Elora Aneva

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26. Des temps de paix ? Dans mon histoire ?!

« C L A R I C E »

O sono estava quase me vencendo outra vez quando senti um dedo cutucar meu rosto delicadamente. Abri os olhos e me encontrei com o sorriso de Val, bastou essa imagem para me convencer a mantê-los abertos apesar do sono.

– Você ainda precisa jantar, mon amour – ela disse, sua voz suave e calma. – Nada de dormir por enquanto.

Resmunguei sonolenta e me aninhei ainda mais em seu colo, afundando meu rosto contra seu peito. Dizer que ser amamentada assim não causava certa estranheza seria mentira, mas poderia facilmente me acostumar. Não era a primeira vez que tinha o seu seio em minha boca, somente todo o contexto era totalmente diferente e causava outros efeitos em mim. Nunca usei drogas para comparar, mas acredito que a sensação de relaxamento deve ser a mesma ou bastante semelhante.

Tudo isso porque não tem leite, imagina se…

Calma, Clarice. Calma!

Você não quer essas coisas. Você só… está curtindo o momento e essa nova aproximação. Você não é como aquelas pessoas. Te aquiete.

– Eu quero papar… comer, – me corrigir.

– Vem, vamos lá.

Val me ajudou a voltar para cama e pediu que o meu jantar fosse servido. Quando a comida chegou, ela se sentou na beirada da cama e me ajudou a comer. Era em momentos como esse que me sentia grata por não depender da minha… dos meus parentes. Eu poderia comer sozinha, mas o esforço seria tanto que iria desistir no caminho e eu tenho certeza que nenhum deles teriam a paciência de me dar algo na boca.

– Mais uma? – Val perguntou oferecendo a colher de comida. Eu terminei de engolir o que estava em minha boca e aceitei de prontidão. – Está bom?

Concordei com a cabeça. – Não tanto quanto a sua comida.

– Mas é melhor ir se acostumando, você não vai deixar de comer nenhuma refeição, estamos entendidas?

– Nenhuma?

– Clara… sua alimentação faz parte do seu tratamento. Você está com anemia severa e só irá sair daqui quando se estabilizar. Não comer será prolongar o seu tempo aqui e eu não acho que é o que você vai querer.

Prolongar meu tempo aqui? Não, não quero não!

Até abri a boca pedindo mais comida depois dessa. Embora o Fernando esteja se esforçando para tornar o tempo aqui menos desagradável, eu quero ir para casa. Quero dizer… eu antes preciso resolver o problema do apartamento antes de chamar de casa. Como eu fui ficar doente logo agora? Talvez mais um mês fazendo meus extras eu iria conseguir o dinheiro que o proprietário pediu ou quase isso.

– Que careta é essa? O que está pensando?

Se fosse alguns dias atrás eu teria desconversado e mudado de assunto, mas depois de tudo que aconteceu, esconder a realidade da minha namorada seria tolice. Eu não quero que ela resolva a minha vida por mim, eu sei que sou muito capaz de resolver eu mesma. Mas ela é a minha namorada e se preocupa comigo, literalmente está ao meu lado no momento mais difícil, nada mais justo que também ser a pessoa com quem posso confiar e conversar sobre tudo.

– Sobre quando eu sair daqui… para onde eu vou – acrescentei.

Val não precisou falar para eu entender que já havia planejado tudo, seu semblante denunciou. Ela só não me contou ainda. – E o que pensou sobre isso?

– Eu? Nada, mas pelo visto você já tomou sua decisão por mim – ela deu ombros discretamente.

– Ainda não sei até que ponto posso confiar que se cuide sozinha. Seu histórico não ajuda e eu não quero voltar para esse lugar porque certo alguém deixou de tomar os remédios e se alimentar corretamente… aliás, eu ainda quero saber o porquê. Eu me recuso acreditar que simplesmente só se esqueceu ou fez pouco caso, porque se for isso mesmo, pode se preparar para me ter na sua cola quando receber alta.

– Minha tia jogou os remédios fora, – fui direta.

– Quoi?!

– Ela disse que não precisava deles e que meu problema era falta de fé. Depois disso o resto foi negligencia mesmo, eu confesso e eu sei que eu estou errada. Eu deveria ter falado com você e ter voltado com os remédios o quanto antes. Você pode me xingar o tanto que quiser depois, mas agora eu só… não quero falar deles.

