Elora Aneva

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06. Prévisions : chaleur intense suivie de forts orages

« C L A R I C E »

A viagem para Dubai foi tão repentina quanto a notícia.

Na segunda-feira chegou a informação que Theo e a Barbara seriam os cavalheiros da Val nessa jornada e na sexta-feira depois do expediente estávamos no bar para fazer uma despedida.

Uma boate bar muito longe por sinal… surtos e noias de Valquíria que queria um bairro que não fosse Faria Lima, mas ela estava pagando a conta e o Uber da galera, ou seja, novamente estava todo mundo fazendo suas vontades.

– O que acontece nesse bar, fica nesse bar. Está expressamente proibido levar qualquer coisa daqui para o escritório e principalmente para a nossa chefe – Letícia encarou nossa chefe sentada a mesa que apenas levantou a sua taça de dry Martini que estava tomando. – Nada de fotos, vídeos e postagem em rede social, estamos entendidos? – Todos concordaram. – Ótimo. Celulares na bolsa.

Regras eram regras mesmo que dramáticas. Deixei meu celular dentro da bolsa e vi todos fazerem o mesmo. Todos sem exceções. Só fui entender a necessidade de retirar o celular mais tarde quando eu vi geral perder a linha. A mais comportada era eu, seguido da Valquíria que bebia como uma lady.

Enquanto Theo, Bárbara e Letícia foram dançar e Teus sumir com um boy aleatório, Valquíria e eu ficamos na mesa em silêncio enquanto bebíamos. O clima na mesa não era ruim, mas também estava sei lá…

– Você não gosta de dançar? – Ela me perguntou quebrando o silêncio.

– Não sou muito fã, – respondi observando as pessoas ao nosso redor e então me virei para ela. – E você? Não gosta de dançar?

– Gosto, gosto sim… não com essas roupas.

– Não vai me dizer que você tem roupas para sair para dançar, – ela me encarou em silêncio e bebeu do seu cocktail desviando o olhar para as pessoas ao redor, – você tem roupas para sair para dançar… qual o tamanho do seu guarda roupa?

Ela me encarou confusa. – Eu não tenho um guarda roupa.

Como ser chamada de pobre sem ser chamada de pobre, parte um.

É claro que alguém como ela não teria um guarda roupa. Quase um mês que trabalhamos juntas e ainda não me recordo de a ver repetindo um look. Enquanto eu, em uma semana esgoto todas as minhas opções e preciso repetir todas elas na semana seguinte.

– Vocês duas. Pista de dança. Agora. Isso é uma ordem, – Mateus e Theo vieram nos arrastar para a pista sem nos dar chances de não ir.

– É, parem de ser chatas e vamos dançar.

– Ao menos me deixe tirar meu blazer.

– A roupa toda se quiser, – Mateus brincou. – Está liberado também.

Fomos arrastadas para um canto no meio da multidão para dançar. Bárbara e Letícia chegaram junto com a gente trazendo mais bebidas nas mãos para todos, incluindo Valquíria e eu, revelando que eles já estavam planejando nos trazer para cá.

Não era fã de misturar bebida, mas não iria fazer desfeita. Uma cerveja não iria nos matar e para estar na pista de dança era obrigatório atingir um certo de nível etílico no sangue. Ou seja, a única opção era beber.

Theo pegou as minhas mãos e me puxou para dançar com ele. Aos poucos fui me soltando e as músicas escolhidas pelo DJ estavam me deixando ainda mais no clima. Mais uma rodada de cerveja depois, e eu estava entregue a noitada. Dançando funk indo até o chão e rebolando com as meninas sem vergonha de ser feliz.

E foi dançando que senti alguém pegar a minha mão me puxar para perto. A princípio, pensei que fosse alguém do meu grupo e só me virei, indo em direção a pessoa que estava me chamando. No entanto, me deparei com um total estranho, que já vinha em minha direção com intenção de me beijar. Sem conversas, sem flerte, sem nenhum indicativo de que eu tinha interesse, ele apenas veio e eu fiquei totalmente sem reação.

De repente, uma mão passou pelo meu ombro, cruzando meu peitoral e me puxando para trás. Reconheci o perfume e imediatamente agarrei o braço que estava em volta do meu corpo com as duas mãos.

O homem sorriu ao ver a cena e veio mais perto achando que iria tirar algum proveito. – Não fica com ciúmes não, tem para as duas.

