« V A L K Y R I E »
Acordei sentindo um vazio ao meu lado na cama e estranha leveza em cima de mim. Normalmente eu durmo agarrada com a minha namorada e de alguma forma acordo com ela em cima de mim. Hoje, porém, não havia nada.
Por um momento achei que Clarice só estivesse na outra extremidade da cama, no entanto, apalpei todo o espaço e não havia nada. Clarice não estava aqui.
– Ma vie? – A chamei ainda sonolenta pensando que poderia estar no banheiro, mas não tive resposta. – Clarice?!
O silêncio me obrigou a levantar a contragosto para procurar a minha pequena. Se essa garota estiver aprontando logo cedo, o castigo será em dobro!
– Bébé! Cadê você? – Verifiquei no closet e no banheiro. – Nada… onde se meteu essa garota?!
O celular dela não estava sobre a mesinha de canto, então resolvi ligar. Depois de tocar três vezes, Clarice finalmente me atendeu.
– Alô? – Clara soou confusa ao me atender.
– Clarice, onde você está?
– Em casa(?) – Sua resposta me pareceu mais uma pergunta que uma própria afirmação.
– Em casa onde? Por que não está no quarto?
– Como você sabe que eu não estou no meu quarto? Está me espionando ou algo do tipo?
– O que?! Do que está falando, garota?! Eu te procurei no quarto e não te encontrei, – impaciente, eu liguei por chamada de vídeo e Clara atendeu. – O que você fez com o seu cabelo?!
Não estava feio, longe disso. Clarice de franja fica fofa e ainda mais com luzes, ela estava linda como sempre. Mas era estranho acordar e a ver tão… diferente. E não era só o cabelo. Será que eu perdi alguma coisa?!
– Eu cortei, – Clara disse como se fosse a resposta mais óbvia do mundo e revirou os olhos. – Já é a segunda vez.
Eu iria questionar algo a respeito disso, mas minha atenção se desviou para o ambiente atrás de Clarice. Ela disse estar em casa, mas essa não era a casa dos meus pais, nem a nossa. Na verdade, eu não fazia ideia de onde ela estava.
– Clarice, onde você está?
– Eu já disse, eu estou em casa… na minha casa – Clara fez uma careta levemente irritada. – Nós conversamos sobre isso antes. Já faz um tempo que eu voltei para casa. Uns anos para falar a verdade.
– Mas…, mas… como isso é possível? Que tipo de pegadinha é… foi ideia do Bruno, não foi? Onde você está de verda…
Uma voz feminina surgiu no fundo. Feminina e desconhecida.
“Meu bem, cheguei. Vou tomar um banho… você vem comigo?”
A pior parte não foi ouvir isso. Poderia ser para qualquer pessoa. Seja onde quer que seja, Clarice poderia não estar sozinha. Mas a filha da puta respondeu… e na minha cara!
– Pode ir na frente, eu estou no telefone – Clarice respondeu e então foi para o que parecia ser a varanda do apartamento.
– O que significa isso?! Quem é essa mulher?!
Clara suspirou cansada e impaciente. – Eu sei que eu disse que iria esperar por você e esse seu casamento de faixada, mas… já tem uns anos que não sei mais se isso ainda é uma faixada ou se você e o Pedro estão juntos de verdade.
– Como é que é? Está maluca, Clarice?! O que foi que andou usando? Eu não tenho interesse nenhum no Pedro Henrique e nunca vou me casar com ele! Quantas vezes vou ter que te dizer isso? E você não respondeu sobre essa mulher!
– Valquíria… vocês já se casaram. Há seis anos para ser mais exata. Eu não sei o que deu em você por aí para querer me ligar essa hora, talvez uma crise de meia-idade, ou a maternidade não tenha feito bem para a sua cabeça, sei lá, mas tem três anos que não nos falamos mais. Você não faz mais parte da minha vida…
Seis anos? Maternidade?! Que porra…
– A mulher que ouviu é a minha noiva, – Clara continuou, – ela entrou para a minha turma nos últimos anos da faculdade. Eu não esperava que algo fosse acontecer entre nós, mas aos poucos ela foi preenchendo o vazio que você deixou e quando me dei conta, sua ausência se tornou indiferente.
– Clarice…
– Nós vamos nos casar no próximo mês – ela me ignorou continuando a falar. – E eu espero que você entenda e não tente interferir. Você teve todos esses anos para me procurar, agora eu quero que me esqueça.
Clarice encerrou a chamada e de repente estava na minha cama outra vez, enrolada na minha coberta, exatamente como tudo aconteceu.
Ao meu lado, Clarice dormia feito uma estrela do mar ocupando todo espaço possível, abraçada ao seu doudou novo e a chupeta prestes a cair de sua boca semiaberta. Desconfiada, eu peguei suas madeixas. O comprimento ainda era o mesmo e nenhum sinal de franjas. O tom loiro e natural estava intacto. Nada estava diferente de quando fui dormir.
– Ma vie? – Toquei de leve em sua barriga, Clara resmungou e se virou para mim.
Para quem me pediu para a esquecer, ela estava se agarrando demais a mim. Por um momento pensei até que fosse pedir o tetê da manhã, mas alguns segundos de pepeta foi o suficiente para voltar a dormir.
