« V A L K Y R I E »
A notícia sobre a minha avó me pegou totalmente desprevenida e despreparada. Estamos tão acostumados com ter as pessoas que amamos vivas que a possibilidade delas nos deixarem é um choque de realidade muito grande. Apesar da dona Hélène ter sido o meu “terror” da infância e adolescência, ela é a minha avó e por incrível que pareça, quando não estava pegando no meu pé, era muito mais amorosa e carinhosa que a minha mãe… sim, eu só convivo com mulheres doidas.
Quando eu era mais nova era difícil entender o porquê a minha avó era tão chata e exigente comigo. Na época eu acreditava que ela não gostava de mim ou me tratava daquele jeito por eu ser a neta autista. Depois eu entendi que ela só queria que eu fosse a melhor naquilo que me propus a fazer. No fundo ela sabia que iriam me descredibilizar sempre que possível por ter autismo e durante todos esses anos estava me “preparando” para isso. Sem dúvidas, se eu tenho um Pritzker hoje é por causa dessa velha louca na minha cabeça.
Confesso que nosso relacionamento é muito melhor quando estamos longe, mas isso não quer dizer que eu queira que ela morra. Eu amo a minha avó. E era por a amar que essa notícia me desestabilizou como há muitos anos não acontecia. Todos os meus filtros “desligaram” e de repente o mundo se desintegrou em pedaços.
O zumbido do ar-condicionado virou uma serra elétrica. A textura do lençol, antes macia, arranhava a pele. A voz da minha mãe se fragmentava em sílabas sem sentindo, repetindo “gravegravegravegravegrave” como um disco arranhado. Meu peito apertou, o coração batendo contra as costelas como se quisesse escapar. Sem conseguir lidar com tanta informação, eu tapei os ouvidos com as mãos, pressionando até doer.
Clarice tocou no meu ombro e eu por impulso me afastei. Ela tentou dizer alguma coisa, mas sua voz era como ruído distante. Eu não queria que ela me visse assim, mas também não estava conseguindo me regular. Então sem pensar muito, eu me levantei bruscamente e sai do quarto. O escritório no fim do corredor era o meu segundo lugar mais seguro.
Dentro, o silêncio era relativo. A lâmpada fluorescente piscava, emitindo um zzzz insuportável. Me encolhi no canto, os joelhos contra o peito e as mãos cobrindo a nuca. Cada respiração era um esforço – o ar entrava rasgando, saía em golpes curtos. O chão de madeira levemente fria ajudava, mas não bastava. E esfregar os dedos parecia não fazer efeito algum.
A Clarice me viu ter uma crise. A voz na minha cabeça martelava, mais alto que o zumbido da lâmpada. Toda vez que lembrava desse detalhe, cravava as unhas contra a própria palma da mão. Tentar me regular ao mesmo tempo em que me desesperava por ter desestabilizado assim na frente da Clarice era uma missão quase impossível. Ela estava pequena… ela vai achar a sua maman fraca… frágil… ela vai desistir de mim.
– Val? Posso… entrar? – Clara bateu levemente na porta, a voz trêmula e preocupada.
Me encolhi ainda mais. A pergunta ecoou distorcida, como se viesse de um túnel. Tentei responder, mas nada saiu da garganta. Eu não queria que entrasse, não queria que me visse assim, não queria que estivesse aqui agora. Passei a minha vida toda treinando meu corpo para não tremer, para a voz não falhar, para não fazer gestos “estranhos”. Fiz de tudo para criar uma imagem de uma Valkyrie “normal” e agora joguei todo esse esforço de décadas no lixo justamente perto da última pessoa que poderia me ver assim.
A mamie (vovó) tentou me ajudar de todas as formas possíveis a ser uma mulher forte e capaz de controlar o próprio autismo. E agora não só poderia a perder a qualquer momento, como falhei miseravelmente com ela. Se a Hélène estivesse aqui agora… ela certamente estaria decepcionada comigo.
As lágrimas queimavam. Eu não podia chorar – chorar era um sinal de derrota, e eu já estava perdendo essa batalha.
« C L A R I C E »
Sabe quando as coisas acontecem rápido demais e você não tem tempo para processar e entender? Eu me sentia assim. Totalmente paralisada sem saber o que fazer.
Estava escuro, mas com a luz que vinha da rua e a lua eu vi a expressão da Val se desfazer em câmera lenta: primeiros os lábios cerrados, depois os olhos arregalados, o queixo começando a tremer. Eu não entendia nada de francês, mas sabia que não era algo bom e quando a Val soltou o celular para cobrir as orelhas eu entendi que era pior do que eu esperava.
Parte de mim se sentia mal e arrependida de ter tentado tocar nela. Eu havia me esquecido completamente do que li no cartão de girassol que eu vi há duas eras. Não me lembrava exatamente o que estava escrito lá, mas me recordo vagamente sobre não tentar contato físico ou algo assim. Isso provavelmente piorou seja lá o que a Val estava sentindo que ela se isolou no escritório.
Na hora eu peguei o celular, falei com a Margot o que havia acontecido e ela – que já não parecia nada bem – ficou ainda pior, preocupada com a filha. Ela me contou sobre a situação da senhora Hélène e que a Val tinha o costume de se isolar em um lugar “calmo” para se regular. Mas não disse quanto tempo isso levaria ou se deveria fazer algo, então eu estava perdida.
Minha vontade era de entrar lá e abraçar a minha Val. Dizer que estava tudo bem. Que iria ficar tudo bem…, mas eu precisava entender que o que funciona comigo, não iria funcionar com a minha namorada. E quando perguntei se poderia entrar e sua resposta foram uns ruídos incompreensíveis, eu entendi que esse era o sinal para não invadir seu espaço.
A Valquíria tinha suas manias, seguia seu ritual matutino e noturno religiosamente, tinha copos e taças específicos para cada tipo de bebida, lembrava dos detalhes do meu portfólio que viu durante a entrevista de emprego, fazia cara feia para gravata torta. Era autista? Sim, eu sabia disso… teoricamente. Mas era só uma palavra em prontuários médicos, não… isso. A Val em crise? Acostumada com seu jeito segura de si e sempre sob controle até dos meus problemas, eu confesso que não imaginava que algum dia a veria assim.
E agora me sinto uma namorada péssima por nunca ter procurado entender mais ou conhecer a lista de coisas que deveria saber sobre a Val e seu lado autista. Ela se isola para se regular. Tá, e aí? Eu espero? Eu faço alguma coisa? Eu ligo para alguém? Precisa de algum remédio? Vai para algum médico? Eu pesquisei no Google “crise autismo como ajudar” e foram vários os resultados: não force contato visual, ofereça objeto de conforto, evite perguntas abertas… e tantas outras coisas. E eu sequer fazia ideia de qual era o objeto de conforto da Val. Eu sabia quais eram os meus: os peitos dela.
