« C L A R I C E »
Suspensa… suspensa!
Parte de mim ainda não conseguia acreditar no que havia acabado de acontecer. A reunião foi um total desastre e a culpa era inteiramente minha. Eu errei, não tinha desculpas para isso. Eu imprimi as versões erradas. Mas a parte que mais me dói não é só o erro, é o que veio depois. O jeito como Valquíria olhou para mim quando tudo desmoronou. Eu pude ver a decepção nos olhos dela, e isso me destruiu.
Ser suspensa não era o problema… ao menos não principal. Já ser suspensa pela Valquíria… isso sim era um problemão e eu não sabia o que pensar. O que significava essa suspensão? Era só trabalho ou… tinha algo mais envolvido? Até onde ela estava brava comigo?
Se fosse somente o erro, era algo possível de resolver. Mas aquela tal Adriana… ela elevou toda a situação para algo pessoal e descredibilizou a Val na frente de todo mundo. Eu basicamente dei a vitória ao inimigo.
Quem errou foi eu e a quem levou a culpa foi a Val… droga!
Em casa, eu não consegui dormir e nem descansar como Val queria. Mesmo se a preocupação e tensão me dessem uma trégua, eu não saberia explicar a tia Lúcia porquê de estar em casa tão cedo e em hipótese alguma poderia falar da suspensão, ou ela me suspendia da vida.
Sem saber o que fazer e para onde ir, eu decidi juntar as minhas coisas em bolsas maiores e aproveitar que minha tia estava na oração da tarde e meu pai trabalhando, para levar boa parte para a Glória.
A intenção era agilizar a minha mudança, mas também me distrair um pouco. A cagada no trabalho já estava feita e eu não podia fazer nada para mudar isso, então me restava apenas me distrair.
– Clarice? – Glória ficou surpresa ao me ver na porta de seu apartamento numa tarde de quarta-feira. – O que você está fazendo aqui essa hora?
– Vim trazer minhas coisas.
– Ué, do nada? Você não deveria estar estudando, no estágio ou algo assim? – Ela cedeu um espaço para eu passar. – Entra aí. Fica à vontade… deixa a caixa aí, depois a gente leva para o quarto da Mel.
– Ela não se incomoda comigo deixando minhas coisas lá?
Glória riu. – E você acha que aquela sapatão dorme em outro lugar que não seja na cama da mulher dela? Sério, é como se eu morasse sozinha. Se bobear, se você se mudar já, ela nem vai perceber.
– Não, ela pode estar sempre fora, mas quando ela aparecer, vai querer o espaço dela.
– E aí você vai para a casa da sua mulher. Revezamento de quarto.
Revirei os olhos. – Até parece que eu tenho uma, palhaça… e depois de hoje eu não sei se a Val vai querer me ver tão cedo.
– O que você aprontou, Clarice?
– Eu fiz merda… a Val vive reclamando que eu estou pegando pesado demais e preciso parar um pouco.
– E tem razão, – Glória rebateu. – Eu concordei que você deveria se mudar, mas existe um abismo entre “se mudar para onde dar” e “juntar dinheiro para dar entrada em um apartamento em tempo recorde”.
– É uma oportunidade única.
Comprar um apartamento não estava nos meus planos e honestamente usar todas as minhas economias, inclusive a herança que minha mãe me deixou, sem sobrar um centavo sequer me deixava bastante apreensiva. Mas era uma oportunidade única e eu não podia deixar passar.
E a melhor parte era que, como eu iria morar com a Glória, eu não teria que gastar com móveis até ela decidir se mudar um dia. Ou seja, eu só tinha que me preocupar em conseguir pagar a entrada e o financiamento e torcer para que ela não queira se mudar nos próximos trinta anos…
– Eu sei, – Glória concordou, – O preço que o proprietário pediu nesse apartamento não é alto e se eu tivesse o valor que ele pediu de entrada, eu não pensaria duas vezes. Mas, assim… você está se matando, sabe? Você acha mesmo que vai conseguir o dinheiro dentro do prazo que ele te deu?
– Se eu desistir de comprar a moto que queria e usar todas as minhas economias, inclusive o dinheiro que a minha mãe deixou… vai faltar só um pouco que eu consigo trabalhando no Apex até o fim do mês, – sorri amarelo.
