Elora Aneva

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30. Il n’y a pas de bébé ici!

« C L A R I C E »

Receber um castigo logo em seguida de conhecer a magia de aniversário não era legal, mas ter uma maman legal às vezes salvava a gente – literalmente.

Pensei que meus dias seriam chatos sem doces, comendo só comida saudável e sendo triste, mas não. Apesar de regrado, eu comi um montão de comida gostosa e basicamente conheci todos os restaurantes que tinha churrasco porque era só isso que eu queria almoçar: churrasco. E claro, fizemos todo o turismo obrigatório do Rio de Janeiro e me senti uma verdadeira Helena na novela do Manoel Carlos.

Minha rotina basicamente era: acordar, tetê para começar bem o dia, café da manhã em casa ou fora, passear ou praia, almoçar em algum lugar novo, voltar para casa, mais tetê, cochilo, programação da noite, voltar para casa e um tetêzinho antes de dormir. Eu estava vivendo o paraíso na terra. Vai ver eu morri no hospital e não estava sabendo… e se isso é um sonho, não me acordem nunca!

Em cinco dias conseguimos fazer o check nos pontos turísticos da cidade e outros que eram do nosso interesse também. No sexto, nós decidimos ir visitar a vovó da Val. Eu estava empolgada para ver os bichinhos, comer comida de vovó na roça, ir na cachoeira que a Val disse que tinha por perto. E meus sogros já estavam por lá, depois de quase vinte dias convivendo com eles diariamente, eu meio que me acostumei em vê-los.

Depois de alguns meses de namoro – oficial – eu já estava me acostumando com o fato de que a Val e sua família tivessem dinheiro. Pensando nisso, eu já esperava que a fazenda não seria um sitiozinho ou uma chácara e mesmo exagerando na minha imaginação, eu ainda consegui errar e feio.

Esperava algo esbanjando luxo, que te faz sentir pobre e desconfortável e encontrei uma fazenda – enorme e provavelmente valendo uma boa grana – aconchegante, elegante, mas com calor de vó e cheirinho de café e pão de queijo. A construção era recente, diferente das outras que passamos por perto e tinham cara de casarão do período sombrio do Brasil.

– Pensei que vocês não fossem vir mais, – Fernando foi nos receber no carro para ajudar com as malas, não trouxemos tudo, mas era a Val né… – Curtiram a cidade?

– Eu amei! Quero morar no Rio!

– Até conhecer o verão por lá, – Val comentou. – Cadê a mamãe?

– Tomando chá com a sua avó. Ela preparou um banquete para receber vocês.

– Eu já amo a sua avó!

Nós estamos na casa e a primeira coisa que notei foi a decoração. Se a tia Lúcia já achava a Val o próprio satanás por me “desviar dos caminhos de deus” e “me tornar gay”, ela iria entrar em combustão ao descobrir que na casa da sua avó tinha uma parede lindíssima de madeira com faixas iluminadas decoradas com nada mais, nada menos que estatuetas de símbolos religiosos que a tia Lúcia adora dizer que é do demônio.

– Ma chèrie, você chegou.

Aí você pensa que a Margot disse isso e foi cumprimentar a filha e a resposta é não; a Margot veio me cumprimentar primeiro. Como eu consegui conquistar a minha sogra? Vai saber… será que devo os méritos a minha mãe? Pode ser.

A avó da Val era uma fofa, uma senhorinha de cabelo branco e sorriso simpático no rosto, me chamava de “minha filha” e o tempo todo me oferecia mais pão de queijo, broa, bolo, café e afins. Era um doce – embora fosse séria e rígida – e explicava muito o comportamento do Fernando.

Por mim, eu já me mudava para cá. Me oferecia para ajudar nos trabalhos da fazenda e nunca mais iria embora… se a Val deixasse, mas ela não deixou.

– Não vamos ficar aqui, mon bébé. É legal agora que estamos só nós por aqui, amanhã mesmo começa a chegar os parentes. A família do meu pai é bastante… numerosa.

– Ah, mas é legal ter bastante gente e tem bastante espaço também. Imagina um churrasco na piscina.

– Eu sou autista. Imaginar esse ambiente caótico já me causa pavor.

– Mas você vai ficar bem, não vai? A gente pode ir embora.

Val riu e me abraçou na cama. – Eu já estou acostumada. Sei lidar com isso.

– É tão caótico assim?

– Você não faz ideia…

E não fazia mesmo.

