Elora Aneva

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38. Appel Vidéo

« C L A R I C E »

Quando era mais nova, eu costumava acreditar que o amor verdadeiro era aquele que estava exposto em todos os cantos. Em forma de flores, declarações públicas, presentes e gestos grandiosos. Ele sempre estava ali, para que todos pudessem ver e invejar. No entanto, quando me tornei um pouco mais velha e passei a me envolver com mulheres casadas, vivendo o seu casamento perfeito e família de comercial de margarina, percebi que a realidade não era bem assim. Elas faziam e recebiam tudo isso e ainda assim, quando ninguém estava por perto, elas estavam comigo.

Não, eu também não acho que nenhuma delas tenham me amado de fato. Ao menos hoje eu consigo perceber isso. Existe uma diferença gritante quando seu sentimento é recíproco. Quando se ama e é amado de volta na mesma intensidade ou mais. Você não precisa de ganhar flores, receber declarações públicas, presentes ou gestos grandiosos para sentir isso. Quando se tem amor de verdade, ele está presente nos pequenos detalhes. Detalhes esse que muitas vezes passam por despercebido, mas estão ali dizendo “eu te amo”.

Assim como as outras – e por motivos bem diferentes, – a Valquíria não me assumiu para o mundo oficialmente. Não vai postar uma foto nossa em suas redes sociais e tampouco falamos sobre usar alianças ou qualquer coisa que torne o nosso relacionamento mais “visível” para os outros. Ainda assim, eu não me sinto insegura, menos ainda desconfiada com a possibilidade de ser “a outra”. Tampouco me sinto sendo usada.

Seu amor por mim é bem real e tangível. Tão presente nos pequenos detalhes que me cercam que era simplesmente impossível não sentir e notar esse amor. E eu que estava com medo que a distância fosse mudar isso, percebi logo na primeira hora que era amor demais para se deixar afetar por um oceano que nos afastava. Ela de um jeito ou de outro iria se fazer presente.

E fez… de alguma forma ela soube que eu não iria conseguir voltar para casa, ao menos não nas primeiras horas. Que eu, sendo dramática como sou, iria chorar até não restar água dentro do meu corpo no estacionamento do aeroporto antes de cogitar ir embora para chorar mais. E sabendo disso, ela mandou Bruno vir me buscar sem que eu mandasse uma única mensagem.

– Me enviaram aqui para resgatar uma pequena chorona, – Bruno disse ao abrir a porta do carro. – Garota… você está um desastre.

– Ela… ela foi embora.

– É, eu sei. Ela foi embora para bem longe, muito longe, mas vai voltar. Ela sempre volta. Não se preocupa não, a Valquíria tem uma cota de tempo que consegue ficar com sua família sem surtar. No pior dos cenários, no vigésimo terceiro dia ela volta, mas te garanto que será bem antes.

– Mas e a avó dela?

– Querida, você já viu a Hélène? Ou melhor, você sabe qual a idade da Margot? As Touchon não envelhecem. Eu aposto um milhão de reais que a Hélène irá se recuperar e na primeira ocasião irá dizer “et le mariage, Valkyrie? Quand vas-tu me donner des arrière-petits-enfants? Je ne veux pas mouris sans voir ma petite-fille se marier”, – Bruno imitou uma velha ao falar francês. – E aí a Kyrie vai se lembrar porque prefere ficar longe da Hélène e os chacras se alinharão mais uma vez.

– O que significa isso em português?

– “E o casamento, Valquíria? Quando você vai me dar bisnetos? Eu não quero morrer sem antes ver minha neta se casar”, – ele repetiu a imitação de uma velha falando.

Se eu já não estivesse vermelha de tanto chorar, ficaria vermelha de vergonha. Querendo ou não, o pedido da Hélène afeta diretamente a minha vida. Isso se a Val se casar comigo e querer filhos…, mas eu tendo filhos? Não me soa uma boa ideia.

– Fica tranquila, okay? Você não precisa se preocupar com isso… ao menos com a parte dos bisnetos. Você quer ir para casa agora ou prefere um abraço primeiro?

Sem pensar muito eu sai do carro e abracei o Bruno e foi como abraçar uma pedra. A maman pelo menos tinha os tetês para compensar pelas outras partes mais “durinhas”, já o Nuno não. Não era um abraço ruim, só não era da maman.

– Pode chorar, neném. Coloca para fora.

– Eu quero maman.

– Eu sei, mas por hora você vai precisar esperar um pouco.

– Eu não quero esperar, eu quero a minha maman agora. Traz ela de volta, Nuno!

– Acho que essa hora nem sua maman tem esse poder de fazer o avião dar a volta. Vamos para casa, se você dormir o tempo irá passar mais rápido e logo, logo vai poder falar com ela.

