Elora Aneva

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18. Des soupçons suspects

« C L A R I C E »

Valquíria cumpriu a sua promessa.

No dia seguinte, exatamente às 08:09, eu estava na porta da minha faculdade. Bem, ao menos meu corpo estava, já a minha alma…

Toda a minha energia e vitalidade foi extraída do meu corpo nessa noite que passou. Enquanto Valquíria acordou radiante e de um incrível bom humor, eu estava só o pó da rabiola. Totalmente destruída e sem forças.

Eu achava que tinha estamina para sexo e aos poucos estou descobrindo que não, ao menos não para acompanhar o ritmo da minha namorada.

E não, eu não estava reclamando. Apesar de sentir como se um avião tivesse me feito de pista de pouso e com dores no corpo generalizada, eu estava nas nuvens. Faria tudo de novo, inclusive. Enquanto ainda pudesse respirar, deixaria Val usar e abusar de mim.

– Você está bem? – Lari me perguntou no intervalo. – Parece pálida e mole. Você emagreceu?

– Pode acreditar que sim… eu estou ótima, – sorri com um pouco de energia que me faltava.

Lari revirou os olhos. – Já sei até o que andou fazendo. Se continuar desse jeito não irá sobrar parte sua para contar história.

– Eu não sei, talvez sou eu que não tenho energia para acompanhar ou estou namorando uma ninfomaníaca.

– Namorando? – Lari perguntou desconfiada. – Namorando do tipo, namorar ou está sendo feito de trouxa por outra casada frustrada que está te usando para se satisfazer.

– Namorando do tipo; ela ficou brava comigo por não ter sido apresentada como minha namorada na exposição semana passada.

– Ela estava lá e você não me apresentou?!

– Eu não te vi por lá… você nem apareceu no meu stand, cachorra.

– Juro que tentei, mas… tive imprevistos no caminho.

A encarei desconfiada. – Imprevistos? Aposto que esse imprevisto tem a ver com mulher.

Lari deu ombro e bebeu seu refrigerante.

Fazia tempo que não via Lari se empolgar por alguém, então estava feliz por ela. Eu estava feliz em meu relacionamento e o meu desejo era que todos tivessem a mesma felicidade que eu… quer dizer… não a mesma, não quero ninguém com a Val, mas enfim… você me entendeu.

Se com bateria cheia eu já era péssima nos cálculos, no modo economia eu consegui me fazer passar vergonha. Não queria uma nota baixa na minha grade, mas aos poucos estava aceitando que era burra e não tinha solução.

No caminho para o trabalho eu perdi meu ponto por ter dormido no ônibus. Em outras palavras, os meus dez minutos adiantada de sempre se tornou quase vinte de atraso. Tive que voltar o trajeto ultrapassado praticamente correndo, com isso fiquei toda suada, descabelada pelo vento e toda desengonçada com a minha mochila e o cilindro.

Resumidamente, estava num estado que preferia não ser vista por ninguém até conseguir me ajeitar no banheiro. Mas estamos falando de mim e era óbvio que a vida iria querer me ferrar. Caso contrário não seria Clarice.

– Bon après-midi, Clarice.

Subindo no elevador comigo estava ela. A presidente do conselho, Margot Sei-lá-o-que, que se lembrava do meu nome. Eu estou muito ferrada.

Elegante como sempre, Margot usava um vestido azul marinho ajustado ao corpo, complementado por um blazer branco sobre os ombros. Seus sapatos de salto combinavam com a sua clutch e suas joias eram discretas, mas certamente custaram uma boa nota. Ela não precisava estampar uma marca para dizer que tinha muito dinheiro e sua presença era deveras intimidante.

Ainda assim… tinha algo nela que me soava muito familiar e ao mesmo tempo não sabia dizer o que. Ela era só um pouco mais alta que eu. Tinha os cabelos loiros naturalmente platinado, de quem estava ficando grisalha e isso lhe caia muito bem. Seus olhos eram azuis, pareciam até os meus quando estavam azuis, mas em um tom mais escuro, eu acho.