Chá! Chá de Vanilla Bourbon. A Val sempre bebe o chá de baunilha dela pontualmente às 07:07 e depois às 19:07, não me pergunte porquê desse horário, eu demorei para perceber esses 7 minutos. Às vezes durante o dia ela toma mais ou até de outros sabores, mas 07:07 e 19:07 era mandatório. Felizmente, eu sabia exatamente como ela fazia de tanto a observar no escritório e repliquei todos os passos. Enquanto preparava, decidi ligar para o Bruno. Ele, com certeza, poderia ajudar muito mais que eu.
– Bruno falando, – ele atendeu em apenas dois toques.
– Bruno, sou eu… a Clara. Você está em casa?
– O que você aprontou, garota?
– Nada, eu juro. A Val… ela precisa de ajuda. Ela está em meio a uma crise e se isolou no escritório.
– Do nada? Isso não é normal… o que aconteceu?
– Não foi do nada… A vó dela está no hospital, é grave! A Val não recebeu a notícia muito bem.
– Ela está te respondendo? Digo, verbalizando?
– Não.
– Se chegou a esse nível, é porque não é bom. Me espera aí, eu já estou indo. E nãotenta entrar nesse escritório, pelo amor de Deus.
– Pode deixar.
Isso significa que não dá para levar o chazinho… como posso ser uma namorada tão inútil e incompetente? A Val merecia alguém melhor. Vou ter que me esforçar mais.
Ouvi o som da porta e lá estava o Bruno em todo seu esplendor: pantufas, cueca, roupão e touca de seda. Ele nem tem cabelos o suficiente para usar touca… eu realmente não entendo essa gay. Felizmente o roupão estava cobrindo a maior parte do seu corpo, eu não era obrigada a isso, mas de alguma forma eu não estava surpresa.
– Que cheiro é esse?
– Eu estava fazendo chá de vanilla Bourbon, é o favorito da Val… eu achei que fosse ajudar.
– E você sabe fazer dentro dos critérios de qualidade da sua namorada?
– Eu acho que sim.
– Okay, deixa isso aí por enquanto. Ela está no escritório, não está? – Confirmei com a cabeça. – Você sabe onde a Val guarda o diário de protocolos dela?
– Não faço ideia do que você está falando.
Bruno fez um sinal para eu o seguir e assim o fiz. – Sempre em uma área aberta, onde não dá para trancar o acesso e normalmente é um dos pontos principais de passagem da casa, você vai encontrar um aparador de corredor com gavetas, – ele abriu a gaveta do móvel, – é onde a Val guarda todos os itens de emergência: chaves extras? Lista de contato? Documentos reservas? Bombinha para asma? Isso é provavelmente seu, ela não tem asma – ele foi tirando item por item para me mostrar. – E, por fim, tem fones protetor auricular e o diário de protocolos. Uma obra escrita por Valkyrie Touchon – ele mostrou o livreto de capa preta. – Os dois serão seus melhores amigos em momentos como esse. Depois você acaba decorando tudo até de trás para frente.
Ele me deu o livreto e caminhou em direção a cozinha. Novamente o segui como se fosse o mestre e eu sua aluna.
– Página 7. É sobre os chás. Vanilla Bourbon é sempre a melhor opção quando se está em dúvida, mas cada sabor tem uma finalidade diferente. Tem chá para insônia, stress, ansiedade, relaxamento…
Eu sabia que a Val era viciada em chá, mas a tabela criada por ela própria com sabores, instruções de preparo, finalidade e ocasiões a serem usadas, era coisa de outro mundo. E não, não eram duas ou três opções, eram consideráveis números de páginas somente listando chás… e eu nem sabia que existiam tantas opções assim.
Vanilla Bourbon era a primeira da lista. Tirando a temperatura (89.3°C), eu fiz exatamente como estava indicado nas instruções. Diz aqui, que a finalidade desse chá é “regulação térmica e olfativa”, ideal para situações cotidianas e crises agudas.
– Vamos ver se você soube fazer esse chá direito, – Ele experimentou o chá e me olhou com julgo. – Honestamente? Eu não faço ideia se está como ela realmente gosta. Eu não sei diferenciar, mas em momentos como esse, você abraça a loucura da sua mulher.
Dito isso, ele abriu a gaveta e tirou de lá alguns utensílios como uma mini balança digital de precisão e um termômetro culinário.
– Como você já fez, não vamos usar a balança, mas a temperatura dá para ajustar.
Enquanto esperávamos o chá atingir a temperatura ideal, eu folheei o livreto. Tinha instruções para várias ocasiões e situações.
– Vamos lá?
– Já esquentou.
– Deu 90°c, eu me distraí um pouco – se justificou. – A coberta está no closet. Dentro de uma bolsa de plástico, na parte de cima… deixa para lá, você não vai alcançar.
E ele tinha razão. Quando fomos buscar, se fosse para eu pegar sozinha seria necessário pendurar em algo ou ficar pulando, mas não seria impossível.
– Item de conforto número 2: coberta pesada com cheiro de lavanda. Está sempre aqui, sempre embrulhado a vácuo para o cheiro não sair com o tempo guardado. Não use para outra situação.
– Qual o item número 1?
– O travesseiro. O longo que fica na cama. Ela costuma dormir com ele entre as pernas. É bem grande.
Sorri confusa.
Valquíria não tem travesseiro longo bem grande na cama. E até onde eu sei, nunca a vi dormindo com nada entre as pernas… eu não seria sonsa para não notar isso antes, seria?
Nós fomos até o escritório, chá, protetor auricular e o cobertor em mãos. Bruno bateu na porta de leve: três toques rápidos seguidos de dois lentos. Um código que eu ainda não entendia o que era.
– Valkyrie, ma chèrie, c’est moi. Je peux entrer? – Bruno perguntou baixinho. Como Val não respondeu, ele continuou em francês: – Clarice m’a dit… enfin, elle est effrayée, mais pas par toi. Pour ne pas savoir aider….
[Valkyrie, minha querida, sou eu. Posso entrar? Clarice me disse… enfim, ela está assustada, mas não por você. Por não saber ajudar]
Eu não entendi nada, mas confiava no Bruno.
– Precisa de algo? Fones de ouvido? O caderno de anotações? A Clarice preparou chá de vanilla Bourbon, – nos entreolhamos esperando a resposta que nunca veio. – Oui, ma chèrie… eu entendi, sem conversas. Você consegue bater na madeira uma vez para “sim” ou duas para “não”?
Demorou um pouquinho, mas a batida no chão de madeira veio. E de certa forma ouvir essa única batida trouxe um alívio muito grande para mim.
– Nós podemos entrar? – As duas batidas vieram quase no mesmo instante. – Okay… nós trouxemos chá. Vanilla Bourbon. Clarice quem fez. Tem certeza que não vai querer?
A resposta dessa vez não veio. Bruno suspirou e se afastou da porta me convidando para ir junto.