Parte de mim não queria ir embora. Na minha cabeça, ir para casa iria tornar a ausência da Val real. Agora parecia que ela só foi ali e logo irá voltar para mim, embora eu saiba que a realidade é bem diferente e a cada segundo estava cada vez mais distante. Essa dependência não deve ser saudável, eu não deveria me sentir assim. Não deveria.

Depois de muito chorar no abraço de pedra quentinha, eu aceitei meu lugar no banco do carona e Bruno nos levou para o seu apartamento. E chegando lá eu chorei mais. Olhar para porta da Val e entrar por outra me deixou mal, acabei deitada no sofá me acabando de chorar chamando pela a maman.

A dor da saudade era tanta que se tornou física. Um vazio no peito que latejava e crescia aos poucos me consumindo por inteiro. Eu queria falar com a maman e brigar com ela por ter me deixado. Eu estava triste e brava e carente e dodói, tudo misturado. Eu estava muito, muito, muito brava com a maman, mas nada que um colinho, um tetê e muitos beijinhos não resolvessem. Era só ela voltar…

Volta logo, maman!

« V A L K Y R I E »

O ar do inverno invadiu meus pulmões como uma faca gelada assim que atravessei as portas automáticas. Paris não era apenas cinza – era um turbilhão de sons estridentes, luzes fluorescentes e cheiros agressivos de gasolina, cigarro e perfume alheio. Os fones de ouvido com cancelamento de ruídos até tentaram abafar o caos que estava o aeroporto, mas não era o suficiente. Eu não estava em crise, longe disso. Mas esse voo certamente bagunçou a minha rotina e isso me causava um extremo desconforto e mau humor.

Em meio à multidão de pessoas desconhecidas, encontrei um rosto familiar segurando uma placa escrito “Valkyrie Touchon”. Não que fosse necessário ter meu nome ali, eu conhecia o Roméo. Trabalhava para a minha família desde os meus seis anos e tinha uma mecha de cabelo rebelde caída no meio da testa que nunca parava no lugar.

Enquanto ele carregava a minha mala até o carro, eu o segui esfregando os anéis em meus dedos, repetindo o movimento ritmado que sempre me acalmava: um, dois, três, uma volta completa… um, dois três, duas voltas completas.

Vamos direto para o hospital, mademoiselle? – Roméo perguntou ao abrir a porta do carro.

A pergunta flutuou no ar por alguns segundos até meu cérebro decifrá-la. Balancei a cabeça em um movimento curto e mecânico enquanto ainda focava nos movimentos dos meus dedos, mas Roméo não se moveu. Ah, certo. Resposta verbal.

Não, – forcei a palavra. – Casa… me leve para casa.

Eu precisava de um banho, com direito a shampoo e condicionador, roupas adequadas e um chá antes de ir ao hospital. Já se passaram 12h desde o meu último banho, para tudo na vida tem limites.

A mensagem que enviei para Clarice assim que o avião pousou ainda não havia sido lida. Levando em consideração que era pouco mais de 8h da manhã em São Paulo, ela provavelmente estaria dormindo. Para evitar a despertar, eu preferi ligar para Bruno. Ele tem uma estranha mania de conseguir dormir em qualquer lugar e ocasião, o despertar seria menos prejudicial.

– Bom dia, – Bruno atendeu em apenas três toques. Mania de médico plantonista responder rápido a qualquer chamada. Ele logo mudou para chamada de vídeo. – Ou devo dizer Bonjour para a gata me entender?

Revirei os olhos. Bruno nunca perde oportunidade de me provocar. – Bom dia, palhaço.

– Olha só, ela ainda sabe falar português. Como você está? Está conseguindo respirar?

– Esse voo conseguiu ser ainda pior que o habitual. Metade do meu cérebro ainda está em eterno processamento e mais um pouco eu vou colapsar outra vez, mas fora a isso, eu estou péssima e com saudades da minha pequena.

Ele riu. – Vocês sapatão são tão dramáticas. Sério, pela reação da Clarice parecia até que tínhamos acabado de te enterrar. Teve até febre.

– Como ela está? Clarice ainda está com você?

– Você nem disfarça que está me ligando só para saber da sua loira, – Ele revirou os olhos. – Mas respondendo a sua pergunta, – ele continuou, – ela está dormindo. Sob efeitos de sedativos, mas dormindo.

– Você sedou a minha namorada!?

– Antes que me julgue, o que fiz foi uma contenção de danos. Ela estava muito mal e abalada tadinha, eu precisava intervir. Foram algumas gotinhas, nada demais. Se quiser, depois te faço uma receita. Em casos extremos pode ser útil e ela respondeu bem.

– Claro que respondeu bem, ela dorme como pedra sem remédios. Sedada então, irá hibernar.

– Não me pareceu que ela fosse dormir sem remédios não. Essa garota realmente ama você para ficar tão só porque vai se ausentar temporariamente. Fiquei tão comovido que se ela tivesse os documentos necessários, eu teria pego o seu cartão e comprado passagens para Paris hoje mesmo para a levar até você.

