Elora Aneva

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05.  Pour t’appeler mienne

« V A L K Y R I E »

O meu desgosto talvez estivesse evidente em meu rosto e eu estava ciente disso. Era inevitável não me sentir assim encarando uma bomba de açúcar no prato à minha frente.

– Posso saber sobre o que está rindo, Bruno?

Bruno tentava conter sua risada, mas deixava escapar entre os lábios. Ele parecia estar se divertindo muito com a situação.

– Você realmente vai comer isso?

– E eu tenho outra opção?

Eu detesto açúcar.

Raramente uso açúcar em algo. É enjoativo demais e doce demais… urgh, horrível!

Chocolate de baixa qualidade então?! É ainda pior. O açúcar além de enjoativo, se mistura com a gordura que não o deixa se desfazer na boca e vira uma tortura sem fim. É como se formasse uma película no céu da boca e língua. Eu odeio, odeio!

Determinada, eu respirei fundo e dei a minha primeira mordida ao tal cookie que a Gisele faz. Que morte dolorosa e lenta!

Mordi esperando uma leve crocância na parte externa para chegar a parte macia e então o recheio, mas a massa era macia até chegar ao recheio cremoso.

Bruno não resistiu a vontade e pegou o celular para tirar fotos para me emputecer ainda mais.

– Está gostoso, Val?

– Vá a merda, Bruno.

– Você poderia simplesmente pedir a receita e replicar. Sabe disso, não sabe?

– Eu não vou copiar a receita de ninguém. Eu falei que faria melhor e vou.

Ele revirou os olhos. – Você é uma bobona orgulhosa, isso sim.

– É uma questão de honra.

– Sei, você quer ser a melhor em tudo que se propõe a fazer.

– Exatamente.

– E só tem a ver com isso.

– Sim, – respondi desconfiada.

Conhecia Bruno há décadas. Tempo suficiente para conhecer suas caretas e expressões, os diferentes tons da sua voz. Depois dos meus pais, ele era a pessoa que melhor sabia ler.

E o tom de voz que usou comigo agora. Sua expressão facial. Eu conseguia ver seu veneninho escapando entre os dentes.

– O que está insinuando?

– Eu?! Nada… imagina.

– Quando responde assim significa tudo, exceto que não há nada envolvido. O que essa sua mente maligna está pensando?

Bruno me encarou sério me analisando enquanto fazia seu típico bico. – Eu só acho engraçado esse seu interesse nessa garota a ponto de se submeter a comer um doce -de chocolate- – ele fez uma ênfase exagerada, – você não tem nada que queira me contar, Valkyrie?

– Sobre?

Ele se endireitou na cadeira bruscamente e se inclinou um pouco em minha direção como quem fosse contar algo que não quisesse que as mesas ao redor não ouvissem. – Não se faça de sonsa para cima de mim não. Eu te pari, Valkyrie. Te conheço melhor que você conhece a si mesma. Essa sua obsessão por essa garota tem nome e sobrenome, – ele disse raivoso apontando o dedo para mim. – Até quando irá esconder?

– Esconder o que?

Bruno me encarou em silêncio por um momento. Ao concluir que eu não estava mentindo, ele aliviou a expressão em seu rosto e endireitou o corpo lentamente ainda me encarando, mas dessa vez em julgo.

– Como é possível a pessoa mais inteligente que eu conheço também ser tão lenta e burra?

– Vai se foder.

– Aí amiga, é sério. Você é muito sonsa, não dá. Eu ainda nem sei porque cogitei que estivesse fazendo as coisas no sigilo e só não queria revelar ainda. Até parece que você iria se dar conta disso antes de mim.

– Dar conta do que?

– Você tem certeza que seu único interesse nessa garota é o fato dela ser muito talentosa e você querer apostar nela?

– Sim, – respondi com firmeza.

– É só isso?

– Oui.

– Nada mais? E por que você quer fazer o cookie melhor que o da chata?

– Para provar que posso fazer melhor.

– Mas por que você quer fazer melhor?

– Porque eu sou melhor que ela.

– E aí você vai cozinhar para todo mundo para provar isso?

– Eu não!

– E por que quer provar isso a Clarice?

– Ela me desafiou.

– Então se eu te desafiar duvidando que tenha mais dinheiro que eu, você vai me pagar uma viagem de luxo para a Tailândia e Indonésia?

Fiquei um tempo refletindo sobre. – Você quer ir?

– Meu deus, Valquiria! – Ele bateu no próprio rosto e massageou a testa. – Não é sobre isso, é sobre a sua motivação… você está falando sério sobre a viagem?

– Sim? Não? Eu não sei Bruno! Você está me deixando nervosa com essa conversa.

Bruno respirou fundo. – Eu só estou dizendo que você deveria refletir sobre seu envolvimento com essa garota. Você não é com ela como é com todo mundo, então por que é diferente com ela?

– Eu não faço parte do seu vale se é o que está pensando. Não há nada acontecendo entre nós.

– Ainda, né mon amour. Você já reparou como a Clarice te olha? Você pode não ser do vale, mas aquela ali… meu gaydar quase quebra com tanta energia gay.

