« C L A R I C E »
Às vezes eu me vejo pensando no rumo que a minha vida tomou e chego à conclusão que nada faz sentido. Eu jamais um dia imaginei que namoraria mas alguém que fosse extremamente ocupada e tem a atenção disputada por vários, mas que ignoraria a tudo e todos para ouvir minhas histórias sobre as minhas aulas dessa manhã. A começar que, a Clarice de até uns sete meses atrás se contentaria em ter uma namorada que ao menos atendesse minhas ligações uma vez ao dia.
Mas cá estava eu, depois de ter a última aula suspensa e sair mais cedo, pensei que teria um tempo extra para fazer nada, provavelmente almoçar como um ser humano sem ser as pressas e fui surpreendida quando minha namorada disse que viria me encontrar para “me fazer companhia” quando eu sequer disse que precisava de uma. E não, não estava reclamando. Eu só achava engraçado… e fofo.
– Precisamos comprar roupas para você, – Val comentou aleatoriamente sem tirar os olhos do celular de trabalho enquanto esperávamos nossa comida.
– Eu estou bem com o que tenho.
Você que é exagerada…, mas eu que não falaria isso em voz alta.
– O que você tem não é apropriado. Vamos precisar de novas para essa época do ano, mas não se preocupe com isso, eu vou cuidar disso.
– Por que você tem que cuidar disso? Vai dizer agora que as suas escolhas são melhores que a minha?
– Oui, exactament.
Eu estou muito bem ciente que a família da Val do lado de lá vivem em outro universo, são ricos e frescos, até a Margot tem os seus momentos que a gente sorri de nervoso para não fazer outras coisas. Mas a Val? Ela é grossa e brutalmente sincera, mas babaca? Vai dizer agora que eu preciso de Chanel ou Louis Vuitton para participar do evento de natal da sua família?
– O que há de errado com as minhas roupas?
– Eu não posso deixar que vá para Paris com essas roupas. São inadequadas.
– Por que? Vai ficar com vergonha de mim?
Val levantou o olhar para mim séria. – O que significa isso, ma vie? Eu nunca teria vergonha de você. Por que está insinuando isso?
– Você acabou de dizer que minhas roupas são “inadequadas” e “inapropriadas” para Paris.
– Oui, parce que c’est décembre!
Pela primeira vez, o fato de a Val responder em francês me deixou ainda mais irritada. E nem fiquei contente por ter entendido.
– E qual o problema de ser dezembro? Vai dizer que tem o dress code do mês?
– É inverno.
Paralisei por um momento refletindo. – Oh… inverno do tipo que neva?
– Oui, mon amour. Ainda não está nevando, mas está muito, muito, muito frio e nenhuma das suas roupas de frio são apropriadas para esse tipo de clima. Você iria congelar em poucos minutos.
– Por que você não falou isso desde o início, Valquíria? Estou brava com você!
– Eu disse que precisava comprar roupas novas para essa época do ano.
– E deixou aberto para interpretação. Eu achei que estava falando das festividades e não da estação.
– Ah… eu não pensei muito nas “festividades”. Eu avisei ao meu pai que estou te levando, ele é tipo que gosta de pijamas temáticos e se encarrega da tarefa. Para ceia você prefere vestido ou calças? Podemos resolver isso por lá mesmo com o alfaiate. O importante agora é ter algo quente o suficiente para você sair do aeroporto ao apartamento.
– É tão frio assim?
– Consideravelmente.
– Tipo quantos graus? Zero?
– Ou abaixo disso. Depende – eu senti a vida sair do meu corpo ao ouvir isso. Abaixo de Zero?! – Mas isso nas ruas, a maioria dos ambientes tem aquecedores. Ao menos em casa te garanto um lugar quentinho e chocolate quente para se aquecer, – Val se adiantou para me consolar.
– Voo longo e frio congelante… eu vou parar de te falar as coisas que eu odeio para você não querer testar meu amor me forçando a passar por eles.
