« C L A R I C E »
Uma coisa que regredir me ensinou é que eu amo contato pele a pele. É diferente abraçar a maman e ter um tecido entre nós ou a abraçar e sentir seu calor direto. Sua pele colada na minha me acalma, traz a sensação de segurança, proteção e tranquilidade, eu durmo melhor assim. Esse é um dos motivos pelo qual o tetê é extremamente relaxante. Enquanto estou ali em seu seio, sua pele está tocando meu rosto e seus braços me envolvem em um abraço. Eu me sinto nas nuvens sempre.
Só que tudo isso tem um detalhe importante: contato pele a pele com a minha maman!
Precisa ser ela, com o cheiro dela, o toque dela e o calor dela. Ninguém mais! Ninguém!
E foi por isso que quando despertei do transe entre estar sonolenta e acordada e senti alguém me abraçar, e pior, estava com o rosto colado em seu peitoral, eu me desesperei. Sem pensar muito empurrei seja lá quem fosse para longe e nesse movimento brusco acabei caindo da cama e batendo a cabeça.
De novo não, de novo não, de novo não… esse pesadelo de novo não!
Como? Como eu vim parar aqui?! Eu, eu, eu… eu não lembro de nada! E minha cabeça estava latejando, meu corpo todo doía como se um trator tivesse passado por cima de mim.
– Não! Não! Não! Eu não quero! Eu não quero! Não toca eu! Não toca!
Eu me debati tentando evitar que essa louca me tocasse de novo. Por que ela fez isso de novo? Por que?!
– Clarice! Abre o olho!
Essa voz me fez parar. De repente ela segurou firme os meus pulsos.
– Mon bébé, sou eu. Olha para mim. É a maman.
Virei até devagar com medo de abrir os olhos e ter sido só um sonho estranho. Que essa voz tivesse sido só a minha imaginação. Mas quando finalmente a vi, a imagem não sumiu e ela não desapareceu de repente.
– Val?! É você?!
– Oui, mon bébé. Sou eu… você se machucou?
Ainda sem acreditar muito, eu me inclinei para frente me jogando em cima da Val e a abracei forte. Ela se desequilibrou e caiu para trás, mas logo me envolveu em seus braços me apertando.
– Você… você está aqui! Você está aqui!
– Sim, meu amor. Eu voltei para você…
– Não faz mais isso! – Eu praticamente a interrompi de tão afobada que me sentia. – Não vai mais embora! Num deixa eu não!
– Isso não vai se repetir, mon bébé. A maman não vai mais te deixar, d’accord? Nós não vamos mais nos separar, está me ouvindo? Não vamos.
Todo o choro preso em minha garganta resolveu procurar o caminho de saída. Eu nem sabia exatamente o porquê de eu estar chorando, mas estava. Chorando copiosamente como se a minha vida dependesse disso.
– Bébé, respira… – a maman acariciou minhas costas tentando me acalmar. – Vem para a cama com a maman, vem?
Relutante, eu soltei a maman para levantar e ir para cama, mas na primeira oportunidade a agarrei de volta. Estava com medo de a soltar por muito tempo e ela me deixar outra vez.
A maman me colocou sentada entre as suas pernas e me abraçou acariciando meus cabelos. Com o rosto colado contra o seu peito, eu passei ouvir seu coração bater. Aos poucos o som dos seus batimentos cardíacos me ajudou a relaxar e parar o choro. Esse ritmo constante me trazia paz. Uma paz diferente.
Quase que inconsciente eu afundei o rosto contra o seu peito e a maman entendeu o recado e me ofereceu o tetê na boquinha. Não sabia dizer o que estava diferente, mas era tão bom quanto me lembrava e céus… eu estava com tantas saudades.
– Devagar, ma vie. Não vá machucar a maman.
Confesso que me empolguei um pouco e talvez tenha exagerado na hora de abocanhar o tetê. Mas eu juro que não foi por mal, é só saudades… aos poucos eu reencontrei o meu ritmo e ficou melhor para a maman e para mim.
Estar nos braços da maman recebendo o seu carinho enquanto estava no tetê, era uma verdadeira prova de resistência. Ser envolvida por esse conforto e aconchego e não ficar com sono era uma missão extremamente difícil. E por mais que eu lutasse contra o sono e tentasse manter meus olhos abertos, essa tarefa foi aos poucos se tornando impossível.
Eu tinha medo de dormir. Medo de fechar os olhos e quando abrisse tudo não ter passado de um sonho. Mas foi mais forte que eu… a paz e tranquilidade que sentia me fez render ao sono e eu me deixei levar.
Só espero ainda encontrar a maman quando acordar…
« V A L K Y R I E »
Preocupação era pouco perto do que eu estava sentindo agora. A reação da minha bebê ao não me reconhecer não era algo normal e havia muitas interrogações em minha cabeça que precisava responder. O que Claudia fez? O que a diaba lactante falou? Por que Clarice aceitou ajuda dela? E por que diabos, essa petite peste não falou comigo que não estava se sentindo bem? Eu estava em outro país, mas eu ainda sou a sua maman e poderia ter ajudado de qualquer lugar do mundo.
Eu me pergunto se Clarice ainda tem algum bloqueio em relação a mim ou se sente desconfortável em algumas situações por eu ser… eu.