– Você não perde uma oportunidade, não é mesmo?

– Se deus não me fizesse gay e você sapatão, eu certamente já seria a sua esposa troféu a essa altura.

– Não deveria ser marido?

– Eu combino mais com o papel de esposa, – Bruno mudou de ambiente e passou a sussurrar. – Não faça barulho.

Entendi o motivo logo em seguida. Ele estava me mostrando a minha pequena dormindo em um sono pesado. Seu rostinho estava um pouco inchado e a mandíbula tensionada, muito provavelmente irá acordar com dores de cabeça.

Aí que saudades da minha bebê.

– Quando ela acordar, eu te dou um toque. Ela vai ficar bem, fica tranquila. Mais tarde nós vamos dar um passeio, gastar o seu dinheiro. Rapidinho ela irá se animar.

– A Clarice não é como você.

– Deixa essa garota comigo, ela rapidinho irá aprender a magia de ter o seu cartão de crédito em mãos.

– Você quer me falir, isso sim.

– Então se esforce, gata. Alguém precisa bancar nossos luxos.

É irônico pensar que, justamente a pessoa que mais se aproveita do meu cartão de crédito, também é a minha amizade mais sincera de toda vida. Bruno se revoltou quando descobriu das pessoas que se aproveitavam da minha inocência – ou autismo – e passou ser o único a se aproveitar dos “benefícios”. E não que ele precise, ele é um puta neurocirurgião e tal qual o Julius tem dois empregos, para não dizer três.

Mas enfim, nossa conversa não durou muito. Eu estava cansada e minha rotina tinha sido completamente bagunçada com a mudança de fuso horário e esse voo. Ainda tinha um longo dia pela frente.

« C L A R I C E »

Dormi um sono tão profundo que quando acordei não fazia ideia de onde estava ou que horas eram, mas de imediato percebi que não estava na minha cam.. quer dizer, na cama da maman. O cheiro era totalmente diferente e nada parecido com o dela… e isso foi o suficiente para me fazer querer chorar.

Não foi necessário nem um minuto acordada para a saudade bater e bater forte.

Olhei ao redor e encontrei meu celular em cima da mesinha, ao lado tinha um copo de água e um saquinho com algumas pílulas de remédio. No bilhete escrito à mão, o Nuno deixou o recado para tomar ao acordar. Eram para dor de cabeça e febre. Bem, ele é médico… deve saber o que está dizendo. Se a maman confia nele, eu também confio.

E falar na maman, tinha algumas mensagens não lidas dela.

“Estou em Paris, mon bébé” seguido de uma figurinha de um gato com bigode e sobrancelha na frente da torre Eiffel escrito “Bonjour” e outra figurinha com outro gato “sorridente” com bigode, boina e um baguete na frente da mesma torre.

“Em Paris e com saudades” e mais gatinhos sofrendo.

Curiosamente, todas as figurinhas usadas tinham bigodes, boinas, croissant ou baguetes. Todos os usuais gatinhos com temática francesa. É difícil acreditar que a minha namorada – a própria Valkyrie Touchon – se deu o trabalho de editar várias imagens para fazer figurinha de gatos franceses. Parece um absurdo, mas ao mesmo tempo isso é tão Valquíria de ser.

As mensagens seguintes foram ordens do tipo “tome água”, “não esqueça o seu café da manhã”, “e o seu remédio, não esqueça o remédio”, “não deixe de pentear o cabelo do Chloée”, “quem está responsável pela ração do Chloée? Ela está seguindo os horários?”, “que saudades de você”.

Decidi ligar antes de responder todas as mensagens. Eu que sempre detestei chamada de vídeo, agora estava ansiosa para que Val finalmente me atendesse e eu pudesse ver a sua cara.

Ma vie… você ainda está com o rosto todo amassado. Acabou de acordar?

Sim. Acordei e meu primeiro pensamento foi você. Como foi a viagem? Você está bem? Já viu a sua avó? Ela está bem?

– Muitas perguntas. Calma…

– Desculpa. Acho que me empolguei te vendo.

– Percebi, bébé. Respondendo as suas perguntas: a viagem foi okay na medida do possível. Estou melhor agora falando com você. Sim, eu vi a mamie. Ela está em coma induzido e teve um leve declínio no quadro, mas extremamente preocupante. Estamos todos aflitos por aqui.

– Eu sinto muito por isso… eu queria poder te dar um abraço.

A Val fez uma carinha tristonha. – É exatamente o que precisava agora… enfim, nós vamos dar um jeito no seu passaporte essa semana. O Yago irá te acompanhar. Você também precisa ir ao médico essa semana de novo fazer outro exame de sangue.

– Eu tenho?!

