Elora Aneva

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20. Elle sait

« V A L K Y R I E »

Pedir ao meu pai para ir buscar a Clarice foi a última alternativa possível. Eu estava prestes a dar meu sumiço no evento quando chegaram pessoas que minha mãe insistiu em conversar e por fim só consegui fugir para ligar para o Fernando.

Que ele iria aceitar, eu já sabia. Meu pai, um homem daquele tamanho, é um total pau mandado da minha mãe e meu. O problema era as suspeitas que esse pedido levantaria… por um momento até achei que iria passar ilesa, mas essa certeza foi-se embora rápido demais.

– Eu já peguei o seu carro, – meu pai comentou na ligação. – Vocês deveriam arrumar esse negócio de arquitetura mais perto… se eu não estivesse curioso para conhecer a sua amada, eu não iria não.

– Comment ça?!

– Ora, acha que eu sou bobo, Chloée? Você não me engana…, mas não se preocupe. Eu vou trazer o seu amor de volta para São Paulo. Ela é bonita?

– Ela é linda! – O corrigi. – Então, por favor, não a assuste e não acabe com o meu relacionamento.

– Fica tranquila, minha filha. O seu pai vai cuidar.

E era justamente por isso que eu estava nervosa.

Para variar Clarice ainda sequer tinha visualizado minhas mensagens. O jeito era avisar e ver no que vai dar…

– Onde você estava? – Bruno perguntou.

– Eu preciso disso! – Tomei a taça de sua mão e virei o champagne. – Meu pai está indo encontrar com a Clarice, – me justifiquei.

– É gata… boa sorte, vai precisar – ele pegou outras taças com o garçom que passava, – toma mais uma, é por minha conta.

Eu dei um gole generoso no champagne e logo me dei falta de algo importante. – Onde está a minha mãe?

– Acabou de gastar mais uma fortuna em obras de artes e agora está de papo com aquele curador. Se você não parar essa mulher, você vai herdar só peças de artes e uma dívida milionária.

– Eu não vou herdar nada tão cedo, pare de falar asneiras.

Se meu pai estivesse aqui, ele já teria tido dois infartos. Três décadas de casamento não foi o suficiente para ele se acostumar com os gastos da mamãe. Embora não se compare com o estilo de vida do resto da nossa família, ela ainda tem seus momentos que custam alguns milhões em piscar de olhos.

Embora eu estivesse com a leve sensação de que essa fanfarra da minha mãe eventualmente iria cair sobre as minhas costas, eu não iria me mover para interver. Eu não posso lidar com meus dois pais ao mesmo tempo. Por que eles não fizeram mais filhos?! Por que?

« C L A R I C E »

– E então, Clarice… me fale um pouco de você.  – Fernando quebrou o silêncio que se formou entre nós. – Eu estava morrendo de curiosidade para conhecer quem era a moça que roubou o coração da minha filha, – ele me olhou rapidamente com um sorriso empolgado. – Eu já estava ficando preocupado achando que isso nunca fosse acontecer.

– Me conhecer? – Perguntei confusa.

– Alguém roubar o coração da Chloée, – ele me corrigiu. – Eu conheço a minha filha muito bem e já percebi que está realmente muito apaixonada por você, agora só me basta descobrir o porquê.

Senti as minhas bochechas e orelhas queimarem. O pai da Val sabia que ela era apaixonada por mim… isso era uma sensação muito estranha. Era a minha primeira vez interagindo com a família de alguém que estava me relacionando… quer dizer, interagindo com a família que sabe que estou me envolvendo com a pessoa.

– Se eu disser que nem eu sei o porquê também, – confessei. – Talvez até o fim dessa viagem você vai achar a sua filha louca e querer o nosso fim.

Fernando riu. – A Chloée não teve muitos namorados… “oficiais”, mas os poucos que passaram por aqui eu posso dizer uma coisa: homem nenhum no mundo merece uma mulher tão linda quanto a minha filha.

– Ela é linda mesmo, – concordei quase inaudível. 

– Espero que agora seja diferente. Eu já suspeitava que mais cedo ou mais tarde a Chloée iria perceber que joga no outro time e de certa forma, estou contente que tenha sido com você. Tenho uma sensação de que é uma boa pessoa.

– Obrigada, – respondi tímida.

– Agora me conte sobre você! Eu já estou há meses me corroendo de curiosidade e alimentando minha alma fofoqueira com migalhas. Você tem cara de novinha, qual a sua idade?

– Eu tenho 20… quase 21, – acrescentei. Não que faça muita diferença entre 20 e 21, mas 21 eu me sinto mais próxima da Val e pareço menos criança.

Esperava que ele fosse julgar a nossa diferença de idade. Apesar do nosso relacionamento ser totalmente legal, existem pessoas que ainda implicam e vai que a família dela seja esse tipo de pessoas.

– Realmente, tal mãe tal filha… – ele comentou reflexivo.

– A mãe da Val é mais velha que você?

– Quase a mesma diferença que vocês duas, mas esse é um segredo de estado! – Ele aproveitou o semáforo para me olhar sério, como quem tinha algo muito importante a dizer. – Eu estou apostando em você, Clarice. E é por isso que vou te ensinar algo muito importante: nessa família não se fala absolutamente nada sobre idade e envelhecimento se você quiser manter sua paz.

Para Fernando falar com tanta propriedade, significa… e bem, eu não duvido. A Val é neurótica por qualquer coisa, envelhecimento seria só mais um item na lista.

– Pode deixar!

– Boa menina, – ele sorriu. – Siga os meus conselhos e você vai ficar bem e viver bons anos com a minha filha.

Bons anos?! Eu preciso de mais!

– Você tem mais dicas para eu anotar?

Ele riu. – Eu gostei de você, menina. Anote aí, eu vou te ensinar tudo que precisa saber.

