Elora Aneva

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32. Famille

« V A L K Y R I E »

Acordar pela manhã e não encontrar Clarice me deixou desesperada. Era cedo, cedo demais para a minha namorada estar acordada, 07:03 para ser mais exata. Ela nunca levantaria da cama por livre e espontânea vontade nesse horário.

Procurei no closet, banheiro e quando não encontrei, só me enrolei no robe e saí escada abaixo as pressas. Somente duas pessoas estariam de pé nesse horário: minha mãe e minha avó. As duas estavam conversando enquanto tomavam chá e café tranquilamente.

– Ma chérie, você levantou cedo… minha mãe me olhou de cima a abaixo. Sair de pijama do quarto enrolada em um robe era aceitável. Agora sair sem lavar o rosto ou ajeitar os cabelos? Inaceitável. – Está tudo bem?

– Onde está a Clarice? – Ignorei a pergunta.

– Alors, onde está Clarice? Dormindo, não? É cedo.

– Ela não está no quarto.

– Ela não voltou? – Minha avó perguntou. – Ela estava acordada mais cedo. Disse que estava sem sono e foi com os meninos ver o nascer do sol no lago, mas eles já voltaram para dormir, pensei que ela estivesse junto.

Era só o que me faltava. Sair para ver o nascer do sol com os outros sem me consultar antes, ainda mais para o lago. Parece que ela está procurando por outra punição e castigo, não é possível.

Sete horas da manhã e eu de pijama, de cavalo, procurando uma pequena aventureira que ousou sair sem permissão. O lago era de fácil acesso, mas ainda eram uns dez minutos para baixo depois do cerco, ou seja, para quem estava com pressa como eu, ir andando era fora de cogitação.

Para meu alívio e paz, não foi necessário ir muito longe para procurar Clarice com o Picolé. Ela não estava longe, só estava pendurada no cerco interagindo com as vacas.

– Clarice! – Gritei.

Clarice se virou para mim. A expressão inocente e tranquila de quem não via problema algum no que fazia. Fiz o Picolé correr até perto dela e parei ao seu lado.

– O que pensa que está fazendo?

– Cantando para as vaquinhas.

– Como é? – Bastava olhar para ela para saber que era o seu lado pequeno que estava tomando as decisões pelos seus atos. Tentar entender o que se passou por sua cabeça para achar uma boa ideia fazer isso agora e sem avisar seria em vão e inútil. – Vamos para dentro. Depois você volta para brincar com as vacas.

– Mas o sol acabou de nascer.

– E daí? – Perguntei confusa.

– É que tem que acordar o bezerro e a vaquinha.

Fiquei ainda mais confusa. Eu me esqueci como se fala português?

– Do que está falando, Clarice?

– É a musiquinha, – ela se virou para as vacas outra vez e começou a cantar balançando a cabeça. – Bom dia! O Sol já nasceu lá na fazendinha. Acorda o bezerro e a vaquinha que já cocoricou dona galinha. Levanta que o cavalinho já pulou da cama, que o pintinho tirou seu pijama e o porquinho já caiu na lama… Lá na fazendinha é manhã. Deixa de manha e vem pra cá, que o Sol raiou e agora é hora de brincar.

Observei a cena refletindo sobre a minha própria vida e como vim parar nesse exato momento. Eu nunca sonhei com nada disso para a minha vida e sequer imaginava essa possibilidade, mas agora que essa é a minha realidade, não consigo imaginar um futuro em que não tenha que sair de casa desesperada cedo pela matina para encontrar a minha namorada cantando para as vacas.

– Mais tarde você continua cantando para as vacas. Vamos voltar para a casa.

– Tem certeza que você não quer um capinzinho? A dona vaquinha não vai ficar brava não, tem um montão aqui.

Revirei os olhos respirando fundo. – Tenho, Clarice. Eu não vou comer capim. Agora vem cá.

Clara era leve e eu conseguia facilmente puxar para cima do cavalo. Fizemos todo o trajeto de volta ao som da tal musiquinha da fazendinha e aos poucos sentia que a letra da canção estava sendo tatuada em meu cérebro. Vai ser um inferno para me livrar disso depois.

Os prazeres de ser uma maman…

– Onde você esteve, mademoiselle? – Margot perguntou com um tom jocoso.

– Cantando para as vaquinhas, – Clara respondeu empolgada e me bateu um pânico.

