Depois de uma longa jornada até aqui, chegamos ao que pode ser considerado uma “Segunda Temporada” dessa história.
Aproveite a leitura!
Clarice
Depois de duas semanas que mais pareceram quatro longuíssimos meses, voltar para a realidade foi um tanto… estranho.
Como chegamos em um sábado, Val e eu tiramos o domingo para relaxar. Bem… cada uma a sua maneira, mas enfim, relaxando. Depois de tanto frio, aproveitar o sol na piscina foi quase que obrigatório. Eu nadei, tomei sorvete, quase morri de asma, substituí nadar por boiar com espaguetes e admirar a lindíssima vista.
E não, eu não estava falando da vista da piscina de borda infinita no décimo oitavo andar. Me referia a Val fazendo yoga e suas posições – não propositalmente – sugestivas. E depois, Val tomando banho de sol em um biquini nada decente.
No fundo eu sabia que a minha noiva só estava por perto por minha causa. Se ainda pudesse dar ordens e sair mandando por aí, certamente teria acabado com a minha graça mais cedo. Ou talvez, sequer deixado entrar na piscina. Mas como eu acabei com o seu reinado sobre mim, ela se contentou em garantir que eu ficasse viva até o fim do dia.
O que não foi tão necessário já que eu fui prudente e fiquei somente pela manhã no sol, passei protetor solar e saí quando senti que iria morrer se continuasse na água. Depois do almoço fizemos amor, eu dormi, a Val foi trabalhar… eu disse que relaxamos à nossa maneira. Nunca que você vai me ver com disposição para fazer qualquer outra coisa que não seja dormir depois de gozar e a minha noiva vai ler e-mails no último dia de recesso.
Para tirar a Val do trabalho, nós fomos passear no parque no fim da tarde. Entende-se por: eu caminhando com o Chloée e limpando seus dejetos pelo caminho e a Val correndo pois aparentemente engordou alguma coisa durante a viagem. Eu, que me julgo conhecedora até das pintinhas mais escondidas da minha mulher, afirmo que isso é pira de Valquíria, pois a única coisa que mudou em seu corpo nas últimas semanas eram os seus seios e para melhor.
Antes de voltarmos para casa, paramos em uma sorveteria gourmet bem São Paulo de ser e eu me tornei o tipo de pessoa que muito julgava: a que mima o pet. Sim, eu comprei um sorvete para cachorro, pois o meu pequeno também merecia.
– Amanhã começa tudo de novo, – comentei tentando me consolar com minha banana split. – Só de pensar em ter que aturar minha chefe de novo… que tristeza.
Val me encarou desconfiada. – Eu sou a sua chefe.
– Eu sei… não deixa de ser chata.
– Tão chata que vai se casar comigo.
Sabe, se tem uma coisa dessa viagem que ainda parece um sonho distante e não me caiu a ficha é o nosso noivado. Toda vez que eu me recordo desse detalhe me vem o pensamento “baralho! A Valkyrie Touchon me pediu em casamento!” e não sei como processar a informação.
Primeiro que, eu vou me casar. Segundo que, eu vou me casar com a Valquíria. Terceiro que, eu vou me casar com a Valquíria e ela sabe disso. Não é apenas um surto meu… ou tudo isso não passou de um sonho?
É um sonho?
Não, não é um sonho. Nós vamos nos casar de verdade.
– Talvez eu seja um pouco masoquista.
– Com certeza. Você já decidiu o que vai fazer a respeito do seu horário?
Por trabalhar apenas meio período, durante as férias da faculdade, eu tenho a opção de mudar de turno temporariamente no RH. Ou seja, se eu quiser, posso trabalhar pela manhã e ter a tarde toda livre.
A Val prefere que eu vá de manhã com ela. Assim nós saímos no mesmo horário de casa, almoçamos juntas e eu teria a tarde inteirinha livre até meu amor sair do trabalho. Parece a melhor opção, mas dormir até tarde também tem seu apelo. Especialmente agora que quero aproveitar as férias da faculdade para voltar para o meu bar no Apex.
– Eu ainda não sei. Poder dormir até tarde é uma chance rara.
– Se você fica bem em estar sozinha pela manhã, eu não vejo problema algum…, mas vai acordar cedo do mesmo jeito.
– Vou? Por quê?
– Você quem quis ter leite. Eu não vou ficar ordenhando para a bonitinha dormir até mais tarde. Ainda mais de manhã que é o pior horário. Nem pensar. Você que arque com as consequências das suas escolhas.