Glória balançou a cabeça. – Garota, você não tem jeito mesmo, né? Eu sinceramente não acho que você dura até o fim do mês se continuar nesse ritmo.
– A gente já fez coisa pior no passado. O Apex nem é tão pesado assim.
– Você anda morrendo por aí, Clarice. Não dorme, não come, anda igual um zumbi. Fora que parece o Tio Chico da família Addams sem maquiagem. Eu estou ficando preocupada real…
– O projeto da faculdade acaba essa semana. Fica tranquila. E bem, eu fui suspensa do estágio… então estou com tempo de sobra.
Glória me encarou confusa. – Suspensa? Como assim? Você é sempre certinha incapaz de quebrar uma regra. Como conseguiu uma suspensão?
– Então… – hesitei por um momento, mas era a Glória. Há quase dois anos ela tem sido a minha parceira em tudo, até mais que a Lari. Se tem alguém com quem posso desabafar, é ela. – Eu cometi um erro enorme na reunião com um cliente super importante. Um projeto milionário. Imprimi as plantas erradas, entreguei material todo desatualizado e a cliente faltou chamar a minha chefe de incompetente em duas línguas… e aí ela me suspendeu pelo resto da semana.
– Caralho… você teve sorte que não foi demitida.
– Nada me garante que se eu chegar lá segunda-feira não serei demitida.
– No pior dos casos, eu posso pedir a Ana Marta para te colocar no quadro de baristas fixos do Apex, – fiz uma careta e Glória semicerrou os olhos preocupada. – O que você aprontou, Clarice? Não vai me dizer que fez merda no Apex também. Eu mato você.
– Sobre o Apex… sabe a Valquíria?
– Sim, vocês estão saindo sem namorar… espera aí, você disse que acha que ela não vai querer te ver depois de hoje… estou ficando preocupada.
– Ela é a minha chefe.
Glória ficou uns três segundos me encarando sem reação processando a informação.
– Pelo amor de deus, me diz que ela é a sua chefe assim como qualquer outro sócio do clube… Clarice… – o brilho do rosto de Glória foi sumindo aos poucos dando espaço ao desespero e revolta. – Você não fez isso, cara… – ela se levantou do sofá e começou a andar de um lado para o outro tensa. – Eu não acredito. Eu não quero acreditar… porra, Clarice. Como é que você me envolve com uma pessoa que consegue fechar o bingo dos motivos para ficar longe?!
– Mas é que… ela é gostosa.
– ‘Cê jura?! Ai irmão, vai se foder. Você só pode ter um desejo suicida ou algo do tipo. Primeiro, namora a sua professora da faculdade que tinha potencial de te ferrar e ainda pode foder com a sua faculdade até se formar. Aí não satisfeita, resolve “sair” com a mulher que é sua chefe nos seus dois empregos. E não só isso, as duas podem destruir o futuro da sua carreira antes mesmo dela começar. Tem noção disso? E se segunda-feira você descobrir que perdeu os dois empregos? O que vai fazer?
– Eu não sei…
– É melhor pensar nisso antes de assinar o contrato de compra do imóvel. Você não vai querer jogar todo o seu dinheiro no lixo por não conseguir pagar as parcelas depois… aí cara, na moral. Sossega esse seu faixo. Você está precisando de um período de celibato. Um longo período.
Eu queria protestar, mas não estava no meu direito.
Depois do pé na bunda que a Val vai me dar, vai ser melhor eu não me envolver com ninguém. Glória tem razão, eu só me atraio por quem pode feder a minha vida.
– Eu não tenho muito, mas acho que posso te ajudar também. Então se você for proibida de trabalhar no Apex e perder seu estágio, ainda podemos manter o negócio. Eu ainda tenho o contato dos outros bares que a gente trabalhou. Sem emprego você não vai ficar.
– Valeu, amiga. Você é uma amiga… tem mais uma coisa, – Glória me encarou, se seus olhos pudessem lançar chamas, eu teria virado pó. – Posso ficar depois das aulas? Se meu pai descobrir que fui suspensa, ela me mata… e eu posso estar sendo literal, não dá para saber.