– Prometo que será a primeira e última vez que te arrasto para lá no inverno. A próxima será no verão ou uma época do ano mais amena.
Próxima? Vai ter próxima?!
Nossos pedidos chegaram e finalmente teria algo para digerir além dos pensamentos preocupantes a respeito dessa viagem. Se eu sobreviver 12h de voo, vou ter que enfrentar o frio. Eu, Clarice Sou… Mansur, enfrentando o frio?! Se o tempo fecha em São Paulo eu já coloco um casaquinho.
Meu deus, será que vai gelar o leite também?!
Quer dizer… se a Val ficar com frio e tals. Talvez eu também devesse garantir que a minha moça esteja apropriadamente vestida. Será que existe sutiãs quentinhos? Vou pesquisar.
Normalmente, quando as coisas estão indo bem, a Val consegue se desligar do celular e almoçar em paz. Hoje, porém, ela parou a cada dois minutos para ver suas mensagens e e-mails. Não que isso me incomodasse, ela sequer deveria estar fora do escritório essa hora, mas me preocupava, afinal, era a minha namorada em visível stress.
– Você está fazendo caretas. Aconteceu algo hoje cedo no escritório? – Eu perguntei quebrando o silêncio confortável entre nós.
– “Deixou de acontecer” é o que seria o correto. Eu não sei, eu devo ter sérios problemas para me comunicar em português para pedir algo e receber tudo, menos o que pedi.
– Nem todo mundo segue a sua linha de raciocínio, não acho que isso tenha a ver com o seu português, – comentei brincando. Era arriscado cutucar a fera com vara curta, mas a minha fera eu não tenho medo… não em termos de trabalho. – Para falar verdade, de um tempo para cá você está muito melhor. Antigamente era até difícil acreditar que também era brasileira.
– Comment ça?
– Viu só… qualquer coisinha já estava totalmente francesa. E eu tenho impressão que depois dessa uma semana por lá perdeu parte desse progresso, mas não se preocupe; eu acho o seu sotaque fofo. Adoro os sons dos seus “i” e as ênfases nas silabadas erradas tipo “bananá” e “Theô” ao invés de “Théo”. Ou meu nome que sai um Clarice com dois R quando está brava.
Val revirou os olhos e eu ri.
– Eu sei que você está brava e quer xingar todo mundo, mas nós combinamos que iriamos melhorar a sua imagem na empresa. Nada de chefe má, grosseira e carrasca. Vamos, me dê esse seu celular, deixa eu ver o que está escrevendo.
A vi respirar fundo antes de entregar o aparelho sem muita vontade. Isso é um privilégio meu. Qualquer outra pessoa iria ouvir um “vai se foder” no mesmo instante.
– Uhm-uhm, isso é definitivamente um “não-não”. Você não vai responder esse e-mail assim. Além de ser um corte rápido Tramontina e que pode ser entendido de forma bem grosseira, não vai conseguir o que quer desse povo. Está contando demais com a capacidade cognitiva deles. Sua resposta tem que ser a prova de idiotas. Eu te ajudo.
Apesar de não ser exatamente envolvendo o meu trabalho ou algo que minha equipe estava envolvida, de tanto acompanhar a Val, eu sabia por alto o que se tratava e era capaz de entender o que queria desses chatos. Após algumas pequenas mudanças, tornando minha mulher um pouco mais gentil, devolvi o celular para ela.
– Pronto, agora é só enviar.
– Eu sinceramente não acredito que estou aceitando isso.
– O que? Mandar em você?
– Você não está mandando em mim que fique claro isso. Eu estou ouvindo o seu conselho e aceitando as mudanças que sugeriu. Não há ordens aqui.
– De qualquer forma… – eu abracei a Val e lhe dei beijinhos no rosto. – Eu estou muito orgulhosa de você, meu amor.
– O que você disse?
– Que eu estou orgulhosa de você.
– Non, o que você me chamou. Você me chamou de “meu amor”.
– Sim… chamei – respondi desconfiada. – Você é o meu amor.
