« V A L K Y R I E »
– Para que isso, maman? – Clarice perguntou receosa.
Nós estávamos no quarto depois do merecido dez minutos no cantinho da pequena. Minha intenção era a manter um pouco mais por lá, mas quando voltei para a cozinha depois de ter procurado o que precisava na mala da bébé, encontrei Clarice em uma crise de choro. Estar por perto a ajudou a acalmar um pouco, mas claramente a deixar sozinha durante o seu castigo não foi uma boa ideia.
Confesso que fiquei com dó e decidi parar por ali. Ela já tinha suas palmadas lhe aguardando, o cantinho não era realmente necessário.
– Isso aqui é para usar no seu bumbum depois das suas palmadas para fazer menos dodói.
– Você vai fazer dodói n’eu?
– Não, ma vie. Mas é uma punição, ela irá doer.
– Num quero punição, maman.
– Não é você quem decide quando e como será sua punição, ma petite. Eu sou a maman aqui. Você só me obedece ou arque com as consequências, c’est clair? (Está claro?)
– Sim, maman.
– Agora deite no meu colo, barriga para baixo. Se enrolar será pior, – eu a alertei.
Com medo do perigo, Clarice aceitou seu destino e se deitou em meu colo.
Abaixei seus shorts até o joelho expondo o bumbum para mim. Respirei fundo para manter o foco e não deixar levar pelos pensamentos sórdidos que tentaram me distrair.
– Você sabe por que está sendo punida?
– Porque eu comi todo o brigadeiro que a maman mandou não comer?
– E…?
– E o bolo também?
– E…?
– Ter mordido e batido na maman?
– E o que mais, Clarice?
– É isso.
– Eu sei que é mais esperta que isso, mon amour. Por que mais você está sendo punida hoje?
– Por ter… por ter… por ter mentido para a maman.
– Exactement (exatamente). Eu não tolero mentiras, Clarice. Nada que me disser será pior que mentir sobre, e eu espero que aprenda bem essa lição para não se repetir. Jamais, em hipótese alguma, minta para mim. Você me entendeu bem?
– Sim, maman. Eu entendi.
– Très bien. Por ter mentido, você irá receber dez palmadas.
Clarice se virou para mim surpresa e espantada. – Dez?! Mas…, mas…, dez é muito!
– Acredite, eu estou pegando leve com você. Por ter mentido irá levar dez palmadas e se reclamar serão mais cinco. Tem algo a dizer a respeito, mon amour? – Clarice balançou a cabeça rapidamente. – Ótimo. Por não ter comido seu jantar irá levar mais três palmadas e outras três por ter comido todo o bolo e o brigadeiro. Por fim, não menos importante, quatro palmadas por me bater e morder. Ao todo, serão vinte palmadas.
– Vinte?! Maman… eu tô medo! – Clara choramingou.
– Eu sei, mon bébé – acariciei seus cabelos para a acalmar um pouco. – Nós podemos ir devagar, okay? Se sentir que é demais e precisar de um tempo, você pode dizer “amarelo”. Mas isso não irá evitar que leve todas as vinte palmadas. Serão vinte e ponto final. Nada a mais, nada a menos.
Clarice já levou muito mais que vinte palmadas, então sei que não é exagero e é muito bem capaz de aguentar até o final. Talvez não no mesmo ritmo por estar mais para lá do pequeno espaço que se sentindo grande, mas como disse a ela, podemos ir devagar e levar o tempo que for, mesmo que o seu tempo sejam algumas horas.
Está na hora dela entender que seu rostinho fofo não irá a safar de tudo. E principalmente, que a minha palavra para ela é lei. Lei que deve ser obedecida e seguida, sem questionamentos. Mais importante até que a própria constituição. Eu posso a livrar de um crime que tenha cometido, mas não dos meus castigos.
– Por onde quer começar, Clarice?
– Faz diferença? – Ela perguntou preocupada.
– As palmadas por mentir, sim. Eu disse que não tolero mentiras, não importa se é inofensiva ou não. Mentira é mentira e a tolerância sempre será zero. Por isso, sua punição é um pouco mais dura.
– Não é justo, maman.
– Você ainda não entendeu a gravidade do que fez, não é mesmo meu amor? Eu não estou brava por ter pulado a janta para se empanturrar de doce. Eu te conheço o suficiente para não me surpreender que não tenha resistido a tentação, mas te ver tentando mentir. Isso sim foi uma grande decepção. Como posso confiar em você se mente em coisas pequenas? Eu quero continuar confiando em você, meu amor. E para isso precisa aprender a sua lição.
– Desculpa, maman… começa pelas palmadas por mentir… por favor (?).
O acréscimo do “por favor” ao final me fez sorrir genuinamente. Clarice sequer passou pela punição e já está aprendendo bons modos como deve ser.
Dei um tempo para Clarice se acalmar sob meu carinho. Eu não sou nenhuma carrasca e não é essa a mensagem que quero passar. Sessão de spanking por prazer é bem diferente de uma punição.
O som das palmadas ecoava baixo no quarto. Firme, ritmado e cadenciado. Entre uma e outra era possível ouvir o choro copioso da minha pequena e sinceramente, não era capaz de determinar se por dor ou emocional. Ela estava indo melhor do que imaginava. Esperava que fosse pedir para ir devagar ou dar uma pausa logo nas primeiras palmadas por não estar habituada a receber tapas tão duros, ao menos não pequena. Mas ela apenas agarrou ao meu joelho e mordeu o lábio inferior para não falar.
Eu estava atenta a cada sinal que seu corpo me dava por puro receio de que estivesse ignorando seus próprios limites por medo. Confio na minha pequena e namorada para saber que irá respeitar meus limites e sei que é mutuo. Clarice sabe que basta uma palavra para me parar, mas se irá usar… bem, isso é um problema a parte.
Na quinta palmada, Clarice estava soluçando. Confesso que senti um aperto no coração a observando assim, mas me mantive firme e não recuei em minha decisão. Em comparação com o que costumava a ser no passado como domme, eu sou muito dócil com a minha pequena. Ainda não sei dizer se essa mudança se dá pelo fato de ela ser a ma petite e não submissa propriamente dita, ou se é a Clarice que amoleceu meu coração por ser a Clarice. De qualquer forma, em teoria, ela é sortuda por lidar comigo hoje e não com o que eu era há uma década.
– Respira fundo, meu amor. Já foi a metade das dez primeiras, – disse deslizando a mão pelas suas costas a acariciando. – Quer respirar com a maman? – Clarice negou com a cabeça. – Como quiser, meu amor. Mas eu preciso que você respire com calma, okay? De zero a dez, como está se sentindo? Seja honesta comigo.