– Você acha? Ela falou que casaria com a Gisele por causa dos cookies dela, mas acho que foi brincadeira.

Bruno quase cuspiu a água dele. – Como é? Você não me falou isso… ah não… você não decidiu superar a Gisele depois dessa conversa não né? – Eu não respondi. – Ao menos seu coração é mais inteligente que o seu cérebro.

– Clarice tem vinte ou vinte um anos, ela é bebê, Bruno. Olha bem para a nossa idade.

– Já é maior de idade. Já tem mais de vinte anos. Qual o problema? Se eu fosse sapatão, eu iria. A Clari é um pitelzinho.

– Clari? Pitelzinho? Você não acha que não está muito íntimo, não?

– Ciúmes, amor? Fica tranquila que eu tenho zero interesse na sua garota.

– Minha – revirei os olhos.

O maior sonho de Bruno é que eu me assuma bi. Para ele, eu me envolver com homem é um baita desperdício. Toda vez que algum relacionamento meu fracassa, ele está à espreita esperando o momento em que eu vou me permitir experimentar.

Não sei de onde ele tirou que eu sou bi, mas é o que eu mais ouvi dele a vida toda e veja só, nada mudou.

Eu não sou bi. Eu nem sei como é ser isso. Tampouco sei como é me envolver com alguma mulher. Eu não sirvo para isso. Às vezes sinto que eu não sirvo para relacionar no geral. Ao menos meu último relacionamento foi uma prova clara disso.

Senti um arrepio na espinha só de pensar nisso.

Hoje em dia eu me sinto aliviada por ter virado corna. Antes corna que casada com aquele traste do Pedro Henrique. Como eu pude ser tão sonsa e burra para não abrir meus olhos em quatro anos?

Odeio dar razão ao Bruno, mas infelizmente ele está certo.

Comi muito mais açúcar do que gostaria esse domingo. Se não bastasse o cookie da Gisele, eu ainda experimentei outros que o Bruno disse que valeria a pena conhecer. E por fim, minha noite acabou sendo na esteira para compensar esse desastre. Já estou muito velha para me dar esse luxo e me descuidar.

E eu que achei que uma corrida intensa iria me deixar cansada para dormir mais rápido, acabei me iludindo.

Por horas encarei o teto pensando na vida enquanto a insônia me consumia. Talvez eu devesse dar o nome da minha insônia de Clarice, me faz passar a noite em claro e combina com ela.

Era nítido que estava desenvolvendo mais um hiperfoco para chamar de meu. Só isso para explicar esse desejo e necessidade constante de saber dessa garota, de estar perto, de querer cuidar. Às vezes eu… sinto desejo em toca-la e eu não gosto que me toquem.

Preciso falar sobre esse tópico com o meu terapeuta… e com meu pai.

Vai que eu estou beirando a inconveniência sem perceber? Dieu m’en garde, eu tenho pavor só de pensar.

Eu não estou sendo inconveniente, estou?

“Bruno, tu me trouves gênante ? Je suis gênante ?” (Bruno, você me acha inconveniente? Eu sou inconveniente?)

“Valkyrie, il est presque 2h30 du matin. Va dormir !” (Valkyrie, são quase 2:30 da madrugada. Vá dormir!)

“Tu ne m’as pas répondu.” (Você não me respondeu.)

“Non, tu ne l’es pas.” (Não, você não é)

“Même avec Clarice ?” (Nem com a Clarice?)

“…”

Ele me respondeu com reticências e eu fiquei sem entender. O que ele quer dizer com isso? Vai voltar a dormir sem me responder?

Quando estava prestes a enviar outra mensagem, ele enviou uma antes.

“Sérieusement ? 02:29! Va dormir, Valkyrie. Arrête de penser à ta passion.” (É sério?! 2:29! Vá dormir, Valkyrie. Pare de pensar na sua paixão)

“Elle n’est pas ma passion.” (Ela não é a minha paixão).

“Et moi, je suis Blue Ivy.” (E eu sou a Blue Ivy)

Eu não sei se Bruno faz isso de propósito e fica plantando sementinhas na minha cabeça até eu acreditar em suas loucuras. Ele está tentando me convencer de que isso é uma paixão e não é. É um hiperfoco e irá passar com o tempo.

“- Boa noite, madame. Isso é hora de chegar? Veio buscar a sua garota, é?

– Minha garota?

– Sim. Você está afim dela, não está? Eu sei que você está, eu sempre soube que você era sapatão.

– Você enlouqueceu, Bruno.

– Meu amor, eu estou nesse ramo há décadas. Eu sei muito bem o que estou falando, vai por mim. Estou tentando poupar o seu tempo para o inevitável que vai acontecer”

A nossa interação no Apex ficou passando em minha cabeça. Eu já tenho 31 anos, se eu fosse isso mesmo que ele acha que eu sou, eu já saberia, não? É muito tarde para querer mudar agora.

E foi nesse pensamento que a noite passou diante meus olhos bem abertos sem dormir.

Eu não preciso de despertador para levantar no horário. Todos os dias, às seis da manhã meu corpo desperta por livre e espontânea vontade e muitas vezes contra meu próprio gosto.