– Você só me chama de Val… ou maman. Quer dizer, você me chamou de “meu amor” quando estava gozando, mas não sei se esses momentos realmente contam.
A encarei levemente espantada. – Você conta isso?
– Eu não conto isso, mas você já chamou o Chloée de “meu amor” mais vezes que eu.
– Eu não te chamo assim para não cometer a gafe de fazer isso em público. Teoricamente, não somos um casal. E não é comum chamar chefe de amor. Quando você irá me assumir?
– Não fale como se eu escondesse você ou o nosso relacionamento. Não falamos a respeito no escritório para não dar margem para insinuarem coisas ao nosso respeito ou minhas decisões em relação a você.
– E se eu não fosse sua estagiária?
– Então não teríamos nenhum problema.
– E se eu mudar de departamento hoje?
– Você não vai mudar de departamento, – Val respondeu séria. – Eu não dei permissão e se chegar um pedido, eu não vou autorizar. Você é minha estagiária.
Levantei as mãos em rendição. – Calma, não precisa ficar brava. Eu já entendi. Eu sou sua… estagiária.
– Termina de comer. Nós vamos embora.
– Mas já? E a sobremesa? Eu quero provar o…
– Clarice, – Val me interrompeu. – Eu te dou a sua sobremesa em casa.
– Okay, deixa para lá, eu provo outro dia. Vamos embora.
Chegamos no apartamento da Val e bastou a porta do elevador se abrir para eu ser puxada para fora dele e ser colocada contra a parede. Nós não tínhamos muito tempo isso era fato, mas algo me dizia que essa pressa não estava ligada ao relógio. Ela colou os lábios nos meus, sua língua invadiu a minha boca com urgência, ditando o passo. A puxei pela cintura colando os nossos corpos e tentando ter o mínimo de controle aqui.
– Nós temos quarenta minutos, – ela disse entre os beijos. – Eu tenho uma reunião com alguns investidores, não posso me atrasar.
– Eu só preciso de três, – eu respondi abrindo o cinto da calça de alfaiataria da Val.
Me ajoelhei puxando a calça e a calcinha da Val junto. Eu nunca a fiz gozar em três minutos, mas agora esse era o meu objetivo de vida e acho que a conheço o suficiente para isso.
Sem enrolação, lambi sua boceta e suguei seu clítoris dando uma mordidinha de leve. Val levou a mão em meus cabelos segurando a minha cabeça no lugar, não que fosse necessário, eu estava no meu lugar favorito; entre suas pernas.
– Putain, Clarice! – Ela gemeu arrastado e eu juro que quase gozei a ouvindo.
Olhei para cima, a minha namorada estava muito sexy, mas poderia ficar melhor. Desabotoei sua camisa social e me surpreendi com a falta de sutiã. Levei uma das mãos em seu seio e a outra em seu sexo. O tempo não me permitia me deliciar do seu corpo como gostaria, eu teria que deixar para outra ocasião. O foco agora era fazer o meu amor gozar.
Val estava tão molhada que meus dedos entraram com facilidade. Em um ritmo não muito lento, mergulhava nela procurando seu ponto mais sensível. Soube que encontrei quando ela contraiu o abdômen e gemeu.
– Mon amour, je vais…
Aumentei o ritmo dos meus dedos e o movimento da minha língua em seu clítoris para a provocar ainda mais. Val segurou meus cabelos com força e senti seus músculos contraírem meus dedos à medida que chegava mais perto do seu ápice. E com um gemido longo e arrastado, a minha namorada gozou na minha boca.
– Ma vie…
Continuei ali, pois gosto do trabalho completo e me deliciar de todo o seu mel era parte dele. No entanto, minha curiosidade falou mais alto e fui obrigada e pegar a mão de Val e puxar para a altura dos meus olhos para ver a hora no seu relógio.
– Três minutos, – eu sorri satisfeita. – Eu consegui.