O primeiro carro que chegou pela manhã era o suficiente para me deixar incomodada. Um casal, um bebê de menos de um ano e uma criança bobona de quatro alguma coisa. Eu achava que a minha maman não se dava bem com crianças, ela já disse que não tinha vocação para ser mãe, mas essa menininha a viu e foi correndo para o seu colo gritando empolgada.

Tatie Val! Tatie Val! (Titia, Val). Você tá aqui!

– Estou, petite.

Petite?! Eu sou a petite dela!

– Olha só o que a Manu fez, – a menina mostrou o livro que estava segurando, – é de colar adesivo! O papai deu para a Manu.

– Foi você que fez esse? – Ela balançou a cabeça eufórica. – É muito lindo. Parabéns, Manu.

– A Manu quer brincar. Vem brincar de boneca na casinha com a Manu? Por favorzinho, vem?

Brincar? A Val vai brincar com essa feiosa? Eu não acredito.

– Manu, deixa a sua tia em paz – a mãe da menina disse. – Vai cumprimentar a sua avó.

Isso garota chata, vai para longe!

A criança desistiu da Val e eu me toquei que eu estava sendo a bobona. Como assim eu estava com ciúmes da atenção da minha namorada para uma menina que não representa ameaça nenhum a mim e ao nosso relacionamento? É a família dela.

– A Manu cresceu tanto, – Margot comentou.

– Se fosse só ela, – a dona Geralda riu. – Você vai ver, você vai ver… os bebês dessa família parecem que já nascem falando e andando. Eles logo chegam aí.

E tinha mais?!

Aos poucos eu entendi o que a Val quis dizer em não aguentar o ambiente com todos reunidos. O Fernando não tinha muitos irmãos, ao total eram apenas 3, mas se junta os três irmãos com os outros cinco primos e todos eles tendo no mínimo um filho, cada um com seus conjugues e mais filhos… até o horário do almoço tinha quase quarenta (ou mais) pessoas de todas as idades, principalmente crianças e bebês.

– Oh, meu deus, ele parece um bonequinho – Val comentou ao pegar no colo o bebê mais bebezinho. – É o recém-nascido mais lindinho que eu já vi.

– Não é? Meu bebê é tão lindo que nem eu acredito – a mãe disse orgulhosa e apaixonada pelo seu filhote.

– Vendo uma coisinha dessa dá até vontade de fazer um.

É O QUE?!

Fiquei observando a cena me segurando para não fazer uma cena na frente de todos. A Val estava tão entretida com o “bebezinho mais lindo que já viu” que cagou para mim. Travei a mandíbula de ódio para não morder essa mini coisinha.

Pior que não tinha para onde fugir. O Fernando estava brincando de jogar as crianças mais velhas na piscina, a Margot com as avós dos bebezinhos babando sobre eles enquanto conversavam sobre ter netos e a Val no meio sendo o tempo todo interrompida por seus “sobrimos” que queriam sua atenção.

[N/A: Sobrimos são filhos dos primos próximos que estão mais para sobrinhos que primos de 1º, 2º – e por aí vai – grau]

Eram nem 11h da manhã e eu já me sentia num pico de stress irracional. Usando todas as forças do meu corpo para não fazer outra cena e controlar meus pensamentos intrusivos para não se tornarem ações. Eu estava com medo de fazer a Val passar vergonha com a própria família, todos os parentes por aqui e os pais também. Não, não, isso não.

– Aqui, – Val me entregou uma cambuquinha e se sentou ao meu lado, – eu roubei para você. É sorvete… só não deixa a vovó Geralda ver. É extremamente proibido comer sobremesa antes do almoço.

Tentei dar um sorriso. – Obrigada.

– Você está bem? – Confirmei com a cabeça. – Tem certeza?

– Sim.

– O almoço vai demorar um pouco para sair, provavelmente só depois das 13h, mas se você estiver com fome, já, já sai umas carninhas.

– Eu estou bem.

– Você não vai entrar na piscina?

– Não. Você disse que iria me levar na cachoeira… e tem muita criança lá.

– Tudo bem. Quer dar uma volta de cavalo depois?

– A gente pode?!

– Oui. Eu vou pedir o caseiro para preparar dois cavalos.

– Mas eu não sei andar a cavalo.

– Relaxa, os cavalos são muito bem adestrados. As crianças aprendem a andar com eles.

Claro, as crianças…

A avó da Val a chamou para algo dentro da casa, como eu me recusei a ir junto – estava cheio de bebês por lá, – ela só me deu um beijo no topo da cabeça e saiu. Ainda bem que eu trouxe minha caixa-de-madeira-barra-mini-cavalete para pintar um pouco e me distrair sozinha, caso contrário estaria em um puro tédio e ódio.