Eu até enrolei na cama por um tempo, fechei os olhos e fingi que estava dormindo. Por fim acabei levantando puta e frustrada.

Remédios, terapia, mudar o ambiente e afins não surtiram efeito. Acabou que com os anos eu apenas aceitei. Levanto cedo, faço yoga para trazer paz ao coração e não matar alguém pela manhã porque, apesar de não me sentir sonolenta, eu ainda sou uma pessoa que dormiu poucas horas e estou volátil a mudanças bruscas de humor.

Após meu yoga, fui preparar meu café da manhã e a memória da noite anterior veio a mente. Bruno tinha razão sobre meu comportamento com ela ser diferente, mas eu também não sei ao certo o porquê, eu apenas senti vontade de a trazer aqui e o fiz. Não há nada demais nisso, há?

Não são nem 7:30 da manhã e eu já pensando nessa garota. Talvez eu precise de tratamento.

O quanto antes, por favor.

Se eu pudesse retirar uma coisa da minha rotina, certamente seria o trânsito em São Paulo. Meu pai sempre me dizia que com o tempo iria me acostumar com o volante e me sentir mais confortável… bem, eu me sinto mais confortável em dirigir, isso não mudou o fato de que continuo odiando com todas as minhas forças.

Todos os exames e testes apontam que sou totalmente apta a dirigir, só não consta que todo o processo é uma tortura. Não é natural, não é automático, eu sempre me concentro em todas as informações ao mesmo tempo e às vezes minha cabeça dói com tanto estímulo simultâneos.

O que me salva são as músicas que costumo colocar no fundo e de certa forma é o meu ponto de segurança. Beyoncé é a minha forma de não me estressar com tudo que está acontecendo ao meu redor.

Às vezes quero contratar um motorista particular, mas a minha vontade de me mostrar independente e capaz é maior que o meu surto diário.

– Caio! Bom dia – Cumprimentei o manobrista ao descer do carro na entrada do B32. – Tudo bem?

– Tudo certo, e a senhora?

– Ficaria melhor se não me chamasse de senhora.

Eu gosto muito do Caio. Ele foi muito simpático comigo desde o primeiro momento e continuo me tratando da mesma forma mesmo depois que descobriu o meu “segredo secreto”. Normalmente as pessoas mudam completamente e começam a falar comigo como se eu fosse uma coitadinha ou incapaz. Caio não, ele é o que sempre foi comigo e estaciona meu carro que é uma beleza.

É por essa razão que sempre uso os seus serviços quando está aqui e lhe dou boas gorjetas todas as vezes, é a minha forma de ser grata e ao mesmo tempo continuar ajudando com as fórmulas da sua filha caçula.

Era isso.

Respirei fundo e entrei no hall principal em direção aos elevadores. Em minha mente estava tentando recordar toda a minha agenda do dia… tentando era modéstia da minha parte. Se tem algo que eu me gabo e me é muito útil é a minha memória. Muito raramente irá me ver esquecer algo, principalmente quando se trata do meu trabalho.

Um sorriso surgiu em meus lábios ao lembrar de uma importante tarefa do dia. E não, o sorriso não tinha nada a ver com um par de olhos azuis.

Não mesmo.

« C L A R I C E »

Apesar de não ser um curso de minha escolha e sim do meu pai, eu gostava de arquitetura. Mas, entretanto, todavia, tinha dias que era extremamente entediante. Parte de mim não sabia se a aula só estava sendo chata ou se era eu que estava com sono depois de trabalhar o final de semana inteirinho.

E sabe o que é pior? Domingo no Apex foi extremamente entediante. Apareceram um ou dois pequenos aleatórios, lindas mulheres de biquíni e homens… e nada da francesa, achei que fosse aparecer e nem tchum… mas aposto que se eu fosse embora tarde da noite ela estaria lá me arrastando para casa com ela.

Aí, aí, doida.

E falando em doida…

Quando cheguei ao escritório às 13h senti uns olhares estranhos e cochichos pelas as minhas costas. Até cogitei que o problema estivesse em mim, que fosse a minha roupa que estava manchada ou que eu estivesse caminhando com um rolo de papel higiênico preso em mim, mas a tensão pairando no ar só me dizia uma coisa: tem dedo de Valquíria nisso.

Somente alguém como ela iria deixar todo mundo tenso como se estivessem sendo observados pelo diabo. Antes ela tinha esse efeito em mim, mas a conhecendo melhor me fez perder um pouco o respeito. Ela nem é assustadora assim.

E dito e feito. Ao chegar na minha área me dei de cara com a dona Valquíria sentada na minha cadeira, pernas cruzadas e celular nas mãos. Todo mundo me encarando preocupado e fingindo trabalhar arduamente achando que ela se importava. Tudo isso para quando eu me aproximo para notar que ela estava o tempo todo jogando…

Essa mulher é uma fraude, não é possível.

– Clarice, tu es arrivée (você chegou)… – ela continuou a jogar sua partida de sodoku ignorando totalmente o fato de estar sentada na minha cadeira e me impedindo de começar o meu trabalho.

