Elora Aneva

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25. Si vous permetezz glisser

« V A L K Y R I E »

O suspiro de Clarice me fez acordar de repente. Por um segundo meu corpo tensionou completamente esperando o pior, depois dos eventos dessa noite eu me sentia em total alerta para qualquer coisa. Para o meu alívio, Clara só estava dormindo… dormindo com meu peito ainda em sua boca, mas dormindo. Nada demais. Ainda bem.

Eu usei o dedo para soltar meu seio dos seus dentes. Ela resmungou um pouco, se aninhou contra meu peito e continuou dormindo em paz. Ainda faltava algumas horas para a manhã, mas já podia dizer que essa era a primeira noite em que a Clara dormiu inteira desde que esse inferno começou. Finalmente…

“Um bebê descansado, é uma mãe descansada” era o que dizia minhas amigas mães e agora podia entender. Eu ao menos consegui aproveitar as últimas horas da madrugada para dormir sem sustos e tensão. Confesso que já passei períodos muito maiores de privação do sono, mas a exaustão que sentia agora era algo de outro nível, muito além do físico.

Acho que preciso de umas férias…, mas para isso preciso dar férias a minha estagiária também.

Deitei Clarice na cama outra vez, apesar de reclamar e resmungar, continuou dormindo um sono pesado, porém inquieta. Algo estava perturbando a sua paz durante o sono, mas não pareceu que estivesse tendo outro pesadelo. Tive um clique na mente e pensei em verificar a sua fralda e logo encontrei o motivo do seu desconforto: estava molhada e fria.

Entrei em um pequeno dilema interno se apenas retirava ou colocava outra. A partir do momento que Clara acordar e se der conta do que fiz, com certeza irá ficar nada contente. Isso se não brigar e ficar com raiva de mim. A questão que ficava era: eu prefiro lidar com a raiva da Clara ou com os riscos de outra queda e crise? Vai ser mais fácil lidar com sua cara fechada ou o nariz sangrando?

Eu só espero que você não me odeie tanto, mon bébé…

Ainda faltava quase meia hora para o horário do café, o que significava que teríamos esse tempo de privacidade. Era mais o que suficiente para fazer a troca sem que nos interrompesse ou que tornasse ainda mais constrangedor para a Clara.

Tirei o short de Clara e abri as alças laterais da fralda. Com o lencinho umedecido, limpei suas partes intimas com cuidado para não a despertar do sono. Descartei a fralda suja e substitui por uma limpa antes de passar a pomada e polvilhar o talco. Sequinha outra vez, Clara voltou a dormir sem franzir o cenho desconfortável. Ela poderá até reclamar de usar a fralda, mas não vai poder negar que dormiu muito melhor durante a noite.

O café da manhã chegou e a bela adormecida ainda dormia. Não tive coragem de a acordar e deixei que dormisse por mais tempo. Eu mesma precisava desse tempo para cuidar de mim mesma e tentar ver algumas pendências do trabalho que estão se acumulando.

Era pouco depois das nove quando Clara abriu os olhos sonolenta. A luz extremamente fria do hospital deixava os seus olhos em um tom de verde ainda mais claros que o habitual. Meu passatempo favorito era observar as variações das suas cores. Desde verde ao azul, às vezes cinza e até castanho dependendo da luz do ambiente. Os olhos dela são os mais lindos que já vi e nunca decepcionavam.

– Bonjour, mon amour – eu deixei o laptop de lado e me levantei para me aproximar da cama.

Ela me encarou com as sobrancelhas franzidas, seu olhar confuso e ainda processando o ambiente ao seu redor. Aos poucos Clara foi percebendo o que eu sabia que ela iria perceber, o desespero e pavor foi se estampando em seu rosto. Ela levantou a coberta e viu o que sentia era real e então olhou para mim.

Rapidamente segurei seu rosto entre as mãos e me inclinei em sua direção.

– Calma, meu amor. Calma. Respira fundo.

– Eu não quero isso, Val. Não quero usar isso!

– Não chora, meu amor – eu pedi com a voz suave, mas por dentro estava desesperada. – Está tudo bem.

Não está tudo bem! Eu não quero usar isso!

Percebendo que Clarice estava prestes a chorar, eu acariciei seu rosto com o polegar tentando fazer com que ela se acalmasse.

– Très bien, três bien, mon bébé. Nós vamos tirar, d’accord?

– Não! Eu tiro!