– Isso não é algo para se fazer piada, Clarice. E sim, você pode ficar aqui. Eu te dou uma cópia da chave.
Eu sabia que Glória iria me abrigar. Um problema a menos para lidar.
Tentar dormir e descansar quando se está ansiosa e preocupada, não era uma tarefa fácil. Sempre que tentava fechar os olhos revivia a memória da reunião de hoje. O olhar decepcionado de Val não saía da minha mente. Se eu consegui cochilar vinte minutos antes de ter que ir para faculdade, foi muita coisa. Eu juro que tentei, mas estava difícil.
Desde que fui suspensa, Valquíria e eu não nos falamos. A sensação de estar no limbo era tão sufocante quanto a minha crise de asma. Eu estava cansada, isso era um fato, mas o cansaço físico parecia nada comparado à ansiedade que sentia dentro de mim.
Peguei meu celular e, meio sem pensar, mandei uma mensagem para a Val. Queria quebrar o silêncio entre nós, mas ao mesmo tempo, não tinha coragem de tocar diretamente no assunto que me atormentava: e agora? Como estamos?
Sequer sabia se tinha direito de questionar isso. Não era como se tivéssemos algo sério. Eventualmente teríamos que parar de sair, mas eu não sabia se estava pronta para isso… menos ainda se queria parar.
Minha mensagem foi simples, como quem tentava manter a normalidade:
“Oi. Como você está?”
E depois disso… silêncio. O celular ficou mudo. Ela não respondeu.
Tudo bem que eu já sabia que ela não estava nada bem. Eu mesma tinha ferrado com o seu dia, mas… ela poderia ao menos me xingar e nem isso.
Glória me deu uma carona para a faculdade e ao longo da noite, a cada notificação nova, meu coração disparava na esperança que fosse a Val, mas não era. O tempo passou, e agora, no ônibus a caminho de casa, eu já tinha me conformado que não haveria resposta hoje e que muito provavelmente só a veria na segunda-feira para me dizer que deveria sumir de sua vida.
Bem, eu merecia.
Ouvindo a versão acústica de Creep do Radiohead, eu observava as ruas quase vazias pela janela do ônibus. Completamente imersa em meu próprio mundo melancólico e dramático, me segurando para não chorar. Eram pouco mais de 23h, mas o ônibus não estava totalmente vazio e esse vexame não gostaria de passar.
Eis que a música parou de repente. Peguei o celular no bolso e percebi que vibrava. Olhei para a tela, e a surpresa me tomou completamente: Valquíria estava me ligando.
Atendi com um misto de ansiedade e expectativa.
– Oi, – disse, tentando soar casual, mas minha voz saiu trêmula.
– Oi, Clara – Val respondeu. Ela me soou cansada, mas não brava. Isso já era o suficiente para aliviar a tensão que sentia e soltar o ar que sequer tinha percebido que estava prendendo. – Desculpa não ter respondido antes. Acabei de chegar em casa, estava no escritório até agora.
– Fazia tempo que não te via ficar até tarde no escritório assim… e é tudo culpa minha, me desculpa.
Valquíria soltou uma risada cansada. – Tem um motivo pelo qual eu estava saindo no horário e esse é justamente o mesmo motivo pelo qual eu fiquei até mais tarde hoje.
– Você está muito encrencada por minha causa?
– Eu encrencada? Eu não sou do tipo de pessoa que fica encrencada. Se irá te deixar mais tranquila em saber, o problema com a TechVision já foi resolvido. Eu tive uma reunião online com o presidente, ele recebeu o material certo, aprovou o orçamento e ficou muito feliz por eu ter aceitado fazer o projeto da casa do filho dele ainda esse ano. Quando eu vou ter tempo de olhar para isso, eu não sei, mas esse será um problema para a Valkyrie do futuro.
Até onde eu sei, o tempo da fila de espera para conseguir fazer um projeto com a Val estava beirando os nove meses. Não era algo tão simples. Ou seja, Marcos se saiu bem nessa história toda. Culpa minha.
– Você conseguiu descansar um pouco? – Ela perguntou, com uma preocupação genuína na voz.
