Elora Aneva

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19. Il sait

« C L A R I C E »

Quando meu despertador tocou de manhã cedo, eu quis me jogar da janela. Acordar cedo em pleno domingo era difícil, mas acordar a essa hora quando se estava dormindo agarradinha com a sua mulher era triste demais. Por um momento quis desistir, tacar tudo para o ar e ficar aqui mesmo… e honestamente, se a própria Val não tivesse compromisso, eu ficaria mesmo.

– Bonjour, mon amour – Val me cumprimentou ao me ver de olhos abertos. – Dormiu bem?

Diferente de mim que acorda como se tivesse passado por um campo de batalha durante a noite, Val acordava como quem esteve em seu sono de beleza. Era pouco mais de 6h da manhã de domingo e ela estava sorrindo para mim. Seus cabelos estavam praticamente penteados, enquanto o meu estava todo amassado e para cima. Eu não sei… será que ela levantou mais cedo e foi dar um up na cara e voltou para cama como se nada tivesse acontecido?

– Eu queria dormir mais, – choraminguei e voltei a abraçar.

– Eu também queria que pudesse ficar mais, mas você precisa ir para o seu último dia de curso. Você precisa disso para receber sua certificação e esse curso de extensão será importante para você no futuro.

– Eu já trabalho com você, eu não posso só dizer que fui sua estagiária e usar o seu nome no meu currículo para sempre?

– Nada disso, mocinha – ela bateu o dedo no meu nariz. – Meu nome não será relevante para sempre e você não pode se apegar a isso. Vá estudar.

– Disse a pessoa que me pede para faltar as aulas da faculdade frequentemente… – Val fez uma careta nada contente. – Refutada.

– Eu vou te mostrar o “refutada”.

– Está ameaçando me punir?

– Eu não faço ameaças, Clarice.

E soou como uma ameaça outra vez.

Sinceramente não sei que rumo iremos levar no futuro. Parte de mim tem curiosidade em saber em como seria e ao mesmo tempo certo receio. A Valquíria não tem muito a vibe de uma submissa e eu não estou afim de ser mandada por ninguém.

A contra gosto fui obrigada a levantar. Tomei um banho meio frio para acordar e me juntei a Val para o café da manhã. Após isso, o inusitado aconteceu; Val que não sai do seu apartamento sem estar preparada para todas ocasiões, me levou de pijama até a estação da Cidade Universitária onde Diego iria me buscar.

– Seu amigo disse se está vindo? – Val perguntou ao estacionar na rua.

– Sim, ele disse que vai passar aqui em cinco minutinhos. Pode ir indo, eu espero ali.

– Como se eu fosse te largar sozinha na rua, – ela bocejou. – Eu vou esperar com você.

A observei curiosa. – Você ainda não “acordou”, não é mesmo?

– Se tivesse acordado você não iria me ver de camisola e robe na rua. O dia só começa depois do yoga.

– Tenta dormir quando voltar, – acariciei seu cabelo e lhe deu um beijo no rosto. – Você também tem dormido o tanto quanto eu e precisa descansar.

Meu celular começou a tocar, era Diego avisando que já estava chegando para esperar na entrada da estação.

– Me liga quando puder, – Val pediu. – Eu vou estar no evento, mas ainda estarei com meu celular e morrendo de saudades… e tédio.

– Eu vou sim, – lhe dei um beijo rápido nos lábios. – Até mais tarde!

Saí bem no timing de chegar no ponto combinado sem que Diego me visse saindo do carro da Val.

– Partiu Franco da Rocha? – Diego perguntou.

– Não tem outra opção, – respondi sem esconder meu sono.

Diego riu. – É… a gente deu mancada em não alugar nada por lá esse final de semana. Fica de lição para próxima?

– Próxima?! Pode me incluir fora dessa… eu que não volto a fazer curso na ponte que partiu. Tá rindo do que, bobão?

– Você é uma figura, Clarita.

Seguimos nosso caminho em busca da Marina e companhia. Por ser domingo encontramos menos carros nas ruas que ontem e parecia que estávamos mais rápidos. Eu estava viajando em meus pensamentos ao som das músicas aleatórias da rádio quando Diego quebrou o silêncio outra vez.