O seu rosto ficou vermelho como pimentão. Ela estava com vergonha. Será que eu falo que já troquei sua fralda duas vezes essa noite?

– Tudo bem, eu te levo ao banheiro.

Levei Clara ao banheiro e a deixei cuidar de si própria. Enquanto aguardava do lado de fora, meus pais chegaram para nos visitar. Foi somente nesse momento que me dei conta que ainda não tinha contado para ninguém o que aconteceu essa última noite. De certa forma foi bom, meus pais certamente iriam vir até aqui e teria atrapalhado nos meus planos.

– Bom dia, meu amor – meu pai veio me abraçar. – Como você está?

– Bem na medida do possível.

– E a nossa Clara?

Nossa… por que as pessoas ainda continuam dizendo “nossa Clara”? Eu estou me cansando disso! Ela é minha Clara.

– Depois do susto essa madrugada, está melhor.

– O que aconteceu? – Minha mãe perguntou preocupada.

– Ela ficou nervosa e teve outro sangramento nasal.

– Já saíram os resultados?

– Disse a Ju que vão vir hoje.

Sinceramente, eu não sabia se me sentia aliviada ou ansiosa em saber que muito em breve chegaria o diagnóstico de Clara. Eu vou estar ao seu lado independente do que seja, mas não sei até quando meu coração iria aguentar viver com esse medo constante de a perder e eu falecer de uma parada cardíaca.

Com os meus pais aí, Clarice se distraiu e esqueceu da fralda. Eu só espero que essa noite não surte outra vez quando eu tiver que tocar nesse assunto de novo… eu ainda tenho um dia no escritório para pensar e refletir sobre as minhas estratégias.

 Santa Beyoncé, tenha misericórdia de mim…

« C L A R I C E »

Os meus últimos dias foram tão estranhos que por um momento pensei que morri ou estava prestes a morrer. Não era normal e não estava habituada em receber tanta demonstração de afeto e carinho dos outros. Visitas, flores, presentes… eu nunca imaginei que fosse receber tudo isso se ficasse internada no hospital.

Por pouco não fiquei lelé da cuca achando que estava com uma doença gravíssima e todos estavam com dó. Aí eu percebi que, apesar das pessoas estarem genuinamente preocupadas comigo e desejar meu bem, elas só estavam assim por causa da Val. Eles são amigos e família dela e se importam com ela e se eu sou importante para ela, eles se importam comigo também. Ou seja, eu sou sortuda em dobro.

Então era essa era a sensação de ser a mulher do prefeito?

Brincadeiras à parte, a fraqueza que sentia era surreal a ponto de levantar o braço e causar falta de ar. No primeiro dia eu até me forcei ficar acordada para receber as visitas, mas isso só acabou com o que me restou de energia e daí para frente foi só para trás. Dormi tanto que eu mal, mal interagi com o Fernando e o pouco que melhorei recebendo sangue foi por água abaixo nessa madrugada.

No início achei que fosse brincadeira, mas estou começando acreditar que virei vampira.

Assim como ontem, quem me faria companhia era o Fernando. Nós nos dávamos muito bem. Ele era divertido e tínhamos tanta coisa para fazer para passar o tempo. Seu bom humor era contagiante… tão oposto da Margot que é tão séria, apesar de fofa. Será que a Val e eu éramos assim para os outros também? Se bem que, nós duas somos poucas ideias. De modos diferentes, mas poucas ideias.

Pouco depois do almoço, Larissa e Glória vieram me visitar. Ver a minha prima depois de tudo foi uma sensação tão estranha. Nosso abraço veio acompanhado de uma sensação de alívio e liberdade, nós tínhamos nos livrado do inferno e sabíamos disso.

Fernando nos deixou a sós. Não que fosse realmente necessário, mas foi melhor assim. Eu estava me coçando para saber o que aconteceu e o que estava acontecendo enquanto estava aqui.

– Você nos causou um susto e tanto, sabia? – Lari riu entre as lágrimas. – Não suma de novo, por favor.

– Eu não vou. Pode confiar.

– Se você sumir de novo, saiba que quando aparecer quem vai dar sumiço em você sou eu, – Glória disse brava. – Tem noção como ficamos? A Larissa apareceu no meio da madrugada atrás de você e eu nem tinha ideia de onde estava. E depois ela quase foi detida para tentar falar com a sua namorada.

Virei para a Laris curiosa. Ela deu ombros.