Minha respiração se acalmou um pouco com o tom dela. – Eu… honestamente? Não muito… eu fui para o apartamento da Glória levar umas coisas e depois fui para a faculdade. Acho que consegui cochilar por uns vinte, trinta minutos. Eu não consegui descansar mais que isso.
– Hum… – ela fez uma pausa, como se estivesse considerando o que dizer. – Clarice, eu te suspendi justamente porque achei que você estava se sobrecarregando. É para você desacelerar, descansar, lembra? Não acumular mais coisas.
– Eu sei, eu só… eu não consegui parar, sabe? Ficar sem fazer nada me fazia pensar ainda mais em tudo que aconteceu e eu não sabia o que pensar. Estava com medo e preocupada…
Ela suspirou do outro lado da linha, e eu consigo imaginar o jeito como devia estar passando a mãos pelos cabelos, bagunçando os fios como sempre faz quando está sem sua máscara de chefe.
– Eu entendo, mas você precisa cuidar de si mesma. Eu estou preocupada com você esses dias. Está se lembrando de comer e tomar os seus remédios?
Droga… os remédios! Eu fiquei de passar na farmácia para comprar ao menos o sulfato ferroso, mas eu me esqueci completamente.
– Eu vou me cuidar melhor, ok? – Não foi um sim e nem um não. Eu não contei a verdade, mas também não menti. – E eu vou descansar amanhã. Eu prometo, – acrescentei.
– Aí Clarice, eu não sei o que faço com você. Sábado é a exposição na sua faculdade, se depois disso a mademoiselle inventar algo mais, eu vou te algemar e não deixar sair. É isso que você quer?
– Depende. Suas algemas são de pelúcia?
Era possível “ouvir” os olhos de Valquíria se revirarem. – Muito engraçadinha.
Eu ri. – Desculpa, foi inevitável. Não posso deixar passar uma oportunidade dessas.
– Eu também tenho de pelúcia, mas prefiro as algemas de couro. Machucam menos e não deixam marcas.
– Que?!
Senti meu rosto queimar de vergonha. Até olhei ao redor para ver se tinha alguém por perto para nos ouvir.
– Valquíria!
– O que?
– Eu estou no ônibus.
– Você perguntou.
– Eu não achei que fosse responder…
Ela estava se divertindo com isso, e eu nem precisava estar olhando para o seu rosto para ver isso.
Até poucos minutos estava tensa, nervosa e ansiosa e Valquíria conseguiu fazer me acalmar com apenas uma ligação. Nem parecia que, por minha culpa, ela teve que trabalhar até tarde da noite e acrescentar mais uma demanda na pilha que já tinha.
Enquanto isso, eu pensando o pior. Esperando que fosse me suspender de sua vida, demitir e xingar em todas as línguas que sabe falar… e sinceramente, eu nem sei por que estava esperando por isso. Não houve uma única vez em que ela foi maldosa comigo.
Vai ver sou eu quem não está acostumada a ser tratada de outra forma que não seja hostil.
– Eu não queria te decepcionar.
Soltei, quase sem querer. Essa frase, que vinha rondando a minha mente desde hoje cedo, finalmente saiu tirando o peso que carregava no peito. O silêncio que se seguiu me fez pensar que talvez eu tivesse falado demais. Mas Val responde com calma, calma que só ela iria ter em um momento como esse.
– Você não me decepcionou, petite. O erro foi grave, sim, mas você está dando o seu melhor há muito tempo. Eu só não quero que esse “melhor” acabe te destruindo. Foi por isso que te suspendi. Eu não quero que continue se autossabotando.
Fiquei em silêncio por um momento, tentando absorver as palavras dela. A tensão que carregava no peito começou a se dissolver, embora ainda havia um certo medo. Eu queria perguntar se nós duas estávamos bem de verdade, mas ao mesmo tempo, temia a resposta. Nós não tínhamos nada concreto para eu temer que se acabe, ainda assim cá estava eu amedrontada.
– Eu só… não sabia o que esperar depois da suspensão. Tive medo que isso nos afetasse mais do que o trabalho.
Ela ficou em silêncio por um instante, e eu quase pude ouvir o som de seus pensamentos do outro lado da linha. Esse era o momento em que ela iria dizer que eu não deveria me preocupar porquê nós não éramos nada.