Val balançou a cabeça e acariciou o meu rosto. – Você não deveria falar algo assim quando ainda está entre as minhas pernas, – ela limpou os dois lados da minha boca com o polegar. – Bon travail, ma vie.
Ela disse isso e chupou o dedo antes de se afastar e me oferecer ajuda para levantar. Eu observei a cena sem palavras ou reação, como algo tão simples pareceu tão sexy vindo da Valquíria. Essa mulher é coisa de outro mundo.
– Ainda temos tempo para mais, – ela disse me abraçando e beijando meu pescoço. – Se sente confortável se eu te tocar?
Senti meu rosto queimar de vergonha outra vez. Céus, eu preciso aprender a controlar a minha boca grande quando estou no pequeno espaço. É tão vergonho pensar que eu mesma me causei assaduras por ser idiota e vestir uma fralda sem cuidar da pele antes. E agora a minha namorada estava cuidando de mim… aceitar essas coisas de pequena é mais difícil que parece.
Mas o fato de a Val perguntar antes de tentar me fez sentir um calorzinho no peito.
– Mon dieu, ma vie! Você está envergonhada de novo? – Val perguntou, ela estava uma mistura de revolta e indignação. – Eu sou a sua maman.
– Eu sei, mas… esse tempo todo era como se a minha ficha não tivesse caído de fato. Eu nunca parei para pensar o que acontecia entre nós enquanto estou no pequeno espaço e depois de tudo que aconteceu, ainda mais com aquele rolê da Claudia… ainda não me acostumei.
Val faltou virar os olhos do avesso ao ouvir o nome daquela mulher e cruzou os braços. – Será que podemos não falar dessa mulher, s’il te plaît? Eu estou de bom humor agora, mas isso pode ir embora facilmente se citar o nome dessa mulher mais uma vez.
– Mais uma sessão de três minutos?
– Não, – respondeu firme. – Você irá para cama me esperar enquanto termino um banho rápido… a não ser que queira tomar banho comigo, – balancei a cabeça negativamente. – D’accord, então vá para cama me esperar. E eu mandei esperar na cama, não é para sair por aí brincando com o Chloée.
O tom de voz de Val não era um dos mais amigáveis para querer desobedecer, pelo contrário, era o seu típico tom autoritário que dava medo até em mim. Por essa razão eu decidi sentar e esperar enquanto me distraia no celular.
Alguns minutos de espera depois, Val voltou para o quarto em suas roupas íntimas reacendendo a vontade de mais uma sessão de três minutos em mim. Antes que eu pudesse falar qualquer coisa a respeito ela começou.
– Deite-se na cama.
– Eu não… eu não quero fazer nada em mim, – respondi um pouco sem graça e me aproximei dela para um abraço. Ela estava tão cheirosa e a pele tão fresquinha. – Na verdade, eu quero fazer em vo…
– Nós não vamos transar, Clarice – ela me interrompeu. – Não foi para isso que te mandei deitar.
– Foi para que então?
De todas as opções que se passaram na minha cabeça desde deitar agarradinhas até dar a hora e mamar todo esse tempo, o que saiu da boca da Val com certeza não estava na lista.
– Eu vou te colocar uma fralda.
– O que?! Não! Eu não preciso e nem quero usar uma fralda agora.
– Já passou da hora de você entender que não tem escolha aqui, mocinha. Eu sou a sua maman e eu dito as ordens. Se eu disse que vai usar uma fralda, você irá obedecer.
– Mas a gente já vai sair. Qual o sentido disso? Não precisa.
– Eu não disse que você irá tirar, aliás, – Val me virou de costas e me abraçou por trás. – Você é minha. Nem mesmo você tem permissão para cuidar do que diz respeito a minha menina, – ela disse desabotoando minha calça jeans. – Se eu te colocar uma fralda, você não toca e não tira. Essa é a minha responsabilidade. Estamos entendidas?
– Sim.
– Sim o que, Clarice?
– Sim… maman.
– Très bien, ma vie – ela abaixou um pouco a minha calça e calcinha. – Agora deite… e não faça birra. Eu realmente não gostaria de dar palmadas no seu bumbum dodói.