– Sete… sete e meio.
– Oh, oui, d’accord. Sete e meio então. Quando se sentir cinco, me avise. Okay? – Clarice não me respondeu de imediato. – Ma vie, eu preciso que use suas palavras.
– Sim, maman.
– O que você terá que fazer, Clarice? – Perguntei para ter certeza de que estava entendendo a mensagem e não apenas dizendo o que eu quero ouvir.
– Avisar a maman quando me sentir cinco.
– Très bien, ma petite – dei um beijo demorado no topo da sua cabeça. – Podemos continuar? – Ela concordou se agarrando ainda mais ao meu joelho.
Dei continuidade a sequência de palmadas. Minha mão variando entre firmes estalos e carícias reconfortantes, pois no fundo percebi que eu sou incapaz de ser dura com a minha bebê sem reafirmar meu amor por ela. Talvez, só talvez, eu tenha medo de que em algum momento as coisas acabem se confundido em sua mente e eu acabe sendo colocada no mesmo lugar que outras pessoas que, diferente de mim, que faço por cuidado, a batiam para machucar sem se importar com seu bem-estar.
As dez primeiras palmadas passaram e seguimos com as próximas sem pausas. Embora fosse visível a dor da minha pequena, seu corpo dava sinais de que poderia continuar e assim o fiz.
– Maman, amarelo… cinco.
Faltavam exatas cinco palmadas para acabar quando Clarice pediu o tempo e eu parei a minha mão no ar. Ao invés de outro estalo, lhe fiz um carinho suave na lombar. O seu bumbum estava – deliciosamente – rosado e sem dúvidas iria ser um incomodo por um tempo considerável, mas eu estava aqui para cuidar da minha bebê.
– Quer um pouco de água, meu amor?
Imaginando como seria, eu já tinha deixado ao lado do creme para sua pele e uma garrafa de água, pois depois de tanto chorar sem ainda ter acabado, era de esperar que estivesse com sede. Também tinha um remédio para dor de cabeça a aguardando ao meu lado. Precaução.
– Continua, – Clarice pediu ignorando minha oferta.
– Ma petite… está tudo bem se precisar de um tempo a mais, – disse para garantir que estivesse ciente disso. – Ou até mesmo se quiser deixar para amanhã.
Ela negou com a cabeça. – Num quero deixar para amanhã. Por favor, maman… continua. Deixa eu terminar. Por favor, eu preciso.
Respirei fundo a observando. Seu tom de voz havia urgência, mas não era desespero. Era uma mistura de dor e culpa, arrependimento. Em sua cabeça, ao concluir as vinte palmadas teria sua redenção e perdão pelo o que estava sendo punida. Um pensamento bastante comum até, e não me surpreende que seja assim também.
– Últimas cinco, – a avisei em um tom firme, mas cheio de carinho. – Eu estou aqui. Com você, até o fim. E você vai respirar comigo, d’accord?
Ela assentiu se agarrando em mim onde podia.
Apenas para ter certeza, olhei para o meu lado na cama. Lá estava, o creme, a garrafa d’água, o remédio para dor de cabeça, a chupeta favorita e a bombinha. Quis ter certeza que estava pronta caso todo esse choro desencadeasse uma crise de asma. Sua respiração já estava curta e descompassada desde o primeiro tapa, mas agora era diferente. Clarice estava perto do seu limite físico – e talvez emocional, – e meus sinais estavam todos em alerta.
A primeira palmada das cinco caiu com um som seco, firme. Clarice estremeceu e prendeu a respiração engolindo o grito da surpresa. A segunda veio mais baixa, mas ainda precisa. Minha pequena se agarrou ao meu braço livre como quem precisava de um ponto de ancoragem para não afundar, se entregando em um choro mais sofrido que já não era mais capaz de segurar mordendo os lábios.
Esperei um pouco mais para a terceira. A quarta veio e, com ela, um soluço carregado para apertar o meu coração que já não aguentava mais ver o meu bebê chorar.
A quinta… a quinta eu respirei fundo antes de dar. Foi forte. Merecida. Cuidada. E final. Percebi que com tudo isso, eu também estava sendo punida. Punida em uma prova de resistência que era ouvir o sofrimento da minha bebê e me manter firme na certeza de que continuar era o melhor a ser feito.
– Acabou, mon bébé. Você foi incrível. Tão forte… tão minha – eu disse esfregando suas costas sem esperar por uma resposta, minha neném ainda estava processando tudo que acabara de acontecer. – Já passou. A maman está aqui com você. Acabou, meu amor.
Clarice estava mole sobre o meu colo, completamente entregue e rendida. Parte de mim suspeitava que também estava escorregando.
Tive total certeza no momento que estava prestes a puxar para mais perto em um abraço e paralisei ao sentir algo quente e úmido escorrer pelo meu joelho até o chão. Ou melhor dizer, escorrer até o meu mocassim Roger Vivier.
Pense pelo lado positivo, Valkyrie. Poderia ter sido pior e molhado nossa cama. Pelo menos assim eu acabei absorvendo toda a bagunça na minha roupa e sapato, sujando o mínimo ao nosso redor. Que maravilha.
Bem, foi culpa minha também. Eu deveria ter premeditado que isso poderia acontecer e me preparado para tal, mas confesso que sequer cogitei.
E não. Eu não estava brava com a minha bebê. Por mais triste que isso fosse, eu jamais brigaria com o meu neném por um sapato, mesmo sendo edição limitada. Clarice raramente se permiti regredir assim e temo que qualquer reação negativa por algo fora do seu controle poderia a assustar e atrapalhar que chegue nesse estado outra vez. Eu aprecio os poucos momentos que a tenho tão pequena assim. Mesmo que esse momento seja – literalmente – regado de xixi.
– Acho que nós duas precisamos de um banho agora, não é mesmo ma petite?
Obviamente Clarice não me respondeu. De alguma forma, ela parecia bastante confortável largada em meu colo abraçada ao meu braço que poderia dormir. Mas antes que isso acontecesse, eu levantei com ela em meus braços e a levei para o banheiro.
Eu havia preparado a banheira de antemão com sais de banho e magnésio para relaxar os músculos, porém não contava que estivéssemos sujas de xixi. Por essa razão, optei por nos dar um rápido banho de ducha antes.
Esperando pela minha bebê um pouco maiorzinha, a banheira estava cheia de brinquedos. Uma coleção de Bluey e Bingo própria para banho e muito fofo que acreditei que Clara fosse adorar. Bom, ao menos sua versão menor deu a mínima para a pobre da Bluey nadando e só quis saber de abraço e ficar grudada comigo.