– E agora? – Falei baixinho.
– Página 3.
Abri o livreto na página indicada e estava escrito: “Se eu ficar não-verbal: 1) Oferecer objeto de peso (ex: cobertor); 2) Não interpretar a falta de contato como rejeição; 3) Se possível, colocar música ambiente em volume baixo (preferência: clássicos* ou instrumental Beyoncé) Nota: apenas andamentos inferiores a Allegro Moderato*.
Claro quea minha namorada iria especificar o tempo dos clássicos que poderia usar. Me surpreende não ter uma lista de quais músicas permitidas também.
Como eu não sabia da existência de um livreto como esse? Eu achei que não perguntar estaria respeitando o seu espaço e por fim eu só acabei negligenciando uma parte importante da vida da minha namorada. Eu deveria ter todos esses detalhes tatuados no meu coração para nunca me esquecer.
– Ela precisa de você agora…, mas do seu jeito.
– E o que eu faço?
– Ela escreveu o que tem que fazer, não como deve fazer. A segunda parte é com você. Você conhece a sua namorada. Siga seu coração ou algo assim.
Engoli a seco receosa. – E se eu fizer merda?
– Você não vai. Se fizer, ela irá te barrar. Vamos tentar outra vez.
E lá estávamos nós na porta outra vez. Bruno bateu na porta, seguindo o mesmo código de antes. Esperei que fosse dizer algo, mas então ele olhou para mim como se esperasse que eu dissesse algo.
Meu Deus, Clarice. É a sua namorada? Por que está com medo? Ela não vai te odiar se disser alguma besteira… ou vai?
– Val… eu, uh… eu vou abrir a porta para deixar as suas coisas aí dentro, mas não vou entrar e nem ter contato visual. Eu… prometo… eu… posso?
– Je sais que tu n’es pas à l’aise avec cette situation, mais Clara est désormais une personne de confiance de niveau 1. Elle fait partie de ta vie, tu ne peux pas l’exclure pour toujours… Elle t’aime, bébé. Donne-lui une chance de prendre soin de toi aussi. Je sais que tu as besoin d’elle… tu dois juste la laisser, – Bruno disse em um ritmo um pouco mais lento que até eu consegui entender algumas coisas.
[Eu sei que você não está confortável com essa situação, mas a Clara é uma pessoa de confiança nível 1 agora. Ela faz parte da sua vida, você não pode a deixar de fora para sempre. Ela te ama, querida. Dê uma chance para a sua pequena te cuidar também. Eu sei que precisa dela… você só precisa permitir.]
Esperei por uma resposta e quando estava quase desistindo a porta se abriu, apenas o suficiente para indicar que estava aberta. Bruno contou mentalmente até dez e então abriu a porta totalmente me dando espaço para entrar.
– Je pars. Appelle-moi si besoin (estou indo embora. Me ligue se necessário) – ele disse fazendo sinais com a mão pedindo para ligar se necessário e falou com os lábios sem emitir som: – Não faça barulho. Vai com calma, ela ainda está se regulando.
Concordei com a cabeça e entrei o mais silencioso possível. Bruno fechou a porta atrás de mim e era isso. Eu estava na “zona de conforto” da Val.
O escritório estava iluminado apenas pelo abajur de piso. Luz baixa, um pouco mais quente que o usual. Temperatura da lâmpada era um assunto trivial para mim, entendia por causa da faculdade, mas não era algo que me interessava muito… até começar a conviver com a Val e perceber que não é somente em seus projetos que se atenta a esse detalhe. Se você prestar atenção, consegue saber seu humor só pela iluminação do ambiente que está.
Val estava sentada com as costas contra a lateral do sofá, de costas para onde eu estava. Gostaria de ir até lá e a abraçar, mas eu sabia que não deveria fazer isso. Ela me deixou entrar, mas não queria dizer que tudo havia normalizado. Não ter contato físico ou visual, não significava ficar longe. Me sentei relativamente perto, também encostada no sofá, mas na parte frontal. Val não reagiu a isso, então entendi que estava tudo bem.
Sem dizer nada, deixei os fones de ouvido no chão e empurrei um pouco para perto da Val. Apesar de saber lidar com barulhos e ruídos quando está bem – e com os ouvidos devidamente protegidos, – eu senti que alívio sonoro fosse exatamente o que precisava, mesmo embora o escritório estivesse em absoluto silêncio para mim.
Esperava que ela fosse pegar o objeto do chão um pouco mais rápido, mas não foi assim que aconteceu. Levou um tempo… um tempo considerável para a Val pegar a caixinha e colocar os fones. Em seguida eu empurrei o celular dela no mesmo lugar onde estava o objeto anterior. O caderno dizia que música poderia ajudar, mas ela só puxou o aparelho para perto de si e não fez mais nada a respeito.
É… o celular não foi uma ideia tão boa assim.
O terceiro item foi a coberta. Coloquei no mesmo lugar que os demais e antes mesmo que eu recuasse a minha mão, ela pegou a pontinha e puxou para cima de si. Parece bobo, mas eu me empolguei um pouco. Nossas mãos estavam bem pertinho, mais um pouco e ela iria me tocar.
Por último, deixei a garrafa térmica no chão. Dessa vez não houve quase contato ou qualquer outra reação. Sem muito o que fazer, eu encostei contra o sofá e fiquei encarando minhas mãos sobre o meu colo enquanto esperava o tempo da Val. Tempo esse que demorou… e se eu não soubesse que ela é um vampiro que não dorme nas condições perfeitas, poderia suspeitar que tivesse dormido ali. Ao menos eu dormiria.
Pouco mais de uma hora depois, Val pegou a garrafa térmica, bebeu um pouco do chá e voltou com a garrafa no mesmo lugar, dessa vez com o termômetro para mim.
– La température, – ela disse, sua voz um pouco rouca, me pegando de surpresa.
Não precisava saber francês para entender o que era “la température”. Curiosa, reparei no termômetro analógico da garrafa e estava marcando exatos: 89.3°C.
Oh… oh! Ela estava esperando a temperatura perfeita. Essa mulher é maníaca… quer dizer, desculpa. Se eu soubesse que era isso, teria aberto a garrafa e deixado esfriar mais rápido.
Ela voltou a beber do chá e dessa vez não voltou com a garrafa no lugar. Eu coloquei o meu último “objeto conforto” sem saber se ela iria de fato aceitar: a minha mão. Sinceramente pensei que a Val não fosse entender ou simplesmente ignorar, mas quando menos esperava senti a sua mão sobre a minha.
Foi muito difícil não virar o rosto para trás para a olhar, mas eu me controlei. A euforia que sentia com o seu toque era tamanha que nem parecia que essa mesma mão já esteve dentro de mim e vice versa. Era diferente agora. Seu toque era a sua forma de me dizer que confiava em mim para ser o seu porto seguro. E até onde eu sei, só existem três pessoas que ela confia a esse nível.