Durante toda a minha vida cresci com as pessoas querendo se aproximar de mim pelo o que tenho e represento, eram poucos que se aproximavam pelo o que eu realmente sou. E mesmo sendo poucos, o que eu tenho e represento nunca foi problema… até conhecer a Clarice.
Não tenho dúvidas que a Clara realmente me ama e isso está relacionado a minha persona e não aos bens. Mas também sei que em sua cabecinha teimosa, ela tem medo de que seus sentimentos sejam interpretados como algum tipo de interesse e não como algo genuíno. E isso é um grande problema quando entre me procurar e procurar outra pessoa que ela vê como “parte do mesmo mundo”, ela opte pela segunda opção. Ou se coloca numa posição tão inferior que enquanto eu a namorava, Clarice achava que estávamos em um algum tipo de envolvimento temporário e que ela não era opção para ocupar um lugar permanente ao meu lado.
Sua insegurança me deixa insegura….
Não me preocupo com a possibilidade de ser traída e até a nossa diferença de idade não é um fator muito relevante, poderia ser mais se nossas famílias e amigos fossem contra, mas a parte dos homofóbicos, todos nos apoiam. O nosso único real problema é a insegurança da Clara em relação a mim. Confesso que estava muito tranquila – e até negligente – a respeito disso, porém, essa viagem para França trouxe de volta o medo que tinha me esquecido…
E se a Clarice não aguentar a pressão? Se ela se sentir desconfortável ao ponto de não querer mais estar ao meu lado? E eu não posso nem a culpar se decidir assim quando até meus pais quase se separaram por esse mesmo motivo. Talvez se minha mãe não estivesse grávida, meu pai teria desistido deles. Mas ela estava e meu pai é do tipo raro de homem que leva o papel de pai muito a sério. Ele definitivamente ama a minha mãe mais que a mim – e fala isso abertamente -, porém, ele mata e morre por mim.
Infelizmente – ou não, – eu não estou grávida da Clara e não poderei lhe dar um golpe da barriga tal qual a minha mãe… se a minha mãe pudesse ouvir meus pensamentos agora, ela certamente me mataria.
Talvez um peito com leite faria mais efeito na Clara… e por falar nisso, estava na hora de bombear. E por mais que eu tivesse com Clarice pendurada em mim, o que ela fazia durante o sono não dava para ser considerado uma sucção para substituir as bombinhas. Ela estava me usando de chupeta e isso estava longe de ser considerado um estímulo.
Devolvi a verdadeira chupeta de Clara em sua boca e a ajeitei na cama antes de sair de fininho para não acordá-la. As bombinhas faziam barulho, por essa razão optei por não fazer isso no quarto para não acordar a minha petite peste. Seu sono era profundo e parecia estar muito gostoso para ser interrompido assim.
Amamentar Clarice depois de uma semana longe foi uma sensação inexplicável. Ter o seu corpo contra o meu, a sua boca quente em minha pele, seu olhar cheio de amor para mim e o mais mágico de tudo; ver a expressão em seu rosto suavizar, seu corpo relaxando entre os meus braços e saber que eu sou a causa desse conforto. É como se ela estivesse dizendo que me ama sem usar as palavras. Um amor genuíno e verdadeiro.
Se antes bombear me deixava levemente estressada e irritada, pensar nisso me motivou a seguir o ritual da indução a lactação em paz. Eu quero proporcionar um outro nível de conforto e aconchego para a minha pequena e não via a hora para começar a de fato lactar.
Pouco mais de dez minutos que comecei a bombear, ouvi um serzinho me chamar e logo em seguida ruídos que pareciam ser choro. Imediatamente interrompi a sessão para ir lá conferir a minha pequena que deveria estar em sono pesado e profundo.
– Oi, bébé. A maman está aqui, – me sentei na beira da cama e segurei o rosto de Clarice entre as mãos. – Por que está chorando, minha vida?
– Eu-eu-eu… achei que-que vo-vo-cê não esta-tava aqui, – ela disse entre soluços.
– Mas eu estou, – a puxei para um abraço. – Respira um pouco, se acalma.
Clara ficou agarrada em mim por um tempo e foi se acalmando aos poucos.
– Por que você deixou o neném? – Clara se afastou e me olhou como se eu tivesse cometido a maior atrocidade possível. – Você num pode deixar eu.
– A maman foi cuidar do seu tetê, ma vie.
– Cuidar do tetê? O tetê está dodói?
– Não, – eu sorri. – Não está, amor. Seu tetê está ótimo… a maman só está tentando ter leite para o bébé.
O rostinho surpreso e empolgado da minha pequena foi a coisa mais fofa do mundo.
– É por isso que o tetê tá diferente?
– Diferente?
– Sim, o tetê da Clara está mais grandão – ela sorriu satisfeita com a constatação.
“O tetê da Clara” não passou por despercebido, mas preferi ignorar.
De fato, Clarice tinha razão. Meus seios estavam sim inchados e pesados, desde que comecei a indução na terça-feira passada meus sutiãs deixaram de servir. Mas não era uma mudança significativa e poderia passar totalmente despercebido… não para Clarice, pelo visto.
– E você notou isso?
– Uhum! – Clara respondeu orgulhosa. – Eu conheço o meu tetê.