Se tem uma coisa que a Val odeia, é ordenhar o próprio leite. De certa forma eu entendo. Aquilo não parece ser confortável e o barulho me irrita, imagine ela. Então é natural e compreensível que jogue a responsabilidade nas minhas costas. E eu não estou reclamando, pelos meus Valquírios eu acordo até de madrugada.
– Sempre estou disponível para os meus Valquírios, – Val me lançou um olhar sério e fatal. Engoli a seco com medo. – E para o meu amorzinho também, claro.
– Sei.
De volta para casa, eu fui para cama “cedo”. Juntinho com a Val. Não porque eu estava com sono ou com interesse em dormir a qualquer momento. Só sentia falta da nossa rotina de antes e queria continuar mesmo que não fosse mais uma regra velada e que eu tivesse a opção de simplesmente não ir.
– Você não vai mais querer ser o meu neném todas as noites? – Val perguntou cutucando o meu rosto de leve.
Eu estava sentada entre as duas pernas, envolvida em seus braços enquanto me ocupava em beber todo o seu leite. E não, eu não me sentia nada pequena. Ou algo próximo disso.
– Estou começando achar que você prefere quando estou pequena.
Val riu e negou com a cabeça. – Não, ma vie. Eu amo todas as suas versões. Eu só sinto saudades de ter minha petite para mimar todas as noites. Você não está se forçando a ficar grande, está?
– Não. Estou perfeitamente normal.
– Tem certeza? – Afirmei com a cabeça, pois estava muito ocupada com a minha boca para responder agora. – Você vai me procurar quando se sentir pequena, não vai?
Juntei a sobrancelha desconfiada. – Isso ainda é uma questão? Você é a minha linda e maravilhosa maman.
– Assim eu espero, Clarice. Eu vou ficar muito puta se estiver evitando o pequeno espaço ou me esconder esse fato.
– Eu conheço o peso das suas mãos, eu não vou fazer nada… e por falar nisso… eu não tinha uma…
Parei minha fala no meio do caminho. Val parecia seguir a sua vida tranquilamente, por que eu iria a lembrar da longa lista de punições que teoricamente me aguardavam?
– Pode deixar.
– Você começou, agora termina.
– Nada.
– Clarice.
– É que… eu lembrei que… você disse… então…
– Desenrola, ma vie.
– É que eu não quero te lembrar disso. Estou de boa.
Val me observou em silêncio. – Está falando das punições que deveria receber?
– Como você sabe?!
– O que mais você não iria querer que eu lembrasse? – Eu juro que tentei lembrar de algo mais, mas se tinha, eu mesma me esqueci. – Enfim, você não tem mais com o que se preocupar. Você se safou de todas elas. Não vou fazer mais nada, se é o que está pensando.
– Assim tão fácil?
– Em algum momento eu fui difícil para você?
A pergunta me deixou reflexiva. Eu acho que não…
Val é naturalmente paciente, porém comigo, ela é um verdadeiro Buda. Até as vezes que estava brava, não estava de fato brava. Somente uma vez e foi com razão, eu tinha sido a maior idiota e fiz por merecer. Mas ela é tão tranquila e de boa que dá para suspeitar que de fato seja uma Domme.
Mas também, sua atitude me soava um pouco suspeita. Então acabou? Estava tudo certo mesmo? Ela não vai ficar brava comigo depois, vai? Se bem que a Val não é desse tipo de pessoa.
– Não… eu acho que não, – respondi.
– Exactement, ma vie.
Pronto, Valquíria conseguiu instalar uma dúvida na minha cabeça.
Sei que quando se trata de mim, a minha noiva é um tanto benevolente, um doce e amor de pessoa. Mas eu também sei que a Val que eu conheço, não é a mesma que todo o resto conhece. De novo, ela é muito legal e humana com as pessoas. Provavelmente é a única chefe que faz alguma coisa por sua equipe e recompensa pelo trabalho, e não estou falando de uma paçoca de agradecimento.
Mas… se pisar no calo dela, ela irá te procurar até o inferno.
E é justamente por isso que eu tenho certeza absoluta que o Luís nunca mais sairá da prisão. Não porque a justiça do Brasil o manteria por lá, mas sim porque ela provavelmente pagaria as pessoas certas para que nunca aconteça.
