une part de bonheur dont je connais la cause. C’est lui pour moi, moi pour lui dans la vie. Elle me l’a dit, l’a juré pour la vie… et dès que je l’aperçois, alors je sens dans moi mon cœur qui bat… – Encerrei minha performance com os aplausos de Clara e os mugidos das vacas. – Merci, merci..
– Olha… eu estou sem palavras. Eu não sabia que tinha poderes de encantar vacas, achava que era só cadela… eu, no caso.
Somente Clarice para me fazer rir de uma cantada tão péssima como essa. – Vacas gostam de música. Se você continuar cantando elas vão vir mais perto. Vai, tenta cantar uma.
– Mas que música?
– Use a criatividade, Clarice.
– Eu não sei… tá… já sei uma.
Por algum motivo eu esperava o pior, mas logo nas primeiras palavras identifiquei a canção.
– Quando eu digo que deixei de te amar é porque eu te amo. Quando eu digo que não quero mais você é porque eu te quero. Eu tenho medo de te dar meu coração e confessar que eu estou em tuas mãos, mas não posso imaginar o que vai ser de mim se eu te perder um dia. Eu me afasto e me defendo de você, mas depois me entrego. Faço tipo, falo coisas que eu não sou, mas depois eu nego, mas a verdade é que eu sou louco por você. E tenho medo de pensar em te perder. Eu preciso aceitar que não dá mais pra separar as nossas vidas… e o que?! E nessa loucura de dizer que não te quero, vou negando as aparências, disfarçando as evidências. Mas pra que viver fingindo, se eu não posso enganar meu coração? Eu sei que te amo!
Clara se empolgou com a sua plateia balançando a mão livre para cima no ritmo da música. E eu fui incapaz de resistir à tentação de um clássico como esse e me juntei a ela.
– Chega de mentiras, de negar o meu desejo. Eu te quero mais que tudo, eu preciso do teu beijo. Eu entrego minha vida pra você fazer o que quiser de mim, só quero ouvir você dizer que sim. Diz que é verdade, que tem saudade, que ainda você pensa muito em mim. Diz que é verdade, que tem saudade que ainda você quer viver pra mim, – cantamos o refrão junto para as vacas que já estavam bem próximas da cerca.
Pensei que acabaríamos por aí, mas Clarice continuou dessa vez cantando para mim. – Cheia de manias. Toda dengosa. Menina bonita, sabe que é gostosa. Com esse seu jeito, faz o que quer de mim, domina o meu coração. Eu fico sem saber o que fazer, não quero te deixar, você também não quer, não quer. Então me ajude a segurar essa barra que é gostar de você. Então me ajude a segurar essa barra que é gostar de você. Hiê, didididiê, didididiê ê ê, didididiê.
– Acabou o seu show? Podemos continuar? – Perguntei com humor.
– Não, não, espera. Canta só mais uma. Eu quero te ouvir mais uma pouquinho, vai.
Eu queria cantar mais uma? Não. O que eu fiz? Cantei outras duas músicas com a Clara para as vacas. Algo em mim dizia que essa não seria a última vez que faríamos isso essa viagem. O que não fazemos por amor…
Continuamos nosso passeio pela fazenda. Depois da cantoria, até o medo de cavalo passou. Clara sequer percebeu que eu havia soltado a corda do Blanc e ela o guiava sozinha.
– É bem engraçado como você é bem diferente do que aparenta ser.
– Por que?
– Você não aparenta ser alguém que canta para vacas ou constrói casa para galinhas. Na verdade, você é uma caixinha de surpresa que sempre arruma um jeito de surpreender sempre. Eu vivo dividida em: gostaria que as pessoas conhecessem esse seu lado ou quero guardar para mim para evitar que os outros também se apaixonem, porque eu sei que é exatamente o que vai acontecer.
– Non, mon amour. As pessoas não vão apaixonar assim por mim, – fiz o Picolé se aproximar do Blanc e me inclinei para mais perto ainda de Clara. – Essa versão é só para você.
– Eu espero mesmo, – ela me deu um beijo. Gostaria de aproveitar um pouco mais esses lábios, mas o cavalo deu um passo e Clarice já entrou em total alerta com medo.
– Você é fofa.
O Blanc bufou e Clara se preocupou. – Acho melhor a gente ir… ainda temos que dar a volta com a Manu. Não pense que irá se safar. Você precisa melhorar a sua imagem de cruela maldosa.
– Por que? Quem me conhece sabe…
– Mas nem todo mundo te conhece. Eu não acho justo o que falam de você dentro da empresa e falta pouco para eu voltar para lá. Se ouvir alguma coisa, eu não vou conseguir me conter… você não quer que eu me meta em brigas para te defender, quer?