De todas as pessoas dentro desse prédio, certamente a Margot era a última quem eu queria ficar presa num elevador para subir longíssimos 23 andares.

– Oi, – eu respondi tímida para não soar má educada.

Margot me olhou de soslaio, provavelmente me julgando horrores.

De repente ela se virou levemente para mim e esticou a mão em minha direção. Para o meu pavor e desespero, ela tirou do meu cabelo uma folhinha de alguma árvore qualquer e me entregou.

– Talvez você queira colocar isso em outro lugar, – disse com um sotaque inconfundível.

– Obrigada, – eu peguei a folha e guardei em meu bolso.

Eu não tinha o que dizer, então fiquei na minha. Olhos fixos nos meus pés para não cometer uma gafe de olhar errado. Minha sorte não anda lá grandes coisas para querer me arriscar.

– Qual a sua idade? – Margot quebrou o silêncio do nada. Por um momento olhei para os lados só para ter certeza de que não havia outro alguém ali.

– Eu? Uh.. 20… quer dizer, quase 21 já. Eu faço aniversário mês que vem. Dia 8.

Por que eu falei isso para ela?!

– Você trabalhava aqui ano passado?

– Não?! Eu estou aqui há quase seis meses só.

– Hmm… Peut-être que je me trompe [talvez eu esteja me confundindo].

Eu não entendi nada e como a porta do elevador se abriu, eu quem não iria estender a nossa conversa cordial pedindo uma tradução. Posso simplesmente perguntar a minha namorada o que significa.

E falando nela… quando cheguei na minha mesa, Val estava por perto conversando com o Theo. Seu olhar para mim poderia ser interpretado pelos outros como “você está atrasada e fodida”, mas eu sabia que era mais uma preocupação pelo motivo do meu atraso.

– Você está atrasada, – ela comentou. – Está tudo bem? Aconteceu alguma coisa?

Eu disse… ela sequer conseguiu esconder sua preocupação.

– Problemas com o ônibus, – respondi.

Eu não iria dizer a minha chefe que eu dormi no ônibus e perdi o ponto. Talvez contaria a minha namorada e no momento ela está ocupada sendo a minha chefe.

– Eu fiz umas mudanças no time hoje, – a Val começou. – Você vai trabalhar com a Bárbara agora. Ela irá te auxiliar com os cálculos estruturais.

Ela realmente estava falando sério quando disse “podemos resolver sobre os cálculos depois”. Doeu saber que a parte mais legal do trabalho estava sendo tirada de mim para ser trocada pela a mais chata. Embora isso fosse uma forma de me ajudar, não muda o fato de que eu não estava nada contente. Já não basta o inferno de manhã, ele agora irá se estender pela tarde.

Por que a vida me odeia tanto?!

– Tem certeza que vai fazer isso? E se eu errar?

– Você não está sozinha aqui. A Barbara irá te ajudar. E eu vou te supervisionar de perto.

Algo me dizia que a Barbara só estava nesse meio porque a Val não estava com tanto tempo disponível. Caso contrário, seria ela mesma a acompanhar cada cálculo meu. Se fosse assim eu estaria mais feliz, mas enquanto não era, eu só sofria com letras e mais letras que deveriam se tornar números.

É sério… eu não conseguia entender o que tanto esse povo tinha para falar que conseguia fazer reuniões eternas todos os dias. Depois do breve encontro que tive com a minha namorada, eu não a vi mais em canto algum da empresa. Tudo bem que passamos a noite juntas e que a vi no café da manhã, mas se passaram horas depois disso. Eu estava com saudades e entediada.

Era triste ver na agenda que não tinha nenhuma reunião acontecendo e mesmo assim lá estavam Margot, a presidente do conselho, Jean-Luc, o CEO, e a Natalie, a presidente global, enfurnados na sala da Val praticamente desde a hora que eu cheguei.