– Eles não me deixaram entrar, então quando eu a vi entrar comecei a gritar.

– E a Lúcia? O que aconteceu quando você me deixou fugir? Ela não tentou te matar?

– Ela correu atrás de você e aproveitei a distração para sumir. Eu não era louca de ficar perto para ver.

– E você está morando onde?

– Por enquanto estou com a Glória, espero que não se importe.

Meu deus!

Ouvir a Laris falar do apartamento me bateu um desespero. Embora eu estivesse trabalhando em outro ritmo, minha meta não mudou. Ainda precisava juntar para conseguir dar a entrada e internada no hospital não iria conseguir todo o dinheiro até o prazo que o proprietário me deu.

Eu preciso sair daqui.

– Meu pai me chamou para ir para o Ceará morar com ele, mas me mudar no último semestre da faculdade seria loucura. Eu me ferrei tanto para conseguir entrar na USP para sair assim.

– Você vai para o Ceará?! Você não pode me deixar aqui… é literalmente a minha única família agora.

– Única família, piranha? – Glória respondeu “ofendida”.

– De sangue, eu quis dizer.

– E a senhora acha que não tem sangue meu correndo nessas suas veias? Se esse é o critério, nós somos irmãs já.

– Você doou para mim?

– Eu e meia São Paulo, né? Sua mulher é assustadora, colocou todo mundo para doar sangue por livre e espontânea pressão. Não que eu fosse me recusar a isso, mas que deu cagaço deu.

– Ela só tem cara de má, mas é um doce.

– Uhum… um amor.

– Mas enfim, Laris. Você vai mesmo para o Ceará? Vai me deixar sozinha tendo isso – apontei para Glória, – como família?

– Eu não sei, tudo aconteceu de supetão. Eu não estava pensando em me mudar ainda. Sua namorada me ofereceu um emprego na Visionnare, o salário é bem considerável para ficar, mas ainda não sei se quero ficar tão perto da minha mãe.

Se ter a Lúcia como tia era ruim, imagine como mãe. No fundo eu entendo a minha prima querer ir para longe, mas seria egoísta da minha parte querer que não fosse? Seria legal a ter por perto, ainda mais trabalhando no mesmo lugar. Dificilmente estaríamos de fato trabalhando juntas já que fomos para áreas diferentes da arquitetura, de qualquer forma, estaríamos mais próximas que morando no mesmo terreno.

– Enfim, você trate de melhorar logo.

– Pois é, eu estou com saudades da minha parceira de bar e fofoca.

Sorri sem responder. E quando pensei em algo para responder, um enfermeiro entrou com mais uma bolsa de sangue. Agi com naturalidade, embora estivesse apreensiva. O procedimento em si não doía nada, mas estava com medo. E se eu voltar a sangrar? Ainda não sabia o que estava rolando comigo, só que eu não preciso de um diagnóstico para saber que não estou bem. Eu sinto isso.

As meninas não ficaram muito tempo comigo. Depois que elas foram embora eu acabei dormindo. Minha bateria estava tão boa quanto a de um Iphone. Eu me sentia tão fraca e cansada o tempo todo. A verdade era que eu já me sentia cansada fora do normal há muito tempo, eu só não me atentei a isso antes.

É tão a minha cara morrer quando as coisas finalmente começam a dar certo. Ou alguma coisa muito ruim acontecer e ferrar com tudo. Se for esse o roteiro, é melhor parar por aqui e começar do zero, estou afim de viver um drama não…

Narração Valquíria:

Era pouco mais de três da tarde quando meu pai ligou. Bastou ver seu nome na tela do celular sobre a mesa para meu coração disparar e todos meus músculos se enrijecerem. Parei imediatamente a minha fala no meio da apresentação sem me importar se estava falando com um cliente. Prioridades são prioridades.

– Peço licença aos senhores, – eu pedi interrompendo a mim mesma. – Eu preciso atender essa ligação.

Dei um leve aperto no ombro de Amanda e ela entendeu o recado se colocando de pé para assumir meu lugar. Ela era mais do que capaz de seguir com a reunião.

Saí da sala e ainda no corredor atendi a ligação apreensiva.

– Oi, pai. Tudo bem? Aconteceu alguma coisa?

O resultado dos exames saiu. Os médicos já tem um diagnóstico, mas eu pedi para esperarem por você.

Entendi o recado e no mesmo instante comecei a me mover em direção a minha sala.

Estou a caminho.