– Estou percebendo, – dei um beijo na testa dela e me levantei. – Eu vou voltar a bombear. Vai brincar com o Chloée enquanto isso.
– Bombear é o que? Pra que serve?
– É para simular a amamentação e estimular a produção do leite.
– Mamar de mentirinha?
– Quase isso…
Clarice se levantou atrás de mim. – Eu quero ajudar.
– Ajudar o que?
– A cuidar do tetê.
– Bébé, você dorme em dois minutos que começa a mamar. Não irá conseguir estimular o tempo necessário.
– Eu não vou mimir, maman. Deixa eu ajudar.
– Você vai conseguir mamar por 30min sem dormir?
– Uhum.
– Os dois lados?
– Uhum.
– Você sabe que só consegue mamar um lado de cada vez, não sabe?
– Uhum.
– Vai ficar uma hora mamando?
– Uhum.
– Sem dormir e sem cansar?
– Uhum.
– D’accord… eu deixo você me ajudar.
O tempo que levaria discutindo com a Clara seria o tempo que ela levaria até pegar no sono quando começasse mamar. Seria mais fácil – e prático – deixar ela participar do início e terminar com a bombinha depois.
Entre a cama e o sofá, eu optei pelo sofá. Assim poderia assistir minha novela em paz; a vantagem de ter Clarice em meu colo era a certeza de que não estava fazendo merda no outro canto do apartamento… talvez eu devesse realmente incluir a minha petite peste nessas sessões.
– Não é para fazer meu seio de pepeta, entendeu mocinha?
– Chá comigo, maman!
Normalmente Clarice quem abocanha meu seio, dessa vez eu o levei até a sua boca para tentar a pega certa. Como era de se esperar de um bebê guloso amante de peitos, ela soube fazer a pega correta logo de primeira. Quase uma profissional em mamadas.
Fazia tempo que eu não tinha tempo para sentar no sofá e assistir uma novela ou que podia sentar e aproveitar o silêncio e paz sem medo de que alguém estivesse ateando fogo em si mesma ou promovendo o caos. Será esse o segredo para um momento de sossego; colocar Clarice para mamar? Se for, esse é mais um motivo para ter leite logo!
Diferente do que eu esperava, as sugadas em meu seio não perderam a intensidade ou ritmo. Os olhos da Clarice – hoje verdes – estavam bem abertos e acordados enquanto ela mamava e desenhava em seu tablet como se fosse a coisa mais natural do mundo.
Entretida com a minha novela eu nem vi o tempo passar, Clara monitorou os trinta minutos muito melhor que eu e pediu para trocar o lado sozinha. Pelo visto, induzir a lactação era um assunto muito sério para a minha pequena que faz piada e brinca de tudo… prioridades, não é mesmo?
– Pronto, maman! Uma hora, – ela comentou bem no momento mais interessante da novela e quase a coloquei para mamar de novo e ficar em silêncio.
– Oui, ma vie. Très bien – respondi sem dar muita atenção, apenas para encerrar o papo e continuar minha novela em paz.
– Quando será a próxima sessão?
– Que?! – D’accord. Dessa vez não deu para ignorar. Fui obrigada a parar a novela para a encarar. – Você não se cansou?
– Não.
A encarei preocupada… será que eu subestimei a Clara? Eu não me candidatei para ter alguém pendurada no meu seio 24/7. Limites.
– Em duas ou quatro horas.
– “Dácor” – ela imitou meu “d’accord” de um jeito fofo. – Eu vou tirar um cochilinho de duas horas e depois a gente volta para mais uma sessão, – ela disse se ajeitando no sofá para deitar com a cabeça em meu ombro e sua mãozinha possessiva em meu seio. – Me acorda em duas horas, hein!
Dito isso, a criatura dormiu. O sono mais rápido da história.
Pouco antes de duas horas depois eu decidi pedir um almoço para nós. Por mais que Clarice tenha comentado que estava com saudades da minha comida, eu tinha o total de zero disposição para lidar com isso hoje. Vou compensar a minha namorada em outro momento nessa semana.
– Ma – Clara resmungou sonolenta contra a minha pele, – já deu duas horas?
Faltavam alguns minutos, mas já percebi que fazer a petite peste esperar iria me dar mais dor de cabeça.
– Oui, ma vie. Deita direito.
– Esse é o melhor trabalho do mundo, – ela sorriu meio dormindo meio acordada.
Sem reclamar – o que é raro nesse estado de sonolência, – Clara se ajeitou no meu colo para ficar à altura do seio e voltou ao seu “árduo” trabalho de estimular o meu peito.
– Até quando a gente vai fazer isso, maman?
– A gente?
– Uhum. Eu quero ajudar!
– Sei… “ajudar”. Você está se aproveitando da situação.
Ela sorriu amarelo revelando suas reais intenções. – Tetê, maman!
– Olha só, ainda quer demandar algo…
Sem mais delongas, eu abaixei a alça do meu pijama – sim, estávamos de pijamas – e deixei Clarice ser feliz. Ela ao menos parecia estar no paraíso sendo minha “ajudante” nessa missão.
O que era para ser só trinta minutos quase virou outra hora e só não aconteceu porque fomos interrompidas com a chegada do nosso almoço.