Valquíria me puxou um pouco mais para trás de seu corpo, se colocando como uma barreira entre o homem e eu. O pouco que consegui ver do seu rosto notei que estava fúriosa como eu nunca tinha visto antes. Diante desse olhar, o homem não recuou, pelo contrário, e foi recebido com um discreto e certeiro soco debaixo da costela.

O cara se encurvou de dor e Valquíria me puxou para fora da pista de dança. Não sabia para onde estávamos indo, mas com ela eu iria para qualquer lugar sem medo. Finalmente, paramos nos corredores que levavam aos banheiros, onde o ruído da música eram abafados e estava mais vazio. Valquíria me colocou contra a parede e meu coração disparou.

– Você está bem? – Ela perguntou, ainda segurando meu braço. – Ele tocou em você? Te machucou? Fez alguma coisa?

– Não, ele não fez nada. Você chegou bem na hora.

– Tem certeza?

– Sim.

Ela me analisou por um momento. – Você ainda quer continuar aqui ou prefere ir para casa?

– Eu estou bem, posso continuar aqui. Eu só quero sentar um pouco.

Eu poderia voltar para pista tranquilamente. Depois do soco que o cara recebeu, eu poderia voltar sem medo nenhum… mas eu não quis. Essa foi a minha deixa para voltar para a mesa e comer alguma cosia. Eu não estava pagando a conta e tinha muita coisa gostosa no menu para simplesmente ir embora sem experimentar.

– Eu acho melhor ir para mesa.

– D’accord, vamos para mesa então.

Valquíria pegou a minha mão e me conduziu até a área VIP onde estávamos sentados antes. Durante todo o caminho, não consegui ignorar o fato de nossas mãos estarem juntas e como atraímos a atenção para nós só de passar. E eu não julgo as pessoas olharem para nós; a áurea da Valquíria era impossível ignorar. Ela respira e você quer admirar.

Pedimos uns petiscos e bebidas – não alcóolicas – para nós. Os outros estavam curtindo tanto que eu duvidava que iriam sair da pista de dança tão cedo, então ficamos só as duas comendo e bebendo.

– Beba água, – Valquíria que tinha acabado de voltar do bar me ofereceu uma garrafa de água. – Eu não vi você beber água ainda.

Eu aceitei a garrafa e ela se sentou ao meu lado. – Eu acho que estou começando a acreditar no que me disse no carro, – comentei antes de dar meu primeiro gole na água. Valquíria semicerrando os olhos me encarando. – Você deu um soco no cara sem ninguém ao redor perceber… eu nunca iria imaginar que você, Valkyre Touchon, seria capaz de bater em alguém.

– Valkyrie, – ela me corrigiu. – E por que você acha que eu não seria capaz de bater em alguém? – Ela apoiou o cotovelo no braço do sofá e a cabeça sobre a mão e ficou me observando curiosa. – Eu luto Muay Thai e Krav Maga desde quando você nasceu. Estou mais acostumada a bater em pessoas que projetar imóveis.

A encarei assustada e preocupada. – É sério isso?

– Oui, – eu já comentei que acho fofo o biquinho que ela faz quando fala “oui”? – O soco que eu dei no fígado daquele rapaz foi muito bem calculado. Eu poderia simplesmente ter empurrado ele, mas se fizesse isso ele não iria sentir e provavelmente importunar outra pessoa. Agora ele deve estar com muita dor e deve continuar por um tempo.

– Você é maldosa.

– Ele fez por merecer.

Eu não duvido que ela esteja falando a verdade. O pouco que consegui ver com seu look mais despojado, deu para perceber que a Valquíria tinha um corpo um pouco definido, mas não parecia de gente que faz musculação.

Imagina essa mulher de biquíni? Jesus!

– Você deveria tomar banho de piscina no Apex, não acha? – Quando eu me dei conta, eu já falei.

Valquíria fez uma careta curiosa como quem estava se divertindo. – Por que você diz isso?

– Porque está quente esses dias…

– Está quente ou isso é só uma desculpa para você me ver de roupas de banho?

O seu olhar causou reações entre as minhas pernas. De repente a temperatura do ambiente subiu uns 15ºC e agora quem queria vestir biquíni era eu.

Sinceramente não sabia dizer se foi o álcool ou eu, mas eu não tinha nada para perder – além do meu emprego, – nessa brincadeira e se tem algo que eu adoro é brincar com o perigo.

– E se eu disser que é a segunda opção? – Dessa vez fui eu quem se aproximou dela entrando em uma zona perigosa de proximidade. – Você vai me repreender?