– Eu não quero que se meta em brigas no trabalho, por favor.
– Então já sabe: vamos melhorar essa sua reputação e evitar os comentários.
Olha só, que espertinha… onde está aprendendo essas artimanhas para me convencer a fazer algo que não quero? Não estou gostando disso não. A segunda vez em um dia. Não é um bom sinal.
– Vamos embora, Clarice.
– Essa é a sua forma de concordar sem admitir que cedeu para alguém? – Revirei os olhos e ela riu. – Como a minha namorada é orgulhosa…
– Alors, onde está a minha pequena? Que saudades da minha namorada bebezinha.
Essa foi a vez da Clara revirar os olhos. – Eu não sou um bebê.
– É sim, mon bébé – fiz vozinha para a provocar. – É a minha bebezinha mais linda e fofa desse mundo.
– Deixa de ser falsa, menina. Vamos embora!
Nós fomos até a casa da fazenda de cavalo buscar a dona Manu para dar uma volta. Estava levemente preocupada em qual seria a reação da Clara no momento em que a pegasse para vir comigo, mas foi bem tranquilo, muito mais do que eu poderia imaginar e estava bem grata por isso.
Manu foi comigo no Picolé e durante todo o passeio ficou conversando com a Clara. Não me surpreendia que uma pequena saberia lidar com crianças com tanta maestria como a minha namorada demonstrou.
Depois do agitado dia de hoje, acho que Clarice e eu merecíamos um bom descanso. Entretanto, quando entrei no quarto depois de atender ao chamado da minha avó, encontrei dona Clara saindo do banheiro.
– Você já tomou banho? Pensei que fossemos tomar banho juntas.
– Eu estava morrendo de sono, achei que fosse demorar mais. Vou te esperar na cama.
Ergui o cenho desconfiada. – Certo… eu não demoro.
E eu não demorei mesmo. Já estava tarde da noite, Clara normalmente dorme cedo demais para alguém da sua idade e o dia foi agitado, ou seja, era só questão de tempo para entrar no sétimo sono.
– Pronto, terminei – avisei ao sair do banheiro de banho devidamente tomado, enrolada em meu roupão. – Espera só um pouquinho que eu já te dou o tetê. Eu vou pegar a sua fraldinha antes.
– Não precisa.
– Como não? E se você tiver acidentes?
– Eu não vou. Coloca o seu pijama e vem deitar, eu estou morrendo de sono.
– Tem certeza que quer o seu tetê sem usar a fraldinha?
– Tetê é para bebê e eu não sou um. Eu não quero.
– Como é, mocinha? Que história é essa?
– É isso aí mesmo, – Clara cruzou os braços e virou o rosto. – Eu não vou mais regredir.
Disse ela com um bico enorme tal qual uma pequena que foi contrariada.
– E você vai conseguir?
– Vou!
– Quero só ver.
Eu tinha separado minha camisola para dormir, mas mudei os planos. Um pijama de botões seria melhor… sem abotoar, claro. Sei muito bem o motivo pelo qual Clarice não quis tomar banho comigo, mal sabe ela que não irá adiantar de muita coisa. Eu estou bem disposta em jogar sujo.
« C L A R I C E »
Eu esperei o momento em que a Val fosse se vestir propriamente até se deitar, mas esse momento não aconteceu. Quando dei por mim, ela estava deitada de lado ao meu lado. A observei de soslaio e logo me arrependi e encarei a parede a minha frente.
– Tem certeza que não irá querer um tetê antes de dormir?
– Tenho.
Achei que ela fosse abotoar a roupa e ela não o fez. Quando arrisquei a olhar outra vez, fui surpreendida com a sua aproximação. O movimento fez com que qualquer tentativa do seu pijama de cobrir o seu corpo fosse por água abaixo.
– Não me parece que você esteja realmente certa disso, mon amour – ela passou a mão em meu rosto e me deu um beijinho no canto da boca. – O meu bebê não quer mamar nem um pouquinho?
– Não insista, Val.
Ela repousou um braço sobre meu peitoral e com a outra mão apoiou o rosto para me observar. Em outra ocasião, esse contato seria normal, mas agora o contato da sua pele com a minha parecia queimar, quase impossível ignorar.
– Vamos dormir, eu estou com sono – pedi, quase suplicando.
Val me observou desconfiada. Para o meu alívio, ela aceitou e foi para o lado na cama. Engoli a seco quando senti sua mão deslizar pela minha cintura e me puxar para um abraço. Eu consegui sentir todo o contato do seu peitoral nu contra as minhas costas e precisei respirar fundo para não pensar nisso.