Eu fiquei uns 10 segundos parada ali a encarando e observando os olhares curiosos em nós.

– Alors, – ela começou ainda olhando a tela do celular, – pegue as suas coisas – só então ela me olhou nos olhos, deu um leve sorriso e levantou. – Você agora trabalhará no andar de cima.

– Como assim? Por que?

– Porque agora você é minha estagiária.

Os cochichos voltaram.

Consegui ouvir gente questionando do porquê eu e até impressora 3D chegaram a citar. Nem ele – e nem eu – estávamos entendendo o que está acontecendo.

– E não demore, eu quero fazer uma reunião para alinharmos todo o time o quanto antes. Estaremos esperando na sala de reunião II.

Como eu não tinha nada para levar, eu só precisava conferir se tinha algo no desktop que eu fosse querer ou que iria deletar e isso eu faria em 2 minutos.

Quando eu estava na cozinha enchendo minha garrafa antes de subir, fui abordada por Gustavo.

– Tá podendo, hein. Conseguiu a vaga no time da megera e ainda foi chamada pela própria.

– Ela tem nome, sabia? – Rebati irritada. – Se você começar a usar, talvez quem sabe ela não te nota também.

– Agora já sabemos como conseguiu a vaga. Deve ter ficado lambendo o saco da “Valquiria” sem parar.

– Gustavo, chega de palhaçada – João que estava ao lado o repreendeu.

– Mas é sério. Olha só a cara dela, ela se faz de santa, mas todo mundo sabe que esse tipo de garota são as piores. Aposto que se fosse um homem teria aberto as pernas também.

– Você apostou errado, Gustavo. Eu abria as pernas para a própria Valquíria mesmo porque eu sou lésbica. Aliás queria eu ter passado meu tempo lambendo ela, mas infelizmente não foi assim que aconteceu. Mas relaxa, ainda tem outros chefes que você pode tentar abrir as pernas e ver se dá certo. Não custa tentar, né.

– Filha da… Vai mamar a sua chefe.

– Vou mesmo! Vou seguir o seu exemplo.

– Vocês dois já chega! – João disse bravo. – Estão maluco, é? Quer perder o emprego?

Os dois saíram e eu fiquei para traz puta.

Eu terminei o que tinha que terminar e saí brava querendo matar um.

Que ódio, que ódio, que ódio!

Que filho da mãe. Quem ele pensa que é?

Distraída com a minha raiva não reparei em quem estava no corredor e só desviei, mas paralisei ao ouvir a voz que tanto conhecia.

– Então quer dizer que você queria ter passado o tempo me lambendo, – Valquíria que estava encostada na parede endireitou o corpo. – Não acha que esse tipo de coisa não é apropriado para se falar em relação a sua chefe no local de trabalho?

Meu rosto virou um pimentão tamanha vergonha.

– Você ouviu?

Eu não tive coragem de soltar uma piada sacana porque ela poderia interpretar muito mal.

– Eu vim atrás de um chá e acabei ouvindo.

– Desculpa, eu…

– Está tudo bem, mas é melhor que isso não se repita. Dessa vez eu não me envolvi para poupar a você de uma advertência grave ou demissão. Se eu me intrometesse iriam os dois ao RH, isso não seria bom para você…, mas, por favor, eu não quero alguém do meu time se envolvendo em problemas no RH, d’accord?

– Sim, senhora.

– E não me chama de senhora… me faz sentir muito mais velha do que eu realmente sou. Meu nome é Valquíria e você sabe disso.

– Sim… Valquíria, – sorri amarelo.

Caminhei ao lado de Valquíria me controlando muito para não ir direto para a varanda me jogar tamanha vergonha. Não tenho coragem nem de comentar com o Theo sobre o que aconteceu… o que será que ela deve estar pensando sobre mim? Pior, será que ela levou a sério o que eu disse e vai ficar me olhando estranho? Tem mulher hétero que não gosta de ficar muito perto.

Ai Clarice, é cada uma que você se enfia, meu deus. Em nome de Jesus isso vai ficar no esquecimento. Amém? Amém.

Bem diferente do meu primeiro momento nessa empresa ao entrar na outra equipe, eu me senti verdadeiramente acolhida.

Dava para entender por que o time da Valquíria era bem “seleto”, as pessoas aqui eram mais legais, mais receptivas, mais amigáveis e mais proativas.

Além do Theo que eu já conhecia e a Amanda que conheci recentemente, tinha a Letícia, Barbara e o Mateus. Todos foram bem legais comigo e eu me senti em casa. Era um grupo de pessoas que eu facilmente iria em um bar depois do trabalho.

Nem vi o tempo passar enquanto aguardávamos a volta da Valquíria que simplesmente nos abandonou aqui. A conversa era tão leve e divertida que me entreti completamente mesmo não participando muito.

– Eu adoro que a Valquíria reúne todo mundo aqui, fala que vai fazer uma reunião e ela mesmo some – Mateus comentou. – Cadê a diva, gente? Dez minutos já.

– Já está vindo, ela foi só buscar a caixa – a Letícia respondeu sem tirar os olhos do laptop a sua frente.

– E por que você não foi?

