« C L A R I C E »
Asma e anemia era algo tão comum em minha vida que observar Valquíria surtar era até cômico.
Eu era muito pequena quando tive minha primeira crise de asma. Não me lembro se foi com um ou dois aninhos, mas foi algo bem precoce. Tão precoce que eu nunca pude participar das brincadeiras com as crianças da rua. Ou fazer as aulas de educação física. Teve uma época que eu fiz natação – ou melhor, tentei – e isso foi o mais perto de exercícios que eu cheguei. Claro que eu não acompanhava a turma. Enquanto todo mundo nadava cada vez mais rápido e treinava para um dia participar de competições, eu só tentava não morrer de um lado para o outro da piscina… infantil.
Ter uma crise e não estar com a minha bombinha também não foi a primeira vez. Então, enquanto Valquíria estava paranóica com o fato de que eu poderia ter morrido e ainda estava anêmica, eu só pensava que perdi um incrível piquenique com várias comidas gostosas e seria obrigada a comer feijão.
Eu não gosto de feijão.
– Incroyable ! Incroyable ! Je n’arrive toujours pas à croire que tu ne m’as pas dit quelque chose d’aussi important, Clarice !¹ – Valquíria quebrou o silêncio de repente. Estávamos em seu carro, em direção a sua casa quando ela explodiu de repente. Eu fiquei apenas a observando sem entender uma única palavra, mas pelo seu tom de voz bravo sabia que não era algo bom. Talvez fosse melhor não entender. – Eu ainda não acredito que você não me contou algo tão importante, Clarice¹ – Ela traduziu, mas seu sotaque estava mais carregado que o normal. A bicha estava brava mesmo. – Você deveria ter me contado. Eu jamais iria te colocar nessa situação se soubesse que poderia literalmente morrer!
– Perdão, – sorri amarelo pensando que um sorriso iria amolecer seu coração. Spoiler: não amoleceu.
– Pardon? Pardon?! – Ela balançou a cabeça e subiu a calçada de algum lugar com o carro. Foi só então que me dei conta de que estávamos parando no estacionamento de uma farmácia.
– O que estamos fazendo aqui?
– Ora, como assim o que estamos fazendo aqui? Acha mesmo que vou continuar andando com você por aí sem um remédio? Épargne-moi, mon amour. Pas avec moi ! [Me poupe, meu amor. Comigo não!]
Ela saiu do carro e eu fui atrás, embora parte de mim acreditasse que ela não se importava muito se eu estava indo junto ou não. Dentro da farmácia, Valquíria entregou toda aquela papelada para o farmacêutico e ambos começaram uma discussão de diferentes versões do mesmo remédio. Aparentemente, a frescura dessa mulher se estende até a qual laboratório fabricou a medicação já que em algum momento ela disse “eu não gosto desse laboratório”. E agora eu te pergunto, quem é que conhece esse tipo de coisa?
– Está saindo por R$341,06, com o desconto fica R$309,00 – A farmacêutica falou e eu quase tive outra crise de asma ali mesmo.
– Tudo? – Perguntei.
– Não, só o Relvar com 30 doses. Ainda tem o inalador de resgate, o sulfato ferroso e o suplemento vitamínico.
De crise de asma para um infarto. Ah, mas se aquela medica achou que eu iria pagar tudo isso em remédio, ela estava era muito louca. Nem fedendo que eu vou pagar tudo isso. Não usei remédio para controle de asma até hoje, não será agora que eu vou usar. Pego minha bombinha grátis no SUS e vou embora. Eu hein!
– Tudo bem, – Valquíria respondeu tranquilamente. – Os inaladores de resgate posso levar a mais ou preciso de outra receita?
– Mais? – Perguntei confusa e internamente desesperada. – Por que mais?
– Backup, precaução e se você esquecer em algum lugar?
– Você está exagerando.
– Ser precavida não é um exagero. E só por isso eu acho que preciso de mais um.
– Quantas bombinhas você acha que eu preciso?
– Você precisa de uma na sua bolsa, outra para ficar na sua casa e eu quero ter uma comigo e no meu apartamento também. E se reclamar, vou pegar mais um para deixar no carro. Não custa nem R$30 cada um. Sabe o que é muito mais caro que isso?
– O que?
– Um funeral.
Contra fatos não há argumentos. Por mais que eu quisesse argumentar, tanto a médica que me atendeu quanto as enfermeiras que cuidaram de mim enfatizaram o fato de eu ter tido sorte de ter um pronto atendimento próximo, caso contrário teria ido de arrasta… pode ser que tudo isso tenha assustado a Valquíria um pouco. Ou eu que sou muito inerte e não sinta mais nada.