– É uma situação um pouco complicada, – ela começou, meu coração disparou. Era agora. – Eu entendo que tenha ficado com medo. Não foi uma decisão fácil para mim. Mas o que aconteceu no trabalho hoje não muda nada fora dele, ok? Eu só quero que fique bem. Não fiz por mal, acredite em mim.
– Eu acredito… eu vou descansar, prometo.
– Parfait! – Valquíria disse, com um leve alívio na voz e eu sorri mesmo que ela não pudesse ver. – E, por favor, se você se sentir que esta sobrecarregada de novo… me avisa, d’accord? – Ela fez uma pausa. – Eu posso te suspender antes.
– Valquíria!
Ela riu e eu acabei rindo junto. – Mas é sério. Nós vamos dar um jeito, mas eu preciso que me fale, ok? Agora, vai para casa e dorme um pouco, por favor.
– Só mais algumas paradas e tô lá, – respondi, já sentindo o peso da exaustão tomar conta de mim.
– Ok. Me avise quando estiver em casa ou vou colocar a polícia atrás de você.
– Sim, senhora. Boa noite, Val.
– Bonne nuit, ma petite.
Depois de desligar a chamada, fiquei alguns minutos encarando o celular em minhas mãos com um sorriso bobo no rosto. Se eu estava ansiosa e tensa mais cedo, eu já nem lembrava mais!
Os dois dias se suspensão foram estranhos, mas a soneca da tarde realmente foi milagrosa em minha vida. Eu contei para a Val que estava passando a tarde no apartamento da Glória por ser mais perto da faculdade – a outra parte ruim, ela não precisava saber, – e mandou comida para nós nos dois dias. Isso foi o suficiente para a minha amiga jogar o bingo do “não se envolva” para o alto e me pedir para dar meu jeito e me casar com a Val.
Se fosse tão fácil assim…
Sábado de manhã e eu estava inquieta e ansiosa para o que me aguardava. Era a primeira vez que iria participar da exposição anual sem ser apenas uma visitante e estava muito nervosa e eufórica. Tão eufórica que acordei bem mais cedo que meu horário usual.
O projeto que minha equipe e eu havíamos trabalhado tanto finalmente seria exibido, e eu não via a hora de compartilhar com quem aparecesse por lá. Confesso que, fora a Larissa, eu não convidei ninguém da minha família para ir. Também não era como se alguém fosse. Glória e Otávio confirmaram presença e o pessoal do escritório também… quase todo pessoal.
“Hoje é o grande dia” enviei uma mensagem para Val logo cedo pela manhã. Com a minha suspensão, nós passamos a trocar mensagens com mais frequência. Logo assim que o dia começava, lá estávamos as duas conversando como se não tivéssemos nos falado até cair no sono na noite anterior.
“Está pronta?” ela respondeu logo de imediato.
“Não” confessei. “Estou morrendo de medo. Vai que eu desaprenda a falar?”.
“Você estudou bastante, vai dar tudo certo” Valquíria me enviou uma sequência de figurinhas de gatinhos que me fizeram rir. Eu ainda não consigo aceitar que ela era adepta a comunicação via figurinhas de gatinhos. Mais absurdo imaginar era que ela e o Bruno praticamente só comunicavam através deles.
Dentro do ônibus eu resolvi ligar para a Val. Ainda tinha cerca de uma hora, uma hora e pouco para chegar no meu destino e queria que o tempo passasse logo. Nada melhor que me distrair.
– Decidiu testar se ainda sabe falar? – Val atendeu.
– Sim, fiquei com medo de esquecer no caminho.
– Bem, nesse caso fico contente em poder te ajudar. Você já está a caminho?
– Sim, inclusive estou passando perto do seu condomínio.
– E não vai parar aqui para me ver? Incroyable.
– Eu tenho horário para chegar lá…, mas eu te vejo essa noite, certo?
– Essa noite? O que tem essa noite?
Senti meu rosto corar de vergonha por ter assumido que nos veríamos.
– Nada… não tem nada não.
Eu só fui bobona iludida assumindo que fosse querer me ver só porque ficamos alguns dias longe. Nada demais.