Ainda era muito cedo para querer acordar a minha pequena. Para ser honesta, ainda era muito cedo para que eu estivesse acordada, mas seria impossível dormir depois de um pesadelo tão real como esse.
Por real e palpável o que via a minha frente agora, minha mente tinha dificuldade para raciocinar e entender que tudo não passou de um pesadelo, por mais horrível que tenha sido. Não quero encher a minha mente de paranoias, mas putain!
De todas as coisas, não sabia dizer o que foi pior: as duras palavras de Clarice, saber que fui trocada por uma novata qualquer da faculdade, estar casada com o idiota do Pedro Henrique há seis anos, aparentemente mãe de um filho dele ou três anos sem contato com o verdadeiro amor da minha vida.
Minha única certeza a respeito de tudo isso é que eu não quero que essa seja a minha realidade. Ficar parada e esperar não é uma opção, tenho que fazer algo a respeito. Eu não vou permitir que nada desse pesadelo aconteça.
Eu preciso de um chá!
Levantei cuidadosamente e fui direto para cozinha. Meus pais já estavam lá. Os dois sempre tiveram essa mania de acordar extremamente cedo para tomarem café da manhã sozinhos e depois voltarem a dormir ou seguir com o dia. Não que eles precisem de uma refeição só dos dois para demonstrarem carinho e afeto, eles fazem isso na frente de todo mundo.
Ainda está para existir um casal mais romântico e apaixonado que os meus pais. E ele será Clarice e eu.
– Hmm, me parece que alguém caiu da cama hoje – papai comentou. – Está de ressaca, meu amor?
– Ressaca? Não. Minha dor de cabeça tem outro motivo.
– Você e a Clara ainda não se entenderam? – Minha mãe perguntou preocupada.
Eu deveria me questionar como ela sabia que Clara e eu não estávamos nos melhores termos, mas era a Margot. O que poderia esperar?
– Não, não é isso. Quer dizer, em partes… eu tive um pesadelo essa noite. Um pesadelo tão horrível e real que me deixou preocupada… preocupada, ansiosa e agoniada.
– Você quer falar a respeito?
Falar a respeito seria repetir em minha mente tudo que aconteceu, então não. Eu não queria falar do pesadelo. No momento, quero me agarrar a tudo que faça a minha mente entender que estou acordada agora e essa é a minha realidade.
Na verdade, eu estava sozinha com os meus pais agora… era justamente o que eu precisava.
– Tem outra coisa que eu quero falar agora.
– Ah, pronto… já vi que aí tem.
« C L A R I C E »
Acordei e nada da maman na caminha com eu. Será que ela esqueceu que tem que dar o tetê do neném e foi embora?
Não, Clarice bobinha! A maman num ia embora e te deixar na casa da Magô e o Nando! Ela nem é doidinha assim. Imagina só se eu faço um caos por aqui só para ela voltar… num é uma ameaça, mas se esse for o único jeito de ter minha maman comigo, eu num vou pensar duas vezes.
Antes de fazer qualquer coisinha que poderia deixar minha maman brava, eu resolvi procurar por ela como qualquer pessoa normal faria. Nem precisou muito para perceber que no quarto ela não estava. A maman tem ouvidos super biônicos e teria me ouvido chamar se estivesse aqui.
Vestida com todas as peças do meu pijama e abraçada ao meu doudou, decidi me aventurar pela casa em busca da minha maman. E não, minha aventura não foi fazer arte por aí. Poderia ser…, mas eu não tive coragem de descer as escadas.
Não estou em condições de causar mais encrenca para o meu lado.
– Val?
Eu chamei do topo da escada. Pelas vozes vindo de algum lugar perto, sabia que se a minha maman estivesse no meio da conversa ela iria me ouvir. Ela sempre me ouve.
– Ma vie?
Num falei… ela tem superpoderes.
A maman veio da direção da cozinha e me deu um sorriso ao me ver. – Oi, meu amor. Vem cá. Estamos tomando café.
Sem pensar uma única vez, eu desci as escadas para encontrar a maman e me jogar em seus braços para um abraço bem apertado. Por incrível que pareça, já estava com saudades.
– Eu já ia te acordar, bébé. Você dormiu bem?
– Uhum! O que tem de bom para comer? Eu tô com mó fome!
– Novidade… eu acabei de cortar umas bananas para você.
– Nanana!
Fui para a copa onde sabia que estavam os demais tomando o café e lá estavam meus sogros com um olhar curioso e um típico bom humor – até para a Magô – que deve ser o padrão em casa. Se bem que… a maman também é assim. Ela só parece má em locais públicos, no apê ela é um docinho.
– Bonjour, Clara! Dormiu bem?
– Dormi, dormi sim e você?
– Muito bem. Come o seu café, o croissant ainda está quentinho.
Eu descobri nessa viagem que croissant é bom com tudo. Quase uma tapioca que você come com recheio salgado ou doce e é uma delícia de qualquer jeito. Mas por incrível que pareça, o que eu mais gostei de comer foi os queijos do prato da maman.
Se eu soubesse que alguns deles eram tão bons, eu teria comido antes.
Queijinho com geleinha então… e se eu colocar dentro do croissant também?