– Pelo menos você sabe que eu vou te xingar muito quando receber a sua alta, – ela sorriu.

– Os médicos disseram quanto tempo vou ter que ficar aqui? Quando eu vou receber alta?

– Vai depender de você, mon amour. Eles acreditam que dentro de quinze a vinte dias já receba a sua alta.

– Vinte dias?!

Agora fedeu tudo… eu não acho que vou conseguir negociar um outro prazo com o proprietário. Vai tudo para o lixo… Meu deus, e a minha faculdade?!

– Clara, você está fazendo caretas de novo. O que está pensando?

– Eu vou perder o prazo do acordo do apartamento e me ferrar na faculdade por causa dessa internação. Falta pouco para o fim do semestre, eu…

Val colocou a mão sobre a minha. – Se acalma. Nós podemos resolver isso. Tanto a faculdade quanto o apartamento. Em ambos os casos dá para negociar um novo prazo.

Negociar um novo prazo… ouvir isso dela me deixou… aliviada(?). Eu nunca quis envolver a Val nos meus problemas por achar que fosse simplesmente estalar os dedos, resolver tudo em um passe de mágica e jogar no lixo todo o esforço de anos como se fosse nada. Para ela pode ser só mais um item na lista, mas esse é o meu sonho e eu quero sentir que é uma conquista minha e ela pode facilmente tirar isso de mim…, mas não sugeriu fazer isso como temia. Eu amo essa mulher.

– E se eles não aceitarem negociar?

– Eu raramente recebo um “não” como resposta, você já deve ter percebido isso. E no pior dos cenários, onde todos decidam não colaborar comigo, nós temos a minha mãe. Alguns dos seus métodos podem ser questionáveis, mas nunca falham. Eu mesma só conheci uma pessoa no mundo que foi capaz de dizer “não” a ela.

– Quem?

– Eu… quem mais poderia ser?

– Seu pai?

Val riu. – Ele é incapaz de dizer não para ela.

– Assim como você é incapaz de dizer não para mim?

Touché… a deixei sem reação e isso me fez rir.

– Sua… petite peste! – Ela revirou os olhos. – Coma a sua comida antes que esfrie ainda mais.

Oui, madam.

Eu comi todo o jantar, mas confesso que não queria. Por mim, poderíamos ter parado logo nas primeiras colheradas. Saber que a minha namorada esteve chorando me deixou de coração mole e por essa razão continuei comendo a contragosto porque eu sabia que era o que a faria feliz.

Prontas para dormir – agora pela noite inteira – Val se juntou a mim na cama deitando de lado com a cabeça apoiada sobre a mão. Sem entender o motivo, eu me sentia um pouco nervosa e ansiosa com essa aproximação como se esperasse por algo que não sabia exatamente dizer o que.

 – Você… – desisti no meio do caminho. A vergonha de tocar no assunto era maior que a minha vontade de falar.

– O que foi, mon bébé? – Val perguntou e passou a mão em meu rosto.

– Nada… eu… uh… não era nada.

Val estreitou os olhos e eu senti meu rosto queimar de vergonha. Será que ela consegue ler meus pensamentos?

– Eu sei o que você quer.

Sim, ela consegue ler.

Senti uma faísca de esperança dentro de mim e antecipação. Nenhum dos meus sentimentos faziam sentido em minha cabeça. Eu não estava me reconhecendo.

– Mas antes, eu vou te trocar – ela se levantou da cama.

– Me trocar? Mas eu acabei de tomar banho.

– Você vai dormir, e eu quero que durma segura e sem acidentes.

Val entrou no quarto anexo e novamente meu rosto queimou de vergonha quando a vi voltar com aquelas coisas na mão.

– Não… isso não. Eu não quero que ninguém me veja usando isso. Por favor.

– Mais pessoas vão ver se deixar acontecer um acidente. É melhor usar a fralda onde só eu vou ver. Estamos sozinhas agora, mon bébé. Confie em mim. Vai ser rápido.

Observei a Val tirar a parte de baixo do meu pijama me sentindo tensa. Eu não queria usar uma fralda para fazerem piadas de mim, mas eu também não queria fazer acidentes. A bruxa má sempre ficava muito, muito, muito brava toda vez que eu deixava acontecer. No fundo eu sabia que a… a… mam-Val estava certa, mas tudo isso me deixou inquieta.