Agora eu sou a quarta.
– Merci… de ne pas m’abandonner.
Demorei alguns segundos para interpretar o que ela me disse. “Merci” era “obrigada” e “sei-lá-o-que abandonê” dava para chutar que estava falando de abandonar. Se eu soubesse falar francês iria responder o que estava realmente sentindo:
“Eu nunca vou te abandonar. Eu vou sempre estar ao seu lado quando e como precisar de mim, porquê eu te amo”
Mas como eu não sei falar francês, minha resposta foi o que eu sabia: – Je t’aime.
Tive a sensação de que Val estava sorrindo, eu só não podia confirmar com os meus olhos, mas estava feliz com o nosso contato.
Eu pensei que depois de tudo que aconteceu, teria a minha Val descansando na cama e sendo mimada por mim. Quando o que aconteceu foi; depois de algum tempo – por algum tempo entende-se mais de 1h – em silêncio de mãos dadas, Val simplesmente levantou, olhou para mim e disse – em português – que já havia passado da minha hora de dormir. E eu nem tinha hora para dormir, mas era bom ter a minha mulher de volta.
De volta para a cama, eu entendi o porquê eu nunca vi o travesseiro conforto que a Val usa para dormir entre as pernas e abraçada. Eu era o seu novo travesseiro. E isso não era uma reclamação.
Quando acordei pela manhã, Val já não estava na cama e pelo cheiro no ar, sabia que havia tomado banho há pouco tempo. Eu não gosto de levantar cedo no sábado, mas levando em consideração todos os eventos da noite, achei melhor me preparar. Muito provavelmente teríamos um dia longo.
Lavei o rosto, escovei os dentes, pensei em tirar os pijamas, mas só pensei mesmo e desci para a cozinha onde sabia que encontraria a minha namorada tomando seu chá matutino. E ela estava lá, linda como sempre, tal qual uma modelo sendo fotografada para algum comercial que envolva café da manhã. Eu poderia tirar uma foto agora e ela estaria perfeita.
– Você já apareceu em revista? – Perguntei aleatoriamente atraindo atenção de Val para mim.
Ela me olhou confusa, recebeu o meu beijo de bom-dia e me observou sentar ao seu lado com a mesma careta. E então respondeu naturalmente: – Algumas vezes. Por que?
– Apenas curiosidade… espera aí, está falando sério? Você já apareceu em revista?
– Oui.
– Por que eu nunca vi isso? Quando? Onde? Como?
– Você nunca perguntou. Tenho uma cópia de todas elas no escritório, mas você acha na internet.
– Revistas de arquitetura?
– Também.
Eu não pensei muito antes de pegar o celular para fazer a minha pesquisa. Revista de arquitetura já esperava, ela recebeu um p* Pritzker. Mas Vogue e capa da Forbes? Afinal, com quem eu estou namorando?
– Essa capa da Forbes com a sua mãe está simplesmente um luxo.
– Você está soando como o Bruno agora. Mas enfim, são só balelas e puxação de saco. Não perca o seu tempo.
– Você disse que tem as cópias, né? – Eu exibi a tela do meu celular. – Eu definitivamente preciso ver mais fotos de você usando isso aqui.
Val revirou os olhos. – Você vê isso em outra ocasião, agora nós temos muito o que fazer. Eu pretendo pegar o voo para Paris ainda essa noite.
– Você vai para Paris hoje?
– Nós vamos para Paris?
– Nós vamos para Paris?
– Oui. Você vem comigo.
– Eu vou com você para Paris?
– Oui, Clarice. Eu não vou te deixar para trás.
– Mas eu não tenho passaporte… quer dizer, eu tenho… vencido.
A Val travou na mesma posição que por um momento fiquei preocupada que fosse entrar em outra crise, mas isso provavelmente só era seu cérebro trabalhando a mil por hora pensando em trilhões de coisas numa fração de segundos.
– Putain… isso é ruim. Isso é muito ruim! – Ela finalmente disse algo. Zero sinais de crises, todos os sinais possíveis de irritação. – Como vou te deixar aqui sozinha?
– Está falando como se eu fosse uma menor incapaz.
– Você não é uma menor incapaz, mas quando regride age como uma.
– É só eu não regredir. Eu não fazia isso antes de te conhecer.
Val ergueu o cenho desconfiada. – Tem certeza disso, Clarice? Seus amigos dizem o contrário.
– Okay… talvez eu tenha aí um histórico para refletir e investigar, mas eu nem sabia o que era isso e de certa forma eu sobrevivi, – coloquei as mãos sobre as mãos de Val. – Vai ficar tudo bem comigo, confia em mim? Você precisa ficar perto da sua avó agora. Ela e sua família precisam mais de você que eu agora. Eu vou sobreviver… e estarei aqui te esperando voltar. Prometo. Já sabe quando volta?
Val balançou a cabeça negativamente. Seus olhos estavam marejados. Um dia – talvez – ela se sinta confortável em chorar, ao menos comigo. Por enquanto, ela se limita em poucas lágrimas mesmo quando esta prestes a se desfazer em milhares de pedaços.
– Vem cá, – eu me levantei e peguei a mão de Val para ela me seguir. Mesmo sem entender, ela veio comigo até o sofá da sala. Eu me sentei e bati no lugar ao lado a convidando. – Senta aqui.
Esperei Val se sentar para a trazer para o meu colo. Eu não sou nenhuma mommy e nem ela uma little, mas um colo faz bem para qualquer um. Acompanhado de cafuné então? Melhor ainda.
– Vai ficar tudo bem, meu amor – dei um beijo no topo da sua cabeça. – E está tudo bem chorar também. Eu sou a sua namorada, não tem que se preocupar com aparências comigo. Quer um tetê também? – Ela riu.
– Não seja boba.
– Ah, qual é? Eu também tenho peitos legais… não tantos quantos os seus, mas você já viu e sabe.
Val se virou de barriga para cima. – Tem mesmo, e eu vou sentir falta deles.
– Vindo de você, me sinto muito lisonjeada – limpei as lágrimas no rosto dela com o polegar. – Acho que você deve ser a única pessoa do mundo que sabe que eu tenho peitos.
– E quem mais precisa saber? – Ela revirou os olhos. – Confesso que quando vi a primeira vez, eu também não esperava. Foi uma bela surpresa. Você sempre está com camisas largas, disfarça bem.
– Está dizendo que se eu usasse decotes teria se apaixonado por mim mais fácil?
– Apaixonado não. Eu me apaixonei por você no primeiro momento…, talvez te levado para cama mais rápido, isso sim.
– Tem certeza que você se considerava hétero antes?
– Acho que eu também tenho um histórico para refletir e investigar.
Distrair a Val era tão fácil que parte de mim se sentia mal por fazer isso de propósito. Eu não tenho dúvidas que ela deve fazer o mesmo com o meu lado pequeno, mas não estava habituada com o “outro lado”.