Teria comido mais uns três croissants com recheios diferentes, mas a maman discretamente trocou o meu prato pela minha cumbuquinha com frutas e iogurte. Tinha até esquecido das frutas… eu num quero comida saudável, eu quero croissant com chocolate!
– Quero croissant com Nutella… – pedi bem baixinho a maman, – e morango, – acrescentei a fruta, vai que isso amolece seu coração.
– Você já comeu um desse, ma vie. Coma suas frutas primeiro e eu vou pensar no seu caso – a maman respondeu concentrada em montar sua própria torrada.
Olhei rapidamente para a Margot e cogitei por três segundos em pedir a ela o croissant, mas logo lembrei que teoricamente tenho palmadas me esperando essa noite e não quero piorar a minha situação.
– Tá bom…
Eu sabia que iria conseguir qualquer coisa se usasse a mamãe da minha maman. Bastava mencionar o meu desejo e pronto, teria não só o croissant com Nutella, teria o pote inteirinho só para mim para comer como bem quisesse…, mas o preço disso seria alto… muito alto. O plano daria certo agora e mais tarde, quando estiver só a maman e eu em Paris, o bumbum iria esquentar e eu num quero isso não.
Melhor resistir as tentações da carne.
– Pronto, frutas comidas com sucesso – mostrei a cumbuca vazia para a maman e coloquei de lado para liberar o espaço a minha frente, – agora posso comer o meu croissant.
– Você ainda quer?
– Sim, eu quero croissant com Nutella – dessa vez eu não fui tão discreta para manter a conversa só entre nós duas e deu certo. Margot que estava ouvindo o Nando falar, olhou para mim.
– Tu veux plus de croissant, Clara? (Você quer mais croissant, Clara?)
– Oui, avec du Nutella! (Sim, com Nutella) – sorri.
Margot fez uma careta surpresa por uma fração de segundo por ter respondido em francês. Foi necessário? Não, mas eu sabia que ela iria ficar contente e agora, nem se a maman encher o saco, vai conseguir tirar o croissant de mim.
Eu sinceramente esperei que a Margot fosse me passar o croissant, o pote de Nutella e assim eu poderia eu mesma fazer, mas para a minha surpresa – e constrangimento – ela não fez isso. Entenda uma coisa, a Valquíria preparar a minha comidinha é normal. Ela é a minha maman e de fato gosta de fazer essas coisas. Mas a Margot??? Isso era tão errado!
Era como se eu estivesse pedindo a rainha Elizabeth para me servir um pão…
– Você quer mais Nutella?
– Non, elle n’en veut plus. Ça suffit. (Não, ela não quer mais. Assim é o suficiente) – a maman respondeu por mim.
O que não era verdade. Eu não iria reclamar se colocasse mais.
Margot me estendeu o prato com o croissant com Nutella. Nós estávamos em diagonal em uma mesa extensa. O que Fernando e a Valquíria fariam tranquilamente, Margot e eu, duas baixinhas e de braços curtos, precisaríamos de ajuda. Para alcançar o prato, eu me inclinei um pouco para frente e me sentei de volta.
Foi um movimento muito rápido e não seria a primeira vez que fazia isso. No entanto, dessa vez, ao me sentar esbarrei o braço na cumbuca. Minha reação imediata foi segurar minha cumbuca, correto? Correto. O problema é que ao fazer isso, bati a mão no copo de suco da Bluey que virou na mesa e foi parar no chão.
O meu copinho personalizado agora era alguns cacos de vidro no chão.
Demorou alguns longos segundos para o meu cérebro processar o que tinha acabado de acontecer. E quando processou, minha única reação possível foi: chorar. Chorar como se o que tivesse quebrado fosse um dos meus ossos.
Eu amava o meu copinho! Ele era especial para mim e significava muito mais que um copo com um desenho fofo da Bluey e a Bingo juntas.
– O meu copinho… quebrou o meu copinho!
– Meu amor, calma. Respira fundo, não chora – a maman tentou me consolar acariciando a minha perna. – Nós compramos outro para você.
– A Val tem razão, nós podemos comprar outro igual, não se preocupe com isso – a Margot disse.
– Mas esse copinho é especial! É único! Num tem outro igual!
– Nós mandamos fazer.
– Num é a mesma coisa! Num é!
O que tornava o meu copinho da Bluey especial não era o fato de ele ser da Bluey e sim por ter sido um presente que os meus sogros escolheram para mim. Tinha amor e carinho esse copinho e agora ele quebrou!
E não durou nem um dia direito! A Magô e o Nando vão ficar muito bravos comigo! Eles num vão mais gostar de mim!
– Bébé, é só um copo. Está tudo bem, – a maman disse.
– Num é só um copo! É o meu copinho! É o meu copinho!
Será que ninguém me entende? Será que ninguém consegue ver que não é sobre ter um copo igual ou não? Eu quero esse copinho. O copinho que eles escolheram para mim!
– Vem cá, meu amor. Vamos para o quarto para você se acalmar um pouco, d’accord?
Eu olhei para a maman, olhei para o que restou do meu copinho, olhei para a maman outra vez.
– Não se preocupe com o seu copinho. Vamos para o quarto.
