« C L A R I C E »
– Um presente de aniversário? – Bruno perguntou.
Nós estávamos tomando café da manhã na área gourmet do apartamento da Val. Depois que eu descobri a existência da parte externa, eu queria passar a maior parte do meu tempo aqui. Era fresco, arejado, com uma vegetação que quebrava um pouco a vibe cinza de São Paulo (coisa que é muito a característica das obras da Val) e o principal: tinha uma piscina grandona e com borda infinita que eu estava doidinha para usar, mas a maman não deixou.
“Se você ousar entrar nessa piscina sem autorização vai ficar sem tetê pela eternidade” foi o que ela me disse e depois disso nem cheguei perto, vai que…
– Que tipo de presente de aniversário estamos falando?
– Do tipo que a Clarice quiser. E se ela continuar dizendo que não quer nada, do tipo que você acha que ela irá gostar.
Bruno se virou para mim com um sorriso no rosto. – Qualquer coisa?
– Oui.
– Sem limitações de tamanho e valor?
Esse foi o primeiro momento que Valquíria parou de ler seus e-mails no celular para olhar para o Bruno. – Se precisar de um guindaste para entrar nesse apartamento, a resposta é não.
– O que precisaria de um guindaste para entrar aqui?
– Um piano de calda, – ela respondeu.
– Eu toco piano, – comentei. – Tocava.
Val me olhou surpresa. – Você nunca comentou isso antes…, mas você pode escolher outra coisa de presente, tem um piano na sala de estar e já me deu dores de cabeça o suficiente para trazer para dentro. Não quero mexer com reformas outra vez.
– Por que tanto esforço para trazer esse piano? Você também toca?
– Se a Kyrie faz algo a contragosto, pode ter certeza que é por causa da Margot, – Bruno respondeu. – Inclusive as aulas de piano…, mas o professor brasileiro e maestro dela era um gostoso! Foi uma pena quando acabou.
– Ele era realmente muito lindo, mas eu prefiro a luta.
Ainda bem… eu não sei se gostaria de saber que a minha mulher ainda tem aulas com um professor que ela acha “muito” lindo.
– Eu não quero um piano, – cortei o assunto. – É um exagero e eu nem toco mais há muitos anos.
– E alguma coisa de pintura? – Bruno perguntou apontando para o meu mini cavalete que a Val me deu no hospital. – Você pinta bem. Aquele desenho foi você que fez ou pegou na internet?
– Eu fiz… é um cachorrinho que tem perfil no tiktok que eu acho fofo.
– A Margot já viu isso? – Bruno não perguntou para mim, Val apenas negou com a cabeça. – Já reparou que a Clarice é exatamente aquilo que a sua mãe queria que você fosse e você fez o contrário?
– Como assim? – Perguntei.
– O sonho da minha mãe era uma filha que tivesse interesse me belas artes e apesar de ter tentado de tudo, eu gostava mesmo era de dar socos e chutes. Ela ainda teve sorte que eu segui a carreira de arquiteta e faço “arte” de alguma forma.
– Em compensação. Você arrumou uma namorada que é super talentosa e provavelmente não irá achar um tédio a acompanhar nas exposições e outros eventos.
– Você não acha um tédio.
– Eu não acho a sua mãe um tédio, mas ficar admirando quadros sem sentidos? Enquanto ela está lá, eu estou admirando as personas belíssimas que costumam frequentar esses lugares.
– Mas exposições são legais. Eu sempre ia com a minha mãe.
– Viu só? Se a Clarice não fosse virar uma Touchon casando com você, com certeza seria adotada.
Casando comigo? A Val casaria comigo?! Ela não seria doida… seria?
– Será que podemos focar no presente? – Val pediu. Será que se incomodou com a piada sobre o casamento? Então ela não quer casar?
– Que tal uma moto? Você não comentou uma vez no hospital que iria comprar uma moto?
– Mas nem fodendo! – Valquíria reclamou séria. – Moto é muito perigoso, ainda mais nessa cidade. Você não vai ter uma moto.
– O que pode ser então? Um ca…
– Eu na verdade, já sei o que eu quero – interrompi os dois e eles me olharam curiosos.
«…»
– Nós viemos até aqui para isso? – Bruno fez uma careta descontente. – Você não pode pedir a sua mommy isso de presente.
– Por que não? Eu só venho aqui em ocasiões especiais. O meu aniversário não era para ser uma?
– E como eu vou explicar para dona Valkyrie que eu comprei sorvete de aniversário para você?