– Ma petite, se você continuar se mexendo desse jeito irá demorar ainda mais – a Val disse tentando segurar a minha perna que eu não conseguia controlar. – Por que está tão agitada?

– Eu-eu-eu… tô medo.

Val levantou o olhar para mim curiosa e sorriu. – Tu es si mignon, mon bébé (você é tão fofa, meu bebê). Aguenta só um pouquinho, d’accord? Eu já termino.

Tentei ficar quieta, mas eu reagi a cada nova sensação contra a minha pele como se não soubesse que algo estava por vir. Quando ela terminou, eu me senti estranha. Não era desconfortável, mas não parecia ser certo. Era tão diferente das peças que estou acostumada usar no dia-a-dia.

Val me deixou sozinha por um instante para guardar as coisas e lavar as mãos. Sozinha no quarto, eu me mexi tentando me adaptar a sensação de ter uma fralda envolta em mim. Será que ela vai ficar muito brava se eu simplesmente tirar isso?

– Está apertado? – Val perguntou me pegando de surpresa. – Deixa que eu ajusto, eu quero essa sua mãozinha bem longe daí.

– Mas eu num fiz nada.

– Ainda.

Val se deitou comigo outra vez e eu engoli em seco. Fiquei sem saber para onde olhar quando ela começou a abrir os botões do seu pijama. Eu queria muito, mas ao mesmo estava envergonhada e sem graça de admitir isso. Não deveria ser assim, né?

– Você está agindo como se nunca tivesse visto meu seio antes.

– Val! – Reclamei. Meu rosto queimava de tanta vergonha depois do seu comentário.

Ela pegou meu queixo e virou meu rosto para a sua direção. – Me chame pelo o que eu sou, Clarice.

Mais uma vez engoli em seco sob o seu olhar.

Era um teste, eu sabia. Eu não sou bobona. Eu só… não sabia o que iria acontecer se eu errasse a resposta. Mas admitir isso… era, era, era um pouco vergonhoso. Eu não sou uma… uma… uma-little-como-eles-dizem.

– Mo-mo-momy?

Oh, s’il vous plaît, pas en anglaise (oh, por favor, em inglês não) … – Val revirou os olhos, – para você é “maman”.

– Oh… tá bom… desculpa – ela me olhou me esperando completar a frase: – maman, – sorri amarelo.

– Boa menina, – ela sorriu e me deu um beijo na testa. – Alors, vem mamar para você dormir. Já passou da sua hora.

Minhas questões e receios sobre toda essa situação foi embora rapidinho no momento em que abocanhei o meu tetezinho. Eu gosto dessa aproximação e intimidade com a Va-maman.. era diferente e dava um colorzinho no peito. A maman ficou me observando em silêncio enquanto me fazia cafuné nos cabelos. Aos poucos meus olhos foram ficando pesados, o corpo leve e a mente tão lenta quase parando…

Acordei, mas não queria. Eu estava num soninho tão gostoso que queria continuar assim, só que a umidade entre minhas pernas estava me incomodando. Era a fralda, ela estava molhada, molhada até demais. Eu me mexi tentando me livrar dela, mas ainda estava presa em mim, causando um desconforto e incomodo.

Toda essa sensação estava me deixando agoniada. Eu queria voltar a dormir e não conseguia. E tudo isso me deixava frustrada e me dava vontade de chorar.

– Oi, mon amour. A maman está aqui, – ouvi a voz da Val e logo em seguida ela estava ao meu lado me abraçando. – O que foi, hein?

Eu me agarrei a sua camisa e choraminguei. Ela esfregou as minhas costas e com outra mão apertou minha fralda para checar meu estado. Isso foi o suficiente para ela entender o meu sofrimento e me ajudar a livrar dessa angustia.

– Eu sei, mon bébé. A maman já vai trocar.

Se com a fralda estava ruim, abrir ela foi pior. O ar frio em contato com a minha pele me deixou ainda mais desconfortável, porém foi o lencinho gelado que me fez resmungar ainda mais. Eu estava sentindo frio, será que a maman não percebia isso?

– Já está acabando, ma petite. Só mais um pouquinho.

A maman tinha razão. Pouquinho tempo depois a agonia passou e eu estava sequinha outra vez, mas o sono que é bom… foi-se embora. Eu não conseguia mais mimir. Faltava alguma coisa.

– Ainda é cedo, meu amor. Volta a dormir.

– Maman?

– Oui, mon amour.