Eu não queria coisas de pequena, mas não podia negar que me habituei dormir depois de mamar um pouco. Em outras palavras, apesar de estar com sono não consegui dormir e depois de esperar quase meia hora de olhos fechados e nada acontecer, eu me rendi ao dedo.
Chupar dedo era algo totalmente novo para mim e embora não fosse tão bom quanto o tetê da mam-Val, ajudou a pegar no sono e finalmente dormir… ou quase.
– Você não está chupando dedo, está dona Clarice? – Val reclamou e logo em seguida ligou o abajur na lateral da cama. – Pode parar com isso. Agora!
– Por que? O dedo é meu.
– E a palmada também poderá ser sua se continuar. Você toca todos os lugares com a sua mão, seu dedo está sujo. Não é para levar a boca.
– Mas eu lavei a mão antes de deitar.
– E logo em seguida tocou na maçaneta da porta, no seu celular e por aí vai. Quer testar a chupeta? Eu comprei para você.
– Não! Chupeta é coisa de neném.
A Val revirou os olhos balançando a cabeça. – Ah, é? E chupar dedo é o que exatamente? – Fiz uma careta brava para ela. – Por que você não mama um pouco para conseguir dormir?
– Eu não quero mamar.
– Por que não quer o seu tetê? Fala para a maman, vai – ela deu um cheiro no meu cangote e deixou um beijinho que me causou arrepios – Por que não quer o tetê da sua maman?
Suspirei sem saber se realmente deveria responder ou não.
– Fala comigo, mon bébé – ela insistiu.
– Porque só neném tem tetê e eu não sou um.
– É sim, meu amor. É claro que você é um neném. Você é o meu bebê.
– Não, eu sou não. Bebezinhos de verdade tem leitinho no tetê e você não quer dar leitinho p’ra eu.
A Val se afastou um pouco para me ver meu rosto por inteiro. – Mon bébé, não é bem assim que funciona. A maman não ter leite não interfere em nada no fato de você ser ou não um bebê. Não é tão simples assim dar leite no tetê. Tem todo um processo e cuidado para isso acontecer, e não é nada fácil.
– É sim! É só você comer capim. Você vive comendo um montão de mato, mais um pouquinho não vai fazer muita diferença.
– Capim, Clarice?
– Uhum! Igual as vaquinhas da fazenda. Elas comem capim e tem leite. Se você comer, vai ter leitinho também. Eu pego para você, quer?
– Definitivamente não. Eu não quero você catando capim por aí. Estamos entendidas?
– Mas por quê? É para dar leitinho no tetê pra eu.
– Eu não sou uma vaca, Clarice. Comer capim não irá me fazer ter leite. Agora chega desse assunto, – ela disse impaciente. – Você vai querer um tetê parar dormir?
Encarei a Val em silêncio. – Não.
– Então vamos dormir… e nada de dedo na boca.
Fiz bico e senti que a qualquer momento poderia chorar. – Você é maldosa. Não gosto mais de você!
– Então já que você não quer mais saber do tetê e não gosta mais de mim, não vai se importar se eu procurar outro neném para dar tetê, vai?
Eu não queria tetê porque não era nenhum neném. Mas eu também não queria nenhuma outra pestinha ocupando o meu lugar. O tetê da maman é só meu. Só meu!
– Não pode arrumar outro neném! O tetê é só meu.
– Então está afirmando que é a minha neném?
– Eu não sou sua neném.
– É sim, vem cá ter o seu tetê, vem – a Val disse se aproximando e tentando me puxar para perto.
– Não sou! Não sou! Sai para lá sua bruxa chata, feia e maldosa! Não amo mais você!
Sem pensar muito, eu quis a afastar e acabei a empurrando. Se tivesse parado por aí, estaria tudo bem, mas no meio do movimento, minha mão foi dar um tapa no “ar” que acabou acertando em cheio no tetê da maman. No mesmo instante, a maman me puxou para perto, me virando de barriga para baixo na cama e senti a sua mão firme bater no meu bumbum.
– Você se comportou mal, disse coisas feias, empurrou e bateu na sua maman e por isso vai ser punida.
Quis protestar, mas fui pega de surpresa quando ela abaixou meu short e calcinha. Direto na pele iria doer muito mais e agora era sério de verdade.
– Maman, por favor, nã-aí! – A primeira palmada na pele nua acertou em cheio meu bumbum e eu vi estrelas.
– Arrête, Clarice. Silence ! (Pare, Clarice. Quieta!). Se você gritar, irá apanhar mais, – a maman disse brava. Brava de verdade. A maman nunca ficou brava com eu.
Eu não sabia o que doía mais: as palmadas da maman ou o fato de ela estar brava comigo. E se ela não me amar mais? E se não me quiser mais? E se me deixar porque fui uma menina má? Não! A maman não pode fazer isso. Não pode!