– Então, Clara… eu preciso te avisar uma coisa, – ele começou meio hesitante.

Me virei para ele, curiosa com o que viria a seguir.

– Eu meio que descolei uns esquemas com a moça do meu grupo e eu não vou voltar direto para SP depois do curso, – ele continuou, – Sabe como é… surgiu a oportunidade… a gente tem que aproveitar… aí eu não vou poder te dar carona de volta. Tudo bem para você?

O anúncio me pegou de surpresa.

Por mais que mudar os planos agora seria uma dor de cabeça, o que mais eu poderia dizer? Não era como se eu estivesse pagando pela carona, ele sequer cobrou a gasolina. Mas ele bem que poderia ter avisado antes de sair de casa, né? Eu teria vindo com o carro da Val ou ter enchido o saco do meu pai para me levar.

– Tudo bem, sem problemas. Eu vou ver o que posso fazer… e também tem o trem. É tranquilo.

– Eu posso tentar descolar outra carona para você com a galera do curso. Tem um monte de gente vindo pra SP depois. Vai dar boa.

Eu vou mesmo pegar carona com um completo desconhecido para virar camisa de saudade, pode deixar.

Conhecendo a minha namorada, tenho certeza absoluta que se ela estivesse livre iria até Franco da Rocha me buscar, isso se já não estivesse fazendo isso agora. Mas ela tem seu evento de “networking” para participar. Então a opção que me restava era meu pai… que apesar de ser um ser desprezível na maior parte do tempo, vez ou outra fazia o mínimo para deus ver.

Assim que chegamos lá, a primeira coisa que fiz foi ligar para o genitor e o preparar para a viagem de mais tarde.

– Isso é hora de ligar, Clarice? = Luís atendeu amoroso como sempre. – O que que foi? O que você quer?

– Pode vir me buscar hoje a tarde? Minha carona furou comigo.

– Buscar? Você não estava fora no seu curso lá.

– Sim… pode vir me buscar?

Luís bufou irritado, mas cedeu. – Tá… é onde esse lugar? Manda o endereço. Que horas acaba aí?

– Às 17h. Eu vou te mandar o endereço, mas por favor, não bebe!

– Tá, tá, eu não vou. Agora vê se me deixa dormir.

Parte de mim queria socar o Diego por me colocar nessa situação, mas é a vida. Eu agora vou ter que ir para casa essa noite, que ódio!

Queria falar com a Val o que aconteceu, mas deu o horário para entrar e não tive tempo para a ligação. “Ah, Clara, por que você não manda uma mensagem?” porque é a Valquíria. Ela vai ler e ligar no segundo seguinte para saber o porquê dessa mudança repentina. Para que alimentar as paranoias e surtos dela com algo tão pequeno? De surtos hoje já basta o meu.

Passei a minha manhã preocupada, tentei me concentrar o máximo que pude nos momentos vagos da minha mente entre os pensamentos de “como voltaria para casa” e “que saudades da minha mulher”. Se esse boçal tivesse avisado antes… por que homem deixa tudo para a última hora? Ai que ódio!

No almoço, eu me sentei novamente com os “amigos para sempre” e fiquei ouvindo os assuntos mais chatos possíveis enquanto comia. Aparentemente, o rolo que o Diego tinha conseguido com a moça era uma festa que todos iriam. Se eles de fato teriam algo ou era alucinações da cabeça dele, eu não sei. Normalmente não dá nem para ser educada com homens que eles já acham que estamos dando em cima deles.

Confesso que estava totalmente alheia a conversa e não via a hora para acabar logo para fazer o que me interessava. Tínhamos acabado de pagar a conta e estávamos saindo da lanchonete quando quase demos de cara com a Diana que estava entrando.

– Professora Diana, estava pensando em você agora mesmo, acredita?! – Diego comentou com certa animação.

Diana sorriu confusa e surpresa, ela nunca saia dessa falsa máscara de simpática e gentil.

– É… bom… obrigada? Eu não sei como reagir a isso… o que estava pensando?

– Então, ontem você falou que iria oferecer carona a Clara. Hoje você pode?

