Elora Aneva

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21. Il sait aussi

« C L A R I C E »

A impressão que eu tinha era que Valquíria estava ainda mais nervosa que eu quando estávamos a caminho da casa dos pais dela. Ela estava tão tensa que sequer pôde dirigir e me pediu para que eu assumisse o volante.

– Por que está tão preocupada? Acha que sua mãe irá implicar com o fato de eu ser uma mulher?

– Não, não acho. Com os meus pais eu sei lidar, eles não serão problema para nós. Eu estou com medo de você não se dar bem com eles.

– Eu gostei do seu pai.

– Não é com ele que estou preocupada.

Peguei a mão de Val e trouxe para perto da minha boca para dar um beijo. – Vai ficar tudo bem, não se preocupe. Eu não sou fácil de assustar, não se iluda com o meu tamanho, – ela sorriu para mim e eu sorri de volta. – Eu amo você.

– Eu também.

A casa dos pais da Val ficava dentro de um condomínio fechado com tantos seguranças quanto o condomínio dela. Não era muito diferente do que eu já esperava, a essa altura eu já estava conformada que a Val era classe média alta ou rica, rica. Ao menos, eu sei que o salário dela – e todos os outros arquitetos – era algo surreal e difícil de acreditar, o Theo me falou que eles recebiam comissão por projeto e bem… os projetos dela não são nada baratos, logo, a comissão também não era. Depois disso tudo passou a fazer sentido na minha cabeça; todo mundo queria trabalhar com ela pela comissão.

– É essa casa da esquina, – ela apontou para o imóvel. – A mãe do Bruno mora aqui. Nós éramos vizinhos.

– Vocês ainda são.

Estacionei o carro. Val pegou a minha mão outra vez e me olhou nos olhos. – Se você quiser ir embora, é só dizer… coentro.

– Coentro?

– Eu não gosto de coentro.

– Eu também não.

– Parfait! Se quiser ir embora já sabe o que dizer…

– Por que você tem tanto medo que eu queira ir embora?

– Porque você não é como os outros.

Eu não entendi absolutamente nada, mas para Valquíria sua resposta fez sentido. Bem, eu não questionei e nem tive tempo. Fernando logo apareceu na porta da casa e fomos obrigadas a sair do carro.

Nós nos vimos apenas uma vez e ele me deu um abraço tão longo e apertado quanto o abraço que deu na Val antes de mim. Um gesto simples, mas que me fez senti acolhida e isso era bom.

– Vem, vamos entrar. A sua mãe está lá dentro.

Val segurou a minha mão e nós entramos juntas. A casa dos seus pais tinha uma decoração bastante aconchegante, não tinha nada daquela aparência de clínica médica ou shopping que muitas casas de rico – ou quem se acha rico – tem. Era elegante, agradável e tinha elementos que dava um ar “brasileiro” com texturas de madeira e vegetação natural… tem cara de algo que a Valquíria faria.

Eu estava distraída observando a decoração quando Val me chamou.

– Clarice, essa é a minha mãe que você já conhece… Margot.

Meu queixo só não caiu porque estava preso em meu rosto.

Como eu não percebi isso antes? Isso explica o fato das duas andarem sempre juntas e a Val sempre acatar o que ela diz.

– Sabe, eu estava me perguntando quando as duas iriam me contar – Margot comentou vindo me abraçar. – Eu sempre soube que tinha algo acontecendo entre vocês. Se estão tentando esconder, acho melhor mudarem a tática. Seja bem-vinda, chérie.

Eu estava em repleto choque. Não só descobri que a Margot era a minha sogra como ela também já sabia de nós esse tempo todo. Mas a parte mais chocante foi descobrir que ela era um doce de pessoa no sigilo.

– O Fernando comentou que você gostava de estrogonofe, espero que ele esteja certo – ela comentou assim que o marido serviu a mesa. – O nosso chef preparou com muito carinho.

– Ele não está aí? – Val perguntou.

– Dispensamos todos para a ocasião de hoje, – ela respondeu. – Seu pai e eu queríamos um jantar mais íntimo e reservado para receber a Clara. Aliás, Clarice, você se importa se eu te chamar assim?

– Nem um pouco. É o meu segundo nome.

E honestamente, também não era como se a Val ou a Margot conseguissem falar o meu nome corretamente, mas era fofo e eu não me incomodava.

A comida estava uma delícia. Eu comi meu primeiro prato feliz e estava louca para comer mais, mas fiquei com vergonha. Minha sorte era que meu sogro tinha espirito de mineiro e assim que viu meu prato vazio já quis me servir outra vez, só não o fez porque a Val o impediu.