– Sorvete artesanal! – O corrigi. – O melhor de São Paulo, aliás. E eu amo ele e estou feliz tomando o meu.
– Você não tem ideia de quem você está namorando, tem? – Bruno revirou os olhos. – Isso é tão ridículo que eu não tenho sequer coragem de pagar esse sorvete com o cartão da Val. Eu vou pedir dois milkshakes para a viagem e nós vamos comprar um presente de verdade.
– Milkshake?
– Você disse que ama esse sorvete, não disse? Eu não estou vendo nenhuma mommy por perto para dizer que não pode. Vamos pedir um para viagem e ir embora.
– Mas e se a maman reclamar?
– Ela não precisa saber. E se souber, é só dizer que é seu aniversário. Você é a aniversariante, pode fazer tudo que quiser. E é por isso que nós precisamos aproveitar essa belezinha aqui, – ele mostrou o cartão da Val. – Por onde devemos começar? Ah… eu já sei.
Meu cérebro gelou com o sorvete e o medo. Agora ferrou-se de vez… o Bruno vai gastar um montão no cartão da maman e ela vai achar que fui eu e ficar brava comigo!
Talvez a quantidade de sorvete e milkshake e soverte foram um exagero. Demorei um tempão conseguir terminar tudo, mas eu tomei e fui felizona cada minuto.
A viagem foi um pouco longa. Bruno estava me levando para um lugar mais afastado da cidade, uma área mais remota e distante do grande centro. Por um momento pensei que estivesse começando a viagem para o Rio de Janeiro sem me avisar, mas então entramos em uma estrada de pedra e percebi que não estávamos indo para nenhuma cidade grande.
Depois de mais de uma hora, nós chegamos em uma fazenda.
– O que estávamos fazendo aqui?
– Escolhendo um presente de aniversário para você.
– Numa fazenda?
– Sim. Vem comigo e você vai entender.
Saímos do carro e assim que entramos na casa entendi tudo. Não era uma fazenda, fazenda, era uma clínica veterinária, hotel pet e um canil. Eu estava tão encantada com o lugar e as fotos dos cachorrinhos fofinhos usando suas medalhas que eu não prestei atenção no que o Bruno conversava com uma mulher.
– Vem, Clarice.
Segui os dois sem saber para onde íamos até chegar no paraíso. Um jardim cercado cheio de mini cachorrinhos peludinhos, fofinhos e lindos.
– Esses são os nossos Mini Maltês. Todos eles estão disponíveis, – a moça explicou “pulando” a cerquinha e no mesmo instante todos os cachorrinhos vieram até ela. – Querem entrar?
Eu não perdi a oportunidade e fiz o mesmo. Eram mais de dez cachorrinhos que estavam ali, todos eles eufóricos, saltitantes e loucos para brincar. – Eles são tão fofinhos! Oi, nenéns! – Me agachei para fazer carinho neles e os cachorrinhos pularam em mim me fazendo desequilibrar e sentar no chão.
– Você gostou de algum deles? – Bruno me perguntou.
– Eu gostei de todos eles!
– Se eu fizer isso, a sua mulher irá me matar. Então vamos focar em um… ou dois, – Bruno se virou para a moça. – Qual o tamanho deles adultos?
– Mini maltês é a menor raça de cachorro que existe. Eles não irão crescer muito mais além do tamanho que estão agora.
– Então não faz mal, pode levar uns três se quiser. Sua mulher tem dinheiro, ela pode cuidar ou pagar alguém para isso.
Eu estava sendo atacada por mini cachorrinhos por todas as partes e eu amei. Se antes eu não queria um presente de aniversário, agora eu quero dez!
Mas eu não sou doida também… teve um filhotinho que eu amei e nas horas – que foram muitas – que ficamos ali brincando com eles, ele me adotou e eu senti na obrigação de levar ele para mim. Bruno insistiu em saber se queria realmente só um filhotinho, por um momento até cogitei levar outros, mas depois que eu vi o valor, percebi que um já era demais.
– Eu não vou poder levar ele comigo?
– Não, ainda não. Eles ainda são muito bebezinhos e precisam ficar aqui, mas falta pouquinho para você poder buscar o seu cachorrinho. Quer escolher as coisinhas do seu novo filho?
A loja da fazendinha tinha um montão de coisas para cachorro. Casinha, caminha, brinquedinhos, roupinhas, petiscos… a gente pegou um tantão de coisinha para o filhotinho. Alguns itens ficaram na fazendinha para vir junto com o cachorrinho e outros nós trouxemos no carro.