Considerando que a principal briga entre a Val e a Margot, era quando minha sogra movia os pauzinhos para a filha facilitando o caminho e a Val ficava puta, sem saber se era de fato boa ou se era a sua mãe. Ou seja, essa treta de rico só deixa claro uma coisa: se subornar alguém o que quer é uma opção, dinheiro não será o problema… nem os escrúpulos. Não que eu veja problema nisso, por mim que deixe ele mofando lá pela eternidade.
Enfim, até a briga das duas é muito coisa de outro mundo para mim, pois se eu dependesse da minha família para subornar os outros, eu estava fodida. Tive que estudar igual uma filha da pulga para conseguir passar no vestibular e entrar numa federal, caso contrário uma faculdade particular iria quebrar minhas pernas. E por fim, a maioria dos meus colegas de classe são tudo classe média alta e com condições para pagar por uma faculdade.
E não, eu não entro nessa lista aí não. Minha mulher é rica, eu sou uma mera camponesa que calhou de noivar com a imperatriz e vive em seu castelo. Seria muita audácia da minha parte dizer que tenho algum direito nisso aqui. Se fizesse isso, seria o próprio Pedro Henrique.
Acho que posso dizer que sou sortuda por ser o amorzinho da minha Val e ter o seu lado mais bonzinho só para mim. Eu não iria querer essa mulher como inimiga… tá maluco.
Quando se pode dormir até tarde, esse é o momento em que seu corpo decide que não, você irá acordar cedo. Foi assim que acordei antes da Val e ainda nem eram seis da manhã. E se não fosse o seu típico horário para despertar, eu iria me dar um tiro de puro ódio.
Pelo menos eu fui ao banheiro e evitei mais humilhações para a minha lista. E ainda fiquei um bom tempo de mimos com a minha mulher na cama, antes d’ela se levantar para seguir a sua vida.
Enquanto Val estava em casa, eu ainda tirei um outro cochilo, mas bastou ela sair de vez para eu acordar e não conseguir dormir mais e ser obrigada a também seguir com a minha própria vida.
Aí, eu me odeio tanto.
Valkyrie
O primeiro dia de trabalho do ano é oficialmente o meu segundo mais odiado dia de trabalho. O primeiro é o retorno das férias. Ficar duas semanas sem trabalhar é ótimo, mas encarar o trabalho acumulado de duas semanas é péssimo, horrível, doloroso.
Eu paro, minhas obras param, mas nem todos os meus clientes fazem o mesmo. Além do mais, uma filha da puta, também conhecida como a eu do passado, me fodeu ainda mais adiando tanta coisa para depois que passei duas horas ouvindo Letícia falar da minha agenda e pendências e eu meu único pensamento era: vou me demitir.
– Acho que você está mentindo para mim, Letícia. Quando foi que eu concordei com isso?
– Em maio do ano passado… depois de meses de negociação.
Claro que isso aconteceu pouco antes de conhecer a Clara. Quando minha agenda ainda era algo minimamente controlável e menos caótica. Caso contrário, se fosse hoje em dia, eu pensaria duas, três vezes antes de aceitar o convite para participar de um congresso.
– E eu tenho mesmo que ir? Você não pode cancelar minha presença?
– No Congresso Mundial de Arquitetos? Que acontece a cada três anos? Eu prefiro me demitir.
Seria uma loucura cancelar só por preguiça de viajar…, mas é que a China é tão longe. Aí, eu odeio ser adulta e responsável.
– E não acabou por aí, esse ano também tem o Conferência Internacional em Brasília do Conselho de Arquitetura e Urbanismo. Você confirmou participação pessoalmente com o presidente da CAU, só para refrescar a sua memória caso me peça para cancelar agora.
– Eu estava bêbada?
– Bem sóbria. E você também pediu para reservar a sua agenda para a London Festival Design e o Salone del Mobile Milano. É para cancelar seus voos e o hotel?
Tanto o festival de design de Londres quanto a feira de design e mobiliário de Milão, embora não sejam direcionados a arquitetura em si, ditam as tendências globais e inovações. Em outras palavras, se eu quiser saber o que está acontecendo no mundo, preciso participar dos dois. E claro, o congresso e a conferencia também.
Nessa brincadeira de tentar me manter uma arquiteta relevante foram quatro viagens longas e chatas. Será que existem eventos assim voltados para casamento? Preciso de repertório para planejar o meu próprio.