Olhei para Diego totalmente incrédula. Como é que é filho da xuxa?!

Diana me encarou surpresa e sorriu. – Claro, posso sim. Será um prazer.

– Mas não será necessário, – acrescentei. – Eu já tenho uma carona, – me virei para Diego, – você deveria me perguntarantes… enfim, eu preciso me retirar. Licença.

Que imbecil, idiota! Idiota! Idiota! Idiota!

Saí de perto brava e furiosa. Por que raios ele fez isso? Por que parece que as pessoas não me ouvem? Eu tenho cara de pobre coitada e incapaz? Eu consigo outra carona sozinha, eu não preciso dele perguntando a qualquer um se pode me levar.

Precisei ligar para o meu pai duas vezes para ser atendida.

– Já ‘tá me infernizando de novo, menina? O que que é?

A voz arrastada e a música alta no fundo era o suficiente para entender. Meu pai fez justamente o que pedi para não fazer.

– Pai, você bebeu?

– Não! Eu não… bebi água.

Revirei os olhos. – Olha, não precisa vir me buscar não. Eu não vou ter coragem de entrar num carro com você no volante nesse estado.

– E você vai voltar pra casa como?

– Vou ver com uma amiga se ela pode me levar.

– Tá. Agora vê se para de encher.

E dito isso ele desligou na minha cara… não era como se eu tivesse algo mais para falar, então apenas relevei e liguei para a única pessoa capaz de me trazer paz no momento.

– Val? – Ela me atendeu, eu conseguia ouvir vozes do outro lado, mas ela mesma não disse nada. – Val, você está aí?

– Desculpa… eu estava caminhando para um lugar mais calmo. Está tudo bem? Você está com uma voz estranha.

– Eu preciso da sua ajuda.

Eu queria chorar. Não sei o que a Val tem que me faz querer jogar em seus braços e pedir colo, colocar para fora tudo que sentia e no momento eu só estava brava e frustrada com toda a situação.

– Oui, oui… eu te ajudo. O que aconteceu? – Ela perguntou preocupada.

Confesso que me senti levemente tocada pelo fato dela ter aceitado me ajudar antes mesmo de saber o que queria dela.

– Você pode me buscar? Eu perdi a minha carona de volta e não tenho coragem de voltar com um completo estranho.

– Eu… uh… eu não sei se consigo sair daqui mais cedo… não se preocupe, okay? Eu vou dar meu jeito.

– Se não conseguir, está tudo bem. Eu posso tentar voltar de trem.

– E chegar aqui só amanhã… – eu consegui ouvir os olhos de Val revirando daqui.

– Eu ainda posso pedir a minha tia, mas se alguém da minha família vier eu não vou conseguir passar a noite com você…

– Eu vou te trazer de volta para São Paulo, nem que eu vá te buscar de helicóptero.

Ri de nervoso. Ela não faria isso… faria?

– Tudo isso só para passar a noite comigo? – Sorri, embora ela não pudesse ver.

– Eu faria tudo isso e muito mais só para te ver por alguns minutos.

Senti minhas bochechas queimarem. Eu achava que eu era atacante do time, mas às vezes a Val me pega de surpresa e me deixa sem jeito.

– Me conta como estão as coisas por aí, – mudei de assunto. – Você vai sobreviver até o final?

– Eu sobrevivo qualquer coisa com uma taça de champagne na mão… agora que essa vai ter que ser a minha última, talvez sofra danos irreversíveis ouvindo essas pessoas. O Bruno disse que está vindo com a mãe dele. Se ele chegar, ficará melhor.

– É tão chato assim?

– Você não faz ideia. São um bando de desocupados cheios de dinheiros que fingem se importar com a população mais carente, mas que no fundo estão aqui disputando quem é mais rico comprando peças de artes por preços absurdos.

– Comprou alguma coisa?

– Até que as peças de hoje são bem bonitas, até dei alguns lances, mas se eu me interessar por algo, todo mundo se interessa também. Aí eu desisto e deixo que briguem… confesso que até já dei uns lances sem interesse só para ver o povo gastar dinheiro em algo feio… agora a Margot… pelo o tanto de dinheiro que gastou hoje, estou começando a acreditar que ela sempre soube que essas peças iriam ser leiloadas e é por isso que está aqui no Brasil – ela comentou desconfiada, levantando suas teorias da conspiração. Acho que era a segunda ou terceira teoria que criava sobre a vinda da Margot e companhia ao Brasil.