– Ah… okay. Nós podemos comer fora para celebrar a sua primeira exposição. Eu deixo você escolher onde quer ir.
Tá, talvez eu não tenha sido tão iludida assim.
– Eu topo! – Respondi empolgada até demais. – Eu queria te convidar para ir ver o meu projeto, – confessei. – Não que eu esteja chateada que não vai, longe disso. Eu entendo que não se sente confortável nesse tipo de ambiente e até recusou o convite dos organizadores várias vezes. Mas eu não queria te deixar de fora dessa e nem que fosse a única do trabalho que não fosse… aí eu pensei em te ligar… chamada de vídeo… se você quiser… e se tiver tempo… posso?
Valquíria demorou um pouco para responder. Seu silêncio me deixou ainda mais ansiosa. – Obrigada por entender, – ela disse, não soube decifrar a sua voz. Mas também não me soou como algo para me preocupar. – Eu quero sim. Me ligue quando puder. Estarei te esperando.
Sorri ao ouvir sua resposta. – Eu vou te ligar assim que puder, eu prometo.
Quando os outros veteranos me disseram que toda exposição, feira, – seja lá como prefere chamar, – era uma correria, eu não imaginava que seria tanto. Assim que coloquei meus pés no salão, eu não parei mais. Mas ver todo o esforço de meses se materializando e se tornando algo muito bonito de se ver, era realmente gratificante. Eu estava realmente orgulhosa de mim. Talvez eu não seja tão ruim quanto pensava.
Minha equipe se dividiu em dois turnos para que também tivéssemos chances para andar pela exposição, ver o trabalho dos outros alunos, talvez assistir alguma palestra. O evento era muito grande e perfeito para o tal do “networking”, que eu honestamente não me interessava tanto, mas precisava fingir se quisesse ter algum futuro na arquitetura.
A movimentação ao meu redor não me afetava. Meu foco estava totalmente na apresentação do meu projeto, na maquete à minha frente e garantir que tudo corresse como planejado. Enquanto isso, tanto meu grupo quanto os outros colegas de classe estavam empolgados em poder conhecer alguns arquitetos ilustres do Brasil. Talvez eu me acostumei em estar cercada por eles no trabalho que nem senti emoção quando precisei apresentar para os que não conhecia e também estava nem aí para os burburinhos.
– Olha só com quem eu consegui uma foto, – Marina mostrou empolgada. – Além de talentoso e gostoso, ele é muito cheiroso. Meu deus!
– Eu também tirei algumas fotos, – Diego mostrou no seu celular. – Daora, né?
– Cadê as suas fotos, Clarice?
– Eu não tirei nenhuma. Estou de boa.
Os dois me olharam com julgo e voltaram a trocar suas “figurinhas”. Logo em seguida, Kássia e Roberta vieram empolgadas com a expressão de que acabaram de ver o Michael Jackson ou algo assim.
– Vocês viram quem apareceu aí hoje?
– Não, quem?
– Vem ver! Rápido!
– Eu também quero!
Os quatro olharam para mim como quem pedisse permissão, mas na verdade diziam; fica aí apresentando o trabalho sozinha enquanto a gente bate perna. Só faltou me chamar de trouxa e idiota. O que seria bastante fidedigno a mim.
Sorte a minha era que o Murilo era tão trouxa quanto eu e eu não fiquei totalmente sozinha.
Estava explicando os detalhes do nosso conceito a um professor quando senti um movimento ao meu lado. O perfume atraiu minha atenção. Olhei de relance e meu coração quase parou.
Valquíria estava ali.
Em carne e osso.
Meu primeiro instinto foi correr para ela, mas eu me segurei. Eu estava em meio a uma apresentação, e estava sendo avaliada. Por pouco não perdi o fio da meada completamente e consegui ir até o final desviando o olhar cada dois segundos para saber se a Val ainda estava ali.
Quando finalmente pude me aproximar dela, senti um nervosismo que não sabia explicar. Eu estava acostumada com a Valquíria minha chefe e até como minha… seria muito presunçoso da minha parte dizer amiga? Ou amiga com benefícios? Enfim, eu estava acostumada com sua presença com qualquer coisa, menos como a arquiteta renomada, cujo a presença atraía muitos olhares e admiração, e que a opinião era altamente respeitada até mesmo pelos meus professores.