Não vou mentir. Eu estava no paraíso com um neném grudinho e dengoso. Existe uma ligação diferente e única entre uma mommy e seu little que é difícil explicar, mas que torna nosso relacionamento mais sólido e seguro. São em momentos como esse que sinto isso ainda mais nítido. Sem usar as palavras, Clarice estava me dizendo que me amava. Amava tanto que em seu momento de maior vulnerabilidade, sua escolha era eu e nada mais lhe interessava, nem mesmo brinquedos novos da Bluey. Eu era o conforto e aconchego que procurava, e poder ser isso para ela aquecia meu coração.
Depois do banho, levei a minha bebê para a cama e a deitei sobre os lençóis limpos. Normalmente eu faço somente o básico para preparar Clarice para dormir, pois qualquer minuto a mais a deixaria inquieta. Hoje, porém, me permiti ter todo o tempo do mundo já que ela não estava incomodada.
Comecei passando o creme calmante de aloe vera no seu bumbum castigado para relaxar a sua pele. Enquanto dava tempo para secar, segui com a loção hidratante “hora do sono” que comprei para ajudar a adaptar ao novo fuso horário, mesmo sem saber se Clara me permitiria usar nela.
Loção espalhada por todo corpo na frente e atrás, eu preparei sua pele para receber a fraldinha. Na hora de vestir o pijama, Clarice resmungou e choramingou como quem não quisesse vesti-lo. A única peça de roupa que ela aceitou foram as meias quentinhas.
– Fralda e meia, é assim que você quer dormir no inverno? Aí, meu amor, eu o que faço com você?! – Balancei a cabeça em negação. – Eu já volto, d’accord? Estarei por perto. Não precisa ficar com medo ou se preocupar.
Como consegui lidar com as roupas sujas e o possível resquício de xixi no chão em menos de dez minutos, isso é um mistério que só uma maman com um bébé muito pequeno choramingando querendo atenção pode responder. Para fazer meu ritual noturno precisei a levar comigo e deixar que ficasse sentada ao meu lado ou teria uma sincope. Pela primeira vez vi o próprio Chloée falhar na missão de distrair a neném em minha ausência.
– Pronto, mon bébé. Acabei.
Clara havia esperado pacientemente abraçando a minha perna como uma constante forma de afirmação de que eu estava ao seu lado enquanto se distraia com o desenho em seu celular.
Fomos para a cama para finalmente colocar esse bebê para dormir e encerrar o dia. Meu seio também já estava cheio outra vez pedindo por esse momento logo. Acho que ouvir Clara chorar fez com que a fábrica aqui trabalhasse um pouco mais. Chega a ser um pouco bizarro pensar como meus hormônios estão alinhados com a minha namorada… ela só não pode saber disso, ou ficará chorando no meu ouvido 24/7.
Acostumada com uma pequena que vai atrás do que quer sem se importar em pedir permissão, ver a minha bebê esperar por mim foi uma surpresa. Ao invés de simplesmente puxar a alça da camisola e se servir, Clarice ficou me olhando com seus olhinhos pidão.
– Oh, meu deus. Que dó desse neném – enfiei o rosto no pescoço de Clarice e enchi de beijinhos. – A maman te deixou esperando para ter seu tetê, não foi? Vem aqui, ma petite. A maman não vai mais torturar esse neném.
Trouxe Clarice para mais perto de mim e ofereci meu seio em sua boca. Ela aceitou de bom grado e passou a mamar em seu próprio ritmo. Não precisei de muito tempo para entender que isso levaria mais tempo que o necessário para acabar. Ela estava indo muito devagar para uma Clarice.
– Você não está com pressa para dormir, não é meu amor? – Deslizei o dedo pelo o seu rostinho a observando sob a luz baixa. – Tudo bem, a maman está aqui para você. – Dei um beijo demorado em sua testa, – tenha o seu tempo, mon amour.
Sinceramente achei que o sono a venceria primeiro, mas seus olhinhos estavam bem abertos fixos em mim enquanto os meus começaram a vacilar. Só me recordo de ter ajustado a posição para trocar de seio e depois disso quem dormiu foi eu. Quando foi que Clarice pegou no sono será para sempre um mistério para mim.
Dormi tão bem durante a noite que se não fosse o celular vibrando na mesa de canto, eu não iria acordar tão cedo.
O relógio do celular estava marcando 09:43, o que para mim seria tarde demais para começar meu dia. Mas sinceramente? Hoje não estava nem aí para isso. No Brasil ainda estou dentro do horário.
Tentei levantar para atender a chamada da minha mãe, mas Clarice reclamou durante o sono e se agarrou ainda mais em mim, me impedindo de sair do lugar. Para variar, acabou fazendo o meu mamilo de chupeta.
– Sim, mãe – atendi a ligação falando baixinho para não incomodar o sono da mimada em meus braços.
– Estava dormindo? – Minha mãe perguntou curiosa. – Está doente?
– Se preguiça for uma doença, então pode dizer que sim. Hoje estou com “preguicite aguda”.
– O dia está lindo hoje, minha filha. Você não trouxe Clarice até Paris para ficar na cama, trouxe?
Depende do que estaríamos fazendo nessa cama…, mas isso eu não teria coragem de falar para a minha mãe.
– Ela também está dormindo.
– Pois então acordem. As duas. Temos muito o que fazer hoje.
– Temos? Não combinamos nada. Ao menos eu não fiz planos nenhum…
… não com vocês. Quero paz e sossego por um dia, será pedir demais?
– Mas seu pai fez. Sinceramente não sei como ele pretende fazer tudo que planejou com a Clarice, mas desde que descobriu que ela viria ele está combinando coisas com ela.
Encarei a minha pequena em seu estado entre estar dormindo e acordada sem entender nada. – Clarice combinou coisas com meu pai? Quando foi isso?
– Sua namorada conversa mais com seu pai que você. Não tem vergonha disso, senhorita?
Margot só estava repetindo o que o seu Fernando provavelmente deve falar todos os dias em seu ouvido. É bem a cara do meu pai dizer algo do tipo. Ele vive reclamando que eu o abandonei ou o esqueci. Nada mais que drama de seu Fernando, porque não é verdade.
– Eu não sabia, – confessei.
– Pensei que soubesse. Os dois são bem próximos. Trocam mensagens todos os dias. De acordo com seu pai, finalmente alguém na família não ignora suas mensagens.