– Porque eu disse que estava ocupada, – ela respondeu sem mudar o tom. – Brincadeira, – ela sorriu para nós, – ela quem quis ir lá na recepção buscar. Eu nem sei o que é não. Não passou por mim esse babado.

– Não acredito… e o que você está fazendo que não está trabalhando? Você deveria saber de todos os passos dessa mulher.

Eu não entendi nada, mas fiquei igual cachorro virando o rosto para cada um que abria a boca para falar. Quando eu cogitei falar algo, o som de passos de salto agulha anunciaram que o assunto estava voltando. Poderia ser qualquer outra mulher de salto, mas de alguma forma dava para saber quando era a Valquíria.

Ficamos todos olhando para a faixa de vidro até ela aparecer e confirmar nossas suspeitas. Eu me senti tão humilhada que ela não só alcançava a faixa de vidro como dava para ver todo seu rosto. Enquanto eu sequer aparecia o frizz do meu cabelo.

– O que é isso gente? – Theo perguntou curioso ao ver a caixa nas mãos de Valquíria.

– Cookies.

Fiz uma careta surpresa e desconfiada. Como assim cookies?

– Cookies? Do nada? Vindo de você? Eu hein… endoidou de vez, foi?

– Ainda não, Teus. Eu resolvi juntar o útil ao agradável. Devia doces a vocês, aqui estão. Cookies… dizem que são os melhores de São Paulo.

Eu sabia que a escolha do doce para o time estava relacionada a mim. Tive mais certeza ao notar os olhares de Valquiria toda vez que eu me estendia para experimentar um dos trocentos sabores diferentes que ela trouxe.

Mesmo durante a reunião ela conseguia me observar e parecer natural. Era como se nada pudesse escapar do seu olhar, mesmo eu tentando atrapalhar seus planos.

Depois da reunião não se estendeu muito e foi basicamente me alinhar com o resto do time e apresentar minhas demandas. Eu achei que seria só uma estagiária existindo e fui colocada para participar ativamente do projeto.

Finalmente algum motivo para me empolgar com o trabalho. Vou finalmente usar um lápis além do mouse. Estou feliz com isso.

Ao final da reunião, todos estavam se levantando para sair e eu estava prestes a fazer o mesmo quando Valquíria me chamou.

– Clarice, espere. Nós ainda vamos conversar.

Respirei fundo e sentei novamente no mesmo lugar.

Parte de mim tinha medo de que a conversa fosse sobre o que aconteceu na cozinha. Outra parte acreditava ser sobre trabalho. E por fim, eu só estava com medo e ansiosa.

– E então? – Ela perguntou assim que ficamos sozinhas. – Algum deles superou o cookie da Gisele?

– Foi você que fez aqueles?! – Perguntei surpresa.

– Não.

– Ainda bem, porque senão seria uma derrota triste. Os que trouxe são bons, mas ainda assim não são melhores.

– Você repetiu mais de uma vez o mesmo sabor.

Ergui o cenho. – Você reparou até nisso? Não está levando isso a sério demais?

– Eu quero entender o que gosta. Um pré-estudo e levantamento de dados como qualquer arquiteto faz antes da obra.

– Eu gostei daquele porque até as partes sem as gotas de chocolate eram muito boas e com as gotas melhor ainda… você também não quer competir se faz melhor lasanha que a Glória?

Valquíria riu. – Non, merci (não obrigada). De adversária já basta a Gisele.

– Poxa, que pena. Não vai ter lasanha para nós então… tentei.

O resto do dia passou voando.

Tendo algo mais interessante para fazer e com uma equipe mais legal ajudou bastante para que o tempo passasse bem rápido.

E durante o resto da semana eu percebi que realmente aquele andar e time era praticamente outra empresa. Não havia uma constante pressão pela perfeição como imaginava que seria. Valquíria era bastante exigente e toda vez que passava por nós fazia algum comentário ou pedia alteração. E não, não era da forma “vocês são uns lixos, mudem”, às vezes era só “você já tentou um ângulos/material/cor diferente?” e aí você se pergunta “por que eu faria isso?” e faz em um ângulos/material/cor diferente só para ver e voilà… agora você sabe porque só tem uma pessoa aqui que tem o Pritzker. É difícil pensar fora da casinha e para ela parecia tão natural.

Depois de muito trabalhar quase duas últimas semanas seguidas emendando o estágio e o Apex, eu me dei o luxo de um final de semana em casa. Em outras palavras, eu tinha muita coisa da faculdade para fazer e eu não tinha opção senão fazer meus trabalhos e estudar… ou ao menos tentar.

É difícil estudar e se concentrar em algo quando sua cabeça vai para longe.

Eu não estava sendo iludida, nem nada. Sabia muito bem que tudo não passava de um passatempo para ela, mas não conseguia deixar de pensar no que ocorreu no último final de semana e como foram os últimos dias. Talvez eu estivesse me sentindo estranha por não ter que lidar com sua impulsividade e loucura durante o final de semana? Talvez.

Ou talvez eu devesse sair um pouco. Conhecer gente nova, beijar umas bocas e encontrar alguém para ocupar a minha mente. Já deu de sair do trabalho e se não estou pensando nas pessoas do trabalho, estou lidando com a chefe do meu chefe que agora é a minha chefe direta.