E eu só queria roubar um beijinho, sabe?

“Eu não aguento mais…” a mensagem de Val veio acompanhada de uma foto tirada disfarçadamente. Sua expressão de paisagem male, male era capaz de esconder seu tédio. Ao menos eu conseguia ver bem.

Se estava chato para mim com meus cálculos, imagine para ela…

“Já sei o que posso te dar para ser menos sofrido” respondi.

Val está quase sempre tomando chá. Seja quente ou frio, qualquer momento era uma ocasião perfeita para uma boa xícara de Vanilla Bourbon. Eu não a vi pegando chá hoje, aposto que isso iria aumentar o seu humor.

“Por mais que eu adoraria um oral agora, com esse tanto de gente na minha sala acho melhor deixar para uma outra ocasião”

Eu engasguei com a minha água ao ler a mensagem.

– Está tudo bem aí, Clarice? – Barbara perguntou com um ar curioso e eu só fiz um joinha com a mão enquanto me recuperava.

– Não vá morrer engasgada, por favor – Theo pediu e empurrou sua cadeira para chegar mais perto. – Respira, garota – ele me deu uns tapinhas nas costas.

– Eu estou bem, – eu disse, mas a minha voz falhou um pouco.

Que vexame, senhor.

“Será que você poderia se comportar ao menos uma vez na vida?”

“Pardon, mon amour… é difícil me comportar quando você não sai da minha cabeça.”

Embora o efeito do vinho já tivesse passado há muito tempo, o filtro de Val ainda não estava funcionando. Só de ler o “mon amour” em sua mensagem, meu coração disparou e senti algo estranho no estômago. Então era isso que as pessoas sentem quando estão apaixonadas de verdade?

Infelizmente, por mais que nós duas estivéssemos loucas para nos encontrar depois do expediente, a presença de Margot atrapalhou nossos planos. E como a Val tinha um voo para o Rio de Janeiro ainda essa noite, não sobrou tempo para nós. Nos restou apenas nos contentar com uma ligação pouco antes de deitar enquanto meu pai não estava em casa.

– Tem certeza que prefere pegar uma carona ao invés de ir com o meu carro? – Val insistiu. – Eu não gosto da ideia de você ir tão longe sozinha com um rapaz.

– Isso tudo é ciúmes?

– Não. É preocupação. Meu pai sempre me ensinou a desconfiar da bondade de um homem e esse rapaz está te dando uma carona para longe por livre espontânea vontade sem pedir nada em troca?

 Eu não vou estar sozinha, bobinha. A Marina vai estar junto. E ele já tem até filho pequeno. Você se preocupa demais, Val.

– Preocupação é o meu sobrenome e exagerada o meu nome do meio.

– Valquíria Exagerada Preocupação.

– Algo assim.

De certa forma, eu entendia a sua preocupação. Homens não são seres muito confiáveis, mas estávamos indo estudar e não estaríamos sozinhos no carro. Tinha a Marina e talvez mais um. Eu poderia ser uma frangote, sem força nenhuma, mas a Marina? Ela era filha de militares. Eu não ficaria surpresa se ela tivesse um spray de pimenta no bolso e soubesse golpes marciais.

Apesar de toda preocupação, no dia seguinte às 7h da matina estava eu e Diego no carro em direção da casa da Marina. A viagem realmente foi longe e me fez questionar porque diabos topei isso se não iria dormir pela cidade. Mas enfim…

Chegando lá, não esperava que estivesse tão cheio. A sensação que tive era que havia mais gente no curso de extensão que na própria faculdade em si. Inclusive alunos que viviam de faltar, estavam ali marcando presença. Esperava ficar com as pessoas que fui, mas fomos separados em pequenos grupos e não necessariamente do mesmo campus ou semestre.