Eu pintava e olhava para a janela da cozinha. Val estava perto da sua avó a ajudando em algo na cozinha e eu sabia que era para bebê porque vi a dona Geralda colocar uma sopinha no pratinho de neném. Ela me tirou a minha maman para fazer papinha? Esse tanto de mãe por aí, nenhuma era capaz de fazer isso para o próprio filho?

Me irritei tanto que desviei o olhar e foquei na minha aquarela; rabiscos de ódio desconexo. Concentrada em minha pintura, eu me desliguei totalmente do mundo ao meu redor. Estava tudo bem, tudo normal… até uma gota de tinta vermelha cair sobre o meu desenho.

Sangue.

Toquei perto do nariz e era real. Sem pensar muito, deixei minhas coisas de lado e fui para dentro da casa. A Val estava na sala, ao seu redor umas três mulheres com seus bebês no colo os amamentando e os outros sendo bajulados e mimados pelos outros que estavam por perto.

– O bebê tem que pegar o peito direito para sair o leite, – a dona Geralda dizia. – Esse chá é bom para aumentar o leite e ajuda na…

Ao aproximar da porta, vi a minha maman também tinha um bebezinho em seu colo dormindo e eu quis morrer. Por que ela estava carregando um neném com tanta gente ali? Eu fiquei brava, quis gritar e puxar o cabelo da garotinha…, mas… não pode. A maman vai ficar brava com eu…

Sem saber como lidar com tudo que estava sentindo, eu quis fugir para longe dali e sumir, mas quando cogitei dar um passo para trás a Margot virou para a minha direção.

– Mon dieu! Clarice! – Margot interrompeu a dona Geralda. – Valkyrie!

Eu não vi para onde o bebê que estava no colo da Val foi parar. Tudo aconteceu tão rápido e de repente eu estava com a minha maman tentando estancar meu sangramento e falando alguma coisa em francês que eu não entendi nada.

Eu estava apavorada, não queria voltar para o hospital, não queria estar doente e agora mais do que nunca queria a minha maman, mas tinha um tanto de gente e eu não podia fazer nada, nem chorar, nem pedir colo, menos ainda tetê como os outros bebezinhos ali.

– É melhor a levar para o quarto, – Margot disse.

– Quer que eu a leve para cima? – Fernando ofereceu.

– Você está molhado, pai. Eu mesma levo.

Fui carregada até o quarto onde estávamos hospedadas pela Val. Não estávamos em total silêncio, afinal, era possível ouvir as vozes distantes pela janela, mas definitivamente era melhor e mais calmo por aqui.

– O que está sentindo?

– Dor de cabeça.

– Por que não me disse que estava mal antes? Eu sabia que havia algo de errado com você, mas não esperava que fosse esse tipo de errado.

– Nem eu… eu só… – suspirei derrotada, – é muita informação ao mesmo tempo… eu… não sei… posso… tetê?

Val estreitou o olhar desconfiada por um momento e se levantou. Pensei que estava saindo, mas ela foi trancar a porta e se juntou a mim na cama outra vez. – Eu não acho que esteja sendo totalmente honesta comigo, mas podemos deixar essa conversa para quando estivermos de fato sozinha, d’accord? Você quer usar a fraldinha?

– Não.

– Tem certeza? Eu trouxe as de vestir, são mais discretas.

– Não.

– Certo, então vem cá. A maman vai te dar tetê.

A sensação de paz foi instantânea no momento em que abocanhei o tetê da maman. O contato da sua pele em meu rosto, o movimento da sucção, a aproximação do seu colo, o seu cheirinho e calor, tudo isso me ajudou a relaxar e aos poucos me entregar num soninho.

Pode ter até um monte de criancinha piolhenta tentando ter a atenção da minha maman, mas no fim, quem estará no seu colinho e recebendo o seu amor sou eu e era isso que importava. A maman é minha e só minha.

Acordei com o toque suave nas minhas costas. Era a maman sentada na beira da cama me chamando para levantar. Eu dormi tanto que até babei no travesseiro e me sentia desnorteada.

– Levanta um pouquinho para fazer xixi, – ela disse e eu a encarei confusa.

Demorei um pouco para entender o porque disso até que senti a minha bexiga apertar e eu não estava de fraldinha para impedir um acidente. Rapidinho me coloquei de pé e fui ao banheiro para evitar acidente.

– O almoço está quase pronto. Vamos comer? – Ela perguntou quando voltei do banheiro de bexiga vazia e mãos lavadas. – Tem bastante carninha do jeitinho que gosta.