– Oui, bébé. Precisamos saber como está a anemia para evitar outra internação ou evoluir para algo pior. Eu não quero mais uma pessoa que eu amo no hospital, então, por favor, tome seus remédios e se alimente bem.

– Eu vou. Eu prometo.

O rostinho tristonho da maman estava me deixando preocupada. Eu não quero ser mais um motivo para a deixar mal. Não mesmo. Eu vou comer todas as minhas saladinhas e coisas cheias de ferro para deixar a maman um pouquinho mais feliz.

– Eu não sei cozinhar, mas eu vou aprender e fazer um monte de papa saudável.

– Vai, meu amor? Eu quero ver isso – a maman deu um pequeno sorriso. – Mas se quiser, a Teresa pode fazer almoço para você lá em casa. É caminho do trabalho, você vai passar perto quando sair da faculdade. Você ainda não a conheceu, mas ela quem fez o seu bolo de brigadeiro quando saiu do hospital…

– Eu quero conhecer ela! E bolo de brigadeiro… por favorzinho?

– Tudo bem, ma vie. Eu peço para ela fazer um bolo de brigadeiro, mas limites e moderação. Você não vai almoçar bolo!

– E jantar?

– Clarice.

– Tá bom, tá bom. Eu vou me alimentar bem, eu prometi.

– Não pense que só porque estou longe não irá ficar de castigo, mocinha. Estou de olho em você.

A ligação ainda durou outros vinte minutos até a maman precisar desligar e meu estomago reclamar de fome. E mesmo não podendo falar por ligação, suas figurinhas de gatos franceses ainda estavam na ativa e sempre me respondia por mensagens. Por mais que ela não estivesse por perto fisicamente, estava sempre comigo. E se bobear, tinha mais a sua atenção agora.

Eu não estava com muito animo para fazer algo hoje, mas desde que o Bruno descobriu que eu estava com o cartão da Val, ele decidiu que tínhamos que sair. E quando digo sair, era sair com todo mundo. Bruno, Glória, Larissa, Theo, Chloée e eu. Uma força tarefa para me animar e tirar da foça que me encontrava com o patrocínio Valkyrie Touchon.

Confesso que estava muito desconfortável com a ideia. Avisei a Val para ela barrar o Bruno que é doido e sua resposta foi “se divirta”. E mesmo com o seu aval, eu me sentia estranha. Não quero que pense errado de mim. O que a Margot ou o Fernando vão achar quando descobrirem que ando por aí pagando “rolê” para os meus amigos com o dinheiro da filha deles? Isso é péssimo…, mas não estava na lista de preocupação do Bruno.

Acabamos indo em um bar karaokê na Liberdade, dessas de sala privada que mais parece que estamos em um país asiático que em São Paulo. Depois de algumas músicas e performances bizarras, eu acabei me divertindo um pouco e dando boas risadas. O Chloée adorou a atenção que recebeu e a farra.

Fim da noite, Theo deu uma carona para o Bruno para casa e eu voltei com as meninas para o apartamento. Ainda não sabia como a experiência de morar com Glória e Larissa, mas tinha certeza que seria uma excelente distração para a ausência do meu amorzinho.

Eu finalmente arrumei minhas coisas em casa. Deixei o meu quarto parcialmente decente, ainda iria precisar comprar e trocar alguns móveis e decorar, mas estava habitável. Chloée já tinha seu cantinho e era a parte mais fofa do cômodo. Queria dormir com ele, mas estava com medo de acostumar ele mal e depois a Val me colocar para dormir com o cachorro. Ou acabar o esmagando por ser pequeninho.

Acabou que eu acabei dormindo abraçada ao travesseiro – da Val – vestido com as roupas da própria Val. Tinha o cheirinho dela, era grandão – não tanto quanto, mas enfim – e macio. Tornou meu sono um pouco menos triste.

E bem, os dias sem o meu amorzinho era estranho. Acordar, não ter tetê, tomar café da manhã, ir para faculdade. Faculdade essa que eu já tinha me esquecido como era e deu uma segunda depressão e desespero, principalmente com a montanha de trabalhos que recebi para compensar o que perdi durante a internação.

No almoço, eu ia para o apartamento da Val e pela primeira vez vi pessoas trabalhando por lá. Pessoas muito simpáticas, devo dizer. O Yago, o gerente doméstico – quem é que precisa disso? Só a minha namorada, – era responsável por administrar tudo que a Val não tinha tempo. Você acha que a Val liga para agendar suas consultas? Ou se preocupa em renovar o contrato de algum serviço? Se preocupar com a escala da equipe de limpeza? Não, ela não faz nada disso. O Yago faz. Aparentemente, minha namorada só compra comida. Quando digo comida é literalmente comida, produtos de limpeza a lista é do Yago.