– Você já sabe qual vai ser o nome do seu filho?
– Hmmm… não sei ainda. Eu vou perguntar a maman o que ela acha. A gente vai para casa agora?
– Ainda temos algumas horas… o que acha de mais sorvete?
– Quero!
« V A L K Y R I E »
Quase oito horas da noite e nem um sinal do paradeiro de Bruno e Clarice. Nenhum dos dois atendiam as minhas ligações, e fora uma mensagem que Bruno me enviou essa tarde, eu não tinha ideia de onde estavam.
Estava prestes a tomar atitudes drásticas quando a porta do elevador abriu e lá estavam os dois. Bruno estava pleníssimo carregando algumas sacolas, já Clarice… por algum motivo ela estava suja de terra e sorvete, os cabelos bagunçados e aquilo era grama?
– Onde foi que vocês se meteram?
– Fomos comprar presentes de aniversário.
– Maman! Maman! A gente comprou um cachorro! – Clara correu para perto de mim e mostrou uma foto daquelas câmeras instantâneas, era uma foto dela com um filhote de cachorro fofinho. – Ele num é fofinho?
Um cachorro?
Olhei para o Bruno desesperada e ele deu ombros com o seu típico deboche. – Ela quis.
– Um cachorro…
– Mas ele é muito neném e não pode vir para casa ainda. Só que é tão fofinho e desse tamainho.
Um cachorro… em minha cabeça a lista de motivos para qual eu nunca quis um animal no meu apartamento crescia junto com o meu desespero. Eu até cogitei a reclamar, mas Bruno me mostrou o seu celular, um vídeo da Clara deitada na grama, dando boas gargalhadas enquanto uma matilha de filhotinhos a atacava. Ela estava tão feliz e empolgada… como eu vou dizer não a isso?
– Certo… e quando vai chegar?
– O cachorrinho que ela escolheu está quase chegando na fase final, ela disse que em uma semana, dez dias, você pode ir lá buscar.
Eu tenho uma semana para me preparar para isso… Ok. Ok. Ok… eu consigo.
Clarice subiu para tomar o seu banho – para o meu alívio – e Bruno e eu ficamos conversando.
– Eu sei que você não é muito fã de animais em casa, mas a sua pequena é fascinada por cachorros. Ela passava horas vendo vídeos de cachorros no hospital, até pintou um. Eu não poderia escolher outra coisa. E o micro maltês não tem nem vinte centímetros, é pequenininho, até o cocozinho vai ser mini.
Suspirei. – Você tem razão… está tudo bem. Me convenceu no vídeo. Ela parece tão feliz, eu jamais iria dizer não a isso.
– Quer levar uns filhotinhos extras?
– Não exagera.
– Enfim, gata. Meu dia de tio já acabou, agora vou fazer minhas coisinhas. Que horas você viaja?
– Quatro ou cinco da madrugada.
– Boa sorte…
– Vou precisar.
O lado bom do passeio da Clara com o Bruno hoje foi que, depois do banho, ela mamou nem dez minutos e já estava dormindo um sono pesado. Nós dormimos mais cedo que o habitual para levantar na madrugada e pegar estrada. Não queria passar a virada para o aniversário de Clara com ela dormindo, mas não tinha outra opção.
Apesar de não poder celebrar logo no primeiro minuto do dia, eu não irai deixar a madrugada passar em branco. Eu fiz alguns cupcakes para cantar o primeiro parabéns da Clara e pouco antes do seu despertador tocar, eu a acordei com beijinhos e cantando parabéns.
– O que é isso? – Ela perguntou coçando os olhos.
– É o seu aniversário, meu amor. Faça o seu pedido.
Ainda meio perdida, Clara soprou a vela e me encarou confusa. – Eu posso comer?
– É seu cupcake, claro que pode.
– Mas eu acabei de acordar.
– É o seu aniversário, você pode comer.
Eu nunca vi uma pessoa tão feliz por comer um bolinho como Clarice ficou. Depois de devorar com um sorriso no rosto, ela me beijou e abraçou agradecendo. Queria ter tempo para aproveitamos mais a nossa manhã, mas tínhamos que pegar estrada.
Ontem eu havia me adiantado e preparado tudo que talvez fossemos precisar durante a viagem. Contei com a expertise da Giovana para saber o que uma pequena poderia precisar, eu iria odiar ser pega de surpresas. E por se tratar de Clarice – e seu aniversário – me aventurei no mercado comprando guloseimas e salgadinhos para a entreter – e sujar o carro.