Não queria ir, queria juntar os cacos do meu copo e tentar salvar ao menos o deseinho que era muito fofo, mas a maman estava com uma cara séria e querendo ou não, eu estava fazendo uma cena na frente dos pais dela.
Pronto, a maman está brava com eu e quer levar o neném para o quarto para deixar de castigo.
Com medo de deixar a maman ainda mais brava, eu aceitei a sua mão para ir para o quarto.
– Deita na cama, – ela mandou assim que entramos.
Eu quis protestar e reclamar, mas se já ia levar palmadas, tentar evitar agora iria apenas piorar a situação e até aumentar o número que iria levar. Sofrendo internamente eu fui para cama e sentei esperando pela maman.
A Val trancou a porta e veio até a mim. Com a porta trancada ninguém iria nos interromper e salvar o meu bumbum. Eu tô muito ferrada.
– Por que está sentada aí, ma vie? Eu disse para deitar. Vem cá – a maman disse se deitando na cama e eu estranhei.
– Você vai querer fazer isso deitada?
– Oui, a cama é mais quentinha. Está um pouco frio aqui, não acha?
– Sim, mas…
Okay… a maman que sabe.
Eu deitei ao seu lado esperando receber a primeira, mas ao invés de tirar os meus shorts, a maman tirou a alça do próprio pijama. Ela estava me dando tetê… ah, então era isso? Não vai ter palmada por ter quebrado o presentinho dos meus sogros?
Você acha que eu fiquei parada olhando sem entender nada? Nem pensar, abocanhei o meu tetê e aproveitei que estava sendo oferecido.
– Você não mamou essa manhã e depois da noite toda sem esvaziar, te ouvir chorando estava me fazendo a começar a vazar.
Isso significa que toda vez que eu chorar vou ter tetê? Bom saber…
– Enfim, eu sei que está triste pelo seu copinho. Mas nós vamos dar um jeito nisso, okay? Eu também estava desconfiada que louça de vidro e porcelana não fossem lá uma boa ideia, mas eu não poderia esperar algo diferente vindo da minha mãe.
– Ela num tá brava com eu?
– Foi um acidente, meu amor. Ninguém vai ficar bravo ou brigar com você por isso. O importante é que não se machucou.
Ah é… às vezes esqueço que a maman e a família dela não são como a tia Lúcia.
– Agora termina de mamar o quanto antes. Temos pouco tempo para voltar para Paris para encontrar o comprador do seu quadro.
Tinha até me esquecido desse rolê de hoje. Só espero que a maman não tente comprar o quadro de volta, senão vou ficar boladona com ela!
Não enrolar no tetê era uma tarefa muito difícil, mas eu consegui. De buchinho cheio e bem mais tranquila, me arrumei junto com a maman para pegarmos a estrada. Eu soube quando estávamos prestes a sair que a Margot viria conosco. Me parece que ela se convidou no momento que soube dos nossos planos de ver presencialmente o quadro que fiz.
Sinceramente achava bem estranho esse interesse todo em um quadro que fiz em pouquíssimo tempo. Eu poderia fazer um bem melhor se ela quisesse, mas enfim, deixe as Touchon com suas loucuras para lá.
Fernando, Bruno e Leopoldina tinham outros planos e de certa forma estava contente com isso. Seria muito estranho surgir com uma caravana inteira… eu mesma me sentiria envergonhada e tímida. Como já disse, não era uma obra incrível e maravilhosa, não havia necessidade de tudo isso.
Nós ainda paramos para almoçar em um restaurante bem menos chique que o outro que fomos. Acho que nunca vou me acostumar com o fato de almoçar acompanhada da minha namorada e sogra ser um evento “corriqueiro”. As duas pelo menos estavam na maior naturalidade enquanto na minha cabeça eu estava “baralho, estou almoçando com a minha namorada e a minha sogra e ela sabe do nosso namoro”.
Muito louco a sensação, recomendo!
– Marcaram em uma cafeteria? – Margot perguntou ao chegarmos no local combinado.
– A casa onde está o quadro é aqui por perto. Optamos por nos encontrar em público primeiro por segurança.
– E por que não na galeria?
– Porque não estamos aqui para fazer negócio, – Val me olhou e eu entendi o recado. Não vamos recomprar o meu quadro. – Ele me enviou um e-mail, disse que está nos aguardando dentro do café.
Dei uma olhada ao redor a procura de um rosto familiar e encontrei o cara que comprou o meu quadro sentado em uma mesa numa parte mais reservada, ao lado da janela. Assim que nos aproximamos, o homem se levantou para nos cumprimentar.
– Olá, George. Eu sou Valkyrie Touchon, nós conversamos por e-mail – Val se apresentou. – Essa é minha mãe, Margot. E Clarice, minha namorada, que você já conhece.
– Sjors… hoe lang. Hoe is het met je gegaan? – Margot meteu um alemão (?) no meio do rolê que até a Val a encarou confusa.
O pior foi o próprio George responder na mesma língua e eu sem entender um baralho. Pensei que a Val estava tão confusa quanto eu, porém ela entrou na conversa usando a mesma língua. E eu nem sabia que ela sabia falar outras línguas… todo dia descobrindo algo novo.
– O Sjors é um velho conhecido, – Margot se explicou para mim. – Já comprou vários quadros nos meus leilões.
