Giorgia
– Você já sabe quando irá voltar para Veneza? – Ciara perguntou em italiano.
Demorou, mas veio.
Eu sabia que a viagem de Ciara até o Brasil não seria por acaso. Ela não sairia do seu paraíso perfeito de um recém casamento por acaso. Sua intenção é sondar a minha vida a mando da família, descobrir como estou e principalmente quando voltarei para casa.
Somos irmãs, não por sangue, e temos uma relação muito próxima. A mais próxima de toda família, acredito eu. Também não é por acaso, eu já a livrei de muitas situações com meu poder e influência no governo. Enquanto Ciara é o meu braço direito para todos os trabalhos… até os sujos.
Embora os tempos hoje sejam diferentes, eu não vou mentir e dizer que jogamos limpo. Não se mantém um império seguindo as leis. Mas, diferente da época dos meus avós, a aparência importa tanto quanto o poder.
Todos se escondem atrás de fachadas. Os lideres de facções se tornaram CEO’s de grandes empresas, o trabalho sujo ganhou novas máscaras e é passado para a sociedade como um negócio lícito de sucesso. Ninguém cogita a lavagem de dinheiro por trás… e quem ousar levantar essa suspeita, não sobrevive tempo suficiente para trazer provas.
– Eu não vou, – respondi depois de um tempo.
Estava de pé próximo a parede de vidro da minha suíte, observando a movimentação da rua lá em baixo.
– Sabe muito bem que nonna não irá gostar. Ela não gosta quando vamos para longe. Família precisa estar por perto.
Nonna (vovó) é como carinhosamente apelidamos nossa “matriarca”, Serena. Ela nos acolheu quando a sociedade nos deu as costas. Éramos apenas crianças órfãs, um peso e um prejuízo público. Serena nos acolheu, nos deu um lar, nos deu amor e nos educou. Eu ainda tive a sorte de ter sido “adotada” muito cedo e não me lembrar de como era a vida nas ruas e no abrigo, Ciara, porém, tem lembranças dolorosas que prefere não comentar.
Claro que eu sei que suas intenções não eram todas as melhores. Era muito mais fácil garantir a lealdade de alguém quando se é a salvadora dessa pessoa. Nós crescemos tendo Serena como uma heroína e protetora, a única mulher que olhou para nós e de fato nos viu.
E eu não me sinto manipulada, tampouco faria diferente de tudo que já fiz. Se hoje eu sou leal a ela, é principalmente por a ter como minha única família. A mãe – ou vovó – que nunca tive antes de a conhecer.
– Paolo está na Australia.
– E ela reclama quase todos os dias por isso, – Ciara rebateu. – Você não pode se afastar por conta do o que aconteceu. Ninguém está pensando o que acha que está.
Fraca, iludida e cega. Eu não tenho dúvidas que é assim que estou sendo vista, eu tenho certeza disso. Sou eu quem, em três anos ao lado de Sarah não a domei o suficiente, pelo contrário, me deixei ser enganada por ela e achei que estava tudo certo enquanto estava sendo feita de trouxa. Correndo um grande risco, afinal, Sarah viu e sabe coisas demais. Ela poderia muito bem foder algumas operações se quisesse. É por isso que devo seguir seus passos e garantir que não se atreva.
Ao menos isso eu acho que não estou enganada a respeito da minha até então pequena; ela não irá se colocar em risco à toa. Ela sabe muito bem que, sem minha proteção, qualquer deslize seu irá cutucar um vespeiro muito perigoso.
– Como pode ver, eu tenho muito o que fazer no Brasil. Vocês podem me julgar como fraca a ponto de não conseguir manter uma pequena na linha, no entanto, tem algo que eu sei fazer e faço muito bem: dinheiro. E é exatamente por isso que estou aqui.
De todos os meus irmãos, eu sou a considerada “fresca”. Minha presença para certos trabalhos não é só não requisitada, como também rejeitada. E de fato, tem coisas que prefiro não ver. Eu sou a cabeça pensante que transformou algo relativamente pequeno e local em algo global e enchi os bolsos de todo mundo de dinheiro.