Engoli o seco só de imaginar.
Minha pele estava consideravelmente melhor após o balsamo que a Val usou em mim ontem e já não doía ou incomodava muito, mas certamente estava bem mais sensível que o normal e qualquer palmada, por mais leve que seja, seria infernal.
Eu me deitei e sem cerimonias, Val retirou meus sapatos e terminou de tirar minha calça e calcinha me deixando nua da cintura para baixo. Essa definitivamente não era primeira vez que me via assim, mas certamente era a primeira vez que me sentia tão envergonhada e exposta dessa forma.
– Não se mova, eu já volto.
Ela saiu em direção ao closet me deixando aqui completamente sem reação, com medo de mexer até a cabeça para ver o que fazia. Pouco depois ela voltou com as minhas… as coisas da Clara pequena. Novamente senti uma onda de vergonha subir em meu corpo.
– Você está muito tensa e inquieta, acho que precisa de uma ajuda para se acalmar – ao dizer isso, Val abriu a gaveta da mesa de canto e tirou uma caixinha de plástico. Arregalei os olhos quando vi a Val tirar uma chupeta azul de dentro dela e vir com o objeto em direção a minha boca. – Tome, isso vai te ajudar a distrair e relaxar enquanto a maman cuida do bebê dela.
Virei o rosto me recusando a pegar. – Não, eu não gosto de chupeta.
– É o que tenta se convencer, meu amor. Mas não é a verdade. A maman sabe que no fundo você adora a sua chupeta e como te ajuda a se acalmar, – ela insistiu mais uma vez e eu neguei com a cabeça. – Vamos lá, Clarice. Não enrole. Nós não temos muito tempo e se continuar assim irá ficar sem tetê antes de sair.
Neguei com a cabeça mais uma vez e Val fechou o semblante me encarando sério.
– Você realmente quer deixar a sua maman brava? O dodói já não é ruim o suficiente, quer mesmo levar palmadas para piorar?
– Não.
Ela ofereceu a chupeta mais uma vez, seus olhos fixos em mim esperando para ver qual seria a minha reação. Ainda relutante eu abocanhei lentamente querendo morrer internamente por estar aceitando as ordens dessa mulher só porque é o que ela quer.
– Boa menina, – ela sorriu e se inclinou para dar um beijo por cima da chupeta.
Eu sinceramente não sabia o que era pior em toda essa situação; encarar o teto enquanto sentia a minha namorada preparando a minha pele para me vestir uma fralda ou o fato de que ela tinha razão a respeito da chupeta. O movimento repetitivo, a pressão ao redor da boca e a leve semelhança com o próprio tetê causaram um efeito de relaxamento que calmante algum seria capaz. Quando dei por mim, Val já estava me pedindo para levantar o bumbum para subir a fralda calça.
Me sentei na cama e encarei entre as minhas pernas. A Valquíria só poderia estar louca em querer que eu use isso no trabalho. E se alguém perceber? Será que ela realmente espera que eu use isso? Eu não vou fazer xixi nas próprias calças no meio do escritório. Não vou mesmo!
– Não se preocupe, meu amor. Ninguém irá ver o que está usando. Essas fraldas calça são bem finas e discreta. Acredite, tem muitos adultos que precisam de uma dessas por outras razões e não são percebidos.
– Mas eu não sou esses adultos e eu não preciso usar uma fralda no trabalho… – eu sussurrei a parte da “fralda” como se alguém fosse nos ouvir. Sei que não tem mais ninguém nesse apartamento, mas nesse horário geralmente aparece um funcionário ou outro e embora eu não estivesse preocupada em ser pega fazendo um oral na minha namorada quase na porta do elevador, eu estava preocupadíssima em ser pega usando uma fralda.
– Sim, mon bébé. Você não é um desses adultos, você é a minha petite bébé, – ela acariciou o meu rosto. – E pequenas como você precisam da atenção da sua maman dentro e fora do pequeno espaço…
– Não é verdade, – rebati. – Eu não preciso disso quando estou normal.