– O que você está fazendo? – Clara me perguntou.
Olhei ao redor sem entender. – Entrando no carro?
– É, mas no lado errado.
– Por que?
– Val, você dirige igual uma lesma. No seu ritmo chegaremos lá amanhã.
– Ha. Ha. Ha. Engraçadinha. Eu não sou lenta como você acha, bobinha. Eu só não gosto de dirigir na cidade, mas a estrada é tranquilo.
– Quero só ver…
Male, male sabe Clarice que eu aprendi a dirigir com meu avô paterno e foi um caminhão. Eu me divertia à beça com ele até meus pais descobrirem e proibirem essa brincadeira. É por isso que até hoje eu só gosto de carros altos e grandes.
– Eu vou levar a gente para estrada então. Você assume de lá.
– Se é o que você quer, mocinha.
– Você vai dizer sim para tudo que eu disser hoje?
– Sim. É o poder de aniversário.
– E se eu disser que quero jogar fogo em algo?
– Se esse algo não for você própria ou outra pessoa, salvo exceções. E me permitir contratar algum bombeiro civil para garantir a segurança de todos; sim.
O sorriso maligno no rosto de Clara me deixou preocupada. O que ou quem essa menina queria jogar fogo?
Apesar de madrugada, já haviam alguns carros circulando nessa cidade infernal que é São Paulo, porém bem mais tranquilo que o usual. As primeiras horas de viagem sempre são as mais fáceis, está todo mundo fresco e de bom humor.
Em alguns momentos eu suspeitei que Clarice estava em um meio termo entre estar grande e pequena. Ela estava concentrada no trânsito e ao mesmo tempo curtindo seus doces enquanto se balançava ao ritmo da música. Se ela estava levando a sério ou se tudo não passava de uma brincadeira de carrinho em sua cabeça, eu não sabia dizer. O importante era que sua condução estava boa e segura, então estava tudo certo para mim.
Nós só paramos quando estávamos no meio do caminho e deu vontade de ir ao banheiro depois de horas só bebendo água e suco.
– Olha! Tem espaço pet aqui… eu poderia trazer meu filho.
– E o seu filho não tem nome?
– Tem. Eu vou chamar ele de Chloée em sua homenagem.
A encarei confusa. – E o seu cachorro não é macho?
– E daí? Ele é um macho descontruído e vai amar o nome dele. Ele é o cachorrinho mais lindo que eu já vi, assim como você é a pessoa mais linda que eu já vi. Então combina.
A lógica de Clara não fazia sentido algum, mas eu deixei passar. Não se discute com doidos.
– Está com fome? Podemos aproveitar e fazer um “brunch” por aqui.
– Tem pão de queijo! Eu quero almoçar pão de queijo!
– Pode ser, bébé.
Clarice que não sabia o poder de aniversário, estava aprendendo bem. Ela almoçou pão de queijo, coxinha, bolo e torta. Só espero que até meia-noite essa garota não morra de diabetes.
– Você já viu isso aqui? São panelas de pedra – Clarice pegou uma panela da parte de conveniência de onde estávamos. – Uma vez eu vi no tiktok que essas panelas liberam cálcio, ferro e sei lá o que nos alimentos. E trazem um monte de benefícios. Por que não usa uma dessas?
– Eu gosto das minhas panelas. São Le Creuset.
– Essas panelas são lindas, eu amei! – Clara devolveu a panela no lugar e foi olhar outras coisas. – Olha, doce de leite de Minas Gerais!
Quem já pegou estrada no Brasil conhece o famosíssimo Graal e sabe que além de muita variedade de comida, eles vendem de tudo. Desde panelas de pedra, a carnes premium, vinhos, doces, utensílios, presentes e por aí vai. E Clarice – sem pressa alguma – estava olhando e lendo tudo que via a sua frente. Ela se distraiu tanto que nem percebeu que já estava praticamente andando sozinha pela área de compras enquanto eu conversava com um dos funcionários do local.
Por fim chegamos ao caixa carregando uma variedade de doces artesanais, vinho e queijo de Minas Gerais. Tudo que a Clarice gostou ou disse que gostava.
– Você não acha que está exagerando um pouco? – Clarice perguntou enquanto estávamos na fila do caixa. – Você não precisava pegar tudo só porque eu disse que gostava.