– E pensar que eu achei que havia encontrado um talento antes que você, Margot – George respondeu em inglês e meu cérebro já estava dando um nó. Quantas línguas vamos usar hoje?
– Eu não tenho a minha fama por acaso, Sjors, – Margot me abraçou de lado. – Clarice não é só um talento que encontrei. Ela também será a minha nora.
Eu vou ser? E eu já não sou de certa forma?
Será que eu estou um patamar abaixo do que esperava?
– Aceitam um café? – George ofereceu.
Sentamos a mesa e a conversa que eu imaginava que seria bem mais constrangedora, até que fluiu bem. Bom, ao menos para Margot e o George, pois os dois estavam engajados em falar sobre alguns artistas plásticos que Val e eu não fazíamos ideia de quem foram ou são.
Na verdade, estava em dúvida se o silêncio da Val era por realmente não ter muito com que engajar ou se era ciúmes da sua mãe de conversinha com outro homem que não seja o seu pai.
Com certeza tinha uma diferença de idade entre os dois. Eu não sei exatamente idade da Margot, mas considerando que a Val tem 32, a Margot pode estar na casa dos 55 a 65 anos com aparência de 50 ou menos. Sério, a Margot é uma Barbie!
O George deve estar na casa dos 40, chegando nos 50, mas… essa também é a faixa de idade do Fernando. Então…
– E de onde vocês se conheceram? – Val perguntou no meio da conversa em um tom quase hostil.
É, a filha do Fernando entrou em modo total defensora do casamento dos dois. Não que existisse sinais ou clima entre os dois, aposto que nem o próprio Fernando ficaria assim, mas a Val é possessiva e ciumenta que não sabe disfarçar.
– Não sei dizer, foi em alguma exposição de arte em algum lugar do mundo. Foram tantas, eu já não me lembro mais – George respondeu tentando soar o mais simpático possível.
– Nós basicamente nos encontrávamos de exposição em exposição.
– Já fazem alguns anos que não nos víamos, não é mesmo? Uns dez, quinze anos. Estive na sua galeria algumas vezes, mas nunca te vi por lá.
– É porque ela está ocupada com a outra empresa que tem com meu pai, o marido dela. – Val fez questão de deixar claro seu pai existe, está vivo e trabalha com sua mãe. Juntos. Como um casal feliz.
– Esse cappuccino está uma delícia. Tem Bailey’s. – Cortei o assunto para dar uma amenizada no clima que a Valquíria estava criando. – Bom demais!Quer provar, amorzinho?
– Você quer outro? – George ofereceu, mas não espero minha resposta. Simplesmente aproveitou que o garçom estava passando perto e pediu mais um.
O capuccino com Bailey’s era bom, mas não tinha nada excepcional. Só era gostoso. Não fazia questão de mais um, porém, não tive muita escolha. Toda vez que Val não conseguia conter seu ciúme de filha, eu fazia um comentário a respeito mudando ou cortando o assunto.
Graças a isso, até finalmente decidirmos sair da cafetaria, eu já tinha tomado QUATRO cappuccinos com Bailey’s. A ponto que já estava começando sentir o efeito das doses de álcool no meu sangue.
A casa onde estava o quadro que pintei era realmente muito próximo ao café. Tão próximo que demoraria muito mais entrar em um carro, sair da vaga, ir até a casa, estacionar, do que simplesmente caminhar.
Sem sombras de dúvidas, esse cara era rico. A sua casa não era nada comparada a casa dos meus sogros em Épernay que exala riqueza pelas paredes, mas também não era algo para qualquer um ter acesso.
– Eu pedi que retirassem o quadro da parede para que pudessem ver, – George se explicou. O quadro que pintei estava em um cavalete no meio da sala. Emoldurado com algo que provavelmente era mais caro que o quadro em si, mas tudo bem. – Sem dúvidas, foi a obra mais bonita de toda oficina. Os traços de Clarice me lembram algumas outras obras que tenho em casa.
– Você teve sorte que eu não estava por lá e Valkyrie e eu tivemos que atender a outra evento, ao contrário, você não teria esse quadro em sua casa.
– Não seja cruel, Margot. Você tem a artista na sua casa.
Por um momento pensei que a Val iria dizer algo como “na casa onde também está o meu pai” ou “meu pai também sabe fazer lindas obras, eu estou aqui de prova” ou sei lá, mas felizmente ela estava interessada demais em ver o quadro que pintei.
– Eu estou ainda mais brava com você por ter vendido isso aqui, – Val comentou somente para mim. – Como teve coragem?
– Você sabe que se eu seguir o caminho que quer, todos meus quadros serão vendidos como esse, não sabe?
– Não se eu comprar primeiro.
– Você está proibida de comprar meus quadros, – Val me encarou incrédula e ao mesmo tempo confusa. – É sério, Valquíria. Se depender de você, irá virar a minha única cliente para o resto da vida e eu não quero isso. Iria me sentir uma sugar baby e não uma artista de verdade.
– Está me dizendo que eu não vou poder ter mais nenhum quadro seu na nossa casa?
“Nossa casa”, até parece. Aquele apartamento é tudo, menos meu. Jamais teria coragem de dizer uma coisa dessas. Aquele imóvel deve pagar minha existência nessa Terra.