– Talvez não precise de tanta atenção quando está grande, isso não significa que não possa receber mesmo assim, – ela se arrastou para um pouco mais perto de mim e segurou meu rosto com as duas mãos. – Eu quero você confortável com todos os lados da sua vida. Sem exceções.
– E quer fazer isso me humilhando na frente de todo mundo?
– Eu te garanto que até o final do dia irá perceber que esse “todo mundo” que está na sua cabeça será só eu. E comigo você não tem que se sentir envergonhada, – ela me puxou para um abraço e eu nem poderia reclamar, estava com a cabeça contra seus peitos só de sutiã. – Você quer mamar um pouco? Está quase na hora de outra sessão, deve ter um pouco de leite.
Minha resposta foi puxando a alça do sutiã para dar acesso aos meus Valquírios. Não era a posição ideal e precisamos nos ajeitar um pouco, mas para o tempo que tínhamos não seria problema.
Era impossível não fazer a comparação depois de ser forçada a usar uma chupeta enquanto minha mente estava bem “sã”. É óbvio que o tetê é muito melhor e envolve muito mais detalhes importantes como o contato pele a pele, o calor e o cheirinho da Val, os cafunés e beijinhos aleatórios, e apesar de pouco, também tinha o leitinho. No entanto, na ausência da do meu amorzinho, talvez uma chupeta seja uma grande aliada… e poderia ter amenizado um pouco o sofrimento da última semana.
Por um milagre divino conseguimos chegar pontualmente no trabalho e não foi porque saímos no horário. Dessa vez, essa cidade infernal estava ao nosso favor e o trânsito estava razoavelmente okay e comigo no volante conseguimos compensar o nosso atraso. E foi engraçado deixar a Val na entrada e sair tal qual eu fosse um chauffeur, mas só virei a esquina para entrar no estacionamento mesmo.
Seria muito suspeito chegarmos juntas no mesmo carro e como os vidros são escuros, ninguém iria conseguir me ver ali dentro. Bom, pelo menos a gente tentava disfarçar um pouco e não ser tão na cara, especialmente agora que depois do vídeo nossa equipe que achava que tínhamos um caso acredita que foi apenas um delírio de acordo com a fofoca dada pelo Theo.
E falar no vídeo, eu consegui ver com os meus próprios olhos o que a Val uma vez me disse que seus erros não tem o mesmo peso por ser uma Touchon. Achei que seria o maior bafafá da história, por fim, bastou uma mensagem da Margot e uma fala da Val e todos se calaram a respeito. Quem espalhou o vídeo levou uma advertência. Dever ser uma delícia ser nepobaby… não que ela não seja talentosa, longe disso, mas não dá para negar, ser filha da presidente do conselho tem suas vantagens.
A primeira hora de trabalho foi uma tortura lenta e dolorosa. Eu não consegui me desassociar do fato de estar usando uma “pull-up” e o fato da Val estar em uma das suas reuniões que costumam levar horas me deixava ainda mais nervosa. Eu queria me livrar disso em mim, mas eu fui tão menina que esqueci de trazer um substituto e até onde sei, não vende calcinha no Ifood.
E bem, como o karma é minha inimiga e gosta de me feder, hoje foi a primeira vez que a Val tinha mais do que poucos goles de leite nos tetês. Junto com o que eu bebi durante o almoço, era de se esperar que mais cedo ou mais tarde a vontade de ir ao banheiro chegasse… infelizmente, foi cedo. Muito cedo. Antes mesmo da reunião acabar.
Sem saber se Val iria me responder, eu enviei uma mensagem.
“Eu preciso ir ao banheiro”
Por incrível que pareça, antes mesmo de bloquear a tela do meu celular e evitar possível olhares, Val estava online e digitando. Esperei por uma figurinha de gatinho dando joinha ou qualquer coisa do tipo e recebi uma mensagem de texto.