– Deixa que eu faço isso, pai – Val tomou a colher do arroz da mão dele. – Você não tem limites e Clara não tem controle. Depois de domingo eu não acho boa ideia deixar comida na mão dos dois.

– Eu sabia que você estava tranquilo demais para quem estava seguindo as recomendações do médico, – Margot balançou a cabeça em negação. – Sabia que estava aprontando.

– A vida é para se viver, não se privar.

– Não se vive a vida morto, – Val rebateu.

– E adianta falar?

Eu me contive para não rir da dinâmica dos três.

Depois de me servir mais comida, Val me deu um beijo no meu cabelo próximo a minha orelha e sussurrou só para que eu ouvisse. – Ainda teremos a sobremesa, não vá se empanturrar.

Em resposta, eu sorri para ela. Esse seria o meu último prato de estrogonofe e depois iria esperar pela sobremesa.

Em aparência era realmente difícil perceber de primeira que Margot e a Val são mãe e filha. Margot era loira de olhos claros e estatura mediana e a Val morena dos olhos castanhos mel e alta. No entanto, a postura das duas era idêntica e confesso que passei a noite observando completamente fascinada em como elas tinham os mesmos jeitos e trejeitos, às vezes até sincronizados.

Por fim, observando os três dava para ver como a minha namorada era a mistura perfeita e exata dos dois. E convenhamos que o trabalho que meus sogros fizeram foi impecável. A minha mulher era linda demais. Eu nunca vou me acostumar,

A sobremesa conseguiu ser melhor que o jantar. Tinha torta de chocolate, sorvete e banoffe. Eu nunca tinha comido banoffe antes e achei demais! Ainda ganhei dois pedaços bem grande que a Margot me deu.

– Eu não sabia que gostava tanto de banoffe, – Val comentou com um sorriso nos lábios. – Deveria ter comentado antes.

Eu me virei para responder e fui surpreendida com um guardanapo de pano vindo em minha direção. Senti minhas bochechas e orelhas queimarem de vergonha por ser tratada assim na frente dos meus sogros. Ainda bem que os dois estavam distraídos demais numa conversa entre eles.

Depois do jantar fomos para sala beber vinho de sobremesa e conversar.

– Você não bebe nem vinho de sobremesa? – Fernando perguntou curioso.

– Eu ainda vou dirigir essa noite, – recusei. – Alguém precisa estar totalmente sóbria para nos levar para casa.

Val que estava bebendo do seu vinho parou o que fazia ao perceber os olhares sobre ela. – Vejam só, eu realmente escolhi a pessoa certa.

– Sendo assim, não vou insistir. Quer um milkshake? Eu sei fazer um de banana com Nutella muito bom.

– Agora eu não posso recusar.

Assim que o Fernando saiu, Val me olhou com uma careta surpresa e eu sorri sem graça sem entender.

– Meu pai realmente gosta de você. Ele não faz milkshake para nenhum dos sobrinhos dele sem antes eles implorarem de joelhos.

– Acho que sou sortuda então, – dei ombros.

Eu entendi o porquê os sobrinhos do Fernando imploram de joelhos pelo o milkshake dele. Quando experimentei, senti que havia encontrado o néctar dos céus, o alimento dos deuses, o melhor milkshake da minha vida e eu queria 2l dele.

– Esse era o único copo de “milkshake” da casa, espero que não se incomode – Fernando se desculpou.

O copo em questão era um copo do Stich com tampa e canudo e um glitter que se movia. Era lindo, se eu pudesse pediria para mim.

O resto da conversa eu fiquei praticamente em silêncio observando os três enquanto me aproveitava do milkshake. Eu estava sentada do lado da Val e ela o tempo todo me fazia carinho no cabelo ou me dava um beijinho aleatório. Meu corpo estava tão pesado ao seu lado que sentia como se a gravidade estivesse me empurrando para deitar em seu colo, mas resisti.   

– E então, Clara. O que você gosta de fazer fora do escritório? – Fernando perguntou curioso e eu imediatamente endireitei o corpo no sofá.

– Hmm… atualmente eu só consigo lidar com os assuntos da faculdade e o trabalho, quase não tenho tempo para outra coisa.

– Mas ela desenha muito bem, – Val completou. – E teve a audácia de me dizer que costumava pintar, mas não tem nenhum quadro para me mostrar.

– É uma pena, eu também gostaria de ver.