– Eu posso pintar outros se quiser. Mas serão presentes meus. Não algo que você comprou.
– Quando é que você vai parar com essa frescura de não querer parecer interesseira ou minha sugar baby? – Val cruzou os braços e revirou os olhos. – Tem noção o quão frustrante é toda vez que você me impede de fazer algo com a desculpa de não querer gastar dinheiro? E o que mais eu vou fazer com o dinheiro? Eu queria esse quadro para mim e tenho certeza que iria conseguir comprar de volta, mas não posso, senão irá ficar puta.
– Eu faço outro para você. Muito melhor.
– Mas não será a mesma coisa. Esse é o seu “primeiro” desde que voltou a pintar. Todos os outros que fez antes você vendeu para a vadia da sua ex.
– Esse não é o meu “primeiro”. O primeiro que fiz está lá no seu apartamento e é muito mais bonito e trabalhado que esse aqui.
– Tem razão… ainda assim eu queria o segundo também!
– Você terá o terceiro, ok? O que você quiser.
Val ficou pensativa por um momento com o olhar fixo ao quadro a sua frente.
– D’accord… eu aceito. Tem um lugar que precisa de decoração nova e vou te dar esse trabalho.
Por que eu estava preocupada com essa afirmação? Aí deus…
– Foi um prazer revê-la, Margot. Vamos nos encontrar outras vezes, tenho algumas novas obras que acredito que irá gostar e posso te apresentar aos artistas, – George lhe estendeu seu cartão. – Esse é o meu contato.
– Obrigada, Sjors.
– E você, Clarice. Estou aguardando pelo seu portfólio. Estamos sempre precisando de novos desenhistas em nosso estúdio. Espero que não tenha perdido o e-mail que te passei.
– Estou com o seu cartão guardado. Eu só não tenho um portfólio pronto ainda, mas vou trabalhar isso.
– Ótimo, ficarei no aguardo!
George se despediu de nós. Quando olhei para o lado, Valquíria estava quase espumando. Talvez dar o cartão de contato para a mãe dela não foi a coisa mais inteligente para fazer, ainda mais diante dos seus próprios olhos.
Me surpreende que não tenha tomado da mão dela e rasgado em milhares de pedacinhos.
O motorista e segurança da Margot nos levou para o apartamento da Val, onde ficamos só as duas. Por mais que a minha estadia nesse lugar foram apenas alguns dias, o fato de ser bem menor que os outros imóveis da família, me fazia sentir mais em “casa” e confortável.
Normalmente, sempre que chega em casa da rua Val gosta de ir direto para o seu banho. Ainda mais quando não vamos mais sair. Hoje, porém, ela me mandou tomar banho e foi para o escritório. Eu não questionei. Depois do dia de hoje, eu prefiro não atiçar a fera.
Aproveitei o fato de ser relativamente “cedo” e lavei minhas madeixas também e estranhei o fato de que a Val não veio me ver uma única vez. E não foi porque fiquei pouco tempo, eu demorei no chuveiro.
– O que você está fazendo aí? – Perguntei ao entrar no escritório onde minha namorada estava, ainda secando meus cabelos com a toalha. – Você não está trabalhando está? Que cara mais concentrada… você fica sexy assim, sabia?
– Aquele filho da puta não se chama George. George é a versão “simplificada” do nome dele. É por isso que quando pesquisei a primeira vez não encontrei nada muito relevante.
– Você está pesquisando sobre a vida daquele cara? Por que? Tudo isso por ciúmes.
– Eu não fui muito com a cara dele. Também não gostei do jeito que ficou em cima da ma mère.
– Meu amor… você está exagerando. Nem mesmo o seu pai teria ficado com esse ciúme seu. E também não é como se fossemos vê-lo outra vez.
Val me encarou séria. – Você acha? O filho da puta deu o cartão de contato para a minha mãe.
– E para mim também. Isso não quer dizer nada. E pelo que parece, eles se conheciam há muito tempo, tempo em que seus pais já eram casados. Também não é como se sua mãe tivesse interesse nele.
– A minha mãe eu sei que não tem. Eu desconfio é desse homem. Ele estava com um olhar muito curioso.
Eu achei normal…, talvez o ciúme de Val e o fato de ter autismo e naturalmente não ler muito bem as pessoas, tenha afetado o julgamento da minha namorada. Mas como é que eu falo isso para ela? Eu não falo.
– E qual o nome verdadeiro do cara?
– Sjors. Exatamente como a minha mãe o chamou.
Sjors e George tem quase a mesma sonografia. Só que um parece ser um carioca falando e outro não. É compreensível que ele se apresente como George ao invés de “Sjors”, muito empenho para falar e provavelmente deve ser lido errado na maior parte do mundo.
– E o que mais você achou? Algo relevante?
– Não. Só encontrei sobre o trabalho dele. O tal Sjors é diretor de arte e trabalho em alguns projetos relevante. Faz sentido que esteja interessado em seu portfólio, especialmente se for capaz de fazer arte digital.
– Entendi… e ainda está com ciúmes?
– Eu não estou com ciúmes. Eu só não quero nenhum filho da puta dando em cima da minha mãe que é muito bem casada.