– Alors, ao invés de ficar parada aqui, vá até o refrigerador e pegue dois isotônicos para mim.
– Qual sabor?
Ela ficou em silêncio pensativa por um instante. – Morango com maracujá*.
– Tá.
Pegar dois isotônicos de morango com maracujá, uma missão simples e fácil… foi o que eu pensei até me deparar com o corredor de refrigeradores e encontrar um arco-iris de bebidas coloridas, todos eles isotônicos. Teria sido mais fácil ter perguntado qual cor ao invés de sabor.
Estava quase desistindo quando encontrei o tal isotônico de Morango com Maracujá praticamente escondido. Tinha demorado tanto que quando voltei para a Val, ela já estava no caixa e prestes a pagar. Cheguei nos últimos segundos do segundo tempo.
– Por que demorou tanto? – Ela perguntou sem muito interesse.
– Desculpa, foi difícil de achar. Por que não pediu tangerina que tem duzentas opções? – Entreguei as bebidas para a mulher do caixa e me virei para Val. Para a minha surpresa e total desconfiança, essa vaca estava com cara de quem estava segurando o sorriso.
Eu queria ter visto o valor total para pagar a Val de volta ou ao menos tentar pagar, mas não apareceu em nenhum lugar e a moça do caixa também não disse nada. Valquíria também não quis esperar pela nota fiscal, tampouco quis a sua via do cartão. Ou seja, ficou um mistério.
– Pegue, – Valquíria me entregou uma das caixinhas de remédio que estava no saco de papel assim que saíamos da farmácia. – E já coloque num bolso separado da sua mochila que seja de fácil acesso. Te vejo usar essa mochila todos os dias, eu não quero que essa bombinha saia de dentro dela. Estamos entendidas?
– Oui, madame [Sim, senhora]. – Respondi em francês usando todo o meu conhecimento da língua. Valquíria ergueu uma sobrancelha me observando.
– Estou falando sério, mademoiselle – ela continuou a caminhar em direção ao carro. – Deixe o inalador na mochila e se tirar, volte com ele no lugar. Você tem outros para deixar em casa e onde mais quiser, mas o da mochila é o da mochila.
– Você comprou quantas bombinhas afinal?
Valquíria abriu a porta de trás do carro, pegou sua bolsa que estava no banco e colocou duas caixinhas de bombinha lá dentro. Em seguida, voltou com a bolsa no lugar e fechou a porta antes de me encarar com a maior naturalidade do mundo.
– O suficiente.
Ela me deu um sorriso rápido e se preparou para entrar no carro. Fiz o mesmo e me deparei com ela jogando uma caixinha dentro do porta-luvas.
– Suficiente? – Perguntei ao entrar no carro. – O que seria o suficiente?
Ela revirou os olhos. – Comprei inaladores extras para a sua mochila, quarto, cozinha, meu apartamento, porta-luvas do carro, Apex, sua gaveta no escritório, minha sala e minha bolsa.
– Nove bombinhas?!
– Dez. Um para cada andar do meu apartamento.
– Você sabe que eu sou uma só, não sabe? Não precisa de uma bombinha para cada lugar que eu vou. Eu preciso de uma bombinha que esteja comigo e veja só, eu já tenho uma na minha mochila.
– Eu não quero que você fique trocando a bombinha de lugar. Em uma dessas irá se esquecer onde colocou ou esquecer de trocar de lugar. Então não. É melhor que tenha extras.
Não queria que a Val gastasse ainda mais comigo, mas nem se ela me deixasse pagar eu poderia. Levando em consideração seus exageros e o preço do outro remédio, eu não poderia sequer cogitar em pagar. Se fosse a minha família, iriamos só pegar a bombinha para emergência e o resto iriamos de fé… literalmente. Meu pai não é o exemplo de ser mais religioso do mundo, mas as minhas tias, principalmente a Lúcia, essas aí são mais crentes que o pastor. Não tem um dia sequer que não estão na igreja orando.
– O que está pensando? – Valquíria interrompeu meus pensamentos. – Está com uma carinha séria e tensa… não combina com você.
Minha expressão séria deve ter se dissipado no mesmo instante, afinal, uma só palavra de Val foi o suficiente para me fazer abrir um pequeno sorriso e mandar para longe o desconforto e tensão que estava sentindo. Mas também, como poderia continuar ao me deparar com a visão ao meu lado?