Valquíria estava inclinada, os olhos estreitados em concentração olhando fixamente para uma parte específica. Meu coração disparou. Depois de quatro meses trabalhando juntas, eu posso dizer que conhecia seus olhares e caretas. Essa cara era de quem encontrou algo. A essa altura até eu estava tentando procurar o mesmo erro e torcendo para que ela não esteja pensando que eu e meu grupo somos totais incompetentes.
– Valquíria…? – A chamei, hesitante, antes que eu tivesse uma taquicardia ao seu lado.
Ela levantou a cabeça levemente, seu olhar ainda cheio de concentração, mas seus olhos encontraram os meus com um brilho suave. – Foi você quem fez essa parte, não foi? – Ela apontou para onde estava observando anteriormente.
Pisquei, confusa por um momento. Olhei para onde ela estava apontando e, só então, lembrei que aquela parte específica da maquete foi minha responsabilidade. Eu estava tão imersa no trabalho em equipe que quase me esqueci das partes que eu tinha feito sozinha.
– Sim, – respondi, um pouco surpresa. – Fui eu. Por que?
– Eu sabia, – Val sorriu. Um sorriso raro e cheio de orgulho. – Reconheço o seu trabalho de longe, – ela se endireitou e me encarou com um ar curioso. – Você realmente achou que eu não viria, não é mesmo? – Sorri amarelo. – Eu não deixaria de vir prestigiar o seu trabalho.
– Mas, mas…, mas você disse que não se sente bem em ambientes como esse?
– É muito fofo da sua parte se preocupar com isso. Honestamente me deixa aliviada saber que se importa e preocupada…, mas, o fato de não me sentir totalmente confortável não quer dizer que eu não vá fazer. Eu tenho os meus meios de deixar ao menos tolerável, – ela mostrou seus protetores auriculares que se eu não soubesse que eram protetores, iria achar que era aqueles fones que cantores usam durante os shows.
Isso me fez perceber que várias vezes achei que a Val estava ouvindo música e ela estava só usando protetores… literalmente estava na minha cara o tempo todo.
– E então, não irá me apresentar o conceito do seu projeto?
– Apresentar?
– Oui! Eu vim aqui só para ver a sua apresentação e o seu projeto.
Sorri nervosa.
Teria sido muito mais fácil por telefone…
Infelizmente, Valquíria era a pessoa mais curiosa em me ouvir e não desviou sua atenção de mim um único instante enquanto apresentava o meu trabalho. E se não bastasse isso, haviam vários olhares sobre nós. O meu próprio grupo – que teoricamente deveria me ajudar a apresentar – observavam incrédulos e surpresos. A Val era famosa nesse meio por muitos motivos, ser sociável não era um deles.
Quando terminei de apresentar, notei que todos os meus colegas do grupo do trabalho e alguns de classe estavam nos cercando, cada vez mais próximos. Curiosos com a presença de Valquíria e ansiosos para conhece-la.
– Ei, Clarice. Você realmente conhece a Valkyre? Como conseguiu trazer ela aqui? – Um dos veteranos que eu nem sabia o nome perguntou. Como ele sabia o meu nome?
Engoli em seco, sentindo meu estômago se revirar. Valquíria estava ao meu lado, calma e observadora, mas eu não sabia se estava assim por estar desconfortável e querer sumir dali ou se de fato estava tranquila com essa atenção exagerada. Eu também não sabia era como iria a apresentar. Eu não poderia dizer que tínhamos um caso, tampouco me sentia no direito de dizer uma amiga. Ela me considera sua amiga?
Eu abri a boca para falar, mas as palavras pareciam presas na garganta. Ninguém me passou o script dessa cena, eu na verdade, nunca sequer cogitei que isso um dia iria acontecer. Minha mente estava uma confusão total, e o silêncio ao meu redor só aumentava a pressão. Todos os olhares estavam sobre mim, esperando uma resposta. Inclusive Valquíria.
