Elora Aneva

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22. La Volonté Divine

« V A L K Y R I E »

O relógio marcava mais de dez da noite e nenhum sinal de Clarice.

Tudo bem, ela disse que viria apenas tarde da noite, mas seu silêncio me incomodava. Fazia quase quatro horas que ela não me respondia e sinceramente, eu já não me recordava a última vez que passamos tanto tempo sem nos falar que nós não estávamos dormindo. Uma mensagem rápida não faria mal, até uma figurinha de gatinho seria o suficiente para mim.

Talvez a comemoração estivesse muito boa e ela só estava entretida demais para se lembrar de pegar o celular e me responder.

Eu queria ficar em paz e apenas esperar, mas desde hoje cedo me sentia aflita e agoniada. Clarice disse e repetiu que estava tudo bem e eu queria muito acreditar, no entanto, como acreditar nisso depois de todo o seu comportamento desde que voltamos do jantar foi estranho.

Clarice nunca recusou os meus abraços enquanto dormíamos e essa última noite quase não dormi acordando com seus movimentos tentando me afastar dela. A vi chorar duas vezes sem entender exatamente o que acontecia e ela não quis falar. E eu estou com uma sensação tão desagradável que me acompanha desde hoje cedo, como se Clarice estivesse escapando de entre os meus dedos. Ela me contaria caso algo estivesse errado ou se alguma coisa no jantar a incomodou, contaria?   

Tentei me distrair dessa preocupação e angustia sem sentido trabalhando. Antes de conhecer a Clara, era normal eu trabalhar fora do trabalho apenas para passar o tempo. Isso quando já não ficava por lá mesmo. É estranho pensar que em tão pouco tempo ela conseguiu mudar algo que acreditava ser parte de mim.

– Eu não acredito que a senhora está trabalhando numa sexta-feira a noite. Por favor, Valquíria. Melhore. Cadê a nossa Clarinha?

Bruno apareceu de repente no meu escritório. Ele tinha total acesso ao meu apartamento, assim como eu tinha do dele. Vivemos praticamente num regime de comunhão total de bens, mas certamente essa comunhão não inclui a minha Clara.

– A minha Clara está com a família. É aniversário da tia.

– E você não foi?

– Eles não sabem da sexualidade dela. É melhor deixar para um futuro mais distante quando estivermos com as bases bem sólidas. Eu não preciso de mais tensão em nosso relacionamento.

Bruno se sentou. – Que pena. Eu pensei que chegaria aqui e encontraria um sexo lésbico selvagem.

– Continue assim que eu vou mudar a senha da tranca.

– O que vocês usam? Algemas? Chicotes? Corda? Plug? Dildo? – Encarei Bruno séria. – Se bem que a Clara passa uma vibe meio little… eu daria um rim para presenciar você sendo mommy.

– A Clara já disse que não é uma little. E eu não sou uma mommy, você sabe muito bem disso.

– Mas é a obrigação dos Doms atender as necessidades dos seus submissos. Então se a Clara precisar de uma mommy é o que você vai ser.

O observei suspeita. Bruno é cheio de jogar suas sementinhas na cabeça das pessoas apenas para ver o caos. O irônico é que ele poderia literalmente colocar sementinha nas cabeças das pessoas se quisesse e fosse antiético ou louco o suficiente para tal.

– Por que está com essa conversa?

– Eu encontrei com a Ka e a Maris esses dias e percebi que, quando a Maris está em seu bom humor, ela parece bastante com a Clara. Aí eu pensei, “será?” e se for, como seria você no papel da Ka.

Dei um leve sorriso desesperado.

A Maris é uma verdadeira brat. Totalmente caótica e terrorista… a Karina passa uns bons sufocos com ela e precisa de uma mão bem firme para a manter no eixo. É questão de segundos para ela sair de “paz e tranquilidade” para “caos e destruição”.

Eu lembro até hoje a chegada das duas no Apex. A Karina estava desesperada para encontrar ajuda e a Maris estava em seu processo de descoberta, algo assim. No entanto, o que foi um choque para mim foi o fato de que, Maristela e eu nos conhecíamos de longa data. Ela é filha de um casal muito influente no Brasil, um certo desembargador e uma deputada amigos da minha mãe. Em outras palavras, ela sempre foi muito, muito, muito, muito mimada, mas eu nunca na minha vida imaginei que a encontraria em um ambiente como aquele… menos ainda que a veria levando uma punição na frente de todos por ter ultrapassado todos os limites possíveis sendo que seus próprios pais eram totalmente permissos com ela.