– É o seu aniversário e você não me disse exatamente o que queria, então estou pegando tudo.
Saímos do caixa e assim que chegamos no carro, dois funcionários da loja chegaram com o que eu havia pedido… em uma caixa um pouco maior do que eu esperava.
– O que é isso, Valquíria?! – Clarice perguntou preocupada.
– São suas panelas de pedra.
– Quer que coloque no porta-malas, dona? – Os rapazes perguntaram e eu apenas cedi o espaço.
Por sorte, coube tudo no porta-malas depois de uma pequena reorganização das malas. Como só tinha algumas panelas expostas na loja, eu não fazia ideia que o jogo completo eram tantos itens e cada um deles bem pesados.
– Por que você comprou isso?! Você está maluca?
– Você tinha gostado delas. É presente de aniversário.
– Você já me deu presente de aniversário… meu deus… isso deve ter custado uma fortuna! Quem em sã consciência compra panela no Graal?!
– Estava em conta. Saiu pela metade do preço da minha caçarola e os tamanhos me parecem bons.
– Valquíria, eu não cozinho.
– É… talvez isso seja um problema. Maaas… você pode aprender. Eu te ensino.
O resto da viagem eu dirigi enquanto ouvia reclamações indignadas de Clarice por eu ter comprado panelas no Graal. Acho que o fato de ter comprado não lhe causou tamanha revolta e sim onde eu comprei. Ao menos, eu a ouvir repetir “no Graal!” sete vezes… que eu contei.
Chegamos no Rio de Janeiro pouco depois de meio-dia. Ainda tínhamos o resto do dia para aproveitar se tivéssemos energia para isso. Clarice quem iria decidir.
– Eu não sei quem é o doido que fala que São Paulo é mais lindo que o Rio, olha só essa vista!
Assim que colocamos o pé para dentro do apartamento e Clarice viu o mar no fim do corredor, ela foi direto para a sala para ver melhor e eu a segui. De fato, a vista desse prédio era algo de tirar o fôlego. Não é por acaso que esse foi meu primeiro projeto sem paredes nas partes externas, apenas janelas e varandas.
– E a gente está bem perto da praia, né?
– Sim, uma quadra.
Clara se virou para o lado e paralisou olhando para a parede. Acompanhei o seu olhar e estávamos encarando para três quadros na parede que estavam acima do sofá e se completavam. Obviamente que foram escolhas da minha mãe e como combinavam com o mármore da mesa de jantar, eu apenas concordei.
– Quem mora aqui?
– Eu?
– Você? – Clara se ajoelhou no sofá para ver de perto os quadros.
– Quer dizer… o apartamento é meu. Mas acho que meus pais conseguem passar mais tempo por aqui que eu, por que?
– Viu só. Eu sabia… esses quadros são da minha mãe, – Clara comentou ao ler a assinatura. – E são mais velhos que eu… quanto tempo a sua mãe conhece a minha?
– Minha mãe é uma espécie de “caça talentos” das artes, provavelmente há muito tempo… se você quiser, nós podemos levar esses quadros para São Paulo?
– E estragar a decoração desse lugar? Não, nem pensar. Conhecendo a minha mãe, ela se inspirou no mar para pintar isso aqui e não teria lugar mais perfeito para eles estarem.
– Se você diz… o que você quer fazer? Descansar ou ir à praia?
– E se a gente dormir na praia?
No sol da tarde do Rio de Janeiro? Ideia de jerico. Mas eu fui obrigada a concordar, afinal, era o seu dia.
E foi por isso que, uma da tarde estava eu indo para praia de Ipanema com Clarice. Apesar de ser somente uma quadra de distância e seria muito melhor ir andando, fomos de carro para ter onde deixar nossos pertences; em outras palavras, eu não queria sair com bolsa e roupas de praia não tem bolso, mas precisava ter ao menos uma bombinha por perto. Vai que… nunca se sabe.
– Você não acha que está exagerando?
– Exagerando? Já viu o seu tom de pele? Você não foi feita para o sol. Protetor solar nunca é demais para ti.
Eu já tinha passado protetor solar em creme em Clarice antes de sairmos do prédio e agora estava retocando com spray cinco minutos depois apenas para garantir a eficácia. Ela é tão branca quanto a minha mãe e minha mãe vira uma lagosta em dois minutos. Prefiro não correr riscos.
– Posso entrar no mar? – A pergunta veio logo assim que alugamos cadeiras e guarda sol. Sequer tive chances de sentar.
– Você sabe nadar?