Se não fosse por isso, talvez até hoje iria ouvir dos meus irmãos que sou inútil…
Meus pensamentos foram interrompidos ao notar um ser familiar caminhando pela rua. Usando moletom preto e roupas comuns, a moça do bar caminhava com o seu cigarro na mão. Não sou o tipo de pessoa de ditar regras na vida alheia, mas por alguma razão a ver fumando me incomoda diretamente.
Talvez fosse por sua aparência. O fato de parecer uma pequena enrustida faz com que o cigarro não combine com todo o resto. Não estou dizendo que seja, mas existem sinais que me intrigariam se não estivesse sem interesse algum em tentar outra vez.
– Eu acho que você está se escondendo, – Ciara disse. – Aqui no Brasil poderá esconder seus reais sentimentos e o fato de que apesar de ter se passado meses, ainda sofrer a ausência da outra. Está tudo bem sofrer por um término.
– Não foi só um término. Ela traiu a minha confiança, mentiu e me humilhou. E eu já disse que Sarah virou passado. Eu não a quero mais em minha vida.
– Enquanto estiver fugindo, ninguém irá acreditar nas suas palavras.
Revirei os olhos sem que Ciara visse.
Eu não estava aqui para discutir sobre isso mais uma vez. Quero paz, sossego e tranquilidade. Três coisas que eu não terei perto de todos os outros. A Nonna, por exemplo, irá ser uma das primeiras a me perturbar diariamente com a ideia de que não se é feliz sozinho e blá–blá–blá. Pode ter dado certo para todos eles e os que vieram antes deles, mas para mim não deu. Superem!
– Você acabou? Eu tenho que trabalhar.
Embora ficar no hotel fosse uma opção, Ciara optou por não o fazer. Durante sua estadia no Brasil, está no apartamento da nonna em São Paulo, por acreditar que assim teria mais privacidade com sua pseudo–pequena, vulgo sua esposa.
Entendo as limitações que um hotel pode ter. Se eu estivesse na minha casa, por exemplo, teria onde e como armazenar meu leite. Aqui sou obrigada a jogar fora tudo que ordenho todos os dias.
Que dor de cabeça! Preciso beber algo!
[…]
Era tarde da noite, quase madrugada, quando decidi descer para beber alguns drinks no bar. Já havia bebido algumas doses de whiskey em minha suíte, no entanto, meu corpo pedia por algo diferente.
Esperava encontrar um pouco mais de movimento, mas para a minha surpresa o bar estava praticamente vazio. Talvez o fato de o pianista já ter encerrado pela noite tenha influenciado em algo. Só havia uma pessoa no lounge e ela estava tirando um cochilo discretamente.
– Você sempre dorme durante o seu expediente? – Perguntei ao me aproximar.
– Só quando você está por perto, – ela respondeu levantando a cabeça lentamente. Ao notar com quem estava falando, ficou rígida de repente e levou as duas mãos a boca. – Desculpa, eu…
– Está tudo bem. Eu já estava de saco cheio das pessoas me tratando como se eu fosse um ser de outro planeta, – me sentei na banqueta do balcão do bar. – Onde está todo mundo?
– Sexta–feira, dia de música ao vivo no Rooftop, – explicou. – O que gostaria essa noite? Boulevardier?
Fazia pelo menos uma semana ou algo parecido, desde a última vez que encontrei essa mocinha e ela ainda se recordava do drink que tomei.
– Não, essa noite eu quero algo diferente.
– Assinatura da casa?
– Excelente ideia.
Honestamente eu sequer me lembrava mais qual era o nome e a receita desse coquetel, mas lembro de ter gostado bastante a primeira vez que provei há uns anos.
– Qual o seu nome? – Perguntei enquanto observava a bartender preparar a minha bebida.
– Laura, – ela disse exibindo o crachá discretamente.
– Laura… é um nome bonito, – constatei.
Chegar a essa conclusão apenas me deixou um pouco mais revoltada com o hábito tão feio que Laura tem. Pensar que Sarah também está seguindo esse rumo me causa um desgosto em dobro.