Valquíria desviou o olhar para os meus lábios, e por uma fração de segundo, vi sua compostura vacilar. Um sorriso malicioso se formou em meu rosto ao perceber que não era a única a sentir os efeitos dessa aproximação; ela também estava. E quando nossos olhares se encontraram novamente, minha certeza aumentou ainda mais.

Ela me desejava da mesma forma que eu a desejava agora.

Com a coragem que só o álcool poderia me dar, fui me aproximando devagar, observando a respiração dela se acelerar. Lhe dei tempo o suficiente para se afastar ou me acertar com um de seus socos no fígado, mas não aconteceu. Valquíria não recuou, pelo contrário, se inclinou em minha direção e nossos rostos ficaram tão próximos que eu podia sentir o calor da sua pele.

Finalmente nossas bocas se encontraram, e o beijo foi elétrico e intenso, como se o contato de nossas peles causasse ondas de choque por todo nosso corpo. Valquíria levou a mão em meu pescoço e precisei me conter muito para não subir em seu colo e não perder a minha postura.

Eu deveria me preocupar com o fato de estar aos beijos com a minha chefe em um espaço público, mas sinceramente? Eu estava pouco me ferrando para isso. O mundo ao nosso redor não nos interessava, a única coisa que nos importava agora era o calor, o desejo, e a certeza de que nada seria igual depois de conhecer os lábios viciantes de Valquíria.

E não me pergunte como saímos do bar, nem como chegamos num acordo que seria melhor os outros quatro que estavam conosco fossem embora juntos no mesmo carro e eu parar no apartamento de Valquíria. Só sei que essa não foi uma decisão sensata… não depois daquele beijo que por muito pouco não nos fez esquecer que estávamos em um espaço público.

Mantivemos nosso autocontrole até atravessarmos a porta do apartamento. Sem pronunciar uma palavra, Valquíria agarrou minha mão e me arrastou escada acima até seu quarto. Antes que eu conseguisse raciocinar, fui empurrada contra sua cama.

Nossos lábios se tocaram novamente e foi como se todo o desejo contido explodisse naquele instante. De repente, o mundo ao nosso redor desapareceu e só existíamos nós duas. Não há palavras que expliquem, mas era como se cada beijo de Valquíria fosse um veneno que se espalhava pelo meu corpo e me dominava sem resistência.

Ela se afastou separando nos lábios muito antes que gostaria e ao abrir meus olhos deparei com uma das cenas mais lindas que já vivenciei. Iluminada pelas luzes da noite de São Paulo vindo da janela, Valquíria me encarava com paixão nos olhos e um lindo sorriso nos lábios. Uma cena que gostaria de pintar e eternizar e por essa razão eu me esforcei em memorizar cada um dos seus detalhes.

– Regarde moi, Clarice. (Olha para mim, Clarice)

Eu sei lá o que ela me falou, mas foi a coisa mais sexy que já ouvi. Se em português sua voz já é um rouco sexy, em francês então… mon amour… ela me tem em poucas palavras!

Meu coração disparou ao perceber o que estava prestes a acontecer. Eu sei que eu literalmente pedi para a ver de biquíni, mas não estava preparada para lidar com -isso-.

Engoli o seco ao ver o botão de sua calça ser aberto. Quando levantei o olhar, Valquíria estava me encarando com uma cara de safada. Ela então virou e tirou a calça de alfaiataria lentamente empinando o bumbum para mim. Diante a uma beldade dessas, eu não resisti a tentação de colocar as mãos.

Valquiria não se opôs e eu me aproveitei para a agarrar pelas laterais e a puxar para o meu colo. E distribuindo beijos por suas costas, deslizei meus dedos por sua pele invadindo seu colete até chegar em seus seios que para a minha felicidade estavam nus.

– Você é impaciente.

– Fui paciente desde o primeiro momento que coloquei meus olhos em você, – confessei.

Valquíria desabotoou o colete e o tirou também. Queria eu ser mais alta para ver por cima dos seus ombros, mas a única benção a qual fui concedida era ter a raba dessa mulher sentada em mim. Muito provavelmente ficarei com as pernas dormentes e jamais reclamarei, por mim eu faria meu colo – e minha cara – de seu trono.

Embora eu ainda não pudesse ver, eu podia sentir seus seios que, apesar de serem um pouco grandes para as minhas pequenas mãos, eram perfeitos para mim.

Percebi que Valquíria era sensível ao ouvir seu suspiro quando pincei seus mamilos entre os dedos. Isso apenas me atiçou a continuar provocando-a.