Não precisava dizer mais nada, eu estava pronta para almoçar.

– Você está melhorzinha, minha filha? – A dona Geralda me perguntou. – Ó, come isso aqui, vai te fazer bem. Tem ferro.

A vovó Geralda só me dava comida e comida boa, impossível não amar essa mulher. O papa foi feijão tropeiro, com saladinha e churrasco, tinham outras opções, mas eu quis só isso mesmo. Depois eu comi pão de alho e queijo coalho com a maman e mais carninha.

– Só isso por enquanto, ok? Você já comeu demais – ela disse me dando um pratinho de sobremesa com bolo e sorvete. – Mais tarde você come as outras sobremesas.

– Tudo bem, maman.

Eu iria me comportar por vários motivos:

1. Não queria fazer a maman passar vergonha com a família.

2. Não quero passar vergonha na frente da minha sogra. A Val perto dela parece uma plebeia, imagine eu? Vai que ela pense que não sirvo para a filha dela?

3. Eu quase me matei engasgada com comida e a maman ainda está meio brava comigo por isso.

4. Não queria ser humilhada por crianças por fazer merda.

E é isso.

Eu poderia dizer mais motivos, mas se pensar muito eu choro e seria outro vexame.

– Estou com dor de cabeça, – reclamei.

Eu estava do ladinho da Val no sofá perto da piscina, ela me puxou para perto me forçando a deitar a cabeça em seu colo – não que eu estivesse sendo obrigada, eu fui de bom grado – e em seguida, tocou a minha testa medindo a temperatura.

– Você não está febril. Talvez seja melhor a gente voltar para São Paulo.

– Não quero, – choraminguei.

– Será que o Bruno já terminou a cirurgia? – Val perguntou para a Margot que estava na poltrona ao lado bebendo chá.

– Possivelmente. Se ele não puder, a sua avó conhece alguns médicos de confiança. Pode ser uma opção.

Val ligou para o Bruno. Ela literalmente só confia nele. Qualquer opinião de outro médico, ela só iria aceitar se o Bruno analisar e disser que também concorda, caso contrário, ela não dá ouvidos algum.

Dessa vez o Bruno pôde atender e por algum motivo pediu para conversar comigo a sós. Sem entender, eu fui até o quarto para falar com ele em privado.

– Fiquei sabendo que você anda sentindo dor de cabeça.

– Sim.

– Desde o hospital.

– Sim.

– Você chegou a reclamar algumas vezes, até te examinaram e colocaram no seu histórico médico que era dor de cabeça comum.

– Eu acho que sim.

– E como anda a sua vida, Clarinha? Você está bem? – Bruno perguntou curioso, não parecia um médico me examinando.

– Eu acho que sim. Meu nariz sangrou, mas fora a dor de cabeça eu não senti mais nada.

– Está gostando da viagem? Os passeios?

– Bastante.

– Se sente relaxada, calma?

– Sim.

Ele ergueu o cenho desconfiado. – E não tem nada te estressando, te deixando preocupada ou ansiosa nos últimos dias?

– Ah… às vezes eu penso no julgamento, eu sei que a Val disse para não pensar muito nisso, mas às vezes eu fico com medo… vai que dá ruim? Eu não quero ser presa.

– E tem algo mais te preocupando ou deixando irritada? Qualquer coisa… talvez seu lado pequeno não esteja satisfeito com a quantidade de peitos ou acha sua maman brava demais. Sei lá quais problemas de pequeno você tem.

Pensei bem… embora eu nunca iria reclamar em ter mais peito, eu não acho que isso seja um problema ou que eu tenha alguma reclamação da minha maman. Ela não me deixa irritada, o que me irrita são os outros querendo tomar a sua atenção de mim, mas eu não iria admitir isso ao Bruno.

– Está pensando muito, mocinha.

– Talvez eu esteja com um pouquinho de ciúmes.

– E esse ciúmes te deixa tensa?

– Uhum.

– E você por acaso quando se sente assim, trava o corpo ou enrijece os músculos?

– Hmm… eu acho que sim.

– Sim, eu sei que sim. Eu já vi você tensionando o rosto algumas vezes e quando a Kyrie comentou das suas dores de cabeça já suspeitava que fosse isso. Eu posso te encher de remédios se quiser, mas não vai adiantar. Eu acho que uma chupeta já resolveria seu problema de dor de cabeça.

– Uma chupeta? Eu não quero isso.