A Karina é uma santa, eu não teria metade da paciência dela. E céus, se a Clarice fosse 1/3 caótica como a Maris, a minha vida seria um verdadeiro inferno. Felizmente, eu sei que a Clara não teria sequer coragem de tamanha ousadia. Parte do comportamento da Maris existe por causa da certeza que absolutamente nada irá a atingir. Se os caminhos são fáceis para mim, imagine para alguém que tem a família inteira envolvida com política? O que eu tenho em capital, ela tem em poder e influência.

– Para o seu azar e total desinteresse, caro amigo, eu não tenho esse tipo de relacionamento com a Clarice. Nós somos um casal normal e “baunilha”.

– Aí que sem graça, – ele fez uma careta. – Eu nunca irie perdoar o traste por ter tirado o seu lado domme de entre nós. Você servia looks.

– Eu posso te emprestar se quiser.

Ele revirou. – Até que horas vai trabalhar? Eu quero sair um pouco.

– Bem, eu iria esperar a Clarice, mas ela não me responde desde que chegou em casa.

– Provavelmente deve estar curtindo o aniversário.

– Eu não sei, eu estou preocupada. Estou com uma sensação muito desagradável. Ela está muito estranha desde que voltamos do jantar. E se ela estiver me deixando em silêncio?

– Ela não me parece ser uma babaca que dá ghosting e some sem falar nada. E também não é como se você precisasse se preocupar com isso dessa vez, ela literalmente trabalha com você. É impossível te evitar. E convenhamos, as pessoas te davam ghosting por ser autista e bem, isso ela já sabe.

Bruno tinha razão. Essa era eu projetando inseguranças do passado no presente sem motivos. Melhor a fazer é sair e distrair.

– O que você quer fazer?

– Aí finalmente, – Bruno se levantou. – Só se arruma e vamos decidir no caminho.

Num passado distante, quando Bruno e eu saíamos assim sem rumos acabávamos em festas, baladas ou em outro estado. Mas agora somos velhos e fomos a um restaurante mesmo, que provavelmente não seria um lugar que Clarice gostaria de ir embora a comida fosse muito boa.

Era quase uma e meia da madrugada quando decidimos sair, seja para casa ou outro lugar. Pensei que essa altura teria recebido ao menos um “boa noite” de Clarice e nem isso. Ela sequer visualizava as minhas mensagens.

– Ela não atendeu? – Bruno perguntou ao voltar do banheiro. Essa era a quarta ou quinta tentativa falha de falar com a Clara durante o nosso jantar.

– Não. Cai direto na caixa de mensagem.

– Estranho. Será que ela dormiu?

– Se for isso eu vou matar essa garota.

Bruno me lançou um olhar e eu recebi e ignorei sua mensagem em silêncio. Chega a ser patético eu querer resolver tudo com diálogo sem regras e punições, mas essa sou eu agora. Lidem com isso.

Do restaurante fomos a um bar que costumava a tocar músicas que gostamos, em outras palavras, Beyoncé e afins. Eu já tinha me conformado com o fato que iria passar a noite sozinha e só encontrar meu amor de tarde no Apex como tínhamos combinado antes, então a última coisa que queria era ir para cama sóbria.

Eu não lembro exatamente que horas o motorista da minha mãe veio nos buscar, mas era tarde e já estávamos somente o pó da rabiola. Confesso que depois de tomar banho e me deitar, ainda liguei para a Clara. Era muito tarde e ela com certeza estava dormindo, mas uma bêbada com saudades não tem limites e juízo. Sorte a dela que eu não fui até a sua casa.

Hora mais tarde, eu acordei totalmente destruída e embora meu corpo pedia para voltar a dormir, meu coração me fez levantar e ir direto para o banho. Se Clarice ao menos tivesse respondido uma das minhas mensagens eu teria me aquietado um pouco, mas essa garota tirou o dia para me enlouquecer e agora terá que lidar comigo ainda mais cedo no Apex.

Cheguei um pouco depois da abertura bar e restaurante da piscina onde Clara costuma trabalhar. Ainda estava tranquilo com pouquíssimas pessoas. O club raramente está muito movimentado para esses lados.