– Deita com eu.

Sem questionar, a maman se deitou ao meu lado e me abraçou. Com calor do seu corpo, eu me senti mais confortável e segura para dormir…, mas ainda não era o suficiente. Eu queria mais. Mais da maman.

Tetê?

– Você está ficando viciada nisso, eu não sei até onde isso é bom – ela disse tirando o peito mesmo assim. – Aproveita agora que ainda é cedo e ninguém irá vir aqui.

Com o tetê na boca o sono veio rapidinho e eu voltei a mimir.

« V A L K Y R I E »

Observar a diferença entre Clarice grande e pequena era um fenômeno bastante interessante e intrigante para mim. Eram duas versões completamente distintas e ao mesmo tempo se assemelham tanto. Cuidar de uma pequena nunca esteves nos meus planos… namorar uma mulher nunca esteve nos meus planos, mas eu não poderia estar mais feliz por essa reviravolta na minha vida.

Um pouco de emoção não faz mal a ninguém… Clarice e eu, porém, já podemos nos aquietar e deixar as emoções para um futuro um pouco distante. Estamos namorando a pelo menos cinco meses, quer dizer, eu namoro a Clarice a pelo menos cinco meses. Ela, no entanto, me namora a menos tempo por ser uma boba.

E cá estou eu, depois de passar a manhã com a minha bebê, estava pensando nela ao invés de trabalhar. Eu queria entender um pouco melhor desse universo e a única forma de fazer isso era pesquisando. A Gio me disse que muita coisa era pelo “feeling”, mas se for esperar que eu tenha o tal “feeling” então isso nunca irá acontecer. Sorte a minha que ela irá me emprestar alguns livros.

Quando finalmente consegui me concentrar em minhas obrigações e colocar a mente para funcionar, alguém bateu na porta para me interromper. Normalmente esse alguém é a minha Clarice, mas como ela não está, eu já estava irritada sem nem mesmo ver quem era.

– Kyrie, – Giovana deu as caras pela fresta da porta antes de entrar. – Você está muito ocupada? Nós precisamos conversar.

– Depende. Qual o tema dessa conversa? Se veio falar de trabalho eu estou ocupada, – respondi sem parar as anotações que estava fazendo.

– É sobre a Clarice.

Imediatamente larguei a minha caneta sobre a mesa e levantei o olhar para a minha amiga. Sua expressão não era nada boa e isso me preocupou.

– Chegou isso mais cedo em nome dela, – ela estendeu um envelope com carimbo oficial, o tipo que carrega más notícias. – Como sua advogada, eu tomei a liberdade de abrir e investigar o que está acontecendo.

Abri o envelope e li por cima o conteúdo da carta. A cada linha que percorria, maior o absurdo que lia.  

– Mas que merda significa isso, Giovana?

– Clarice foi citada em um processo penal. Ela está sendo acusada de tentativa de homicídio.

– A Clarice? Tentativa de homicídio? – Eu ri tamanho absurdo. – E quem é o desgraçado que está a acusando?

– O pai dela.

Esfreguei as mãos no rosto. Eu não tenho um capítulo em paz. Um!

– Isso só pode ser uma piada de mau gosto. É óbvio que esse desgraçado está querendo alguma coisa com isso. E o que ele alegou?

– Diz o anexo que a Clarice teria deferido golpes na cabeça da vítima com um objeto metálico na noite da última sexta-feira em casa. Para mim, isso soa mais como uma legitima defesa que tentativa de homicídio, especialmente por tudo que aconteceu depois. Você sabe de alguma coisa?

– Eu não quis tocar no assunto com a Clara para não a deixar nervosa e voltar a sangrar, tudo que sei foi o que a prima contou e ela não estava lá na hora… e agora? Ela terá que comparecer na delegacia ou algo do tipo?

– Como ela está no hospital não será necessário comparecer pessoalmente à delegacia ou ao fórum, mas pode ser que seja interrogada lá mesmo.

– Você vai assumir isso, não vai? – Perguntei.

– Eu não posso. Eu não sou advogada criminalista, mas já acionei alguns advogados de confiança que são referência na área e estão com o anexo da citação para cuidar do caso.

Tendo em vista que Pedro Henrique estava por trás das fotos, eu não ficaria surpresa se essa a ideia de processar a Clarice viesse dele também. Por fim, quem irá pagar o pato será o genitor dela. Se ele tivesse ficado quietinho em seu canto, poderia viver o resto da vida infeliz tranquilamente, mas ele decidiu cutucar a onça dormindo e vai apodrecer na cadeia.