– Você também pode ir ao dentista. Uma placa para bruxismo para usar durante a noite e os momentos de maior tensão resolverão seu problema de dor de cabeça… se acalmar também, já pensou em fazer terapia? Seria interessante. Você também poderia fazer ioga com a sua maman, parece que não, mas ajuda.

Pensei nas posições difíceis e complicadas que a Val adora e neguei com a cabeça. – Eu não acho que eu tenha equilíbrio para isso.

– Com certeza se conversarem podem encontrar uma solução juntas. Se tem algo que te incomode, fale. Vai por mim, é o melhor que pode fazer.

Como eu explicaria para a maman que eu estava com ciúmes dela?

Essa pergunta não deixou a minha mente por um tempo depois da consulta. Nós ainda fomos na cidade próxima levar alguém ao centro e ir na farmácia comprar os meus “remédios” e acho que esse foi o primeiro momento que ficamos genuinamente sozinhas desde que chegamos na fazenda.

Tínhamos acabado de sair da farmácia, a maman abriu a porta de trás do carro para mim e entramos as duas no banco do passageiro. Fiquei sem entender, mas assim que fechou a porta ela me explicou.  

– Nós não precisamos voltar agora, – Val sorriu para mim. – Você quer conversar?

– Não sei… sobre o que quer conversar?

– Mon bébé, o Bruno me disse que, assim como das outras vezes, você sangrou por stress. Eu preciso saber o que está te estressando a esse ponto. Quer voltar para o Rio de Janeiro ou para São Paulo? Nós não temos que ficar aqui se não se sente bem.

– Não é isso… é que…

Fiquei com vergonha de falar… como que explica isso? Não era um sentimento normal ou aceitável, nem fazia sentido. E agora? E agora? E agora?

– Você está pressionando a mandíbula.

Só percebi que fazia quando ela comentou e logo em seguida parei. Respirei fundo, buscando determinação para falar e despejei tudo de uma vez só para não desistir no meio do caminho e não falar nada com nada.  

– Eu-fiquei-com-ciúmes-de-você-com-aqueles-bebezinhos-fofinhos-porquê-achei-que-iria-me-trocar-por-um-deles-e-esquecer-d’eu-e-eu-não-quero-que-me-troque.

 Val ficou me olhando em silêncio e pensativa. Por um momento fiquei em dúvida se ela me ouviu ou se eu falei rápido demais para que pudesse me entender.

– … ciúmes dos bebês?

Pronto… agora ela me acha uma idiota.

– Mon bébé, você sempre será a minha única pequena e nenhum outro bebê no mundo irá ocupar o seu lugar. O espaço que você tem em minha vida e no meu coração, são só seus.

– Mas eu não sou um bebê de verdade.

– Você é um bebê sim, o meu bebê. Vem cá, vem ter tetê.

– Aqui?

– Oui, aqui.

A maman me envolveu em um abraço em seu colo e depois me ofereceu o peito na boca. No primeiro instante eu fiquei com medo de que alguém do lado de fora fosse ver, mas aí lembrei que os vidros são bem escuros e não dava para ver nada dentro do carro.

O contato pele a pele com a maman é sempre muito relaxante. Eu gostava com o tetê da maman além de ser muito gostoso de mamar, servia de almofadinha fofinha para o neném.

– Je t’aime, ma vie.

Sorri para a maman, mas não respondi. Eu tinha a missão de descobrir qual era a tal pega que iria me ajudar a tirar o leitinho do tetê.  

– Aí! Aí, Clarice! O que deu em você? Está machucando.

– É que não está saindo.

– Saindo o que?

– O leitinho. Não quer sair!

– A maman não tem leite no tetê, mon bébé.

– Nada? Nadinha? Nem se eu mamar direitinho? Mas… os… os… os outros nenéns tem leitinho no tetê deles, por que eu não posso ter?

– Clarice…

– Eu também quero! Eu quer também!

Todo o sentimento reprimido do dia veio à tona em lágrimas que não consegui segurar. Até a Jujuba tem o leitinho dela, por que eu não posso ter o meu? Por que a maman não quer me dar?

– Não chora, mon amour.

– A maman num qué dá leite pra eu!

– Não é bem assim, ma vie… você quer fórmula? Eu preparo uma mamadeira para você, o que acha? Dizem que o sabor é quase o mesmo.

– Eu não quero fórmula e também não quero tetê! Eu quero ir embora e dormir!

A maman tentou conversar, mas eu não queria ouvir mais nada. Eu já entendi que eu não sou neném de verdade e para ter leitinho precisa ser um. Eu agora sou grande e só bebo coisa de gente grande.

Num tem neném nenhum aqui!

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