– Valquíria, que bom que você chegou! – Ana Marta me recebeu parecendo estar aliviada em me ver. – Eu já estava preocupada pensando que não teria barista para o evento dessa tarde. Cadê a Clarinha? Nós estamos esperando por ela.

– Ela já não está aqui!?

– Não, ela ainda não chegou. Está há pelo menos três horas atrasada.

Okay… definitivamente tem algo de errado acontecendo.

« C L A R I C E »

Eu tinha perdido totalmente a noção do tempo desde que me trancaram no quarto. Dormi de exaustão de tanto chorar e acordei em algum momento da madrugada com a minha tia dentro do quarto “orando” em cima de mim. Desde então continuei com os olhos bem abertos e fixos na porta.

Se não bastasse entrar no meu quarto durante a noite, minha tia teve a audácia de me deixar sobre a mesa um prato com pão e suco de uva. Eu sabia muito bem o que significava e não estava afim de fazer parte do seu ritual religioso. Optei pela fome e assim iria continuar. Nem mesmo a água eu toquei.

Em algum momento pela manhã, minha tia entrou no quarto mais uma vez. O genitor ficou parado na porta como quem estivesse de guarda caso eu tentasse fugir. Eles realmente estavam me mantendo como prisioneira e não percebiam o absurdo.

– Você ainda não comeu o seu pão, – a olhei, mas não respondi. Eu me recusava a falar com qualquer um deles. – Está consagrado, minha filha. Irá fazer bem para o seu corpo e a sua alma.

Tia Lúcia me olhou esperando que fosse responder algo, mas ao perceber que não iria dizer nada, suspirou.

– Você precisa colaborar, Clarice. É para o seu bem. Esse mal tem cura e nós vamos te curar. O pastor Cícero virá amanhã para fazer uma oração em você, – ela se sentou na beirada da cama e eu fiquei com ódio. Seu toque em minha pele queimava e causava nojo e repulsa. Fique longe de mim, eu quis gritar, mas me contive. – Tome isso, – ela me ofereceu um remédio. – Irá te deixar mais calma, – encarei a pílula em sua mão e a ela. – Pode tomar.

– Quanta hipocrisia você me oferecendo remédio…

Tia Lúcia fechou a cara. – Pelo visto o maligno ainda está agindo em você.

– Nem tudo é o “maligno”, tia. Às vezes é só a verdade mesmo. Eu não vou tomar o seu remédio. Eu não sei o que é isso e eu não confio em você para tomar. Não insista.

– Se prefere assim, tudo bem – ela se levantou. – Venha. Se levante.

– Levantar para que?

– Você não quer tomar um banho?

Confesso que criei uma pontinha de esperança ao ouvir a oferta. Esse era o meu momento para sair correndo e fugir.

– Não se empolgue. Você não vai a lugar algum antes do pastor Cícero vir. Eu vou estar com você.

Tia Lúcia não mentiu quando disse que estaria comigo.

Ela não só entrou no banheiro. Como também me forçou a tomar banho gelado como punição a má resposta de mais cedo. Meu ódio subiu toda vez em que ela usava a maldita mangueirinha para me jogar água como se fosse presidiária ou incapaz. Eu odeio essa mulher. Odeio!

– Senta aqui, – ela mandou firme. – Eu vou pentear esse seu cabelo.

– Não precisa.

– Eu não perguntei. Venha logo antes que eu te puxe pelos cabelos!

Obedeci porque sabia que sua ameaça era sincera. Tia Lúcia e o genitor eram muito parecidos. A diferença era que ela tinha uma máscara de santa e conseguia enganar a vizinhança como se fosse uma boa pessoa, mas não é.

– O pastor Cícero virá manhã depois do culto da manhã orar em você e tirar esse mal, – ela disse penteando o meu cabelo. – Nós vamos te curar.

– Eu não tenho mal algum e não quero oração. Eu não tenho absolutamente nada para ser curada. Eu nasci e vou morrer lésbica você querendo ou não!

Furiosa, tia Lúcia acertou com a escova em minha cabeça. – Está repreendido no sangue do cordeiro! Você não é isso! Você está fora de si.