– Você me soa bastante aliviada, dona Margot.
– Eu passo a maior parte do meu dia com o seu pai. Trocar mensagens é realmente necessário? Acho que não.
Margot e eu somos práticas… de modos diferentes. Ela só responde o mínimo necessário, quando responde. Eu respondo tudo com figurinhas de gato. Receber mensagens de texto minha que não seja realmente crucial é um privilégio.
– Por acaso os planos do dia envolvem a senhora sua mãe e companhia? Se sim, eu não vou-aí! Putain!
– O que foi isso, Valkyrie?
Mordi o lábio para não xingar outra vez. Clarice tinha acabado de morder o bico do meu seio e juro por deus que vi estrelas. Tive que mutar a ligação para evitar constrangimentos com a minha mãe.
– Clarice! Assim você machuca, – reclamei protegendo meu seio com a mão para o desagrado da bebê que choramingou brava.
– Tetê, maman! – Clara afundou o rosto em meu peitoral querendo acesso aos tetês outra vez.
Não queria arriscar colocar meu peito nessa guilhotina outra vez, mas Clarice estava prestes a ter uma crise de choro ao mesmo tempo em que minha mãe me chamava na linha sem entender o que acontecia. No meio disso tudo estava eu e algo me dizia que essa seria a minha vida daqui para frente. Não foi uma reclamação, prefiro passar por situações como essa que não ter meu neném comigo.
– É para mamar direitinho, não é para fazer de chupeta, d’accord? Se me morder de novo, vai ficar sem tetê por uma hora.
Se Clarice entendeu ou não, só vou saber depois. O importante é que eu tentei… e a ameaça continuava válida da mesma forma.
Não satisfeita em mamar em um peito, Clarice levou a mão no outro. Uma mania que aparecia de vez em quando e me fazia sentir ainda mais um par de peitos para a minha namorada.
Com a situação sob controle com a minha pequena, eu tirei o microfone do mudo e voltei a chamada com a minha mãe.
– Perdão, eu me machuquei aqui, mas já passou. O que estávamos falando mesmo?
– Você perguntou se sua avó estaria conosco essa tarde, mas tanto a Hélène quanto a Juliette estão ocupadas planejando o jantar de noivado. E por falar nele, agendei um horário para irmos a boutique escolher nossas roupas.
– Eu não vou.
– Valkyrie…
– Mãe, eu não vou.
– Conhece a sua avó, sabe como ela irá reagir a sua recusa.
Embora estivéssemos conversando em francês e muito provavelmente Clarice estava distraída demais para entender, não acho que esse seja um assunto para falar por telefone. Também não quero correr o risco da minha namorada entender tudo que falo e ficar sabendo dessa forma. Nós vamos conversar a respeito, quando estiver grande o suficiente para ouvir.
– Nós precisamos conversar… pessoalmente.
– Não estou gostando disso.
– Vai gostar menos ainda quando souber.
Ouvi o suspiro da minha mãe já antecipando a dor de cabeça. – Conversaremos sobre isso mais tarde. Agora trate de se levantar e arrumar. Passaremos aí às 13h. Vamos almoçar juntos.
Agora foi a minha fez de suspirar. – Okay, já entendi.
– Até daqui a pouco, minha filha. Te amo.
– Eu também te amo.
Encerramos a chamada finalmente.
Encarei o teto por um instante refletindo o que faria nas próximas três horas para fazer com que Clarice voltasse ao menos o mínimo necessário para estar “apresentável” sem levantar suspeitas. A Margot com certeza irá reparar, isso eu não tenho dúvidas. Mas nós precisamos ao menos fingir.
– Que judiação com o meu bebê que só quer ficar quietinha no colo da maman, – passei os dedos entre os cabelos de Clarice. – Desculpa ter que te tirar do seu conforto, mon bébé.
Nós ainda ficamos na cama por mais de uma hora só de preguiça, nos amando e claro, fazendo o que a Clarice mais gosta. Não é do meu feitio ficar na cama por tanto tempo, mas com o meu amor, ficar assim é agradável e não me incomoda.
Felizmente, não precisei fazer nada para a minha namorada deixar o seu pequeno espaço. Primeiro, eu não queria fazer isso com a minha bébé, só de pensar me deixava de coração doendo. Segundo, eu queria aproveitar mais ela pequena assim, mas nem tudo eram flores. Era de costume Clarice ficar naturalmente grande pós sua preguiça de quem acabou de acordar.
Será que um dia eu vou ter a minha neném comigo pela manhã ou vou sempre ter que esperar seu sono para a ver chegar?
« C L A R I C E »
A água descia pelo meu corpo como um consolo silencioso. Estava debaixo do chuveiro há um tempo que nem sabia mais contar. Já não chorava mais, mas a garganta ainda carregava aquele nó estranho e desconfortável de emoção engasgada. Minha pele ardia onde fui castigada, mas estranhamente não era a dor física que me incomodava mais.
Era outra coisa.
Talvez na minha cabeça de pequena, o que eu fiz ontem a noite não foi nada demais, mas para a minha maman não foi bem assim. Sinceramente não sei onde estava com a cabeça para achar que mentir fosse uma boa ideia, ainda mais com algo que a minha Val facilmente poderia desvendar. Eu só… não pensei.
E por ter não pensado decepcionei a minha Val. E perceber isso me doeu muito mais que qualquer palmada.
A experiência do cantinho conseguiu superar a dor da mão firme da maman no meu bumbum. E olha que ela é forte e suas palmadas ardem para um baralho… é só que, ficar ali… sozinha… foi horrível. Horrível! O silêncio da maman era cruel e doloroso. Eu prefiro que grite comigo e fique brava, que esteja aqui. Mas ela me deixou e a solidão no cantinho foi a parte mais dura da minha noite. Não tinha seus toques. Não tinha sua voz rouca. Só sua ausência, e o peso da culpa e arrependimento me esmagando devagar.
Queria acreditar que tudo ficaria bem depois dali, mas naquele momento eu só conseguia pensar que ela iria desistir de mim. Quem não se cansaria de alguém que não era capaz de obedecer ao básico?
E aí ela veio e ficou comigo. Eu não conseguia a ver, mas seu perfume era o suficiente para ter certeza que estava perto o bastante. Pouco depois a maman me abraçou e me chamou para o quarto.
A dor da palmada foi real. Muito real. Eu já disse que mão da maman arde para um baralho? Acho que sim, né. Pois é, doeu. Doeu muito. Queimou, ardeu, me fez chorar como nunca antes. Mas a cada palmada dura, firme – e dolorosa para um cacete, – eu sentia uma coisa nascendo por baixo da dor: a sua presença. A maman estava comigo. Me batendo e fazendo chorar? Sim, mas também estava me cuidando. Me amando com suas palavras, com seus carinhos e sendo atenciosa comigo.