O papo com o Fernando fluiu tão bem que parecíamos amigos de longa data. Ele realmente conhecia a Val nos mínimos detalhes, desde a sua preferência de chá para cada humor aos produtos de limpeza da casa. Eu literalmente anotei tudo para não me esquecer, quem sou eu para desperdiçar um conhecimento como esse.

– E como vocês se conheceram?

– Nós nos conhecemos formalmente no escritório, mas eu sou barista no final de semana e calhou que nos encontramos… em uma dessas… festas(?).

Eu que não seria louca de falar do Apex para o meu sogro… imagina.

– Então vocês trabalham no mesmo escritório? – Concordei com a cabeça. – Mas vocês não trabalham juntas, juntas. Trabalham?

– Sim, eu sou estagiária da Val.

– Meu deus… – Fernando pareceu preocupado. – Arriscado, mas… eu não vou contar nada para a Margot, pode deixar.

O encarei em silêncio refletindo sobre seu comentário.

Será que o fato da Val se envolver com uma estagiária poderia lhe causar problemas com a alta cúpula? Eu não tinha pensado nisso… meu deus!

– Aquele infeliz não trabalha lá também?

– Que infeliz?

Era tantos…, mas eu não iria falar isso.

– O falecido… qual nome dele mesmo? Pedro Henrique!

Revirei os olhos ao lembrar do chato topetudo. – Ainda bem que não. Esse chato trabalha em outro escritório.

– Você o conheceu?

– Tive esse desgosto, – revirei o olho outra vez. – Ele insinuou que eu perderia meu interesse na Val por ela ser autista e outras asneiras. É um bobão, idiota e imbecil. O que foi que a Val viu nele?

– Eu me pergunto a mesma coisa. Sempre odiei aquele cabelo, parecia um moleque mal criado e mimado.

– E não é? Horrível.

E pronto… o ódio mútuo por Pedro nos uniu.

Acho que ficamos uns dez minutos falando mal dele e então mudamos o assunto para bebidas alcóolicas. Eu não sou de beber, mas aprendi muita coisa trabalhando nos bares da vida e descobri que os pais da Val moram em um vinhedo, eles plantam uvas e fabricam vinho. Em outras palavras, a minha namorada é quase uma garota do campo e cresceu nas regiões mais remotas de Épernay. Agora estou curiosa para ver suas fotinhas de criança.

Conseguimos chegar no apartamento antes da Val. Realmente, se eu fosse esperar por ela iria estar plantada lá até agora. E por fim eu gostei do Fernando, ele é legal.

– Vou assaltar a geladeira da Chloée, está com fome?

– Estou!

Eu nem estava com tanta fome assim, mas nunca iria recusar a possibilidade de comer comida da minha namorada, mesmo sabendo que mais tarde vai ter mais. Eu amo comer! Comer é bom demais e a comida da Val é melhor ainda… comer a Val também!

Fernando vasculhou a geladeira por um momento. – Como é possível não ter nada pronto para comer nessa casa? Do que a minha filha vive?

– Vinho, queijo, frutas, chá e mais vinho.

– Teve com quem aprender… vai ter que ser frutas. Qual você quer?

– Banana! E morango… e uva… e só… tem mais o que aí? Ainda tem sorvete?

– Sorvete?!

Descobri alguém com o mesmo apetite que o meu. Fernando e eu acabamos com o sorvete que ainda tinha. Ele encheu duas tigelas com um montão para nós dois e aí eu joguei todas as minhas frutas. Ficou uma delícia deliciosa!

– O que vocês dois estão comendo aí? – Val chegou nos pegando de surpresa.

Ela estava linda de morrer com o seu vestido, suas curvas mais evidentes e eu não sabia se olhava para as curvas de baixo ou as de cima. Minha mulher estava linda desse jeito o dia inteiro e eu só estou vendo agora? Como dói! Ah, se meu sogro não estivesse aqui agora…

Val me abraçou praticamente agarrando a minha cabeça e me enchendo de beijinhos. Como eu estava sentada quase fui sufocada pelo seu amor e peitos e eu não estava reclamando, mas ela claramente não estava totalmente sóbria. Não estava bêbada também, apenas feliz e sem filtros. 

– Você coloca filho no mundo, enche de amor e carinho, para depois ser colocado em segundo lugar – Fernando comentou. – E pensar que até uns anos atrás recebia meu abraço primeiro.

Val revirou os olhos rindo e foi abraçar o pai. – Esse drama todo por que não pode esperar um minuto?

– Onde está a sua mãe?

– Admirando os novos bens.

– Ah, meu deus…

– Poderia facilmente ter comprado um iate, mas ela quis quadros, esculturas e um vaso – ela roubou a maçã do Fernando para dar uma mordida. – Desde quando você come frutas?

– Desde quando acabou o sorvete e isso é a única coisa que se tem para comer aqui. Um total absurdo!

– Vocês comeram todo o sorvete?! – Val nos encarou preocupada. – Eu não acredito. Vocês dois não tem limites? E o senhor não deveria estar controlando o açúcar? Deixa a mamãe saber disso.

– Você não deduraria o seu papai, deduraria?

– Sem chantagens emocionais, meu caro. Isso é feio.

Era fofo observar os dois juntos. Mesmo a Val não sendo uma criança, o carinho de Fernando com ela era como se fosse. Ele ficou conosco menos de uma hora e nesse período vi mais demonstração de afeto entre os dois que minha família toda em um ano. Confesso que senti um pouquinho de inveja. Deve ser legal ter pais presentes e amorosos… ou vivos.

Assim que a porta do elevador se fechou com Fernando dentro, Valquíria me agarrou me pegando de surpresa com um beijo intenso cheio de desejo e saudades. Claramente, ela estava se segurando esse tempo todo para me dar um beijo de verdade.

– O que foi isso?