A Teresa era a chef de cozinha e responsável pela banoffe e a o bolo de brigadeiro que comi. Como a Val adora cozinhar no sigilo, a Teresa quase não estava por aqui e quando vinha era praticamente só para fazer “mise en place”. Sua maior rotina era na outra casa, onde estavam Margot e Fernando.

E sinceramente, conhecendo as pessoas que trabalhavam para a Val e a sua família, eu real cogitei enviar meu currículo e pedir um emprego. Basicamente escala de deputado, salário muito melhor os do escritório e chefes que quase nunca estão por perto. Existe coisa melhor que isso?

Assim, eu amo a minha chefe, amo de verdade. Eu casaria com a minha chefe. Mas puta que pariu… que mulher chata! Fiquei mais de um mês longe do escritório e tinha me esquecido como a Valquíria consegue ser chata quando quer. E não sei, eu tenho a sensação que talvez ela tenha se desabituado em trabalhar comigo e agora que está longe continua no seu modus operandi de insuportável. Porque, sinceramente, ela costumava ser mais legal.

– Está tudo mundo te culpando por isso, está ciente disso, né? – O Theo comentou. Estávamos tomando um ar fresco no heliponto, fugindo do trabalho por cinco minutos. – Eles acham que vocês duas “terminaram” naquele vídeo e por isso a Val está assim. Bom, pelo menos a nossa equipe acha isso. Os demais eu não sei… eles não sentem muito essa mudança de humor já que não trabalham diretamente com ela.

– Mas a gente não terminou. E eu não tenho culpa se a avó dela está mal.

– Tem alguma novidade sobre ela?

– Zero. A dona Hélène não melhorou nadinha, mas também não piorou. Eu estou com saudades da versão legal da minha Val, mas tenho medo que sua volta signifique que algo ruim aconteceu. Então não sei… não sei quando vou ver a minha namorada.

– As chances de ela voltar antes da audiência…?

– A audiência é sexta-feira. Hoje já sabemos que ela não vem. Já são quase 21h por lá, se fosse para vir hoje ela já deveria estar no avião. Ou seja, ela tem só amanhã para voltar e não acho que irá acontecer.

– E como você está? O Luís estará por lá.

– Faz o que, né? Sozinha não vou estar. A Val e seus exageros contratou três advogados. O Bruno disse que deixou a agenda livre para me acompanhar porque ele jura que o Luís será preso e quer ver barraco. Meu medo é se eu for presa.

– Até parece… você é inocente. Inocente e com pessoas bastante influentes e poderosas por trás. O Luís irá se arrepender dessa jogada dele, é um tiro que saiu pela culatra.

Depois que a Giovana comentou casualmente que tem um desembargador acompanhando meu caso, eu passei a desconfiar que mesmo que fosse culpada nessa história, de alguma forma seria inocentada. Um pouco bizarro pensar sobre isso, então não penso.

– Enfim, está afim de fazer algo amanhã ou sexta? Estava pensando em ir ao cinema.

– Não sei, o pessoal da minha turma estava querendo sair na sexta ou no sábado celebrar o aniversário de um deles. E amanhã a Camile me convidou para ir na casa dela.

– Camile? Está falando da Camile que morava na nossa rua?

– Sim. Eu fui naquela gráfica de Santo Amaro fazer umas coisas da faculdade e encontrei ela lá. Acredita que ela está grávida? Eu morro de medo de engravidar na adolescência e ela está lá feliz com a barriga dela.

– Você? Medo de engravidar? Clarice você é sapatão. Quem é que vai te engravidar? A Valquíria?

– Olha, pensando por esse lado… se a Val me engravidasse eu não iria reclamar. Imagina um filho daquela mulher? Acho que estou pronta.

Theo riu. – Você saiu de gravidez na adolescência para me engravide muito rápido.

– Você não quer filhos, Theo?

– Quem sabe um dia? Por agora eu estou tranquilo. Enfim, você vai na casa da Camile?

– Sim. E estava pensando em comprar umas roupinhas para dar de presente para o bebezinho dela. Vai fazer alguma coisa depois daqui? Quer ir comigo?

– Só se você aceitar ir numa lojinha comigo comprar umas camisas. Preciso de looks novos.

– Nossa, por um momento você soou como o Bruno. Faltou pedir para usar o cartão da Val.

– Não, – ele riu. – Adoraria, mas não chegamos nesse nível ainda. Vamos descer? Acho que já deu nossos cinco minutos.

Voltamos para o trabalho e quase ninguém percebeu que levamos alguns minutos a mais. E agora que sei que todos acham que a Val e eu brigamos, consigo entender o porquê todos estavam evitando mencionar seu nome perto de mim. Confesso que perceber a mudança repentina do assunto quando cheguei me fez rir um pouco. Enquanto estava todo mundo preocupado se podia ou não falar da Val comigo na sala, eu estava enviando mensagens para ela no pessoal e rindo dos seus gatinhos franceses.