Isso definitivamente não aconteceu.
Val fixou o olhar no seu monitor, provavelmente lendo algo que encontrou.
– O que foi agora?
– Encontrei uma foto dos dois juntos. É uma reportagem sobre uma exposição que aconteceu há uns vinte anos. Tem umas fotos do evento e uma delas é os dois juntos. Onde eu estava nesse dia?
É sério que ela quer lembrar do que estava fazendo há vinte anos? Essa mulher está indo longe demais por nada.
– Okay, amor. Já deu por hoje, não acha? Nós não tínhamos outros planos para essa noite?
Sim, eu estava sacrificando meu bumbumzinho para tirar Val dessa nóia. Mais tarde me arrependerei de lembrar das suas intenções iniciais.
– Oui, tudo que eu preciso está bem ali – Val apontou para o lado sem tirar os olhos do monitor.
Para meu desespero, “ali” tinha muito mais que o bálsamo pós palmadas. Junto estava duas chibatas, uma com a ponta retangular e a outra com tiras de couro. Alguém me socorre, por favor!
– Essa aqui não é a sua mãe? Eu agora acho que toda ruiva de olhos verdes em uma exposição é ela.
Por um momento esqueci totalmente o medo que sentia e dei a volta pela mesa para ver o monitor de Val. A foto em si era do George com outro homem, mas no fundo tinha algumas pessoas e uma delas era claramente a minha mãe.
– É ela mesmo.
– O cabelo dela era muito lindo.
– Pois é… e eu nasci loira. Nem para vir ruiva como ela.
– Você é linda exatamente como é, ma vie. Vamos salvar essa foto. Depois eu corto a cara desse homem.
– Será que procurar sobre essas exposições antigas é uma forma de achar fotos da minha mãe?
– Podemos contratar um detetive. O Luís pode ter tentando apagar a memória da sua mãe, mas não acho que tenha tanto poder assim. Aliás, e os seus avós? Você não tem contato com eles?
– Lembro vagamente sobre eles quererem a minha guarda ou algo assim, mas eu acho que o Luís fez de tudo para me afastar deles. E não seria muito difícil, eles nem no Brasil moravam.
– Quanto mais eu sei sobre esse homem, mais eu quero o matar.
Abracei a minha mulher para acalmar seus ânimos. – Não vá cometer crimes e ser presa. Eu não quero ter que ser presa também só para te ter ao meu lado todos os dias na prisão.
– Só por isso você me convenceu… enfim, eu vou tomar o meu banho. Espere por mim aqui. Você não irá se safar da sua punição hoje, ma vie.
É… é agora que eu me fodo.
Que deus tenha misericórdia de mim…
Esse foi o banho mais rápido da história de vida da Valkyrie. Provavelmente durou o mesmo tempo que os demais banhos, porém, para mim o relógio passou voando. Quando menos esperava ela estava de volta, toda linda e cheirosa… nem parecia que em seu coração, suas intenções comigo eram bastante… dolorosas.
– A gente não pode anotar essa no caderninho e deixar para quando voltarmos para São Paulo?
Perguntei ao ver Val mexer nas chibatas, como quem estivesse escolhendo qual usar. Eu por enquanto estava sentada no sofá do escritório, mas logo estarei de baixo dele me escondendo.
– Non, mon amour. Por mais que eu também gostaria que fosse assim, eu não posso deixar o que você fez passar batido. Nem mesmo temporariamente. Você precisa aprender a sua lição. E vai ser hoje.
– Mas… isso vai doer.
– E vai passar. A dor é passageira, o estrago em nosso relacionamento não seria. Essa foi a primeira vez e espero que seja a última que sugira um absurdo como aquele, – Val me encarou séria, desviei o olhar me sentindo intimidada, mas ela usou a ponta da chibata para me fazer levantar o rosto e a olhar outra vez. – A próxima vez que tiver alguma questão sobre nós, converse comigo primeiro. Não tome decisões sem antes me consultar.
– Me desculpa. Eu vacilei.
– Vacilou. E é por isso que sou eu quem dita as ordens por aqui. Não se deve colocar grandes responsabilidades nas mãos de pequenas como você. E eu espero que depois dessa noite, você aprenda isso de uma vez por todas.
Se antes eu estava com medo, agora eu me sentia envergonhada.
Eu não pensei muito quando achei que dar um tempo fosse a melhor opção, mas agora, quanto mais eu penso, mais me dou conta o quão idiota eu fui. Se por acaso Val tivesse aceitado, eu não só iria sofrer com a sua ausência, como também iria inevitavelmente me machucar sempre que a visse com outra pessoa que não fosse eu.
E nós não sabemos até onde esses machucados iriam me afetar.
Felizmente isso não irá acontecer.
– Dessa vez você não vai ter um número exato de palmadas que irá levar. A sua punição irá durar exatos seis minutos. Nenhum segundo a mais ou a menos.
– Espera aí… seis minutos seguidos?!
– Não, podemos parar se quiser. O relógio irá parar junto.
– Por que seis minutos e não três?
– Se reclamar serão dez.
– Seis minutos está perfeito.