Não satisfeita com apenas seus suspiros, desci uma de minhas mãos até o centro entre suas pernas. A sentir tão úmida me fez ficar ainda mais. E por mais que a provocar por cima da calcinha era divertido, eu tinha interesse no que tinha dentro dela. Se por cima do tecido estava úmido, dentro dele estava encharcada.

Entre os dedos, prendi os lábios de Valquíria e os puxei lentamente roçando um no outro para provocar seu clitóris. O gemido que a minha francesa deu me fez sorrir contra a sua pele.

Sem perder tempo, a masturbei enquanto massageava seu seio com a outra mão. Valquíria rebolava em meu colo me fazendo delirar. Me faltava uma terceira mão para dar um belo tapa nessa raba.

Com o braço que dedicava aos belos seios da Valquíria, eu também usei para mantê-la colada em mim. Mantive as pernas dela abertas com os meus joelhos e fiz movimentos mais rápidos com os dedos sobre o seu clitóris.

– Putain!

Valquíria colocou as mãos sobre as minhas e gemeu tendo espasmos enquanto gozava em meu colo.

E eu juro por Deus que fiquei muito perto de gozar apenas assistindo gozar em meu colo.

Não satisfeita, eu levantei Valquiria do meu colo e a fiz debruçar sobre a penteadeira. Me ajoelhei no chão puxando sua calcinha junto comigo. Sem mais delongas, a lambi inteira de frente para trás lentamente e então comecei a chupar.

Eu encontrei o paraíso na terra entre as pernas de Valquíria.

O toque suave e aveludado da sua pele em minha língua era uma sensação que gostaria de levar para vida. Era lar, acolhedor, aconchegante… eu queria morar entre as pernas dessa mulher.

E quando achei que não poderia melhorar, aos gemidos e palavras desconexas em francês, Valquíria gozou em minha boca e o que era maravilhoso, ficou ainda mais. O seu sabor explodiu em minha boca como sinfonia de frutas exóticas, flores e mel. Bebi cada gota como se essa fosse a essência da felicidade e céus… como eu fui feliz!

Ainda extasiada, fui surpreendida quando Valquíria se virou de frente para mim, me agarrou pela camisa e me colocou de pé outra vez. Fui surpreendida com um beijo intenso e quente que me deixou de pernas bambas.

Valquíria me jogou de volta na cama e puxou a minha camisa para cima. Ao terminar de passar a minha roupa pela cabeça eu quase tive uma taquicardia. Bem diante dos meus olhos e completamente expostos, estavam os seios que por muito tempo atiçaram a minha curiosidade.

– Eles são perfeitos, – comentei antes de voltar as minhas mãos neles e abocanhar com avidez.

Valquíria puxou o meu cabelo para trás de uma vez. – Ces dents ! Não morde ou terei que te punir.

– Eu me empolguei, desculpa.

Com seio na boca e os olhos fixos em Valquíria, eu a observei gemer enquanto eu me deleitava de suas maravilhas.

Como era possível alguém ser tão linda, gostosa e perfeita? Eu não sabia, mas se isso era um sonho… então não me acordem nunca!

«»

Acordei com a luz suave da manhã filtrando pelas cortinas do quarto. Pisquei os olhos lentamente, ainda me ajustando ao brilho do dia, me sentindo lenta e confusa. O efeito do álcool da noite passada ainda dava seus sinais em meu corpo me fazendo sentir pesada e a mente enevoada. Eu poderia engatar facilmente outras boas horas de sono, mas ao me aconchegar na cama para voltar a minha sonequinha percebi o braço que me agarrava a cintura.

Flashes de memórias do que aconteceu na noite anterior vieram à tona – a festa, as risadas, e, principalmente, Valquíria. O beijo apaixonado ainda queimava em meus lábios, o olhar intenso gravado na minha mente e os momentos de prazer que… meu deus!

Agora definitivamente acordada, tomei ciência do meu próprio corpo e as sensações. A cama era confortável demais, macia demais e cheirosa demais para ser a minha e eu definitivamente não estava sozinha. Essa última constatação me fez sorrir feliz… como isso foi acontecer, eu não sei, mas… só de lembrar eu me sentia pronta para mais uma vez.

Valquíria me apertou em seu abraço e afundou o rosto em meu cabelo. Segundos depois ela paralisou de repente e levantou a cabeça bruscamente.

Ah, mon Dieu! Non, non, non… qu’est-ce que j’ai fait ?! [Ah, meu Deus! Não, não, não… o que foi que eu fiz?!] – Valquíria levantou da cama às pressas. – Où avais-je la tête ? Qu’est-ce que j’ai fait ?! [Onde eu estava com a cabeça? O que foi que eu fiz?!]