É, eu acho que vou ligar para Glória ou a Laris para irem comigo num barzinho cheio de sapatão para eu me perder lá dentro. Vai ver assim eu encontro a próxima dor de cabeça para chamar de minha.

~*~

Depois de muito me questionar o que diabos fazia na faculdade de arquitetura, eu finalmente me senti realizada pela primeira vez. Minha primeira semana trabalhando na nova equipe eu quase não usei o meu computador, maior parte do tempo estava desenhando ou ajudando o Mateus nos projetos e era tão legal e divertido.

O tempo voava e eu poderia facilmente continuar trabalhando e me divertindo se não fosse Valquíria que mandava eu ir embora às 17h em ponto todos os dias. Aí você pensa, a gata vai embora pontualmente também? Não, não vai. Todas as vezes que fiquei até mais tarde para usar a mesa de desenho enquanto fazia o trabalho da faculdade, ela estava lá.

– Você deveria seguir o exemplo das suas próprias ordens e ir embora no horário, – a peguei de surpresa na copa pegando o seu chá.

Quando a vi passar, eu não resisti a tentação. Ela sempre me assusta, era a minha chance de me vingar e eu não poderia perder.

– O que ainda está fazendo aqui, mademoiselle? – Valquíria teve o total de zero reação a minha tentativa de a assustar. – Oito da noite, já passou da hora de estar em casa.

– Você é sem graça, sabia – ela me olhou confusa sem entender. – E eu estava fazendo meu trabalho da faculdade. Vai ter um evento de arquitetura na FAUUSP e está valendo nota em várias disciplinas, eu não posso vacilar.

– Me convidaram para participar desse evento.

– E você vai?

– Se eu fosse em todos os eventos que me convidam, eu não iria mais trabalhar. Eu não tenho problema com multidões e quanto ao barulho eu tenho protetores auriculares que são muito bons, meu problema é o excesso de atenção. Se eu estivesse lá apenas existindo e sendo mais uma pessoa, seria ok, mas não é bem assim que acontece.

Será que eu falo para ela que não vai ter música e não vai precisar de um protetor auricular? Não, eu preferi ficar na minha.

– Imagino que seja complicado. Acho bem difícil alguém nesse meio não conhecer você. Podem não saber o seu rosto, mas seu nome com certeza. Tem seu projeto nos livros da faculdade.

– É… nem sempre os holofotes que o um Pritzker te dá é bom. Eu particularmente não gosto muito e é por isso que evito esse tipo de evento… até que horas pretende continuar aqui? – Ela mudou de assunto completamente e bebericou o seu chá.

– Até agora. Eu já estou de saída. Acho que a essa hora os ônibus estão mais vazios, até os metrôs… fica mais suave ir para casa.

– Eu te dou uma carona.

Eu a encarei séria por um instante. – Valquíria… você é a minha chefe, não o meu chofer. Pode ir para casa, eu vou ir com a minha Mercedes.

– Mas eu quero te levar na minha. Vem, eu te levo rapidinho. Já está ficando tarde e você estuda de manhã. Precisa dormir.

– A senhora trabalha amanhã.

– Como você disse, eu sou a sua chefe. Eu faço o meu horário.

Olha, mas que vaca…

É, o jeito é aproveitar a carona. Quem acorda cedo amanhã para pegar condução lotada sou eu. Ela que lute chegando bem mais tarde em casa agora.

– Você não tem problemas em chegar tarde da noite em casa? Você disse que mora com seu pai, certo? Ele não fica preocupado?

Eu me segurei para não rir. – Te garanto que se eu não voltar para casa ele não vai nem notar… eu achava que morar sozinha como você era uma coisa muito solitária, mas depois cheguei a conclusão que não é muito diferente da minha situação morando com meu pai… seus pais moram aqui?

– Moravam, mas eles voltaram para a França.

– E você não quis ir junto?

– Não, eu nasci na França, mas lá não é um país para mim. Eu me sinto melhor aqui.

– Você sente falta deles?

– Todos os dias. Minha mãe é um porre quando quer, mas até dos surtos dela eu sinto falta de vez em quando.

– E o seu pai?

Valquíria sorriu nostálgica e logo entendi que ela era filhinha do papai e não da mamãe. – Seu Fernando, ele… ele é o meu melhor amigo. Um amor de pessoa. Tem um coração tão grande quanto ele… e aos poucos tão grande quanto a barriga também, – ela riu.

– Ele deve ser legal para você falar assim. Você tem irmãos?

– Milagrosamente não… minha mãe é uma engenheira incrível e levantou os projetos mais absurdos possíveis, adora desafiar a física e até hoje venceu todas as vezes, mas o maior feito dela foi não fazer um segundo filho.

Eu nem quis perguntar porque isso foi tanto um milagre. – Vocês nunca quiseram mais um membro na família?

– Eu não tenho uma opinião formada. Minha mãe nunca quis mais que um. Meu pai queria uma família grande e aí eu nasci – ela me olhou rapidamente com uma cara sapeca. – E depois que eu vim para o mundo ele mudou de ideia, – ela sorriu.