– Eu vendi todos eles, mas acho que tenho alguma foto… não era lá grandes coisas, não sou tão boa assim. 

– Só sou capaz de opinar quando ver com os meus próprios olhos, – Margot sorriu. – E você não pinta mais? Eu estou montando um novo acervo para a minha galeria e estou em busca de novos artistas.

Diferente da Diana que claramente tinha segundas intenções, Margot parecia realmente interessada. E bem, considerando a decoração da casa que além dos quadros, tinha algumas esculturas, eu não duvidaria que ela realmente tenha interesse no assunto. Mas eu não tenho tempo e sei lá, acho que essa é uma página virada da minha vida.

Eu balbuciei sem saber como negar. Val percebendo meu desconforto, apertou a minha coxa discretamente atraindo a minha atenção como quem dizia que “eu estou aqui”.

– Maman, s’il te plait… ça suffit… você já conseguiu quadros o suficiente essa semana, deixe a minha Clara em paz.

“Minha Clara”… eu sou muito gay.

– A Chloée tem razão, – Fernando comentou. – Aliá, as obras do leilão chegaram hoje. Vocês querem ver?

– Tem uma escultura lindíssima que ficará perfeita na sua sala, Chloée – a Margot comentou empolgada. – Acho que você não viu ainda, você estava longe durante os lances dela. 

– Pensei que fosse para a sua galeria, não para a minha sala.

– É um presente da sua mãe.

Margot não viu, mas a careta que a Val fez não foi de alguém empolgada em receber esse presente.

 Levantamos para ir ver as tais obras. Os anfitriões foram na frente e Val e eu logo atrás. Ela aproveitou esse momento para me dar um abraço rápido e dar um beijo no topo da minha cabeça com uma facilidade vergonhosa.

– Você está com sono? – Perguntou preocupada.

– Não sei… talvez.

– Nós já vamos embora, d’accord?

Mas eu não quero ir… eu quero mais milkshake.

De repente vi o copo do Stich ser tirado de mim pela Val e quase foi o meu fim. Eu quis gritar e tomar de volta, mas ela me olhou séria e disse.

– Vamos evitar acidentes. Minha mãe gosta de você, mas não sei se continuará gostando se derramar milkshake nas peças dela.

Val tinha razão. Eu não era lá a pessoa mais equilibrada do mundo e como a vida adora me pregar uma peça, era bem provável que eu tropeçasse e jogasse o que ainda me restava de milkshake em um quadro ou algo assim. E bem, a Val já assistiu muito dos meus acidentes no Apex, ela tem porque se preocupar.

Margot exibiu suas esculturas com muito orgulho e fez questão de me dar detalhes de cada uma dela. Quem fez, quando fez, o que representa e por aí vai… ela basicamente fez um mini museu dentro da sua casa e logo todas essas peças iriam para a galeria em Paris.

Apesar de muito bonitas, as esculturas não atraíram tanto a minha atenção. Eu estava fascinada pelos quadros, era um mais lindo que o outro e técnicas tão incríveis que eu quase, quase, senti saudades de pintar outra vez. E em meio aos quase dez quadros que estavam ali, um me chamou atenção.

– Como você conseguiu esse quadro?

– Foi um dos mais difíceis rematar no leilão – Margot se juntou ao meu lado. – Me custou três milhões, mas valeu a pena. As obras dessa artista são quase raras e muito difíceis de achar. Foi muita sorte ter encontrado esse.

Três milhões?!

– Você gostou do quadro?

– Sim… eu amava esse quadro. Era um dos meus favoritos.

– Ah, você conhecia a artista?

– Sim. Aurora Mansur, não é?

Margot sorriu surpresa e empolga. – Oui! Eu a conheci há muitos anos em uma exposição aqui em São Paulo. Depois disso nos tornamos amigas. Como a conheceu?

– Ela era a minha mãe.

Quando a minha mãe morreu, muito dos seus fãs procuraram meu pai em busca de suas obras. Ele viu uma oportunidade de fazer dinheiro fácil, afinal, com ela morta os quadros valiam muito mais. Não sobrou um. Ele vendeu todos, até a obra inacabada.

Eu era muito nova para entender na época, mas nada foi tão lucrativo para o meu pai que a morte da minha mãe. Ele poderia ter quitado a casa, o carro e provavelmente pagar toda minha faculdade, mas ele preferiu beber tudo. E não bebeu sozinho… por um tempo ele gastou com os amigos, em festas, viagens, mulheres. Largou o emprego e vivia de gandaia. Às vezes sumia e me deixava sozinha em casa. Era um tempo estranho.