Essa garota está pequena na frente de todo mundo, principalmente a minha mãe. Eu preciso a tirar daqui agora mesmo!

– E o que você cantou para elas?

– Muitas coisas, agora essa senhora aqui precisa de outro banho para voltar a dormir. Está muito cedo para começar o dia.

– Mas eu quero conver… – ela se interrompeu com o meu olhar. – Tomar banho.

Céus, o que eu faço com essa garota?!

Depois do nosso banho rápido, Clarice apagou na cama e eu junto. Me recusei a levantar antes do meio dia e toda vez que abri o olho e o relógio não marcava esse horário, eu virava para o lado e me forçava a dormir. Ao menos um dia nessas férias precisava fingir que era capaz de dormir tanto assim.

Eu não tinha intenções de ficar muito tempo na fazenda, mas como Clarice estava gostando não vi motivos para querer voltar para o Rio, menos ainda para São Paulo. A vida no mato era tranquila e agradável, era como se nenhum problema da cidade pudesse nos atingir. Me fez entender a decisão da minha grand-mére de se isolar em uma ilha em Cannes. Talvez um dia eu chegue nesse nível, por hora não era possível ainda.

– Espero que tenha um motivo muito bom para me ligar agora, – disse ao atender a chamada em meu celular. Estava tomando um banho de sol na piscina enquanto Clara nadava feliz. – Temos boas notícias?

– Depende do ponto de vista, – Giovana respondeu.

– O que foi agora? – Me levantei da espreguiçadeira e fui em direção a casa, não queria ser ouvida por certa loira.

– O advogado do pai da Clarice quer fazer um acordo. Se aceitarem, eles vão tirar a queixa e o caso será arquivado.

– E se não aceitarmos?

– A próxima audiência está agendada em dez dias.

– Quais as condições desse acordo?

– Você não pode permitir que a Clarice aceite uma coisa dessas, Valkyrie – Margot reagiu brava ao ouvir sobre a ligação que acabara de ter com Giovana. – Ele está querendo tirar vantagem da menina. E você não vai permitir isso.

– Eu não sei… algo me diz que a própria Clara iria ponderar nessa decisão. Ela não está nada confortável tendo o passado revirado para esse julgamento. Talvez ela prefira pagar para sair dele.

– Mas ele ficaria solto. E qual a garantia de que ele não voltaria a perturbar? – Meu pai questionou.

O acordo que o Luís queria era dinheiro em troca da retirada da queixa. O caso seria arquivado e ficaria por isso. Em termos de desgaste emocional, poderia até dizer que era vantajoso. A quantia que ele pediu era irrisória, esse não era o problema. Mas em contrapartida, a prisão dele era quase certeira, só seria desgastante para a minha Clara todo o processo.

– Eu concordo com a sua mãe e acho que você deveria convencer a Clara não aceitar acordo algum. Ela não é uma criminosa, tampouco tentou contra a vida do pai.

– Esse homem é realmente o pai dela? – Minha mãe perguntou aleatoriamente. – Vamos desconsiderar o que ele fez, em termos biológicos, ele é o pai da Clarice? Ela tem certeza disso?

– Até onde eu sei, sim. Ela nunca falou que ele não seria o pai biológico.

– Pois eu acho que não é, – ela rebateu. – Você já viu uma foto da Aurora? Ela não se parece tanto assim com a Clara, muito menos aquele homem que estava no fórum.

– Mãe. Isso é sério.

– Talvez ela tenha puxado os avós, – meu pai comentou.

– Eu tenho certeza absoluta que a Aurora teve outro namorado. Eu até estranhei que o homem que eu vi no fórum não parece nada com o homem que ela costumava sair, mas fazem tantos anos. Eu tinha acabado de descobrir que estava grávida, foi uma reviravolta na minha vida que acabei me afastando um pouco da Aurora e esse homem não era brasileiro. Foram poucas vezes que vim para o Brasil e ele estava por aí. Acho que se eu procurar nos álbuns de fotos devo encontrar alguma coisa.

Eu definitivamente precisava ter uma conversa mais afunda sobre o passado da minha mãe e sua amizade com a mãe da Clara. Não imaginava que a conhecia há tantos anos a ponto de ser antes da sua gravidez. Clarice acredita em destino, eu me considero um pouco cética, mas saber que estávamos muito mais próximas do que poderia imaginar é realmente intrigante.