Para quem esperava o pior, eu consegui respirar parcialmente aliviada.

Sem pensar muito, peguei minha bolsa e fui embora. Somente no elevador enviei uma mensagem para a minha mãe. Em outros tempos eu me preocuparia com meu trabalho se saísse assim sem mais sem menos e em hipótese alguma deixaria nas mãos de outra pessoa, mas atualmente, a cada dia que passava minha mãe assumia minhas responsabilidades no escritório para me dar a liberdade de agir sem me preocupar com isso.

E claro, enviei uma mensagem para o Bruno também. Se eu pudesse, eu gostaria que estivesse por perto. Ele é o meu médico de confiança e sua reação era necessária para entender a gravidade. 

O hospital era ainda mais rápido para chegar que minha própria casa. Em outras palavras, os médicos e nem meu pai tiveram que esperar muito tempo até que eu chegasse.

Abri a porta do quarto lentamente e vi meu pai sentado no sofá fazendo crochê em paz. O fato de o encontrar assim me deu certo alívio. Se ele consegue se manter tranquilo, isso deve ser um bom sinal… eu espero.

– Ela está dormindo? – Perguntei quase sussurrando.

– Como uma pedra.

Dormir como uma pedra era o normal de Clara, então não me surpreendia em nada. No entanto, eu me preocupava com o seu cansaço. Honestamente, eu me preocupava com qualquer coisa. Acho que nunca me preocupei tanto na vida.

– Ela está bem, minha filha – meu pai reafirmou tentando me tranquilizar.

Eu estava ao lado da cama a olhando de perto. Ainda que dormindo, Clarice conseguia me transmitir a mesma paz e serenidade de sempre em apenas a observar. Sem conseguir conter minhas mãos para mim mesma, toquei seu rosto lhe fazendo um carinho suave com os dedos. Sua reação foi imediata, mexendo-se como quem procurasse prolongar o contato.

Os sinais estavam todos tão claros, como eu demorei tanto para perceber que a minha bebê era justamente isso, um bebê? Parte de mim se sentia culpada por não ter sido capaz de reconhecer suas necessidades logo de início. Será que se o seu lado pequeno se sentisse seguro e acolhido por mim, ela teria me contado tudo sem que eu descobrisse da pior maneira possível? Talvez nada disso teria acontecido.

Talvez não estaríamos aqui.

– Os médicos estão no corredor, – meu pai me chamou.

Eu peguei a mão de Clara e deu um beijo demorado antes de sair do quarto.

Os três médicos que nos aguardavam eu já conhecia. Um deles era o diretor médico de todo o hospital, responsável por todo o quadro médico e de fato um doutor com mestrado e doutorado, cuidando do caso a mando da Juliana. Apesar de todo o seu histórico impressionante e notável conhecimento, senti segura com a chegada do Bruno.

Embora ele estivesse de plantão em outra ala do hospital, Bruno deu o seu jeito de vir. Ele me abraçou rapidamente e sussurrou em meu ouvido que ficaria tudo bem. Eu acreditei.

Segurando a minha mão, Bruno ficou ao meu lado. E sinceramente, eu estava com medo. Meu coração aflito batendo descompassado sem saber qual o ritmo. O nó na garanta.

– Bem, – o dr. Renato, diretor médico, começou enquanto consultava sua prancheta. – Nós recebemos os resultados dos exames mais detalhados essa manhã e em conjunto com as amostras diárias, a suspeita inicial de leucemia foi descartada.

Soltei o ar que prendia em meus pulmões. Saber que não era algo tão grave quanto leucemia me deixou levemente aliviada. Isso era bom, muito bom… ao menos, era o que eu achava. Observei Bruno de soslaio e sua expressão também demonstrava alívio… ufa. Por um segundo me veio a mente “e se fosse algo ainda pior?”

– Clarice tem anemia ferropriva severa, agravada por sangramentos persistentes que levaram a uma queda acentuada nos níveis de hemoglobina.

– Já encontraram a causa dos sangramentos? – Bruno perguntou.

– Ao contrário do que pensávamos incialmente, esses sangramentos não estão associados a uma condição hematológica mais graves, – outro médico respondeu. – Nós não encontramos problemas de coagulação, alterações significativas na estrutura dos vasos nasais ou outras causas físicas que justifiquem o sangramento.

– Então é emocional? – Bruno concluiu.