Sair para comprar roupinhas de neném com o Theo foi uma experiência bem diferente do que esperava. Eu não fazia ideia que fosse tão difícil escolher algo e que também fosse tão caro. Umas pecinhas minúsculas custando o mesmo ou mais que as roupas que comprava para mim. E nem era como se o neném fosse usar por muito tempo. Em poucas semanas iria tudo embora, mas enfim, eu encontrei umas pecinhas lindas que era impossível não amar.

E bem, na loja que Theo queria ir encontrei algumas camisas para mim. Eu adoro a sessão masculina, sempre encontro camisas grandes e confortáveis com estampa de algumas bandas que eu curto. E ao invés de parar para comer algum lanche, me limitei ao sorvete apenas para jantar comida saudável em casa.

Desde segunda-feira eu estava comendo bem e tentando ao máximo não dar preocupação a Val em relação a anemia. Foram três dias que comi tudo e qualquer coisa que Teresa me preparou. Sendo bom ou ruim: era sempre dentro.

Como foi o seu dia, mon bébé? – A Val me perguntou. Estávamos na nossa diária ligação antes de dormir. Assim como quando estava no Brasil, ela continuou sendo a primeira e última pessoa que falava todos os dias. – O que andou fazendo que sumiu depois do trabalho?

Eu sai com o Theo. Fomos comprar roupinhas de neném, – terminei de pintar as unhas de uma mão e exibi para a Val contente. – Olha, o que você achou?

Uma cor menos escura ficaria melhor, mas ficou bem feito, – Val e sua sinceridade. –  Você não me disse que estava interessada em roupas de neném. Deveria ter me avisado, eu queria ser a primeira te comprar roupas de pequena.

Senti meu rosto queimar de vergonha e quase borrei a minha unha. – Não, Valquíria! Não é esse tipo de roupa. Estou falando de neném de verdade.

– Você é um neném de verdade, mon amour. O meu neném.

Você entendeu.

E eu posso saber que bebê é esse?

A Camile, uma amiga de infância me convidou para ir a casa dela amanhã e como ela está grávida do primeiro bebê, eu pensei em levar um presentinho.

Val fez uma careta pensativa. – Camile? Quem é essa? Você nunca falou dela antes.

– Ah, é porque eu não via há anos. Ela morava na mesma rua que eu, nós frequentávamos a mesma igreja, mas aí ela se mudou para o outro lado de São Paulo e essa é a primeira vez que a vi desde então.

Amiga de infância que frequentava a mesma igreja? Ela por acaso ainda é crente?

Juntei as sobrancelhas confusa. – E isso faz alguma diferença? Eu não sei. Nós não chegamos a falar disso, mas ela estava usando um colar de cruz.

Você não vai na casa dessa Camile – Val quase me interrompeu.

– Ué, por que não? Ela era legal, eu gosto dela.

Porque eu não quero que vá.

– Você não manda em mim.

Comment ça, Clarice?

Parei de pintar as minhas unhas para olhar para Val. Ela definitivamente não estava contente, mas o que posso fazer? Ela não é minha dona, embora se sinta assim.

– Eu sei que você está acostumada a controlar meu lado pequeno, mas eu estou bem grandinha agora.

Se faz tanta questão de se encontrar com essa garota, então que seja em outro lugar. Vá para uma cafeteria, um bar ou algo assim. Ou convide ela para sua casa, mas ir na casa dela é demais.

Você nem a conhece, Val.

E já tenho motivos o suficiente para não gostar. Você está me contrariando por causa de uma crente. Uma crente. Incroyable! (inacreditável)

E você achou que eu vou fazer o que quer só porque mandou?

Oui, exactement.

– Bem, você achou errado. Você está acostumada com todo mundo fazendo as suas vontades, mas eu não vou ser mais uma. Eu não sou sua submissa e você não manda em mim.

Quer quebrar essa francesa? Diga não para uma das suas vontades e pronto. O estrago está feito.

Mas eu devo admitir que a “contrariar” era no mínimo divertido. Sua careta de quem está engolindo – com dificuldades – seu ego inflado é impagável. Eu não me via como uma brat, mas céus… a Val torna o ato de a desafiar prazeroso demais. Uma mulher tão poderosa e segura de si perdendo a pose para uma pirralha era delicioso demais.

Val não moveu um músculo, mas seus olhos escureceram. Em outra ocasião, esse seria o sinal de que eu estava ferrada, mas desta vez, ela estava a 9 mil quilômetros de distância, não era como se eu estivesse preocupada.

Para de pintar as unhas. Agora – Val ordenou séria. Seu tom de voz era tão gelado que congelou a minha mão no ar.

– Ah, qual é, Val? Você não vai impli…

Eu mandei você para agora. Ou prefere que eu adicione mais dez tapas na sua punição? – Ela me interrompeu, erguendo uma sobrancelha. – Pode escolher.