Na quinta palmada, ela parou, mas na primeira eu já tinha desabado em lágrimas. Não era pela dor física — meu coração doía muito mais que o meu bumbumzinho. Quando maman se levantou, meu peito se apertou. Tive certeza de que ela ia embora, me deixar sozinha. Mas só me movi de verdade quando ouvi o som de um zíper.
Ela… Ela estava mesmo abrindo as malas? Ela vai mesmo ir embora e me deixar?
Tentei olhar por cima do ombro, desesperada para ver o que ela fazia, mas o ângulo não deixou. Já estava pronta para me virar de vez quando ela voltou para a cama, com algumas coisas nas mãos, e se sentou ao meu lado.
Maman olhava para baixo, os olhos fixos no meu bumbum exposto, mas o que me fez parar foi perceber que: ela estava chorando.
Eu fiz a maman chorar. Eu fiz a maman chorar!
Agora ela vai me deixar de verdade…
Eu precisava fazer alguma coisa, mas a maman colocou a mão nas minhas costas me impedindo de mexer.
– C’est fini, mon amour. C’est fini, d’accord ? (Acabou, meu amor. Já acabou, está bem?).
Na minha cabeça eu tinha várias perguntas; você me odeia? Você vai me deixar? Você ainda me quer? Você vai me perdoar? Você ainda me ama? Mas da minha boca só saiu um: – Maman?
– A maman está aqui, mon bébé. Já acabou, não tem mais palmadas, okay? – Ela disse isso ao mesmo tempo que levou a mão no meu bumbum, por um segundo pensei que seria a última palmada, mas o contato foi muito mais suave. – A maman não tem o creminho de fazer sarar mais rápido aqui, mas esse vai ajudar a passar um pouco a dor.
Fiquei um tanto confusa. Ela estava me dando… carinho?
Mas eu… eu fui maldosa e feia. Por que ela estava sendo legal com eu? Por que? Era para ela estar brava, gritar e me deixar de castigo, não?
Eu não entendi nada. Depois do creminho, ela acariciou as minhas costas por um tempo. Será que ela estava me preparando para me mandar embora? Mas no meio da noite? E se tiver bicho mau lá fora?
– Ma petite… eu sei que o seu bumbum ainda está sensível, mas eu preciso que vire um pouquinho.
Era agora.
Me virei até de olhos fechados para evitar a cara de brava da maman, mas quando abri um olho, ela nem estava mais do meu lado. A Val tinha dado a volta na cama e estava de pé na ponta. Logo entendi a sua intenção quando terminou de tirar meus shorts e calcinha e colocar uma fraldinha de baixo do meu quadril.
Ela estava colocando a fraldinha por que eu ainda era o bebê da maman? Lágrimas de alívio escaparam dos meus olhos. Meu coração estava doendo pedindo colinho da maman.
– É rapidinho, bébé. Aguenta só um pouquinho, – ela disse passando a pomadinha na minha pele. – Você está com soninho, não está, mon amour? Já passou a hora desse neném dormir, que judiação. A maman já está acabando, mon bébé.
Depois de polvilhar o talquinho, a maman fechou a minha fraldinha, limpou as mãos com o lencinho mesmo e veio para pertinho de mim. Queria subir em seu colo, mas fiquei com medo sem saber se eu podia ou não. Para o alívio do meu coração, quem me puxou para o seu colo foi ela e eu aceitei de bom grado.
– Não chora, meu bebê. Já passou, está tudo bem agora.
– A maman não odeia eu?
– Nem um pouquinho, meu amor.
– Então você não vai me deixar e arrumar outro neném?
– Não, claro que não. Eu jamais deixaria o meu bebê, eu só quero a minha bebê. De onde tirou essa ideia, ma vie?
– É que a maman ficou brava com o neném, eu pensei que não ia mais perdoar eu.
– Eu fiquei brava com você pelo o que fez e você recebeu a sua punição. Não tem motivos para continuar brava depois disso.
– Você me perdoou?
– Oui, mon amour.
– E acabou mesmo?
– Sim.
– De verdade verdadeira?
– Sim, meu amor. Agora chega. Vem mamar que já passou da sua hora de dormir.
Dessa vez a maman ofereceu o peitinho e eu aceitei. Era muito, muito, muito melhor que o dedinho. Mesmo sem leitinho, o tetê da maman era a coisa mais gostosa e relaxante do mundo e se eu pudesse, ficaria o dia inteirinho nele.
E sim, por fim eu acabei fazendo justamente o que eu disse que não faria. Mamei tal qual um bebezinho… não tem jeito, eu sou muito o neném da minha maman!
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Au revoir!