– Saudades, – respondeu. – Você me viciou em você, não tenho outra explicação para o que eu sinto. Agora terá que lidar com as consequências de ter me viciado em você.

– Com muito prazer, – A puxei para mais perto e a beijei outra vez.

Por mim, poderíamos ficar horas ali, mas pelas as minhas pernas… eu precisava parar. Infelizmente, nesse relacionamento para dar certo temos que beijar sentadas ou minhas panturrilhas iriam me matar. Ser baixinha não é fácil e eu fui inventar de namorar uma gigante.

– Eu preciso de um banho, você vem comigo?

– Precisa perguntar?

Normalmente a Val demora para preparar todo o seu ritual sagrado, mas dessa vez ela me levou direto para o banheiro, tirou sua roupa e foi para o chuveiro me puxando junto. Eu não imaginava que ela seria capaz de pular algo tão importante sem surtar só por “saudades”.

A água estava em uma temperatura agradável, nem muito quente e nem muito fria, perfeita para curtir um bainho a dois, mas o mais perfeito era a visão que estava tendo.

– Eu realmente precisava disso, – Val comentou sentindo a água bater sobre seus ombros enquanto curtia de olhos fechados e eu de olhos bem abertos.

– Vira, eu vou te fazer uma massagem – ela fez como pedi e usei seu sabonete em óleo para minhas mãos deslizarem mais facilmente pelos seus ombros. – Como foi o evento?

– Chato. Minha expectativa de vida reduziu três dias depois de hoje.

– Então eu vou ter que dar um jeito para recuperar esses dias.

– Eu sei muito bem como pode fazer isso, – ela se virou de frente para mim me pegando de surpresa.

Por um momento pensei que fosse me agarrar outra vez, mas Val parou no meio do caminho e seu semblante mudou de repente. De um olhar safado para uma mistura de preocupação e raiva.

– O que significa isso, Clarice? – Ela pegou o meu braço, o mesmo que Diana deixou marcado. – Eu tenho certeza absoluta que não tinha essa marca quando saiu de casa. Quem fez isso?

– Ah, isso…

O meu sogro me aconselhou a ser honesta com a Val. Ainda disse que ela é capaz de perdoar um erro, mas não a omissão. Pensando nisso, eu decidi jogar a real para ela. Não era como se eu tivesse feito algo de errado também, então por que me preocupar?

– A minha “ex” estava no curso e me segurou pelo braço para me forçar a falar com ela.

– Segurou? Você chama isso de segurar? – Val estava revoltada. – Eu vou dar na cara dessa mulher. Como ela ousou? Quem é essa puta?

Eu me segurei para não ri. Eu adoro como a Val sai do salto muito facilmente e sempre tem a violência como opção. Acho que nenhum outro estagiário do escritório seria capaz de imaginar uma cena dessas.

– Está rindo do que, Clarice?

– Nada, eu só te acho fofa – a abracei. – Não se preocupe comigo. Acho que ela não vai ter coragem de mexer comigo depois de conhecer o seu pai.

– Pois ela deveria ter medo de mim. Meu pai não teria coragem de encostar um dedo nela, não posso dizer o mesmo sobre mim.

– Eu não duvido disso.

Nós terminamos o banho e a Val insistiu em passar um óleo no meu braço. Não tinha machucado e honestamente, qualquer toque um pouco mais forte já me deixa hematomas pelo corpo, então isso não era nada demais. Agora vai explicar isso para a minha namorada…

Tal qual duas idosas, nós vestimos nossos pijamas e fomos para cama prontas para dormir mesmo sendo relativamente cedo. Ficamos conversando, trocando carícias e “assistindo” alguma novela qualquer. Por mais que o sexo com a Val fosse o melhor que já tive, momento como esse tinha um espaço diferente no meu coração.

Por apenas apreciar sua presença, sem fazer nada e sem obrigação de nada, era tão bom. Havia uma paz diferente, uma paz que só existe quando estamos juntas. Talvez fosse a combinação do calor dos seus braços, o seu cheirinho único e que tanto amo, o seu toque suave em minha pele me acariciando, o som das batidas do seu coração, tudo isso me trazia uma paz e uma sensação rara no peito. Eu trocaria qualquer coisa no mundo para poder ficar assim com ela.

– Eu acho que eu amo você.

Deixei as palavras escaparem dos meus lábios sem pensar muito sobre. Se era muito cedo para falar isso, eu não sei, mas era o que eu sentia. Não sei até onde vamos durar e muito menos o que o futuro nos espera, no entanto, o que temos agora é único e especial. Então sim, eu amo a Valquíria, mais que eu amo comida.

– Na verdade, eu tenho certeza – completei. – Eu amo você… e eu não estou falando isso porque estou pegando no seu peito.

E sim, eu estava casualmente com a mão dentro da camisola da Val. Foi instintivo. Como deitar a cabeça em seu peitoral e ignorar o que está na minha frente? E bem, ela não reclamou então estava liberado.

– Por que isso soa tão Clarice? – Val balançou a cabeça rindo, – Eu amo você também.

Eu não sei o que esperava ouvir da Valquíria, mas por algum motivo saber que ela me amava também me pegou surpresa de uma forma até inesperada. Era estranho saber que os nossos sentimentos eram recíprocos.

Por fim eu nem sabia porque tanta surpresa em a ouvir dizer que também me amava. Ela literalmente demonstra ter algum sentimento por mim desde o primeiro momento. A certeza disso só me causou um calorzinho no coração e umas lágrimas rebeldes no olho.

– Você está chorando? – Val perguntou preocupada.

– Talvez.

– Por que? – Ela me afastou dela para me olhar.

– Porque você me ama.

– Você não sabia? – Val limpou minhas lágrimas com o polegar. – Eu acho que já te amei desde que te vi a primeira vez. Isso explicaria muito bem o fato de você não ter saído da minha mente desde então, – ela beijou meus lábios suavemente. – Não chore, ma petite – recebi alguns beijinhos do rosto que me fizeram praticamente derreter com o calorzinho que senti aqui dentro.