– Hmmm, que cheiro de fome! O que tem para comer?
– Comida mineira: feijão tropeiro, arroz, couve refogada, costela assada, aipim frito. E a senhora irá comer tudo.
– Tá bom!
Sua felicidade em comer foi até suspeita. Desde quinta-feira eu estou preocupada com essa garota que não estava comendo. Esse foi um dos principais motivos que me fizeram atravessar o oceano às pressas com medo de que iria sofrer como na maioria dos relatos que ouvi no Apex sobre pequenos e sua difícil alimentação. Foi o timing perfeito, acredito eu. Foram poucos dias sem se alimentar direito e ela estava um pouco mais magra do que quando viajei.
Toda essa preocupação e, por fim, faltou a Clarice comer o meu prato de porcelana de Limoges.
– Coma devagar, ma vie. Você vai se engasgar.
– Foi mal.
Ela sorriu e voltou a comer mais devagar. A observei por um momento enquanto minha mente processava as milhares de perguntas.
– Por que você não estava comendo?
– Ah… as circunstâncias me fizeram perder o apetite.
– Por causa do que aconteceu? Na Claudia… e no julgamento.
– Por estar com medo de que você fosse me deixar… principalmente depois do que aconteceu… eu vi o vídeo e as fotos que recebeu. São provas o suficiente para suspeitar e não acreditar em mim.
Eu precisei dar um gole no meu Chardonnay para mandar goela abaixo a raiva que estava subindo pela garganta ao lembrar da ocasião.
– De fato são…, – respondi após um momento, – mas a Claudia também foi burra. Antes de me enviar o vídeo e as fotos ela me ligou em uma videochamada. Então eu sabia que estava passando mal e o que estava acontecendo na verdade era aquela diaba lactante se aproveitando da sua vulnerabilidade… o que eu não entendo é; por que não atendeu as minhas ligações? Eu sei o exato horário que entrou no Apex e eu estava te ligando antes disso.
– É que… – Clara desviou o olhar e abaixou a cabeça, – eu sabia… sabia que iria regredir no momento que ouvisse a sua voz e… eu estava dirigindo. O Apex era o lugar mais próximo e seguro.
– Bem, se tivesse me atendido eu teria mandado parar onde estava e enviado alguém para te socorrer. Não teria se colocado em risco dirigindo naquele estado.
– Mas eu também não quero ser um problema para os seus amigos, nem incomodar ninguém.
– Você nunca será problema ou incomodo para ninguém, ma vie. Eu pago o Yago muito bem para me socorrer em situações como essa. Ou você acha que não tenho crises fora de casa? Tem um tempo considerável que isso não acontece, mas até você já me trouxe para casa uma vez… se lembra disso? – Clara assentiu. – Pois é, meu amor, está tudo bem pedir ajuda quando precisar…, mas eu ficarei mais feliz se pedir ajuda para mim que sou sua namorada e maman ao invés de ir com uma loira desgraçada.
– Me desculpa…
– Nós ainda vamos ter uma conversa séria a respeito disso. Mas antes termine de comer, ainda tem cookies de sobremesa.
– Você fez?! – Clara perguntou empolgada.
– Não, – respondi seca. – A Gisele fez… dessa vez eu pedi para replicar a exata receita que você gosta… aliás, o que você tem com loiras? É sempre uma para me tirar o sério.
– Nada. A Gisele é loira? Eu não a conheço… você fez um excelente trabalho para evitar o nosso encontro.
Tomei um gole do meu vinho encarando Clarice com ódio. – Eu fiz? Você realmente acha que eu preciso de todo esse esforço? Eu já te tinha nas mãos antes mesmo dessa história dos cookies, ou você não se lembra que estava doida para me beijar naquele carro?
– Como pode ter tanta certeza disso?
– Porque eu também quis.
E o jantar aquela noite poderia ser muito mais que espaguete a carbonara… o autocontrole que tive para não levar Clarice direto para a minha cama foi surreal. E pensar nisso agora, faz parecer que foi outro livro.
– Querer te beijar e casar com a pessoa que fez os melhores cookies são duas coisas diferentes.
– Ah, oui… e agora vai dizer que ainda casaria com ela por causa dos cookies? Depois de todo esse tempo?
– Sim! Eu me casaria! São os melhores cookies.
O vinho ficou amargo na minha boca e fui obrigada a deixar de lado. Ainda estava em dúvidas se deveria dar um tapa na cara de Clarice ou a jogar nas mãos daquela velha insuportável. E enquanto me decidia, a petite peste continuou.
– Eu menti para você.
– Mentiu? Então você não casaria…
– Não. Isso não. Eu definitivamente me casaria com quem faz os melhores cookies da vida… você não tem noção do quanto eles são deliciosos! E ela nem precisaria fazer todos os dias, eu já seria feliz em comer de vez em quando…
Okay… d’accord. Se Claudia não foi o pivot da nossa separação, Gisele será.
Vou levar essa pestinha para conhecer sua “futura esposa” e a deixar por lá. Ela irá adorar saber que terá a mesma idade que os netos da sua nova mulher. Essa filha da…
– … eu me casaria ainda hoje, – foi a única parte que ouvi das asneiras que Clarice me dizia.