Começamos a manhã com palestras, felizmente nenhuma foi da Diana. Mas ela estava lá… lá longe de mim e eu estava torcendo para que não fosse vista. Ainda pela manhã fizemos um passeio guiado pelo parque.

Ir de carona me forçava a socializar quando não queria. No almoço, acompanhei Diego e Marina que estavam tão íntimos do grupo que estavam juntos que pareciam amigos de longa data. Eu apenas existi ali no meio, afinal, falar de rave, cervejada, show de sei lá quem do agropop, nada disso me interessava. Apenas sorri e acenei enquanto respondia meu celular disfarçadamente.

De tarde aconteceu o inevitável. Era oficina de design biofílico e quem iria ministrar era ela… a minha ex-não-namorada. Queria dizer que odiei e que foi um saco, mas o tema era interessante e ela tinha uma didática que sempre me cativou. Diana sempre fez com que as minhas dificuldades parecessem coisa boba e fácil de ser resolvidas. Muito provavelmente ela iria conseguir me fazer entender os cálculos em dois minutos sem muito esforço…

Melhor nem falar isso com a Val. Ela sequer teve a chance de tentar me explicar algo e no fundo tinha certeza que era uma péssima professora. Era muito inteligente e sem dúvidas com habilidades excepcionais e únicas que a tornam melhor que a Diana, mas não sei se seria boa para “compartilhar” todo esse conhecimento.

O momento ápice do meu dia foi durante a parte de prototipagem sustentável. Tínhamos que construir o protótipo de um edifício sustentável para o ambiente urbano e por mais que houvesse uma lógica – e os chatos cálculos – por trás, para mim era como brincar de lego.

Eu estava tão concentrada no meu projeto que o mundo à minha volta sumiu. Meus dedos trabalhavam mecanicamente ajustando as peças enquanto tentava trazer para realidade o que estava na minha cabeça. Enquanto isso minha equipe estava mais interessada em conversar entre eles, mas não me incomodava.

Parte da minha empolgação se dava ao fato de que, naquele momento, eu também me sentia como se estivesse brincando de ser a Val. Ela era mundialmente conhecida por seus projetos sustentáveis e sempre tinha ideias incríveis. E depois de alguns meses a acompanhando de perto, queria tentar fazer algo como ela.

Eu perdi a noção do tempo, das pessoas, do ambiente ao redor… até que ouvi meu nome em uma voz desagradavelmente familiar, muito perto.

– Clara?

Minhas mãos pararam congeladas no ar, enquanto meu corpo enrijeceu. Levantei o olhar e lá estava ela, mais próxima do que eu esperava e os olhos castanhos fixos nos meus. Apesar dos anos que não ficávamos tão perto uma da outra, o incômodo que sua presença me trazia ainda era o mesmo e instantâneo.

Eu não tinha remorso, tampouco estava sofrendo. Pelo contrário, eu não me importava com ela o suficiente para sentir algo, nem que fosse ruim. No entanto, eu me sentia mal por tudo que ela me levou a fazer sem que eu soubesse a verdade. Eu não me esqueço como me senti um lixo quando conheci seus filhos e como ela, o marido e as crianças pareciam uma família feliz. Família feliz que eu sempre desejei ter e naquele momento poderia destruir.

– Por um momento não acreditei que fosse você de verdade, – ela sorriu. – Que bom ver você aqui.

– É, sou eu, – murmurei, voltando a minha atenção ao meu protótipo.

Tentei parecer ocupada como se isso pudesse criar uma barreira invisível entre nós e passasse a mensagem silenciosa de que não estava afim de papo. Mas quem eu queria enganar… ela não iria embora e eu já sabia disso.

– Você está indo muito bem, como sempre… gosto do que está fazendo aqui.

Não é de você que eu quero um elogio, bobona.

– Obrigada, – respondi seca.