Ficamos no sofá por um tempo. Conversamos banalidades, choramos um pouco com assuntos sérios, depois voltamos nos distrair com aleatoriedades. E enquanto estávamos assim, eu não conseguia parar de pensar que a hora no relógio passava e aos poucos nosso tempo juntas ia se acabando. Meus dias sem essa mulher será tão triste e lentos.
– Você não vai querer ficar por aqui? – Val perguntou enquanto eu preparava algumas coisas para levar comigo.
– Sozinha nesse apartamento? Não, prefiro ficar apertada com a Glória e a Laris. Ao menos lá vou ter com o que me distrair. E tomar vergonha na cara para terminar a minha mudança.
– Você pode trazer elas para cá. Elas podem ficar no quarto de hóspedes… convida o Theo também. Aqui tem mais espaço para o Chloée.
– Val, o Chloée não tem nem 20cm. Tenho certeza que ele irá ter bastante espaço em qualquer lugar, – me aproximei dela para ficar cara a cara, ou qualquer coisa próximo disso. – Tem algum outro motivo que você me queira aqui?
– Sim, eu quero que se mude para cá de vez… eu sinto que com essa história de viagem, você está se mudando de vez de volta para lá.
– Você nunca me deixou mudar para lá, não tem como voltar para onde nunca fui. Pensando bem aqui… você me sequestrou. Como se sente sabendo disso?
– Péssima porque eu não vou poder te sequestrar para França comigo.
– Nem mesmo se eu tivesse meu passaporte. Se esqueceu que eu tenho a audiência com o traste essa semana? E segunda-feira volto para faculdade e o trabalho… de volta para rotina chata e sem você. Que tortura.
Val parou de pentear o cabelo e me encarou desesperada. – Mon dieu! Clarice! Eu me esqueci da audiência. Eu nunca me esqueço de nada. Eu…
– Está tudo bem. Você pode liberar o Theo para me acompanhar e ficarei suave.
Coitada da minha namorada.
Ela já estava cheia de coisas para resolver antes de viajar e agora adicionei mais uma na lista. Felizmente, parte das pendências de hoje poderiam ser resolvidos com a mesma pessoa e no mesmo lugar, ou seja, aproveitamento máximo de tempo.
Sabia que o principal motivo de Val querer encontrar com a Giovana para conversar era por minha causa. E não, não estávamos falando sobre audiência. Ela estava morrendo de preocupações com a possibilidade de eu escorregar enquanto ela estiver longe. E eu me sentia muito estranha com essa história.
Olhando para o passado eu consigo reconhecer que houveram momentos em que “regredi” e agi tal qual uma pequena, mas o que me lembro dessas ocasiões eram apenas muito choro, dor e tristeza. A Val transformou em amor, acolhimento e aconchego e desde então simplesmente não consigo ter o mesmo controle. Às vezes só acontecia e não precisava de muito…
Agora mesmo eu me sentia controlando muito para não me deixar levar. A Val tinha tanta coisa para resolver agora, ela não tinha tempo para lidar comigo ficando pequena também. Meu Deus… eu vou sofrer muito quando chegar a hora.
– Que carinha é essa, bébé? – Val perguntou.
Nós estávamos rumo ao Apex e eu não conseguia evitar de pensar em como estou desabituada a ficar sem a minha Val e maman por perto. Admito que até pouco tempo atrás eu ainda me sentia desconfortável com a ideia de ser uma pequena e parte de mim ainda não aceita totalmente, mas aos poucos estava começando a me tornar favorável a isso.
E aí a pessoa responsável por me fazer sentir bem com esse meu lado irá me deixar sabe-se lá por quanto tempo.
– Nada, eu só… estou com saudades antecipadas.
– Acho que alguém está querendo ficar pequena, – Val acariciou os meus cabelos e deu um beijo rápido. – Você vai brincar um pouco com os outros pequenos e depois nós vamos para casa, d’accord? Eu prometo não demorar.
– Eu não sei se quero ficar com os outros.
– Vai ser bom, mon amour. Você pode vir aqui quando estiver se sentindo pequena. Ter outros amigos pequenos lhe fará bem.
Sorri desconfortável.
Outros amigos pequenos? E se eles não gostarem de mim?
Isso tudo ainda é muito novo. Eu não sei se vou saber interagir com os outros. Só aceitei dar uma chance por causa da maman… ela precisava resolver suas coisas chatas com a Gio, não participar disso seria bom também.
Chegar no Apex e não ir direto para o bar da piscina foi um pouco estranho para mim. Eu nunca me aventurei para os outros espaços, então ir para onde ficavam os pequenos era uma novidade e tanta. Eu não sabia o que esperar, mas o que encontramos era mais legal que eu imaginava.
Tinha gente brincando de desenhar, gente montando lego, gente assistindo desenho, tomando mamadeira, gente brincando com bonecas. E um montão de coisas que eu poderia brincar. Quer dizer… que eu quando criança gostaria de brincar.
A Jujuba estava lá, ao lado de outra garota de cabelos cacheados que eu não conhecia, brincando com a sua Bluey.
– E aí, você quer entrar? – A maman perguntou.
– Talvez.
– Isso é um sim ou um não?
– Não sei.
Val riu e deu um beijo na minha testa. – Brinca um pouco com a Jujuba. Vocês nunca tiveram a chance de brincarem antes. Eu logo, logo volto para te buscar.
– Promete que não vai demorar?
– Mon amour, eu não estou disposta a ficar um minuto a mais do que o necessário longe de você.
– Okay… eu vou me sacrificar um pouco.
– É, brincar é mesmo um grande sacrifício.
A maman me deu um beijinho e ficou me esperando entrar. Dei uns passos vacilantes e por um momento quis voltar, mas ao olhar para trás e ver a maman ali me deu um pouco mais de coragem para continuar. No fundo eu sabia que se eu precisasse, ela estaria ali de braços abertos para me pegar no colo, então estava tudo bem.
– Ei, Clarinha! – Jujuba foi a primeira a me cumprimentar. – Você veio.
– É…
– Quem é essa? – A garota de cabelos cacheados perguntou não muito contente.
– É a Clara, neném da tia Val.
– A Val? Valquíria? – O tom da menina era de surpresa, como se não estivesse acreditando em nada que a Jujuba falava. – Mas a Val não tem neném. Ela não é mommy.
– Agora tem; a Clara.
– Hm… Clara não era a feiosa que puxou o seu cabelo?
– Não, Maris. A Clara puxou meu ‘bebelo, mas não é feiosa não. Ela é legal, né Clara?
– Sei não, – a tal Maris respondeu na minha frente e me olhou de cima a baixo. – Você puxou o cabelo da Jujuba. Eu não confio em puxadoras de cabelos. Eu não tô nem aí se é da Valquíria.