– O padrão dos episódios sugere um forte componente psicossomático e algumas alterações no hemograma indicam alto nível de stress. Então sim, ao que tudo indica, os sangramentos são de fato emocional.

Juntando todas as peças, uma enorme interrogação se formou em minha testa. – Como é possível a Clarice estar com uma anemia tão severa se estava a pelo menos dois meses se tratando com suplementação de ferro?

Os médicos se entreolharam confusos e incrédulos.

– Ela estava? – Um dos médicos mais novo perguntou e recebeu um olhar repreendedor do dr. Renato.

– Não há nenhum indício de que a Clarice tenha seguido com suplementação de ferro… ao menos não de forma consistente, – dr. Renato acrescentou. – Não é incomum que pacientes com anemia leve ou moderada não percebam a seriedade da condição e podem negligenciar o tratamento. No caso de Clarice, a anemia já era significativa antes dos sangramentos, e sem o ferro adequado, o quadro se agravou até chegar a esse ponto crítico.

Em outras palavras, não estaríamos aqui hoje se essa filha da puta tivesse tomado os remédios que eu dei… putain de merda ! Je ne crois pas une telle merde ! Je ne crois pas ! (Puta merda! Eu não acredito nessa merda! Não acredito!)

Eu não consigo acreditar que essa petite peste conseguiu me enganar por mais de dois meses e não tomou os remédios. Eu. Não. Acredito! Como eu não levantei meu alerta com as vezes que a vi “esquecer”? Puta que pariu, Valkyrie!

Je vais tuer cette petite peste ! (Eu vou matar essa pestinha!)

– E quanto tempo ela terá que ficar aqui, doutor? – Meu pai perguntou.

– Normalmente quadros como esse recebem alta em cerca de quinze a vinte dias. Tudo vai depender da própria Clarice e como vai reagir ao tratamento.

Bruno me lançou um olhar. Eu sei exatamente o que estava pensando e diante um cenário desses, como eu poderia simplesmente ignorar? A Giovana tinha razão; eu estava lidando com uma pequena que não sabia tomar as decisões e atitudes sensatas sozinha. Suas escolhas eventualmente irão nos trazer de volta para esse mesmíssimo lugar.

Essa indisciplina passou dos limites. Todos os limites possíveis… sem condições de deixar essa pequena se cuidar sozinha. Se Clarice precisa de uma mommy, eu serei essa mommy… urgh, não. Mommy não. Maman.

– E então, Bruno. O que você acha? – Meu pai perguntou assim que os outros médicos saíram. – É muito grave? Como vai ser isso?

– Uma anemia no estado que a da Clarice chegou é muito preocupante. Ela definitivamente precisa se tratar, – ele me olhou rapidamente, – e se tratar de verdade. Nada de começar hoje e abandonar amanhã.

– Clarice realmente não tomou os remédios como deveria, filha? Por que? – Dei ombros. O que mais poderia responder?

– O tratamento é lento e demorado, mas reversível – Bruno continuou. – E é bom avisar a ela que enquanto o quadro não se estabilizar, ela não irá sair daqui. Quinze, vinte dias pode facilmente se tornar um mês ou mais. No caso dela já não é mais só sobre tomar ferro. Ela está muito mais perto do outro lado da ponte que ninguém quer que ela cruze.

Ouvir isso me deu um calafrio na espinha. Eu sei que Clarice não está bem, mas pensar que está mais próxima da morte que uma alta causa um incomodo muito grande.

– Mas não vamos ser negativos, apesar dos pesares, o pior não aconteceu. Se está ruim assim, imagine se fosse realmente uma leucemia. No atual estado que a Clara está, se fosse mesmo esse diagnóstico, eu teria entregado para deus. Seria só um milagre.

Eu não quero sequer imaginar como seria um cenário pior do que já estamos. Sem condições de continuar cavando esse poço, eu me recuso ir qualquer lugar mais fundo que esse. Dessa vez Clarice não irá me enganar. E eu vou fazer com esse os níveis de ferro desse sangue subam, nem que eu force um pedaço inteiro de ferro sua goela abaixo.

Agora que estava aqui, eu não voltaria para o trabalho. Tampouco iria para outro lugar que não fosse ao lado da minha pequena.

– Você adora causar um show, não é mesmo ma petite? – Perguntei acariciando o seu cabelo. – Se a sua intenção é testar o meu coração, acho que já podemos parar por aqui.

Suspirei cansada.