– Ah oui, excellent! Très bien, Clarice. Très bien. Alors, vamos agora mesmo…
– Valkyrie, – Clarice me chamou pelo nome, o meu verdadeiro nome, e conseguiu mais três segundos da minha atenção; – Eu menti quando disse que os da Gisele são melhores que os seus. Os seus cookies sempre foram muito melhores desde a primeira mordida.
– Quoi?! Pourquoi?
– Eu estava furiosa com você. Você me rejeitou e descartou de uma forma muito babaca, admitir que era melhor seria muito humilhante, então eu guardei essa informação para mim. Ainda mais que eu havia prometido um beijo no rosto, aperto de mão e um abraço. Eu não iria dar nada disso para você naquela época.
– Você… você… putain, Clarice! Eu sei que fui péssima com você e me arrependo amargamente por isso… e eu tinha feito os cookies justamente para ter sua atenção para conseguir me desculpar e tentar te convencer a me dar uma segunda chance.
– Na época eu não te conhecia o suficiente para saber que você me fazer os cookies significava muito mais. Na minha cabeça, você só daria ombros e vida que segue…
– Non! Certainement pas! (Não! Definitivamente não!). Eu passei noites em claro tentando entender onde errei na minha receita e superar aquela puta… para mim, falhar com os cookies era o mesmo que perder você e eu não queria aceitar essa derrota. Na verdade, eu nunca aceitei, eu só achei que você fosse eventualmente esquecer que disse que casaria com quem fizesse a melhor receita… mon dieu! J’ai fait la meilleure recette! (Meu deus! Eu fiz a melhor receita!)
– Desculpa, eu vacilei. Perdão. Mas minha palavra ainda está de pé e eu definitivamente me casaria com você. Não só pelos cookies… seus peitos também, – revirei os olhos e Clara riu. – Brincadeiras à parte, tirando os cookies e os seus peitos, ainda tenho uma enorme lista de motivos pelo qual me casaria facilmente com você.
– Você só tem 22 anos.
– E daí? A Camile tem a mesma idade que eu e já é casada… e mãe.
– Camile? Quem é… oh! A crente que eu mandei não se aproximar.
O olhar de Clarice mudou por uma fração de segundo. O suficiente para acionar meus alertas.
Eu posso ter sido lenta para cair a ficha de que Clara estava falando sobre se casar comigo, mas meu radar para identificar certa pequena fazendo merda era muito, muito, muito melhor.
– Você foi para a casa dessa garota, não foi?
Clara balbuciou algumas palavras sem de fato formar uma frase ou me responder.
– Incroyable, Clarice! Eu te dei uma ordem. Uma única ordem. Por que você me desobedeceu?!
– Porque eu não queria que pensasse que pode mandar em mim ou que sou a sua submissa.
A encarei completamente abismada e sem reação. Incroyable… incroyable!
– Bien sûr (claro), ma vie, você conseguiu provar o seu ponto. Bravo! Você está feliz agora?
– Não…
– O que aconteceu naquela casa? O que você comeu que te fez passar mal?
– Então… – Clara coçou a nuca e evitou olhar meus olhos. Conhecendo a peça, já me preparei para passar raiva.
– Clarice.
– A tia Lúcia estava lá, – ela confessou. – Ela ainda não desistiu de “salvar a minha alma”.
– Por que eu não estou surpresa? Clarice, eu avisei para você não ir na casa dessa garota. E não, não estava tentando mandar em você ou sei lá o que pensou, eu só sabia que esse tipo de pessoa não se deve confiar. Eu estava tentando te proteger… isso poderia ter acabado muito mal. Putain! Você tem noção do risco que se meteu?
Clarice fez bico exibindo seu lado pequeno que era o suprassumo da fofura e me quebrou. Como ficar furiosa quando ela faz uma cara fofa dessas? Eu não tenho coração de pedra.
– Me desculpa, maman…
– Não é do seu lado pequeno que eu quero ouvir isso, Clarice.
O que irá adiantar conversar com Clarice no pequeno espaço? Ela irá concordar com qualquer coisa que eu disser, chorar, pedir desculpas e depois peito. Quando acordar e estiver grande outra vez, qualquer coisa acordada terá ido por água baixo.
– Você… me odeia? – Clara perguntou genuinamente preocupada.
Eu sorri balançando a cabeça e lhe dei um beijo na testa. – Jamais (nunca), ma vie. Je t’aime.
– Eu também te amo…. um montão.
– Sabe, você pode provar que me ama um montão terminando de comer o que está no seu prato.
– Ah, tá bom, maman! Eu como tudinho!
– Très bien, mon bébé (muito bem, meu bebê).
Queria eu que a Clarice grande fosse tão fácil de lidar como a sua versão pequena…
Depois do almoço, Clarice ficou responsável por colocar a louça na lava-louça e limpar qualquer bagunça. Normalmente fazemos isso juntas, mas esse era o seu castigo. Enquanto isso, eu fui fazer uma sessão de yoga para alinhar os chakras e buscar minha paz interior. Lidar com Clarice é um desafio e tanto, tudo é 8 ou 80 e em ritmo acelerado.
Eu mal pude digerir o que disse sobre se casar comigo e recebi a notícia que essa pestinha me desobedeceu na única ordem explicita que lhe dei se colocando em risco… tudo isso para provar um ponto bobo.