– Minha punição? Que punição? Está brincando?

Achou mesmo que só porque estou longe pode falar comigo como quer? Não tem uma semana que viajei e já está se comportando como uma má criada. Eu vou lidar uma boa lição para se lembrar qual o seu lugar.

Engoli a seco.

Ela não está aqui. Ela não pode fazer nada. Era o que eu tentava me convencer, mas sabia que, no fundo, eu já tinha perdido. Poderia dizer não ou até mesmo desligar a chamada, porém, conhecendo a Valquíria, o seu ego e seu jeito controlador, era bem capaz que aparecesse por aqui amanhã mesmo. Mimada, essa é a verdade.

Suspirei levemente irritada quando fechei o esmalte com um clique alto, como um protesto mudo.

Boa menina, – Val sorriu triunfante. – Agora, coloque o celular no suporte e vá para a cama. Quero ver você inteira.

– O quê? Por quê?

– Não é sua hora de fazer perguntas, ma petite – Val se inclinou para frente, e o decote da sua camisa de seda deixou claro que não era um acidente. – Vamos, Clarice. Estou esperando.

O seu tom de voz doce e venoso acenderam todos os meus alertas de perigo. Valquíria tinha um poder de entrar na sua mente quando fala assim. Em um momento está achando seu sotaque sexy e no outro está fazendo suas vontades sem nem perceber. 

De pé de frente para câmera, de pijamas – entende-se por uma camisa duas vezes o meu tamanho e calcinha, –  eu me senti absurdamente exposta mesmo sozinha no quarto.

– Feliz agora? – Perguntei levemente irritada.

Ainda não. Tira a camisa.

– Que?! Não. Eu não vou fazer isso…

– Agora.

Olhei rapidamente para a porta do quarto. Trancada, ótimo.

Suspirei demoradamente criando coragem para obedecer a ordem. Não era como se Val não tivesse me visto dessa forma antes, mas isso era um tanto… vergonhoso e humilhante.

Meus dedos hesitaram na barra da camisa, mas Val não desviou o olhar de mim. Antes que reclamasse ou dobrasse a punição que prometera, eu puxei a roupa sobre a cabeça, ficando apenas de calcinha. Felizmente, uma calcinha vermelha e não a fralda de vestir.

– Eu não dei permissão para cobrir os seios, mon amour. Tire a mão antes que eu te obrigue a tirar a calcinha também.

Ainda que eu estava usando meus fones sem fio. Imagine se Val fala isso no viva-voz e uma das meninas ainda esteja acordada para ouvir.

Melhor, – ela murmurou, me avaliando como se fosse uma obra de arte. Meu rosto estava tão vermelho como um morango. – Agora tire a calcinha.

– Valquíria, não. Isso é… não combinamos isso.

Nós também não combinamos de você me desafiar, e ainda assim estamos aqui – Val cruzou os braços. – Ma vie, eu adoro quando você finge ter controle. Mas vamos parar de fingir, não é? Tire a calcinha. Agora.

Minha respiração ficou presa na garganta. Tentei argumentar, mas as palavras morreram quando ela disse, suave e letal:

Se você não fizer, amanhã mesmo compro uma passagem de volta ao Brasil só para dobrar sua punição. E você sabe que eu cumpro minhas promessas.

Tremendo e completamente envergonhada, tirei minha calcinha lentamente. O constrangimento era quase físico, mas pior que isso era a expressão da Val na tela: calma, controlada, como se já soubesse que eu cederia.

Parfait, mon amour. Sente na cama e abra as pernas.

Com vergonha até mesmo de discutir sobre isso, eu só obedeci sem coragem de olhar para Val.

– Dobre os joelhos, pés sobre a cama. Abra as suas pernas para mim, ma vie – olhei para Val e sorriso em seu rosto me causou uma mistura de vergonha e excitação. Por mais que eu quisesse me recusar a tamanha humilhação, seu veneno parecia ter dominado meu cérebro a ponto de eu perder o controle das minhas próprias ações. – Muito bem. Boa menina. Quero ver quão molhada está, ma vie. Mostre para mim. Use os seus dedos.

Queria não estar molhada com tudo isso, mas ao passar os dedos entre os meus lábios o rasto da minha excitação ficou formando uma linha. Eu estava ridiculamente molhada.

Olha só para você… para quem diz que não é minha submissa, você me parece bem excitada só por me obedecer.

– Val…

Eu quero ver você chupar seus dedos. Lentamente. Vamos.

Porque eu ainda estava fazendo o que ela me mandava, eu não sabia dizer o porquê, mas cá estava eu chupando os meus dedos lentamente por puro capricho de Valquíria.

Olha para mim, Clarice. Eu não te dei permissão para desviar os olhos de mim. Agora continue e use a sua mão livre para massagear o seu seio.