A tal Maris não era muita coisa mais alta que eu, mas de repente pareceu tão grandona quando a maman. Acho que talvez era melhor eu ir embora.
– Mas Maris, a Clarice é legal – Jujuba protestou. – Ela não fez por mal.
– É, não foi querendo e eu não vou fazer mais não.
A Maris não pareceu convencida, mas a Jujuba me puxou para sentar com elas sem dar chances de nenhum protesto de ambas as partes. Eu não estava me sentindo nada confortável ali. Era tão desconfortável que nem me sentia totalmente dentro do pequeno espaço. Como se eu quisesse ir para lá, mas o olhar bravo e cheio de julgo de Maris não me deixasse entrar.
– Esse não é o seu lugar – Maris interrompeu meus pensamentos. – Os novatos ficam ali!
– Oxe, desde quando? – A Ju perguntou.
– Desde hoje. Eu mando aqui, eu faço as regras.
Eu quis responder, mas segurei. Essa garota chata não me deixou sentar perto da Jujuba para assistir o filminho que iria passar. Eu não queria sentar nas cadeiras, eu queria sentar no puff, mas a chatonilda não quis deixar.
Sorte a dela que eu não quero causar encrenca com a maman, senão ela iria ver!
Uma tia aleatória entrou distribuindo suquinho e um balde de pipoca. Eu amo pipoca!
– Oi, mocinha. Você chegou depois, não foi? – A tia perguntou. – É a sua primeira vez aqui?
– Uhum.
-E você não está usando a sua pulseirinha? – Ela olhou rapidamente meus pulsos. – Certo. Não tem problema. Eu vou buscar mais pipoca e um suco para você.
Agora que a tia falou, eu percebi que todo mundo tinha uma pulseirinha, menos eu. Era para eu ter uma também?
Poucos minutos depois, a tia chegou com o balde de pipoca e suco de morango. Eu já não estava nem aí se estava sentada na cadeira ou no puff, eu queria comer minha pipoca.
– Olha só… ela é tão bobona que a mommy dela nem comprou um copo pra ela! – Maris apontou para mim rindo.
Olhando ao redor, percebi que todo mundo tinha um copo diferente, fofos e legais, menos eu.
– Sem pulseirinha, sem copo… tem certeza que você está no lugar certo?
– Para, Maris. Você está sendo malvada.
– Ah, qual é? Vai dizer que virou melhor amiga dessa feiosa? Ela é piolhenta e puxou o seu cabelo!
– Eu não sou piolhenta!
– Fica calada aí, ninguém falou com você.
– Mas você está falando de mim.
– Nhenhenhe.
– Sua bobona feiosa.
– É você, sua chata piolhenta!
Jujuba levantou brava e deixou seu suco e pipoca na mesa. – Eu num quero mais ficar aqui. Vocês só sabem briga! Eu vou voltar para minha mama.
– A bebezona vai pro colo da mamãe pedir peitinho.
– E daí?! O leitinho é meu, eu mamo quando eu quiser! E eu não sou bebezona – Jujuba veio até perto de mim e me ofereceu a mão. – Vem, Clarice. Chega de ficar aqui. Vamos ficar com as nossas mamães que o leitinho delas é muito melhor que o lanchinho daqui.
– Mas a maman não tem leitinho…
– Ué, a tia não tem? – Jujuba perguntou confusa. – Mas ela não é a sua mama?
– Ela é, mas…
Maris começou a rir. – A Clarice Chatice é tão chata que nem a mommy dela quer dar leite para ela… ou vai ver ela não é um neném de verdade e por isso não merece ter.
– Maris! Para já com isso. – a Ju bateu o pé no chão brava.
– Que foi? Eu só falei a verdade. Das duas coisas uma; ou a Clarice Chatice não é uma pequena de verdade ou a Val não é uma mommy que preste. Deve ser por isso que ninguém quis ser baby dela antes e aí sobrou a feia piolhenta e ela teve que ficar… vai ver vocês duas se merecem.
– Você não fala da minha maman!
– Falo sim, Clara cara de capivara e Val cara de animal. Vocês duas já podem fazer uma fazenda… fazenda sem vaca, já que não tem leite.
– Não fala da minha maman!
Sem pensar muito eu empurrei a Maris. Brava, ela puxou o meu cabelo e eu revidei mordendo o seu braço sem soltar.
– Sai de mim seu animal!
Maris continuou a puxar meu cabelo e eu não iria soltar o seu braço até que soltasse o meu cabelo. Ela falou mal da minha maman e merecia ser mordida!
Não deu nem um minuto de gritaria para um monte de gente grande aparecer, entre eles estava uma mulher um pouco mais alta que eu, cabelos pretos no ombro e um olhar de que iria matar nós duas.
– MARISTELA! – Uma mulher de cabelo preto gritou e a Maris no mesmo instante soltou meu cabelo.
Antes que eu pudesse processar, ouvi o meu nome sendo chamado em um sotaque muito mais carregado.
– Clarice. Solta. Já. Essa. Menina.
Eu abri a boca deixando Maris escapar, mas não tive coragem de me mover. A maman estava com cara de brava e olhar em chamas. Eu me ferrei muito, muito.
– Foi a Clarice que começou! – Maris apontou.
A maman me olhou esperando resposta. – Mas foi porque ela disse que você não é uma maman que preste porque não tem leite.
– Você o que, Maristela?! Você está muito encrencada, mocinha! Muito encrencada. Venha já para cá.
Perto da sua mommy, Maris era um anjo… mesmo ela sendo bem mais baixinha e ter cara de gente boa. O oposto da minha maman que além de muito alta tinha cara de má. Você já viu a cara de má da minha maman? É assustador!
– Você vai bate n’eu?
– Vamos para casa, Clarice.
Eu que não iria ser doidinha de desafiar a maman. Só aceitei o meu destino e saí ao seu lado. Coitado do meu bumbumzinho mais tarde!
– Não fique assim, Kyrie – a Gio disse quando estávamos de saída. – Pense pelo lado positivo, dessa vez não foi com a Juliana e eu não vou precisar dar uma lição na sua “petite”.
– Como se eu fosse permitir… e é melhor não ousar encostar um dedo na minha petite na minha ausência. Eu não preciso estar perto para te matar.
– Então é melhor você se comportar, dona Clarice. Se aprontar comigo, vou te deixar no cantinho. Eu não preciso te dar palmadas para te colocar na linha.
Eu me escondi um pouco atrás da maman… a tia Gio era um pouco assustadora quando queria, nem parecia que era a mama da Jujuba – o maior neném do mundo. Literalmente. Ela só não é mais alta que a maman.
O caminho de volta para casa foi um baita silêncio. A maman não falou nada e eu também fiquei com medo de falar e deixar ela mais brava com eu. Em algumas horas ela vai ter que viajar para bem longe e eu consegui fazer caquinha mesmo assim.