Quanto tempo com antecedência precisa reservar o local? Será que precisamos procurar por um já? Se for necessário reformar algo, acho que sim. Preciso de uma cerimonialista urgentemente. Não quero deixar essa decisão para depois e não ter disponibilidade na data que escolhermos…, mas espera aí, qual será a data do nosso casamento?
Valquíria?
Meu deus, nós não temos nem uma data de início de namoro para escolher o mesmo dia. Valquíria você é um desastre! Como pode ter uma coleira com o seu nome e esquecer do básico? Uma aliança de compromisso, namoro. A Clarice não vai querer usar a aliança de noivado no dia-a-dia, nem eu estou usando a minha. E o bracelete? O que eu vou fazer com ele se a minha teimosinha não quis se tornar minha submissa?
Valquíria?!
– Terra para Val – Letícia abanou a mão no meu campo de visão atraindo a minha atenção. – Você ouviu alguma coisa que eu disse?
Sorri sem ter uma resposta para a Lê. – Me manda por e-mail?
– Claro que não, você não vai ler. Ao menos não a tempo hábil. Você costumava a não me dar tantas dores de cabeça, está querendo competir com a Amanda esse ano?
– Talvez.
Letícia provavelmente era uma das poucas pessoas que lidava comigo sem tratamentos especiais. Talvez por ser basicamente minha “babá corporativa”, Alexa, agenda e calendário, ela tenha um pouco de liberdade para me dar umas broncas eventualmente. Afinal, nosso trabalho é uma troca de balas. Eu a ferro e ela me ferra de volta.
E nessa disputa de quem fode mais com a outra, nós temos um pacto silencioso: ela não me fode e eu não a fodo de volta. Assim seguimos ambas felizes e em paz. Talvez seja por essa razão que a Letícia foi a única secretária que aguentou permanecer no cargo mesmo trabalhando diretamente comigo.
Sério, se a Letícia se demitir eu surto!
– Eu tenho uma missão especial para você, – comecei assim que terminamos de tratar da minha agenda e pendências.
– Iiih, lá vem… o que vai inventar agora?
– Eu preciso de uma cerimonialista. A melhor de São Paulo… do Brasil. Não importa o valor. Eu só preciso que seja a melhor.
– E não pode ser a mesma que já faz os seus eventos?
– Não. Ela não faz casamentos e eu quero uma que seja especialista em casamentos. De preferência só trabalhe com isso.
Letícia me observou com um olhar de julgo. A encarei de volta sem saber o que se passava em sua mente. Não acho que o que pedi seja impossível. Ela está acostumada comigo afinal.
– Você e a Clarice vão se casar?!
– Sim… não! Espera, o que?! – Fiz uma careta confusa. – De onde você tirou isso?
– Vocês duas não tentaram esconder quando estavam se pegando na boate e desde então acompanhamos essa saga de perto para saber quem vai ganhar o bolão.
– Um bolão?
– Fazer apostas sobre a sua vida é o nosso passatempo favorito, sabe muito bem disso.
Revirei os olhos.
Eu nunca entendi qual a graça em apostar para saber qual a cor da roupa que vou usar ou fazer bingo das minhas reações, porém, é algo que os bestas que trabalham para mim adoram fazer. No entanto, faz um tempo que não fico sabendo dessas apostas bobas.
– Só vocês duas acreditam que ninguém mais sabe desse relacionamento, – Letícia continuou. – Parte do nosso trabalho aqui virou encobertar as duas para que esse segredo não vá parar nos ouvidos e olhos das pessoas erradas. E sinceramente, não tem sido algo fácil. As duas não são nada discretas…
– Desculpa?
– Enfim, vamos falar do que importa: quando será o casório?
– Depois da graduação da Clarice em dois anos.
– Se tratando de você, esse é o tempo ideal para planejar algo, – viu só? Ela me entende! – Certo, eu vou encontrar a melhor cerimonialista para esse casamento. Mas se não me convidarem, eu vou parar de encobertar as duas!
– Você será convidada, pode ter certeza.
Letícia iria dizer algo, porém o toque na porta atraiu nossa atenção. Era a Paola do RH… nada contra, mas sua presença por aqui nunca é um bom sinal.
– Está muito ocupada, Val? Tentei ver a sua agenda, mas não consegui acessar.
– Estava tentando evitar vocês, – Letícia respondeu por mim. – Mas já que está por aqui, eu vou comprimir minha missão. Com licença.