Em momento algum me senti em perigo ou de fato amedrontada. Eu sei muito bem o que é levar uma surra de alguém que não estava nem aí para você ou como ficará depois de tudo e o que aconteceu ontem foi totalmente diferente do que cresci acostumada. E depois de tudo, ao invés de me sentir despedaçada e destruída por dentro, eu me senti… melhor(?).
Val não me largou para recolher meus cacos sozinha. Nem me deixou sangrando no canto. Quando a tortura acabou, ela me acolheu em seus braços e me fez sentir ainda mais amada que antes. Fez com que meus medos e receios do cantinho fossem embora. Eu ainda era dela. Ainda amada. Ainda era a sua petite.
A dor passou. A culpa, não completamente, mas foi dissolvida em algo maior, em algo que só existe quando se ama de verdade, o perdão.
Sorri sozinha com os meus próprios pensamentos sentindo a água escorrer pelo meu rosto e se misturar às últimas lágrimas rebeldes que insistiram em escapar.
De repente me bateu uma saudade do meu docinho. E com docinho, eu me refiro a minha Val. Toda essa experiência me deixou melosa e carente ou estou naquela fase da TPM?
Saí do banho e me deparei com a minha Val sentada na cama ao lado de um conjunto de roupa.
– Que roupas são essas? Você vai vestir isso?
– Não, são para você. Eu escolhi uma roupa que fosse adequada ao clima lá fora, não quero que passe frio.
– Você também vai escolher as roupas que eu visto agora, é?
– Algum problema com isso?
Valquíria me lançou o seu olhar feiticeiro que parecia invadir a sua alma.
– Não, nenhum – respondi engolindo a seco.
– Ótimo, porque eu iria seguir escolhendo do mesmo jeito – ela se levantou. – Vou me banhar, espero te encontrar pronta quando eu sair.
Ela me deu um beijo rápido e saiu para o banheiro me deixando sozinha.
Até que a roupa escolhida pela Val era o meu estilo. Um vestido jardineira preto, por baixo um suéter branco de tricô grosso quentinho, meia calça surpreendentemente quente e coturno preto. Visualmente falando parece que não seria quente o suficiente, mas todo o conjunto com a blusa térmica por baixo, eu estava começando a sentir calor.
Minha mulher levou muito a sério sobre não me deixar passar frio. Que isso…
Estava secando o meu cabelo quando a Val passou por mim e eu quase comecei a latir. Como era possível alguém usar a roupa mais simples e básica possível e ficar extremamente sexy e gata?! É sério, ela só estava usando um vestido de gola alta justo e curto preto. Nada mais e uau!
– Você está muito gostosa e tals, mas não vai passar frio só com isso?
– Eu tenho meu próprio fogo, – Val respondeu casualmente passando o seu batom. Eu fiquei paralisada refletindo em suas palavras. Ela se virou para mim com a maior naturalidade do mundo. – O que você achou? É um batom novo.
– Lindo.
– Eu ainda vou vestir o meu casaco. Você também. Não sou tão friorenta quanto você. E além do mais, eu estou habituada com esse clima.
– Você está muito linda, eu já disse?
– Você também, – ela me deu um selinho. – Muito linda.
Meus sogros chegaram pouco tempo depois para nos levar não sei onde. Val disse que íamos almoçar e ir ao museu, mas não deu mais detalhes que isso. Também não faria muita diferença saber.
Foi a caminho do restaurante que eu descobri o porque a torre Eiffel parecia brilhar tanto da janela do quarto. O apartamento da Val era literalmente a uma quadra do tal do jardim Campo de Marte aos pés da torre, embora fosse necessária uma caminhada até chegar nela. O Chloée com certeza irá adorar passear por aqui!
Nossa primeira parada foi relativamente perto, menos de dez minutos. Como era de se esperar, o restaurante que fomos era do tipo que eu jamais entraria se não fosse por causa da Val. Considerando que quase todas as construções em Paris eram iguais, eu não vou me estender dando outra aula de arquitetura. Mas o tal restaurante onde iriamos almoçar ficava em um desses edifícios históricos parisienses a beira do rio Sena e com uma lindíssima vista com direto a presença da torre Eiffel.
Clássico, porém moderno. Com certeza os valores por aqui não cabem no meu bolso e só de estar nesse ambiente me sentia desconfortável e envergonhada.
O desconforto foi ainda maior no momento em que o host, ao ver minha namorada e sogros, se aproximou para nos dar boas-vindas e de alguma forma já sabia o sobrenome deles. Havia outras pessoas aguardando por suas mesas ao bar, mas ao invés de nos pedir para aguardar e oferecer coquetéis, simplesmente pulamos qualquer fila e fomos direto para uma mesa reservada, em um canto discreto e com vista privilegiada do Rio Sena e um pedacinho da Torre Eiffel.
Era claro que, com todo esse tratamento especial, todos os olhares estavam voltados para nós. E não eram só os clientes que estavam tendo suas refeições, os próprios funcionários faziam questão de nos cumprimentar enquanto passávamos e eram todos sorrisos em nossa direção.
Minha vontade era de me esconder e sentar de costas para todos, mas a Val só se sente confortável sentada com as costas para a parede para evitar os ruídos do ambiente. Ou seja, eu não tive outra escolha senão me sentar de frente para todo mundo, já que não abria mão de sentar do lado do meu amorzinho.
Felizmente meu sogro sentou na minha frente bloqueando qualquer visão que não fosse as janelas lá para fora. Eu amo um homem de quase dois metros de altura!
O problema foi quando sentei e me lembrei do que aconteceu na noite anterior.
– Está tudo bem, Clarice? – Margot perguntou.
Dei o meu melhor sorriso em meio a dor e assenti. – Sim, sim, sim, sim, tudo ótimo.
– Ela está bem, – Val colocou a mão sobre a minha coxa, um pequeno gesto que me fez sentir mais calma e segura.
Logo em seguida dois garçons vieram servir nossa mesa com alguns pãezinhos brioche, manteiga e vegetais que a apresentação era tão linda que parecia um prato super elaborado. Eu não pedi água e nenhum momento vieram tirar alguma ordem da nossa mesa, mas serviram nossos copos e sabiam da preferencia da minha sogra por água gaseificada.
– Crudité, mon amour? – Val perguntou oferecendo um pedaço de cenoura que veio nos vegetais.