– O que significa “ma petite”?

– Minha pequena. Tu es toute mignonne, toute petite, ça donne envie de te mordre – os beijinhos viraram mordidas leves.

– O que você disse?

Você é toda fofinha, toda pequena, dá vontade de morder – traduziu.

– Eu não sou isso.

Val riu e me abraçou. – Oui, eu que sou.

Ficamos tanto tempo abraçadas que dormimos assim. Vai ser triste dormir na minha cama sozinha amanhã… Valquíria está me deixando muito má acostumada, isso será um grande problema.

Eu preciso me mudar para finalmente poder dormir onde quiser, quando quiser e com quem quiser sem ninguém me encher o saco.

« V A L K Y R I E »

O meu bom humor estava estampado em meu rosto. Ser irresponsável foi a melhor decisão que poderia ter tomado hoje. Ao invés de ir trabalhar pela manhã, fiquei em casa com a Clara fazendo amor enquanto o caos se alastrava pelo escritório. E nem mesmo o caos foi capaz de me incomodar, eu seguia ótima e pleníssima.

– Eu cobrei mais uma vez um posicionamento dos engenheiros sobre os laudos do terreno em Dubai e ainda não tive nenhuma resposta. A reunião com o Sheik é essa semana.

– Então remarca, fazer o que. E quem submeteu meu projeto ao traste? Eu disse que não queria fazer nada com ele.

– O Alfredo não aprovou a quebra de contrato. Disse que falta pouco tempo para a renovação e o pedido não é um consenso.

Em outra ocasião eu iria estar furiosa e me arrepender da minha decisão de ser “normal” dentro da empresa. Eu poderia simplesmente falar “quem manda nessa merda sou eu e você vai fazer o que estou mandando”, mas a Valkyrie do passado decidiu abrir mão dos privilégios de ser uma Touchon ao mudar para o Brasil… ai, ai… eu que lute.

– Cobra a engenharia mais uma vez e coloca em cópia todo mundo, Jean-Luc, Margot, Alfredo e a Giovanna. Eu vou pedir a Gio para tentar usar isso para quebrar o contrato sem ônus. Joga a culpa toda para o lado de lá, eu não vou me estressar com isso.

– Tudo bem.

– Era só isso?

– Sim.

– Então está tudo resolvido. Ah… Le, envia do meu e-mail.

Hoje ninguém vai estragar o meu dia. Nem o falecido Pedro Henrique.

Ele pode ter atrasado na entrega do material, mas para me ligar foi no minuto seguinte. E pensar que eu ficava ansiosa e preocupada toda vez que ele me ligava. Nunca era uma coisa boa. Suas ligações eram sempre problemas ou palavras para me deixar na merda.

– Seja breve, eu não tenho tempo para você – atendi “calorosa”.

– Era a minha atenção que você queria com aquele e-mail, você conseguiu. O que diabos pensa que está fazendo? Por que envolveu essa gente toda? Quer me foder?

– Se te foder fosse a minha intenção, com certeza seria ainda pior. Ao invés de me ligar deveria estar fazendo o seu trabalho, não acha?

– Até quando irá continuar com o seu joguinho? Eu estou perdendo a minha paciência com você. Quando se desiludir com a sua aventurinha e se lembrar que eu sou o único que vai aceitar você sendo como é, eu não vou te aceitar. Ao menos não tão fácil.

– Você deveria estar preocupado em até quando terá acesso aos meus bens, – respondi calma. – Eu fui boazinha com você até agora, mas quem está começando a perder a paciência sou eu.

– Para quem tem o rabo preso, você está muito confortável, não acha? Quero ver continuar pensando assim quando seus pais souberem a verdade sobre você. 

Eu ri um pouco. – Você está atrasado uns dez anos pelo menos…

– E o seu namorico, será que vão feliz em saber que a filha deles é uma sapatão?

– Estivemos tanto tempo juntos e até hoje você não entendeu que o problema sempre foi você? Meus pais adoram a Clarice. Desista do seu joguinho. Seja esperto e não me enche o saco. O único que sairá perdendo nessa história é você.  Vai precisar muito mais que isso para me atingir.

– Você me paga, Valquíria.

– Já acabou? Eu tenho mais o que fazer.

Confesso que dei muito espaço para o Pedro Henrique sentir que tem algum poder sobre mim, mas já passou da hora de o colocar em seu devido lugar. Seria muito engraçado se o expulsasse do meu apartamento e dar de presente para a Clarice. Ou o carro… ele ama aquele carro…

Enfim, deixarei isso para a Valkyrie do futuro, a de agora tem outras prioridades.

“Você tem planos para essa noite?” mandei uma mensagem para a minha pessoa favorita.

“Não se enjoou de mim ainda?” Clara respondeu no mesmo instante.

“Nem um pouquinho…”

A partir de quando é aceitável morar junto? Preciso da opinião do Bruno…

Como eu esperava, o e-mail iria dar o que falar, mas não esperava que fosse tanto. Pedro se fodeu pelo atraso, Alfredo por ter se recusado a quebrar o contrato, e eu por ser eu.

No mesmo dia, próximo ao fim do expediente, minha mãe veio a minha sala falar sobre o tal e-mail. Pelo o que ouvi da Letícia, rolou uma reunião – a qual eu não fui convocada, graças a deus – e a “mijada” aconteceu.

– Eu decidi que vou ser a engenheira responsável dessa obra, – minha mãe comentou séria e eu quis morrer.

Isso vai ser um desastre!

– Por que? Você nem trabalha mais com isso há tantos anos, por que voltar agora?

Eu queria dizer: você enlouqueceu, mamãe! Pelo amor de deus, não inventa moda agora.