– Só tem uma forma de saber a verdade… teste de DNA.

– Você vai solicitar aos advogados? – Meu pai perguntou.

– Não. Se fizer isso vai acabar chegando nos ouvidos da Clara. Imagina como ela ficará se descobrir que o homem que ferrou a sua vida inteira sequer é o seu pai? Prefiro ter a certeza antes de comentar qualquer coisa com ela.

– O que está planejando fazer?

– Descobrir se a Clarice e a Larissa são realmente primas. Acho que é o caminho mais fácil. Mas, por favor, por agora vamos manter isso só entre nós. Já basta as dores de cabeça que precisamos lidar.

– Fique tranquila, minha filha. Não vamos contar nada a Clarice.

– Eu ouvi o meu nome?

Clarice entrou na sala nos pegando de surpresa. A quanto tempo ela estava ouvindo a conversa, eu não fazia ideia. Mas, como meus pais e eu só conversamos em francês entre nós, eu duvido que tenha entendido alguma coisa além do próprio nome.

– Sim, eu mandei a Chloée ir te ver. O sol da tarde não é muito bom para ficar na piscina – minha mãe respondeu.

Observei a naturalidade em que minha mãe falou e fiquei incrédula. A falta de expressão dela torna qualquer coisa que sai da sua boca soar verdadeira. Agora que eu sou uma maman e tenho a minha bebê consigo ver muito melhor como minha mãe me manipulava quando pequena e meu pai também. Cretinos.

 – O Bruno me mandou uma mensagem, – Clara comentou empolgada. – Eu já posso buscar o Chlô.

A observei por um instante esperando que fosse dizer algo mais e não veio nada, mas o brilho em seus olhos já dizia tudo que eu precisava saber.

– Você quer voltar para São Paulo, – concluí. Respirei fundo e dei ombros. – Pelo visto vamos ter que fazer as malas outras vez.

Nós já iríamos embora em dois ou três dias, antecipar não seria problema. Especialmente porque Clara em breve voltaria para faculdade e precisava se colocar em dia. Eu não quero que tenha problemas com os estudos.

– Você quer que eu peça para alguém ir buscar o seu cachorro? – Perguntei depois de vinte minutos que estávamos na mesa tomando café da tarde e Clarice via o catalogo de um petshop aleatório.

– Não, eu mesma vou buscar. Você pode ir comigo se quiser… é um pouco longe.

– Se vamos ter um meliante morando na minha casa, eu quero conhece-lo.

– Ele é tão fofinho, olha – Clara me mostrou a foto do cachorrinho e parecia uma bolinha de pelo branca. Fofo, mas ainda era um animal no meu apartamento. O que o amor não te força a fazer. – A Glória vai fazer um sofá de crochê para o Chlô, ele vai ter o próprio sofázinho lá em casa. Falando nisso eu preciso ir lá arrumar as minhas coisas, está tudo em caixas empilhadas, não é legal.

O meu chá até desceu rasgando a garganta ao ouvir o comentário. – Você… – estudei as palavras para usar, – ainda pretende… dividir o apartamento com a sua amiga?

– Eu não posso ficar para sempre no seu apartamento, né Val.

– Não pode? Por que?

– Porque ainda é cedo.

– Seu lado pequeno não acha que é cedo, já até pediu leite.

Clarice corou como um pimentão de vergonha. – Não fala essas coisas em voz alta, alguém pode ouvir.

Ninguém iria nos ouvir. Nós estávamos sozinhas na cozinha e os demais estavam longe. Não havia motivos para nos preocuparmos agora e eu sabia disso.

– Quando você vai tomar a sua decisão definitiva?

– Como vamos explicar no trabalho que moramos juntas se eles nem sabem que estamos juntas? Nós já vamos passar a maior parte do tempo juntas e as noites também, morar ou não morar com você no fim vai ser indiferente.

Não vai, não. Eu vou saber que a Clara não estará morando comigo, então é a mesma coisa. Mas eu me contive, também não vou forçar a barra. Nem eu estou me reconhecendo, eu nunca quis ninguém morando comigo antes e agora estou aqui indignada que a minha namorada não quer se mudar definitivamente para o meu apartamento.