Eu não tive coragem de responder. O medo de levar outro golpe falou mais alto. Tia Lúcia estava quase arrancando meus cabelos com a força desnecessária que aplicava ao pentear. Não sei até onde a sua perversidade poderia chegar e não queria arriscar.

Como alguém que era tão boa para os outros, conseguia ser tão cruel com a própria família? Eu nunca, em momento algum, fiz algo para ela. Eu e todos os meus primos sempre tivemos medo dela, nunca tivemos coragem de desobedecer às suas ordens e acredito que o resto da família a vê como a matriarca que decide tudo.

Então não, eu não espero que alguém vá fazer algo para me ajudar. Todos têm medo de retaliar a Lúcia e suas vontades.

Sozinha outra vez, eu voltei a chorar. De onde surgiram mais lágrimas? Eu não sabia responder. Em minha mente a voz da Val se repetia em loop. Quanto tempo até ela descobrir onde estou? Será que ela vem me buscar? Será que ela vai se importar? Eu estou com tanto medo. Eu só queria seu colo e abraço.

Vem logo! Eu não aguento mais.

« N A R R A D O R »

O silêncio pairava sobre o ar. Somente Lúcia tinha coragem de falar algo e agia como se nada estivesse acontecendo. Sua naturalidade era um dos fatores para deixar a todos que estavam à mesa sem saber como reagir. Nem mesmo Luís, o seu irmão, se sentia confortável com toda a situação. Ele queria sim trancar Clarice, pegar o dinheiro que agora sabia que a sua… “filha” tinha acesso, mas Lúcia ultrapassou todos os limites.

“Cura gay”? Ela realmente acreditava em tamanho absurdo? A verdade que Luís não era nada religioso e pouco se importava com o que o pastor falava na igreja, mas precisava seguir as regras da casa ou a matriarca iria encher a sua paciência. Ao menos se dizendo arrependido e mudado por Jesus, ele conseguia se safar de muitos dos erros que cometia.

– Está boa a comida? – Lúcia perguntou.

Larissa e Luís trocaram um olhar como se através dele pudesse decidir quem responderia.

– A salada de batata está uma delícia, Lúcia – Luís respondeu. – Muito bom.

– Come mais um pouco, – Lúcia respondeu já servindo no prato de Luís. – Quer também, minha filha?

Não era a primeira vez que Larissa se sentia incomodada ao ouvir sua própria mãe a chamar de “filha”, mas o que sentia agora era além do desconforto. Seu sentimento era de repulsa, nojo e revolta. A imagem que tinha da mulher a sua frente era de um monstro. Um monstro criminoso.

– Hoje a noite vai ter culto de jovens da igreja, – Lúcia disse a Larissa. – A pastora Sônia vai fazer uma homenagem a filha da Dalva que faleceu. Você deveria ir. Vocês eram amigas, lembra?

“Nós não éramos amigas…” Larissa pensou.

O envolvimento das duas no passado não durou muito. Elas eram muito jovens, ainda estavam no início do ensino médio quando perceberam que havia algo diferente entre elas. Ficaram juntas três, quatro vezes quando Rebeca de repente surtou e disse que o que faziam era errado e pecado, que deus não orgulhava do que faziam e as duas iriam para o inferno.

Depois disso elas tentaram continuar a amizade, mas Rebeca condenava a decisão de Larissa de “continuar sendo lésbica” e tentava a salvar do inferno a todo custo. Aos poucos elas foram se distanciando até se tornarem totalmente desconhecidas. Apesar dos pesares, Larissa nunca teve ressentimentos pela até então amiga que tinha um forte crush. Ela entendia que algumas pessoas viviam com o medo do inferno e a punição divina e por essa razão se privavam daquilo que as fazem felizes e vivem uma mentira.

Ela sentia dó e pena que tenha acabado assim.

Rebeca não tinha apenas falecido. Ela tinha sido torturada psicologicamente até o seu limite até que não aguentou mais e fez o que fez. Essa era a tal “cura gay” que Lúcia tanto tinha orgulho de citar. Rebeca tanto curada foi que, as vésperas do que seria seu casamento perfeito, optou em dar o fim a si mesma deixando muitos questionários. Os membros de sua igreja nunca se conformaram, vez ou outra discutiam tentando entender e as poucas vezes que Larissa presenciou a conversa, nunca ouviu alguém cogitar que talvez, os vários anos de tortura, fosse o real motivo.