– Liga para a Maristela.

– A Maris?! – Giovana arregalou os olhos surpresa. – Você tem certeza?

– O pai dela é desembargador, não é? Ela me deve alguns favores, – dei ombros.

Se Pedro Henrique quis jogar sujo usando o pai da Clarice, eu vou jogar mais sujo ainda usando o pai da Maris…

Embora eu estivesse puta, pelo bem do meu amor, eu precisei me acalmar e recompor antes de voltar ao hospital. Pela conversa que tive com Giovana e os advogados que irão cuidar do caso, é possível deixar Clarice fora disso por alguns dias. Eventualmente ela teria que contar sua versão da história para nós e para o delegado, mas enquanto eu puder proteger seu mundinho, é o que eu farei.

Eu sinceramente não esperava que fosse aceitar tão fácil e querer conhecer mais a fundo esse ladinho de Clara. Todos esses anos no Apex nunca me despertou o meu interesse em explorar esse lado, meus interesses eram outros. E agora eu me via numa loja infantil procurando um presentinho para a minha bebê.

– Eu não acredito nisso, – Bruno disse horrorizado. – O próprio pai? Que filho da puta. E o que você pretende fazer?

– Foder com a vida dele de volta, – me virei para Bruno para lhe mostrar os itens que peguei. – O que você acha? Eu li que os pequenos tem itens de conforto e eu pensei dar um doudou para a Clara.

Bruno me encarou com julgo. Nós estávamos falando de um assunto muito sério e eu simplesmente mudei o tópico repentinamente. Qualquer pessoa normal em meu lugar estaria muito preocupada com o resultado dessa ação, eu também estaria se precisasse contar apenas com o trabalho dos advogados. Mas embora o meu estilo de vida seja bem diferente do resto da minha família, eu ainda sou uma Touchon e vou fazer da Clarice uma. Eu faço as regras desse jogo e não tinha com o que preocupar além de comprar um presentinho para o meu bebê.

– Você está realmente empenhada nisso, não é mesmo?

– Embora a Clara não admita ainda, ela se sente bem regredindo. Um pouco de incentivo não vai fazer mal.

– Eu sabia que você iria mergulhar de cabeça nesse papel… eu só espero que saiba que eu não vou servir de babá caso um dia precise.

O encarei de soslaio. – Você sabe que vai.

– Não mesmo.

– Vai sim. Você sempre faz tudo que eu te peço.

Bruno fez uma careta de desgosto. – Não pense que eu faço isso porquê eu gosto de você. Eu faço porque nós temos um acordo.

– Ainda? Eu pensei que tinha desistido… eu estou ficando velha, sabe disso né? Eu não vou gestar nenhuma criança aos quarenta.

– A minha cartomante disse que o amor da minha vida está próximo. Estou esperando pelo meu bofe encantado.

– Isso não foi há dois anos? Essas previsões não prescrevem?

– Olha, se você me atacar eu vou te atacar… piranha.

Se o meu melhor amigo tem esperanças de encontrar o amor da sua vida, príncipe encantado, não sou eu que irei o desmotivar, afinal eu encontrei o meu amor da minha vida e não estava sequer procurando. Mas, entretanto, todavia, acho que dificilmente ele irá encontrar alguém se não sair do seu círculo social fechadíssimo. E isso é uma autocrítica, eu também sou muito fechada para novos amigos. Sorte a minha que a Clara invadiu meu espaço…

Eu desisti do doudou, o tecido não me agradou muito e decidi mandar fazer um personalizado. Mas ter desistido dele não significava que saí da loja de mãos vazias. Eu achei um kit de pintura artística infantil que era uma caixa de madeira que aberta dava para ser usada com um mini cavalete. O tamanho era perfeito e poderia ser facilmente usado da cama… se trocasse as tintas por lápis aquarela e caneta de aquarela. Não sou louca de dar tintas para Clara usar em cima da cama, as chances de dar merda são tão gritantes.

Nós estávamos saindo do shopping perto da minha casa quando a Clara me ligou e eu prontamente atendi.

– Oi, mon amour.

– Você… você já tá vindo?

O jeito que Clarice falou comigo me levantou suspeitas. Ela estava regredindo sem mim?