O sol aos poucos se despedia no horizonte, espalhando raios dourados que dançavam sobre a pele de Val. Era como assistir uma obra de arte se criar na minha frente. Cada feixe parecia se demorar, relutante em deixá-la, como se soubesse que ela era uma obra rara. Seus olhos castanhos cor de mel, capturavam essa luz de forma mágica prendendo totalmente a minha atenção. Seus cabelos pareciam ser beijados pelo sol com seus fios que iam naturalmente assumindo um tom dourado ao longo de suas ondas.
A observar me dava inspiração, queria eu ter meus pinceis e tintas agora. Eu poderia facilmente pintar essa cena. Com certeza seria um dos meus quadros mais lindos, perdendo apenas para os outros pintados com a mesma modelo.
Ainda sem entender de onde veio esse desejo impulsivo, eu me inclinei para o lado com a intenção de dar um beijo em sua bochecha e nesse mesmo momento ela se virou em minha direção. O que era para ser um beijo na bochecha virou um selinho e esse selinho virou algo mais.
Se não fosse pela buzina vindo do carro de trás, o nosso beijo inocente iria virar algo… quente e eu estava disposta a perder meu réu primeiro atentando ao pudor. Val voltou a dirigir antes que todos os carros na fila atrás de nós reclamassem ainda mais por estarmos paradas com o semáforo verde.
Não totalmente satisfeita, lhe dei o beijo na bochecha que estava em meus planos antes de me sentar no lugar.
– Obrigada por me salvar hoje, minha heroína.
– Eu… uh… de rien [de nada].
Era impressão minha ou eu deixei dona Valkyrie desconcertada?
– Está com fome? – Ela mudou de assunto me dando certeza da minha desconfiança.
– Faminta.
E não é de comida.
– Super… super [Legal… legal]. Nós vamos comer em casa… tarde demais para ser um almoço, cedo demais para um jantar. Mas ainda assim, o prato típico de um almoço básico brasileiro.
O gay panic de Val a deixou falando coisas aleatórias. Era fofo observar. Pena que ela estava ocupada dirigindo…
– Você ainda está com as ideias de me fazer comer arroz e feijão?
– O que te fez pensar que eu iria mudar minha ideia? – Ela me encarou séria. O gay panic passou. Seu tom tinha um pouquinho de indignação. – Seu corpo precisa de ferro, então eu vou te dar ferro.
– Meu corpo também precisa de outras coisas, você também vai me dar? – Sorri mordendo o lábio inferior.
Valquíria arregalou os olhos e virou sua atenção para a rua a sua frente. Depois de tudo que aconteceu, eu não tenho muitas expectativas de que a Valquíria Surtada Touchon fosse querer algo comigo, mas a esperança e a fé estão sempre comigo.
– Tu peux renoncer [pode desistir]. Evitar gatilhos para uma nova crise significa sem esforço físico. Qualquer tipo de esforço físico.
É… como diz o saudoso Charlie Brown Jr.; dias de luta, dias de luta.
Não dá para ser feliz saindo com essa mulher.
De todos os possíveis planos para um final de semana, ser forçada a comer feijão por Valquíria não era um deles. Nós chegamos em seu apartamento, tomamos um breve banho – sem carícias, triste e sem amor – e Val foi cozinhar.
Arroz, feijão, couve e espinafre refogado, bife grelhado e um suquinho de laranja natural para acompanhar. Parte de mim acreditou que a intenção da francesa era me curar da anemia numa única refeição com a quantidade de feijão, couve e espinafre que me serviu, mas não comentei nada.
– Come, – Val mandou ao me ver enrolar para começar a comer. – Ou vai querer que eu te dê na boca? – Perguntou depois de alguns segundos que eu não me movi do lugar.
– Eu não quero feijão. É ruim.
Ela semicerrou o olhar me fazendo engolir o seco. Contra a minha vontade, levei uma garfada da comida a boca e sorri amarelo.
Acostumada com a comida da tia Lúcia que não era ruim, mas também não era nada comparada com a da Val, eu esperava que o feijão fosse mais um daqueles pratos chatos, sem graça e ruim. Obviamente, eu me enganei. O sabor, tempero, textura e a cor eram diferentes, além do mais, tinha calabresa e bacon misturado que dava um charme extra me fazendo interessar pela comida.
– É bom, – confessei dando outra garfada. – Muito bom!