Laura deveria ter seus 1,60m ou algo próximo disso. Os cabelos castanhos que quase se confundem com o loiro escuro. Os olhos âmbar; lindos, porém com um ar… não sei, triste? Ou talvez seja apenas sono.
O uniforme me impedia de ver todo o seu corpo, mas o pouco que mostrava era o suficiente para saber que Laura escondia algo que poderia ser atraente.
– Você pode dormir no trabalho, mas se garante no preparo da bebida, – comentei após experimentar a bebida que Laura me preparou. – Demorou um pouco, mas agora entendo porque te mantém aqui.
Laura me observou em silêncio, provavelmente medindo as palavras para conversar comigo.
– Você pode me falar o que está pensando. Essa noite finja que eu sou uma pessoa qualquer e não a dona ou hóspede desse lugar.
– Isso me soa como uma cilada para eu estar no RH na manhã seguinte assinando minha demissão, – Laura brincou.
– Você tem a minha palavra. Sem demissões por essa noite… na verdade, eu não teria coragem de te demitir depois que descobri que sabe fazer bons drinques.
– Sendo assim, eu estava em dúvida se o que disse foi um elogio ou crítica.
Sorri ao ser tratada com naturalidade. – Um pouco dos dois. Ficaria mais contente se não dormisse por aqui, mesmo que discretamente.
– Consigo espantar o sono quando estão em movimento, parada é um pouco complicado.
– Ou dormir mais horas e estar mais descansada resolveria.
Laura riu amarga. – Talvez…, mas onde eu moro, dormir é quase um luxo.
– Vizinhos barulhentos?
– Se os vizinhos em questão forem os próprios moradores da sua casa, então posso considerar que sim.
– Você vive com a sua família, – concluí e o olhar de Laura confirmou. – Eu também cresci em uma casa cheia. Sei exatamente como é… meu único horário para estudar em paz era de madrugada, o que significava que não dormia direito durante o dia.
– De madrugada eu trabalho, então o único momento de silêncio da minha casa eu não estou nela.
A observei com curiosidade. – Se quiser mudar o seu turno, eu posso fazer isso.
– Eu não posso. A cuidadora do meu irmão trabalha somente meio período, alguém precisa estar com ele pela manhã enquanto meus pais trabalham e esse alguém sou eu, – Laura comentou enquanto limpava o balcão. Quando olhou para mim deve ter notado a interrogação em meu rosto e continuou; – ele é PCD.
O Brasil é o meu segundo país desde a adolescência, mas isso não quer dizer que eu esteja totalmente familiarizada com língua quando se trata de siglas. Então não fazia ideia do que PCD poderia significar.
– O que é PCD?
– Pessoa com deficiência, – Laura explicou.
Por um momento eu quase disse “eu sinto muito”, mas isso não é algo para se dizer na ocasião e poderia ser interpretado de maneira errada. O meu sentir é por ver no olhar cansado de Laura que não estamos falando de uma situação fácil e tranquila. Eu não sei o que seu irmão tem, mas tenho a impressão que ela se importa e tem um cuidado muito grande com ele.
– Você tem muitos irmãos? – Ela perguntou, mudando de assunto.
– Sim, ao todo somos quase dez. Todos adotados. Enquanto as pessoas levam gatos de rua para casa, a nonna levava crianças, – brinquei. – Eu fui uma delas.
Laura fez uma careta surpresa. – Eu jamais iria imaginar… você tem jeito de quem nasceu e cresceu em berço de ouro.
– Não nasci. Fui adotada com cinco anos. Mas em partes você tem razão, eu cresci em um berço de ouro.
Eu normalmente não gosto de falar dessa parte em específico da minha história, mas por conta do álcool eu acabei falando muito mais do que gostaria ou que estaria disposta a fazer se estivesse totalmente sóbria.
– O que mais você tem para me oferecer? – Perguntei ao terminar o meu drink.
– Depende, o que está buscando essa noite? – Laura recolheu o copo vazio. – Normalmente quando as pessoas chegam aqui para beber uma atrás da outra e jogar conversa fora estão sofrendo do coração.
Fiz uma careta desconfortável. Eu estava sofrendo do coração, mas não queria ser vista como mais uma bêbada que faz isso.
– Quanto tempo?