– Sim. Eu e o Bruno acabamos de terminar por aqui e estamos a caminho. Suas visitas já foram embora?

– Não. O Theo está aqui ainda, ele foi na cafeteria…

– Está bem… e você me ligou para…?

– Eu só… uh… você… banana.

Clarice estava tão envergonhada que eu consegui ouvir todo o sangue do seu corpo ir para o seu rosto.

– Não entendi, meu amor. Que banana?

– Eu quer, – murmurou quase inaudível.

– Oh! Oui, mon bébé! Eu não demoro chegar.

– Tá. Até depois.

Sem mais nem menos, Clarice desligou a chamada sem antes me dar a chance de perguntar qual o tipo de banana queria. Na dúvida, levarei a mais doce. Ela é do tipo de pessoa que gosta de coisas doces.

Bruno me acompanhou até o hospital, dessa vez apenas como visitante. Ainda do corredor era possível ouvir as risadas de Clara e Theo. Somente isso foi o suficiente para me fazer sorrir tal qual uma bobona.

– Val! Você chegou, – Clara estendeu os braços me chamando para um abraço.

Deixei o que trouxe no sofá e fui a abraçar sem me importar com a presença do Theo. Não era como se ele não soubesse também.

– Você abraçando alguém… e ainda queria me convencer de que não são um casal, – Theo comentou com julgo. – Vocês nem disfarçam.

– Você sabe? – Clara perguntou surpresa.

– O fato que vocês se pegaram na festa, isso aí não é novidade para ninguém. Todo mundo viu. Eu suspeitava que ainda tinha algo sério, mas confesso que fiquei surpreso por estar certo. Aliás, quando vão assumir para o mundo de fato? Fizemos um bolão e eu estou muito afim de ganhar.

– Quais foram as apostas? – Perguntei curiosa.

– Amanda acha que foi apenas um beijo. Matheus suspeita que vocês continuam se pegando no sigilo. Barbara acha que você tem interesse na Clara e a Clara não quer algo sério. Letícia acha que a Clara tem um crush em você, mas você não dá bola. E eu sempre soube que iriam eventualmente acabar juntas, só não imaginava que estavam.

– Viu só, não sou só eu que viu isso logo de cara – Bruno comentou. – Mereço um presente por ter reunido esse casal. Um vinho cairia bem. E esse rapaz aqui merece ganhar o bolão. Então se assumam.

Clarice e eu nos entreolhamos.

Não… ainda não é o momento para que todos no trabalho saibam disso. Seria só mais uma coisa para Clara lidar e eu tenho certeza que os comentários não serão poucos. Se o Bruno e Theo que nem se conhecem conseguiram encher a nossa cabeça, imagina aquele povo todo. Não, melhor não.

Os dois ficaram até um pouco depois das nove. Clarice estava rindo tanto que eu não tive coragem de dizer que estava ficando tarde e a minha garota precisava se preparar para dormir. Eu estava com saudades de ver a sua versão descontraída e sorridente.

– Alors, ma petite. Hora do banho para você dormir.

Aos poucos eu conseguia ver a minha Clarice de volta. Ela estava um pouco mais forte, não o suficiente para se colocar de pé sozinha e se manter, mas consideravelmente melhor. Durante o banho ela não parou de falar um minuto sequer narrando tudo que aconteceu na minha ausência e como tinha saudades do seu amigo Theo.

– Você não dormiu essa tarde, dormiu? – Perguntei enquanto colocava a sua fralda. Clara negou com a cabeça e bocejou. – Eu posso ver isso.

– Deita aqui com eu, – pediu deixando o seu lado pequeno dar as caras. O sono parecia ser um verdadeiro aliado na hora facilitar sua regressão e ela parecia tão fofinha.

– Eu já vou, bébé.

Terminei de colocar a fralda e o pijama de Clara para finalmente me juntar ao seu lado na cama. Eu já estava pronta para lhe dar mamar, afinal, sentia como se tivéssemos começado uma nova rotina, mas o sono da pequena era tanto que ela me abraçou afundando o rosto contra o meu peito e dormiu.

E pensar que essa mania de me abraçar assim na cama sempre existiu e agora tem todo um outro sentido. A cada momento que passa, me dou conta que seu lado pequeno esteve presente esse tempo todo, nós só não tínhamos percebido ainda.

Mas não se preocupe, mon bébé. Agora que te vi, eu não vou te deixar ir embora mais.

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