– Acha mesmo que ela seria capaz disso?

– Você não conhece a minha… a Margot. Ela é capaz de tudo. Tudo.

– Como se você pudesse falar alguma coisa, não é exatamente o que faz quando quer algo?

– Refutada, – ela riu. – Eu estava com saudades de ouvir a sua voz, mas eu preciso voltar para o evento antes que percebam o meu sumiço. Não se preocupe com a sua volta, eu vou cuidar disso.

– Eu confio em você… até daqui a pouco então.

Se fosse qualquer outra pessoa falando isso, eu iria continuar preocupada de qualquer jeito, mas como era a Valquíria, isso surtiu efeito. Ansiosa, o resto da minha tarde quase se arrastou enquanto contava os segundos para encontrar a minha namorada. Ficou ainda pior ouvindo a voz chata da Diana ministrando sua aula.

Apesar do conteúdo ser bom e até interessante, eu já não via a hora de acabar tudo. Confesso que sai quase às pressas na expectativa de encontrar com a Val no estacionamento, no entanto, não a encontrei por lá e estava prestes a conferir suas últimas mensagens quando ouvi a voz desagradavelmente familiar me chamar.

– Clarice, espera! – Diana me chamou. – Vamos conversar.

– Eu já disse que não quero conversar com você, Diana!

Diana se apressou para parar bem na minha frente me forçando a esperar. – Por favor, não vá ainda. Eu não aguento mais essa distância entre nós. Eu errei, eu sei que errei, mas se você me der uma chance, eu posso te provar que mudei.

– Não estou interessada, – dei um passo para o lado e ela fez o mesmo.

– Eu me divorciei.

A informação me pegou de surpresa. Não que isso fosse mudar alguma coisa na minha vida, eu só não esperava ouvir que aconteceu.

– Quer dizer, estamos no processo. Ainda temos algumas audiências, mas o mais importante eu já fiz. Eu não moro mais com o meu ex. Os caminhos estão finalmente abertos para nós…

– Pera lá, – a interrompi. – Eu não sei de onde tirou isso, mas eu não disse que estava disponível não. Tá maluca?! Aliás, sai de perto… eu não quero complicações para o meu lado. Adeus.

Eu aproveitei o estado de choque dela para sair de perto, mas ela reagiu rápido e segurou meu braço, me forçando virar para trás outra vez.

– Diana, me solta – disse firme.

Eu poderia gritar, mas não sabia exatamente onde a Val estava e se ela chegasse aqui nesse cenário não iria pensar duas vezes antes de voar na cara da Diana para me defender. Sexy, mas não. O vexame seria ainda maior.

– Você está mentindo, não está? Quem você colocou em meu lugar?

Colocou em seu lugar? E desde quando ela tem lugar aqui?!

Tentei soltar meu braço novamente, a raiva subindo com força. Essa mulher sumiu por mais de um ano e tem a pachorra de voltar achando que tem alguma importância na minha vida? Eu hein…

– Eu não vou ter essa conversa com você, Diana. Me solta agora! – Ela não cedeu e eu tentei me soltar a força. – Me solta!

– Solta ela.

A voz grave e profunda veio de traz de mim. Me encolhi me sentindo pequena perto da presença do homem que se aproximou. Ao perceber como Diana olhou para cima, me dei conta de que não era uma sensação, eu realmente era pequena perto dele.

– Eu disse: solta ela – ele repetiu firme, sem mudar seu tom de voz. Olhei para cima e me deparei com uma muralha ainda maior que o Otávio. – Está tudo bem, Clarice?

Clarice? Clarice sou eu. Mas eu não conheço esse cara.

– Eu vim te buscar, – ele acrescentou, provavelmente ao ver minha cara de confusão. – A Valquíria me pediu para vir, ela ainda não conseguiu deixar o leilão.