– Cinco anos, – respondi, mesmo sem querer confirmar que no momento sou uma bêbada solitária.
Laura serviu whiskey puro em um copo com um globo de gelo e o colocou na minha frente. – Esse é o melhor para corações partidos. Não faz milagres, mas te fará esquecer por algumas horas…
Aceitei a bebida, virando toda de uma vez só.
A careta foi inevitável. Whiskey em um drink como o Bouvelardier é diferente do que o beber puro e Laura deve ter escolhido o mais forte da casa. Péssimo!
– Mais um, – pedi.
– Não se empolgue tanto. Eu não vou te servir quando achar que é hora de parar, – ela disse virando outra dose em meu copo sem sequer usar o dosador. – Sabe, regras da casa. Não servimos hóspedes claramente intoxicados.
– Eu sou a dona desse lugar. Eu dito as regras por aqui.
Laura parou no lugar e me observou um instante. – É, talvez eu faça uma exceção essa noite. Não porque é a dona, eu não ligo para isso no meu bar, mas porque me parece que está precisando. Quer falar mal dele? Aqui trabalhamos com total sigilo.
– Dela, – a corrigi. – E não. Ela não merece que perca seu tempo ouvindo sobre ela.
– Já deu para entender que o pivô dessa separação foi ela. Traição?
– Antes fosse. Eu preferiria mil vezes que só tivesse me traído e trocado por outro alguém. Mas ela só me deixou por não me amar. Ela nunca amou. Eu a amei sozinha e me deixei cegar.
Terminei a dose outra vez e Laura voltou a encher, sem se dar o trabalho de voltar a garrafa para o lugar. Eu logo dei um gole generoso, de fato sentindo minha cabeça ficar leve à medida que o álcool subia.
– Eu já ouvi falar de amor não correspondido fora de um relacionamento, mas dentro dele… por cinco anos… desculpe o linguajar, mas ela foi uma bela de uma filha da puta.
– Tem muitas histórias assim, acredite. Muitas pessoas que se envolve com outras por puro interesse.
– Ah é… você tem razão. Esqueci desse pequeno detalhe. Eu não tenho muito o que oferecer, então não sofro com esse problema.
– Você tem namorado?
– Eu estou quase todos os dias por aqui e em casa preciso cuidar do meu irmão. Você realmente acha que eu faço outra coisa no meu tempo livre além de dormir?
– Não sei, talvez o seu namorado pode trabalhar no bar também.
Laura fez uma careta surpresa e então fechou o semblante como quem não gostou do comentário. – Não. Definitivamente nenhum funcionário daqui.
– Um hóspede, talvez.
– Para eu ser demitida? Não vou perder meu emprego por uma aventura. Tenho outras prioridades.
– Que envolvem o seu irmão?
Laura me encarou séria e eu só percebi o que perguntei depois que saiu pela minha boca. Sinais claros de que devo me retirar o quanto antes, pois sem filtro, posso falar o que não devo.
– Sim. Remédios, terapias, plano de saúde, essas coisas não são baratas. Enfim, – Laura me serviu um copo de água e uma outra dose de whiskey. – Infelizmente essa será a sua última dose. Estou fechando o bar para você.
– Preciso te lembrar que eu mando nesse lugar?
– Você pode mandar onde quiser, mas claramente já está intoxicada e eu não posso continuar te servindo.
Se eu não estivesse preocupada com as verdades que poderia falar, teria protestado, mas nesse caso, eu realmente precisava sair.
– Duas doses de água, por favor – pedi.
– Muito inteligente da sua parte, – ela sorriu. O primeiro sorriso da noite. – Devo chamar o mordomo para te acompanhar até a suíte?
– Estou ótima, obrigada.
De volta a minha suíte eu bebi mais um pouco de água e um remédio para a dor de cabeça que tinha certeza que viria. Meu corpo cobraria por essas doses extras, mas pela primeira vez desde que Sarah me deixou, eu consegui dormir uma noite inteirinha sem sua presença em meu sonho.
Até que o whiskey realmente ajuda esquecer por algumas horas…

1 Comentário
Por favor continua, estou adorando e estou muito curiosa já.