E era pensando no caso de Rebeca que Larissa temia por sua prima.

Denunciar para a polícia não surtiu efeito. O atendente achou que fosse brincadeira, que não passava de uma adolescente rebelde sendo repreendida pelos pais e não deu ouvidos. O celular de Clarice havia virado pó depois de tantas marteladas para “se livrar do mal”. E nas redes sociais, Valkyrie Touchon ainda não a aceitou no LinkedIn para enviar uma mensagem, Glória não aceitou sua solicitação no Instagram e o Theo estava em uma viagem em uma área remota sem sinal e sequer recebia suas mensagens.

Agora era tarde para lamentar a ausência de contatos de emergência. Larissa tinha um plano em mente e iria o colocar em prática, com ou sem ajuda. Mas para isso precisava engolir sua revolta e agir com frieza.

O telefone fixo da casa tocou atraindo atenção de todos. Lúcia rapidamente se colocou de pé para atender, impedindo até que Larissa fosse na frente. Não era comum receber ligações e normalmente quando tocava notícia boa não era. No entanto, ela tinha esperanças e expectativa de que aquela ligação repentina fosse um bom sinal. Tinha que ser…

– Alô? – Lúcia atendeu. – Quem? Dá onde? Ah entendi… Clarice não está em casa agora não… – Larissa sentiu uma gota de esperança crescer dentro de si. – Também não sei que horas ela volta. É… mas a gente está almoçando agora, momento da família. Não é hora para ficar ligando não, viu? Até mais – Lúcia desligou a chamada, deletou o número do histórico e voltou para o seu lugar nada contente. – Satanás é ardiloso mesmo. Você tira o celular da menina para afastar desse mal e eles ligam para a sua casa. Mas eu não vou deixar! Não vou mesmo.

Embora Larissa não tivesse atendido a ligação, ela tinha certeza que aquela só poderia ser a atual namorada de sua prima. Lamentou internamente por não ter tido oportunidade de atender e falar com ela diretamente, mas saber que Valquíria notou o “desaparecimento” de sua prima e estava a procurando a deixava contente. Lúcia poderia até tentar fazer as coisas do seu jeito, mas era questão de tempo até que tivesse seus planos interrompidos pelas pessoas que realmente amavam a Clara e não aceitariam seu sumiço tão facilmente.

Após o almoço, Lúcia estava na cozinha preparando uma bandeja para servir comida a Clara. Larissa quis se aproximar e se oferecer para fazer o trabalho, mas sua mãe a impediu de sequer chegar perto.

– Eu posso levar, – Larissa se ofereceu.  

– Não. Aquela não é a sua prima, minha filha. O demônio está no corpo dela. Fique longe para que não entre em você! Eu não quero que o mal chegue em você também.

Larissa contou até três mentalmente para se controlar. – Eu entendo que esteja preocupada, mãe. Mas eu sou praticamente a irmã mais velha da Clara, ela sempre me ouviu. Tenho certeza que dessa vez irá me ouvir também. Talvez eu até consiga a convencer a ir no culto de jovens essa noite.

Lúcia olhou para a sua filha surpresa e orgulhosa. Em sua cabeça, a sua menina ainda era uma devota de Cristo. Mal sabia ela que não passava de uma faixada. Que as orações e estudo bíblico na casa de suas amigas tinham outro significado, mas isso… isso é assunto para outra história.

– Ela vai me ouvir. Confia em mim.

– Acho que você tem razão, – Lúcia concordou. – Mas antes vamos orar, espera na sala.

A princípio Larissa não entendeu o pedido. Ela estava prestes a dar as costas quando notou um frasco muito suspeito próximo a bandeja do almoço de Clara. Logo entendeu o que sua mãe estava tentando esconder. Lúcia claramente estava tentando drogar sua prima.

O plano era arriscado, mas era a única opção.

Larissa fingiu orar com a mãe e então as duas foram juntas para a casa de cima onde Clarice morava. O coração acelerado e as mãos trêmulas, a jovem arquiteta levava consigo uma carta entre a bandeja e seus dedos. Ainda não sabia como entregaria sob o olhar atento de sua mãe, mas tinha certeza que se fossem pegas, seria o fim das duas.