Quando chegamos até o Chlô percebeu o clima estranho e veio desconfiado para o nosso lado. Eu quis brincar com ele, mas não sabia se a maman iria dar uma bronca antes ou… sei lá.
– Maman?
– Oui, mon bébé.
– Você… você tá brava com eu?
Ela respirou fundo e se sentou no sofá da sala. – Senta aqui comigo.
– Isso é você me chamando para dar palmadas no meu bumbum?
– Não, isso sou eu te chamando para ficar comigo no sofá.
Fiquei desconfiada, mas fui mesmo assim. Esperava palmadas e recebi abraço e beijinhos. O que significava tudo isso?
– O que você fez foi muito errado, você sabe disso, não sabe?
– Mas maman, aquela garota má falou um monte de caquinha e-e-e…
– Bébé, se acalma – a maman me interrompeu. – Maris é um tanto… complicada. Mas enfim, não dê ouvidos ao que ela disse, d’accord? Você tem que ouvir o que sua maman diz para você, – ela me puxou para o seu colo e me fez cócegas nas costelas. – E eu, sua maman, estou dizendo que você é o neném mais lindo desse mundo, a minha pequena – ela me encheu de beijinhos no pescoço e rosto me fazendo gargalhar. – E eu te amo muito, muito, muito.
A maman me abraçou e de repente toda raiva e medo que estava sentindo foi embora, só restou aconchego e conforto que é está em seus braços…, mas durou pouco. Bastou lembrar que a maman está indo embora para esse calorzinho no peito ser substituído por saudades.
– Oh, mon amour, não chora – a maman limpou minhas lágrimas com os dedos, – Vai ficar tudo bem, a maman vai voltar para você.
– Mas…, mas e se a maman não quiser mais voltar? E se não quiser mais eu?
– Então terão me raptado e colocado uma sósia no lugar porque isso nunca irá acontecer, mon amour.
– Você promete?
– Prometo.
– De dedinho? – Levantei o dedinho e a maman entrelaçou os nossos dedos.
– Oui, mon bébé. De dedinho.
– Se não cumpi vamos cortar seu dedinho – a encarei séria e a maman deu risada – Te amo, maman, – eu deitei a cabeça em seu ombro e ela me abraçou.
– Je t’aime aussi, bébé.
A maman me deitou em seu colo e me ofereceu o tetê para eu mamar. E por mais que o tetê da maman fosse a coisa mais deliciosa e preciosa desse mundo e eu fosse morrer de saudades todos os dias, mamar agora não foi legal. Eu não queria escorregar para mais fundo sabendo que logo mais teríamos que ir para o aeroporto. E não conseguia me concentrar em outra coisa senão na saudade que crescia e o alerta gritando para eu ficar grande o quanto antes para doer um pouco menos.
Com muita dor no coração, eu desisti de mamar e me contentei em abraçar a maman. Ela me abraçou de volta e deu um beijo demorado no topo da minha cabeça. Nós ficamos assim por um bom tempo até o celular despertar nos alertando que precisávamos nos preparar.
Quem iria viajar era Val, mas quem estava cheia de bolsas era eu. Enquanto ela levava consigo somente uma mala de mão e um casaco de inverno nos braços, eu estava carregando a bolsa do Chloée, minhas coisas da faculdade que estavam aqui, meu kit de aquarela que a Val me deu e um travesseiro dela que eu roubei – e provavelmente nunca mais iria devolver.
– Parece que você está de mudanças, eu não gosto disso.
– E você realmente vai viajar só com isso?
– Eu só preciso de agasalhos para sobreviver o inverno até chegar em casa, tenho roupas o suficiente por lá, não preciso levar mais.
Por um momento pensei que fosse dizer que estava voltando em poucos dias, mas as vezes eu me esqueço que Val e eu somos de realidades beeem diferentes. Ela deve ter um guarda-roupa para cada imóvel da sua família… guarda-roupa não, closet. E enquanto isso eu me sentindo culpada por ter roubado algumas camisas dela sem que ela percebesse. Que foi? Eu preciso de algo para usar como fronha do meu novo travesseiro que tenha o cheiro dela.
Antes de irmos ao aeroporto, nós passamos no meu apartamento para eu empilhar mais coisas sobre a pilha de caixas que estão para arrumar e deixar o Chloée sob os cuidados de Glória temporariamente.
Pisar no aeroporto de Guarulhos me causou um nó no estomago. Ainda faltava um tempo, iriamos “jantar” e só então Val iria atravessar a faixa que eu não poderia a acompanhar. Mesmo assim o gosto amargo estava ali, tirando meu apetite e me fazendo querer chorar.
– Você não vai comer, ma vie?
– Estou sem apetite.
– Agora eu estou realmente preocupada. Você sempre está com fome.
– Mas essa comida tem gosto de despedida e eu não gosto disso. Não estou preparada para passar meu dia sem você falando no meu ouvido.
– Eu vou continuar falando no seu ouvido o dia inteiro e aí de você se não responder minhas mensagens ou atender minhas ligações. Aliás… eu tenho algo para te dar.
A olhei desconfiada. – O que?
– Era para ter te dado há muito tempo, desde quando saiu do hospital, mas como estava sempre comigo eu não achei necessário… e aí você sumiu ontem, me fazendo perceber que quando se trata de você precaução nunca é demais, – ela tirou uma caixa retangular da bolsa, – é por isso que eu quero que use isso. É um relógio desses modelos smart.
– Ah…, mas por que isso?
– Para te achar caso resolver sumir outra vez. Ou pedir socorro se alguma coisa acontecer e não tiver o celular em mãos.
– Está querendo me rastrear e saber o que ando fazendo, é? Você é mesmo possessiva – brinquei e pelo olhar de Val, ela não curtiu muito a piadinha.
– Você acha mesmo que eu faria isso através de um relógio quando posso simplesmente contratar seguranças a paisana para te seguir? Você me subestima tanto.
Val deu um gole em seu vinho como se tivesse dito a coisa mais natural do mundo enquanto eu a encarava desconfiada.
– Você… contratou seguranças para me seguir?
– O que você acha?
Desconfiada, eu olhei ao redor a procura de suspeitos.
– Não seja boba, Clarice. Não tem segurança nenhum.
– Você está zombando da minha cara?
– O que você acha?
– Eu acho que você tem que parar de me perguntar o que eu acho. Bobona.
– O que eu posso fazer? Você fica tão fofa quando finge de brava.
Revirei os olhos. – Se continuar assim quem vai embora e te deixar sozinha sou eu.
– Você não vai, – Val abriu a caixa do relógio e tirou o objeto para colocar em meu pulso. – Você não iria conseguir ir para outro lugar sabendo que eu estou aqui. Você está presa comigo.
– Se eu fosse você não estaria tão segura disso, – Val levantou o olhar para mim e foi o suficiente para destruir a minha marra. – Tá, você tem razão. Eu não iria para lugar algum. Você é bem convencida quando quer. Se não fosse canceriana, iria achar que é leonina.