Ao invés de desistir e seguir em frente, Diana se aproximou um pouco mais e pude sentir seu perfume. O mesmo de antes. Na época eu costumava gostar, hoje em dia acho ruim e enjoativo. É difícil ser agradada com qualquer coisa depois que se sente o cheiro da Val. Ela colocou a barra lá em cima.

– Clara… – sua voz soou mais doce e suave, como se estivesse prestes a dizer algo mais pessoal.

– Eu quero focar aqui, – a cortei, sem a olhar.

Eu hein… eu vou querer dar papo para maluco? Sou comprometida de verdade, me respeite.

Houve um longo silêncio entre nós, mas ela não insistiu e seguiu para a próxima mesa.

O fato do meu grupo ter finalmente se despertado para querer fazer algo com a presença da professora ajudou me fazer parecer ocupada também. E por fim nosso protótipo saiu razoavelmente decente.

Um dos lados ruins de depender de carona era o fato de ter que aguardar a boa vontade de quem está te levando decidir ir embora. O primeiro dia do curso acabou às 17h e já estava quase dando 18h e eu estava no estacionamento esperando Diego terminar a sua conversa.

Era bem provável que Valquíria vindo do Rio de Janeiro chegasse primeiro tamanha enrolação. Mas pelo menos agora ela estava mais ativa no celular para me responder e até atender a minha ligação.

-Como foi o seu dia no Rio?

– Corrido e caótico, mas tive um tempinho para tomar um banho de sol.

– Não acredito que perdi a chance de te ver de biquini outra vez.

– Você irá me ver nua em poucas horas, por que está tão interessada em me ver de biquini?

No mesmo instante em que Val mandou uma dessas na maior naturalidade, ouvi alguém chamar meu nome. Me assustei tal qual adolescente que é pego no flagra e quase deixei o celular cair no chão, mas consegui pegar no ar.

– Desculpa, eu não quis te assustar – Diana disse sorrindo, claramente buscando alguma reação positiva.

Desliguei a ligação rapidamente. Melhor dar uma desculpa por ter desligado de repente que por alguma coisa que a Diana poderia dizer.

– Você não tem outra pessoa para encher o saco? – Revirei os olhos e dei as costas para me afastar.

– Clara, espera! Vamos conversar. Por favor…

– Eu não tenho nada para conversar com você.

– Será rápido, eu prometo. Cinco minutinhos.

Cinco minutinhos e me livrar dela? Até que não parecia uma má ideia.

– Você tem dois minutos.

De repente cinco minutos pareceu muito. E eu não estava muito afim.

Diana ajeitou a bolsa no ombro e me olhou em silêncio como se estivesse escolhendo as palavras cuidadosamente. – Eu voltei para São Paulo… comprei um apartamento novo.

Fiquei em silêncio esperando o ponto da conversa. Eu sabia muito bem que ela não veio até aqui para me falar que comprou um novo imóvel. Tipo, eu não poderia me importar menos com essa informação, sabe?

– Ainda está em obras, estou mudando a decoração e… eu estive pensando nos seus quadros. Eu queria que me pintasse alguns para mim… irei pagar o quanto quiser por eles.

A desconfiança me bateu forte…

Que a Diana gostava dos meus quadros não é uma novidade para mim. Ela foi a primeira a pagar por um deles e depois comprou os outros que tinha. Só que as coisas são diferentes agora. Para mim isso soava como uma desculpa para nos aproximar e honestamente, não estou afim.

Prefiro trabalhar no Apex e fazer meu dinheiro de outra forma.

– Já faz um bom tempo que não pinto, Diana. E nem tenho tempo para isso… procure outra pessoa.

– Quanto você quer para pintar outra vez? – Revirei os olhos. – É sério, Clarice. Diga o quanto quer. Cinco, dez mil… eu pago.

Dez mil reais num quadro? Suspeito. Muito suspeito… e tentador. Um quadro levaria algumas semanas para terminar, mas nenhum outro trabalho me daria esse dinheiro em tão pouco tempo e não vou encontrar outra pessoa disposta a pagar esse preço.