Val me devorava com o olhar à medida que seguia seus comandos. Sua excitação estava estampada em seu rosto e a ver assim causava efeitos em mim. O ângulo da sua câmera não permitia ver onde estavam suas mãos e o que fazia com elas. A curiosidade estava me correndo por dentro.

Brinque com seu clítoris. Assim mesmo, mon amour. Tu es parfaite comme ça. Belle. Continuez (Você está perfeita assim. Linda. Continue)

Eu poderia facilmente gozar somente assim, mas Val tinha outros planos para mim e continuou.

Chupe os dedos outra vez. Lumbrifique bem porque irá foder sua boceta com eles.

Se eu tinha algum pudor dentro de mim, ele evaporou no momento em que enfiei meus próprios dedos em mim só porque Valquíria quis assim. Minhas pernas tremiam e aos poucos sentia meu ápice se aproximar, dando sinais de que seria um orgasmo memorável. Humilhante, porém memorável.

Ça suffit, Clarice. Basta. Eu não disse que poderia gozar. Pare o que está fazendo.

– Mas… Val, por favor… – a minha voz saiu como um sussurro rouco.

Ah, não, mon amour. Você perdeu o direito de pedir “por favor” quando decidiu brincar de rebeldia. Isso é parte do seu castigo. Meninas rebeldes não tem direito de gozar. E não tente continuar depois sozinha, eu vou saber e te garanto que será muito pior.

– Eu odeio você.

Val riu. – Mon amour… nem você acredita nisso. Veja só você, vermelha como seu esmalte, tremendo como um filhote abandonado… e por quê? Porque eu ordenei que colocasse a mãozinha onde mais precisa de mim? – Val se inclinou para frente, um sorriso afiado se desenhou em seus lábios. Seus olhos percorreram meu corpo, como se estivesse diante de uma obra patética e irresistível. – Não precisei tocar em você, muito menos estar aí. Bastou uma palavra, um olhar, um simples lembrete de quem manda aqui. E você se desfez. Derreteu. Obedeceu a todos os meus comandos como a boa menina obediente e submissa. Quer saber o que isso significa, Clarice?

No fundo eu não precisava ouvir o que tinha a dizer. Eu já sabia. Ainda assim, Val continuou com sua voz rouca que tanto adoro.

Significa que você é minha. Até quando não estou. Até quando você finge que não quer. Não é somente o seu lado pequeno que tenho nas mãos. Você não vai ser a minha submissa, você já é. Quando mais cedo aceitar isso, melhor será para nós duas.

Eu queria dar uma resposta, mas estar nua e frustrada por ter meu orgasmo negado acabava com qualquer argumento. Que ódio! Que ódio! Que ódio!

– Já deu a sua hora para dormir, mon amour. Vá fazer xixi, escovar dente e se deitar. Amanhã conversamos. Boa noite, ma vie. Durma bem.

Sem mais, nem menos, a tela escureceu e eu deixei escapar um gemido abafado, me jogando na cama.

Valquíria sempre ganhava. Sempre. E a pior parte era que, mesmo furiosa, eu não conseguia ficar brava… ou achar totalmente ruim. Parte de mim já ansiava pela próxima vez que ela me colocaria nessa posição.

O que há de errado com você, Clarice?

Cobri o rosto com as mãos, completamente envergonhada. O calor das minhas bochechas queimava até as palmas. O que eu acabei de fazer?! A Valquíria estava na França, droga! Na França. E eu ali, obedecendo como um cachorrinho adestrado, me tocando sob o olhar dela como se… como se…

Meu corpo deu um arrepio, traidor.

Ela vai jogar isso na minha cara para sempre. Para sempre!

Me vesti e saí do quarto brava, furiosa – e frustrada – para fazer xixi, me limpar e escovar os dentes. Não porque a Val mandou, mas porque eu precisava fazer. Isso não ficará assim. Eu não vou a deixar ganhar esse jogo tão fácil. Não vou mesmo!

– Idiota, – murmurei para o espelho enquanto escovava meus dentes. – Ela nem está aqui. Nem pode te obrigar a nada. Idiota! Idiota!

No fundo eu sabia que até isso era mentira. Valquíria não precisava estar aqui. Ela só precisava daquela voz, daquele olhar, daquelas ameaças que soavam como promessas. E eu… não… isso não. Eu preciso é de vergonha na cara e dizer não.

Já estava deitada quando o meu celular vibrou na mesa de cabeceira. Quase caí da cama tentando pegar, esperando uma mensagem dela – uma foto, um áudio, qualquer coisa que prolongasse aquele jogo. Mas era só uma notificação do clima. Vai chover em São Paulo amanhã.

Soltei uma risada amarga e bati a mão na testa.

Clarice, por que diabos você quer prolongar algo que nem era para ter começado? Você não é uma submissa!

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