Que ódio. Eu não queria me dar por vencida, mas eu me rendi a comida boa. Como eu poderia dizer outra coisa se devorei toda a comida muito mais rápido que deveria?
– Ok, eu não gosto de feijão, mas o seu me conquistou. Não é como o da minha tia que é triste, pálido e com cara de hospital. Qual o seu segredo? Amor?
– Páprica.
Sorri com a resposta.
Eu só estava brincando e ela estava levando a sério a minha pergunta, assim como leva a sério qualquer coisa que eu falo. Se isso é uma característica autista, eu não sei, também não me importo, só acho fofo que ela leva a sério tudo que eu falo.
Depois de perder parte do nosso dia no pronto atendimento, nos restaram poucas horas para aproveitarmos. Dito isso, nós comemos – e faltou pouco para a Val me enfiar comida goela abaixo, – assistimos coisas aleatórias na televisão e trocamos uns chamegos no sofá até dar a minha hora.
Embora eu quisesse ficar por lá, eu conheço o traste de pai que tenho e a tia chata que me aguarda. Era melhor voltar para casa cedo que passar o resto da minha noite ouvindo os dois testando a minha paciência.
Que a Val me levaria para casa não houve sequer discussão. Qualquer A que eu falasse e ela seria mais uma na lista de pessoas reclamando em meu ouvido. E convenhamos, ir para casa sem precisar pegar um busão era bem melhor.
Chegando perto da minha casa, eu pedi a Valquíria para parar o carro.
– Quer saber? É melhor você me deixar aqui mesmo.
– Por que? Você não mora aqui.
– Eu sei, mas é domingo. Minha família toda deve estar aí, eles vão encher meu saco de perguntas se me virem saindo de um carro como esse. O único Mercedes que passa por aqui é o ônibus, eu já te falei isso. Qualquer outro chama muita atenção e eu não quero essa atenção para mim.
Valquíria me encarou em silêncio. Não estava nada contente com isso, mas aceitou.
– Eu não gosto disso, – comentou séria. – Eu prefiro te deixar na porta da sua casa e te ver entrar em segurança.
– Então arrume outro carro porquê isso “não vai estar acontecendo, senhora.”*. Eu vou indo agora, ok? – Dei um beijinho rápido na bochecha da Val. – Até amanhã.
Observar Valquíria engolir a contragosto a sensação de ser contrariada era engraçado. Ao menos para mim era bastante divertido. Ela está acostumada a ter tudo que quer e do jeito que quer e isso torna ser do contra ainda mais interessante para mim.
No entanto, hoje não me recusei a ser levada para casa apenas para a contrariar. É domingo, o culto da igreja já acabou e conhecendo a minha família, estariam todos no portão conversando na calçada como de costume. Sou maior de idade, mas isso não muda o fato dos meus parentes quererem controlar a minha vida e no momento não estou afim de explicar quem é Valquíria e porquê estava em seu carro.
Caminhei nem duas quadras e senti o peso do cansaço no corpo pelo esforço. A brisa da noite parecia penetrar direto em meus pulmões, trazendo à tona o desconforto familiar. Talvez eu realmente devesse começar a me preocupar com meu atual estado, afinal, essa é a caminhada que faço diariamente até o ponto de ônibus e não deveria me sentir tão exausta. Meu peito apertava a cada passo, e eu desejava estar em casa.
Quando virei a esquina, avistei meu pai e minhas tias na calçada, como já esperava. As risadas ecoavam na escuridão, mas ao me verem, os sorrisos desapareceram.
Meu pai teria sido o primeiro a questionar a minha chegada àquela hora se um Mercedes não tivesse passado em nossa rua naquele exato instante atraindo a sua atenção, exatamente como eu falei que aconteceria. Por alguma razão eu não fiquei nada surpresa ao ver Valquíria passar pela minha rua mesmo sem necessidade. Ela só esperou o tempo de eu chegar perto de casa para vir me conferir.
– Vocês viram isso?! Um Mercedes desses aqui na nossa rua! – Meu pai comentou empolgado, completamente absorto na visão do carro que já desaparecia na esquina. – Imagina o preço de uma máquina dessas…
Tive esperanças que essa distração seria o suficiente para me deixar passar ilesa, mas ganhar na loteria seria mais fácil. Tia Lúcia jamais se deixaria distrair. Ela nunca se distrai da vida alheia, principalmente a minha. Seu olhar se cravou em mim e eu engoli o seco.
– Isso é hora de chegar em casa, Clarice?