Minha sorte foi que, por ser menor na época, meus avós maternos – que ainda eram vivos – deram um jeito de bloquear parte da minha herança até completar os 18 anos. Caso contrário, ele teria torrado até isso. A mamãe fez de tudo para nos dar uma vida melhor e o Luís jogou tudo no lixo. Ainda bem que ela não está aqui para ver isso.

Mas pelo menos a memória dela não foi totalmente apagada pelo traste. E os quadros dela ainda estão por aí…

– Viu só, Valkyrie. Eu disse que conhecia essa menina de algum lugar, – Margot comentou. – E você também, – ela acrescentou.

E definitivamente não me recordo de ter conhecido a Val em algum momento da minha vida, mas também, se isso aconteceu eu tinha no máximo oito anos impossível lembrar de alguém que vi uma ou duas vezes e sequer interagir.

– Então quer dizer que nossos destinos estavam predestinados? – Brinquei.

– E não é que estava? – Ela riu. – Você só tem um timing péssimo, meu amor. Melhore na próxima reencarnação.

– Me esforçarei.

Eu sorri e logo em seguida o meu sorriso foi interrompido por um bocejo.

– É… acho que está na hora de irmos embora, senão minha motorista não será capaz de me levar em casa.

– Mas já? Não vão nem comer mais um pedaço de torta antes de ir embora? – Meu sogro perguntou indignado. – Ainda tem milkshake também. É ótimo para acordar!

Val me olhou como quem iria perguntar se queria, mas não foi preciso responder. – Para onde vai toda essa comida? – Ela balançou a cabeça. – Tá, vai. Mais um pedaço de torta para essa pessoinha aqui.

Meu sogro me deu torta com sorvete e depois outro copão de milkshake para tomar no caminho e acordar. Acabou que o copo do Stich veio comigo – e nunca mais irá voltar, ele só não sabe ainda.

Depois do banho, Val e eu fomos para a cama. Como de costume, deixamos a televisão em mais um capítulo de uma das várias novelas mexicanas que a minha namorada gosta de assistir. Normalmente, eu sou a primeira a pegar no sono, mas dessa vez toda a minha vontade de dormir foi embora.

 Eu não estava chateada, de verdade. Mas não posso mentir e dizer que ter encontrado um quadro da minha mãe depois de tantos anos não mexeu com absolutamente nada em mim. A minha vida virou um verdadeiro inferno desde que a mamãe me deixou. Meu pai que costumava ser legal e até carinhoso, se tornou um monstro e por causa da sua irresponsabilidade acabamos sendo obrigados a mudar para a casa da minha avó e enfim, minhas tias nunca foram flores para se cheirar. A minha mãe também nunca gostou delas e fazia de tudo para as evitar.

Às vezes penso que, se minha mãe ainda fosse viva, nada disso teria acontecido. Ela não poderia me dar um padrão de vida como o da Val, mas certamente não estaria fazendo faculdade, estágio e bicos extras ao final de semana para conseguir sair da merda. Tampouco estaria na merda para começar. A vida teria mais amor…

É estranho e bizarro pensar que aos poucos as vagas memórias que tinha dela estão se apagando. Eu já não consigo me lembrar como era o seu perfume e a sua voz está cada vez mais distante. Meu pai não só vendeu todos os quadros, como sumiu com qualquer coisa que tinha a minha mãe. Era como se ele quisesse apagar a sua existência. E isso, isso eu nunca vou perdoar.

– Você está bem? – Val perguntou acariciando meu rosto. – Está chorando?

Eu não tinha me dado conta das lágrimas que caíram, mas agora que Val perguntou eu desabei. Ela pareceu perceber o motivo do meu choro e ao invés de fazer perguntas, apenas me apertou em seu abraço e me fez carinho.

– Je suis là, mon amour. Je suis ici avec toi. (Eu estou aqui, meu amor. Eu estou aqui com você).

Não me lembro quando foi que adormeci, mas os carinhos e a voz de Val me acalmaram e me levaram a um sono pesado. Tão pesado que, quando acordei no meio da noite, ainda em seus braços, eu demorei alguns segundos para me dar conta do que estava acontecendo.

O susto foi tanto, que entrei em total alerta e saí da cama em um salto e corri para o banheiro. Foi por muito, muito, muito pouco que não passei o maior vexame da minha vida molhando não só a cama da minha namorada, como a minha própria namorada. Meu deus, eu quero morrer!