Me sentei na cama e a observei andar de um lado para o outro surtando em francês sem entender absolutamente nada.

– Valquíria? – Eu a chamei atraindo sua atenção para mim. – Está tudo bem? Por que você está assim?

– Por que eu estou assim?! Clarice, eu acabo de me dar conta que fui para cama com a minha estagiária.

– E daí?

Valquiria me olhou confusa. – Como e daí? Nós não poderíamos ter feito isso. -Eu- não deveria ter permitido isso… mon Dieu, onde eu estava com a cabeça?! Minha estagiária!

– Mas nós somos as duas maiores de idade e foi consensual. Qual o problema nisso?

– Eu sou onze anos mais velha que você. Sou a sua chefe. E nós – ela apontou para mim e para ela, – somos duas mulheres!

– O seu problema é o fato de eu ser uma mulher?

– Eu não sou lésbica. Eu não sei ser uma. Eu não sei me envolver com mulheres, não sei!

– Mas você dormiu com uma.

– O que é ainda pior! Eu não deveria, foi um erro.

É ainda pior?

Por fim a Valquíria me soou uma perfeita filha da puta tal qual a Diana. Ou pior…

Se dissesse que não poderíamos voltar a repetir o que aconteceu por ser minha chefe e tals, eu entenderia e seguiríamos a vida como se nada tivesse acontecido. Eu mesma faria questão de manter a maior discrição do mundo… mas dizer que foi um erro ainda pior por ter sido com uma mulher?! Para mim já deu…

– Para onde você vai? – Valquíria interrompeu seu monólogo ao me ver levantar da cama.

– Para casa.

– Mas já?

Eu nem respondi tamanha audácia do questionamento. Como “mas já”? Ela jurou que eu iria querer ficar aqui depois de bostejar pela boca. Tá bom, pode crer.

Aí que ódio! Se não bastasse tudo isso eu ainda tinha que passar pela humilhação de catar minhas roupas pelo chão. Eu não costumo ter vergonha da minha própria nudez depois de ir para cama com alguém, mas depois do que ela falou… eu só conseguia pensar que estava nua na frente da minha chefe que tem nojo de mulheres.

Que vergonha!

– Você ainda nem tomou café da manhã.

– Estou suave, não se preocupe – disse me vestindo as pressas, – eu estou sem fome agora.

A verdade era que eu estava morrendo de fome, mas eu só queria fugir dali o quanto antes. E honestamente, a última coisa que iria querer era comer perto dela. Capaz eu vomitar de nervoso.

– Então deixa que eu te levo.

– Não.

Eu ainda a encarei incrédula antes de sair do quarto e caçar o meu rumo. Ela ainda me seguiu e a cada passo seu atrás de mim me deixava ainda mais irritada com a situação.

Por que diabos ela estava me seguindo?

– Eu vou te levar para casa.

– Eu não preciso de carona.

– Mas é rapidinho de carro.

– Eu. Não. Quero.

– Por que? Eu posso te levar.

– Eu já falei que eu não quero. Me deixa em paz.

– Eu não vou deixar você sair daqui sem comer e sozinha.

– Eu não preciso da sua permissão para merda nenhuma.

– Clarice…

Me virei para trás irritada. – Eu não quero tomar café da manhã com você. Não quero que me dê carona. Eu quero que me deixe em paz e pare de me seguir! Você disse que tudo foi um erro, então me erra!

Valquíria ainda tentou falar alguma coisa, mas eu estava pouco me fodendo para o que ela ainda tinha a dizer e meti o pé dali.

Caminhei até o meu ponto de ônibus em passos rápidos e raivosos sem saber exatamente o por que estava chorando. Não era como se tivéssemos algo, ou como se eu realmente sentisse algo por ela. Sempre soube ela estava totalmente fora da minha alçada e nunca me dei uma faísca sequer de esperança. Então por que eu ainda chorava? Eu não sei, eu simplesmente não sei.

Pensando pelo lado positivo, foi bom que a decepção veio agora e não depois de vários meses. Eu costumava admirar a Diana a parte do nosso sei-lá-o-que-tivemos-juntas, ela era uma professora incrível, uma arquiteta incrível, uma pessoa incrível… e depois descobri que ela não era nada disso foi uma decepção tão grande que, não foi o chifre que me fez sofrer e sim descobrir que aquela pessoa só existia na minha cabeça.

Valquiria ao menos não me iludiu por muito tempo. Foi babaca na entrevista e nos primeiros dias, melhorou com o tempo e se mostrou muito legal trabalhando juntas ou no Apex. Mas agora ela só é uma babaca mesmo… babaca e gostosa. E a pior parte de tudo isso é que, eu não só -sei- que ela é uma gostosa, eu também provei!