– Se te faz sentir melhor, eu também não iria para lugar nenhum. Eu também estou presa a você, – ela terminou de fechar a alça do relógio. – Conecta no seu celular. Se eu não me engano o aplicativo já está nele. É prova d’água, então não tem desculpas para não usar a não ser que esteja carregando e mesmo assim, é capaz de eu voltar antes mesmo que precise carregar a primeira vez.
– Tá bom, mãe. Já entendi, – revirei os olhos.
Val segurou o meu rosto pelo queixo e se inclinou para falar perto do meu ouvido. – Não me chame assim nesse tom se não quiser que eu te trate como a minha bebezinha na frente de todo mundo.
– Desculpa, – ela ergueu o cenho me esperando corrigir. – Desculpa, maman.
– Boa menina, – Val deu dois tapinhas de leve em minha cabeça e fez um carinho antes de voltar para a sua skin séria. – Agora chega de manha e coma a sua comida. E é bom comer toda a sua salada.
Eu sinceramente não sabia até que nível ia a loucura da minha namorada para cumprir a ameaça. Mas entre correr o risco da humilhação e obedecer, eu fiquei com a segunda opção. Deus me livre ser tratada como uma bebezinha na frente de todo mundo para todo mundo ver. Tem gente que leva essa coisa de ser pequeno para um outro patamar que eu não estou afim de chegar. Já vi uns e outros no Apex e julguei todos eles. Limites. Eu não vou sair por aí tal qual uma Lolita de fraldas. Jamais!
Terminamos de jantar e após pagar a conta, ao invés de guardar o cartão em sua carteira, Val me entregou. – Fica com o meu cartão.
– Nem pensar.
– Eu não vou estar por perto se alguma coisa acontecer.
– E o que poderia acontecer para que eu precise disso?
– O Chloée ficar doente, o carro quebrar, a torneira da pia estourar e precisar contratar um encanador.
– O Chloée não vai ficar doente. Eu não tenho um carro. E por que raios a torneira da pia iria estourar do nada? Eu não preciso do seu dinheiro, estou bem.
– Animais são imprevisíveis. Você tem o meu carro, quero que fique com ele também. E nunca se sabe quando vai precisar de um encanador. Não tenho tempo para ficar discutindo com você, Clarice. Se não aceitar o carro, eu vou mandar um motorista te acompanhar e aí teremos dois problemas resolvidos.
A contragosto peguei o cartão. – Você realmente não sabe receber um “não”, não é mesmo?
– É mal de família.
Imagina como não deve ser a reunião de família desse povo. Ceia de natal com todo mundo disputando quem tem a decisão final sobre se pode ou não comer antes da meia-noite.
Espero que a vovó da Val fique boazinha e saia do hospital. Perder alguém querido é difícil, mas perder na época do ano em que a família costuma se reunir é ainda pior. O brilho se perde para sempre.
Nem quero pensar muito nisso. A mamãe adorava celebrar todos os feriados possíveis, planejava o natal com vários meses de antecedência. Participar da ceia sem ela por perto sabendo que ela planejou cada detalhe foi horrível, o pior da minha vida. O aniversário então… só não cancelei tudo porque era algo que ela estava muito empolgada e não falava de outra coisa, mas tinha clima de tudo menos de festa.
– Nós temos cinco minutos.
– Será que podemos ficar cinco minutos abraçadas? – Pedi já agarrada a Val. – Você me deixou muito mal acostumada.
– Oh, bébé. Isso não vai se repetir. Você vai ainda essa semana vai fazer seu passaporte ou serei obrigada a falsificar um. E vamos as duas presas.
– Na mesma cela? Se for, eu posso até considerar.
– Quer ficar presa comigo, é?
– Todos os dias.
– Nós podemos fazer isso sem ser presas. Eu gosto do meu conjunto de cama e não acho que vão ter um igual na prisão.
– Tem razão… droga, agora vou sentir falta de você e da sua roupa de cama.
Val riu. – Eu te dou um conjunto de presente de chá de casa nova.
– Eu não quero um conjunto novo, eu quero o seu… de preferência o que está na sua cama e ainda tem seu cheiro.
– D’accord… eu vou pedir o Yago para cuidar disso.
– Você é estranha, Val.
– Não sou eu que está pedindo a sua roupa de cama suja.
– Mas você está concordando com isso. Deveria me barrar.
– O que eu posso fazer? O amor mexe com a sua cabeça.
Eu apertei ainda mais o nosso abraço. Seria muito egoísmo pedir para ficar? Seria. E só por isso eu não fiz, caso contrário eu me jogaria nesse chão e faria o maior escândalo que a Val não iria querer voltar nesse lugar tão cedo.
– Sete minutos, ma vie. Infelizmente, eu preciso ir.
– Promete que vai me ligar assim que chegar lá?
– Oui, mon amour.
– E vai me mandar mensagem todos os dias sempre que puder?
– Oui.
– Você vai voltar, não vai? É sério, Val. Não vai inventar de querer ficar por lá de vez ou se apaixonar por uma francesa.
– Eu não vou ficar por lá, muito menos me apaixonar por uma francesa.
– Mas ela pode ser loira e de olhos verdes como os meus e ser alguns centímetros mais alta.
– Mas ela não terá os seus peitos.
– Essa é a minha fala.
Ela sorriu para mim. – Eu te amo, bobinha. Ninguém irá ocupar o seu lugar. E não se preocupe, eu não sou louca de deixar a minha namorada solta por aí por muito tempo. Eu vou voltar.
– É bom mesmo. Ou eu vou dar uma de Bella Swan e cometer loucuras.
– Mais? Não é o suficiente o que você me faz passar? Eu não quero ter cabelos brancos aos 30, Clarice.
– Você já não tem 30 anos há um tempo, meu bem. Está tudo certo.
– Olha só, que audácia, eu não vou nem responder isso… Nove minutos. Deu a minha hora.
– Eu te amo muito.
– Também te amo muito.
O beijo de despedida foi o mais difícil e triste da minha vida. Eu não estava pronta para deixar o meu amorzinho ir, mas não tinha escolha. Bastou ter que me soltar do seu abraço para as lágrimas que estava segurando saírem teimosas.
– Au revoir, mon amour.
– Até logo.
Fiquei ali observando Val entrar no corredor. Ela ainda me mandou um último beijo antes de passar pela porta e sumir de vista. E antes disso eu já estava chorando muito, depois eu chorei muito mais.
Como pode sentir tantas saudades de alguém que há um minuto estava me abraçando? Aí Deus, eu só espero que a Val volte logo ou eu vou falecer de abstinência do seu colo e carinho… é isso Clarice, acabou a mamata… literalmente.
Hora de voltar a realidade sem a Val.
Que dor!
«-»
Gostou? Não esqueça de comentar! Até a próxima…
Au revoir!