Confesso que cogitei a possibilidade por um milésimo de segundo até que o meu celular vibrou em minha mão. Era Valquíria me enviando algumas mensagens, mais precisamente, fotos de visualização única.

Vixi… eu que não me arrisco em abrir.

– Eu já disse, eu não tenho tempo.

– E se nós…

Diego se aproximou de nós e me abraçou pelo pescoço como se tivéssemos alguma intimidade para tal. Eu não sei por que as pessoas acham que podem chegar me abraçando assim. Só por que sou baixinha não quer dizer que sou suporte para o braço de ninguém… da Val talvez.

– Eita, professora… eu não vi que era você aí, pensei que fosse uma amiga… foi mal – Diego se desculpou. – Não sabia que vocês eram próximas…

– Não somos, – rebati.

– Sim, nós somos – Diana respondeu ao mesmo tempo que eu.

Diego nos olhou confuso e deu ombros sem se importar. – Bora? Tem muito chão pela frente.

– Vocês estão juntos? – Diana tentou disfarçar a sua curiosidade, mas não conseguiu. – Eu pensei que estivesse sozinha. Já ia oferecer uma carona.

– Relaxa, professora. A Clara aqui está com o pai.

Oferecer uma carona… até parece que eu iria me enfiar num carro por uma hora e meia com essa mulher. Eu tenho amor pela vida.

Os mais novos “velhos” amigos de Diego o barrou para dar um último tchau e eu aproveitei a distração para visualizar as fotos que a Val me mandou. Eu não era louca de fazer isso dentro do carro e alguém mais visse… vai saber o que essa mulher estava aprontando.

Fotos de biquini. Quem disse que precisa de um nude para fazer a gente sofrer… que mulher, meu deus! Às vezes nem acredito que namoro uma beldade dessas. Não via a hora de chegar em São Paulo!

“Visualização única? Você é cruel”

“Não seja por isso…”

Ela reenviou todas as imagens. Eu me esqueço que minha namorada não tem pudor, não sei nem porque me surpreendo.

Embora a Val estivesse literalmente voltando de outro estado, ela iria chegar em casa primeiro que eu. Depois que o seu voo decolou, ainda levei outros quinze minutos para sair do parque tamanha enrolação do Diego e da Marina.

No carro eu tentei socializar e interagir, mas eu me sentia um peixinho fora d’água. Sempre fui. Só não me sinto assim com os meus amigos de verdade; a Glória, a Lari, o Theo e agora até as meninas do escritório, Amanda, Barbara, Letícia e Mateus. A minha namorada nem vou citar, ela é a minha namorada por algum motivo, certo? Certo.

Embora eu não estivesse indo direto para casa, eu não quis contar ao Diego onde exatamente me deixar. Tenho a sensação de que, se ele souber onde e com quem estou indo me encontrar, vai fazer tal qual no dia da feira e ser inconveniente. Por essa razão pedi para me deixarem na estação da Cidade Universitária e segui o resto do trajeto de trem, o que levou pouco mais de vinte minutinhos extras.

– Val? – A chamei assim que entrei no apartamento.

“Ma petite?” ouvi a voz vindo do andar de cima e logo em seguida Val apareceu do topo da escada.

Um sorriso bobo surgiu em meus lábios ao vê-la vir em minha direção. A observei hipnotizada, como se meus olhos não fossem capazes de desviar dela. Meu coração disparou por antecipação pelo o que viria a seguir. Nem parecia que ontem mesmo estava aqui e dormi em seus braços. A saudade era algo irracional.

Eu não me contive e corri para os seus braços para receber o tão desejado abraço. Seu perfume me envolveu e tinha cheiro de casa, de lar. Trazia paz, conforto. Uma sensação que não sabia bem como explicar, mas era como se toda a tensão que carregava dentro de mim evaporasse. Me sentia leve, segura e… amada? Era um conforto indescritível, como se finalmente eu estivesse onde sempre deveria estar. Tudo parecia fazer sentido.