Se ela não quer se submeter a mim, ótimo, use suas palavras. Podemos lidar com qualquer questão com diálogo simples e direto. Agora, o que Clarice fez me pareceu mais uma pequena brat querendo ser punida. E por deus, como eu gostaria de dar uma boa punição a essa petite peste.
Estava fazendo a pose do cachorro estendida quando Clarice se aproximou.
– Uau… se eu soubesse que yoga proporcionava vistas como essa, eu teria começado a acordar cedo com você todos os dias.
Revirei os olhos, mas não desfiz da posição.
Clarice puxou uma cadeira para se sentar sem um pingo de vergonha na cara.
– Sabe, vendo você assim… me fez perceber que eu ainda não tive o prazer de te comer de quatro com um dildo.
Okay… ela definitivamente está fora do pequeno espaço.
– Posso saber de onde veio isso? Assim tão de repente.
– É tem como pensar em outra coisa com você com a bunda empinada para o alto? Está em uma posição perfeita para eu enfiar a cara entre su…
– D’accord, d’accord – a interrompi e me coloquei de pé. – Pode parar por aí. Você não vai conseguir nada por aqui, dona Clarice. Eu estou puta com você.
– Eu te contei…
– Contou.
Cruzei os braços de baixo dos seios para conter a minha vontade de dar boas palmadas no bumbum dessa garota para aprender sua lição. Era impressão minha ou sua versão grande pretendia manter segredo? Sorte a dela que seu lado pequeno além de tudo era bastante fofoqueiro, caso contrário, se eu descobrisse por conta própria seria muito, muito pior.
– Eu vacilei, foi mal.
– É isso que você tem para me dizer? “Vacilei, foi mal”?
Essa mania de Clarice de não levar a sério quase nada me dava nos nervos. Será que ela não se deu conta do grau da gravidade do que aconteceu? Aquela mulher é louca e completamente insana. Para lhe fazer um mal ainda pior era um estalar de dedos e piscar de olhos.
– Você estava certa, eu não deveria ter ido lá.
– Você teve sorte, Clarice.
– Eu sei…, eu na hora quis desistir, mas a Camile já tinha me visto e não deu para voltar atrás. Eu quis.
– Ainda não acredito que você só foi nesse lugar para me contrariar. Se colocou em risco, foi parar na casa da puta lactante, nos colocou em uma situação complicada. O resultado disso poderia ser pior. Muito pior.
– Eu sei…
– E sabe o que conseguiu provar com isso?
– Que eu sou uma idiota bobona?
– Também. Uma idiota bobona que sem supervisão é inconsequente e com zero noção do perigo.
Clarice fez uma careta. – Isso significa que você agora vai querer mandar em mim grande também?
– Deveria, mas não.
– Espera aí… está dizendo que não vai querer controlar a minha vida? Você? Valquíria, você se implicou com os meus pijamas. E não satisfeita, foi lá e comprou outros.
– E não são melhores? Você não dorme melhor com eles?
– Sim…
– Exactement (exatamente). Você também estaria muito melhor se tivesse me obedecido e não ido a casa daquela garota.
– É, você tem razão, mas… eu tenho medo, Valquíria – a encarei confusa. – É sempre assim, começa com uma coisa pequena aqui e ali e de repente tenho ao meu lado uma namorada neurótica tentando controlar cada passo meu e me impedindo de viver. Eu não quero chegar a esse ponto. Eu não quero ter uma briga todas as vezes que quiser sair com meus amigos ou porque eu não fiz algo que queria. Não quero alguém me proibindo de fazer e usar o que eu gosto. Não quero me sentir sufocada e muito menos vigiada a todo instante.
Sua fala me pareceu de quem comentava por experiência. Seja lá qual das putas das ex’s da Clara que fizeram isso com ela, eu já odeio… um pouco mais do que já odiava antes.
– Você se sente vigiada?
– Não.
– Mas eu consigo descobrir onde está a qualquer momento.
– Eu sei. Sei que pode me rastrear pelo relógio, pelo celular ou quando uso o seu carro, mas você não usa isso para jogar na minha cara ou reclamar de onde fui ou deixei de ir. E depois do reencontro com a ti… com a Lúcia me dei conta que eu me sinto mais segura sabendo que tem alguém que sabe onde estou e de alguma forma sabia que eu estava em perigo antes mesmo que eu falasse algo.
– Bem, eu não sabia que estava correndo esse risco. Sabia que estava em stress e uma possível crise de asma. Seu relógio monitora seus sinais vitais e se o seu coração dispara, ele manda notificações perguntando se está bem ou se precisa de ajuda. Eu mandei mensagem e te liguei porque eu também queria saber se estava bem ou precisava de alguma ajuda. E de fato, precisava.
Clarice encolheu os ombros e colocou um pé sobre a cadeira abraçando seu próprio joelho. – Eu fui realmente muito idiota, não fui? Me desculpa… de verdade.
– Deveria pedir desculpas a si mesma, não para mim.
– Mas eu fui contra você.
– Eu sei, e te desculpei na primeira vez que pediu.
– Ah… pensei que estivesse puta comigo.
– E eu estou, mais pelo fato de que poderíamos ter um momento de paz juntas, matar as saudades, transar, mas não, por causa da sua rebeldia sem causa, temos que lidar com isso.