– Eu vou esperar aqui, – Lúcia anunciou ao destrancar a porta. – Para caso ela queira tentar fugir.

– Ok.

Foi a única coisa que Larissa conseguiu dizer para não chamar a própria a mãe de doente e maluca.

Clarice ao ver sua prima entrar arregalou os olhos surpresa e esperançosa. Com os olhos fundos e inchados, a loira estava ainda mais pálida que o normal. Suas olheiras denunciavam a noite em claro. Se Larissa não soubesse que até ontem sua prima estava solta, iria jurar que estava há muito tempo nesse cativeiro.

Não havia muito espaço para conversa com Lúcia observando tudo da porta. A mulher temia que o “mal” agisse no corpo da sobrinha para atacar sua filha e por essa razão achou conveniente estar em vigília durante essa interação.

– Eu trouxe a sua comida, – Larissa sentou na cama de frente para Clara. – Você precisa comer, – ao mesmo tempo que dizia isso, a morena balançava o dedo freneticamente fazendo um sinal negativo de modo que Lúcia não poderia ver. – Vai te fazer bem.

– Eu não estou com fome, – Clarice respondeu confusa e sua prima sorriu, lhe dando um breve sinal positivo.

– Bem, eu vou deixar aqui caso você mude de ideia – ela deixou a bandeja sobre a escrivaninha de Clara e voltou a se sentar. – Eu sei que você está chateada com toda essa situação, mas é passageiro. Logo você estará bem e sã outra vez… mas para isso precisa colaborar.

Por um momento Clarice a encarou confusa sentindo o desespero crescer dentro de si. Será que sua prima havia enlouquecido de vez?

– Ouça, – Larissa pegou a mão de sua prima entre as suas. – Eu quero te ajudar. Você é a minha irmã do coração e eu te amo demais para te ver assim, – Clarice sentiu o papel tocar contra a sua pele e suas dúvidas foram sanadas. – Esse não é o caminho que deus escolheu para você. E eu tenho certeza que todo mundo que te ama pensa assim também. Nós só queremos te ajudar e te dar um novo rumo. Uma nova chance.

– Eu não estou doente, – Clarice entrou na encenação.

– É o que você acha e está tudo bem. Vamos no culto essa noite. Eu tenho certeza que Jesus irá te livrar desse mal, mas você precisa ir comigo.

– Eu não quero ir a culto nenhum!

– Clarice, não seja assim. Há quantos anos não pisa na igreja? Vem comigo. Eu vou te ajudar, – Larissa olhou para a sua mãe e deu um breve sorriso muito forçado. – Nós vamos te ajudar, – ela voltou o olhar para sua prima. – Nós, a sua família… sua verdadeira família, vamos te ajudar a sair dessa. Você confia em mim?

– Confio.

– Então vamos no culto essa noite, – ela disse em um falso entonação empolgada. – Eu vou te emprestar uma roupa bem bonita. Vai ser legal. Você lembra como era o culto de jovem. Você não gostava?

– Sim, era legal…

– Então, vamos essa noite. Seus velhos amigos estão com saudades. Vamos pedir a pastora para fazer uma oração e você vai ver o agir de deus em sua vida, – Larissa revirou os olhos. – Posso te dar um abraço?

Lúcia observou tudo orgulhosa. Ela sabia que sua filha era um talento nato para Cristo, mas não esperava que fosse fluir tão naturalmente. Sua cegueira religiosa era sua principal inimiga e não lhe permitiu enxergar os riscos dessa ida ao culto. Para ela, ir a “sagrada casa de deus” faria bem a sua sobrinha.

Sozinha no quarto mais uma vez, Clarice leu a carta ansiosa e cheia de expectativas.

“Na primeira oportunidade no culto, fuja para o mais longe que puder. Na minha mochila está o seu cartão de transporte, seus documentos, carteira com um dinheiro extra e um casaco e uma máscara.

Eu não consegui o contato da V, mas ela estava ligando procurando por você. Quando chegar lá, me liga ou manda um e-mail. Eu também vou fugir.

Não coma a comida! Está drogada!

Clarice estava faminta e a comida da vez era um dos seus pratos favoritos. Arroz, frango empanado e purê de batata, também tinha refrigerante e um docinho. Tudo para que ela não resistisse a tentação de comer.