Não pensei que cenoura crua poderia ser apetitoso, mas se passa no molhinho que vem junto é uma delícia. Tive a impressão que a Val percebeu que eu me dei bem com a cenoura e passou a me oferecer todas as opções dos vegetais enquanto olhávamos o cardápio, forçando uma refeição saudável goela abaixo. E eu, bobona apaixonada, aceitei tudo que me ofereceu sem reclamar.
– O que você quer comer hoje, ma vie? – Val me envolveu com o braço me puxando para mais perto de si e deixando seu menu de lado para dividir o meu. – Quer bife, frango, peixe…?
– Eu não sei… eu não conheço nenhum dos pratos.
Também não era como se houvesse muitas opções para escolher e as poucas opções que tinham, embora fossem variadas, os preços eram coisas de outro mundo. Se converter para real, eu terei uma crise de asma de puro desespero.
– Gosta de pato?
– Não sei. Eu não conheço nenhum desses acompanhamentos, o que é “Garden Sugar Snap Peas”?
– É um tipo de ervilha.
– E ervilha tem tipo? Por que não pode ser um arroz de acompanhamento? É tão mais prático.
Acho que às vezes a minha namorada esquece que os restaurantes que frequento servem arroz, feijão e uma variação de carne/frango/peixe. Eu sei lá que diabos é “Sautéed Fillet Of Mediterranean ‘Loup De Mer’”, não sei nem traduzir.
– Okay, vamos deixar esse menu de lado – Val pegou o menu de mim. – Deixe que eu cuido disso.
Val trocou um olhar cúmplice com o garçom, que imediatamente se aproximou da nossa mesa. Ela falou algo em francês que eu não entendi absolutamente nada, mas pelo o olhar discreto de Margot sabia que lá vinha…
Poucos minutos depois, para o meu total espanto e desespero, o próprio chef apareceu para nos cumprimentar pessoalmente. E, juro por deus, que assisti Valkyrie ter a ousadia de fazer um pedido especial ali na hora, conversando com ele como se fossem velhos colegas de cozinha. Era óbvio que essa interação atraiu olhares curiosos em nossa direção e eu não sabia onde enfiar a cara de vergonha. Pelo pouco que consegui entender, ela ainda estava dando instruções sobre o preparo! Exatamente. Instruções de preparo para o próprio chef!!!
Era o mesmo que se eu, mera estagiária, decidisse ensinar a Val desenhar uma casa.
Se eu soubesse que ela faria essa cena, teria escolhido qualquer prato aleatório do cardápio e poupado minha vergonha. Eu não sei exatamente palavra por palavra o que disse, mas provavelmente o chef deve achar que eu sou a maior fresca e mimada do universo. E eu sequer sou uma Touchon, sabe. Eu como em qualquer boteco de esquina e adoro um churrasquinho de rua de procedência duvidosa.
– Prato especial direto da chef… Está podendo, hein? – Fernando brincou e eu senti minhas bochechas queimarem de puro constrangimento. Eu nunca mais volto nesse restaurante!
Liguei o meu modo Glória e usei sua resposta padrão para qualquer ocasião. – Pois é, gostasse? Nem sei o que ela pediu.
– Você vai gostar, – Val comentou comendo um dos crudités.
– Você deveria vestir uma dólmã e assumir a cozinha, Val – Margot comentou e eu não sabia se falava sério ou se era piada. É muito difícil ler a minha sogra.
– Poderia, mas não… estou de férias e ainda prefiro meus projetos.
– Seria um sucesso se fosse a chef, – sorri para Val. – Eu comeria no seu restaurante todos os dias.
E te comeria lá também. Mas essa parte eu guardo para mim.
Nossas entradas chegaram. Para mim serviram uma sopinha incrivelmente boa que não fazia ideia do que era, mas era a mesma que a Val estava comendo. Pelo menos isso estava no menu.
– Então, Clarice. O que está achando de Paris? – Fernando me perguntou empolgado. – Está gostando?
– É legal, parece que já conhecia aqui antes por causa das aulas da faculdade.
– Mas você já conhece Paris. Só não se lembra por ser muito novinha na época, – Margot comentou. – Sua mãe costumava fazer exposições por aqui quase todos os anos. Ela te levava para todos os lados desde bebezinha.
– Ah, isso é verdade…, mas eu só me recordo de poucas viagens.
– Um absurdo você saber como era a Clara bebê e eu nunca ter visto uma foto disso, – Val comentou com uma gota de revolta.
– Eu também nunca vi fotos sua bebê, – retruquei.
– Não seja por isso. Eu tenho vários álbuns lá em casa, – Fernando comentou com sua típica empolgação. – Quando você for lá posso te mostrar todos eles. A Val era uma gracinha quando bebê. O neném mais lindo da família.
Eu ri da careta da minha namorada com o comentário do pai.
– Eu quero muito ver isso. Por favor.
– Aqui ó, eu tenho uma foto no meu celular – Fernando disse mexendo em seu aparelho e então virou a tela para mim.
– Até que demorou para isso acontecer, – Val revirou os olhos.
Ver a versão bebê da minha namorada só me deu vontade de ter um filho dela. Pensa na coisinha mais fofinha cabeludinha e bochechuda com o sorriso banguela mais lindo desse mundo.
Val me engravida!
– Meu deus, amor! Você era tão lindinha! Que vontade de morder! Como é possível um bebê desse tamainho ter tanto cabelo? Eu demorei mais de um ano para ter alguma coisa na cabeça.
– Ela nasceu com bastante cabelo, – Margot respondeu. – E nunca parou no lugar, não importa o que fizesse.
– Meu cabelo ter vida própria desde que nasci é meu charme, – Val brincou e Margot revirou os olhos.
Isso é verdade. Enquanto eu me sinto domando uma fera ao pentear os cabelos todos os dias, Val dorme e acorda como se tivesse passado a noite no salão. Até bagunçado os cabelos dela é lindo e eu amo suas ondas.
O prato que a minha namorada pediu para mim foi mais simples do que imaginava, porém delicioso e com certeza estava entre os melhores da minha vida. Era um bife com um molho delicioso, purê de batata e arroz… ela realmente mandou o chef fazer arroz para mim? Inacreditável.
Eu amo essa mulher apesar de todo o constrangimento.
O resto do almoço foi tranquilo… em partes. Se não bastasse ter tirado o chef de dentro da cozinha duas vezes – a primeira para lhe dar ordens e a segunda quando ele veio perguntar do que estávamos achando da refeição, – em algum momento durante a sobremesa minha namorada pediu licença e nos deixou por pouco mais de dez minutos. E sim, ela tinha ido até a cozinha… e a essa altura eu já tinha entregado para deus. Essa mulher não tem limites.