– A gente ainda pode transar…
– Non, Clarice – a interrompi. – Nós vamos conversar. Mas não aqui e não assim, vai dar ração para o Chloée e me espera na sala.
Eu não queria que essa conversa fosse comigo em pé enquanto Clarice estava sentada. Conversas sérias como essa precisam ser na mesma altura, olho no olho, sem que nenhuma das partes se sinta em uma posição inferior, o que não é o nosso caso. E também não é a mensagem que quero passar.
E também tinha o “fator Clarice”. Ela não iria levar muito a sério enquanto eu estivesse com roupas justas e barriga de fora. E eu não quero ouvir nenhuma de suas cantadas de péssimo gosto por agora.
Meu banho foi rápido. Em pouco mais de dez minutos estava na sala e encontrei Clarice me esperando sentada no sofá distraída apertando o próprio punho.
– Está doendo? – Perguntei.
– Sim. Eu me empolguei pintando o seu quadro.
– Onde está a tala que deveria estar usando?
– No quarto.
– Eu já volto.
Fui no quarto buscar a tala e também um óleo que costumo usar para dores musculares e voltei para sala. Me sentei no sofá ao lado de Clara e de frente para ela.
– Me dá a sua mão.
– O que vai fazer? Vai doer?
– Não vai, confia em mim.
Massagem na mão é uma dádiva que aprendi em uma viagem na Ásia e você nunca sabe que precisa de uma até receber.
– Isso é bom, – Clarice comentou depois de alguns minutos em silêncio recebendo a massagem.
– Eu sei.
Massageando sua mão e a olhando bem de perto, notei uma cicatriz pequena, quase imperceptível. Nesse momento me lembrei do julgamento e senti um nó em meu estômago. Quem observa Clarice e seu jeito brincalhão não é capaz de imaginar todos os absurdos e abusos que vivenciou no passado. Ela pode ser pequena e parecer frágil, mas a verdade é que é uma mulher muito, muito forte por aguentar tudo isso e ainda – mesmo que aos trancos e barrancos – se manter de pé. E eu a admiro por isso.
Minha bebê é muito forte e corajosa, isso nós já sabemos. Mas agora eu prefiro que não precise ser assim. De agora em diante eu quero que a ma petite seja apenas o bebê fofo e a garota inteligente e talentosa que é. Nada de forte, guerreira ou qualquer outro adjetivo que dão a pessoas que são submetidas a uma situação de dor e sofrimento, mas não podem se render e precisam seguir como se não estivesse acontecendo.
– Você nunca comentou sobre sua cirurgia na mão.
– Ah, é que eu esqueço dela. Eu era uma muito nova e justamente por isso minha recuperação foi quase 100%.
– Quase?
– Às vezes, se eu abusar muito, dói. Não é uma dor forte, mas dá agonia.
Quatorze anos foi pouco, aquele verme merece mais… e vai receber. Não me orgulho dos meios escolhidos – e necessários – para fazer essa “correção”, mas essas são as regras do jogo. E sinceramente? Eu não me arrependo. O advogado do traste entrou com recursos para recorrer a decisão do juiz e irá encontrar uma sentença pior. Uma sentença merecida, mas que me custou um dinheiro muito bem gasto para garantir a mais severa de todas.
– Você está muito pensativa, isso está me deixando preocupada… nós não vamos terminar nessa conversa, vamos? Eu sei que eu disse que não quero uma namorada neurótica que me sufoque, mas eu não falei isso como se você fosse uma. Eu me sinto bem com você e essa é a primeira vez que estou em um relacionamento tranquilo, mesmo a minha vida sendo um caos nos últimos tempos… esse caos é tudo, menos você. E eu não quero perder isso.
– Ma vie, nós não vamos terminar. Pelo menos eu não tenho intenção alguma de terminar o nosso relacionamento, você tem? – Ela balançou a cabeça rapidamente. – Ótimo, um item a menos na lista de assuntos para conversar.
– Assim tão fácil?
– E precisa ser difícil?
Clarice me encarou reflexiva e negou com a cabeça.
– Clarice, mon amour, a namorada neurótica e provavelmente sociopata que você descreveu não sou eu. Eu sei que tenho sérios problemas em lidar com respostas negativas e tendo a querer tudo do meu jeito, também não gosto de ser contrariada, e pode ser que eu manipule tudo e todos para ter o que eu quero por ser uma mimada, é eu estou ciente dos meus defeitos, mas, ainda assim, eu também sei respeitar limites. Então, se você me disser “não” … ou melhor, “coentro” ou qualquer outra palavra que decidirmos, eu vou parar e te respeitar. Mas eu prefiro que seja outra coisa que não seja “não” porque se disser “não” a respeito da sua salada ou remédios, eu vou ignorar solenemente, nem tente.
– Então se eu tivesse dito “coentro” naquele dia você iria deixar eu ir na casa da Camile?
– Nem fodendo, Clarice. Eu também não sou idiota. A casa dessa sem-serviço estava e ainda é fora de cogitação. Mas, se eu me recordo bem, eu disse que poderia a encontrar em uma cafeteria ou qualquer outro lugar público que não fosse a casa dela. Em nenhum momento te proibi de encontrar com a tal Camile… apesar de querer. Eu não vejo razão para ter contato com pessoas que praticam uma fé que abomina a sua existência. Você não é Jesus para querer sentar à mesa com quem irá te entregar aos inimigos.