Eu odeio a minha vida.

Por que eu não deixei ficar na imaginação?! Por que?!

No meio do caminho percebi que a bateria do meu celular morreu. E era de se esperar, depois de aguentar um dia e uma noite sem carregar, isso era só questão de tempo. Sem nem um tiktok para distrair, minha viagem para casa foi triste e tediosa.

– Eu posso saber por onde andou essa noite, dona Clarice?

Eu sequer tive tempo de fechar a porta da sala e meu pai já estava bufando atrás de mim.

– Eu dormi na casa de uma amiga do trabalho.

Impaciente, meu pai me pegou pelo rosto apertando as minhas bochechas com força desnecessária. – Se você me aparecer grávida dessa casa, eu mato você e o seu bastardo! Eu não criei puta. Estamos entendidos, Clarice?!

– Sim, senhor – respondi com dificuldades.

Luís ainda me encarou desconfiado e pude sentir o cheiro de álcool vindo dele. Por um momento eu temi o pior. Nunca se sabe o que fará esse homem enquanto bêbado. Para o meu “alívio”, ele apenas me empurrou me fazendo cair sobre a estante e saiu bufando.

Esperei o diabo sair de vista para expressar qualquer reação de dor. E fruta que partiu. QUE DOR!

Respirei fundo, me coloquei de pé e segui para meu quarto. Diante do espelho analisei minha costela e cheguei a conclusão de que iria ficar bem roxo, mas não me pareceu nada que eu precisasse ir ao médico.

Apesar da fome, eu não queria coexistir no mesmo espaço que meu pai, então fui tomar um banho quente e tomar dois dipironas para aliviar a dor.

Ao ligar meu celular que deixei carregando durante o banho, me deparei com várias notificações de mensagens e chamadas perdidas. Todas elas de Valquíria. Antes que eu pudesse pensar em visualizar, ela estava me ligando outra vez\.

– Oi, – atendi sem muita paciência.

– Enfin ! J’étais inquiète. Clarice, onde você está? Por que não me respondeu? Você está bem?

Minha vontade era desligar na cara dela. Qual o problema dessa mulher?

– Estou em casa.

– Você chegou só agora? Por que demorou tanto? Você está bem? Comeu?

– Não. Eu cheguei mais cedo.

– E não avisou? Eu estava preocupada.

– Tá bom. Era isso?

Valquíria ficou em silêncio por um instante. – Você comeu?

Revirei os olhos. – Comi, – menti. – Satisfeita? Agora vê se não me liga.

Que ódio.

« V A L K Y R I E »

Sem respostas.

Depois da rápida ligação ontem, Clarice não me respondeu mais. E o seu silêncio me causava desconforto que, misturado às várias outras sensações, não estava sabendo como lidar.

Era tanta coisa para preocupar ao mesmo tempo.

Ter metido os pés pelas mãos foi um erro. Ao se envolver comigo, Clarice colocava seu estágio em risco e perder isso agora seria péssimo para o seu futuro. Eu posso a defender do que no acontece no Brasil, mas porque tem eu envolvida, o nosso caso iria parar nas mãos do conselho em Paris e aí… era bem provável que ela não só perderia o emprego, mas teria dona Hélène como inimiga.

Conhecendo a minha avó, ela iria optar por eliminar Clarice do jogo a ter a minha carreira “manchada” e isso não é justo.

Foi um erro ter me envolvido assim. Eu ao menos deveria ter dado tempo a ela de mostrar seu talento e provar que era o que era por conta própria.

E não bastasse tudo isso… eu não sou lésbica. Eu sequer sei como ser isso… eu cresci observando meus pais e tendo eles como as minhas referências. Eu não sei amar diferente daquilo.

Em todos os meus anos de terapia e aprendendo sobre os sentimentos e as emoções, nunca em momento algum me ensinaram sobre o amor romântico entre mulheres. E qualquer coisa fora da minha “zona de conforto” me deixa aflita e nervosa.

Eu passei a minha vida inteira sendo hétero, como mudar isso agora? Eu não sei… eu simplesmente não sei.

E mesmo sem saber… por que eu ainda quero?

Eu não deveria ter gostado… deveria?

Não era para ser bom. Não era para eu ficar pensando nela o tempo todo. Não era para a querer por perto. Não era para querer seus beijos.

Minha cabeça dói.