Dentro do meu peito, um novo sentimento se formava. Como se eu fosse pequena nos braços da Val. Eu não sabia dizer ao certo o que era e porque ao mesmo tempo em que me sentia tão confortável e segura, essa sensação me causava medo. Medo do desconhecido, medo de me entregar de vez e me ver escorregar de entre os meus dedos.

Quis chorar sem entender porquê. Se estava tão bom, por que ainda parecia faltar algo?

Agarrei a camisa de Val e estreitei ainda mais o nosso abraço afundando o rosto contra o seu peito. Mais um pouco e nossos corpos iriam se fundir em um só. E mesmo assim, não era o suficiente. Eu não conseguia entender o que estava acontecendo dentro de mim e não entender estava me deixando frustrada. A vontade de chorar se intensificou.

Queria pedir a Val para fazer parar. Pedir para sarar. Pedir colo. Pedir…

Um pensamento repentino me fez abrir os olhos assustada. A imagem daquelas duas no Apex me deixou preocupada. Eu não deveria estar pensando esse tipo de coisa… eu não faço esse tipo de coisa. Eu sou grande, bem grande… eu não… eu não… isso é coisa de neném!

Rapidamente me afastei do abraço com medo de que Val pudesse ouvir meus pensamentos. Ela me olhou curiosa e eu sorri tentando mascarar o que estava se passando em minha mente.

– Está tudo bem? – Ela acariciou meu rosto. Sua voz doce e suave quase me fizera desmanchar em seu carinho.

O que havia de errado comigo?

– Acho que estou meio cansada, – respondi meio confusa.

De certa forma não era totalmente mentira. Eu estava cansada. Além de levantar cedo, assistir várias palestras o dia inteiro, ainda fizemos o passeio guiado onde tive que caminhar bastante. Então sim, eu estava cansada.

– Você não dormiu direito, dormiu? Está com olheiras – ela soou preocupada.

– Eu dormi pouquíssimas horas.

Val me observou em silêncio por um instante. Estava pensativa, mas não conseguia ter ideia do que estava pensando.

– Eu vou te colocar para dormir cedo hoje, d’accord? Vamos tomar um banho e jantar antes.

Precisei me esforçar muito para não ter pensamentos errados outra vez depois dessa fala de Val. Me colocar para dormir?! Por que ela tinha que falar assim?

Fui muito inocente em achar que essa fala seria meu maior problema. Eu já estava no chuveiro quando a Val entrou no banheiro nua para tomar banho comigo e a ver assim me deixo deveras… abalada.

Minha mente fértil me fez imaginar coisas. Me virei contra para evitar olhar e pensar…, mas a Val me abraçou por trás e deu pequenos beijinhos em meus ombros. E eu… eu conseguia sentir o seu peito contra a minha pele.

Maluca, se comporta!

– Deixa eu te ajudar com isso, – ela disse pegando a esponja da minha mão.

Eu passei o resto do banho rezando aves Maria e vários pai nosso para controlar a minha mente. Sorte a minha que Val estava comportada e não tentou nada, caso contrário eu não saberia o que fazer.

– Te comprei alguns pijamas, – Val comentou aleatoriamente enquanto estávamos em seu closet. – Suas camisas para dormir estavam atrapalhando o meu sono.

Ela mostrou os conjuntos de pijamas pendurados em cabides.

Apesar de serem dos mesmos tecidos que ela costuma usar para dormir, ela realmente os comprou pensando em mim. Não era nada parecido com as suas camisolas que facilmente poderiam ser confundidos com uma roupa de sair de seda. Os conjuntos pareciam pijamas mesmo, com calças e shorts. E tinha alguns com tecido de algodão, coisa que a própria Val nunca usava para dormir.