Porém, ao invés de comer, ela jogou parte da comida fora na lixeira ao lado da sua escrivaninha e jogou pela janela. O vizinho que lute com isso depois.

Horas mais tarde estava na hora de se arrumar para o tal culto. Tomar banho sendo vigiada era de longe uma das piores experiencias que Clarice estava tendo. Ainda não sabia se odiava o olhar ou a mangueira de água gelada totalmente desnecessária, apenas cruel e perversa.

No carro a caminho da igreja, Clara permaneceu em silêncio sentindo a tensão sobre seus ombros. Nesse momento, tudo que ela mais queria era lembrar do número de Val. Seria tão mais fácil fugir com ela. Pensando bem, ela sequer teria que fugir. A francesa jamais abaixaria a cabeça para Lúcia e bem provável que se sua tia tentasse algo, iria acabar levando uma boa surra. Imaginar a cena fez com que Clara desse uma risada tímida e contida.

Agora mais do que nunca, queria que sua imaginação tornasse realidade.

A igreja estava bem cheia naquela noite e Clarice não sabia se isso era bom ou ruim. Ao menos sabia que isso não intimidava a sua tia que apertava seu pulso com tanta força que sabia que ficaria alguma marca depois.

– Nossa, eu estou com uma dor no ombro – Larissa comentou. – Acho que dormi de mal jeito noite passada.

Clarice percebeu a deixa e rapidamente agiu. – Quer que eu carregue a sua mochila?

– Por favor, – ela entregou a bolsa para a mais nova. – Mãe, você viu a Julia? Eu trouxe as roupas e a vasilha dela para devolver, mas eu nem vi um sinal dela até agora.

– Não deve ter chegado ainda. Vamos entrar?

– Olha a pastora ali, vamos dar um oi.

Era comum os membros da congregação esperarem o início do culto cumprimentando uns aos outros. Normalmente os cumprimentos eram regados de abraços e uma conversa rápida. Era a ocasião perfeita para uma breve, mas suficiente, distração de Lúcia.

– Pastora Sônia, veja só quem veio hoje – Larissa disse empolgada.

– Clarice! Quanto tempo!

A pastora abraçou Clarice que retribuiu a contragosto forçando Lúcia a soltar.

– Que bom que você veio! E você menina, vem cá. Dá um abraço – ela disse puxando Larissa.

Lúcia foi a última a receber o abraço, nesse exato momento Larissa pegou uma pessoa aleatória que passava ao seu lado para cumprimentar. Clarice não pensou duas vezes e deu passos para trás se misturando na multidão. Pela primeira vez se via comemorando o fato de ser baixinha e assim desaparecer facilmente entre as pessoas.

– Ué, cadê a Clarice? – A pastora perguntou dando risadas.

– Clarice? – Lúcia olhou para trás desesperada. – Onde essa menina se meteu? Larissa!

Fingindo não perceber o que aconteceu, a morena se virou para sua mãe. – Mãe, lembra do Gustavo? Olha só como ele cresceu! Faz tempo que não o via aqui – Ela puxou o rapaz para a conversa e praticamente o jogou para cima de Lúcia para a abraçar.

– Larissa, para onde foi a sua prima?

Ela fez uma careta confusa. – Ela estava aqui agora. Ela está com a minha bíblia.

– Vai ver ela só foi ao banheiro, – Sônia olhou o relógio em seu pulso. – Está quase na hora, vamos entrando?

Lúcia ficou tensa. – Eu vou… eu vou ver se Clarice foi para o banheiro.

– Eu te espero lá dentro.

A mulher caminhou direto para a saída e olhou ao redor para ver se conseguia encontrar a sobrinha. Para a sua sorte e azar, ela encontrou Clarice: longe, entrando em um ônibus aleatório.

– Clarice! Volta aqui!

Em outros tempos, Clarice a obedeceria. Dessa vez, porém, ela apenas sorriu e mostrou o dedo do meio antes de dar o último passo para dentro do ônibus.

Lúcia tentou correr, mas as portas se fecharam muito antes que pudesse se aproximar. Furiosa, ela deixou passar. Clarice havia escolhido o caminho mais difícil, mas deus era fiel e a traria de volta. Seja pelo amor… ou pela dor.

O que Lúcia não se lembrava era que a fidelidade de deus não era sobre suas próprias vontades… e bem, ele estava ocupado demais para se importar.

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