– Consultei os advogados e eu posso assumir o projeto sem violar o contrato.

– Mas isso é um conflito de interesse e violação da cláusula de exclusividade.

– Valkyrie, minha filha, você realmente achou que eu deixaria você se casar com alguém sem futuro? – A encarei confusa. Como o assunto se tornou sobre o meu quase-casamento?  – O Pedro era ninguém e diferente do seu pai que se destacava por ser o melhor, ele não iria chegar a lugar algum sozinho. Quando vi que estavam relacionando sério, eu não tive outra escolha senão tomar uma atitude a respeito.

Eu estava perplexa com o que ouvia. A principal discussão entre a minha mãe e eu era justamente a sua mania de “mexer os pauzinhos” ao meu favor. Por mais que sua intenção fosse boa e quisesse facilitar o caminho para mim, eu não queria isso. Eu não queria vencer uma competição porque a minha mãe comprou os juízes e sim porque eu fui a melhor entre todos e mereci vencer.

Tudo isso só serviu para me deixar insegura. Ao fim de uma competição eu nunca sabia se foi mérito meu ou o dinheiro que me deu a medalha ou o troféu. Ou se a vaga na escola foi comprada ou eu que passei no teste. Se os meus amigos eram mesmo meus amigos ou estavam ali porque recebiam algo da minha mãe para eu não ser sozinha.

– Eu não comprei o Pedro, se é o que está pensando. Quando vocês completaram um ano de relacionamento, eu o ofereci um emprego e indiquei para alguns clientes. Ele pode ser um engenheiro comum, mas foi um bom gestor e soube usar as ferramentas que eu emprestei. Agora, a ideia de criar essa parceria para o ajudar foi sua. Nunca foi a minha intenção envolver as duas empresas.

– Foi por que pensei que ele tinha começado do zero sozinho, eu não fazia ideia que estava o ajudando… você tem alguma parte das ações?

– Todas elas. A empresa é minha. Era para ser sua, mas os meus advogados aconselharam a não fazer isso e acabar perdendo tudo ou uma parte em uma possível separação… eu sempre soube que não dariam certo, mas você foi teimosa.

Aquele pilantra nunca me falou nada disso…

– Você não está chateada comigo, está? Eu fiz isso pelo o seu bem. Sabe como são seus tios e primos, iriam usar o fato de se relacionar com um fracassado para tentar te colocar para baixo.

A minha mãe era um pouco dura nas palavras e julgamento, mas nesse assunto eu concordava.

– Eu sei…

Minha mãe sempre tentou me proteger e evitar que chegasse aos meus ouvidos os comentários maldosos, mas nem sempre pôde evitar. No entanto, não eram as piadas com o fato de eu ser autista que me machucavam e sim as piadas relacionadas ao meu pai. Embora não fossem racistas e o meu pai ser negro fosse totalmente indiferente para a minha família, o fato de ele ser brasileiro… isso aí não passava por despercebido. Minha avó tentou de tudo para impedir o casamento, mas eu já estava vindo para o mundo e seria ainda pior, então deu o no que deu.

Hoje em dia, minhas tias que riam da minha mãe ou dizia que ela era louca, morrem de inveja porque meu pai é o marido mais fofo e romântico e envelheceu como vinho, enquanto os franceses delas…

Talvez a Clarice não tenha tanto problema quanto o meu pai. Ela parece mais francesa que eu, não que isso faça muita diferença hoje em dia ou que eu me importasse.

Nesse caso em específico, – dei uma ênfase, – não vejo muito problema no que você fez, mas quando for fazer algo que interfira na minha vida, eu prefiro que me comunique antes ao invés de fazer pelas as minhas costas… o papai sabia?

– Em partes. Seu pai iria dar com a língua entre os dentes se soubesse dos detalhes.

– Isso é verdade.

Coitado do meu pai, ele não resiste a um olhar pidão e faz qualquer coisa que pedimos. Ele é um bobão de coração mole… céus, eu preciso me preparar… ele com certeza irá falar para a mamãe, mais cedo ou mais tarde.

Eu ainda não sabia o que iria fazer. Talvez devesse fazer um jantar. Comida ajuda a reduzir o clima tenso. O que será que a Clara iria gostar? Preciso organizar isso para ainda essa semana!

Minha mãe saiu e eu voltei a trabalhar ao mesmo tempo que pensava sobre esse tal jantar. Acho que nunca me senti tão tensa na minha vida ao apresentar alguém para os meus pais.

– Toc, toc – a voz vinda da porta da minha sala chamou a minha atenção. Era Clarice com o seu olhar sapeca. – Estava te esperando, mas como não apareceu, vim te buscar. Vamos embora.

Olhei para o relógio e levei um susto. Há dois minutos conferi a hora e eram 20min antes. Como o tempo voou e eu não vi?

Eu nem discuti quanto a isso, apenas salvei os meus arquivos e desliguei o computador. Em outros tempos eu ficaria fazendo hora extra até tarde da noite, mas agora essas mesmas horas são preciosas demais para mim.

– Você tem planos para essa semana? – Perguntei aleatoriamente no caminho para a minha casa. Eu moro bem perto do escritório, mas em horário de pico acabava quase tudo parado e tínhamos bastante tempo para conversar até chegarmos ao destino final.

– Fora as minhas obrigações universitárias, eu tenho Apex no sábado de tarde. Por que? Está afim de fazer alguma coisa?

– Bem, você conheceu o meu pai. Agora precisa “conhecer” a minha mãe e pensei fazer um jantar essa semana. O que acha?

Clarice fez uma careta preocupada. – Eu acho desesperador, mas eu topo. Seu pai é legal… sua mãe também deve ser… quando vai ser o jantar?

– O que acha da sexta-feira?

– Beleza… não espera, essa sexta… – Clara olhou algo no celular rapidamente, – essa sexta é aniversário da minha tia, eu preciso estar em casa. Pode ser na quinta?