– Você comprou pijamas para mim e mais quantas? –

Val fechou o semblante séria. – O que está insinuando?

– Só estou dizendo que comprou muitos pijamas só para mim, um ou dois era o suficiente, bobona – a beijei na bochecha. – Obrigada, meu bem.

– Eu não sabia o que iria te agradar e não tinha como te ligar para saber, – se justificou. – E você certamente irá precisar mais que dois pijamas… ou você não pretende dormir aqui com mais frequência?

Ergui o cenho desconfiada. – Mais frequência?

– Oui… – Val corou e eu achei a coisa mais fofa do mundo. – Nós estamos namorando… e os casais costumam frequentar a casa do outro com mais frequência com o tempo… e ouvir dizer que casais de mulheres são mais rápidas…

– Está tentando me mudar para o seu apartamento aos poucos, é?

Val ficou sem reação e eu não me aguentei, acabei rindo. Ela era tão cheia de pose, toda segura de si e agora estava aqui toda sem graça e sem reação.

– Você é uma fofa, sabia? – A beijei os lábios rapidamente. – Eu vou usar esse aqui, ele parece ser tão fofinho e confortável.

Nem Val e nem eu estávamos com fome para querer um jantar, então optamos por comer algo simples e leve. Em outras palavras, Val iria comer seus queijos e suas frescuras e eu meus cookies favoritos que ela deu um jeito de fazer enquanto me esperava.

– Aqui, – Val colocou um copo de leite na mesa bem a minha frente. – Você sempre come seus cookies com leite.

Engoli a seco ao ver o copo.

Eu não consegui evitar de pensar na cena da Jujuba sendo amamentada. E não que isso fosse algo errado, elas que façam o que quiser… o problema era a minha mente fértil trocando os personagens da cena. Eu nem tinha interesse nessas coisas, por que estava me imaginando sendo amamentada pela Val?

Céus, espero que ela realmente não seja capaz de ler pensamentos! Que vergonha.

– Que careta é essa? – Val perguntou curiosa ao se sentar.

Meu erro foi olhar em sua direção. Eu não deveria. Não deveria, não deveria, não deveria. As camisolas da Val… por mais que ela use um robe por cima, ainda era um tanto chamativo e eu não consegui evitar de reparar em seu decote e querer… meu deus!

– Meus olhos estão um pouco mais para cima, Clarice – ela comentou se servindo uma taça de vinho.

Senti minhas bochechas queimarem.

– Desculpa, – a minha voz quase não saiu tamanha vergonha.

– Você é a minha namorada, se quiser ver é só pedir – comentou casualmente e deu um gole em seu vinho.

Eu não sabia onde enfiar a minha cara tamanha vergonha que eu senti. Não pelo o que ela falou, mas por ter cogitado em realmente pedir. Talvez se fosse só um pouquinho… só um pouquinho mesmo, ela não iria achar estranho se pedisse peitinho, né?

– Mas não vamos fazer nada essa noite, você precisa dormir – ela continuou, deu outro gole em seu vinho e me olhou. – Você ficou tímida, – ela sorriu – você é uma gracinha, sabia?

Aí que eu fiquei mais vermelha que um morango.

Envergonhada e sem saber o que dizer, eu decidi beber do meu leite e ganhar tempo. Val tinha essa mania de falar coisas para me deixar sem reação e parece ter piorado. Ainda não sei se faz isso por diversão ou sem perceber, só sei que daqui a pouco vou ter queimaduras nas bochechas de tanto que esquentam de vergonha.

Mais tarde na cama, prontas para dormir, Val me abraçou e foi tão difícil pensar em outra coisa quando estava tão pertinho do seu… seu… enfim… perto daquilo que eu não deveria estar pensando.

E foi justamente pensando em ter aquilo que não deveria querer, que eu adormeci nos braços da minha pessoa favorita.

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