Será que estou me tornando uma chata pegajosa? De repente eu já nem queria mais voltar para São Paulo, mas às oito da manhã do dia seguinte lá estávamos nós na estrada outra vez.

– Sua avó me deu um montão de coisas da fazenda para trazer, – Clara comentou empolgada olhando a bolsa térmica em seu colo. – Eu gostei bastante dela.

– Você gosta de qualquer pessoa que te dá comida, – balancei a cabeça rindo. – Eu não lembro da minha avó dando um queijo sequer para nenhum dos meus ex’s que ela conheceu. Pelo visto ela realmente gostou de você.

– Você acha que ela gostou de mim?

Me virei para Clara rapidamente surpresa. – Você tem dúvidas disso? Eu acho que até os meus pais me trocariam para ter você na família.

– Seus pais? Eles realmente gostam de mim?

– Clarice… eles estão até agora no Brasil por sua causa. Caso contrário já teria voltado para Épernay há semanas. Fiquei surpresa de ver meus pais por aqui logo no finalzinho da vendange.

– O que é isso?

– Época de colheita das uvas. E depois da colheita tem todo o processo de fabricação antes de armazenar por anos. Você raramente vê um Touchon viajando entre setembro e novembro.

– Vocês esmagam as uvas com os pés tipo nos filmes? – Clara perguntou genuinamente curiosa. – Você já pisou nas uvas?

– Já, já sim. É divertido no início, depois é um saco… leva horas e horas, precisa de várias pessoas para aguentar.

– Me parece legal. Se fosse por aqui, eu iria querer ir.

– Ué, e você não vai querer ir para a minha cidade natal?

– E atravessar o oceano de avião?! Você é louca.

– Pois então se prepare, nós provavelmente iremos para lá ainda esse ano.

Clara me encarou em silêncio por um momento. – Estamos em novembro.

– Eu sei…

Provavelmente durante o natal. Não sei até que ponto Clarice se deu conta de que não terá mais contato com a família. Ela não comentou nada sobre os parentes por parte de mãe, então não sei o quão próxima é deles. O que posso fazer é encher a cabeça dela de coisas novas e diferentes para não sentir muito o impacto.

A viagem de volta para São Paulo foi mais tranquila que a ida para o Rio de Janeiro. Confesso que liberei a piloto de fórmula 1 que existe em mim – somente para rodovias, cidades não – para chegarmos o quanto antes.

E seria muito mais fácil pensar que fomos para casa primeiro, mas não. Clarice estava tão ansiosa e eufórica pelo seu cachorrinhos que fomos direto buscar o bichano.

– Ele não é uma gracinha? – Ela disse abrançando o cachorrinho. – Você é muito lindo! Que vontade de esmagar!

– Você já escolheu o nome dele?

– Sim, Chloée.

A moça do canil fez uma careta confusa e a Clarice estava tão entretida como cachorro que nem percebeu. Eu também achei a escolha do nome bastante peculiar. Dar o meu segundo nome – e que é o mais usado na França – para o cachorro era algo que não sabia se levava como elogio ou ofensa, mas vindo de Clarice eu aceitava qualquer coisa.

– Está pronto para ir para casa, mocinho? A gente vai brincar um montão… você gosta de piscina? – Clara me olhou com sua carinha pidona. – Podemos levar o Chlô no parque?

– Hoje não, né?

– Amanhã? Por favor? Por favor? Por favor? Por favor?

Suspirei derrotada. Como posso dizer não a ela?

– Tudo bem, ma vie. Nós podemos ir ao parque amanhã.

Bruno tinha razão quando disse que a Clara estava muito feliz e empolgada como cachorro. Ela estava regredindo sem perceber só pela animação de ter seu novo companheiro nos braços. A ver assim me deixava contente e feliz. Até que ter um bichinho em casa não será tão ruim assim… eu espero.

Durante o trajeto para casa, Clara tirou várias fotos do pequeno maltês e fez vídeos também. Ela estava realmente feliz.

– Bem-vindo a casa da sua segunda mamãe, Chlô. – Clara disse ao soltar o cachorro no chão do apartamento, – Mas não se acostume muito não, viu? A sua outra mamãe mora em algo bem menor que isso.

– Mamãe?

– Uhum. Você não vai fugir da sua responsabilidade de mãe, dona Valquíria. Tá achando que isso aqui é o que? – Ela cruzou o braço fazendo pose de séria e brava. – Se o Chlô é meu filho, ele também é seu.