“Estou ocupada. Use a sua couche (fralda)”
“Nem pensar!”
“Não te dei permissão para tocar ou tirar. Você tem a opção de usar sua couche ou esperar”
“Eu vou te esperar”
“Vai demorar…”
Determinada a não ceder, eu decidi esperar… só não imaginava que teria que esperar tanto.
Quase uma hora depois e pelo relato da Letícia a reunião ainda iria seguir por pelo menos outros vinte minutos. O que seria relativamente okay se já não estivesse muito apertada e cogitando seriamente em meter o louco e ir ao banheiro sem medo. Entretanto, todavia, eu não sabia quais seriam as consequências desse ato de rebeldia e tinha certeza que a Val iria saber mesmo que eu – e ninguém mais no escritório – não comentasse a respeito.
“Maman… por favor”, tentei apelar ao emocional. Val costuma ceder a um olhar fofo e um pedido com jeitinho…, mas pelo visto não tem efeito pela internet já que eu nem resposta tive. Alguns minutos depois eu insisti mais uma vez com um singelo “por favor”.
– Está tudo bem com você, Clari? – O Theo me perguntou.
Agora que ele meio que sabe que minha regressão meio que virou algo real que estou lidando na minha vida, eu tenho a sensação de que ele me observa mais atentamente no dia-a-dia como se meu lado pequeno fosse aparecer a qualquer instante. Theo, porém, só me via regredir em meio uma crise em que “estar pequena” significava chorar e pedir pela minha mãe. Tudo bem que agora eu continuo pedindo pela a minha “mãe”, a maman no caso, no entanto, todo o resto é diferente. Até onde eu conheço do pequeno espaço atualmente tem sido algo bom e menos assustador.
– Estou, estou sim – tentei dar um sorriso.
– Se você diz… eu vou ao banheiro e acho que vou pegar um suco. Você quer?
– Não, valeu. Estou suave.
Suave para baralho…
Theo deu ombros e saiu. Sem ele por perto, a Amanda na reunião, Barbara e Mateus trabalhando juntos na outra sala e a Letícia isolada me sua mesa, eu estava basicamente sozinha com meus próprios dilemas. Eu estava muito, muito, muito apertada. Se levantasse do lugar, não chegaria a tempo no banheiro e se ficasse parada aqui não iria me aguentar por muito tempo. Em ambos os cenários eu iria perder a batalha.
Por dentro eu me sentia um verdadeiro caco. Parte de mim queria só desistir e me entregar e outra parte estava preocupada com o resultado dessa desistência. E se essa fralda mais fina não aguentar? E se vazar? E se a Val demorar ainda mais, quanto tempo vou ter que ficar sentada na minha própria poça de xixi? Tudo isso estava me deixando confusa e sem saber o que fazer. Tudo o que eu queria era não ter que tomar uma decisão e só chorar.
Antes que eu pudesse decidir se ficava no lugar ou se levantava, a minha bexiga decidiu por mim. E uma vez que ela estourou, eu não consegui mais segurar. Todo o meu sangue foi para o meu rosto no momento que senti o líquido quente entre as minhas pernas. Eu estava apavorada com a possibilidade de vazar ou de alguém perceber o que estava acontecendo comigo.
Sem saber o que fazer, eu mandei uma mensagem para a maman.
“Maman… eu… 😳”
Pior que me molhar no trabalho era ficar molhada nele. Depois que finalmente esvaziei tudo que estava em mim, a sensação úmida e quente contra a minha pele me deixou em um desconforto extremo. Queria chorar. Queria me livrar disso. E saber que a Val ainda estava em sua reunião estava me causando uma pequena crise de ansiedade.
Tentei controlar minhas emoções com exercícios de respiração. Se eu chorasse ou demonstrasse o meu desconforto iria atrair atenção indesejada. Pensar na possibilidade de ser descoberta me deixava ainda mais miserável.
– Clarice, – a voz da Val em sua skin de chefe atraiu a minha atenção, – preciso que me faça um favor. Venha em minha sala.