– Mon amour? – Val me chamou do outro lado da porta. Sua voz estava arrasta e ainda mais rouca pelo sono. – Tout va bien là-dedans ? Il s’est passé quelque chose ? Tu te sens bien ? (está tudo bem aí dentro? Aconteceu alguma coisa? Você está se sentindo bem?)

Eu não entendia absolutamente nada o que ela está falando e aposto que nem ela deve ter se dado conta de que tinha trocado tudo.

– Eu estou bem, – respondi o que achava que ela perguntou.

– Je peux entrer ?

– Para que você quer entrar?

Eu não tive escolha. Precisei terminar o que fazia e lavar as mãos rapidamente antes que essa doida invadisse o banheiro ou algo do tipo. Sei lá, a mente exagerada de Val provavelmente estava achando que estava vomitando e morrendo.

– Eu estou bem, – eu disse ao abrir a porta. – Só precisei fazer xixi.

Val piscou algumas vezes, fez uma careta confusa. – Você me assustou. Saiu correndo… pensei que… 

– Estava na portinha. Eu esqueci de fazer xixi antes de deitar.

– Hm… já terminou? Vem para cama. Eu quero dormir.

A versão sonolenta da minha namorada era ainda mais “poucas ideias” que a versão acordada. Não existe discussão em meio ao seu sono, é só um “faça o que estou mandando” e acabou. Depois do que aconteceu, eu não me sentia segura em dormir abraçada ou de conchinha, mas não tive escolhas. Assim que deitei fui agarrada tal qual um ursinho de pelúcia.

O jeito era aceitar meu destino e dormir.

Mas não deu certo… eu não consegui dormir em paz com o medo de acontecer um acidente de fato. Não que eu tenha problemas com isso atualmente, mas meu histórico justifica meu medo. E céus, como foi difícil me soltar da Val durante a noite. Primeiro que eu não queria, segundo que namorar alguém que é praticante assídua de ioga e pilates é namorar alguém forte para um baralho, e céus, quanto mais eu tentava me soltar, mais a Val – ainda dormindo – me prendia. Ela não era assim, eu não sabia o que estava acontecendo. Será a vida tentando me feder?

O espaço vazio ao meu lado na cama me fez despertar em um susto. Eu tinha me virado na cama em meio ao meu sono em busca do aconchego e calor dos braços da Val e me encontrar o nada me causou estranheza. Não queria acordar, ainda estava com muito sono e meu corpo pedia desesperadamente para voltar a mimir, mas…, mas… onde ela estava? Eu quero abraço!

Me sentei na cama e ao olhei ao redor procurando algum sinal dela e nada.

– Val?

Esperei um pouquinho. Pode ser que ela me ouviu e estava vindo…

– Val?!

Eu sabia que ela poderia estar por perto e ao mesmo tempo estava com medo de que tivesse me deixado. Eu não queria ficar sozinha… eu não gosto de ficar sozinha… eu… eu… eu quero a minha Val. Quero abraço!

As lágrimas vieram como uma cachoeira como se com ela saindo o aperto do meu peito fosse aliviar. Mas não aliviou. Cadê a Val? Cadê? O dodói no peito não passava e eu só queria chorar.

– Val! – Eu chamei entre soluços. – Val? Va…

– Clarice?!

A Val entrou de uma vez no quarto e assim que me viu veio correndo me abraçar. Só que o abraço não foi suficiente… o abraço não estava sarando o dodói, eu queria mais!

– O que aconteceu? – Ela acariciou meu cabelo e eu subi em seu colo. – Você teve um pesadelo? Fala comigo. Por que está chorando?

– Abraça eu?

– Eu já estou te abraçando, meu amor.

– Abraça mais.

Ela me apertou em seus braços e aos poucos sentia o aperto do peito passar. Eu não sabia o que queria, mas não era exatamente o que estava procurando, o vazio ainda estava presente e eu estava sofrendo.

Nós ficamos em silêncio por um tempo. A Val me apertou, encheu de carinho e beijinhos e isso me fez sentir melhor. Ainda me sentia estranha e angustiada, mas melhor.

– Você quer ficar em casa hoje? Não precisa trabalhar se não quiser, – a Val ofereceu. E eu balancei a cabeça negando. Eu não quero ficar em casa, eu só não quero ficar sozinha. – Você quer falar o que está acontecendo? Você está um pouco estranha. Estou preocupada com você.

Nem eu sabia o que estava sentindo, como poderia falar? Eu estava triste, mas não sabia exatamente porquê. Acordei e fiquei triste. Sem explicações, eu só senti um peso no peito, uma vontade de chorar e eu chorei.