Namoro uma doida, vou fazer o que?
« V A L K Y R I E »
Ter aceitado vir ao museu foi, sem dúvidas, a melhor decisão que poderia ter tomado. Pela a primeira vez desde que saímos de casa, vi Clarice verdadeiramente empolgada e sendo ela mesma sem se sentir deslocada. E, apesar de meu pai e eu, mal conseguirmos acompanhar a conversa entre dona Margot e dona Clarice sobre as obras em exposição, estava feliz em ver a interação das duas.
Sempre soube do interesse da Clara por arte. Ela própria é uma verdadeira artista. Mas não imaginava que ir a um museu fosse a deixar genuinamente feliz, como se estivesse em casa. O fato de conhecer o acervo original do Musée d’Orsay e contar com empolgação a história e a técnica usada nas obras foi uma surpresa inesperada também. Me pergunto por que nunca comentou nada a respeito todo esse tempo. Eu a levaria em todos os museus só para ver esse sorriso em seus lábios outra vez.
Infelizmente, a oficina de artes que parecia superinteressante estava com as vagas esgotadas por hoje. Mesmo sem poder entrar, Clarice leu todo o folheto com os detalhes da programação com visível brilho nos olhos de quem realmente quisesse participar. E quase me convencendo a embarcar nessa também, embora a ideia de poder me sujar de tinta não me agradasse tanto assim.
– Ainda tem vagas para amanhã, nós podemos voltar – sugeri. – O que acha?
– A oficina parece ser muito legal e tals, mas é muito cara. Vale a pena para quem está começando a carreira e quer se lançar, mas fazer apenas por fazer… é um desperdício e tanto de dinheiro.
– Você deveria fazer.
– Só se eu estiver doida e delirando. E você não inventa, eu já estou te devendo o suficiente, não preciso de mais uma dívida.
– Já ouviu falar do conceito de “presente”? Você é a minha namorada e eu quero te presentear com o ingresso da oficina. Eu não preciso da sua permissão para comprar um presente.
– Eu posso muito bem recusar o seu presente.
– Mas não vai, – a abracei para falar perto do seu ouvido sem que ninguém ao redor percebesse. – Não se esqueça que até o fim desse ano, você é minha para eu decidir o que vai ou não fazer. Se me desafiar, sabe muito bem o que irá acontecer com esse bumbum. O que prefere; ser uma boa menina ou continuar fazendo birra?
– Isso é jogo sujo.
– Eu não sou conhecida por jogar limpo, – lancei uma piscadela e Clara corou envergonhada. – Mon amour, vamos lá. Deixa de ser “bobona”, você quer fazer essa oficina… não me faça envolver Margot nessa história. Ela é uma entusiasta da arte e vai querer mover mundos e fundos para que siga os passos da sua mãe, especialmente depois de ver o quadro que fez.
– Olha só… que chantagista! Onde foi que aprendeu isso?
A abracei outra vez e dei um beijo demorado no topo da sua cabeça evitando a resposta. – Vem, chega de reclamar e vamos resolver isso logo…
Ver Clarice assim hoje me faz pensar que, por mais talentosa ela pudesse ser na arquitetura, esse definitivamente não era o seu lugar. Ela pertencia às belas artes, assim como sua mãe. Eu jamais poderia deixar essa oportunidade passar, ainda mais com a desculpa de que é muito caro. Participar de uma exposição de amadores pode ser o que ela precisa para querer continuar.
É triste pensar que, se a minha bebê seguir carreira como artista plástica significa que irei perder minha vista favorita do trabalho, mas é um sacrifício que estou disposta a fazer para a ver a felicidade de hoje se repetir. Já estou animada para a sua primeira exposição de amanhã… mon dieu! Eu preciso pensar em uma roupa para vestir!
Estava me esforçando ao máximo para acompanhar o meu amor e meus pais no museu sem demonstrar o meu desconforto. No entanto, eu agora sou uma mulher lactante e a cada hora que passava a situação para o meu lado não era nada favorável. Depois de quase cinco horas desde a última vez que amamentei, me encontrava em um estado lastimável em que, ou iria embora agora ou seria obrigada a dar um sumiço… com a Clara de preferência.
– Eu sei que algumas obras não são lá grandes coisas, mas precisa fazer essa cara? – Clarice perguntou baixinho só para eu ouvir.
– Pardon?
– Você está encarando com uma cara de julgo gritante. Pior que a da sua mãe.
– Ah… eu não estava olhando pra isso.
Olhei ao redor, meus pais estavam entretidos demais conversando com alguém. Sem pensar muito, peguei Clarice pela mão e a arrastei para longe. O museu estava cheio, mas sempre tem aquela parte mais vazia, especialmente quando não é usado no evento como hoje.
Felizmente, em uma dessas áreas mais vazia havia um banheiro. Não era o melhor lugar do mundo, mas era o que tínhamos para hoje.
Conferi se havia alguém em alguma das cabines. Perímetro livre, eu tranquei a porta de entrada do banheiro, ajustei um alarme no celular e tirei o meu casaco. Clarice me observou de olhos arregalados sem reação.
– O que pensa que está fazendo?
– Eu não posso esperar nenhum minuto a mais! – Eu disse levantando o meu vestido e arrependendo amargamente pela escolha. Deveria ter optado por algo que não fosse fechado até o pescoço justamente por situações como essa.
– Você só pode ter enlouquecido! Seus pais e outras meio milhão de pessoas estão lá fora e você quer transar?!
– Clarice. Você pediu por isso…
– Eu pedi por isso?! Tá maluca?!
– Você pediu para ter leite, não foi? Agora não fuja das suas responsabilidades, – abri o sutiã na parte de trás e só por isso senti um grande alívio. – Mon dieu…
– Ah… por que não falou antes?! Eu posso te ajudar com isso – Clara levou a mão em meu seio. – Nossa, você realmente está muito cheia. Isso não dói?
– Clarice, cala a boca e mama!
Ao menos para isso minha namorada era bem obediente e não enrolava.
A sensação de alívio ao ter o seio cheio sendo sugado era tão bom quanto um orgasmo, especialmente quando quem estava fazendo o trabalho era a versão grande da minha namorada. Eu não deveria sentir prazer nisso, mais putain… como não sentir os efeitos disso na minha calcinha?