Era impossível ficar bem sabendo das inúmeras possibilidades que tivemos para evitar que tudo isso acontecesse. Como não me sentir culpada com essa história? Eu sabia que Clarice era pequena, talvez não com tanta certeza, mas no fundo sabia. Se eu não tivesse me deixado distrair na noite que tentei conversar sobre. Não querer forçar a barra e tocar em um assunto que parecia lhe causar certo incomodo acabou se tornando negligencia.

Mas isso não irá se repetir.

Désolé pour ta maman, ma petite. Je vais me rétracter avec toi. Je promets. (Desculpa a sua maman, minha pequena. Eu vou me retratar com você. Eu prometo)

Narração Clarice:

O sono me pegou de um jeito que eu dormi muito mais que esperava. Quando acordei, eu não precisei ver com meus próprios olhos para saber quem estava comigo. O perfume no ar denunciava e era impossível confundir. Meu amorzinho estava comigo.

– Boa noite, dorminhoca – Val apareceu em meu campo de visão. – Descansou bem?

O sorriso que Val me deu parecia tão frágil quanto eu me sentia. Ela não estava nada bem e eu conseguia ver estampado em seu rosto mesmo que tentava esconder. Seus olhos não mentiam para mim, ela estava chorando e a Val não chora.

– Que horas são?

– Quase oito da noite.

Olhei ao redor e percebi que estávamos sozinhas. Fernando já tinha ido embora e eu nem vi. Pela fresta da cortina notei o céu escuro. Como eu dormi tanto assim?

– Eu dormi demais.

– Você precisava. Você está aqui para se recuperar, descansar faz parte.

O silêncio sobre o que realmente tinha estava começando a incomodar. Por que a Valquíria não me fala nada? Ela sabe, não sabe? Era por isso que estava chorando?

– Eu vou morrer, não vou?

– Quoi?! Non! Mon dieu, Clarice. Non! – Val levou a mão na testa e respirou fundo ao perceber que perdeu sua postura. – Você não vai morrer, não fala besteira. Você vai ficar bem e sair desse lugar.

– Então por que estava chorando?

Val sorriu. Dessa vez o seu sorriso era sincero. Sofrido, mas sincero. – Porque eu amo você, – ela se inclinou para beijar a minha testa. – Você é o amor da minha vida. E mesmo te amando tanto assim, a minha vontade nesse momento é te dar o maior castigo da sua vida para nunca mais se esquecer de obedecer a uma ordem minha.

– O que quer dizer com isso? – Perguntei apreensiva. – O que eu me esqueci?

– Seus remédios, – ela esticou as costas outra vez. – Por que esse tempo todo não tomou os remédios que eu te dei?

 Encolhi os ombros envergonhada. – Como você sabe?

– Como eu sei? Olhe ao seu redor, mon amour. É justamente por isso que estamos aqui, – sua reação me pegou de surpresa. Qualquer outra pessoa em seu lugar teria respondido com grosseria e impaciente… ao menos a minha família seria assim, mas Val estava calma. – Por que não tomou os remédios? Se fosse somente questão de memória, eu poderia te lembrar.

Hesitei em confessar a verdade.

Era difícil acreditar que de fato tudo acabou. Que assim que sair daqui eu não seria obrigada a voltar para aquele inferno. Sempre foi assim… toda as vezes que vinha parar no hospital, sempre me prometiam que as agressões iriam parar, que eu não teria que voltar para a casa do meu pai, tampouco conviver com a minha família. E por fim, acabava exatamente no mesmo lugar cercada por pessoas ainda mais furiosas e contrariadas.

Mon bébé… – Val segurou a minha mão e acariciou o meu rosto. – Você não precisa ter medo. Eu não vou te fazer mal algum. Sem punição e castigos, você tem a minha palavra.

Eu me sentia dividida e com medo. E se a tia Lúcia descobrir que dei com a língua nos dentes? Ela… ela é má.

Eu não sei…

Val ergueu a sobrancelha desconfiada. – Você não sabe porque não tomou o remédio? É essa a sua resposta?

Eu queria dizer sim, mas o olhar decepcionado da Val era ainda pior para lidar que o medo da tia Lúcia.

Medo. Muito medo!

– Clarice, abre os olhos – Val pediu firme. – Olha para mim, – obedeci devagarinho, com medo de que a bruxa malvada estivesse aqui. – Você não precisa ter medo, mon bébé. A maman não vai te punir, ok? Eu só quero saber.

Juntei as sobrancelhas confusa.