– Você tem certeza que quer ir para sua aula? – Val me perguntou pela milésima vez essa manhã.

Depois da minha crise sem sentido, nós já tomamos banho juntas, comemos o nosso café e já estávamos a pelo menos dez minutos na estrada a caminho da minha faculdade. Ainda assim, Val me perguntava se estava bem mesmo e se não queria ficar em casa. Eu não sabia o que exatamente passava em sua cabeça, mas ela me pareceu exageradamente preocupada.

Foi só uma leve crise de ansiedade, nada demais. Eu estava bem.

– Eu estou bem. E vai ficar tudo bem.

– Vai mesmo? – Ela me olhou rapidamente o tempo que o trânsito permitiu. – Eu não sei, me sinto estranha e com uma sensação estranha. Não sei se estou sendo neurótica ou você está escondendo algo que não queira me contar, mas não estou com uma boa sensação. Tem certeza que está tudo bem?

– Tenho.

– Você sabe que pode me contar coisa, não sabe? Principalmente sobre nós… eu prefiro que seja honesta comigo, eu não sou boa para decifrar sinais ou ler nas entrelinhas.

– Por que está tão preocupada?

– Não sei, não estou com uma boa sensação, – ela respondeu com os olhos fixos na rua e fez uma pausa exageradamente longa, mas no fundo sabia que estava se corroendo para falar algo. – E você não quis dormir abraçada comigo, – ela revelou.

Me segurei muito para não rir.

Minha namorada era algo de outro mundo. Tudo esse show desencadeado porque quis evitar constrangimentos constrangedores… ela disse que eu poderia contar tudo, mas tudo tem limite. Tem coisas que irei levar comigo para o túmulo.

– Nós ainda podemos voltar. Eu posso tentar trabalhar de casa, nós podemos ficar na cama e de tarde ir juntas para o escritório.

A encarei desconfiada. – Você não consegue ficar na cama de bobeira.

– Eu posso tentar.

Balancei a cabeça rindo e me inclinei para dar um beijo em seus lábios. – Nós já estamos na porta da faculdade, eu não vou voltar agora. E você tem compromissos importantes, vá trabalhar. Eu não quero sua mãe me acusando de ter estragado a filha dela.

– Você não me estragou.

Pensei em dar uma resposta que deixaria a dúvida no ar, mas me contive. Para mim poderia ser só uma piada, para a Val seria o suficiente para passar o resto do dia refletindo sobre totalmente preocupada.

– Até mais tarde. Te vejo no escritório.

Eu precisei sair antes que a Val mudasse de ideia sobre me deixar sair do carro.

Confesso que dei boas risadas no corredor da faculdade pensando sobre tudo isso. A preocupação exagerada da Val era fofo e ao mesmo tão surreal. Onde em minha vida iria imaginar que teria essa conversa porque não dormimos de conchinha por um breve momento da noite? Eu namoro um bebêzão.

[N/A: sim, Clarice. Você está certíssima… você namora, não o contrário]

Durante a manhã recebi algumas mensagens preocupadas. Mesmo afirmando que estava tudo bem, Val me ligou no intervalo ainda com dúvidas. Suas ligações no intervalo estavam cada vez mais frequentes e quando não ligava, quem fazia isso era eu. Nem parece que passamos a maior parte do nosso dia juntas.

 Tirando o sono de uma noite mal dormida, estava tudo certo comigo e com o nosso relacionamento. Estava até pensando em sair depois do bolinho da tia e dormir com ela de novo. Provavelmente irei ouvir comentários, mas quem se importa? Meu amorzinho estava em sofrimento e precisava de uns abraços, beijos e algo mais para ficar em paz outra vez.

Era estranho voltar ao escritório depois de descobrir a real dimensão da influencia da Val nessa empresa. Eu jurava que tudo estava ligado ao fato de ser um nome reconhecido no ramo, mas a verdade que ter ou não ter talento não iria mudar em absolutamente nada em sua vida. Eu achava que todos os nepobabies da vida não tinham talento ou que fosse realmente bom no que faziam, e era óbvio que a Val iria querer ser exceção a regra até nisso.

– Oi, eu cheguei – eu disse ao entrar na sala. – Pensei que a Margot fosse estar aqui com você.

Val parou o que fazia para me olhar com um sorriso tímido no rosto. – Não, ela agora tem que trabalhar como nos velhos tempos. Você comeu?

– Sim. Estava uma delícia.