– Foi o que eu imaginei que diria. Agora levante e coloque as duas mãos sobre a mesa, – obedeci de imediato para evitar um segundo a mais que fosse em minha punição. – Mantenha as palmas sobre a mesa. Se levantar, irei parar o relógio. Entendido?
– Sim, senhora.
Val puxou a minha calça de pijama e calcinha, me deixando nua da cintura para baixo. Nem tinha começado ainda e minhas mãos já estavam suando.
– Sabe, eu preferiria não ter chegado a esse ponto com você, – Val acariciou o meu bumbum com a mão e eu levei um pequeno susto esperando pelo pior. – Eu prefiro mil vezes mimar a minha menina que punir, mas você não me dá escolhas.
Isso não é bem verdade, você pode sempre escolher não me punir.
– Seis minutos, – ela colocou o celular sobre a mesa. Na tela havia seis minutos no temporizador. – Começando agora.
Não passou um segundo e levei a primeira chibatada no bumbum. Para a minha surpresa, doeu bem menos do que esperava. Porém, seis minutos nesse ritmo iria causar um estrago considerável.
– Você é minha. Minha namorada. Minha pequena. Minha submissa. Minha… Absolutamente ninguém tem o poder de sequer ousar tirar você de mim. E se alguém tentar, eu passo por cima. Estamos entendidas, Clarice?
Em meio a seguidas chibatadas, as palavras de Val pareciam se registrar em minha alma. Somente as primeiras não doeram tanto, as que vieram em seguida ardiam como o inferno e certamente nunca mais iria me esquecer dessa lição. Tampouco querer voltar aqui.
– Sim, senhora.
– E se alguém repetir as mesmas palavras e querer se meter em nosso relacionamento. O que você irá fazer?
– Falar com voc–a senhora–a maman.
Estava com tanta dor que não sabia como a chamar e chamei de tudo ao mesmo tempo.
– Très bien, ma petite.
Val me acariciou as costas, ignorando o relógio que ainda corria. Por mais que sua intenção fosse me dar uma punição que considerava severa, ela ainda era a minha maman carinhosa e que de um jeito ou de outro pegava leve comigo.
– A melhor opção sempre será falar com a sua maman. Sempre. Em qualquer ocasião. Lembre-se disse se não quiser ser punida outra vez.
Dito isso, ela voltou com sua sequência de chibatadas. A maioria no bumbum e algumas poucas na parte de trás da coxa. As lágrimas corriam pelo meu rosto sem muito controle, mas meu choro não era só de dor. A vergonha me consumia ainda mais.
Ainda existia uma pequena e quase imperceptível parte de mim que tinha medo de que por um acaso, Valquíria decidisse aceitar a minha sugestão.
Eu estava determinada a ir até o final dos seis minutos sem intervalos. Quase como se essa fosse a minha auto punição. E teve momentos em que eu quase desisti, quase levantei a mão, quase usei a palavra de segurança, mas me mantive no lugar. Quem parava por mim era a própria maman, como quem era capaz de ler meus pensamentos, sabia que apesar de não dizer, eu precisava parar.
O celular despertou, indicando o fim dos seis minutos.
– Acabou, mon bébé – a maman me trouxe para os seus braços e acariciou os meus cabelos. – Já passou. A maman está aqui com você.
– Me desculpa? – Pedi pela milésima vez nesses seis minutos. – Não vou fazer isso outra vez, desculpa eu.
Val pegou meu rosto entre as mãos e me olhou nos olhos. – Mon amour, isso agora é uma página virada em nossas vidas. Você já aprendeu a sua lição e está perdoada. Não tem que pedir mais desculpas por isso. Está bem?
– Você não está brava?
– Non.
– Nem chateada?
– Também não.
Eu a abracei outra vez.
Então era assim que funcionava? Uma vez que passava o castigo estava tudo resolvido?
– Agora vem cá, bébé. A maman vai cuidar do seu dodói.
A maman me levou para o sofá onde eu deitei de bruços em seu colo. Delicadamente e sem pressa, ela passou o bálsamo sobre a região que estava vermelha e ardida. O alívio foi imediato. Não reduzia a dor totalmente, mas o suficiente para me acalmar.
Por mais contraditório que isso possa soar. Val foi a responsável pela dor que sentia, me bateu por seis minutos com uma chibata e mesmo assim, ao invés de querer me afastar ou estar com medo, o que mais queria agora era o seu colo e carinho. O seu cuidado pós punição me deixava totalmente desestabilizada, incapaz de me segurar por muito tempo.
– Maman? – Choraminguei.
– Está tudo bem se quiser escorregar, mon bébé. Eu vou estar aqui para você.
Ela me acariciou as costas e eu parei de tentar. Simplesmente me permitir escorregar e entregar o controle. Agora, tudo o que eu mais queria e precisava era ser da minha maman e deixar que ela cuidasse de mim.
E bem, esse era o certo a se fazer. Afinal, eu sou a petite da maman e só da maman.
«-»
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Au revoir!

6 Comentários
Gente Para assinar o plano só tem a opção de cartão de crédito é?
Não, no apoiase tem opção boleto no pix também
CERTEZA que o George é pai da Clara!!!
Eu também pensei nisso
Eu também penei isso mdsssss
Pqp eu tb pensei nisso! Será?