– E aí, gata – Bruno apareceu na cozinha do meu apartamento. Era bem comum ele simplesmente dar as caras por aqui sem ser convidado ou apertar a campainha. Ele já praticamente morava na casa dos meus pais e agora que somos vizinhos de porta, praticamente moramos juntos. – Você fez o que de bom hoje? Estou com a maior fome.

– Eu não fiz.

– Mas é domingo, – ele fechou a geladeira e me encarou revoltado. – Você sempre cozinha algo no domingo. O que rolou?

Bruno veio para perto de mim e se sentou do outro lado da ilha me encarando com desconfiança. O conhecendo bem, sabia que estava analisando até o meu espírito.

– Esse chupão no seu pescoço… não me diga que você teve uma recaída e foi para cama com aquele traste, se arrependeu e por isso está assim?

– Que traste… ah, não. Eu não fui para cama com o Pedro.

– Se não foi o traste, foi quem? Eu conheço? – Não respondi. – Eu conheço?! Eu não lembro de ver você com nenhum papo com nenhum homem recentemente… – dei um sorriso desconfortável. Como falar sobre isso sem o Bruno ser espalhafatoso? – Você não estava com papo com um homem… foi uma mulher? – Esbocei um sorriso desconfortável. – Você foi para cama com uma mulher?! – Bruno ficou boquiaberto e ao mesmo tempo empolgado. – Mentira! Quem?! Eu conheço? Se eu conheço só pode ser a… não acredito que você foi para cama com a Clarice! Valquíria!

A reação de Bruno me deixou preocupada. Foi tão errado assim?!

– Como? Quando? Onde? Você gostou? Você… gozou?

– São muitas perguntas de uma vez.

– Então foca na mais importante: foi bom? Você gostou? Você gozou?

Bufei frustrada e enfiei as mãos em meu cabelo. – Sim para todas as perguntas e é justamente esse o meu problema. Não era para ser bom, nem para ter gostado tanto assim, muito menos para gozar tantas vezes.

– Tantas vezes? Assim, querida? E qual o problema nisso? Problema seria se não tivesse gozado?

Levantei a cabeça para o encarar. – Qual o problema? Ela é a minha estagiária.

– E daí? Meu amor, você trabalha na T & M Visionnaire, não sei se lembra, mas T&M vem das famílias Touchon & Moreau e você faz parte de uma delas. Qual é o problema? Se for consensual você pode passar o rodo no escritório inteiro e ninguém tem que falar nada.

– Eu sou uma Touchon, mas não sou a única. Eu sei muito bem com quem estou lidando naquele escritório e tenho certeza que o André e o Martin vão fazer um inferno com essa história até chegar na senhora Hélène. E se sem fazer nada, já falaram merda para a Clara, imagine se descobrem que ela de fato se envolveu comigo? Eu não quero tornar a vida dela um inferno por minha causa.

– E para se envolverem precisa revelar para todo mundo? Não dá para pegar no sigilo?

Revirei os olhos. – Você fala como se eu fosse lésbica e eu não sou.

– Talvez seja bi… uma hétero não teria gozado “tantas vezes” com uma mulher.

– Para ser bi eu deveria saber como me envolver com mulheres, e veja só, eu não sei. Eu não aprendi a amar uma mulher, eu não sei fazer isso e não tem nem chances de isso dar certo porque eu sou um desastre e você sabe muito bem disso.

Pode até parecer natural para as outras pessoas, para mim não é assim.

Lidar com sentimentos e emoções sempre foi um desafio. Desde sempre fui taxada como a “sonsa e lenta”, lutando para entender as nuances sociais e as emoções dos outros. Foram os vários anos de terapia que me ajudaram a aprender a reconhecer expressões faciais e a me tornar um pouco mais socialmente aceitável, mas ainda assim continuo cometendo falhas sem perceber.

É exaustivo viver constantemente me policiando, tentando não cometer gafes, e estar atenta a todos os detalhes para tentar me encaixar. Imaginar entrar em um mundo onde não sei nem por onde começar é assustador e desesperador.

Eu cresci ouvindo sobre o “papel” da mulher em um relacionamento. Eu tentei aprender e a me adaptar a isso ao longo da minha vida, mesmo que em certos momentos fosse doloroso e não me agradasse muito. No entanto, não funcionou tão bem para mim. Eu continuei fracassando relacionamento pós relacionamento e o resultado sempre foi o mesmo.

Pensar em me envolver com outra mulher me parece ainda mais confuso, já que não sei o que esperar desse tipo de dinâmica, muito menos como me comportar nela. Encarar o desconhecido me causa insegurança e ansiedade. O constante medo de falhar e machucar alguém no processo… eu não sei se quero isso.