Dormir na Val dia de semana tinha uma vantagem: ela fazia meu almoço e sempre saía melhor que ir ao restaurante.

– Acho que vou saquear sua geladeira mais tarde, – ela em olhou desconfiada. – Eu ainda preciso ir para casa, mas a gente se encontra depois do aniversário.

– Tarde da noite?

– É o jeito.

– Então me liga e eu vou te buscar. Ou manda mensagem…

– Sabe, estou começando a desconfiar que você na verdade faz isso porque não vê a hora de me encontrar e usa a desculpa de estar preocupada com a minha segurança.

– Não pode ser os dois? Porque é exatamente isso.

Balancei a cabeça. – Você é um caso perdido.

– Um caso perdidamente apaixonado.

Eu teria respondido e até mesmo me aproximado para roubar um beijo, mas o telefone de Val tocou. O trabalho não nos dava trégua e eu saí de lá para não levantar suspeitas. Eu não fico muito tempo dentro da sala dela, mas certamente sou a que mais faz visitinhas durante o expediente e isso porque estou aqui só a metade dele.

Hora de ir para casa e eu estava caminhando para o meu ponto de ônibus depois de um tempo considerável indo para o sentido contrário dele. E não foi porque eu não tive opções. Valquíria tentou me levar, quis deixar o carro comigo, quase pagou uma corrida de aplicativo, mas eu recusei tudo. Quanto mais demorasse para chegar em casa para mim seria melhor, ainda não estava pronta para encarar todo mundo e fingir que estava tudo bem.

Ao chegar, estranhei o silêncio vindo da casa da minha tia. Eram pouco mais de sete da noite quando cheguei e esperava que já tivesse uma pequena movimentação na casa para o jantar, mas ela nem parecia estar por aí.

Já o meu pai…

Dei de cara com o genitor ao entrar em casa. Ele estava sentado à mesa lendo alguns papeis e com o copo na mão. Senti uma repulsa ainda maior com a cena. Talvez o fato de ainda ontem ter visto Fernando sendo um pai de verdade, me deixou ainda mais revoltada. Esse traste destruiu tudo que a minha mãe lutou para construir e até hoje não tomou vergonha na cara.

– Aprendeu o caminho de casa, é? – Ele comentou sarcástico sem sequer olhar para mim. Eu me recusei a responder a sua provocação e estava a caminho do meu quarto quando ele continuou. – Onde pensa que vai? Volta aqui, eu estou falando com você.

Me virei para trás e dei um sorriso falso sem os dentes. – Oi, Luís. O que você quer falar?

– Você está bastante desafiante, você não era assim – ele se levantou e se aproximou. – O que te mudou? Ou melhor… quem te mudou?

Confesso que perdi a pose com a sua insinuação.

– Você acha que eu não sei?! – Ele esbravejou furioso. – Cadê? Onde está? Eu quero ver!

– Ver o que? Do que está falando?

– O dinheiro. Onde está o dinheiro?

– Que dinheiro?

– Me dá o celular! – Ele veio para cima de mim e tomou o meu celular de mim com força. – Eu quero ver a sua conta. Quanto foi que ela te pagou?

– Ela quem?! Do que está falando?

– Não se faça de desentendida, Clarice! – Ele pegou os papeis que estava lendo antes e jogou na minha cara em um movimento rápido.

Quase que os papeis foram parar no chão, mas consegui segurar no ar. Para minha surpresa e total espanto, os papeis na verdade eram fotos. Fotos reveladas e com altíssima qualidade. Fotos minhas e da Val no shopping na última quarta-feira nos abraçando, nos beijando, no carro indo para o jantar ontem a noite e fotos de ainda hoje pela manhã. Alguém estava claramente nos seguindo e observando.

– Eu sabia que mais cedo ou mais tarde suas raízes ruins iriam aparecer. Era só questão de tempo para se tornar uma vadia e puta como a sua mãe, mas olha… você me surpreendeu. Ir para cama com uma mulher por dinheiro, isso é baixo. Muito baixo. Baixo demais até mesmo para você.

– Eu não estou com ela por dinheiro! Ela é a minha namorada.

Ele me encarou fervendo de ódio. – Eu não criei ninguém para se tornar puta, muito menos essas coisas de lesbianismo.

– Você sequer me criou. Não se dê tanto crédito assim.

Ele me deu um tapa que ardeu até a minha alma. Demorei alguns segundos para reagir tamanho o choque e surpresa.

– Eu quero ver o dinheiro.

– Você vai morrer esperando, não tem dinheiro nenhum.