Letícia saiu e Paola ocupou o seu lugar na cadeira a minha frente. Prendi a respiração esperando para ouvir a minha nova dor de cabeça, pois se o RH me procura é só para tirar a minha paz.
– Então… o que te traz por aqui hoje, Paolinha?
– Vim falar sobre a sua estagiária, Clarice.
– Ah, meu deus. O que ela aprontou?
– Por que toda a vez que venho aqui acha que vim trazer notícias ruins?
– E você vem para outra coisa?
Paola riu. – Sim. Eu te trago novos chás quando encontro.
– Tem razão. Mas enfim, o que tem a Clarice?
– O escritório tem um acordo com a faculdade. O programa de estágio é aprovado por eles e é dividido em etapas. Clarice já concluiu uma delas e agora é necessário seguir para próxima. Em outras palavras, terá que escolher um novo estagiário, pois a sua irá para outro departamento… eu sei que odeia que mexam na sua equipe, foi por isso que vim pessoalmente.
– Que bom que você sabe que eu odeio, porque não vou mudar.
– Como eu disse, temos um acordo. A rotação já era para ter acontecido no ano passado, mas por conta do período que ela ficou internada, nós adiamos.
– Eu odeio você, Paola.
Ela riu achando que estava de brincadeira, mas é sério. No momento eu a odeio. Como ousa querer tirar minha pequena de perto de mim?
– Você sempre pode fazer como o Martin e o André e eventualmente avaliar os estagiários. Assim ainda continuará trabalhando com a Clarice e todos os demais.
Deus me livre… esses dois só se envolvem com esse bando de acéfalos por estarem interessados em caçar moças mais jovens. Eu já não tenho tempo para fazer meu próprio trabalho e agora vou ter que ficar de olho no trabalho dos outros para que nenhum filho da puta tente caçar a minha noiva.
– Tem algo que eu posso fazer para evitar essa transferência? Eu já tenho projetos que envolvem a Clarice. Não estou afim de mudar meus planos.
– Outro estagiário pode ocupar o seu lugar.
– Outro estagiário terá habilidades diferentes…
Para não dizer outras palavras.
– Você realmente não quer mexer com a sua equipe, não é mesmo?
Se a Paola soubesse que o que me impede de me demitir nesse exato momento é justamente o fato da minha noiva estar aqui. Quando esse estágio obrigatório acabar, eu quero distância de qualquer empresa associada a Hélène. Talvez eu abra o meu próprio escritório. Enfim, não sei. Dois anos para decidir.
– Eu vou ver o que podemos fazer que não prejudique o estágio e a graduação da menina.
Era tão estranho ter dias de absoluta paz com Clarice. Dirá lá uma semana inteira.
Impossível não estar desconfiada de algo. Ou será eu que estava errada? Clarice estava dormindo um pouco mais tarde, mas compensava pela manhã. Fazia todas as suas refeições e estava se saindo muito bem. Surpreendentemente bem.
Nessa história, só quem se fodeu foi eu. Fiquei sem a minha petite manhosa e dengosa todas as noites para lidar com uma jovem cheia de energia que só quer saber de transar. Atualmente, o único o interesse de Clarice em mim é sobre sexo. Sexo e peitos. E eu nunca me senti tão errada – e estranha, – por estar revoltada com isso.
Às vezes só quero trazer meu neném para mim e penso que com o tetê vou a fazer regredir, mas ao invés disso, lhe acende um fogo e me sinto de volta lá no início em que fazíamos em qualquer oportunidade e ainda assim só namorávamos em minha cabeça.
– Giovana, nós precisamos conversar! – Eu disse ao entrar em sua sala. Minha intenção era buscar apenas um chá para relaxar e então me lembrei que a sala da minha amiga era próxima. – Você está bem? Está com uma cara péssima!
Gio revirou os olhos e ignorou totalmente minha pergunta. – O que você quer, Touchon? Não me diga que já arrumou encrenca para eu lidar.
– Por hora ainda não, – dei um gole no meu chá para apreciar a sensação de alívio e tranquilidade de não ter encrencas pendentes. – Quero falar de outro assunto com você.
Giovana parou o que fazia para me observar sentar na cadeira a frente da sua mesa. – Não tem nada a ver com trabalho, tem?
– Também não.
– Aí, vamos, desembucha – ela fechou a pasta com alguns documentos que estava sobre sua mesa e cruzou os braços sobre ela. – Você quem paga meus honorários fora dessa empresa, então foda-se. O que está se passando pela sua cabeça oca?