– Você realmente odeia crentes…
– Eu pratico a lei da reciprocidade. Se você abomina a minha existência, eu também irei abominar a sua. E no meu caso, muito antes de me envolver com uma mulher, já diziam que nasci com autismo por ser fruto do pecado ou por ser pecadora mesmo sendo uma criança, já oraram para deus me curar e vários outros absurdos para justificar ou condenar o autismo. Então, se para eles eu sou um erro ou uma punição de um pecado, considero a existência deles também um erro e uma punição de um pecado pelo qual estamos pagando.
– Eu não sabia disso… sinto muito por isso.
– Não sinta, é passado e já me custou alguns anos de terapia, hoje não gasto minha energia e tempo com isso. Enfim, não quero perder o nosso tempo falando dessa Camile e os outros crentes. O que aconteceu, aconteceu e não podemos mudar o passado.
– Me desculpa.
– Se você pedir desculpa mais uma vez, eu vou te colocar de joelhos e te dar chibatadas por todas as vezes que já disse isso hoje. Você já se desculpou uma vez, Clarice. Eu não preciso de mais desculpas. O que eu quero é que você me ouça quando disser para não ir a um lugar… e não, eu não estou tentando controlar a sua vida para satisfazer meu próprio ego ou para me tornar o centro do seu mundo. Estou tentando te cuidar e proteger.
Clara me observou em silêncio enquanto eu colocava a tala em seu punho.
– Eu não quero ser passiva, – levantei o olhar confusa.
– Pardon?
– Você é uma domme. Se eu te der espaço, vai querer me fazer de sua boneca para brincar como quiser e eu não quero ser uma passiva. Eu me sinto mais confortável no outro papel.
Mordi o lábio inferior para segurar a vontade de sorrir com os milhares de pensamentos que surgiram numa fração de segundo.
– É isso que você tem medo?
– Eu já vi coisas demais no Apex… não sexual ou explicita, apenas a dinâmica de poder e por mais que aquele dia no escritório foi uma experiência interessante, essa não sou eu… ao menos não sempre.
– E você está com receio que eu como sua domme vá te colocar de joelhos sempre? – Clarice não respondeu, mas não era necessário. – Mon amour, eu não preciso te colocar de joelhos para ter domínio sobre você. Eu de quatro e algemada te dominaria do mesmo jeito.
– Nós bem que podíamos testar isso, eu não iria reclamar – ela sorriu.
– Clarice. Foco.
Ela revirou os olhos. – Sabe que é muito difícil manter o “foco” quando fala uma coisa dessas, não sabe? Eu tenho mente fértil e não posso controlar a minha imaginação.
– Eu vou dar um jeito de controlar essa sua imaginação rapidinho, – o sorriso de Clarice sumiu no mesmo instante. E por fim eu nem precisei fazer nada para “controlar sua imaginação”. – Vamos fazer um acordo.
Clarice me encarou desconfiada. – Hm, diz.
– Eu serei sua maman dentro e fora do pequeno espaço até dia 31 de dezembro. E se você não gostar, terá até às 23:59 para rescindir o nosso acordo.
– E o que vai acontecer se eu não quebrar nosso acordo?
– Vou entender que você não tem objeções e o acordo será prolongado até que uma das partes deseje parar.
– E se eu quebrar nosso acordo antes disso?
– Voltamos para o que somos agora. Serei sua maman enquanto estiver pequena e precisar de mim.
– Você não vai ficar brava e terminar comigo se eu quebrar o acordo, vai?
– Você tem a minha palavra.
– Okay… podemos tentar…, mas é um teste! E só porque depois de tudo que aconteceu, eu acho que devo te dar um crédito. Você estava certa e eu fui uma idiota.
– Se esse é o seu motivo, então é melhor pararmos por aqui – ela me encarou confusa e surpresa. – Mon amour, eu não estou te obrigando a aceitar. Se está aceitando por sentir na obrigação, já estará errado do início. E você não precisa me responder agora, pense um pouco e…
– Eu quero, – Clara me interrompeu. – Eu aceitei porque eu quero aceitar. Sem forçação de barra.
– Alors, sendo assim, temos um acordo.
Clara esfregou as próprias pernas nervosa. – E agora? O que acontece agora? Como isso começa?
Existem várias possibilidades, mas no momento só uma passava pela minha mente. E embora eu tenha dito – para mim mesma – que iria esperar com “punição” pela rebeldia de Clara, por causa do nosso acordo, eu decidir abrir uma exceção.
– Vamos começar transando.
– Espera, é o que? Hã? Que?!
– É exatamente o que você ouviu, Clarice. Levanta, vamos para o quarto.
Deixei Clarice ainda sem reação no sofá e me levantei. A nossa tarde que deveria ser cheio de mimos e fofura, agora teria um rumo bem diferente… e isso não é uma reclamação. Eu pensava que ao chegar aqui teria que lidar com a minha pequena primeiro, mas pelo visto, seu lado grande que necessitava de mais da minha atenção.
E se é assim, está na hora de cuidar da minha bem grandinha Clarice.
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