– Essa é… é… – Comecei, mas minha voz saiu trêmula, quase inaudível. Eu olhei para a Val, buscando alguma pista ou apoio, mas seu olhar era impassível, como se estivesse esperando minha decisão. Ou simplesmente não havia entendido que estava pedindo socorro com o olhar. – Essa é Valquíria, – finalmente consegui dizer, a voz saindo vacilante. Achei que isso seria o suficiente, mas estavam todos esperando que eu continuasse e eu sorri em desespero. – Minha… minha chefe?!
Um silêncio pairou no ar por um instante – que para mim pareceu horas – antes que todos ao redor começassem a reagir com admiração.
– É sério?! Uau! Por que nunca falou antes que trabalhava com ela?!
– Não acredito que a gente perdeu a chance de usar a Valkyre no nosso trabalho.
– Ela não é um objeto… – respondi entre os dentes, querendo matar esse bando de idiotas, mas fui totalmente ignorada.
Parte de mim sentia uma pontada de culpa. Tudo bem que a Val é a minha chefe, mas ela não é só isso. E agora essa situação totalmente desconfortável. Agora conseguia entender ainda mais o motivo por não gostar de vir em eventos como esse.
Apesar dos pesares, Valquíria manteve a mesma compostura que tinha em qualquer situação profissional. A mesma de quando nos conhecemos e que agora achava tão estranha. Me sentia observando uma outra pessoa cumprimentando meus colegas de classe.
– Eu ouvi tanto sobre Valkyre, – Diego pegou a mão de Valquíria e eu vi através da sua máscara inexpressiva o seu incomodo.
– É Valkyrie, – a corrigiu, quase inaudível.
– Você é incrível! Eu adoro os seus projetos… deve ser uma honra trabalhar ao lado de alguém tão talentoso como você.
– Merci.
O francês deu um clique em minha mente.
“Eu falo bem português… quando não estou nervosa, ansiosa, tensa ou envergonhada…” me lembrei dela falando no carro há milênios. Estar aqui já era um esforço muito grande. Eu não deixaria essas pessoas tornarem ainda pior o que já era difícil.
– Ok, gente. Já deu, né – afastei a mão de Diego de perto da Val. – Chega.
– Ficou com ciúme, é? – Diego perguntou rindo.
– Ha. Ha. Ha. – Revirei os olhos. – Olha, eu já fiquei mais que o meu turno apresentando o trabalho. Agora vocês que lutem. Eu vou indo nessa. E a Valquíria também.
– Vamos tirar uma foto antes… ah, qual é, Clarice. Só uma foto para postar no Insta quem veio ver nosso trabalho.
Meu grupo, Valquíria e eu nos posicionamos atrás da maquete para a foto. Eu já não queria tirar a foto para início de conversa e precisei ouvir a piadinha de que deveria ficar na parte mais baixa da maquete senão ninguém iria me ver. Humor e piadas.
– Desculpa por isso – eu pedi quando conseguimos deixar os chatos. – Vamos embora?
– Você não quer ver os outros projetos?
– Não, eu já vi a maioria hoje antes de começar.
Honestamente, ainda tinham algumas coisas que eu gostaria de ver. Mas o ambiente estava totalmente insalubre para Val e eu não queria a torturar ainda mais. Ficarei feliz com um lugar calma e um Mc Donald’s.
No carro, o silêncio era quase palpável. Eu estava dirigindo a pedido de Val, que provavelmente não se sentia bem o suficiente para assumir o volante. Tentei relaxar e me acalmar depois do tumulto que foi a feira, mas a quietação de Val me preocupada. De vez em quando, eu olhava de soslaio, mas ela estava com o olhar fixo na estrada à frente, e os pensamentos distantes.
Eu sabia que deveria dizer algo, mas não fazia ideia do que. Pensei perguntar se estava tudo bem ou se o barulho da feira tinha sido demais para ela. Estava prestes a quebrar o silêncio, mas Valquíria me interrompeu ao se virar para mim de repente assim que paramos no semáforo. Seu olhar não era nada contente e já me causou medo.
– O que eu sou para você, Clarice?
A pergunta me pegou completamente de surpresa. Meu coração acelerou, e eu quase perdi o controle do carro por um segundo. Pisquei várias vezes, tentando processar o que ela havia acabado de perguntar. O que estava acontecendo aqui?
– O quê?!
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Au revoir!