– Clarice não quer mais saber de mim.
– O que? Mas vocês não estão recém noivadas? O que aconteceu?
– Como maman… de resto nós vamos muito bem, merci.
Giovana ficou em silêncio processando o que ouviu. – Ela não quer mais regredir?
– Aparentemente não. Essa garota só quer saber de transar!
– Eu vou ligar para um médico, – ela disse tirando o telefone fixo do gancho. – Você só pode não estar bem. Doente. Não sei… você não tinha batido a cabeça em Paris?
– Que porra é essa, Giovana? O que está fazendo?
– A Valquíria que eu conheço nunca iria reclamar disso. Se você é a verdadeira, deve estar doente.
– Eu não estou reclamando sobre isso… em partes. Eu só sinto saudades da minha neném. O que há de errado nisso?
Giovana devolveu o telefone para o gancho e deu seu típico sorriso de quando irá dar uma notícia que não queremos ouvir. – Então, né amiga… acontece. Tem vezes que elas não querem regredir por algum motivo, um bloqueio que fique no meio do caminho e é preciso retirá-lo. E têm outras vezes que elas só não estão afim mesmo e aí você chupa dedo e espera. Mais cedo ou mais tarde terá a sua piccola…
– Petite – a corrigi.
– Sua petite de volta. Agora para de se estressar por isso. Você tem problemas reais para lidar e está fazendo a Kátia. E o processo do Pedro? Vai mesmo não querer saber nada a respeito?
– Eu tenho um casamento de verdade para me preocupar. Não vou perder o meu tempo com um oportunista que está tentando conseguir algo alegando união estável. Eu nunca tive união estável com esse desgraçado. Nunca sequer moramos juntos.
E sim. Essa era a nova jogada do Pedro Henrique. Uma ação para reconhecimento e dissolução de união estável com partilhas de bens, como se o fato de morar sozinho em um imóvel meu fosse o suficiente para alegar isso.
A Clarice com bem menos tempo de relacionamento comigo teria mais direto que ele. Mas enfim… eu não vou nem me perder o meu precioso tempo.
– Considerando o período em que estão separados, a prova viva da traição e a diferença considerável em patrimônios, o juiz precisa ser muito filho da puta para dar vitória ao Pedro. Mas enfim, vamos deixar esse caso rolar. Quando acabar, nós devolvemos a ação com danos morais e ainda coloco nas custas dele os honorários dos dois processos.
– Viu só, é para isso que eu te pago.
Confio tanto na Giovana que até em casos em que ela não atua, prefiro que seja responsável por encontrar a pessoa certa para o caso e a acompanhar. Normalmente quando ela está envolvida, eu só assino os papéis. É a única que consegue minha assinatura sem que antes eu leia.
Em outras palavras, se ela quiser me dar um golpe será a coisa mais fácil do mundo.
– Já sabem o que vão fazer com os quadros da mãe da Clara? Os advogados da senhora Touchon mãe estão me cobrando a respeito. Me parece que para trazer as peças terá todo um rolê e dor de cabeça aduaneira.
– Não sei, será melhor perguntar diretamente para ela. O que a Clarice decidir, eu apoio.
– E a Lamborghini do traste? Vai ficar de presente para a senhorita Touchon-interina.
– Ferro velho.
– Está falando sério?!
– Quer para você?
– Não! Quem me garante que esse carro não está todo adulterado para quem quer que seja dirigir isso sofrer um acidente?
Encarei Giovana um pouco assustada. – Eu não tinha ido tão longe com meus pensamentos. Agora você me deixou paranoica, obrigada.
– De nada.
– Depois dessa siga com os meus planos: ferro velho. E me avise a data, quando esse merda virar sucata quero que o Pedro Henrique assista e sofra.
Até hoje nunca entendi a fascinação daquele homem por esse carro. Para mim, carros servem apenas como meio de locomoção. Para o infeliz, aquela Lamborghini era quase um objeto sagrado a ser venerado. Bem, agora irá virar sucata em ferro velho.
Eu estou com ódio desse filho da puta. Ainda não sei se estou mais irritada por ter feito complô com Hélène ou por agora tentar tirar algum dinheiro de mim me processando.
Mas eu não vou me estressar. Nos próximos dois anos, a única coisa com o potencial de me tirar a paz é o planejamento do meu casamento de verdade.