– Vem cá. Eu acho que você precisa de um colo.

Fiquei ainda mais confusa. Como assim?

Sem entender nada, observei Val puxar a minha coberta e sem muito esforço me tirar da cama para levar ao sofá. Ela me envolveu em seus braços em um abraço e acariciou os meus cabelos.

– A sua maman está aqui agora, vai ficar tudo bem. A maman vai cuidar de você, d’accord?

– Maman? – Questionei confusa.

– Oui, mon bébé. Desculpa ter demorado tanto para perceber. Eu deveria ter feito isso antes. Você estava esse tempo todo tentando chamar a minha atenção, não é mesmo, meu bebê? Eu estou aqui agora. Eu vou cuidar de você com todo amor e carinho que merece. Eu prometo.

A angústia e o aperto no peito que sentia vez ou outra e eu não conseguia entender, vieram à tona de repente. E a vontade de chorar veio junto. Eu não sabia o que Val estava fazendo comigo, mas suas palavras me causaram algo que não sabia explicar.

– Está tudo bem, mon bébé. Eu estou aqui com você, confia em mim. Não precisa ter medo de escorregar, você não está sozinha. Vem, deixa eu te ajudar.

Val puxou minhas pernas me fazendo deitar ainda mais em seu colo. Arregalei os olhos surpresa ao ver o que estava fazendo em seguida. Meu coração disparou e meu rosto queimou de vergonha. Ela não pretendia me… amamentar… pretendia?

– Eu sei que é o que você quer, mon bébé.

Eu tentei recusar e dizer que não era nada daquilo que estava pensando, mas no momento que ofereceu o peito na minha boca eu não resisti à vontade e aceitei.

De todas as vezes que me peguei imaginando um momento como esse acontecer, não esperava que seria essa a sensação. O colo por si só me fazia sentir tão segura e protegida, e era mais que o suficiente para me convencer a ficar aqui por horas. No entanto, nada se comparava com mamar seu peito.

O toque da sua pele contra o meu rosto fazia uma leve pressão, causando um conforto diferente. Eu quis afundar meu rosto em seu peito para aumentar ainda mais esse contato mesmo que isso significava não respirar. Eu só queria que essa sensação não se acabasse.

Aos poucos fui me entregando a sensação e me deixando levar até que em minha mente não havia mais nada senão o presente momento. Todos os problemas e preocupações ficaram de lado, nada disso importava mais. Agora era somente a Val e eu em nossa própria bolha cheia de carinho, afeto e amor.

Era isso.

Eu achava que os littles no Apex eram loucos pelo leite, hoje descobri que era muito além disso. Era sobre amor, amar e se sentir amado. A Val me amamentava porque me amava e eu tinha esse desejo de ser amamentada por ela – e só por ela – por a amar também.

– Je t’aime, mon bébé (Te amo, meu bebê) – Val acariciou o meu rosto e eu sorri.

Em outra ocasião, eu teria respondido. No entanto, minha boca estava ocupada demais. Então respondi lhe fazendo um carinho de volta mesmo com as mãos tão trêmulas pelo esforço surreal que levantar o braço significava.

Val pegou a minha mão e deu um beijo. Enquanto ela ainda me segurava, não precisava fazer esforço e nem força para manter o braço levantado. Era um gesto simples e até mesmo bobo, mas tinha tanto significado para mim. Eu parei nesse hospital tentando fazer tudo sozinha, quando esse tempo todo eu poderia simplesmente aceitado a ajuda do meu amor. Teria sido tão mais fácil se eu simplesmente a deixasse me segurar como agora.

O medo das pessoas más que me cercavam, me deixou com receio de me abrir totalmente para as pessoas que me amam e realmente só querem meu bem. Talvez fosse por isso que a ideia de me deixar levar era assustadora. Mas eu decidi confiar e deixar que Val assumisse o controle. Um pouco tarde para isso, talvez. Mas antes tarde que mais tarde.

Decidida em confiar, eu fechei os olhos e foquei minha concentração no movimento da sucção, na sensação de ter o peito de Val em minha boca, no calor dos seus braços e o carinho que recebia. Aos poucos me permiti derreter em seus braços e deixar que esse relaxamento dominasse o meu corpo.

Eu não sabia exatamente o que “escorregar” significava, mas eu confiava na Val e sabia que estaria lá para me pegar. E com essa certeza, eu escorreguei para o desconhecido da minha mente.

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