Tudo que eu entendi foi: – Você não vai dormir comigo na sexta-feira?!

– Mas vou dormir na quinta (?) – ela sorriu amarelo. – E sábado… talvez domingo. Segunda também?

– E hoje?

Vai que cola. Não custava tentar.

– Não, eu nem trouxe roupas.

– Você já tem roupas suas lá em casa. Toda vez você leva mais um pouquinho e deixa lá. Para que precisa de mais? Nem é como se fosse usar mesmo.

– É que eu vou levar tudo para a Glória, mas toda vez que eu vou para sua casa você me prende lá.

– Sim e vou te prender hoje de novo… aliás, por que você precisa levar para a Glória?

– Nós vamos dividir um apartamento. Sem condições de continuar morando com o meu pai ou perto da minha família. Então estou levando minhas coisas aos poucos para não ter um trabalhão depois. Mas acho que já levei tudo que realmente importa.

A encarei totalmente incrédula. – E você decidiu ir morar com a sua amiga ao invés de vir morar comigo?

– Eu também preciso ter o meu próprio espaço.

– O que mais tem no meu apartamento é espaço.

Clarice fez um carinho em meu cabelo e se inclinou em minha direção para beijar meu rosto. – Estou falando sério, bobinha. Pense pelo lado positivo, quando eu estiver morando com a Glória eu posso ir para a sua casa sempre que eu quiser sem ninguém encher o meu saco.

Mas não seria mais prático morar na minha casa?! Será que sou eu que estou apressada demais? Droga, eu ainda não falei com o Bruno.

Essa coisa da Clara vir para minha casa, ficar algumas horas e ir embora estava acabando comigo. Eu não queria ter que me despedir todas as noites e dormir sozinha. E hoje o tempo parece que voou ainda mais rápido, nós mal tivemos um tempo juntas e pronto, estava na hora de ir embora. 

Mon Dieu! O que eu me tornei?! Odeio pessoas pegajosas, como virei uma?

Levei Clarice para casa relutante, por mim ela não iria, mas infelizmente eu não tinha autoridade alguma para mandar que ficasse. Está tudo errado! Era para ela fazer o que eu mando e não o contrário.

Eu voltei para a minha casa revoltada e sozinha. Não me contive e tive que bater na porta do Bruno.

– Bicha, você já viu que horas são? – Bruno abriu a porta do seu apartamento com um olhar de sono.

Eu precisava falar o que estava sentindo agora ou iria surtar durante a noite, então ignorei que era quase meia noite. 

– Bruno, eu me tornei o que eu mais odiava.

– Crente?

– Não. A segunda coisa que eu mais odiava: pegajosa.

Bruno fez uma careta. – Você bateu na minha porta essa hora para falar da sua garota? Olha, Valquíria, eu sei que sapatão é emocionada, mas tudo tem limites.

– É muito cedo para morar juntas? – Ignorei o que ele estava falando e fui direto ao ponto.

– Para pessoas normais, talvez…, mas sapatão vive no tempo de cachorro, as coisas são mais rápidas mesmo. Se você está com essa ideia, acho melhor colocar o pezinho no freio. Você precisa entender que antes de se descobrir bi ou lésbica, você é chata. Chata para um caralho. Vai saber lidar com alguém invadindo o seu espaço? Você namorou sei lá quantos anos com o cara que iria casar e surtava em um final de semana juntos. Vai sobreviver com alguém enfurnada na sua casa?

– Se esse alguém for a Clarice…, eu a amo.

Bruno me encarou em silêncio por um tempo e abriu ainda mais a porta do apartamento. – Entra aí, nós precisamos conversar melhor sobre isso.

Como Bruno estava trabalhando em dois hospitais, eu quase não o via mais. Seus horários eram muito loucos e com isso ele estava um tanto desatualizado sobre o meu relacionamento com Clarice. Ou seja, nós passamos a madrugada conversando sobre tudo o que aconteceu até hoje e como eu estava muito fodida nas mãos de uma garota de 20 anos.

Qual rumo a conversa levou, eu não me lembro mais. Em algum momento nós acabamos dormindo e quando acordei eu estava no sofá agarrada ao Bruno que também dormia. Dessa vez – e somente dessa vez, – eu estava aliviada que Clarice não estava por perto para ver essa cena. Imagine o que poderia pensar ao me ver dormindo ao lado de um homem de robe e cueca?

Rapidamente me levantei, Bruno estava completamente apagado e nem se mexeu. Seu sono pós plantão era algo bizarro de tão pesado. Meu corpo inteiro estava dolorido por dormir com uma pedra de músculos. Eu definitivamente prefiro dividir a cama – ou sofá – com a minha pequena que é pequena e macia. Aí, saudades da Clara.

Eu estava indignada com o fato da Clara ir se mudar com a amiga e sem sequer conversar comigo antes. Isso só mostra que ela nem ao menos cogitou a possibilidade de vir morar comigo. O que há de errado com o meu apartamento? Ou a minha companhia? Mas enfim… Bruno me fez perceber que no fim não fará muita diferença. Ela morando com a amiga terá maior liberdade para vir passar a noite comigo quando quiser.

Minha manhã se resumiu a reuniões chatas, trabalhos mais chatos ainda e esperar pela tarde. Eu estava em minha sala lidando com as minhas obrigações e ao mesmo tempo tentando alongar meus músculos doloridos quando levei um pequeno susto.

– O que aconteceu que está toda dura?

Não vi o momento que Clarice entrou, essa garota era muito sorrateira.

– Eu dormi com o Bruno, foi péssimo… – comentei alongando o pescoço e demorei alguns segundos para entender a possível gafe. – Não aconteceu nada entre nós, não pense besteira! Eu dormi de literalmente dormir no mesmo espaço.