Por um momento fiquei sem reação observando o seu sorriso. Queria ter uma câmera em mãos agora para registrar esse momento. Ela tem cara séria o dia inteiro no trabalho, mas fora dele consegue ser tão fofa.

– Eu não consigo te imaginar aprontando. Você parece ter sido aquelas crianças certinhas que nunca aprontou na vida.

Valquíria ergueu um cenho surpresa. – Você jura? Será que você pode repetir para eu gravar. Quero mandar esse vídeo para o meu pai.

Revirei os e ri. – Não, você não pode gravar… eu fui um neném tranquilo. Minha mãe dizia que eu só sabia mamar e dormir, e quando chorava era só colocar algo de colorir na minha mão.

– Desse jeito até eu iria querer ser a sua mãe.

– E você quer?

– Ser sua mãe? – Ela me olhou rapidamente confusa. – Não, eu não sirvo para ser mãe… eu sou incapaz de cuidar de um bebê e eu não iria querer trazer um bebê ao mundo para ser como eu.

– Como você como? Você tem cara de quem faria lindos bebês.

Valquíria semicerrou os olhos. – Está me elogiando indiretamente?

– É… eu acabei te fazendo um elogio.

– Você não sabe o que está falando… uma extensão minha nesse mundo daria muita dor de cabeça. A próxima vez que for lá em casa me lembre de te mostrar a foto favorita do meu pai e você vai entender.

A encarei confusa. – A próxima vez? E vai ter próxima?

Valquiria ficou pensativa confusa. – Você não gostou de lá?

– Não é isso, é só que… eu não vejo motivo para voltar lá.

– Precisa de um? – Valquíria ficou pensativa e eu nem soube responder. – Eu te levo para comer os cookies então.

Minha senhora?!

Só aceita que é doida, Clarice. Nem perca seu tempo argumentando.

Já percebi que muita coisa com essa mulher você só sorri e acena. E aos poucos percebo que ela realmente me quis nesse emprego, porque uma coisa o Theo estava certo: ninguém ousa contrariá-la… nem eu.

Em casa eu fui direto para o banho e dormir. Deveria jantar, mas a preguiça de cozinhar algo era maior que a minha fome.

Meu final de semana foi extremamente tedioso. Sábado eu trabalhei com a Glória e não teve absolutamente nada de interessante. Valquíria não apareceu por lá durante o dia, mas eu reconheci uma de suas amigas que veio conversar comigo. Domingo fui obrigada a ir à igreja com a tia Lúcia, aturar meu pai bêbado e suas chatices durante um almoço em família e ouvir muitos comentários homofóbicos.

Teoricamente não existe uma única alma gay na família, mas é incrível como que em todas as reuniões sempre, sempre, sempre, sempre o assunto vem à tona. E normalmente são sobre pessoas que não tem nem contato conosco, sabe? Eles simplesmente odeiam a existência de outro ser que nunca fez absolutamente nada contra eles.

Eu não aguento mais. Eu quero sair desse inferno logo.

Foi difícil, mas eu sobrevivi e na manhã seguinte estava de volta a minha rotina: acordar cedo, ir para faculdade, ir para o trabalho e ir para casa para começar tudo de novo no dia seguinte. Ao menos foi o que eu esperava que fosse acontecer, mas um dia pacato sem muita novidade.

Só não me atentei ao fato de que agora eu trabalhava com uma mulher impulsiva e louca que sempre vai arrumar um jeito de nos tirar da rotina entediante… a notícia da vez não me afetava diretamente, mas me deixou empolgada pelo Theo que estava muito feliz.

– Eu vou para Dubai! – Ele comentou super empolgado e se segurando para não pular como uma criança. – Viado, eu vou para Dubai! Tem noção disso?

– Então foi esse o motivo da reunião de hoje cedo? O Teus tava me falando que você e a Barbara ficaram horas lá na sala da Valquíria, – perguntei curiosa pois minha alma fofoqueira era muito grande.

– Sim. A Val queria saber se nós dois tínhamos disponibilidade e se poderíamos ir para Dubai e óbvio que aceitamos. Imagina se não vou querer passar duas semanas em Dubai com tudo pago pela empresa?! Ela ainda falou que vai nos pagar um tour de agradecimento por livrar a dela dessa viagem.

– Será que ela não precisa de uma estagiária nessa viagem?

– Gata, essa é só a primeira ida a Dubai. Ainda vão ter outras. Você tem até o fim desse projeto para ser efetivada e convencer a diva de te mandar para uma das viagens.

– Até parece que ela iria simplesmente cogitar mandar alguém que mal chegou e ainda nem se formou. Ainda mais num projeto bilionário.

– Nunca desafie a loucura da nossa diva. Ela se supera sempre.

Eu gostaria de ir para Dubai, mas se não precisasse ficar horas presa dentro do avião. Só de pensar me dá agonia. Eu seria incapaz de ficar tantas horas sentada num banco desconfortável sem ter para onde ir. Minha mãe que foi louca em me levar para as exposições no exterior quando eu era bebezinha. Eu não tenho memórias dessa época, mas boatos que rolava muita briga por isso.