– Sei.
– Então não vá muito longe. Eu te amo, mas não o suficiente para entrar no mar.
– Eu já volto.
Eu amo o mar, mas detesto a praia. Prefiro mil vezes pegar uma lancha, veleiro, barquinho de pescador que seja, ir para longe onde os pés não tocam a areia e pular na água. Agora não me peça para andar até a parte mais funda, isso eu não faço nem fodendo. Tenho agonia de andar no mar. O mar serve para nadar e nadar apenas. Andar não.
E não, usar chinelo não funciona. Meu pai já tentou, eu sinto agonia do mesmo jeito.
Felizmente, Clarice não mentiu sobre saber nada ou se virar na água. Pouco tempo depois ela voltou para mim inteira, sã e salva.
– A água está bem gelada.
– É por causa da ressurgência. Chá mate com limão? – Não foi uma pergunta, eu ofereci já levando o canudo a sua boca para não lhe dar chances de negar. Hidratação é importante sob esse sol escaldante.
– Quem é que toma chá mate com limão na praia?
– É bom. Só bebe e não reclama.
Chá com limão era a melhor parte das praias do Rio.
Tudo que a Clara não comeu em mais de duas semanas no hospital, ela comeu em uma tarde na praia. Queijo coalho? Dentro. Biscoito Globo? Dentro. Toda oportunidade de tomar chá com limão? Dentro. Sorvete? Dentro. Água de coco? Dentro. Chocolate? Dentro. Milho cozido? Dentro. E ainda teve a audácia de chegar em casa e proferir as palavras:
– Estou com fome. O que a gente vai jantar?
– Você não tem fundo?
– Eu quero churrasco… e bolo! Ainda tem cupcake?
– Você já comeu todos na viagem.
– Mas eu quero mais.
Respirei fundo derrotada. – Seu bolo de aniversário está na geladeira. Vai tomar o seu banho, tirar esse sal e areia do corpo primeiro.
Eu me juntei a Clara no meio do banho para a ajudar seu cabelo de água do mar. Limpa outra vez, o cansaço lhe bateu e sobressaiu a fome. Nada de churrasco, um pedaço de bolo depois ela quis tirar um cochilo. E tirar um cochilo entende-se por “mamar seus peitos até dormir”.
E aos poucos eu me tornava apenas um par de peitos para a minha bebé… era mole?
« C L A R I C E »
Acordei sozinha na cama e não gostei. Minha fraldinha estava úmida e desconfortável, o quarto escuro e eu estava ficando com medo. Eu queria a minha maman. Queria chorar. Cadê a minha maman? Por que ela deixou eu?
– Eu estou aqui, mon bébé – a maman veio do outro ambiente do quarto e com alguma magia muito mágica as cortinas se abriram entrando luz. – Não precisa chorar, mon amour. Eu já cheguei.
Ela me abraçou e a vontade de chorar foi passando, mas o incomodo da umidade não deixava passar totalmente. Como quem poderia ler a minha mente, a maman checou a minha fralda com a mão e entendeu o que estava passando.
– Está na hora de trocar esse bebê, não é mesmo minha vida? Eu já volto.
A maman saiu para o closet e voltou com as minhas coisinhas de neném. Trocar a fralda me deixava inquieta e ansiosa. Eu queria me livrar do incomodo logo, mas era demorado e tedioso demais esperar.
– Calma, meu amor – a maman pediu, – eu tenho que passar a pomadinha para não fazer dodói. Aguenta mais um pouquinho.
A maman passou a pomadinha e jogou o talquinho antes de fechar a minha fraldinha nova. Era muito melhor quando estava limpinha e sequinha.
– Ainda temos algumas horas do seu aniversário, meu amor. O que você quer?
– O que eu quero?
Eu só conseguia pensar em uma coisa e olhar para os peitos da maman não estava me ajudando pensar direito.
– Leitinho? – Perguntei puxando a sua camisa para baixo.
– Aí não tem leite, bébé. Se quiser leite, eu posso fazer uma mamadeira para você e depois você mama. O que você acha?
– Eu não quero mamadeira! – Choraminguei. – Por que a maman não quer dar leitinho do tetê para eu?
– Não é que a maman não queira te dar, meu amor. Eu não tenho leite no tetê, é diferente… por que a gente não sai um pouco? Você disse que queria churrasco. Vamos comer churrasco.
– Churrasco?
Eu me sentia estranha saindo de casa usando fralda de baixo da minha roupa. Não tinha chances de alguém ver através do meu macacão, mas ainda assim eu estava com friozinho na barriga.