– Por que eu pensaria besteira? – Clara sentou na ponta da minha mesa. Era a única pessoa que tinha a audácia para tal e não tinha a cabeça cortada para fora. – O Bruno é tão gay que eu acho que ele iria vomitar se tivesse que acontecer algo entre vocês. Ou você o comeria com um cintaralho.

– Que imagem perturbadora, Clarice – balancei a cabeça tentando afastar qualquer imagem da minha mente. – Eu jamais faria isso… ao menos não com o Bruno. Já com você…

Clarice ficou vermelha e isso me fez sorri. Ela fica tão fofa com vergonha, eu não me canso disso.

– Enfim, embora eu goste muito de vir te encher o saco. Eu não vim aqui à toa – ela me deu a pasta que tinha com ela. – Eu finalmente aprendi a fazer esse cálculo chato… agora, por favor, me deixa voltar ao meu antigo trabalho.

– Como você aprendeu?

– Segredo de estado.

– Nesse caso, pedido indeferido. Você vai continuar fazendo os cálculos até que eu veja que está segura o suficiente.

– Você é maldosa.

– Você achou mesmo que iria se safar com um cálculo certo? – Balancei a cabeça rindo.

– Não custava tentar. Eu…

Clarice foi interrompida pelo toque na porta, era a minha mãe. Minha mãe nos mesmo m² que Clara automaticamente me deixava nervosa e tensa.

– Valkyrie, está ocupada? – Ela lançou um olhar curioso para Clara.

– Eu já estava de saída, – ela rapidamente disse e tentou pegar a pasta de mim outra vez, mas eu a impedir.

– Eu ainda quero dar uma olhada nos cálculos, – sorri.

Ela deu ombros. – Sim, senhora. Excuse moi (licença) – ela disse a minha mãe antes de sair.

Minha mãe a observou sair e fechou a porta antes de se aproximar da minha mesa. – Vocês já se conheciam? Digo, fora do escritório. Ela me parece familiar.

– Ela só é loira de olhos claros, mãe. Não há nada familiar.

– Mas vocês se dão muito bem.

– Eu sou bem próxima do meu time.

– Sei… nós precisamos conversar sobre o hotel em Dubai, – ela mudou de assunto.

– Vou chamar o Theo e a Ba.

Liguei para os meninos se juntarem a nós.

Essa tarde vai ser mais longa que eu esperava…

Narração Clarice:

Hoje algo muito estranho me aconteceu.

Eu estava esperando o elevador enquanto lia um livro que peguei emprestada na biblioteca da faculdade. Eu estava falhando miseravelmente em aprender como fazer o cálculo corretamente e por mais que Barbara – e a minha professora – tentasse me explicar, eu seguia falhando. Será que esse é o meu atestado de burra? E isso por que eu escolhi arquitetura achando que não iria sofrer com exatas e veja só…

– Esse livro é bom, mas não irá aprender nada apenas lendo.

Meu livro quase foi parar no chão com o susto que eu levei. Será que assustar os outros é mania de francês?

Os elevadores chegaram todos juntos e acabei ficando sozinha com a Margot. Deve ser um carma, não é possível.

– O que está tentando entender?

– Momento fletor, – respondi envergonhada.

– Esse é fácil, – ela sorriu. – Eu vou te ensinar, você vai aprender rapidinho.

Nós chegamos no nosso andar, Margot saiu na frente e eu logo atrás.  Nossa altura nem era tão diferente assim, mas sua presença me fazia sentir uma anã.

– Eu vou te esperar aqui, – Margot parou na porta de uma das salas de reunião. – Traga o material que precisa fazer o cálculo.

Eu era a única no corredor, não dava para ser um engano. – Tá bom.

Normalmente, a primeira coisa que faço é ir ver a Val, mas agora estava com medo de demorar um minuto sequer. Apenas larguei minhas coisas, bati meu ponto e voltei para a sala de reunião com a minha pilha de cálculos para fazer.

– Vem, sente-se aqui. Eu quero ver como faz.

Se fazer meus cálculos sozinha era difícil, sob o olhar julgador de Margot foi ainda pior. Ao final, pensei que ela fosse me xingar ou chamar de burra.

– Você foi bem, – ela sorriu. – Sua lógica está correta, mas existe outra forma mais fácil de fazer. Eu vou te ensinar. 

Margot me explicou tudo passo a passo com a paciência e calma que eu não esperava que ela fosse ter. Fizemos dois cálculos juntas e o terceiro eu fiz corretamente sem precisar de ajuda.

– Eu consegui, – eu disse empolgada e logo me dei conta do vexame e me contive.

– Très bien, bon travail ! (Muito bem, bom trabalho). Eu disse que era muito mais fácil assim. Você ainda aprendeu mais rápido que a minha filha e eu achava que não conhecia alguém tão inteligente quanto ela… agora guarde esse segredo. Não vá espalhar essa técnica por aí. 

– Sim, senhora. Pode deixar. É nosso segredo de estado!

Eu fiquei tão orgulhosa do meu feito que logo fui mostrar para a Val. Ainda não consegui me livrar desse trabalho chato, mas conseguir fazer era meio caminho andado.

Depois do expediente nós tínhamos combinado de sair. Eu comentei que iria comprar algo para vestir no jantar de quinta-feira e ela decidiu que viria comigo. Sinceramente não sabia o que deveria usar nessa ocasião. Seria um almoço casual ou algo formal? Eu sinceramente não sei o que imaginar dos pais da Val. O Fernando foi me buscar de bermuda e chinelo, mas e a mãe dela?

– O que vai usar no jantar? – Perguntei.

– Não sei, talvez um vestido.

– Formal?

Val me encarou com a sobrancelha erguida. – Por que eu faria isso? Só vamos estar meus pais, você e eu. Só não vou usar minhas roupas de ficar em casa porque o jantar vai sei na casa dos meus pais.