Por mais que eu não quisesse levantar nesse estado, ver a Val ali foi como se uma pedra fosse retirada de cima de mim. Eu me sentia miserável no atual estado e no fundo tinha certeza de que a maman iria resolver isso. Ela sempre resolve.
Levantar com a fralda cheia não foi uma sensação legal, porém eu tentei fingir naturalidade ao caminhar até a sala da Val.
Assim que entrei, levei um pequeno de um susto ao perceber que ela estava ao lado da porta e a trancou logo em seguida. Val me puxou para um abraço e esfregou as minhas costas tentando me confortar.
– A maman está aqui. Não precisa ficar assim, está tudo bem. Você está bem. Nós vamos lidar com isso.
– Mas eu… eu esqueci de trazer uma reserva. Eu fui burra, eu…
– Ma vie, você não se preocupa com isso, – ela acariciou o meu rosto. – Essa é a minha responsabilidade. Vamos trocar essa couche?
Realmente, a Val tinha cuidado de tudo. Na maleta que ela trouxe consigo depois do almoço não havia nada relacionado com trabalho como imaginava. Deitada no sofá, vi de relance que tinha guardado ali coisas da Clara pequena: fralda, toalhinhas umedecidas, pomada, balsamo, talco, até a mamadeira e um pouco de fórmula. Uma chupeta nova ainda na embalagem e o que mais me chamou atenção: uma calcinha.
Então quer dizer que se eu dissesse coentro ou algo do tipo, ela me deixaria usar uma calcinha?
– Você está muito quieta, – Val comentou enquanto espelhava o balsamo na minha pele. – O que está pensando?
– O que você faria se eu dissesse alguma das palavras de segurança?
Val levantou o olhar para mim desconfiada. – Você quis usar em algum momento?
– Não… eu não pensei nisso.
– Oh, oui… bem, depende do que me dissesse. Se fosse demais para você, um “vermelho” e um não genuíno, eu teria te tirado dessa situação. Eu trouxe suas roupas normais, você poderia usá-la e se precisasse poderia dar um tempo para respirar antes de voltar ao trabalho. Se não fosse extremo, talvez um “amarelo”, provavelmente levaria no banheiro, não precisaria usar sua couche e depois me diria como se sentia, se iria querer continuar ou trocar. Você achou que eu iria te forçar a fazer algo que realmente não estivesse confortável em fazer?
– Eu não sei, eu não pensei muito sobre isso.
– Como está se sentindo agora? Quer dar um tempo?
– Acho que “amarelo”, mas… eu confio em você.
Nessas horas eu odeio ter a pele muito clara e qualquer coisa meu rosto ficar vermelho. Eu não deveria ficar assim tão facilmente, ainda mais com a Val que já me viu de todas as formas e situações.
– D’accord. Eu não vou te segurar aqui por muito tempo para não levantar suspeitas, – ela terminou de vestir a minha fralda e me ajudou com a calça, – nós vamos conversar a respeito disso no jantar.
Meu coração deu uma pequena acelerada ao ouvir que não ficaria aqui na sala por muito tempo. Não que eu quisesse passar o resto do expediente aqui, mas ainda precisava de algo em privado.
– Espera, antes eu posso… só um pouco?
Val me encarou pensativa por um momento. – Não vamos tornar isso um hábito, okay? – Concordei com a cabeça. – Vem cá, deita aqui.
Me ajeitei no sofá para deitar no colo da Val. Ela me envolveu com o braço me trazendo para mais perto do seu corpo e ofereceu o tetê na minha boca. Não esperava que fosse ter leite como mais cedo, mas estava contente com o pouco que desceu.
– Ei, não é para fazer de chupeta, nem escorregar, muito menos dormir, mocinha.
Sorri com o peito ainda entre os dentes e voltei a mamar feliz. Eu não iria dormir ou escorregar, mas estava me aproveitando do momento.
É maman… dessa vez não vai dar para te obedecer. Eu vou tornar isso um hábito.
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Au revoir!