O gemido que escapou da minha garganta foi involuntário. Clarice levantou o olhar com meu seio ainda em sua boca. Os olhos intensos, quase sorrindo. Conhecendo a minha namorada, já me preparei do que viria a seguir e o poderia sair da sua boca.
– Você não está ficando excitada comigo mamando está?
– Shhh! Eu não disse que poderia parar.
Segurei Clara pela nuca a mantendo no lugar. Primeiro porque tínhamos pouco tempo e precisava que focasse em seu trabalho. Segundo porque a dor me deixa impaciente e não estava afim de ouvir uma de suas cantadas/piadas horríveis agora.
Estava de olhos fechados aproveitando a sensação de alívio quando senti uma mão curiosa explorar meu abdômen até chegar em minha calcinha.
– Clarice… não – sussurrei, fraca.
Sinceramente, nem eu estava convencida do meu próprio “não”. A verdade era que, mais alguns minutos sendo sugada como Clarice estava fazendo eu facilmente iria acabar chegando lá sem que essa fosse a intenção. Sua mão ali só iria acelerar o processo.
– Se realmente quiser que eu pare, você sabe que palavra usar – ela disse com meu mamilo entre os dentes.
Logo em seguida senti seus dedos aventureiros invadir a minha calcinha direto para o meu clítoris. Eu não deveria me entregar tão fácil, mas naquele momento só conseguia me concentrar no calor da sua boca, o movimento dos seus dedos, o leite escorrendo e meu prazer crescendo rápido até demais.
Cobri minha boca com a mão para abafar meus próprios gemidos quando cheguei ao meu ápice. Rápido, intenso e fácil. Um feito que só a minha namorada foi capaz de alcançar.
O celular despertou quase sincronizado com meu orgasmo. Em um passe de mágica me lembrei de onde estávamos e quem estava lá fora provavelmente questionando onde estávamos.
– Ça suffit, Clarice! (Basta, Clarice) – eu a afastei de mim, a forçando largar meu seio. – Nós temos que voltar.
– Mas eu queria mais!
– E você terá… quando voltarmos para casa.
– Poxa vida, você deveria ser mais boazinha comigo depois de ter te feito gozar, – ela cruzou os braços e fez careta.
– Prometo te recompensar como quiser quando estivermos em casa e sozinhas. Okay? Agora lava a sua mão e limpa essa sua boca. Nós temos que voltar.
Após de me certificar de que estávamos apresentáveis outra vez, saímos do banheiro como se nada tivesse acontecido. Felizmente o ambiente ainda estava vazio e provavelmente ninguém notou nossa aventura.
– Por onde andaram? – Meu pai perguntou assim que nos aproximamos.
– Garantindo a vaga da Clarice na exposição amadora e a oficina de amanhã, – respondi com a maior naturalidade possível, embora não fosse a verdade. Eu paguei a inscrição dela pelo celular mesmo. – Onde está a minha mãe?
– Falando com a sua avó…
– Me diz que é a sua mãe.
– Poderia ser, mas não é. Quem ligou foi a Hélène… já se prepara que lá vem bomba.
– Ela não vai nos dar um único dia de paz?
– Eu me pergunto isso há mais de trinta anos.
Como é possível acabar de gozar e já estar estressada mais uma vez apenas por antecipação do que poderá vir? Depois me chamam de depravada, mas como é que mantém a paz de espírito dessa forma?
– Você está bem, docinho? – Clara perguntou me abraçando.
– Oui, ma vie. Não se preocupe com isso, – dei um beijo em sua testa. – Quer dar mais uma volta? – Ela assentiu.
– Eu vou ficar por aqui aguardando o meu docinho. Aproveitem por aí, sabem onde me encontrar – meu pai se adiantou surpreendendo o total de zeros pessoas.
Seu Fernando é fisicamente incapaz de estar longe da Margot. Até parece que é seu guarda-costas. Quando era mais nova achava um exagero esses dois. Como era possível não enjoarem da presença do outro, sabe? Hoje eu entendo exatamente o sentimento.
Tentei ignorar o receio do que Hélène estava aprontando e aproveitar um pouco mais o passeio com o meu amor. Conseguimos explorar um pouco mais da exposição, mas aos poucos comecei notar Clarice cada vez mais grudada em mim. Não queria se afastar nem por um instante, nem mesmo para ver algo de seu interesse. Quando não estava pendurada no meu braço, queria abraços. Estaria tudo bem se esses pedidos de abraços logo não virassem um pedido por colo de alguém que estava regredindo fora de controle para o meu desespero.
– Maman, colo!
– Mon dieu, ma vie… aguenta só mais um pouquinho. Nós já vamos embora, d’accord?
– Mas eu tô soninho, maman! Qué colinho… Qué mimi – Clarice choramingou, abraçando meu pescoço como quem quer colo.
Sem saber o que fazer no meio dessas pessoas todas, só me veio uma ideia possível.
– Vem comigo.
Puxei Clarice até o banco mais próximo e a fiz sentar. Em seguida me agachei para tirar um dos seus sapatos.
– Meu pezinho, maman! Tá frio!
– Eu sei, meu amor. É só até nós chegarmos em casa, está bem? – Me coloquei de pé outra vez. – Agora sobe nas minhas costas e fica quietinha, okay? Quietinha e caladinha, entendido?
– Sim, maman.
– Ótimo. Vamos embora.
Carregar alguém sem um dos sapatos nas costas era socialmente “aceitável” por dar impressão de que se tratava de um acidente. Ainda me dava a desculpa perfeita para querer ir embora o quanto antes. Ou seja, uma solução para dois problemas.
– O que aconteceu? – Minha mãe perguntou preocupada. – Ela se machucou?
– Nada que um descanso não resolva. Vamos para casa?
Foi uma resposta vaga, mas que evitava mais uma mentira. Clarice realmente precisava de descanso e isso era um fato.
– Quer que eu a leve para o carro?
Clarice me apertou um pouco mais já me dando sua resposta. – Não precisa. Eu levo.
Felizmente os dois só aceitaram a desculpa esfarrapada e finalmente decidimos ir embora.
No caminho para casa Clarice dormiu deitada em meu colo. Parte de mim não sabia se me sentia aliviada ou preocupada com medo de um possível acidente. Foram os minutos mais longos e tensos do meu dia.
E eu achando que a minha grand-mère seria minha maior preocupação e dor de cabeça dessa viagem. Agora tinha Clarice aí para mostrar que uma pequena se controle pode ser ainda pior que uma Hélène.
São só as primeiras 24h, Valkyrie… ainda tem muito mais por vir e pelo visto ninguém está afim de te poupar nessa viagem.
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Au revoir!