– Passei mal no Ibirapuera essa tarde, – respondi, tentando evitar seu olhar acusador. – Fui parar na UPA. Estava lá até agora.
Tia Lúcia me encarou descontente. – O que foi agora? Não vai me dizer que andou tendo aqueles problemas de novo.
Arregalei os olhos e neguei rapidamente. – Não, tia. Era asma.
– Asma?! – Ela cuspiu a palavra como se fosse um pecado imperdoável. – Você foi curada há anos, Clarice! Curada! O pastor orou, e Deus te livrou dessa doença! Você não tem asma!
Minha garganta secou. Eu sabia que argumentar seria inútil, mas algo em mim se revoltou e eu não consegui deixar passar. – O pastor disse que eu não tinha mais asma, mas eu ainda tenho, tia. Nunca deixei de ter. Eu só deixei de tratar porque você disse que estava curada… mas não estou.
Tia Lúcia não gostou da resposta. O seu rosto estava vermelho de raiva e por um instante pensei que fosse me mostrar o peso da palavra sagrada acertando a sua bíblia na minha cara, mas ela não era o meu pai.
– Entra, – ela mandou. – Entra agora e vai tomar seu banho.
Eu que não seria doida de a desafiar. Entrei em casa e fui direto para o meu banho embora eu já tivesse tomado banho com a Val, mas ela não precisava saber disso.
Quando entrei em meu quarto após me banhar, lá estava a tia Lúcia sentada na minha cama com a sacola da farmácia ao seu lado. A vara também estava ali, quase reluzente sobre o forro da minha cama ao lado da bíblia.
– São esses os venenos que os homens mandaram você tomar? – Perguntou com seu típico tom passivo-agressivo. Ela se levantou com a sacola na mão.
– Tia…
– Você não vai tomar isso. A cura veio de Deus, não desses venenos! – Ela jogou a sacola pela janela e me encarou furiosa. – Ou você confia no Senhor ou vai morrer pelas próprias mãos com esses venenos!
– Tia, você está maluca?! O que você fez?!
Me aproximei da janela para ver se era possível recuperar a sacola, mas antes que pudesse ver, senti o puxão violento em meus cabelos me fazendo cair. – Você precisa de fé! Fé, Clarice. Não remédios! – Ela disse quase enfiando a bíblia na minha cara.
Meu peito começou a doer novamente, a falta de ar aumentando. Imediatamente me lembrei da bombinha que a Valquíria mandou deixar num bolso separado da mochila, mas não podia pegar enquanto a tia Lúcia estivesse em meu quarto.
– Vamos orar. Você precisa pedir perdão pela heresia contra o agir de Deus.
Ela se ajoelhou ao lado da minha cama, eu rapidamente me coloquei de joelhos também. Não que eu quisesse pedir perdão pela minha “heresia”, eu só queria que a oração acabasse logo para ela ir embora e eu conseguir respirar.
Enquanto a voz fervorosa da tia Lúcia ecoava pelo quarto pedindo perdão pela minha vida e meus pecados, eu me perguntava por quanto tempo mais meu corpo aguentaria essa luta silenciosa.
– Fica com Deus, minha filha – a tia Lúcia disse em um tom de voz mais suave ao se despedir. – Você precisa orar mais e ir à igreja, aí você vai ver essa maldição passar. Isso é Deus te chamando de volta.
Ela disse que Deus me curou e agora estava dizendo que Deus me amaldiçoou para voltar a igreja. Qual era o sentido disso tudo?
Enfim, não me interessa. Assim que ela saiu, eu tranquei a porta do quarto e peguei a minha mochila desesperada. E dessa vez eu orei e orei de verdade para que essa alucinada não tivesse encontrado a outra bombinha. Os pontos pretos na minha visão e as mãos trêmulas me deixaram ainda mais apavorada com medo de morrer sufocada.
Eu não podia morrer, não por uma crise de asma!
Para o meu alívio, a bombinha estava ali. Usei o spray, prendi o ar por alguns segundos antes de tentar respirar, repeti o processo outras duas vezes. Na terceira, eu já estava começando a me sentir melhor.
Escondi a bombinha de volta na minha mochila e deitei na cama. À medida que aguardava minha respiração normalizar, só conseguia pensar que eu precisava sair dessa casa o quanto antes se quisesse continuar viva. O meu pai e a tia Lúcia estão a cada ano mais doentes da cabeça. Conviver com eles é um perigo.
Eu preciso de mais dinheiro. Eu preciso trabalhar mais!
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Au revoir!