– Será que vai dar tempo para você passear e conhecer os lugares?

– Eu espero que sim, mas não sei dizer não. A última viagem a trabalho que fui, deu tempo sim, mas foi muito corrido. Dessa vez são quase duas semanas, é bastante tempo.

– Eu estou tão empolgada por você, já quero as suas fotos com os Sheik… lá não pode gay, né? Por favor, não morre! A gente mal se reencontrou para você me abandonar assim.

Theo riu e me abraçou. – Não, eu não vou morrer por ser gay e nem te deixar agora. Os anos podem ter passado, mas você ainda continuar a minha nanica que eu vou proteger sempre.

– Quando você vai para Dubai? Será que rola de a gente ir para um barzinho ou algo assim? Um rolê de adulto… que de preferência tenha mulheres para amar por uma noite.

– Só por uma noite?

– É o que eu tenho disponível no momento.

– Aí que horror, Clarice – Theo me afastou do seu abraço. – Eu quero encontrar um amorzinho para chamar de meu…, mas as gays dessa São Paulo estão complicadas.

– Vamos sair e encontrar o seu amor, eu te ajudo.

Theo me encarou de cima abaixo com leve deboche. – Você? Você só se mete em furada. Quero não, obrigado.

Com a viagem programada para a próxima semana, os dias que se passaram foram uma correria sem fim. Os dois iam fazer os estudos iniciais do terreno para o próximo projeto, mas as coisas por aqui continuavam e por essa razão, minhas tardes foram com a Valquíria por perto quase todo o expediente.

Eu não tenho medo dela… não mais, mas por algum motivo não consigo simplesmente ignorar a presença dela e ficava o tempo todo a observando de canto de olho.

Gosto do fato de que toda vez que ela se senta, ela cruza as pernas. Parece um detalhe besta, mas de saia? Aí, meu irmão… a pele dela parece tão macia. Dá vontade de passar a mão… meu deus… eu me sinto um homem. Que horror! Se comporta Clarice!

A mulher que por duas semanas ouvi falar que era megera, rígida, chata, arrogante e esnobe, era a mesma que estava dividindo os próprios earbuds com o funcionário e performando Beyoncé com ele enquanto trabalhavam… as contas não fechavam. Mas era engraçado ver o Theo e a Valquíria cantando baixinho como se ninguém mais estivesse observando os dois.

Théodore… s’il te plaît… tu es bien meilleur que ça, [Théodore, por favor, você é bem melhor que isso] – o tom de voz de Valquíria não era de quem estava feliz. – Você é melhor que isso. Veja bem o que está fazendo.

– Foi mal, foi mal. Eu não vi, vacilei.

– Ai, ai… eu não falo nada.

– Até parece, Val. Você sempre fala. Você não consegue se segurar.

Ela deu ombros. – Para de me encher e vai trabalhar.

Era engraçado observar os dois. Conhecendo o Theo, eu sabia que ele realmente gosta da “diva” dele e se ele gosta dela é porquê de megera não tem nada.

Mais tarde descobri que o apelido era por causa da música Diva. De “megera” a “diva”… e só de olhar na cara dessas pessoas que eu sei que ainda continuam falando mal da “Diva”, eu tenho vontade de bater neles. Como eles podem falar tão mal de alguém tão legal e pagar pau para uns idiotas babacões?

Tomei a vergonha na cara e parei de prestar atenção nos outros para focar no meu trabalho. Pouco tempo depois, não sabia exatamente quanto, senti a presença de alguém atrás de mim e quando estava prestes a me virar, a pessoa se inclinou para baixo e acabei encarando par de peitos.

Imediatamente virei para frente e fixei meus olhos no projeto a minha frente.

– Esse seu traço aqui, – Valquíria colocou a mão sobre a minha, – se você segurar o lápis assim, – usando a minha mão como sua própria, ela desenhou o traço com a maior facilidade do mundo e uma precisão que me deixou boquiaberta; – … sairá melhor. Arquitetura é mais sobre técnica que talento, se você souber as técnicas certas irá facilitar muito a sua vida.

Se eu pudesse processar o que estava acontecendo, eu teria respondido. No entanto, a minha cabeça estava em pane e os meus divertidamente surtando em total caos com o contato da pele da Valquíria na minha. Dava para sentir a sua respiração em meu ombro e se ela me envolvesse com o outro braço estaríamos em um abraço… meu deus, o que eu estou pensando?!

Très bien ! Bon travail ! (Muito bem! Bom trabalho!) – Valquíria endireitou o corpo e me deu um leve aperto no ombro antes de sair como se absolutamente nada tivesse acontecido.

Será que sou eu que sou emocionada para ter um gay panic por causa disso? Será que isso é algo normal e corriqueiro? Mas ela estava tão pertinho. Eu tenho a sensação que o perfume dela ficou em mim.

Quanto tempo eu posso ficar sem tomar banho e manter o perfume em mim?

Se bem que… por que diabos eu quero manter o perfume dela em mim?

Espera aí… ela disse que eu não tenho talento e técnica?

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