– Tô com dor de cabeça, – reclamei.
– Desde o hospital você anda reclamando de dores de cabeça quase todos os dias. Acho melhor te levar no médico.
– Eu acabei de sair do hospital, eu não preciso de médicos. Preciso de dipirona.
– Sei…
Quando a Val disse que me levaria no seu restaurante favorito no Rio de Janeiro e que era o favorito do seu pai também, eu esperava algo mais… não sei… eu já sabia que não era algo nível Margot porque estávamos saindo com roupas “casuais” para o padrão Valquíria e neurótica como é, ela nunca se vestiria assim para ir a um bistrô por exemplo. De tudo que eu poderia imaginar, um boteco nunca passou pela minha cabeça e quando paramos em um, eu fiquei em total choque.
– É esse o restaurante que você costumava ir com o seu pai?
– Sim. A comida daqui é muito boa. Eu adoro o arroz de brócolis e o galeto deles… e o pão de alho também. Ah, e a farofa de ovo também é superb.
O cheiro era realmente muito bom e o fato de estar lotado também parecia um bom sinal. Nós ficamos sentadas na bancada esperando por uma mesa enquanto comíamos linguiça e pão de alho. Era literalmente comer enquanto esperávamos para comer… simplesmente melhor aniversário da vida.
Confesso que adorei ver a versão mais descontraída da minha namorada. Ao invés de vinho, chopp. Comendo em boteco. Roupas mais casuais e de chinelo. Marca de biquini que dá vontade de acompanhar a linha até o seu decote.
Eu estava explodindo de tanto comer quando decidimos ir embora para casa e ainda só conseguia pensar na sobremesa: o meu bolo de aniversário. Nunca fui triste. Eu tive que dirigir de volta para casa por causa da condição etílica da minha mulher. Não que ela estivesse bêbada ou com sinais de embriaguez, a resistência da Val é coisa de maluco. Mas a lei seca é seca e a única pessoa que não bebeu era eu.
– Eu adorei a comida desse lugar! Vamos voltar lá?
– Oui, mon amour. Um dia nós voltamos, mas nós ainda temos tantos lugares para ir.
– Tá bom. Agora podemos comer bolo? Eu quero bolo.
Acostumada com o poder de aniversário, eu já esperava o pratão de bolo vir até mim, mas meu corpo enrijeceu quando ouvi a temida palavra.
– Não.
– É o que?! É o meu aniversário e o meu bolo.
– Seu aniversário já passou mocinha, são 0:07. Chega de doces para você.
– Mas-mas-mas… eu não comi sobremesa no jantar para comer bolo! Não é justo.
– Daqui 12h você come bolo outra vez, Clarice. Agora nós vamos nos preparar para dormir.
– Não! Eu quero bolo! – Bati o pé no chão firme e cruzei os braços brava. – Eu quero meu pedaço de bolo!
– Eu já disse não, Clarice.
A vontade de chorar foi maior que eu. Era o meu bolinho e isso não era justo. A maman era má, muito má!
– Para de chorar.
– Eu quero bolo!
– Mais tarde, agora não.
– Mas eu quero agora!
– E eu não estou nem aí para o que você quer. Você irá para cama.
– EU QUERO BOLO!
Chorar e espernear não quebrou o coração de pedra da maman. Ela só me olhou em silêncio e ignorou totalmente que eu estava com vontade de bolinho. Ela não me ama mais, é isso?
– Você tem a opção de ir para o quarto por livre espontânea pressão ou ser arrastada. O que você prefere? A segunda opção acompanha palmadas.
– Você é maldosa! Eu não gosto mais de você!
– Ah, é? Então quer dizer que você não gosta mais de mim e não vai querer mais saber do seu tetê… aliás, não serão mais seus.
– Os tetês são meus sim!
– Não vão ser nada. Agora chega de show e vamos ir dormir que eu estou cansada.
– Vão sim! Eu não quero ir dormir com você. Eu vou ficar aqui!
Val me olhou por um momento e deu ombros. – Alors, se você quer ficar sozinha aí… eu vou dormir.
Por um momento quase desisti e fui junto com ela. O apartamento era bonito durante o dia, mas de noite e sozinha… dava um medinho, né? Mas quando cheguei perto do quarto, a maman estava dentro do banheiro. O som do chuveiro era sinal de que ela estaria ocupada por tempo o suficiente.