– Certo…

E o que eu faço com um cachorro?

– Agora, onde a gente deixa as coisinhas dele? Ele vai precisar de um espaço para fazer pipi e caquinha… já sei, lá fora.

Clara saiu correndo carregando a bolsa com as coisas do Chloée e o maltês foi correndo atrás. Como ela tinha energia para correr assim e depois ir brincar após uma viagem longa como a nossa, eu não sabia. Mas enquanto eu estava me sentindo exausta e querendo dormir, Clarice estava se divertindo com seu amiguinho.

Eu até cogitei a dormir e deixar os dois, mas em meu coração sentia que não era uma boa ideia deixar os dois sozinhos na área gourmet por agora. Eu conseguia ver inúmeras formas em que um dos dois sairia machucado ou morto. Então eu me forcei a manter os olhos abertos, até fiz um chá para tomar sentada da mesa enquanto os observada de longe.

Depois de, sei lá, quase uma hora, Clara voltou para mim toda suada e meio ofegante. Eu que estava praticamente debruçada sobre a mesa endireitei o corpo esperando que fosse uma crise de asma, mas não, era só cansaço mesmo.

– Já deu de brincar, maman. Eu quero tetê.

Me senti apenas um par de peitos, mas achei tão fofo a naturalidade em que chegou para mim. A minha pequena estava cada vez mais confortável em ser ela mesmo.

– Um bainho antes, né meu amor? Você está toda suada e suja.

– Mas… maman… pufavozinho? Bainho depois, vai.

Você tem dúvidas que ela conseguiu exatamente o que queria?

Nós fomos para rede, onde seria mais confortável para ambas e eu tirei a parte de cima da minha roupa. Ainda não sei porque não comprei sutiãs mais fáceis de amamentar, preciso providenciar isso logo.

Clara abocanhou meu seio meio deitada de lado e se aninhou em meus braços. No contente em ter só um peito para si, ela apalpou o outro e descansou a mão ali. O meu neném era possessivo e exigente.

Era muito fofo observar Clara mamar tranquilamente. Sua expressão era tão tranquila e serena, fazia parecer que o tetê era a coisa mais incrível e preciosa para ela. Será que era assim por que estava comigo ou qualquer outra mulher lhe faria chegar a essa paz de espírito?

Eu definitivamente não quero a minha Clarice olhando para outras mulheres, menos ainda desejando mamar em seus peitos. Ela não precisa disso, ela tem a mim. Eu sou a sua maman.

Droga, por que infernos eu estou revoltada com o meu próprio pensamento?

– Você não vai deixar a sua maman, vai bébé?

Mesmo sem entender a origem da pergunta, Clara balançou a cabeça negativa mente. – Num vou deixar a maman nunca. Nunquinha! – Ela respondeu com meu peito na boca causando um pouco de cócegas. – Eu amo a maman um montão… mais do que eu amo tetê.

– Mais do que você ama tetê?

– Uhum!

– Então é muita coisa! – Lhe dei um beijo demorado na testa. – Je t’aime aussi, mon bébé (eu também te amo, meu bebê).

E foi assim que acabei com a Clara toda suada entre meus braços, fingindo mamar enquanto dormia. Porque sim, era óbvio que o cansaço da viagem iria vir mais cedo ou mais tarde e como se tratava da Clarice, era de se esperar que fosse querer dormir logo no meu colo poucos minutos depois que pegou o peito, só porque estava suada e eu queria dar um banho nela logo.

– O que eu faço com você, mocinha? – Sussurrei contra seu cabelo.

No momento? Dormir também… o clima estava agradável e estávamos bem confortáveis na rede. O cochilo não faria mal.

– Vem cá, cachorro – dei estalos com os dedos e a bolinha de pelo veio correndo todo empolgado. Com cuidado, o levantei do chão para colocar para deitar comigo e a Clara na rede. – Só dessa vez você vai deitar conosco, d’accord? E é porque estamos na rede. Nada de querer vir dormir na cama, isso não vai acontecer!

Estranho pensar que, enquanto estava deitada na rede com a minha namorada e seu cachorro, tinha sensação de que finalmente estava começando a minha própria família, porquê às vezes família é isso, duas mulheres e um cachorro, e eu não poderia estar mais em paz.

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