– Eu não sei o que devo vestir.

– Vista como sempre se vestiu. Não se preocupe muito com isso. Fora o trabalho ou ocasiões especiais, meus pais se vestem como qualquer outra pessoa. Minha mãe quase sempre está com a roupa suja de terra. Ela adora o jardim dela e o tempo todo está nele. Meu pai depois que atingiu certa idade assumiu o estilo Zeca Pagodinho e está sempre de chinelo e bermuda, isso quando não parece um turista no Caribe.

Se eu fosse usar a Val como referência, os pais dela não faziam sentido algum na minha cabeça. Ela consegue estar sempre elegantíssima, mas consegue sair de roupas sociais e séria para reveladoras e sensuais em um piscar de olhos. Um dia parece uma sapatão caminhoneira dona de a toda frota, no outro é uma vadia rica e às vezes tem seu momento bela, recatada e do lar.

Eu tanto rodei pelo shopping que comprei uma calça jeans, camisa social branca e um suéter preto para usar por cima e um all star novo porque os meus estão tão encardidos que nem lavando com soda caustica iria limpar. A Val comprou um vestido da categoria “bela, recatada e do lar”, mas que em seu corpo fica indecente de tão gata.

Inocente, achei que iriamos acabar por ali. No entanto, Val ficou curiosa para me ver em um vestido que julgou ser a minha cara – e era – e fui obrigada a experimentar. Nessa brincadeira de “experimenta esse vestido”, “olha a camisa daquele desenho que você gosta”, “mon dieu, roupa que combinam”, acabei levando algumas peças que não estava planejando. Poderia ser pior, mas o fato “tecido” me ajudou, afinal, nem tudo passava pelo teste de qualidade da Val e acabou que muita coisa não levamos.

– O que está afim de comer? – Val perguntou assim que fechamos o porta-malas do seu carro. – Quer parar em algum lugar?

Estávamos no shopping e tinha a praça de alimentação com várias opções, mas bastou chegar lá para perceber que não daria certo para nós. A acústica era péssima, os ruídos de centenas de pessoas conversando ao mesmo tempo, barulho de todos os restaurantes funcionando simultaneamente, criança gritando e chorando. Eu não iria tortura a minha namorada a esse ponto.

– Onde você quiser! – A abracei e Val se inclinou para baixo para me beijar. – Podemos comer em casa também, o que acha?

– Não estou afim de cozinhar.

– Pizza?

– Podemos tentar.

Ela me beijou os lábios e então a minha testa. Ficamos um tempinho abraçadas antes de tomar coragem de nos separar para entrar no carro, queria seguir viagem sentada no seu colo só para continuar abraçadas.

– Se importa em dirigir? – Val perguntou. – Minha cabeça ainda está – ela fez um gesto com a mão. Não sei exatamente o que queria dizer, mas tinha entendido. A minha bichinha precisava de um descanso para a mente.

– Tá bem.

Era melhor comermos em casa mesmo. A minha mulher precisava de paz e descanso, um banho quentinho e uma massagem para relaxar… acho que vou acabar dormindo fora essa noite.

« R É C I T D E M A R G O T »

Quando eu primeiro pisei no Brasil e vi a minha filha, eu tive a certeza: Valkyrie Chloée estava apaixonada. O brilho no olhar, o sorriso bobo toda vez que pegava o celular, sua constante pressa para ir embora. Eu sou mãe, eu conheço a minha filha. Sei reconhecer quando está diferente e ela me parecia mais feliz e radiante. Vim preocupada com a sua saúde e bem-estar para descobrir que estava muito melhor que poderia imaginar.

Assim como soube que a Chloée estava apaixonada, tive minha certeza de que guardaria a identidade do seu affair sob sete chaves. Os filhos crescem e suas manias continuam as mesmas. Ela mantém segredo e eu finjo que não sei.

Ainda no segundo dia dessa viagem eu já sabia que a pessoa de seu interesse era a tal estagiária. Clarice, o seu nome. Confesso que no início apenas suspeitava, mas à medida que os dias passavam comecei a me questionar se elas realmente estavam tentando esconder.  Ou a minha filha pensa que sou tola.

– Fernando, você sabe que a sua filha está namorando uma moça? – O perguntei preparando a minha cama para deitar. – A estagiária dela. Então, por favor, quando ela chegar acompanhada de uma moça amanhã, não vá se assustar ou fazer cara de espanto. Eu não quero que ela saia daqui pensando que somos homofóbicos.

– Namorando a estagiária? A nossa filha? De onde tirou essa informação?

O observei desconfiada. – Você sabia, – concluí. – Quando foi que descobriu?

Era natural a Chloée contar seus segredos ao pai primeiro. Fernando abriu mão da carreira para cuidar da filha e esteve mais próximo dela a vida toda. Isso não me surpreende. No entanto, o meu marido esconder um segredo de mim? Isso sim era uma traição.

– Esse final de semana. Eu busquei a Clarice no interior – ele se jogou na cama para se aproximar de mim. – As duas são uma gracinha juntas, amor. Você irá se encantar.

– Eu sei, eu vejo isso todos os dias. Elas não são nada discretas. 

– Mas elas são fofas. Eu acho que as duas vão se dar bem… sabe qual será o menu de amanhã? Ainda dá tempo de mudar algo?

– O que quer mudar?

– Clarice comentou que a fruta favorita dela é banana. Uma banoffe talvez? E sorvete, ela gosta muito de sorvete.

O acariciei o rosto. – Isso é por você ou pela Clarice? – Ele sorriu. – Eu poderia conversar com a nossa filha sobre, mas ela ainda acha que não sei. Seria um tanto suspeito, não acha? De qualquer forma, verei o que posso fazer a respeito. Podemos comer a banoffe outro dia.

– Você é a melhor, meu amor.

– Eu sei.

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