Um pedaço de bolo não faria mal, não é mesmo?
Aproveitei que a Val estava no banho e corri para cozinha. Era impossível tirar um pedaço sem que ela soubesse que comi já que o bolo estava inteiro. Esse era o meu sinal para desistir e quando me virei, vi todos os doces que compramos mais cedo na estada.
Eu poderia não ter o meu bolo, mas iria comer todos os doces possíveis. Ninguém me impede de comer meus doces, nem a maman!
Apesar de já ter parado, de tanto chorar o meu nariz entupiu. Respirar pela boca e comer doces não era uma tarefa fácil… não para uma pessoa que já tem o dom de perder o ar facilmente. Coloquei um, dois, três casadinhos na boca de uma vez. Bala, chocolate, suspiro.
Em uma dessas, algo me desceu errado pela garganta e bloqueou a passagem de ar. Tentei tossir com força, bater no peito, mas não deu certo e com o nariz entupido não consegui respirar. Desesperada eu tentei beber água e ao invés de ajudar, pareceu piorar.
– Clarice? O que você está aprontando?
No susto de ouvir a maman eu deixei o copo cair no chão e quebrar. De repente, a Val apareceu na cozinha do roupão e bastou me olhar para vir para perto. Eu já estava vendo pontinhos pretos quando ela me deu um tapa nas costas com a mão curvada e me abraçou por trás. Eu não entendi bem o que ela fez, só sei que o que estava preso na garganta fez o caminho inverso e eu gorfei, logo em seguida comecei a tossir e recebi outros tapas nas costas que me ajudaram a respirar outra vez.
Olhei ao redor, água e cacos de vidros pelo chão, a banca toda suja com os doces, um caos… e eu… eu quase morri de verdade. Quando a ficha caiu, eu chorei muito mais que chorei há pouco tempo.
– Você está bem? Consegue respirar? – Concordei balançando a cabeça. A maman me puxou para um abraço. – Já passou. Já passou. Vamos tomar um banho.
Eu concordei e nós fomos para o banheiro nos lavar.
Sabe quando você está em tanto choque que fica inerte apenas seguindo o baile? Eu me sentia exatamente assim. Com medo da maman brigar, eu fiz tudo que ela me pediu. Tomei meu bainho bem comportada e não fiz manha para colocar a fralda.
– Desculpa… – eu pedi quando nós já estávamos na cama.
– Você conseguiu sair do seu aniversário direto para um castigo.
– Eu estou de castigo?
– Está, mas porque estamos de viagem vou prorrogar até São Paulo. Só que depois que chegarmos em casa, a bonitinha pode esquecer seus doces… agora me dá o seu tablet e o seu Nintendo. Esses dois vão ser confiscados agora.
– Não… maman!
– Faça birra e o castigo do doce começará ainda hoje.
Fiz bico, mas aceitei a minha derrota.
Peguei o tablet e o Nintendo na mochila e entreguei na mão da maman. Ela deu sumiço neles em um lugar que eu não fazia ideia de onde seria. Como minha seita no Cult of the Lamb iria sobreviver sem mim? A maman não tem compaixão?!
– Agora vamos dormir, mocinha. Já tivemos emoções demais por hoje.
A maman se juntou a mim na cama e a mandou a Alexa apagar as luzes. Eu fiquei quietinha, mas o sono não me veio. Não era que a cama era ruim ou algo do tipo, pelo contrário, era tão confortável como a cama da maman em São Paulo, mas…, mas…, mas…
– Maman?
– Oui, Clarice.
Hesitei um pouco em continuar, mas respirei fundo e tomei coragem. – Eu posso… tetezinho?
Esperei levar um xingo e a maman só me puxou para mais perto e ofereceu o peito para mim. Ainda bem que o castigo não incluía o meu tetê!
– Boa noite, mon bébé.
– Boa noite, maman – respondi sem tirar meu tetê da boca.
Apesar de acabar de uma forma bem estranhar, até que meu aniversário não foi tão ruim assim. Se bem que, nada com o meu amorzinho é ruim… talvez estivesse um pouquinho – mas só um pouquinho, – empolgada para o meu próximo aniversário no ano que vem. Agora que eu sei dos poderes de aniversário, eu preciso me preparar para usá-los com mais sabedoria.
– Maman?
– … oui, Clarice.
– Ano que vem eu já sei o que quero fazer no meu aniversário.
– O que?
– Pular de paraquedas.
…
– Volta a mamar, vai.
«-»
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Au revoir!