Minha vida já é um caos sozinha… a Clarice não merece ser arrastada para isso.

– Você está pensando demais, – Bruno atraiu a minha atenção para si. – E eu até já sei sobre o que… não surte com isso. Às vezes você se preocupa tanto que acaba não fazendo ou não deixando as coisas acontecerem e nem sempre irá acontecer como você acha que vai.

– Você pedir para eu parar de respirar vai ser mais fácil.

Bruno balançou a cabeça negativamente. – O que eu faço com você, Valquíria? Sério, eu tenho vontade de abrir seu crânio e socar o seu cérebro para ver se você aprende.

– Vindo de um neurocirurgião eu não sei se está falando sério ou sendo irônico.

– Por enquanto estou sendo irônico, – o encarei preocupada. Por enquanto? – Você já conversou com a Clarice sobre sua condição?

– Você sabe muito bem que eu não saio falando sobre isso assim.

– Porque é besta. Se eu fosse você eu teria assumido no dia o Pritzker e estampado nas capas de revista…, mas enfim, você deveria falar ao menos com ela. Assim você não vai se sentir na obrigação de parecer com aquilo que não é o tempo todo ao redor dela.

– Acho que já é um pouco tarde para isso.

Bruno ergueu o cenho. – Como assim? Por que?

– Porque a Clarice não me atende e não responde as minhas mensagens, – comentei enquanto checava a mesma tela do celular a milésima vez e seguia exatamente como estava há 30 segundos. – Isso nunca é algo bom, não é?

– Não venha bancar a namorada controladora não, Valquiria. Às vezes a garota só está ocupada com a família ou os amigos, dá um tempo também. É domingo, sabe.

Namorada?

– Não acho que seja isso. A Clarice aparece online, postou status não tem muito tempo também, ela só não quer falar comigo e eu acho que é culpa minha.

– Tá, vamos por partes. Você ainda não me contou como tudo aconteceu. Vamos começar do início para eu entender… com riqueza de detalhes.

Pela cara de Bruno, ele não estava muito interessado em saber todos os detalhes e sim os detalhes de como foi a nossa transa. Suas perguntas deixaram isso muito mais evidente. Porém, a medida que contava o que aconteceu, sua expressão curiosa deu espaço a preocupação o que me deixou ainda mais preocupada.

– Deixa eu ver se eu entendi bem; você teve um surto na frente da Clarice e disse que não é lésbica e que não sabe se envolver com mulheres. E pior, ainda disse que tudo foi um erro?

– Sim, – respondi envergonhada, tal qual uma criança que está sendo repreendida pelos pais.

– E ela não sabe sobre você e seus surtos?

– Não.

– Essa garota te odeia, – ele concluiu. – Ao menos eu te odiaria e nunca mais iria olhar na sua cara.

– Mas eu não menti. Realmente foi um erro nós termos nos envolvido agora, principalmente depois dela ter se tornado a minha subordinada direta e causado a desconfiança de outros funcionários. Ninguém iria acreditar no talento dela se soubessem que nós dormimos juntas, mesmo que fosse só uma vez. Ela seria para sempre resumida a estagiária que deitou com a chefe e eu não quero isso para ela.

– Certo… e?

– E eu não sou lésbica, você sabe disso… eu teria que reaprender todo o conceito de relacionamento romântico que eu tenho na cabeça, entender como funciona a dinâmica entre duas mulheres e então tentar me envolver com uma. Eu só piorei tudo quando eu pulei as etapas e fui direto ao final. Agora eu meti a Clarice na minha confusão sem preparo prévio.

– É, pode ter certeza que ela entendeu tudo, menos o que você acabou de me explicar.

– E agora?

– E agora que, ou você tenta conversar com a Clarice e se explicar. E quando eu digo explicar, estou me referindo a tudo, detalhe por detalhe. Ou você aceita que ferrou tudo e segue o baile. A gente finge que a Clarice foi um surto coletivo e ninguém mais toca no assunto.

A segunda opção me causou desconforto.

Eu me lembro bem quando decidiram que um ex namorado do Bruno foi um “surto coletivo” e nunca mais sequer citamos o nome do que, hoje chamamos de “Dito Cujo”. E não, eu não queria apagar Clarice da memória ou fingir que ela nunca existiu.

Também acho muito difícil que eu seria capaz se a cada dois segundos é nela que eu estou pensando.

Será que eu estou velha demais para pedir ajuda ao meu pai para limpar minha cagada?

«-»

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