Olhei para o lado e vi o Mercedes da Val. Mesmo não conhecendo esse cara, para ele ter acesso ao carro dela e saber exatamente onde estava e que eu estava a esperando… não deve ser sequestro, deve?

– Clarice, você conhece esse homem? – Diana perguntou desconfiada. – Você não precisa ir com ele se não se sentir confortável. Eu posso te levar para casa. Você estará segura comigo.

– O que quer dizer com isso, senhora? – O homem perguntou sem perder o seu tom calmo. – Há um minuto, você estava a importunando. Lhe garanto que a Clarice estará mais segura com o próprio sogro que com você que não respeita a sua vontade ou espaço pessoal.

Sogro?

Sogro?!

SOGRO!

Esse cara é o pai da Valquíria?!

Diana não disse nada. E como diria? Quem teria coragem de bater boca com um cara desse tamanho? Agora dava para entender de onde a Val puxou sua altura…, meu deus!

– É melhor deixar a Clarice em paz ou nós vamos entrar com uma ordem de restrição e te obrigar a isso, – ele a olhou sério. – Tenha um bom resto de domingo… vamos embora, Clarice.

Eu estava em estado de choque para dizer algo, apenas acompanhei o homem ao meu lado. Ele não tinha absolutamente nada a ver com a Val, se me dissesse que fosse o pai do Bruno seria mais fácil de acreditar. O “meu sogro” em questão era alto, quase 2m de altura construído em músculos, mas diferente do Otávio que parecia body builder todo definido, ele parecia mais “natural” e por algum motivo me passava a vibe do Tony, o tigre do cereal: fortão e fofo.

Com um pai desses, eu também iria viver sem medo de nada. Quem iria ter coragem de fazer qualquer coisa contra a filha desse cara?

– Você está bem? Ela te machucou? – O meu sogro perguntou ao abrir a porta do carro para mim. Era realmente o carro da Val, tinha até o mesmo cheiro. Eu não estava sendo sequestrada. – Seu braço está vermelho.

– Não, eu estou bem. Eu fico marcada com qualquer coisa mesmo.

– Eu posso ver? – Concordei com a cabeça. – Licença.

Se me lembro bem, Val comentou que o nome de seu pai era Fernando. Eu não imaginava como iria conhecer o tão comentado Fernando, mas nunca iria imaginar que seria assim. Eu não sabia se ficava impactada com o tamanho dele e da sua mão ou com a delicadeza que pegou em meu braço para ver a marca. Não ficaria surpresa se ele pudesse esmagar meus ossos com uma única mão.

– É meio óbvio que isso é uma marca de algum puxão. Sabe que a Chloée irá fazer um interrogatório sobre isso, não sabe?

– Acha que ela vai desconfiar de você? Eu posso falar para ela… – Perguntei genuinamente preocupada e Fernando riu.

– Ela me conhece melhor que isso. Coloque o seu cinto, mocinha – pediu calmo.

Ele fechou a porta delicadamente e deu a volta para entrar pelo lado do motorista. Aproveitei esse momento para ver meu celular rapidamente e principalmente para xingar a Val. Como ela manda o meu sogro sem me avisar?! Ela é louca?! Pior que é… que ódio.

“Eu não consegui sair daqui… meu pai vai te buscar.”

“Ele não sabe, então está tudo bem?!”

“O Bruno está aqui, eu não sabia quem mais poderia mandar e não iria contratar um desconhecido.”

“É impossível não reconhecer o Fernando. Vou mandar uma foto.”

A última mensagem, porém, chegou bem depois das outras. Curta, direta, mas preocupante.

Ele sabe…” e uma sequência de figurinha de gatos desesperados.

Como vou brigar com o meu amorzinho se ela própria estava surtando e me faz rir com figurinhas que não combinam nada com a personalidade dela. Agora restou para eu lidar com esse caos e torcer para não surtar… pelo o que a Val fala, ele não deve ser uma pessoa ruim. Pense pelo lado positivo, Clarice: é o pai dela e não o seu.

Ai, ai… o jeito é seguir viagem e torcer para não falar asneiras nessas quase duas horas de estrada.

É cada uma que a dona Valquíria me mete… é brincadeira, viu. 

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