Ele se revoltou e me segurou pela gola da minha camisa puxando para perto. Meus pés quase não tocavam o chão e o jeito que estava me segurando estava começando a machucar onde a camisa prendia minha circulação de sangue.

– Eu sei que você está recebendo uma boa grana. Eu quero esse dinheiro!

– Me solta! – Gritei. Tentei o chutar, mas não consegui.

– Eu só vou te soltar quando me passar o dinheiro!

Luís não percebeu que enquanto me segurava me forçando cheirar seu bafo de bebida, eu peguei seu troféu ridículo de alguma coisa de futebol e acertei sua cabeça com o máximo de força que consegui que não foi muita, mas o suficiente para ele me soltar.

– SUA FILHA DA PUTA!

Sem pensar duas vezes eu o acertei uma segunda vez com mais força, minha intenção era o deixar no chão para sair correndo, mas meus planos foram por água abaixo.

– Que gritaria é essa aqui? – Tia Lúcia entrou em casa e nos olhou horrorizada.

O genitor estava no chão com as mãos na sua lateral da cabeça ensanguentada e eu paralisada a sua frente com um troféu nas mãos sujo de sangue.

– Lúcia, ela está possuída! Essa menina está com o demônio!

Minha tia me olhou ainda mais em choque. Se eu estivesse tentando matar meu pai seria ok, mas estar possuída, isso sim era um absurdo.

– Ela está como demônio do lesbianismo. Ela está se envolvendo com uma mulher! – Ele catou uma das fotos no chão e estendeu para ela. – Ela tentou me matar, Lúcia! Me matar!

– Não foi bem assim, tia. Ele…

– Calada! – Ela deu a ordem firme. – Vá para o quarto!

– Mas…

– Vá para o quarto! – Ela dessa vez veio até a mim e me arrastou para o meu quarto puxando pelo braço. – Eu sabia que tinha algo errado com você. Eu sabia. Eu deveria ter te levado para o pastor tirar esse mal de dentro de você antes.

– Eu não estou com mal nenhum dentro de mim.

– Você está confusa, minha filha. Satanás faz isso com as pessoas de mente fraca, mas nós vamos dar um jeito. Eu vou chamar o pastor. Nós vamos te curar.

– Eu não preciso de uma cura.

Ela praticamente me jogou na cama e antes que eu pudesse me levantar, tia Lúcia tirou a chave da porta e saiu me trancando dentro. – Você está fora de si, minha querida. Mas não se preocupe, nós vamos cuidar de você. Nós somos a sua família e estamos fazendo isso para o seu bem.

Eu tentei abrir a porta, mas essa filha da mãe realmente me trancou. – Tia, abre essa porta! Eu quero sair. Eu não quero que chame o pastor, eu quero que me deixe ir embora!

– Você não vai a lugar nenhum, Clarice. Eu não vou deixar você voltar para o colo de Satanás!

Eu ouvi seus passos se distanciando, ela realmente irá me manter presa aqui?

– Tia, por favor, abra essa porta! Me deixa sair! Me deixa sair! Abre essa porta! Tia? Tia?! TIA!

Tossi sangue de tanto gritar e perder completamente a voz. Minhas mãos estavam doloridas e roxas de tanto que bater na porta. E ainda assim, não adiantou de nada. Todos os meus pedidos e súplicas desesperadas foram ignoradas e com a música alta que propositalmente tocava, acho que sequer fui ouvida.

Quis pular a janela, mas era muito alto e as chances de quebrar uma parte do corpo eram quase certas. Eu estava aprisionada onde acreditava ser meu único lugar seguro nessa casa.

E agora?!

Eu preciso fugir daqui, mas como?

Queria ligar para Val e pedir socorro, mas meu celular estava na sala e eu sequer me lembrava seu número de cor. Eu nunca nem tentei decorar antes.

Era horrível admitir isso, mas dessa vez eu estava muito fodida. Minha única esperança de sair daqui era se a Val viesse até aqui me procurar, o que eu acho provável, mas ela dificilmente iria interagir com a minha família para não me “prejudicar”. E honestamente, parte de mim tem medo do que pode acontecer com ela se aparecer por aqui. Talvez se o Fernando estiver junto…, mas se isso acontecer, quanto tempo iria levar até me acharem aqui?

Abracei meus joelhos e tentei controlar minha respiração. A última coisa que precisava era uma crise de asma. Eu vou manter a calma e esperar… eu sei confio na minha, na minha… a minha…

«-»

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Au revoir!

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